(Faço minha a cenarização de interrogações que as eleições intercalares americanas de hoje suscitam a Bradford DeLong, em cujo substack podem encontrar um guião precioso para acompanhar a evolução dos resultados. Esta transição de outubro-novembro até ao Natal que se avizinha, culminando nas eleições de 27 de novembro em Espanha, traz-nos um mar de inquietações e dizia o Inimigo Público com graça que o consumo de tranquilizantes iria aumentar desmedidamente por estes dias. O Brasil de Lula aquietou alguns espíritos mais pessimistas e em Espanha as coisas estavam a compor-se quando senão quando o acidente de Urda-Toledo colocou cá fora de novo a infernal sucessão de insultos e manipulações políticas de uma tragédia, que deveria ser compreendida com mais rigor, a bem da segurança que uma rede de alta velocidade tão extensa como a espanhola deveria garantir. As eleições intercalares americanas de hoje elevam o frenesim a uma outra escala, essencialmente por duas razões: primeiro, porque ninguém pode garantir que os resultados tenham uma aceitação democrática, segundo porque todo o mundo, que está cansado do autoritarismo comprador de Trump, olha para estas eleições com preocupação, mas também com esperança. O cenário de interrogações que Bradford DeLong concebeu para acompanhar tão relevante ato eleitoral pareceu-me adequado, para eu próprio construir um posicionamento mental equilibrado quanto aos resultados que as urnas nos poderão trazer. Será que os Democratas vão cavalgar uma onda gigante de entusiasmo? Ou será apenas uma onda que colocará Trump na defensiva e mostrará aos Democratas que muito terão de trabalhar para encontrar um candidato ganhador? Ou teremos apenas uma oscilação democrática normal, do tipo que costuma acontecer nas intercalares, com a imagem do cartão amarelo à administração no poder a dominar as atenções? Ou teremos uma desilusão que aumente o nosso pessimismo e nos revele que não entendemos nada do que a sociedade americana no fundo é, muito para lá das atmosferas do New York Times ou da New Yorker?)
A abertura com que DeLong coloca as alternativas possíveis do que pode estar hoje a acontecer nos EUA é útil para compreendermos que a nossa perceção das atrocidades que a administração Trump e o seu clube mais próximo de seguidores têm praticado é uma visão distante e diferenciada do modo como o eleitorado americano as pressente, designadamente o eleitorado tradicionalmente republicano e o eleitorado volátil que não tem uma marcada filiação partidária. Ou seja, aquilo que aos nossos olhos europeus se apresenta como atentados alarves às regras democráticas e formas extremas de mercantilização da política pode ser visto para muitos americanos como a sublimação do seu ressentimento, do seu descontentamento e sobretudo do seu desprezo pelas elites mais qualificadas, aderindo a forças que em última instância se estão a borrifar para essas situações pessoais.
É verdade que Trump não tem conseguido impor as suas diferentes narrativas de negação a um clima geral em que a “affordability” do americano médio (por mais indefinido que seja hoje este padrão) está fortemente penalizada pela sua aberrante política económica, com destaque para o preço do gasóleo que continua a não refletir o desesperado acordo com Putin. Além disso, a imagem de grandeza que o presidente americano tem procurado reganhar para os EUA tem sido fortemente prejudicada pelas entradas em falso na guerra com o Irão. Poderá dizer-se que não há fanfarrão que sempre dure e Trump, ainda que produza opinião de forma quase instantânea, não tem conseguido projetar essa ideia de grandeza de forma consistente, principalmente porque essa fanfarronice não é inocente nem neutra do ponto de vista da tal “affordability”.
Não quero por isso arriscar um prognóstico para os resultados de hoje, apenas esperando que os 25% de probabilidade de termos uma enorme desilusão não se verifique. Três em quatro das alternativas de DeLong garantirão algum consolo.








