quarta-feira, 6 de maio de 2026

A IRREVERSIBILIDADE DA BELA E SUSTENTADA AVENTURA DO INESC TEC

 


(Chegou-me hoje à caixa do correio eletrónico o Relatório de Atividades de 2025 do INESC TEC e o seu valioso conteúdo é um belo e fundamentado pretexto para uma breve reflexão sobre o que a trajetória desta instituição representa como indicador do que pode ser a evolução da ciência e tecnologia em Portugal. Acompanhei de perto no âmbito da minha vida académica e profissional a génese da criação das instituições de interface Universidade-empresa, fortemente alimentada por gente ligada à tecnologia que regressava ao país com doutoramentos de grande qualidade realizados em instituições americanas e europeias muito prestigiadas. A visão que traziam da ciência e tecnologia que por lá se fazia contrastava obviamente com o estado de letargia das instituições universitárias, com algumas exceções de que seguramente a Faculdade de Engenharia do Porto era um bom exemplo. A dinâmica dessas instituições de interface cedo se revelou uma lufada de ar fresco no sistema científico e tecnológico, com progressão não necessariamente homogénea, mas abanando definitivamente a instituição universitária e a investigação e desafiando a própria Universidade a conviver com essa nova realidade institucional. O que me parece espantoso no INESC TEC, fórmula institucional que resultou ela própria de inovação institucional e de autonomização de um projeto que começou com dimensão nacional, o INESC, é o modo de êxito com que se processou a evolução geracional na instituição. Hoje, quando leio o relatório de 2025 e me fixo nas fotografias que o acompanham já obviamente não reconheço praticamente ninguém da geração que fez a “revolução na ciência e tecnologia” (com exceção do Professor José Manuel Mendonça), embora muitos deles estejam ainda ativos como Professores Eméritos. Mas a maneira como a sucessão aconteceu é seguramente um caso de estudo numa instituição que já ultrapassou os 40 anos de vida e que continua a notabilizar-se com uma trajetória de progressão, que honra o próprio conceito de inovação.)

Os números que o referido relatório projeta na nossa atenção são de facto um espanto, mostrando-nos com evidência suficiente o que é efetivamente uma massa crítica de investigação e translação de conhecimento, em oposição clara aos movimentos de atomização e não consolidação institucional que resultam frequentemente da multiplicação de iniciativas em busca de financiamento quje por vezes se instala neste domínio.

Os números publicados são, de facto, impressionantes. Chegar praticamente a em 2025 aos 40 milhões de euros de financiamento, dos quais a maior fatia (15,5 milhões de euros de programas de cooperação com a indústria, quase 40%), representa um feito, que é em si um farol de orientação para a investigação e transferência de tecnologia. O financiamento via FCT foi apenas de 1,6 milhões de euros, os serviços e consultoria de investigação nacional e internacional de 3,9 milhões de euros e o financiamento europeu (beneficiário destacado do programa HORIZON) 11,6 milhões de euros. A ideia de massa crítica agiganta-se quando percebemos que a massa de recursos humanos é de 1.199, dos quais 272 têm ligações a Faculdades, que 401 dos investigadores em exercício têm doutoramento e que acolhe ainda 125 técnicos de I&D com doutoramento, a que se juntam mais 166 técnicos de I&D.


Com base na AMP, a rede INESC TEC transcende hoje essa localização, como a figura anterior o evidencia.

É importante assinalar que o INESC TEC se afirma cada vez mais como uma instituição de ciência e de tecnologia. As suas áreas científicas com investigação relevante publicada estão bem definidas: inteligência artificial, bioengenharia, comunicações, ciência e engenharia de computadores, fotónica, energia, robótica, engenharia e gestão de sistemas. Mas a dimensão da inovação está bem definida, aliás comprovada pelos resultados alcançados em termos de registo de patentes (56 famílias de patentes ativas): agroalimentar, comunicações, energia, saúde, indústria, mar. Nesta última dimensão, o INESC TEC tem sido uma das raras instituições nacionais consequentes em matéria de investimento na nossa tão proclamada vocação marítima. O recente lançamento do INESCTEC.OCEAN, Centro de Excelência em Investigação e Engenharia Oceânica, assinala bem a coerência desse empenho, capitalizando conhecimento que a instituição tem desenvolvido em áreas que cruzam a economia azul, como a robótica marinha e a energia, por exemplo.

A trajetória traçada pelo INESC TEC nestes 41 anos de atividade mostra com clareza como é possível desenvolver no contexto de uma instituição de referência uma articulação inteligente entre investigação científica, inovação e transferência de conhecimento e tecnologia. O que não significa que essa mesma instituição não seja dinâmica na cooperação no interior do próprio sistema de inovação regional Norte e também no próprio sistema nacional de inovação.

Penso que a Faculdade de Engenharia do Porto tem gerido bem a interação com uma instituição que teve nela a sua origem, o que não significa inexistência de tensões e a própria Universidade do Porto pode capitalizar o facto de ter no seu ecossistema uma instituição com esta pujança.

Instituições como o INESC TEC, mas também como o INEGI e o I3S, por exemplo, são em meu entender o farol para seguir e orientar a evolução do sistema científico e tecnológico nacional. Obviamente que nem todas as instituições existentes conseguirão atingir a excelência e a massa crítica aqui bem evidenciadas. Mas esta parece ser a orientação certa. E a dinâmica de autonomia que estas instituições tenderão a consolidar significará que serão as Universidades a ter de adaptar-se a esta realidade e não o contrário. Por isso, considero que a leitura deste relatório de atividades é uma excelente oportunidade para compreender os rumos futuros do sistema de ciência e tecnologia em Portugal. Oxalá assim suceda e que a nova Agência, que funde a FCT e a ANI, mesmo que criticada, possa compreender que esta é a orientação mais promissora.

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

É O QUE TEMOS!

 
(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

Marcelo era beijoqueiro e selfista, mas tinha momentos fora da caixa que surpreendiam pela positiva apesar do seu conservadorismo essencial. Seguro começa a definir-se: previsível, hesitante e politicamente correto (para não dizer pouco corajoso) – na campanha, teve a única ousadia de afirmar que vetaria aquele pacote laboral, o que hoje certamente lamenta pelo transtorno que tal está a dar ao seu pretendido bom entendimento com o primeiro-ministro; enquanto este enredo em torno da lei do trabalho não encontra uma saída airosa para as diversas partes envolvidas, o Presidente decidiu promulgar o decreto que altera a Lei da Nacionalidade que fora aprovado no Parlamento por PSD, CDS-PP, Chega e IL.

 

Para não se ficar pelo ato – profundamente contrário a uma desejável lógica integradora dos cidadãos imigrantes que crescentemente nos procuram e por cá pretendem fazer vida (p.e., os cidadãos estrangeiros passam a precisar de dez anos de residência legal em Portugal para obter a nacionalidade ou enquanto até agora uma criança nascida em Portugal podia ser considerada portuguesa de origem se um dos pais residisse no país há pelo menos um ano, mesmo sem título de residência formal, a partir de agora passa a ser necessário que um dos progenitores resida legalmente em Portugal há pelo menos cinco anos), gente que é ademais a exclusiva base possível em que assentará alguma potencial dinâmica demográfica do País e a resolução de muitas dimensões de empregabilidade determinante na atual fase da nossa sociedade  –, Seguro lá deixou registadas algumas reservas e precauções apaziguadoras da sua má consciência (como a ideia de que “uma lei de valor reforçado com a importância da Lei da Nacionalidade deveria também assentar num maior consenso em torno das suas linhas essenciais distanciando-se de eventuais "marcas ideológicas do momento") e cujo conteúdo restritivo bem o poderia ter conduzido a optar por um outro caminho.

 

Habituemo-nos, pois. É o que temos e será o que teremos por mais uns largos anos. Com o “Chega” a controlar a agenda política e a manietar o nosso tão garboso Montenegro e respetivos apaniguados, o discurso da pequenez e do moralismo ocupará o centro do nosso espaço público tendendo a imperar em nome de uma aparência de estabilidade cujo caráter enganoso só emergirá, eventualmente, perante novos – e indesejáveis mas prováveis – choques exógenos de diversa ordem e alargado espetro.


(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

segunda-feira, 4 de maio de 2026

CÂNDIDO MOTA

 

Nunca conheci pessoalmente Cândido Mota, o recém-falecido locutor de rádio que comecei a admirar desde os tempos em que apresentava, no “Rádio Clube Português”, o lendário programa “Em Órbita” que tanto contribuiu para a minha formação musical em matéria de música popular de expressão inglesa, ali por volta do meu 4º/5º ano do liceu (1967/68) e beneficiando também do alto patrocínio dos professores de Inglês do então Liceu D. Manuel II (sobretudo Manuel Rocha Brito Guimarães, que tinha a alcunha de “Cochise” e era o principal animador de umas aulas de celebração muito inspiradas no que se ia ouvindo no “Em Órbita”, e Maria Esmeralda Lopes de Almeida) e de alguns colegas já mais entrosados no assunto (sobretudo, na minha turma, o José Manuel de Almeida César de Sá e o José Jaime Carvalho Ferreira).

 

Ao que hoje se sabe, o dito programa tinha produção de Jorge Gil e Pedro Albergaria e começara a emitir regularmente em abril de 1965 com Pedro Castelo na voz. Depois, Cândido Mota tornar-se-ia a voz que durante mais tempo identificou o programa, um período que coincidiu com a minha religiosa atenção ao que por lá ia passando a partir das 19 horas, entre o melhor da música anglo-saxónica em formato LP e com foco em autores-intérpretes (Beatles e Rolling Stones, Beach Boys e Bee Gees, The Kinks e Manfred Mann, The Who e Otis Redding, Bob Dylan e Donovan, Doors e The Byrds, Jimi Hendrix e The Animals, Traffic e The Mamas & The Papas, Led Zeppelin, Moody Blues e Deep Purple, Jefferson Airplane e Procol Harum, Creedence Clearwater Revival e Cat Stevens, Simon & Garfunkel e Janis Joplin, Joan Baez e Peter, Paul and Mary, Fairport Convention e Cream, Jethro Tull e Pink Floyd, Crosby, Stills, Nash and Young e Neil Young), textos eloquentes e escolhas contagiantes (especialmente na edição de final do ano em que se apontavam os melhores e o pior do ano). Em 1967, o programa foi premiado nacional e internacionalmente (Prémio Casa da Imprensa para o melhor programa de rádio e Prémio Internacional Ondas, respetivamente) e foi atravessado por uma polémica associada à sua passagem de uma música em português (“A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, da banda “Quarteto 1111” liderada por José Cid).

 

No meu imaginário, Cândido Mota representou muitíssimo e ficou para sempre. Fui-o ouvindo e vendo a espaços, sobretudo em “O Passageiro da Noite” e em programas de Herman José, mas o que me ficou foi aquela referência essencial. Soube agora que era filho de uma fadista conhecida (Maria Albertina), natural de Espinho e militante do PCP (com sucessivas presenças sonoras na “Festa do Avante”). Aqui fica a minha homenagem a um cidadão e a um profissional que andou por aí sem grandes alardes mas com a sabedoria de vida que tantos amigos nele destacam – do meu lado mais egoísta, fico-lhe a dever os enriquecedores contributos com que a sua voz foi alimentando e preenchendo os meus fins de tarde, os meus sobressaltos cívicos e os meus amores. 

PARADIGMAS ENERGÉTICOS

 


(Nos bons tempos que já lá vão em que lecionava economia da inovação e do conhecimento na FEP, matéria que então dominava as atenções dos estudiosos do crescimento económico e da explicação dos seus ritmos a longo prazo, havia uma matéria que prendia a minha atenção e criatividade pedagógica. Tratava-se de estudar a sucessão dos paradigmas tecnológicos e estudar as condições através das quais um determinado paradigma tecnológico se sobrepunha aos demais, dominando a cena da inovação. A dita matéria suscitava-me interesse porque era das poucas em torno das quais era possível despertar a atenção e criatividade dos alunos, a larga massa dos quais já nessa altura manifestava alguma propensão para a indiferença, não sendo fácil despertar a sua curiosidade. O valioso e diversificado material empírico já então disponível para concretizar, por exemplo, os termos da superioridade que os motores de combustão vieram a apresentar facilitava muito o trabalho pedagógico. Uma das ideias fundamentais que resultava dessa valiosa bibliografia era a de que a substituição de um paradigma tecnológico por outro mais pujante nos seus índices de inovação nunca acontecia abruptamente e com a morte súbita do velho paradigma substituído pelo novo. A luta acesa pelo mercado de inovação inscrevia-se numa duração temporal que poderia ser longa, com avanços e recuos, até que a superioridade no mercado de uma dada tecnologia era por ele assumida. Uma outra ideia chave era a de que, sendo embora um elemento fortemente influenciador, a superioridade científica e tecnológica de uma dada tecnologia poderia não bastar para afirmar a sua superioridade face às restantes, designadamente no que respeita às tecnologias incumbentes. Outra coisa bem interessante, que deixarei de fora neste post, é a luta entre diferentes tecnologias emergentes que lutam entre si para se afirmarem na superiorização face à velha tecnologia. Toda essa literatura ensina-nos que essa superiorização depende também de um conjunto de condições complementares, por exemplo a formação de qualificações intermédias e superiores para suportar a superioridade dessa tecnologia, a existência de mão de obra e de quadros especializados, a existência de serviços técnicos especializados de suporte, o modo como a I&D pública e empresarial se organiza e a própria influência das políticas públicas que tanto podem dar uma mãozinha à nova tecnologia ou defender a tecnologia incumbente.)

Este fim de semana veio-me à cabeça todo esse vasto espólio da economia da inovação para tentar compreender a sucessão complexa entre paradigmas energéticos, que se alonga já há algum tempo e sobre a qual estamos, em meu modesto entender e à luz da economia da inovação, longe de assistirmos à superiorização que muita gente espera que venha a acontecer para o campo das renováveis.

No caso dos paradigmas energéticos existem especificidades que implicam a utilização com cautela de todo o vasto espólio teórico a que anteriormente me referia. O que está em causa é a oposição entre o que por vezes dá a entender ser um paradigma em agonia, o dos combustíveis fósseis, mas que por vezes parece ressurgir das cinzas, face às alternativas das renováveis e da energia nuclear.

Em primeiro lugar, a “luta” entre estes paradigmas tem sido fortemente influenciada não por grandes e disruptivas inovações no plano estritamente tecnológico, mas antes pela pressão de condicionantes externos – em primeiro lugar a transição climática e, mais recentemente, com os acontecimentos bélicos, invasão da Ucrânia pela Rússia e ataque dos EUA-Israel ao Irão e bloqueios sobre o estreito de Ormuz - que introduzem, por si só, mudanças disruptivas no fornecimento de petróleo e derivados e de gás natural. Por outro lado, a chegada ao poder de Trump e da sua camarilha alterou de novo as regras de jogo dos estímulos da política pública, desmontando a opção da administração Biden pelas renováveis e favorecendo despudoradamente os interesses fósseis. Mas a administração Trump está hoje em apuros para acabar com uma crise energética que ela própria suscitou. Ao contrário do que seria imaginável, as grandes petrolíferas americanas da ExxomMobil e da Chevron têm-se recusado a aceitar os pedidos da Casa Branca para aumentar a produção de petróleo.

Neste contexto complexo para a clarificação de um paradigma sobre outro, o paradigma elétrico tem avançado, sobretudo na China, que domina praticamente todas as indústrias elétricas e tomou a dianteira na mobilidade elétrica. Mas a opção pelas renováveis, solar e eólica, em terra e marítima, embora em franca progressão, curiosamente até em estados Republicanos nos EUA como o Texas, continua a enfrentar argumentos de relativização do seu potencial de crescimento, como a intensidade do vento e das horas de exposição solar. Do ponto de vista do contributo das condições complementares, neste caso das atividades de investigação e desenvolvimento, podemos dizer que as renováveis têm sido fortemente apoiadas por I&D de grande valia, por exemplo em matéria de baterias e de modelos de otimização e mitigação dos efeitos decorrentes da instabilidade de produção (eólica, sobretudo) e da sua introdução em redes de distribuição que devem apresentar estabilidade, sob pena de riscos de segurança. O apagão ibérico que deixou em nós profunda preocupação poderia ter sido um excelente momento para discutir com alguma frieza e racionalidade as vantagens e inconvenientes das renováveis, mas a delicadeza política, mais em Espanha do que em Portugal, de identificação com clareza das causas do apagão tenderá a não concretizar a valia desse momento.

Mas em matéria de luta entre paradigmas, não daria por totalmente adquirida a ideia de que a opção nuclear esteja fora do combate, embora não a defenda. Essa impressão foi avivada pela leitura da entrevista de Pedro Sampaio Nunes ao suplemento P2 do Público do passado domingo, que tem a virtude de nos trazer um adepto da opção de construção de quatro centrais nucleares em Portugal, com clareza de ideias e que não se esquiva ao debate. A personagem foi Diretor da Comissão Europeia para as Novas Tecnologias da Energia e secretário de Estado da Ciência e Inovação no efémero governo de Santana Lopes. A entrevista é muito informativa sobre o estado da investigação em matéria de evolução da energia nuclear e também, indiretamente, para compreender como é que esta perspetiva avalia a inelasticidade supostamente existente de aumentar muito mais a produção de renováveis.

Regressando ao meu tema de início, embora devamos reconhecer que os fenómenos exógenos da guerra tendem a introduzir nesta questão um contexto muito particular, a sucessão dos paradigmas energéticos ilustra bem a importância de um correto entendimento do modo como um dado paradigma tecnológico se superioriza a um outro. Não se trata de uma questão de superioridade tecnológica tout court. É algo mais complexo e com uma duração que, no caso da transição energética, talvez transcenda temporalmente a minha geração. A não ser que algo de imprevisível possa acontecer. Essa é a grande verdade – a inovação não se consegue antecipar plenamente, podemos, isso sim, é hoje compreendê-la depois dela se manifestar e ter conquistado o mercado.