sexta-feira, 31 de maio de 2019

NUMA CORRERIA ECONÓMICA EM TRENTO


Em pleno “Festival de Economia de Trento”, que literalmente invade a cidade de ciência económica em todo o seu esplendor e diversidade. Pouco tempo para tarefas bloguistas quando à minha volta se debate tudo quanto importa. Ontem, por exemplo, assisti a uma magnífica troca de galhardetes – em que os acordos eram, aliás, bem maiores do que os expectáveis desacordos – entre Olivier Blanchard e o ministro da Economia e das Finanças italiano, Giovanni Tria. Depois conto, porque a procissão ainda vai no adro e, se já pude ouvir e jantar com o Jean Pisani-Ferry, aguardo hoje e amanhã pelas intervenções de Wolfgang Münchau e Ferdinando Giugliano, Riccardo Crescenzi, Pier Carlo Padoan, Raghuram G. Rajan, Alberto Alesina, Andrés Rodriguez-Pose, Cas Mudde e Tito Boeri (o responsável “científico” por este extraordinário evento, que já tem catorze anos). Entre outros, claro, com destaque para um momento especialmente agradável em que estarei numa mesa-redonda com vários protagonistas regionais e moderada pelo meu amigo Joaquim Oliveira Martins da OCDE (grato, meu caro JOM!)...

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O VELHO BEIRAS ESTÁ AMARGO E TEM MAU PERDER



(Regresso a um post anterior, agora já depois do tumulto que as municipais em Espanha provocaram na Galiza, aqui tão perto. Um tumulto eleitoral tem sempre sequelas, e o velho Xosé Manuel Beiras acusou com estrondo esse impacto. Oportunidade também para registar aqui mais uma metáfora do sempre direto, irrascível e truculento Barreiro Rivas sobre a situação política espanhola.

Tenho de confessar que, quando escrevo sobre estas coisas na minha mesa de trabalho em Seixas, com o Coura, o Minho e Santa Tecla sob a minha mirada, as sinto de maneira diferente. Tivesse mais tempo e disponibilidade e seria um cidadão transfronteiriço convicto. Por isso, as questões da política e da sociedade galega me interessam tanto. Ainda, este último fim-de-semana, quando me deliciava com a gastronomia do Lagar nas Eiras, no Rosal tão perto da minha mirada, uma pintura-cartaz do Zeca Afonso me dava conta de quanto a mensagem libertadora da música do Zeca é apreciada na Galiza mais progressista.

Já aqui dei conta que as últimas municipais em Espanha varreram a Galiza de lés-a-lés: (i) o PP apanhou um abanão dos fortes e foi praticamente corrido das principais cidades galegas; (ii) a onda do PSOE devolveu ao PSOE galego a expressão que vinha perdendo a uma velocidade impressionante; (iii) o Bloco Nacionalista Galego parece resistir a uma irrelevância que esteve prestes a ser consumada; (iv) as Marea marearam, enjoaram e foram também varridas do espectro da liderança autárquica, ilustrando a pulverização do ambiente PODEMOS, mas com um toque galego especial; (v) Abel Caballero em Vigo emerge claramente como uma liderança regional potencial, tamanha foi a derrota e distância imposta ao PP.

O resiliente Professor Xosé Manuel Beiras teria como qualquer outra boa alma galega de sofrer este impacto. Afinal, ele tinha entregue os seus 80 anos avançados a uma convergência de esquerda na Galiza, animando-a, foi envolvido na sua pulverização e nem a sua aposta municipal na Marea de Santiago de Compostela, apoiando o então presidente e candidato à reeleição Martiño Noriega e depreciando o candidato do PSOE Sánchez Bugallo, ficou ilesa do tumulto. Pois seguindo a regra, Noriega afundou-se no enjoo da Marea e o desvalorizado Bugallo liderará o município. E pelos vistos o velho Professor e líder sedutor da política galega não tem bom perder e afundou-se nos seus comentários verrinosos e reativos. Nada mais, nada menos, o letrado Professor veio a público desenterrar interpretações linguísticas sobre a designação de Compostela. À tradicional interpretação de que Compostela significa campo de estrelas, o velho Beiras saiu-se com esta: depósito de restos humanos em decomposição. É talvez a mais amarga reação aos resultados do 26 de maio. Talvez o velho Beiras quisesse associar-se à decomposição por ele referida.

Mas indo ao encontro da minha convicção de que a política galega vale a pena ser seguida com atenção, o irrascível e truculento Professor de Ciência Política da Universidade de Santiago de Compostela, Xosé Luís Barreiro Rivas, publica hoje na Voz de Galicia uma crónica metafórica sobre a situação política espanhola (link aqui). A metáfora é de natureza láctea e não é de constelações de estrelas que se trata. Segundo Barreiro Rivas, há duas formas de caracterização das sociedades do ponto de vista político: a que as equipara ao leite, um excelente alimento mas que se degrada e azeda com facilidade e a do queijo (entendido como comunidade fermentada e consolidada para a ação política). Segundo o controverso analista, a sociedade política espanhola dá mostras de já não ter a solidez de um “manchego” que resiste ao tempo e caminhar perigosamente para a de um queijo com riscos sérios de degradação, próximo da metáfora do leite. Daí que o cronista conclua que (em castelhano, pois tem mais força): “Y los que gustamos del buen queso tendremos que sobrevivir comiendo nuestra paciencia”.

Não quero contrariar o cronista, mas na Galiza não manda o manchego, caro Professor. Para mim, o queijo que me delicia, com compota de abóbora ou mel, é o Cebreiro, alimento de peregrinos, e esse, como é fino e fresco, embora espesso, não se presta muito à metáfora. Talvez os tempos políticos não estejam para tempos tão espessos e duradouros como os do manchego.

Complemento (31.05.2019 - 09.45)

Um amigo galego, o Professor Luís Dominguez, diretor do Centro Jean Monnet da Universidade de Vigo, discorda da minha interpretação acerca do potencial de liderança regional do vitorioso Abel Caballero. A sua tentativa no passado de ascender a essa liderança regional saiu gorada e isso seria argumento suficiente para o demover, agora que tudo indica irá assumir a Presidência dos autarcas espanhóis. O meu ponto é que não vejo nos ambientes do PSOE galego nenhuma personalidade com peso para desalojar o PP de Feijóo da Xunta da Galicia. E as alianças entre o PSOE (PSG) galego e o Bloco Nacionalista também não parecem capaz de gerar uma nova liderança. E não creio que o Professor Fernando Laxe, ex-presidente da Xunta, queira hoje assumir essa batalha.

COMO AS COISAS MUDAM!

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)


Ainda não há muito tempo que Pedro Sánchez penava pela sua afirmação política em Espanha e mesmo no interior do seu partido. Foram anos, meses, semanas e dias dolorosos em que corria mal quase tudo quanto podia correr mal. E agora, num ápice, ei-lo a vencer as legislativas com significativa clareza e a repetir a dose nas várias eleições do último fim de semana (Madrid será, neste quadro, um pequeno detalhe). E assim, num salto de mágica que só está em condições de acontecer aos melhores e mais combativos e resilientes (a política é também muito isso), Sánchez surge agora – fruto dos seus vinte eurodeputados e de o PSOE se ter tornado no maior grupo nacional socialista no Parlamento Europeu – a liderar os variados esforços em curso no sentido de uma eventual aliança socialista-liberal que possa decorrer do novo desenho dos equilíbrios entre as grandes forças políticas naquela câmara (designadamente manifestado num rechaçar dos temores mais gravosos do ponto de vista extremista e eurocético e na sua prometedora recomposição num sentido plus libéral et écolo). Paralelamente, e em termos internos, e após ainda ter chegado a estar na mesa a hipótese de uma integração governativa do “Podemos”, a recente débacle de Pablo Iglesias, rotunda e generalizada, veio certamente acentuar a já de si evidente falta de vontade de Sánchez na concretização daquela incorporação.

(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

(José Manuel Esteban, http://www.larazon.es)

quarta-feira, 29 de maio de 2019

ALGUNS PS ANDAM A BRINCAR COM O FOGO



(Como grande partido do poder que é, o PS acolhe uma massa de militantes e políticos muito diversificada e a sua base local alargada ergue tais características a limiares ainda mais elevados. Nunca perdendo de vista que algumas árvores mais ranhosas não comprometem a qualidade da floresta, começa a formar-se a ideia de que, à sombra do partido e do seu papel na sociedade portuguesa, parecem emergir tendências que apontam para uma perigosa ideia de impunidade e reduzida “accountability”. O que é mau, francamente mau.

Todo o partido que se preze tem a sua base clientelar. É um dado que julgo inevitável e que pode ser contrariado com políticas internas de transparência e de combate a situações de eternização de benesses partidárias. A alternância democrática resolve, não raras vezes e frequentemente com dramatismo, regra geral, estas questões, afastando dos corredores do poder muita gente, que irá à sua vidinha para pagar as suas contas. Mas, em períodos mais prolongados de poder, impõe-se que os partidos tenham eles próprios mecanismos de renovação de cortes e proximidades. A carne é fraca e muita gente tem ambições não compatíveis com a sua folha salarial.

A questão das clientelas e confianças familiares abanou um pouco o PS, mas o erro político crasso da direita na matéria do tempo de serviço dos professores salvou o partido de danos maiores. Não está em causa o direito à confiança política e pessoal que um político necessita de ter em quem com ele trabalha e delega parte do seu trabalho político. Não está isso em causa. Mas em contexto de forte empobrecimento dos serviços da administração do Estado, um fenómeno a que a generalidade das forças políticas não tem dado a atenção necessária e que terá custos sérios no longo prazo, há limites de intensidade de colaborações familiares que não podem ser ultrapassados. Há aqui dois fenómenos penalizadores que se reforçam mutuamente: o empobrecimento técnico e humano da administração pública e o afunilamento perigoso do recrutamento para exercício de funções políticas e suas proximidades.

Não tenho a certeza se os comandos diretivos do PS tomaram em devida conta o abanão que sofreram. Espero que a resposta seja afirmativa. O escrutínio está cada vez mais agudo (e ainda bem) e por isso toda a ocultação será castigada, mesmo que tenhamos uma sociedade pouco exigente nestas matérias e sempre a considerar como natural algo que ultrapassou os limiares do bom senso democrático.

As notícias de hoje em torno da Operação Teia e as anteriores reportagens de José António Cerejo no Público em torno das cumplicidades do PS albicastrense dão conta que existe um outro mundo de cumplicidades, este a nível marcadamente local, que também revela tendências que importa travar. Essa análise não está feita de modo rigoroso, mas entre as personalidades que têm sido tocadas por estas movimentações da justiça ou por incursões jornalísticas há uma esmagadora maioria de personalidades que se considera próximo do estilo de exercício da política e do poder de José Sócrates. O que talvez explique alguma coisa. Bem sei que regra geral entre o dinamite das primeiras notícias, diligências ou reportagens e o resultado final das averiguações existe sempre um desvio, muitas vezes acentuado. Por um lado, a instrução dos processos nem sempre é exemplar. Por outro, em matéria de investigação jornalística, o quantum de rigor e cautela que nos é exigido para separar o trigo de algum joio jornalístico (escrevi joio e não joia, esclareça-se) é cada vez maior se quisermos estar na pele de um leitor inteligente. Mas, de qualquer modo, as notícias que têm sido publicadas são plausíveis do ponto de vista de um certo universo local de que se alimentam alguns “empreendedores” e “figurões”.

Quanto às personalidades tocadas pelo TEIA não tenho evidências seguras que me levem a colocar as mãos no fogo pela injustiça de que estarão ser eventualmente alvos. Não é isso que sinceramente me preocupa. É antes a convicção de que, a cada centímetro de exposição local neste tipo de casos, correspondem recuos sérios de muitos metros ou quilómetros em termos de defesa de uma cultura de descentralização e de devolução do poder ao local. Na verdade, estes senhores, sempre dispostos a glorificar as virtualidades do poder local, contribuem pelas piores razões para a sua condenação em termos de uma cultura de suporte à devolução e à descentralização. Para além de macularem sem desculpa o trabalho digno de muita gente que promove o desenvolvimento local. E, face a estas evidências dos pequenos poderes, mais ou menos organizados, cresce o grupo daqueles que prefere uma solução centralizada ao desconchavo e ao despautério em proveito de alguns. O que é a forma mais refinada e amarga de reprodução do centralismo.

Se houver fogo e não apenas fumo que o combate seja duro e implacável.

DE NIGEL A NICOLA


(Patrick Blower, http://www.telegraph.co.uk)

(Patrick Blower, http://www.telegraph.co.uk)

(Morten Morland, http://www.thetimes.co.uk)


Encarada numa lógica de racionalidade política mínima, a arrasadora vitória de Farage nas eleições britânicas para o Parlamento Europeu não tem qualquer ponta por onde se lhe pegue. Mas aconteceu e de forma clara. Como aconteceu Salvini em Itália ou Le Pen em França, para só referir os mais salientes. Agora, e voltando ao Reino Unido, a saída de May e o resultado catastrófico dos dois partidos tradicionais apontam para uma continuada manutenção de focos essenciais de incerteza – terão alguma hipótese de sucesso os já revoltosos apelos internos aos Trabalhistas para que Corbyn apoie finalmente um final say? Quem sucederá a May nos Tories? Irá esse alguém adotar uma posição de delivery rápido e a qualquer preço (no-deal) em relação ao “Brexit”? Ou seja, e sendo absolutamente sintético: segundo referendo ou hard Brexit ou quê? Entretanto, e mais a norte na Ilha, os resultados na Escócia evidenciam a existência de um crescente suporte popular a Nicola Sturgeon e, mais que seguramente, a indispensabilidade de um referendo pela independência a ocorrer em prazo curto.

terça-feira, 28 de maio de 2019

DOS MAIS AOS MENOS GLOBALIZADOS



(Um tweet de Adam Tooze, @adam_tooze, leva-me a um daqueles gráficos irrecusáveis. A matéria é a globalização, medida pela sua expressão mais profunda, a participação nas cadeias de valor globais. E aqui emergem claramente os mais e os menos globalizados.

A medida do grau de participação nas cadeias de valor globais é dada pela soma de duas componentes: o valor acrescentado no exterior que é usado nas exportações de um dado país e o valor acrescentado no próprio país que aflui ao exterior por via das exportações.

O gráfico é esclarecedor.

O grupo dos mais globalizados é conhecido: Singapura à cabeça, Hungria e República Checa (uma revolução silenciosa), o trio asiático Malásia, Vietname e Taiwan, Bélgica e Irlanda, Bulgária (uma progressão recente) e a Coreia do Sul.

Portugal surge no meio da tabela.

E entre os menos globalizados, Brasil, Nova Zelândia, Estados Unidos da América e Argentina na cauda. Ou seja, reunião de aspetos de dimensão, protecionismo recente e razões históricas profundas.

A curiosidade estará em saber como evoluirão estes padrões de globalização.