sexta-feira, 9 de outubro de 2015

NO MEIO DA PONTE OU DE UM PERCURSO?



Numa coisa estou inteiramente de acordo com Cavaco: a situação política portuguesa está difícil, muito difícil mesmo. No meio de alguns posicionamentos polemicamente sensatos (vejam-se ilustrativamente acima os do “Observador”, do costista Porfírio Silva, de Pedro Santos Guerreiro ou de Vital Moreira), que não necessariamente concordáveis, a parafernália de declarações condicionadoras e comentários desencontrados chegou a pontos de uma inconsequência quase inaudível. De idiotices, fingimentos, ameaças, medos e chantagens há de todos os feitios e para todos os gostos...

Em termos factuais propriamente ditos, fica-nos destes primeiros dias pós-eleitorais o momento histórico acima retratado e que deve ser posto incontestavelmente a crédito de António Costa: a entrada de uma delegação do PS na mítica Soeiro Pereira Gomes para negociações eventualmente conducentes a um governo com apoio parlamentar maioritário à esquerda. Mas o caráter histórico do momento não é apenas simbólico, antes provem sobretudo do desbloqueamento que assim se começa a produzir no quadro das opções políticas em Portugal, estando eu até convencido de que dele poderá advir um importante contributo para que resultem afastados potenciais riscos antidemocráticos que eram visualizáveis no horizonte de um futuro não muito distante.

Não, não estou a pretender defender tal opção por parte do PS. Tão-só porque a bola ainda está no campo da coligação de direita que obteve mais votos do que qualquer outra força política, mas seguramente também porque não estou de posse de todos os elementos necessários a um julgamento em consciência e com integral conhecimento de causa. De uma coisa já a maioria dos portugueses se pode gabar, assim se sentindo a mesma parcialmente vingada das maldades que o anterior governo lhe infligiu: o discurso de muitos dos principais arautos da coligação mudou da noite para o dia (António Vitorino sugeria há dias a Portas que talvez lhe ficasse bem pedir desculpa de algumas barbaridades que se entreteve a produzir contra Costa) e não são poucos os talibãs que já não disfarçam a sua incomodidade e vomitam incontidamente os argumentos mais indefensáveis (veja-se a “obscenidade política” mencionada por Pires, para não dar injustificado relevo às garotices reacionárias de Nuno Melo).

Dito isto, e já não será pouco nesta fase, direi ainda que se fosse obrigado a arriscar ainda acabaria por apostar em que a conjunção de circunstâncias em presença (um forte peso dissuasor vindo do entorno europeu e dos mercados, um PS dividido e cheio de personagens acobardadas pelos interesses e impróprias para consumo, tentações de radicalismo a que o PCP e o Bloco não resistam) levará a que Passos e Portas venham a ser governo por mais alguns meses. E se vai ser divertido ouvi-los a desdizerem-se repetidamente, desta vez quanto ao caráter não tão portentoso da obra que levaram a cabo nestes quatro anos, vai ser tudo menos isso (divertido) voltar a ver o País a sofrer na pele as consequências do seu serviçal dogmatismo e do demissionismo subserviente com que modestamente ajudam a alimentar esta desgraçada Europa que nos rege...

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