domingo, 30 de novembro de 2025

O ABISMO DO SNS

(O fim do ano aproxima-se e é tempo do SNS se confrontar de novo com a organização da formação especializada que o internato dos jovens médicos deverá assegurar. É um momento de grande relevância, pois é ele que nos traz evidência sobre o modo como a carreira no SNS está ou não a interessar os médicos formados nas diferentes Faculdades de Medicina. A procura social pelas diferentes especialidades revela-se é óbvio também noutras circunstâncias que, teoricamente, deveria começar a manifestar-se na formação inicial. A procura manifestada relativamente às diferentes vagas criadas transporta consigo duas informações essenciais. Primeiro, do ponto de vista global e absoluto tende a revelar o interesse dos jovens médicos pela carreira no SNS. Segundo, o modo como as diferentes vagas de especialidades são preenchidas fornece-nos informação decisiva sobre o tipo de medicina que se quer praticar. A Ordem dos Médicos emitiu por estes dias um comentário de elevada preocupação sobre a procura que se manifestou para as formações especializadas que se iniciam nos primeiros dias de janeiro de 2026. Segundo esse comentário, das 2.331 vagas abertas, ficaram por preencher cerca de 500, cabendo a fava da baixa procura à Medicina Geral e Familiar, com 229 lugares por preencher e a Medicina Interna com 98 lugares vazios. Esta insuficiência de procura para estas duas especialidades é de certo modo recorrente e revela bem o pensamento e vontade dos jovens médicos. No caso da Medicina Geral e Familiar basta ter em conta o número de portugueses sem médico de família para compreender o dramatismo da situação. No que respeita à Medicina Interna, especialidade que muita gente considera a verdadeira medicina, já há muito tempo é considerada pelos jovens médicos demasiado exigente e trabalhosa e seguramente com menos perspetivas de remuneração atrativa se for vontade dos médicos não manter a exclusividade no setor público.)

Parece não haver dúvida de que estamos perante formações especializadas que correspondem a necessidades estratégicas de um SNS que seja organizado a partir da rede de cuidados primários e valorize a perspetiva integrada de olhar para a doença. Ora, não sendo a primeira vez que a procura dos jovens médicos se manifesta neste sentido, o sistema continua a acreditar que basta manipular a variável do número de vagas abertas para atrair os interessados por essas especialidades a partir da formação básica que recebem nas Faculdades de Medicina.

Primeiro, não existe evidência segura de que os diferentes cursos de Medicina organizem os seus conteúdos e práticas médicas de suporte a pensar na resolução do problema atrás mencionado. Há sempre obviamente um Professor que pela sua personalidade nos estimula a uma certa especialidade, mas isso não corresponde a qualquer organização deliberada para influenciar a formação especializada que se pretende atrair.

O modelo continua a ser o da livre escolha, não oferecendo qualquer antídoto para contrariar a declínio da procura social pelas referidas especialidades. Pelo que vou ouvindo e lendo a formação do curso de medicina continua a ser ministrada como se a repartição pelas vagas disponíveis fosse uma distribuição neutra, apenas dependente do número de vagas abertas. Isto parece-me ser uma indiferença trágica e incapaz de modelar a procura social.

Depois, uma de duas. Ou tais especialidades não são consideradas prioritárias (hipótese algo esdrúxula) ou se são entendidas como prioritárias então não se compreende como que é a organização do SNS não estabelece incentivos para captar essa atração desejável.

Podem dizer-me que a Medicina Geral e Familiar e a Medicina Interna são especialidades muito sensíveis ao sistema de valores que deve acompanhar as práticas médicas e que em contextos de apreço pelo retorno rápido e chorudo a sua procura social tenderá a diminuir. Penso que o sistema não tem favorecido a ideia das vocações naturais e que a exiguidade dos contingentes anuais de entrada nas Faculdades de Medicina, barrando o acesso à medicina a muitos jovens, corre o risco de agravar o declínio da procura social mais recetiva a tais especialidades. Ora, seria nessas circunstâncias que os incentivos influenciadores da procura, remuneratórios, mas não só, de carreira também, mais se justificariam.

A organização do SNS é atávica, olha para o problema, reconhece a sua existência e a Ordem dos Médicos também, mas continua a acreditar que a procura desejada se formará espontaneamente. A queda no abismo está aí, plena de evidência, e absurdamente não se vislumbra qualquer ideia ou ação para o evitar.

 

ALMA OU CHAMA?

 

Termino o mês de novembro com uma saudação épica – embora não tão entusiástica quanto a dos diários desportivos da Capital... – aos “encarnados” da Segunda Circular que ontem, depois de mais uma exibição medíocre, acabaram por vencer na Madeira no tempo extra a ponto de merecerem de Mourinho uma proclamação (“Isto é o Benfica!”) própria de alguém que esteve 90 minutos a sofrer desalmadamente e já via a vida a andar-lhe para trás, não devendo ainda deixar de ser referido o contributo do homem do apito (o romeno-português Iancu Vasilica) ao dar o jogo por encerrado sem minimamente ter em conta – não fosse o Diabo tecê-las! – os minutos perdidos aquando do golo dos da Luz e de lesões subsequentemente fingidas pelos jogadores visitantes. Dito por outras palavras: a prática do “colinho” continua bem viva no nosso futebol e, quando no terreno de jogo as equipas lisboetas não se estão a impor como esperado, não faltam expedientes para o contrariar – André Villas-Boas disse-o esta semana, com elegância, a propósito da “questão do calendário” quando admitiu que “ainda vamos ver o dérbi de Lisboa terminar com três pontos para cada um”...


sábado, 29 de novembro de 2025

DADOS RELEVANTES SOBRE A SOCIEDADE AMERICANA

 


(Há uma certa controvérsia recorrente, que se repete sobretudo em períodos em que a situação económica do americano médio ou mediano é convocada para tentar compreender a polarização política da sociedade americana e a adesão eleitoral de Trump. Assim, a questão de saber se a classe média americana é ou não pobre, emergindo o limiar dos 140.000 dólares/ano como a grande fonte de controvérsia em torno do que é a linha de pobreza de referência para avaliar esse estado de coisas. Noah Smith dedica-lhe um substack relevante. Não é a controvérsia da linha de pobreza da classe média americana que me interessa aqui destacar. Trata-se de um tema que para ser corretamente discutido exige um conhecimento pormenorizado da sociedade americana que obviamente não me atrevo a reivindicar. O que despertou a minha atenção na reflexão de Noah Smith é o acesso a alguns indicadores cuja análise pode contribuir significativamente para clarificar algumas dimensões da sociedade americana potencialmente mitificadas pela falta de evidência.)

Uma primeira evidência que contrasta com as perceções alimentadas sobre a sociedade americana é a percentagem de população em situação de insegurança alimentar severa. O conceito tem origem na FAO – Nações Unidas e mede a percentagem de pessoas que não têm acesso a alimentação segura e nutritiva necessária a um desenvolvimento normal e a uma vida saudável.

O gráfico tem origem no Our World Data o que é uma fonte indesmentível de credibilidade. Os valores do indicador são surpreendentes e a posição dos EUA desmente muitas das perceções, à luz deste indicador, enviesadas sobre a sociedade americana. Os EUA apresentam uma posição claramente mais favorável do que praticamente todas as economias avançadas do mundo. O baixo índice de 0,8% de população em insegurança alimentar severa é cerca de 1/3 da insegurança alimentar no Reino Unido e, surpreendentemente, os EUA estão em melhor posição do que os países escandinavos.

Além disso, a distribuição das despesas em alimentação por quintis de população corresponde em grande medida ao que a literatura nos fornece. O gráfico acima descreve no eixo da esquerda a despesa média anual em alimentação e no eixo da direita a percentagem de rendimento que essa despesa em alimentação representa. Como a literatura nos ensina, os quintis mais baixos gastam menos em termos absolutos mas em percentagem do rendimento gastam mais, invertendo-se a situação à medida que se caminha para os quintis mais ricos.

 

Um não menos surpreendente indicador é a percentagem de população que não está segura em termos de saúde. O gráfico construído a partir do inquérito censitário às famílias americanas descreve uma descida assinalável da taxa de não proteção na saúde registada de 2009 a 2022, mais propriamente de cerca de 15,5% para 8%. Ao nível das crianças sem proteção de saúde, essa taxa descia em 2023 para 5,1%. É impossível não associar estes dados à ação desenvolvida pela administração de Barack Obama, o que contrasta fortemente com a sanha desregulatória de Trump. A imagem que este indicador fornece da sociedade americana mostra que as perceções associadas à atrás mencionada polarização da sociedade americana são distorcidas em matéria de proteção na saúde.

E para culminar a coerência de toda esta evidência, o último gráfico mostra que os americanos seguem o padrão típico de uma sociedade que tem vindo a enriquecer: a percentagem de rendimento gasto em bens de luxo ou não essenciais tem vindo a aumentar, apenas com a exceção da Grande Recessão de 2007-2008 que revela alguma estagnação, abandonada após a pandemia como o sugerem as viagens ao estrangeiro e o acesso a restaurantes.

Moral da história: controvérsias sem evidência rigorosa e credível são uma perda de tempo e um desperdício de ideias.

A sociedade americana não foge a esta regra e teremos de o ter em conta para compreender a América do Norte de Trump.

 

DESIGUALDADE E POBREZA

Hoje volto aos gráficos falantes. Acima, e a partir de informação disponibilizada pela OCDE, a desigualdade de oportunidades absoluta e relativa em termos de rendimentos das famílias (indivíduos dos 25 aos 59 anos) comparada entre muitos países integrantes da organização e mais três europeus (o gráfico é rigorosamente o mesmo em duas diferentes leituras). A evidência é chocante para o lado que mais diretamente nos toca: Portugal surge colocado no 4º pior lugar no conjunto de 32 países considerados, apenas ultrapassado pelo capitalismo selvagem que se apoderou dos EUA (estranho exemplo de dominância de uma civilização tida por humanista e socialmente justa!) e pelos dois países do leste europeu que invariavelmente ocupam as posições do fundo nos indicadores de natureza económico-social da União. Ao invés, e sem grande surpresa, as nações mais igualitárias – e com índices muito superiores aos da média da OCDE – são, por esta ordem, a Islândia, a Dinamarca, a Finlândia, a Suíça e a Noruega.

 

Complementarmente, e com base originária em informação do EUROSTAT, as taxas de risco de pobreza dos trabalhadores com mais de 18 anos nos países da União Europeia (do lado esquerdo), com a portuguesa a ocupar a 9ª pior posição no conjunto dos 27 (percentagem de 9,2%) e sete países a apresentarem valores inferiores em três pontos percentuais relativamente a nós (Finlândia, República Checa, Bélgica, Países Baixos, Irlanda, Eslovénia e Dinamarca), e as mesmas taxas com diferenciação entre os trabalhadores nacionais e estrangeiros (do lado direito), deixando clara a discriminação quase generalizada em presença além das enormes diferenças entre os parceiros europeus no tocante à debilidade relativa da situação dos imigrantes (com os segmentos de reta maiores a serem os registados em Chipre, Espanha, Bulgária, França e Itália e Portugal a ficar abaixo do meio da tabela e dos níveis europeus médios mas, ainda assim, a patentear um risco de pobreza dos trabalhadores imigrantes quase duplo do dos nacionais – e, como é óbvio, estes dados oficiais não incluem os casos de escravatura imigrante que vêm sendo detetados em várias zonas do País).

 

A nossa geografia do descontentamento e as sementes do discurso extremista da desesperança e do ódio que cresce por estas paragens também passam por aqui...  

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

MESMO SÓ PELAS CAPAS JÁ NÃO FICA MARGEM PARA DÚVIDAS

Aposto que a larga maioria dos nossos concidadãos só lê ou vê as “gordas” dos jornais que diariamente ainda vão surgindo nas bancas. E a ser assim, a mais pura das realidades é que os ditos são forçados a concluir que está tudo maluco nesta tão potencialmente aprazível república. Faço o exercício com capas dos últimos dias, acima ilustrando as pequenas e grandes corrupções pessoais que foram relatadas e as situações de miséria moral e institucional que emerge de dentro de entidades tidas por defensoras da segurança e da ordem no País (o caso da associação criminosa de Beja e da exploração desumana da mão-de-obra imigrante é por demais chocante e absolutamente intolerável), abaixo evidenciando quanto a atividade governativa (a atual como as que a precederam) tanto passa ao lado da sua função de indicar caminhos e dar o exemplo em pequenas, médias e grandes (in)decisões em que saltam á vista a incúria, a irresponsabilidade, a publicidade gratuita e a utilização abusiva ou incompetente do património e dos dinheiros públicos. Perante este estado de coisas, no mínimo lamentável e na verdade insustentável, não podemos espantar-nos que o discurso demagógico, mentiroso e provocador de Ventura vá passando por entre os pingos da chuva, ou seja, que uma cidadania impreparada, frágil e significativamente empobrecida não consiga discernir entre a educação e a boçalidade, entre a efetividade e o fingimento, entre a propositura e a falta dela, entre o bem e o mal, afinal.

A situação agrava-se quando se constata que os reais problemas do País apenas excecionalmente vão sendo aflorados (quase sempre por motivação editorial do “Público” e do “Jornal de Notícias”, que assim prestam inestimáveis provas de serviço público) – vejam-se, na infografia abaixo, temas como o do concentracionismo em torno da Capital (das pessoas às políticas públicas), das crescentes distorções de funcionamento detetadas no Estado Social (e na Saúde em especial), de um modelo económico em que os baixos salários não deixam de imperar e das respetivas consequências generalizadas na área da Habitação ou de uma casta gananciosa de elites empresariais e sociais que perdeu o sentido do coletivo e que foge quanto pode aos impostos ao mesmo tempo que tende a privilegiar a acumulação fácil de riqueza em relação à sua criação. Pontualmente sinalizadas, estas questões bem careceriam de um maior e mais cuidado foco por parte daquela comunicação social mais atenta e bem-intencionada, seja para que os seus alertas se disseminassem de modo estruturado junto da população seja para que os responsáveis públicos se vissem forçados a considerá-las sem assobiarem para o lado do modo desligado, cínico e negligente que tem feito a sua prática.