Mais de cinquenta anos depois, os americanos decidem voltar à Lua. O que o seu presidente anuncia com uma pompa que lhe não é habitual e para a qual tem escasso jeito. Como quer que seja, o mundo assistiu a quatro astronautas (incluindo uma mulher) sendo lançados no espaço em busca de algo indeterminado aos olhos do cidadão comum, ademais num tempo em que as diabruras terrenas parecem indiciar um desajuste humanitário fundamental. A imagem de Vadot vem, por isso, a talho de foice: em 1972, outro presidente mal-amado, Richard Nixon, defrontava-se com uma guerra indesejável (Vietname), uma marcante impopularidade e um escândalo nunca visto (Watergate), tendo as coisas acabado em desgraça e renúncia (perante o risco certo de impeachment) para o seu lado – e que magnífico seria se as coincidências factuais (Irão, impopularidade e caso Epstein) levassem a que o atual titular fosse de algum modo obrigado a sair de cena para gozo da sua fortuna tão corruptamente multiplicada no seu primeiro ano de mandato, de uns dias terminais com a sua Melania em Mar-a-Lago ou – melhor ainda! – para cumprimento de uma merecida pena ordenada por uma justiça a funcionar num país que fosse capaz de recuperar os checks and balances que ameaçadoramente vão sendo eliminados às mãos da clique inimaginável (vejam-se, reproduzidas do "The Guardian", as caricaturas do secretário da Guerra, Pete Kegseth, e do nacionalismo evangélico a que dá voz) que se apoderou dos destinos dos EUA e da sua tão inesperadamente pouco sólida democracia.
sábado, 4 de abril de 2026
sexta-feira, 3 de abril de 2026
PEDRO2+MANUEL&ANTÓNIO
A pequenina e politiqueira gestão do País por parte de Montenegro roça o chocante. Não, não falo especialmente da ridícula celebração dos dois anos de governação do espinhense, rodeado por sorridentes figuras que rapidamente foram dadas por falecidas em termos políticos (como Margarida Blasco ou Pedro Reis) e por ex-membros do governo que já asseguraram algum direito de cidadania própria e podiam desempenhar um papel útil em termos de aconselhamento anti ridículo (como Pedro Duarte), falo preferencialmente de um primeiro-ministro tão hábil no verbo e na tática aproximativa ao Chega quanto totalmente tolhido na ação reformista e no medo passista.
Por estes dias, foram muitos os que sobre esta matéria opinaram em termos convergentes. Gente tão diferente como Pedro Norton ou Pedro Adão e Silva ou como Manuel Carvalho ou António Barreto, só para referir as crónicas do “Público”. O primeiro a sublinhar “a derrota das esperanças plausíveis”, o segundo a avisar que “pela boca morre o peixe e Montenegro”, o terceiro a anunciar a chegada da “hora da verdade dois anos depois” e o último a elaborar sobre “a pesada mão invisível”.
Escolho breves excertos marcantes de uns e outros:
- Norton: “Cavaco não vai mais longe, mas eu posso ir. A cada dia que passa, o centro, único território possível (pelas razões que ficaram expressas) para fazer assentar uma agenda reformista, restaurar o direito à esperança e, consequentemente, fazer a defesa da democracia liberal, torna-se mais exíguo. O insuportável equilibrismo de Luís Montenegro, a sua incapacidade, aparentemente mais ditada por um pavor atávico do regresso de Passos do que por qualquer outra convicção profunda, em lançar pontes ao centro está a acelerar o esgotamento do seu calendário político. Igualmente grave, está a deixar o PS engavetado entre a humilhante vontade de Carneiro em corresponder a um apelo que não chega e os jovens turcos que, à sua esquerda, querem o regresso das radicalizações e dos frentismos. O país político caminha a passos largos para a polarização definitiva. A janela de oportunidade fecha-se. O país adia-se. As esperanças definham. Já faltou mais para ser tarde de mais.”
- Adão: “A melhor forma de avaliar um governo é aplicando-lhe os critérios que definiu para si próprio. Luís Montenegro e os que o acompanharam na construção de uma alternativa não foram tímidos nas metas para as contas públicas e a economia, assim como nos objetivos sociais e nas orientações para a governação. Dois anos passados, vale a pena confrontar o que foi dito com o que aconteceu. (...) Durante a campanha eleitoral, o agora primeiro-ministro clarificou a sua posição em relação à direita populista. Ao contrário do seu antecessor no partido, com ele no poder, teríamos um ‘não é não ao Chega’. Entretanto, Ventura tornou-se o parceiro preferencial da governação, precisamente nas áreas mais expostas à agenda populista: da nacionalidade à imigração e agora até ao chão comum constitucional.”
- Carvalho: “Já não é precisa uma prova laboratorial para se perceber que, se o primeiro Governo de Luís Montenegro, eleito em Março de 2024, patinou, o que tomou posse em Junho de 2025 está a derrapar. Pode-se acreditar que as razões desse deslize estão nas opções conscientes de Luís Montenegro: na sua deriva ideológica que o aproxima mais da agenda radical da direita do que do centro onde sempre se formularam os grandes compromissos da democracia; ou na sua aposta em matérias que fermentam a polarização em detrimento das reformas possíveis no atual contexto político. A opção por um governo pendular, uma nova "geringonça" dependente de equilíbrios precários com os dois maiores blocos da oposição, funciona como amparo do programa do Chega, não como força motriz para qualquer projeto de futuro. (...) Dois anos depois de Montenegro subir ao poder, está, portanto, na hora de lhe perguntar (e aos muitos ministros moderados do seu Governo) se acredita que esta forma manhosa de iludir a sua letargia com propostas do ideário securitário e excludente da direita radical augura algo de bom para o PSD. E para o país? Passado este tempo, há uma série de evidências incontestáveis de que, assim, não vamos a lado nenhum.”
- Barreto: “O Governo do PSD não se decide. Quer sol e chuva. Governar ora com o Chega, ora com o PS, ora com ninguém, à espera de drama que o favoreça. Procura voluptuosamente o ponto de crise, a rotura que lhe permita ser derrubado culpando os outros. Esta não é uma maneira de servir o país.”
E insisto em citar Manuel Carvalho, em dois parágrafos rigorosamente indesmentíveis. Primeiro: “Reformar de mão dada com o Chega é uma missão impossível, porque, como lembrou Cavaco Silva, este é um partido “destituído de credibilidade política”. Manter a estratégia pendular que dá à extrema-direita o poder de intervir na decisão sobre liberdades individuais ou regras de imigração e nacionalidade cria uma identidade tóxica que torna mais difícil atrair o PS para as reformas no trabalho, na administração pública ou na justiça. Com ou sem resposta às cartas de José Luís Carneiro, o Governo afunda-se no buraco que ele próprio está a cavar. Isola-se em má companhia. Não se pode aspirar a ser moderno quando namora com o atavismo.” Segundo: “Até porque o Governo sabe ou devia saber que este caminho torna o país mais tacanho e obediente aos dogmas do conservadorismo radical; não o torna mais moderno e competitivo. Amarra-o ao passado. Entre a reforma do Estado e o controlo social da autodeterminação na identidade de género, há uma hierarquia de prioridades que esconde um programa. O Chega é parceiro amigo da ofensiva contra os “ladrões” da política, ou contra os imigrantes que diz acentuar a criminalidade. Mas nada tem a dizer sobre o licenciamento, a Europa e a defesa, a asfixia burocrática que trava as empresas e a habitação, ou a justiça.”
Vamos ter anos disto: Hugo Soares e pequena política em movimento, Ventura omnipresente e extremismo a crescer consolidadamente, impotência gritante das vozes alternativas. E se o mundo desajudar, como promete, a coisa promete ser feia...
quinta-feira, 2 de abril de 2026
CONCEIÇÃO, UM VANGUARDISTA LÍDER LINGUÍSTICO?
Não posso jurar que foi ele o inventor de tão irritante mania, mas estou certo de que foi da sua boca que ouvi vezes sem conta aquele enfatizado vício de linguagem que agora passou a encher as bocas de comentadores, políticos e professores a um ponto estranhamente incomodativo e largamente incomodativo. O “ele” é o Sérgio Conceição que treinava o FC Porto e então repetia em loop as referências “àquilo que é a minha equipa”, “àquilo que é a arbitragem nacional" e “àquilo que é a minha própria pessoa”. A generalização atingiu dimensões insuportáveis e já não sei se é defeito da minha especial sensibilidade ou se se trata de uma mania coletiva que arrisca transformar-se em “português de segunda”.
Abro ao acaso o “Google” e busco “referendo sobre a regionalização em Portugal”. O primeiro parágrafo da “Wikipédia” reza assim: “O referendo sobre a regionalização em Portugal realizou-se em 8 de novembro de 1998. Duas propostas foram apresentadas aos eleitores portugueses: a primeira sobre se se deveria implementar a regionalização em Portugal; a segunda, sobre se caso fosse aprovada a regionalização, se concordavam com a região em que votavam. Ambas as propostas foram rejeitadas por larga margem.” E imagino um analista da modernidade a dizê-lo desta maneira: “O referendo sobre a regionalização em Portugal realizou-se naquilo que foi o dia 8 de novembro de 1998. Duas propostas foram apresentadas àquilo que são os eleitores portugueses: a primeira sobre se se deveria implementar aquilo que é a regionalização naquilo que é Portugal; a segunda, sobre se caso fosse aprovada aquilo que é a regionalização, se concordavam com aquela que era a região em que votavam. Ambas as propostas foram rejeitadas por aquilo que foi uma larga margem.” Gostaram? Por amor de Deus... menos, por favor!
quarta-feira, 1 de abril de 2026
MCKINSEY DIXIT
(A indeterminação dinâmica que paira sobre nós torna difícil qualquer antecipação do que o ano de 2026 nos irá trazer, a nós portugueses e ao mundo em geral. Mas sabemos já o que é que o ano de 2025 nos trouxe em termos de densificação da geopolítica e da economia mundiais. O valioso conhecimento estratégico das equipas da McKinsey permite-nos elaborar um olhar rápido, mas rigoroso sobre o comportamento da economia mundial. Através da citação do que pode ser considerado o sumo das grandes tendências que o ano de 2025 evidenciou, podemos concluir com segurança que o observado no ano passado está nos antípodas do que a fanfarrona política trumpista considera como os seus grandes objetivos. Esta discrepância pode ter várias interpretações, seja que as políticas mais anunciadas do que praticadas são erradas ou inconsequentes, seja porque os EUA em algumas dimensões já não constam como o player mais representativo. Ou seja, que a economia mundial está a mudar e, aparentemente, não nos termos em que Trump o tem anunciado aos seus apoiantes, embora a sua influência da geopolítica seja real e impactante. Mas, em qualquer das interpretações, a Europa sai penalizada.)
Citando, apenas[i]:
“De relance
§ O comércio em 2025 não regrediu, apesar das piores previsões. Tanto as importações dos EUA como as exportações chinesas atingiram novos níveis. A Ásia de Sudeste reforçou o seu papel na produção industrial transformadora global, a Índia ganhou espaço em alguns setores e o Brasil expandiu a exportação de “commodities” para a China. Numa palavra, o comércio cresceu mais depressa do que a economia global, enquanto as economias avançadas e a China reorientaram a sua relação para longe em termos geopolíticos dos seus parceiros comerciais.
§ A inteligência artificial (IA) emergiu como sendo o motor de crescimento mais importante. As exportações de semicondutores e de equipamentos de data centres respondeu por um terço do crescimento do comércio global, à medida que os hubs asiáticos – Taiwan, Coreia do Sul e partes da Ásia de Sudeste – forneceram os mercados em todo o mundo, particularmente os EUA.
§ A China expandiu o seu papel como “fábrica das fábricas”. Através de fornecimentos crescentes às economias emergentes com maior ritmo de crescimento, alavancou as exportações de componentes industriais e de bens de capital, fornecendo a maquinaria essencial e componentes necessárias para empoderar os hubs mundiais mais avançados da indústria transformadora.
§ Os direitos aduaneiros provocaram o reajustamento do comércio, com o comércio entre os EUA e a China a diminuir 30%. Os EUA substituíram dois terços desse gap com importações provenientes de outros fornecedores, enquanto os exportadores chineses de bens de consumo desde os carros elétricos aos brinquedos diminuíram preços em cerca de 8% para encontrar novos compradores noutros mercados. A Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) prosperou, aumentando o comércio com ambas as economias, mas a União Europeia foi penalizada a dois níveis: mais importações chinesas e direitos aduaneiros mais altos aplicados pelos EUA.
§ As mudanças no comércio sugerem algumas tendências duradouras – e para a necessidade de resiliência face aos choques. O mercado emergente da IA e o foco no crescente peso da indústria transformadora da China não são acontecimentos pontuais, nem tão pouco o crescente papel da geopolítica na reconfiguração do comércio – uma mudança que foi aparente nos dados durante quase uma década. Os desenvolvimentos de curto prazo exigem também respostas. As mudanças nos direitos aduaneiros em 2025 foram abruptas – e 2026 já provou os seus próprios choques. As empresas exigem a combinação de pensamento de longo prazo e agilidade”.
[i] Mc Kinsey Global Institute (2026). Geopolitics and the geometry of global trade: 2026 update. Março
GERAÇÃO WW3
Cada vez me convenço mais de que o mundo está num ponto de viragem de difícil retorno, preso por finíssimos arames a uma normalidade que se vai apresentando como desafiada a cada momento, a cada declaração irresponsável ou a cada ato irrefletido (ou demasiado refletido?). A “geração WW3” reproduzida acima já não permite quaisquer arremedos de segunda e benevolente opinião quanto à força implacável das suas determinantes autocráticas, sanguinárias e narcísicas. Ainda assim, há quem se entretenha a equacionar quem, de entre todos, é o pior dos ditadores, o mais cruel dos assassinos ou o mais doente dos egocêntricos: e não falta quem prefira Putin a Trump ou vice-versa (sendo a primeira um erro de paralaxe em que os europeus não podem cair), ou Xi a Kim ou vice-versa (sendo a primeira um erro que o futuro do mundo, a haver, não poderá suportar), todos e cada um desigualmente focados no perigo nuclear, na agressão imperialista, numa (des)ordem internacional indesejável ou na dose de irritação irreprimível que nos invade diariamente ao ouvirmos o loiro ou a loira que nos falam da Casa Branca. Eliminado Ali Khamenei, e assim quase recuperados figurões como Erdoğan e Modi, sobra o pior de todos porque aquele que se constitui no mais perigoso da atual fase da vida internacional: o israelita Netanyahu que destruiu Gaza sem mínimos de humanidade e misericórdia e que agora transforma tudo à sua volta em novas e irreconhecíveis Gazas.








