quinta-feira, 22 de outubro de 2026

O MISTÉRIO (ECONÓMICO E TAMBÉM POLÍTICO) DO VALOR DOS TÍTULOS A LONGO PRAZO

 

                                                                                (Robert Rubin)

(Já aqui repetidas vezes se fez eco do significado assumido pela subida progressiva dos rendimentos (yields) dos títulos a longo prazo, designadamente dos títulos do Tesouro americanos. Por exemplo, o yield dos títulos a 10 anos atingiu recentemente o valor de 5,36%, que é nada mais nada menos do que um valor superior ao que aqueles títulos apresentavam no período imediatamente anterior à crise de 2008 e à subsequente Grande Recessão então observada. O comportamento deste indicador contraria frontalmente a narrativa de Trump de que tudo vai bem na economia americana e por isso tem sido objeto de um amplo debate sobre as razões que explicam aquele comportamento. A explicação que tem sido considerada mais robusta é a que aponta o dedo explicativo aos mega-investimentos que as empresas de inteligência artificial estão a realizar, por via da desesperada procura de fundos que paira sobre os mercados de financiamento. Poderíamos aqui também fazer eco dos receios que têm emergido nos mercados sobre a real capacidade das empresas de IA para alcançar o retorno adequado desses investimentos tão avultados e assim poder solver os compromissos de pagar os seus financiamentos em larga escala. Existe por isso um cutelo que paira sobre a dinâmica de investimento em IA, falando alguns da possibilidade de um crash de financiamento, atendendo ao volume de retorno que será necessário alcançar para acomodar um custo de financiamento tão elevado. Todos estes fatores explicativos reportam ao mistério económico dos yields historicamente tão elevados que estão a ser observado nos títulos a longo prazo. A questão relevante a colocar, e gente bem importante como o ex-secretário do Tesouro americano nos anos 90 Robert Rubin colocou-a com toda a pertinência, é a de saber se não existirá aqui também um mistério político para justificar essa dimensão do mercado. A questão é muito relevante, até porque tudo leva a crer que possa existir interdependência viciosa entre as dimensões económica e política desse mistério.)

O pensamento de Rubin ancora-se no facto de, na grande maioria das eleições intercalares realizadas no passado, terem sido questões económicas a suscitar o cartão amarelo levantado pelos eleitores à força política que governa na altura (It’s the economy, stupid, máxima que se popularizou para explicar o comportamento dos eleitores que pensam com o bolso e com a carteira e não com as suas convicções ideológicas e partidárias). Se nos projetarmos nessa dimensão económica, são vários os assuntos que podem levar os americanos a concluir que estão hoje pior do que estavam quando o mandato de Trump foi iniciado. Não foi certamente por acaso que Trump tirou da cartola o mal-amanhado e ultrajante acordo do gasóleo com a Rússia de Putin, para tentar assim sossegar a sua base de apoio de que o valor sagrado do baixo preço do diesel será mantido a todo o custo para satisfação do princípio básico da mobilidade barata na sociedade americana.

A pertinência da análise de Rubin justifica-se essencialmente pelo facto de acrescentar a este rol de fatores a importante indeterminação política quanto ao comportamento fraudulento ou respeitador da democracia que Trump vai assumir quanto às intercalares que estão aí à porta. Não se trata de elucubração gratuita, mas antes da invocação de um conjunto de factos e comportamentos reais no passado, que pode ser até escalado se as pseudo narrativas de fraude poderem ser utilizadas para controlo de sítios eleitorais e locais de voto, bem como processos diversos de não reconhecimento de resultados. O problema é que tudo isto não é inventiva criativa, mas antes algo em que Trump tem apostado no passado e que o desespero do seu comportamento de negação do estado real da economia americana pode precipitar.

O que a clarividência de Rubim nos diz é que a hipótese de manipulação declarada dos resultados das intercalares teria um forte impacto económico (daí a invocada interação entre o económico e o político), que adensaria a indeterminação e os riscos que pairam sobre o elevado valor títulos a longo prazo, efeitos que tenderiam a prolongar-se ao longo de toda a administração de Trump no poder. Vale a pena citar o que Rubin considera ter sido o valor histórico de eleições regulares com resultados aceites: “O papel da lei, sustentado por uma tradição de eleições livres e de transferências pacíficas de poder, apoia as decisões de investimento e atrai o investimento de sociedades estrangeiras. Suporta ainda a posição do dólar como moeda mundial de reserva. Favorece a confiança dos investidores na plena confiança e crédito dos EUA e baixa as taxas de juro da nossa dívida. A integridade das nossas eleições, por outras palavras, tem sido um dos fatores-chave da prosperidade económica”.

Temos assim nas palavras de quem teve uma sólida experiência de governação que o destempero político antidemocrático de Trump e seus parceiros mais próximos pode contaminar todas as expectativas dos investidores (os conhecidos “espíritos animais” de Keynes), penalizar o crescimento da produtividade por inibição do investimento, pressionar ainda mais os yields dos títulos do Tesouro e o dólar.

Mas, o que é ainda mais relevante e que mostra que mais americanos estão finalmente a abrir os olhos para a realidade e não para as narrativas construídas a preceito, é a afirmação de Rubin de que nunca esperaria na sua vida ter de escrever para o New York Times um artigo como este. Os alarmes e os sinos tocam a rebate, mas ainda não estou seguro que toda a gente de boa fé, democrata, republicano ou simplesmente cidadão os ouça e aja em conformidade.

 

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A EXTREMA-DIREITA ADOCICA-SE

 

(A entrevista de Alice Weidel, líder da AfD alemã, ao Insider da revista The Economist é um documento de análise obrigatória para se compreender a evolução do discurso da extrema-direita à medida que vai ganhando peso eleitoral e, no caso alemão, uma presença territorial mais alargada e não limitada aos territórios da ex-RDA, ou Alemanha de Leste. De certo modo, o que se vai intuindo do discurso de Weidel já se tinha percebido nos posicionamentos de Le Pen em França e de Meloni em Itália, caso paradigmático desta última, porque foi o primeiro caso de presença direta na governação da extrema-direita e também nas instâncias comunitárias. Em Espanha, o VOX de Abascal não tem essa inteligência e por cá a trajetória de Ventura e do Chega é mais errática do que adocicada. Nas palavras de Weidel existe de forma clara um propósito de suavização da imagem e de conotação com os extremismos de direita, o que acontece em simultâneo com a reafirmação de questões-chave de posicionamento com relevo principal para a posição marcadamente anti-Ucrânia que a líder da AfD manifesta despudoradamente. O argumento pérfido é o de que a Ucrânia é “um país pequeno” (???) que já perdeu e que a manutenção da guerra com apoio da União só vai aumentar a insegurança alemão, Aqui o discurso não é de adocicamento ou de suavização, mas a continuidade de expressão de um egoísmo securitário que brada aos céus.)

A contradição do discurso de Weidel relativamente à ameaça russa é por demais evidente. Por um lado, considera que a continuidade do apoio europeu e alemão à Ucrânia tenderá a colocar o território alemão sob a mira russa. Por outro, desvaloriza totalmente as evidências de guerra híbrida levada a cabo por Putin, negando mesmo que o incidente de Leipzig tenha qualquer relação com a ofensiva russa.

A manifestação mais óbvia de adocicamento é a sua desesperada tentativa de demonstrar que a AfD não alberga extremistas de qualquer espécie, quando é conhecida a ligação existente entre personalidades da AfD e grupos nazis e etno-nacionalistas, declaradamente xenófobos. A intenção de suavização estende-se às questões da imigração, a propósito da qual Weidel dá uma no cravo e outra na ferradura, considerando que existe população que deve abandonar a Alemanha pelo facto dos seus países de origem já não estarem em guerra (Síria, por exemplo), mas defendendo por outro a permanência de profissionais.

Quer isto significar que a dimensão nacionalista e pró-russa irá persistir no discurso e na prática política, enquanto as dimensões do extremismo mais violento irão ser colocadas debaixo do tapete, com mescla de posições em relação ao surti imigratório. Trata-se de matéria a monitorizar sobretudo do ponto de vista de saber se essa será também a tendência em França e na Itália e proximamente em Espanha se o VOX vai ou não aproximar-se do poder na sequência das próximas eleições.

A entrevista pode ser visualizada aqui, bem como um pequeno texto de resumo da mesma aqui.

 

FADADOS PARA A PEQUENEZ DO FÁCIL?

Os exemplos acima não passam disso mesmo: exemplos. Mas não deixam de ser sintomáticos do estado em que está o País, apreciação que é generalizável a quase todas as áreas. Aqui refere-se o Governo, hoje cheio de peito perante o brilhantismo com que tratou da “resolução” do problema dos manifestantes das tendas em praças de Lisboa e Porto mas ontem com “o rabo entre as pernas” a apelar pelo fim das atuações “egoísticas” e a declarar a sua compreensão perante a dor dos que sofrem por falta de casas ou de condições para a elas acederem. O mesmo Governo em que o ministro dos Negócios Estrangeiros exibe a sua “imensa felicidade” (cito Miguel Sousa Tavares) por ter chegado ao seu ponto aspiracional mais alto de surgir num palanque ao lado de Marco Rubio a ser apresentado como o representante de “um grande entre os grandes aliados” dos EUA de Trump ou, ainda, em que a ministra da Justiça não tem mais defesa para apresentar em relação ao seu colega da Administração Interna do que afirmar que o dito está a gerir o processo da melhor forma que sabe (se é muito ou se é pouco, só os humores do vento e da PGR o irão clarificar). E depois temos a economia, essa que está bem e se recomenda segundo as autoridades – a ponto de já termos os brasileiros ricos a investir mais no nosso imobiliário do que nos EUA (embora sejam as vítimas do mercado que o pagam!) ou a CML a conceder milhões em borlas fiscais aos festivais musicais que tanto ajudam a sustentar a qualidade do nosso turismo feito elemento vital do nosso autoproclamado crescimento sustentável. E assim se vai cumprindo um fado que só varia nas margens...

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

DEBATE FALHADO, TEME-SE O PIOR...

 

 

Ontem à noite cometi novamente um erro que insisto em tornar recorrente: o de acreditar no interesse histórico do direto e assim entrar pela madrugada dentro para assistir a um debate televisivo, no caso o das presidenciais brasileiras entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro – resultado: um verdadeiro flop! O primeiro é um político cheio de experiência e obra mas que agora vai mostrando cada vez mais que a predominância do recurso à ronha se esboroa inapelavelmente com o tempo; o segundo é um trapaceiro puro que afirma e promete tudo e o seu contrário sem cuidar de qualquer intencionalidade ou sentido. Pelo que chegou mesmo a ser doloroso observar aquele debate vazio (porque nem as escassas afirmações de índole programática continham mínimos de coerência e rigor capazes de poderem ser encaradas a sério) e estritamente acusatório no plano pessoal, familiar e político-partidário. Como pode continuar a ser uma sina inultrapassável, num país com o gigantesco potencial do Brasil, que a escolha do seu grande responsável presidencial redunde numa espécie de redução ao absurdo, ou seja, em sucessivas demonstrações demagogicamente tentadas por um e outro dos lados de que o outro é pior? Para quando a recusa de um mal menor e a mobilização de uma sociedade rica e plena de energia em prol de uma defesa lógica e estruturada das suas gentes e dos seus interesses? Acorda Brasil!


E LÁ SE VAI A CREDIBILIDADE DO FED USA PELA ÁGUA ABAIXO!

 


(Muita gente se recorda, e torceu então o nariz por esse facto, do modo como Kevin Warsh chegou a chairman do FED USA, com o estatuto de enviado especial de Trump para tratar do assunto. Ao mesmo tempo, era também conhecida a odiosa perseguição que Trump moveu a Lisa D. Cook membro do Conselho de Governadores do mesmo banco central, perseguição que tudo indica os órgãos judiciais americanos competentes acabaram por travar, pelo menos até ao momento. Warsh, que não é destituído de inteligência, tudo tem feito para ocultar essa dependência original, assumindo uma mais que estranha parcimónia de comunicação, que muitos entenderam como uma tentativa de responder em simultâneo aos compromissos a que está obrigado pela sua função de Chairman e de não irritar o seu Amo e Senhor inicial. Em post anterior, redigido a propósito do Nobel de Economia deste ano, atribuído e a Michael Woodford e Robert Hall, tentei mostrar que Warsh está errado em querer ocultar-se numa parcimónia comunicacional se essa poupança de palavras significar abdicar de expressar com clareza a chamada forward guidance do banco central, ou seja, de ser rigoroso quanto ao que realmente os agentes económicos podem contar em termos de intervenção futura do FED.)

Informação mais recente, conhecida a propósito das reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial realizadas em Bangkok na Tailândia, evidencia que Warsh labora no mesmo erro, sendo agora inclusivamente mais claro saber por que o faz, e isso está indissociavelmente ligado às eleições intercalares americanas e à necessidade de não comprometer a narrativa de Trump quanto à economia americana, tudo vai bem e a inflação é uma construção falsa da realidade.

Mas o que disse então Warsh na sua alocução perante a conferência anual do FMI?

Respondendo à esperada questão de saber o que é que o FED fará no futuro, Warsh disse algo do tipo: “Não avalio antecipadamente as reuniões (do Conselho de Governadores). Não acredito em dizer agora o que posso fazer nas reuniões que temos programadas para este ano. É um novo capítulo no FED e JÁ NÃO ESTAMOS MAIS NESSE NEGÓCIO.”

O que Warsh quis realmente dizer quando deixou cair a máxima de que o FED já não nesse negócio foi o de transmitir a ideia de que o banco central abdicou de transmitir explicitamente as orientações de forward guidance. Ao expressá-lo de forma tão efusiva e coloquial, Warsh comunicou de facto que o FED abdicou do que contribuiu para a sua credibilidade junto dos agentes económicos e dos mercados e que tornou os seus objetivos de inflação credíveis. E fê-lo para espanto de todos no coração de uma inflação que não está controlada. Sem surpresa, os rendimentos (yields) dos títulos do Tesouro a 10 anos desde julho passado, compatível com o que os mercados pensam quando não se sabe os compromissos a que o banco central aceitou submeter-se. A afirmação de Warsh em Bangkok não fez mais do que precipitar ainda mais essa indeterminação.

Parece um jogo de loucos. Mas poderão dizer alguns que Warsh não acredita na consistência do pensamento sobre a forward guidance que os Nobel de Economia deste ano defendem e que, tal como outros departamentos da administração Trump, encontrará sempre um intelectual submisso para justificar tão estranha abdicação.

Estão enganados, redondamente. Warsh é bem mais prosaico e pragmático. Não se pronunciando sobre a forward guidance, o que Warsh pretende na prática é não influenciar o ambiente económico em que as intercalares de novembro próximo irão ocorrer, não desagradando ao seu Amo e Senhor. Imaginem que, seguindo o pensamento dos restantes Governadores, Warsh expressava a orientação de que a subida das taxas de juro de referência iria continuar, porque a inflação não parece controlada. Isso significaria dizer que o ambiente económico americano tem a inflação à perna. Ora isso contrariaria a narrativa de Trump e mostraria o carácter patético do acordo sobre o gasóleo com Putin.

Tudo isto é demasiado estranho, quando na mesma alocução Warsh fez referência ao significativo aumento da procura agregada na economia americana, determinado pela Mega despesa de investimento em inteligência artificial.

Em resumo, como lucidamente Marcos Nunes o sublinha, Warsh não vai dizer aos mercados se vai ou não aumentar as taxas de juro de referência, não dirá o que é que o pode levar a aumentar mais essas taxas e não se comprometerá sobre qual é o significado que atribui à estabilidade de preços.

E lá se vai a credibilidade do banco central, que não se define por decreto, mas antes pela consistência das suas decisões, reunião após reunião de Governadores.

Mas o que vale isso face à necessidade absoluta de evitar um descalabro eleitoral?

Nada, absolutamente nada, o que diz bem sobre o que toda esta gente afinal é e como se apresenta.