domingo, 15 de fevereiro de 2026

CIÊNCIA ECONÓMICA VERSUS BASÓFIA DE TRUMP

 

(O momento que a economia americana atravessa é particularmente estimulante para discutir a questão de saber quem é que está com a razão, a ciência económica ou, pelo menos, parte dela ou o discurso fanfarrão de Trump, seja no universo das promessas com que se apresentou aos americanos, seja no modo como ele próprio avalia o estado da economia. É importante referir, entretanto, que para quem se reporta ao momento do setor da bolsa de valores como indicador de desempenho macroeconómico, pode construir uma narrativa positiva da evolução atual da economia americana. Os índices bolsistas americanos parecem validar o bom momento da economia americana, mas como sabemos o mercado bolsista não representa um indicador completamente fiável do desempenho macroeconómico. Além disso, como nem toda a população possui títulos cotados em bolsa e consequentemente tem acesso aos níveis de riqueza que a valorização bolsista proporciona aos detentores de títulos cotados, pode acontecer, e muito provavelmente é o que presentemente acontece, pode gerar-se uma enorme contradição e desvio entre o comportamento da bolsa e a perceção do estado da arte de “affordability” que o cidadão mediano expressa quando avalia a sua capacidade de acesso a bens e serviços com o seu rendimento mensal. A existência deste gap é conhecida, repete-se frequentemente nas economias com informação macroeconómica mais pormenorizada e neste caso pode ser artificialmente empolada pela especificidade do discurso de Trump, que confunde quase em permanência a sua visão do estado da economia com a avaliação o mais objetiva possível dos indicadores e evidência macroeconómicos. É sobre este gap que gostaria de construir o post de hoje, de novo em confronto tenaz com o desaparecimento do sol e o regresso da chuva, agora miudinha e irritante…)

Uma das promessas de Trump e do movimento MAGA em geral que não está a ser confirmada é a sua ideia de que as suas políticas iriam fazer acordar o gigante industrial americano adormecido, trazendo de novo à indústria transformadora a sua capacidade do passado de proporcionar aos americanos ressentidos as perspetivas de emprego que perderam no passado recente. Tal como Adam Tooze o destacou no seu Chartbook, o ano de 2025 revelou um comportamento regular de perda de emprego na indústria transformadora, apagando claramente a ideia de renascimento industrial com que Trump embelezou o seu programa disruptivo de protecionismo entendido como arma de guerra.

Este é muito provavelmente o tema em que a ciência económica resiste bem ao discurso fanfarrão de Trump. É de uma longa mudança estrutural que se trata impulsionada pelo desenvolvimento económico da economia americana, logo um processo que, embora passível de oscilação conjuntural, acaba por se tratar na queda do emprego na indústria transformadora, sendo discutível se essa queda é apenas percentual (peso no total do emprego) ou se integra também uma queda absoluta dos níveis de emprego industrial (indústria transformadora). A proteção aduaneira agressiva com que Trump pretendeu estimular a produção industrial americana ignorou a dimensão crucial dos produtos intermédios, matéria em que a economia americana continuou dependente de fornecimentos chineses. A impreparação da disrupção aduaneira provocada levou inclusivamente algumas indústrias americanas a ser penalizadas, porque viram os seus consumos intermédios com preço aumentado devido aos direitos aduaneiros lançados sem uma racionalidade económica. O Departamento de Comércio da administração Trump deu mostras de dominar mal a compreensão das cadeias de valor globais e sobretudo o avanço de competitividade que alguma produção asiática revelava no mercado. Por conseguinte, neste tema a criatividade inventiva do discurso de Trump não parece capaz de contrariar o que a ciência económica da mudança estrutural de longo prazo anunciava. O problema não está, assim, na perda de emprego industrial sentida por alguns (muitos) americanos. O problema estará na sua eventual incapacidade de encontrar ocupação alternativa para as competências que apresenta, com ou sem necessidade de formação profissional indutora da adaptação no mercado de trabalho.

O segundo tema está relacionado com este último e pode ser descrito pela interrogação que Krugman colocou aos seus leitores – afinal quem está a pagar os direitos aduaneiros impostos pela administração Trump? Uma coisa sabemos, em matéria de receitas públicas nada de novo está a acontecer em relação ao esperado– a administração Trump está a receber rios de dinheiro com os direitos lançados.

Tal como no tema do renascimento manufatureiro, a administração Trump apresentou-se contrariando o pensamento dominante da ciência económica nesta matéria. Quem estaria a pagar os direitos aduaneiros não seriam os consumidores e empresas americanos, mas antes os fornecedores estrangeiros que para continuar a entrar no mercado americano tenderiam a absorver esses custos. Também aqui a evidência que vai sendo conhecida tende a mostrar que não têm sido os fornecedores estrangeiros a suportar o ónus da política comercial protecionista de Trump. O que está a dar algum fôlego e esperança à administração americana é que os estudos que documentam não serem os fornecedores estrangeiros a suportar o ónus da medida revelam também que os dados da inflação americana não estão compatíveis com esse ónus anunciado sobre os consumidores e empresas americanos. O que do ponto de vista da ciência económica é uma questão relevante e que merece ser analisada em profundidade.

O estudo realizado pelo Banco da Reserva Federal de Nova Iorque mostra que no mês menos penoso para os consumidores e empresas americanos, a repartição do ónus aduaneiro recaiu 86% nos importadores americanos e 14% nos estrangeiros. O efeito sobre os consumidores americanos pode estar a ser minimizado pela descida de lucros de empresas importadoras. Mas o que constitui o dado mais curioso indicado por Krugman é que o impacto previsto no aumento dos preços no consumidor, admitindo que todo o peso dos direitos passaria para os consumidores, seria apenas de 1%. Este número é surpreendentemente baixo e o economista americano explica-o por dois motivos essenciais: as importações representam apenas 11% do PIB americano e o aumento efetivo das tarifas ficou bastante aquém do discurso anunciado por Trump, designadamente através da errática política de isenções praticada pela própria administração americana em função dos impulsos do Presidente.

                                                                (Paul Krugman, artigo citado)

Krugman analisa com pormenor as razões pelas quais o comportamento da inflação está abaixo do previsto. O carácter aprofundado da análise transcende o alcance deste post, recomendando-se por isso a leitura do artigo do economista americano. Não é possível para já afirmar com segurança por quanto tempo o peso do ónus dos direitos aduaneiros nos importadores americanos e não nos fornecedores estrangeiros irá continuar a não ter fortes repercussões na inflação americana. Mas o que é curioso é que, embora a administração Trump tenha errado na ideia de que seriam os fornecedores estrangeiros a suportar os custos, a verdade é que por agora parece estar a salvo da ameaça da inflação. O que não é despiciendo do ponto de vista da tão falada “affordability” para o cidadão mediano americano, não necessariamente detentor de títulos cotados em bolsa.

Moral da história: a ciência económica vence mas o discurso de basófia de Trump resiste em parte.

 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

JUNO E LUPERCUS

(excerto de Nicolas Vadot, http://www.levif.be) 

O dia de Sol com que fomos brindados e alguns compromissos e afazeres agradáveis mantiveram-me fora dos meandros associados a este espaço. Ainda assim, e com a jornada a terminar, importa que os frequentadores deste “mundo de brutos” não deixem passar em claro momentos simbólicos como os do Dia de São Valentim que o 14 de fevereiro consagra em celebração do amor, vulgo dos relacionamentos amorosos. Nesta ocasião, e num plano completamente diverso, quero aqui também recordar a figura do meu progenitor, desaparecido nesta mesma data há exatamente meio século.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

INTEMPÉRIES E ORGANIZAÇÃO TERRITORIAL DO ESTADO

 


(Coimbra parece ser a Nação e nos dois últimos dias foi um fartote mediático de bom relacionamento entre Presidente da República, 1º Ministro feito Ministro da Administração, Ministra do Ambiente, APA e Proteção Civil, pelo menos ao nível dos que revelaram maior notoriedade perante as câmaras. Toda a gente percebeu que Ana Abrunhosa, Presidente da Câmara Municipal de Coimbra com uma das vitórias mais relevantes das últimas autárquicas, caiu no goto das televisões e, diga-se de passagem, com toda a justiça, pois experiência, sensatez e capacidade empática de comunicação é coisa rara. Daí que Presidente da República (que tão maltratou Abrunhosa enquanto Ministra a propósito do PRR e da execução dos Fundos Europeus) e 1º Ministro vissem em Coimbra um grande furo para fazer esquecer a primeira semana de intempérie. Neste contexto, bem podia a execrável Tânia Laranjo no Correio da Manhã farejar mais desgraças que o centro das atenções estava em Coimbra. Ponto. Vejam se por acaso se a cena foi repetida em Alcácer do Sal. Não e não terá sido por acaso. Como é óbvio poderíamos aqui falar do gigantesco esforço de reconstrução de que o País vai necessitar para mitigar a enorme vulnerabilidade de grande parte da dotação de capital físico instalado no território, exposta cruelmente pela severidade continuada do vento e da chuva persistente. Essa matéria fica para outra oportunidade. A reflexão que gostaria hoje de vos propor prende-se com algo que me gerou alguma perplexidade. Muito boa gente utilizou as intempéries e a pelo menos aparente descoordenação sobretudo visível na primeira semana com a Kristin a varrer a martirizada região Centro para dissertar sobre a organização territorial do Estado e muitos deixaram mesmo que lhes saíssem alguns votos pios sobre a regionalização. Deu-me um certo gozo que a elite da capital representada por Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal se mostrasse impressionada pela qualidade dos autarcas, como esta gente é distraída, admitindo até o seu eventual interesse por uma solução de regionalização. De lágrimas de crocodilo estou eu cheio e não acredito que regressando o sol e os rios a regressar às suas margens estes votos pios cheguem ao céu…)

Não é para me sentir do contra e embirrar com tudo e mais alguma coisa que vos deixo uma opinião talvez controversa, mas que traduz bem o estado da arte da minha reflexão sobre as insuficiências do nosso modelo de organização territorial do Estado, tal como ele hoje se apresenta. Em meu entender, os estados de intempéries e de crises graves da proteção física das populações são o pior contexto possível para se esgrimir argumentos a favor ou contra a regionalização.

Em primeiro lugar, devo-o dizer com toda a frontalidade, que a descoordenação que por vezes é sentida quer na tragédia dos incêndios, quer nestes acontecimentos extremos das últimas semanas, não se explica pela ausência ou pelo contrafactual de existir hipoteticamente regionalização. Vejamos o exemplo dos últimos dias. À evidência óbvia e clara de descoordenação na primeira semana (depressão Kristin) sucedeu, por exemplo, esta semana a bem coordenada intervenção sobre a cheia do Mondego, com a relação APA, Governo, Câmara Municipal e Proteção Civil a funcionar na perfeição e não foram seguramente os belos olhos da Ana Abrunhosa a assegurar o êxito da coordenação. Inêxito e êxito a serem observados exatamente com a mesma estrutura de organização territorial.

De facto, o modelo de organização dos serviços da Proteção Civil (e os especialistas pululam nos ecrãs de televisão) devia ser um caso de estudo, sobretudo do ponto de vista das alterações que tem vivido. É nesse quadro que deve ser reequacionada a eficácia das suas estruturas regionais e locais e sobretudo o modo como se articulam com o comando nacional e como o processo de decisão é assumido.

Convirá termos bem presente que a efetiva introdução do nível regional na organização territorial do Estado, e não o arremedo de situação que a nova configuração das CCDR representa, suscita novos problemas de organização e grandes desafios ao processo de tomada de decisão. Estranhamente deixamos de falar no célebre princípio da subsidiariedade que a União Europeia nos trouxe, ela própria hipotecando o princípio para gerir os egos institucionais de alguns dos Estados-membros. Qualquer processo de reorganização do modelo territorial do Estado deve colocar no centro da reflexão o problema dos custos de coordenação e de transição que o processo de decisão em qualquer modelo de organização territorial.

Por tudo isto, na resposta necessária às intempéries e aos seus efeitos devastadores é o modelo de tomada de decisão colaborativa que deve ser reanalisado e sobretudo afinado para não se inventar em função do desconhecido.

E, se quiserem discutir com elevação e sentido de oportunidade o modelo regional, escolham outro contexto, designadamente no âmbito dos temas da previsão, manutenção e ordenamento, tendo como contexto novo, a severidade climática e a multiplicação dos seus extremos. Não será tão mediático, nem serão necessários uniformes tão coloridos. Mas é nesses contextos e sem tabus que o assunto deve ser rediscutido.

E não esqueçamos uma evidência assustadora. A gestão da pandemia em Espanha, com comunidades regionais fortes, foi um autêntico desastre. Estamos capazes de discutir estas evidências com abertura de espírito? Se a resposta positiva contem comigo. Caso contrário, como costuma dizer-se, já dei para esse peditório. E, obviamente, nunca deixarei de ser um adversário persistente do centralismo.

(Correções de pequena monta introduzidos em 14.02.2026 às 11.50) 

 

A ESPANHA POLÍTICA EM EQUAÇÃO INDETERMINADA

(cartoon de Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es) 

Pedro Sánchez é um osso muito duro de roer, disso estamos hoje bem certos. E possui ainda duas qualidades importantes na política: a coragem e o voluntarismo, este frequentemente voltado para ímpetos transformadores socialmente relevantes (como a já aqui aflorada regularização extraordinária de imigrantes ou o projeto de proibição de acesso a redes sociais a adolescentes). Mas é cada vez evidente o seu desgaste, após uma longa e muito negociada permanência no poder e vários erros graves (alguns talvez evitáveis) entretanto cometidos.

 

As eleições do próximo ano antecipam, portanto, uma quase natural viragem à direita, pese embora o facto de Feijóo estar sujeito a marcações cerradas por parte de companheiros internos e vir revelando insuficiências prejudiciais a um aspirante à chefia governativa, tanto mais quanto diversas eleições regionais recentes vão indiciando que a extrema-direita de Abascal não abdicará de condicionar o PP ou mesmo de o forçar a entendimentos pós-eleitorais de incidência executiva. Daí que importe surfar a onda, rechaçando linhas vermelhas eventualmente impeditivas deste tipo de acordos (ainda que com a proclamação, mais piedosa do que real, de que sempre existirá o limite da lei e da Constituição) – ou seja, a Espanha prepara-se para ser mais um país europeu a aceitar ideários extremistas no governo, confirmando assim a comprovada moleza da democracia perante os seus inimigos de que já se aproveitava Goebbels. Por outro lado, e no terreno socialista, Felipe González (FG) sinaliza o seu desagrado com o “sanchismo” e vai mesmo ao ponto de adiantar que votará em branco e não num PSOE liderado por alguém que o está a destruir – sendo óbvio que FG está envelhecido e largamente desligado do partido, não deixa de ser sintomático que ele eleve a sua voz para defender a necessidade de caminhos alternativos para o socialismo democrático.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O INTRIGANTE CASO DE MARIA LÚCIA

Durou oito meses e cinco dias o calvário de Maria Lúcia Amaral (MLA) e, obviamente também, o de nós todos por tabela e vergonha alheia. Depois de Margarida Blasco, um manifesto mas talvez mais compreensível erro de casting, Montenegro escolheu MLA para a Administração Interna repetindo o seu erro de modo ainda mais inexplicável, considerados os elementos curriculares mais recomendáveis da Professora e a completa inexperiência da mesma em funções executivas com exposição mediática relevante cumulativamente com um modo de ser e estar simpático, discreto e até tímido.

 

A culpa das prestações quase constrangedoras a que assistimos por parte da Ministra é, portanto e primariamente, do primeiro-ministro. Não obstante, MLA não deixa de ter a sua quota-parte de responsabilidade, especialmente porque está acima de qualquer lógica e racionalidade que tenha aceitado desempenhar um cargo sabendo não dispor das condições mínimas para tal – tivesse sido ela convidada para a Justiça, ou até para a Defesa, e certamente que outro galo cantaria ou poderia ter cantado.

 

Excesso de ambição, curiosidade pelos alçapões e esconderijos do poder, vontade de protagonismo e notoriedade, ingenuidade política abissal, priorização puerilmente patriótica do serviço público, inépcia em termos de autoavaliação, eis algumas das possíveis motivações que levaram MLA a corresponder ao convite impensado (ou oportunista?) de Montenegro e, em continuidade, ao penoso calvário a que acima me refiro. O certo é que a senhora volta para casa maltratada e com o rabo entre as pernas, ao que se diz ainda sem compreender porque não a deixavam absorver cuidada e invisivelmente os dossiês para assim devidamente os dominar, decidindo com toda a propriedade num quadro de fomento da aprendizagem coletiva. Só que não é assim que funciona, Senhora Professora, muito menos num mundo tão mediaticamente enformado quanto o que nos envolve e onde o ávido veneno das redes sociais dita inapelavelmente as regras de qualquer jogo, política mais do que incluída.

 

Deixo a terminar os meus votos sinceros de muita saúde e feliz gozo de merecida aposentação para a ex-ministra – Catedrática de Direito Constitucional na UNL e também ex-juíza e vice-presidente do Tribunal Constitucional, ex-Conselheira de Estado e ex-Provedora de Justiça – que a soberba de Montenegro manchou, alguém cujas qualidades o País assim ingloriamente terá acabado por desaproveitar...