sábado, 30 de setembro de 2023

EM TORNO DE QUE VALOR VÃO AS TAXAS DE JURO ESTABILIZAR?

 

                                                (Paul Krugman, The New York Times)

(As notícias que nos chegam dos EUA, com taxa de inflação subjacente anualizada de cerca de 2,2% e da Europa, finalmente com desaceleração da inflação subjacente, estas mais recentemente, parecem positivas e apontam para uma claríssima desaceleração do surto inflacionista. Daí que a questão macroeconómica de momento já não será se as taxas de juro de referência para os bancos centrais irão ou não parar de subir, pois tudo indica que está próximo o momento da cavalgada dos valores ser sustida, mas antes a de saber a que nível é que as taxas vão finalmente estabilizar. Em termos mais concretos, se ficarão por aqui ou se irão descer para valores mais estáveis e compatíveis com as expectativas dos agentes económicos. Os macroeconomistas abordam esta questão mobilizando o conceito de taxa de juro real de equilíbrio de longo prazo e, como ainda todos nos recordamos disso, a longa agonia após a crise essencialmente financeira de 2007.2008 trouxe uma espécie de um “novo normal”, estruturado em torno de taxas de juro de equilíbrio muito baixas, nulas ou mesmo negativas. O trabalho empírico de cálculo estimado dessas taxas de juro de equilíbrio não se recomenda aos amigos que fogem da complexidade da economia, mas os trabalhos que então apareceram, realizados designadamente pelas equipas de suporte dos Bancos Centrais foram considerados legítimos e credíveis. Por isso, seria de estranhar que as pessoas não se interrogassem sobre se tais taxas de equilíbrio tenderão a alterar-se, questionando assim se acalmado o surto inflacionista as coisas estabilizarão em torno de taxas mais altas ou se regressaremos ao normal de antes da pandemia e da guerra da Ucrânia.)

Após alguma interrogação ou inércia nos mercados, as expectativas dos investidores quanto às taxas que irão prevalecer mais a longo prazo, digamos a 10 anos que é o indicador mais utilizado na economia americana, apontam para valores mais elevados do que os prevalecentes na sequência da Grande Recessão de 2007-2008. O gráfico que abre este post é bastante esclarecedor a esse respeito e recordo que não foi sempre assim. As expectativas quanto às taxas a longo prazo não foram inicialmente neste sentido, como se a possibilidade da inflação ser considerada transitória aconselhasse alguma calma quanto ao futuro.

Como Krugman o sugere, se observarmos a diferença entre as taxas de juro de títulos de risco normal e as taxas de títulos indexados pela variação de preços no consumo observamos que está em queda e já abaixo dos 2,5%, o que sugere que a alteração de expectativas quanto às taxas de longo prazo não reflete preocupação dominante com a inflação. Mas o que parece evidente é que as taxas de juro reais estão bem acima dos 2%, sugerindo, e esta é a palavra mais correta, sugerindo a emergência de um novo normal face ao que vigorou na recuperação após a já referida Grande Recessão.

Não existe ainda, em meu entender, uma explicação clara quanto às alterações do “normal” em termos de taxas de juro reais de longo prazo. Mas os sinais que emergem do mercado, sobretudo nos EUA, parecem apontar para essa inevitabilidade. Mas a situação está longe de estar controlada pelos macroeconomistas, sobretudo porque as estimativas quanto “à taxa de juro real de curto prazo que tenderá a prevalecer quando a economia estiver próxima do produto potencial e a inflação for estável” não têm convergido entre si. Algumas estimativas apontam para valores próximos dos observados antes do COVID 19, mas outras apontam para valores superiores. O comportamento do mercado parece convergir mais com esta última avaliação.

Certamente que os leitores mais atentos compreenderão a importância prática de tudo isto. Nos últimos anos, o endividamento adicional dos países foi concretizado no pressuposto de estimativas de taxas de juro a longo prazo que apontavam para o normal das taxas de juro baixas ou próximo de nulas. Se a alteração do novo normal for efetiva, o problema do endividamento excessivo corre o risco de se transformar na nova preocupação que se segue à da inflação.

Por tudo isto, continuo a considerar que o Fernando Medina de todas as preocupações quanto ao endividamento corre o risco de se transformar no Ministro das Finanças mais sortudo dos últimos tempos, seguindo padrões de decisão que são os mais prudentes face ao momento particular em que estamos em matéria de novo normal para as taxas de juro.

 

A CONTAS COM UM EXCESSO DE ELEFANTES

 
(cartoon de Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

Em Espanha, e após a encenação dos últimos dois dias (cheia, aliás, de várias e duvidosas manifestações de mau gosto, só protagonizáveis por quem tenha muito bom fígado e uma excessiva autoconfiança) em que Feijóo esteve tão bem quanto podia na circunstância e poderá assim ter consolidado a sua liderança no PP, aproxima-se a hora da verdade. Tudo está centrado em irmos em breve perceber até onde os independentistas (Junts e ERC) levarão o seu bluff conjunto ou separado e/ou até onde Pedro Sánchez estará disposto a ceder sem que lhe caia em definitivo a máscara de uma ambição desmedida pelo poder; com a possibilidade de novas eleições como uma resultante alternativa no horizonte a curto prazo, algo que não interessa seguramente a uns e a outros.

 

Enquanto se aguardam os próximos momentos, e para já, a única grande e boa conclusão destes meses espanhóis poderá ter sido a pedagogia democrática associada à claríssima “linha vermelha” que emergiu em relação à extrema-direita (pese embora a sua presença em várias soluções governativas regionais). Assim e se não estiver a ser demasiado otimista nesta minha leitura, este processo em curso em Espanha poderá ficar (ou não) para os anais da política europeia contemporânea e da afirmação dos valores democráticos perante os populismos que se estendem a olhos vistos pelo Continente, como este fim de semana voltaremos a testemunhar na Polónia e na Eslováquia.


(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

ATÉ SEMPRE, FERNANDO ALVES!

Fernando Alves (FA) brindou-nos durante décadas a fio com uma pequena crónica matinal na TSF intitulada “Sinais” (que várias vezes aqui inspirou alguns posts). Fui hoje surpreendido com a sua despedida, aliás talvez não completamente inesperada atenta a situação que atravessa a empresa que gere aquele canal radiofónico e que já conduziu a uma inédita greve dos respetivos jornalistas e trabalhadores. Nestas coisas, e para além do surdo protesto do cidadão que sou (porque apelos leva-os o vento e porque, seguramente, FA sabe bem o que está a fazer), talvez apenas nos reste agradecer o tanto que nos foi sendo dado ao longo do tempo. Faço-o com sinceridade e remeto os nossos leitores para o texto da última crónica de FA, a de hoje (“O olhar perto do chão”):

 

No seu mais recente livro, "Montevideu", que nos é apresentado como "uma ficção verdadeira", Enrique Villa-Matas descreve-nos um dos seus vários encontros com Tabucchi a quem muito admirava desde "Mulher de Porto Pim", esse livro que, assim o vê o catalão, trata "com leveza poética" questões "difíceis e complicadas". Os dois haveriam de tornar-se amigos, partilhando experiências em várias cidades, em conferências literárias ou movidos pelos fios invisíveis de um acaso feliz.

Certa vez, sentados numa esplanada nas margens do Arno, em Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas que tinha chegado à fala com um tipo estranho, um vagabundo que muito impressionara o amigo, em Paris.

Villa-Matas guardava do vagabundo uma imagem vincada. Todos os dias, ele sentava-se no chão, à porta de uma livraria, no Boulevard Saint-Germain. Em frente, havia um quiosque de jornais. O que retivera a atenção de Villa-Matas, nesses longínquos dias parisienses? O modo elegante como o vagabundo se comportava, cumprimentando quem entrava e saía da livraria. Por vezes, levantava-se, fumando, com o olhar perdido no horizonte, um magnífico havano. Durante a maior parte do tempo, permanecia sentado no cartão de vagabundo, lendo um clássico. Durante algum tempo, enquanto viveu em Paris, o catalão viu com muita frequência o estranho vagabundo. Anos depois, em Florença, conversando com Tabucchi, este confidencia que, certa vez, chegara à fala com o homem. Estava sozinho em Paris, vagueou pelas ruas e deu com aquele homem sentado no chão lendo o seu clássico. O vagabundo convidou-o a que se sentasse a seu lado, no chão, apreciando o mundo desse patamar ao nível dos pés. Tabucchi não hesitou. Sentou-se ao lado do vagabundo, ficaram ambos durante algum tempo em silêncio, observando os que passavam por eles com total indiferença.

Na noite estival de Florença, Tabucchi contou a Villa-Matas o modo como o vagabundo quebrou o silêncio. Ele nunca mais esqueceria aquelas palavras. Disse-lhe o vagabundo: "Estás a ver, amigo? Daqui uma pessoa pode vê-lo muito bem. Os homens passam e não são felizes".

Partilho convosco esta passagem do magnífico livro que me ocupa por estes dias, na última crónica que assino nesta rádio. A meu modo, vou ocupar as horas, em grande medida, um pouco à maneira do vagabundo desta história. Não penso sentar-me no chão, à porta de uma livraria. Mas procurarei, muitas vezes, bancos de jardim, à sombra. E assim me deixarei ficar, absorto, tomando notas para uma improvável emissão futura, feita de silêncios e de palavras elementares, assim me pouse no ombro a ave clandestina. Ambição chã. Ficarei a ver passar os transeuntes com o seu ar triste, como só os vagabundos sabem detectá-lo. Até sempre.


(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)

A MADEIRA JÁ NÃO É UM JARDIM, NEM ZOOLÓGICO!

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt

Não pretendo estender-me muito aqui na análise das eleições madeirenses e da solução governativa dela resultante, nem também nas respetivas consequências (e ensinamentos?) para o plano nacional. Por isso, apenas deixo uns tópicos interrogativos para eventual reflexão daqueles que se interessam pelo tema: (i) Miguel Albuquerque venceu folgadamente as eleições mas repetiu o seu fracasso em relação à recorrente tradição do “jardinismo” ao ter voltado a não lograr uma maioria absoluta ― indício de um lento mas inapelável virar de página na Madeira?; (ii) Miguel Albuquerque mostrou ser um político hábil ou habilidoso ao ter declarado que não governaria se não obtivesse maioria absoluta e ao ter seguidamente encontrado uma forma rápida de escapar ao ruído que o começava a abafar em face do resultado obtido?; (iii) o Partido Socialista e António Costa querem o quê na Madeira, apenas dizer presente?; (iv) perante o modo como Albuquerque se fez com o PAN, as dúvidas levantadas por Nuno Melo quanto à escolha do futuro presidente do Governo Regional e a marcante expressão eleitoral do Chega e do Iniciativa Liberal, será que também na Madeira o CDS já morreu mas ainda não tomou conhecimento?; (v) o Iniciativa Liberal perdeu uma oportunidade de ganhar relevância política ao não se ter apresentado como o parceiro natural do PSD numa nova solução governativa?; (vi) o PAN vendeu a alma ao Diabo, cedeu à tentação de um protagonismo fácil ou colocou-se no terreno por forma a poder ir tendo uma pequena mas real e audível palavra a dizer na política nacional?; (vii) a forte subida do Chega confirmou que o mais provável é que não haja, em Portugal, um caminho de poder à Direita sem a sua participação?; (viii) entende-se que o Bloco e o PCP se contentem em ter um deputado na Assembleia Regional ou esse é mesmo o seu destino de partidos marginais e de protesto?; (ix) Montenegro foi fazer o quê ao Funchal na noite eleitoral? ― perante os números registados, ganhou alguma coisa com isso ou teve de esconder que estava a meter o rabo entre as pernas com aquela metáfora futebolística contra Costa?; (x) e o primeiro-ministro, cada vez mais frio e cínico na hipervalorização do seu interesse pessoal, conseguirá mesmo impor ao seu partido e aos portugueses a atitude arrogantemente seletiva e chocantemente desligada que lhe recomenda o seu tão adorado spin-doctor Paixão Martins?

BIODIVERSIDADE, BIOSFERA E AS RESERVAS UNESCO EXISTENTES EM PORTUGAL

 


(Escrevo no regresso de Lisboa ao Porto, num Alfa penalizado por avaria no sistema de sinalização provocado por um simples roubo de cobre, depois de alguns dias de trabalho na capital, entre outras coisas para assistir ao seminário final de apresentação de resultados de um projeto de cooperação internacional gerido pela Quaternaire, financiado pelo EEGRANTS, com a Noruega e a Islândia em lugar de destaque. Como a minha participação no projeto se limitou a uma simples ação de formação sobre questões de governança, estou à vontade para me pronunciar sobre os resultados de um projeto que honra o EEGrants, a própria empresa e o empenho das 12 reservas da biosfera que Portugal apresenta neste momento. Um Ministro, Duarte Cordeiro, cada vez mais confiante e uma exceção num executivo frágil por dificuldades criadas a si próprio, e dois Secretários de Estado, Secretário de Estado do Planeamento, Eduardo Pinheiro, e da Internacionalização, Bernardo Ivo Cruz, ajudaram a validar a importância do evento que o Pavilhão do Conhecimento acolheu com a modernidade das suas instalações. Numa altura em que o tema da biodiversidade perde em termos de notoriedade para o das alterações climáticos, num todo que é indissociável, a relevância proporcionada às reservas da biosfera e à necessidade de consolidar o seu papel na Estratégia da Biodiversidade para Portugal, o evento talvez vá contribuir para uma melhor sinalização da experiência, confirmando-se também a boa sorte que temos tido em toda a cooperação que envolva países nórdicos e particularmente a Noruega. Por isso, além da feliz e oportunidade de rever os netos de Lisboa, cada vez mais crescidos e à procura do seu lugar no mundo, foi uma semana diferente, com quebras de rotina, num princípio de outono excecional que deixa as hordas de turistas em estado próximo do êxtase. Ontem, ao fim da tarde, quando fiz uma viagem de táxi para esquecer entre o Pavilhão do Conhecimento e a sempre aprazível Alcântara, com o tráfego num oito, deu mesmo assim para perceber o ambiente de festa junto ao rio, com cada vez mais turistas e locais a usufruírem daquela luz inconfundível do fim de tarde no mar da Palha, com pequenos veleiros a abrilhantar o horizonte, numa espécie de orgia anárquica de movimentações erráticas, aqui e ali disciplinadas por um cargueiro imponente que abandona o porto em direção ao mar alto.)

O tema UNESCO das reservas da bioesfera, no quadro da iniciativa mais ampla, o Homem e a Biosfera (obviamente que o nome está em revisão e percem as razões mais do que válidas para o fazer), é um tema que me interessa na medida em que se trata de uma tentativa de abandonar a lógica conservacionista tout court, para de uma vez por todas ir à procura de soluções harmónicas entre a conservação da biodiversidade e a valorização económica dos recursos, dando assim resposta aos anseios das populações que vivem nos territórios inseridos nas reservas constituídas. Nesta perspetiva, a própria designação de reserva parece hoje desajustada face à perspetiva não apenas conservacionista, como aliás a diretora nacional da aplicação do programa MaB (Man and the Biosphere) o sugeriu e a diretora da reserva norueguesa de Nordhordland também o salientou, sublinhando que na Noruega se fala não de reservas mas de áreas Unesco da biosfera.

Um seminário final de apresentação de resultados desperta sempre dificuldades de encontrar a carga adequada e nessa perspetiva talvez tenha sido uma densidade excessiva, tanto mais que as personagens científicas nacionais mais conhecidas do projeto, as Professoras Helena Freitas (Universidade de Coimbrfa) e Fernanda Rollo (Universidade Nova) são entusiastas e de verfbo fácil, não sendo propriamente as personagens mais adeptas de intervenções contidas.

A troca de impressões dos gestores técnicos das 12 reservas nacionais com o público presente sob a moderação da sempre sedutora e assertiva Luisa Schmidt (Instituto de Ciências Sociais de Lisboa) talvez tenha sido o momento mais empático do evento, só igualado pela presença dos dois jovens algarvios que ganharam as Olimpíadas da Biosfera, uma das atividades mais badaladas do projeto. A grande diversidade das 12 reservas constitui uma matéria bastante apelativa para a cooperação e para a discussão do tema da conciliação entre a conservação e a valorização de recursos. Quanto ao turismo predominou a posição de “sim mais alguns mas não muitos” e sobretudo a evidência de que as reservas buscam um perfil de turista que compreenda e valorize a biodiversidade.

Tratou-se do primeiro grande projeto europeu de grande dimensão que a Quaternaire geriu e animou. A Ana e a Elisa estão de parabéns por isso, sobretudo atendendo ao ambiente de grande reconhecimento evidenciado pela generalidade das reservas presentes. A palavra Felicidade de participação foi pronunciada várias vezes, sobretudo no tom mais emotivo do grande Senhor que é José Cassandra, Diretor da Reserva da Ilha do Príncipe em S. Tomé e da gestora da reserva de Nordhordland na Noruega. E quando é assim, temos “good value for Money” investido na cooperação, o que nem sempre acontece.