(O comportamento da barra azul escuro mostra que os rendimentos médios dos 27 estão mais próximos entre si e o da barra laranja mostra que a desigualdade no interior de cada paíes aumentou)
(É domingo de Páscoa e o compasso, velha tradição que se vai transformando em função do empenho e resistência de alguns leigos, hoje um conjunto de raparigas de sorriso aberto, já por cá passou na casa de Gaia, com o número de habitações de portão fechado cada vez mais elevado. Está um dia esplendoroso, de temperatura amena. Ontem, o jardim de Soares dos Reis estava com uma animação fora do comum, refletindo já claramente a interculturalidade de uma sociedade com mais imigração, mostrando que as palavras escritas por Pedro Góis, hoje no Público, estão certas. Sem a imigração as nossas sociedades seriam um corpo morto, sem vida e animação. Mas esta modorra climática coloca-me as pilhas em baixo, projeta-me num “far niente” do qual tenho dificuldade em sair e, neste caso, é o blogue que paga. Além disso, não é só a modorra climática que se instala, existe também uma modorra temática, tão desinteressante é a política interna e tão provocadora de azedume e impotência é a política internacional. Já há demasiados dias afastado do blogue, fui salvo nesta manhã de Páscoa pelo gongue de um artigo de Branko Milanovic, o senhor Desigualdade na economia aplicada, que me fez despertar desta letargia e colocar-me empenhado diante do ecrã vazio do portátil. O tema é a convergência de rendimentos na União Europeia a 27, tratando estes países entre 1993 e 2023 como se eles tivessem sempre feito parte da União, o que sabemos não é verdade, mas que não perturba as conclusões a que podemos chegar.)
Milanovic utiliza a excelente base de dados cuja fonte é dada pelos representativos inquéritos às famílias, devidamente harmonizados pelo Luxemburg Income Study no qual o autor sérvio trabalha. Para alguns países com insuficiência desse tipo de inquéritos, MIlanocic recorre à Poverty and Income Platform do banco Mundial. Os dados integram sempre o rendimento disponível depois de impostos e o rendimento per capita médio é obtido através da divisão do rendimento da família dividido pelo número de membros, sendo depois ajustado pelas diferenças pelas diferenças de níveis de preços, ou seja, à paridade de poder de compra, os chamados dólares internacionais à PPC.
Considerando o conjunto dos 27 países como um só (a União Europeia) é possível concluir que o coeficiente global de GINI para o conjunto da União desceu de 0,415 para 0,35 entre 1993 e 2023. Por outras palavras, a desigualdade inter-países na União diminuiu e eis aqui uma palavra de esperança para a política de coesão apresentar alguma coisa em seu favor, tão pressionada ela está como sabemos e que nos faz antever grandes dificuldades para a sua afirmação no próximo período de programação. As garras dos seus adversários estão afiadas e prontas para atacar, como sabemos.
O que tem acontecido, e Milanovic designa-o pelo conceito 2 de desigualdade, é que os rendimentos médios de cada um dos países tem vindo a aproximar-se. Ou, nas palavras do próprio Milanovic, o rendimento médio nos pa+ises mais pobres como a Roménia ou a Bulgária estão agora mais próximos do rendimento médio dos paíeses mais ricos como a Suécia ou os Países Baixos.
Mas o curioso é que se estivermos atentos à evolução da desigualdade no interior de cada um dos 27 é possível concluir que ela aumentou. Assim, se é verdade que a desigualdade entre a União Europeia e os EUA está a regredir, contrariando o discurso basofeiro de Trump e seus apaniguados e acontecendo com melhores condiçºões de vida e de proteção social, o que não despiciendo, isso acontece porque os rendimentos médios dos 27 estão a aproximar-se, embora em cada um dos desses 27 países a desigualdade tem aumentado. A menor desigualdade em realção aos EUA mantém-se, segundo Milanovic, mesmo que ajustando os dados americanos pelas diferenças de desenvolvimento e de preços entre os estados americanos.
Esta evidência pode explicar muita coisa, sobretudo a perceção dos europeus de que, embora mais iguais do ponto de vista do rendimento médio depois de impostos, a desigualdade interna tem aumentado. O contentamento europeu é apagado pelo descontentamento interno.
Quer isto significar que a glorificação das políticas de coesão tem os seus limites a partir destes dados. Se é um facto que a aproximação dos rendimentos médios dos 27 em parte se deve também às políticas de coesão, os números sugerem que as políticas macroeconómicas da União e dos países têm contribuído para agravar a desigualdade interna.
O que me parece um dado de grande relevância política e ao qual a chamada coesão europeia não pode ficar indiferente.







