(Mário Dragui deu o mote, alertando para o beco sem saída em que as matérias da inovação e da competitividade se encontravam na União Europeia. O relatório de Enrico Letta (outro italiano) sobre o mercado interno veio dizer o que já era intuído, o mercado interno europeu está longe de estar concretizado e os irritantes das especificidades administrativas, fórmulas ocultas de protecionismo, continuam a perturbar o pleno aproveitamento desse potencial. António Costa, presidente do Conselho Europeu, interessou-se pelo assunto e pretendeu, em parte segundo as orientações de Mariana Mazucatto, criar uma estratégia de missão europeia, focada nos temas da inovação e da competitividade. No entanto, se bem que impressionados pela consistência dos alertas, a verdade é que em termos de ação concreta a Europa continua a patinar, não no gelo com elegância, mas incapaz de romper com os constrangimentos estruturais que inibem o seu crescimento pela via intensiva (inovação e competitividade). A jornalista Valentina Romei, a escrever episodicamente na newsletter do Financial Times FREE LUNCH, designa este processo de “slow burning”, que poderíamos traduzir livremente por fenecimento em fogo lento. O problema principal é que, embora os desempenhos em matéria de I&D inovação, não forneçam o quadro completo do menor potencial de competitividade que a União apresenta face aos EUA e á China, a verdade é que o desempenho menos satisfatório nesta matéria explica em grande medida o menor dinamismo do crescimento europeu. Uma nova crise energética determinada pela guerra no Irão e eu alastramento aos países do Golfo vem bater forte em qualquer propósito de arrepiar caminho em matéria de inovação e competitividade. Mas o problema continua a ser o mesmo de sempre: o potencial de I&D empresarial, isto é, com melhores perspetivas de repercussão em matéria de crescimento é na Europa muito baixo, porque o big TECH é essencialmente americano e a China tem condições prodigiosas através do seu ímpar capitalismo de Estado dar cartas em matéria de I&D empresarial. Estamos feitos. A criação de condições para a emergência de big-tech e de maior intensidade empresarial de I&D não se concretiza a curto prazo.)
O gráfico que Valentina Romei utiliza para estruturar o seu princípio de “fenecimento em fogo lento” da União é, de facto, arrepiante nos seus contornos. Ao passo que os EUA e a China aumentam a percentagem que lhes cabe na I&D empresarial mundial entre 2014 e 2024, observa-se que a Europa definha nessa percentagem. O definhamento desta percentagem tem essencialmente duas origens principais: a ausência de gigantes ou conglomerados tecnológicos que explicam os números dos EUA e problemas de estrutura setorial, com predomínio na Europa de setores com menor dinâmica de I&D empresarial. O caso da China é essencialmente explicado pela estrutura do seu modelo económico e pelo princípio de que as massas críticas de recursos humanos alocados a atividades de I&D foram favorecidas pelo cenário demográfico vivido até ao fim da última década. Como costumo alertar, 1% de engenheiros dedicados a atividades de I&D na China tem um significado totalmente distinto de 1% de engenheiros dedicados ao mesmo fim na Europa. A demografia também conta para a massa de I&D realizada.
A insuficiência da Europa em matéria de desempenho de I&D, nomeadamente de I&D empresarial, suscita de novo a velha questão da economia da inovação, ou seja, o confronto entre as lógicas de “technological push” e de “demand driven”. Como é que se inverte esta insuficiência? Através de um choque de I&D pública capaz de rapidamente se transformar em fortalecimento de procura empresarial de I&D, através de descomplexados processos de translação de conhecimento e alterando profundamente as condições em que a I&D pública é produzida? Ou fortalecendo a procura?
Nas condições de estrutura empresarial e setorial prevalecentes na Europa, o choque de procura é difícil de concretizar. E não é num ápice que se criam grandes conglomerados tecnológicos. Talvez estabelecendo parcerias com os existentes, nomeadamente americanos, mas os tempos que correm não estão de feição a essa orientação, dada a despudorada reivindicação desses grupos por mais regulação dos mercados.
Tudo indica que a completa revisão das condições em que é realizada a I&D em instituições públicas e em instituições de interface deverá constituir uma prioridade na alocação de recursos e no desenho dos sistemas de incentivos às equipas de investigação. Mas, tal como aqui escrevia há dias sobre outra matéria, também aqui impera a lógica dos rendimentos crescentes, que tendem, como então expliquei, a favorecer as massas críticas existentes de maior magnitude.
Será que a comunidade científica compreende bem o “fenecimento em fogo lento” de que fala a jornalista Valentina Romei?


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