Itamar Ben-Gvir é atualmente o ministro da Segurança Nacional de Israel. Mas muito mais do que isso ele é o líder de uma extrema-direita radical, um autêntico carrasco do povo palestiniano, um criminoso condenado e o homem que tem Benjamin Netanyahu – que, como temos visto, está longe de ser um passarinho... – literalmente acorrentado num governo em que o seu apoio é indispensável. Bem-Gvir é hoje o nosso “herói”, só para que aqui conste o nome de um autêntico monstro dos dias que correm. As suas façanhas são incontáveis, quer por serem muitas quer por serem abaixo de mínimos de decência, sendo que o vídeo que exibiu sobre a forma desumana e afrontosa como tratou os ativistas da flotilha que se deslocava para Gaza é apenas mais uma de tantas. Desta vez, a opinião pública internacional exibiu o seu desagrado em voz relativamente elevada – até tivemos o nosso Montenegro a defender uma suspensão parcial do acordo com Israel! – e assim vieram ao de cima vários contributos no sentido de poder ser denunciada com alguns possíveis efeitos práticos a violência inaudita, que roça claramente o genocídio, com que Israel vem agindo no Médio Oriente. Quem diria que tudo isto proviria dos representantes legítimos de um povo judeu que tão sacrificado foi pelo nazismo há pouco mais de oitenta anos?
sexta-feira, 22 de maio de 2026
ISRAEL EM VISÍVEL DESCRÉDITO
quinta-feira, 21 de maio de 2026
O PORTO TAMBÉM TEM DESTAS COISAS...
Lembram-se quando circulavam pessoas na rua com um autocolante que dizia “Não tenho culpa, não votei AD”? Já foi há uns anos largos mas a prática sempre me pareceu uma boa forma de produzir uma crítica cirúrgica ao governo instalado e suas políticas. Pois ao ler a notícia de que Pedro Duarte estará prestes a reduzir a vereação do PS na Câmara Municipal do Porto, passando-a dos seis eleitos nas listas do partido para quatro por via de dois refratários/arrependidos (um logo concretizado à saída das eleições, a outra alvo de um “’namoro’ que se prolonga há meses e poderá estar em vias de se concretizar”), aquela velha prática veio-me à cabeça. O que me leva a sentir-me tentado a aqui vir declarar publicamente, em nome de uma lógica de vergonha alheia múltipla e multifacetada, que não tenho culpa porque não votei PS nas últimas eleições autárquicas – e tal assim foi não só mas também porque a lista proposta por um Manuel Pizarro incompreensivelmente néscio e deslumbrado não me oferecia garantias de cumprimento de mínimos olímpicos para a respetiva validação; sobretudo por duas razões pessoalizadas naqueles dois candidatos refratários/arrependidos.
O “Público” tem vindo a referenciar ao longo dos anos várias dimensões das carreiras dos dois candidatos em causa pela sua referida mudança de camisola. Trata-se, afinal, de uma espécie de gestores, sendo um mais cultural em sentido estrito e outra igualmente cultural mas mais “pau para toda a colher”. A praça pública e/ou a vox populi integram episódios de vária ordem com epicentro nos mesmos – em termos recentes, mas longe de serem exclusivos: “Jorge Sobrado foi acusado pelo Ministério Público de ter violado as leis da contratação pública quando era vereador da Câmara de Viseu, com o objetivo de favorecer um grupo empresarial privado” e “vai responder pelos crimes de prevaricação e participação económica em negócio”; Francisca Fernandes, segundo uma peça da “Sábado” e uma crónica de João Miguel Tavares a ela ligada (“Francisca Carneiro Fernandes e os conflitos de interesses”) “adjudicou ao marido €115.069 em contratos [sete ajustes diretos] quando era a presidente do Teatro São João”.
Mas nem foram estes e outros incidentes potencialmente judicializáveis que sobretudo determinaram aquela minha decisão cidadã, antes sim a perceção de questões comportamentais indiciadoras do modo de ser e estar dos ditos na profissão e na vida. As pequeníssimas resenhas das suas deambulações mais recentes que abaixo se reproduzem a partir de títulos do “Público” ilustram nas entrelinhas o que tem estado em causa, designadamente através do jogo de aproveitamento pouco escrupuloso de Sobrado perante a ofuscada dupla Rui Moreira/António Cunha e da insinuante exploração por Francisca dos seus alegados atributos perante outra dupla improvável (Rui Moreira/Pedro Adão e Silva); deixando de lado as diatribes de Sobrado em Viseu e as voltas que foi trocando ao malogrado Almeida Henriques, bem assim como aquelas que fizeram de Francisca uma girl do tolerante Moreira em tudo quanto mexia na Cultura do Porto para acabar na administração da “Go Porto” depois de uma passagem pelo CCB, o que resulta de mais lamentável politicamente é o modo como o PS e Pizarro se deixaram envolver nesta teia pardacenta de gatos traiçoeiros.
Uma palavra final para Pedro Duarte (PD). Há que reconhecer a habilidade com que tem gerido este aumento da sua representatividade no executivo camarário do Porto, nada se lhe podendo assacar quanto aos “namoros” que tem feito e ao respetivo sucesso. Ainda assim, PD discute política semanalmente na CNN, no quadro de um programa designado por “O Princípio da Incerteza” mas que já se intitulou “A Quadratura do Círculo”, e lá vai levando a água ao seu moinho através de um jogo de palavras tipo “uma no cravo e outra na ferradura” que o começam a colocar como passível de uma leitura indefinida ou até assética. Claro que o presidente do município não quer, nem pode, romper ou contrariar significativamente Montenegro – noblesse oblige... Mas a sensação que tenho é a de que PD vai ter, mais cedo do que tarde, de assumir posições firmes e próprias para que a sua colagem ao governo não resulte em perda de espaço junto dos seus concidadãos eleitores – e talvez a dimensão regional pudesse ser uma boa oportunidade para empunhar um estandarte que é popular e não afronta em excesso os medos do líder laranja. Uma matéria a revisitar aqui, talvez um pouco mais lá para a frente.
SÓ ME FALTAVA ESTA (ESTE) …
(Devo confessar que me sinto zonzo e “noqueado” e não é pelo calor que me atormenta nesta tarde que antecipa anomalamente o verão, o que é hoje uma anomalia climática? O atordoamento tem epicentro em Espanha, cuja situação política evolui em vertigem permanente. Explico-me. Pertenço desde já há longa data ao grupo dos que se identificam com a esquerda progressiva, democrática e imune a tentações totalitárias. Estou também no grupo dos que pensam atualmente que esses princípios de esquerda progressiva têm de ser revistos à luz dos desafios que a Internacional do Desaforo Antidemocrático coloca às democracias ocidentais e dos que se revêm no modelo que tornou possível a era dourada dos anos 50 e 60, em plena recuperação dos traumas da segunda guerra mundial que a minha geração conheceu, não por experiência vivida, mas por relatos dispersos de quem a viveu e sobretudo pela literatura. A indiciação por corrupção grave de que o ex-primeiro ministro espanhol, socialista, Rodriguez Zapatero foi, por estes dias, objeto é um abalo telúrico não sei já de que grau na escala mais exigente de medida desses abalos. Especialmente, porque Zapatero foi primeiro-ministro de um Governo que, além de não ter no seu curriculum, do seu líder e dos seus ministros, qualquer caso de corrupção conhecido, é agora indiciado por alegada participação no resgate aéreo da companhia aérea PLUS ULTRA, que envolveu cinquenta e alguns milhões de euros, no contexto da pandemia COVID. Esta indiciação é grave, principalmente porque não envolvendo casos relacionados com a governação dos tempos em que foi primeiro-Ministro, pode ser relacionada e explicada pelo ambiente de corrupção do qual a governação atual do PSOE tem tido extrema dificuldade em demarcar-se, tantos são os casos conhecidos pelos nomes próprios de Ávalos, Koldo, Aldana e outros que tais que se têm sucedido nos últimos anos. A indiciação de Zapatero representa um abalo telúrico da vida política espanhola porque vem em convergência clara com as denúncias e ofensiva políticas que a direita do PP tem vindo a realizar quanto ao ambiente acolhedor da corrupção com que Sánchez se tem aguentado no poder. Obviamente que a presunção de inocência ainda é uma realidade no Estado de Direito e a ida a tribunal para declarações de Zapatero no início de junho aclarará se a indiciação tem condições para avançar para uma acusação, tudo indica que sim.)
O meu atordoamento tem uma razão simples. Obviamente que, em momentos em que a esquerda progressiva e democrática perde a relação direta e virtuosa com as populações pelas quais a defesa dos seus valores é afirmada, o risco de caminhada para a irrelevância política é muito elevado. A verificar-se, dá normalmente origem a processos longos de regeneração interna e de procura de novos intérpretes, cuja génese é necessariamente lenta, porque é difícil encontrar novas alternativas de intérpretes e de grande expressão m ambientes e contextos que partilharam e protagonizaram essa desconexão com as causas justificativas dos seus valores. Mas quando um protagonista representativo dessa esquerda progressiva e democrática se deixa envolver com questões de corrupção, a queda é bem mais grave e estrondosa. Isso acontece porque a mediatização e confirmação dessas derivas não só enfraquece a VOZ dessa esquerda progressiva, mas também e fundamentalmente porque acrescenta combustível ao crescimento em mancha de óleo da tal Internacional do Desaforo Antidemocrático.
Podemos registar que, em Espanha, apesar deste abalo, a direita radical do VOX parece por estes dias mais interessada em cavalgar as ondas da nacionalidade, considerando que a invasão imigratória é mais lesiva dos interesses dos espanhóis, o que não deixa de ser surpreendente. Mas isso pode ser fruto de um posicionamento circunstancial.
O que me parece evidente é que a eventual indiciação confirmada em acusação fundamentada de Zapatero significará algo de muito mais grave do que uma desconexão com os temas que interessam às populações menos favorecidas.
É por isso que se trata de um abalo telúrico de grandes proporções.
quarta-feira, 20 de maio de 2026
ZAPATERO: APENAS MAIS UM?
Entre um achincalhante qualificativo de “comissionista internacional” caçado pela justiça, como refere o nada meigo e duvidosamente isento “El Mundo”, e acusações de corrupção, liderança de uma rede de tráfico de influências e cabeça de uma estrutura criminal estável e hierarquizada, José Luis Zapatero voltou às primeiras páginas de todos os jornais espanhóis pelas piores razões, embora de algum modo já expectáveis a partir das muitas informações que têm circulado sobre as suas atividades subsequentes ao período em que exerceu o cargo de presidente do governo (como foi o badalado caso do seu relacionamento próximo com a Venezuela de Maduro). Ainda em fase de presunção de inocência, Zapatero está de algum modo numa situação similar à do nosso José Sócrates, i.e., acusado mas não condenado, sustentando o seu permanente respeito pela legalidade e sendo encarado pela opinião pública do país como culpado indesmentível de ilicitudes múltiplas forjadas a partir de tipos variados de relacionamentos que o exercício político lhe abriu.
A pergunta que se impõe é sempre a mesma: porque não há limites para a ganância desta gente? E porque será que a dominante nos seus conflitos íntimos tende a ir no sentido de sobrepor essa ganância à ambição de poder e visibilidade, à vaidade pessoal e a um são reconhecimento coletivo? E porque será, mais prosaicamente, que eles não atentam nos exemplos falhados e frequentemente desgraçados dos vizinhos do lado? Quanto à resposta, tenho de me ficar pelas lições que extraí da História – dos imperadores de tantos impérios antigos aos ditadores dos tempos modernos –, pelas abordagens que inúmeros intelectuais nos legaram – sempre com a tal “banalidade do mal” a planar nas essências – e pelas perceções que me chegam da vida comum – há um primado do “eu” que cresce desmedidamente à medida que vamos incorporando o que nos rodeia com olhos de ver – para concluir pela incorrigibilidade da crise moral em que flutuamos sem que um qualquer contraponto exemplar de elites dignas desse nome nos ofereça um possível sustentáculo sólido de diferença.
terça-feira, 19 de maio de 2026
O CDS EM EXISTÊNCIA ASSISTIDA
Nuno Melo vive o momento áureo da sua carreira (?): após um passado recente de hesitações de toda a espécie sob o disfarce de uma prolongada função de eurodeputado em que se arrastou pelas cadeiras de Bruxelas e Estrasburgo, acabou por se decidir a tomar conta de um CDS-PP em extinção e conseguiu, nesse quadro, encontrar forma de o conseguir ao tornar-se o emplastro de Luís Montenegro (LM), ajudando a ressuscitar uma AD requentada e já nada auspiciosa. Como a sorte sorri aos audazes, LM ganhou as eleições à tangente e fez dele ministro da Defesa Nacional (lugar que desempenha com notório agrado pessoal e dos seus acólitos, gafes para debaixo do tapete à parte).
No último fim de semana, o partido lá teve de fazer o seu congresso e, portanto, Melo desdobrou-se em entrevistas e declarações sob o signo que o “Público” tão bem descreveu como o seu dilema: “sobreviver na AD ou existir sozinho” (Paulo Baldaia, no “Expresso”, caraterizou o dito dilema como “entre ser o atrelado de duas rodas ou o partido da mota”). Entretanto, e enquanto “o pau vai e vem”, a habilidade de Melo levou-o a saber folgar as costas, quer explicando aos “laranjinhas” que um CDS a votos sozinho levaria a que o PSD pudesse perder o poder em favor do PS ou do Chega, quer manifestando ao seu pequeno e embevecido povo uma vontade férrea de que o partido seja maior no futuro, quer tirando da cartola que “o CDS é um viveiro de talentos” como modo de retorquir a quem lhe lembrava as muitas saídas de militantes que têm vindo a ocorrer.
No cômputo geral, e pondo de lado as crenças virtuais de que Melo se socorre para prolongar o seu estatuto liderante, a verdade é que o CDS já era. Por um lado, porque tem perdido os seus melhores e mais credíveis quadros (e não falo apenas de António Lobo Xavier ou António Pires de Lima, mas também de Adolfo Mesquita Nunes ou Filipe Lobo d’Ávila ou até do renascido ex-líder Francisco Rodrigues dos Santos, para não sublinhar ainda as ausências por Alcobaça de Cecília Meireles ou Assunção Cristas, entre várias outras de relevância enquanto compagnons de route do partido), estando cada vez mais circunscrito a um pequeno séquito de seguidores acéfalos do presidente (como se observa na empregabilidade dominante nas lides locais, como se viu claramente no Congresso, e como decorre dos quase 90% nele obtidos junto dos delegados). Por outro lado, porque está representado na Assembleia da República por um personagem reacionário até à última potência (Paulo Núncio), o que poderia não ser um mal por si só (pese a sua objetiva proximidade “chegana”) se não acumulasse com o facto de ser demonstradamente capaz de jurar o que for preciso para tentar fazer valer as suas (não) razões – e foi sem grande espanto que o vimos impor a sua ideia imaginariamente diferenciadora de avançar autonomamente em matéria de revisão constitucional... Por fim, porque a passagem do tempo e das vicissitudes de mudança que o acompanham não favorece um partideco sem ideias (vejam-se as improcedentes declarações do novo porta-voz João Almeida sobre os maiores problemas sentidos pelos portugueses no primeiro dia do Congresso) e, portanto, porque a única voz lúcida e razoável que passou por Alcobaça foi a de Diogo Feio quando veio propor aos seus companheiros de desdita que se deixassem de músicas celestiais e pensassem seriamente em algo de útil e estratégico, a saber, uma “Aliança Democrática Liberal” traduzida num bloco constituído por PSD, CDS e IL, assim se logrando forjar uma recomposição partidária gerida em lugar de uma situação em que todos acabem submetidos ao desfecho funesto que é inevitável para uns e que parece difícil de evitar para outros.
Não obstante, nada disto parece penetrar a couraça da indiferença de Nuno Melo, inebriado pelo sucesso da sua própria sombra. Embora também possa vir a valer uma outra verdade, a de uma realidade que é frequentemente mais dinâmica do que dela se espera – o que leva a que não me espantasse que alguma hoje imprevisível aceleração dos acontecimentos pudesse vir a impor-se em sentido contrário às expectativas daqueles que são os atuais membros de uma espécie de comissão liquidatária da democracia-cristã portuguesa...
A USURA DO TEMPO BANALIZA A EXTREMA-DIREITA
(A persistência da banalidade do mal na sociedade contemporânea segundo Clarice Lispector)
(Ainda na sequência do lio eleitoral em que o PP espanhol está mergulhado com a perda da maioria absoluta na Andaluzia, lio esse que se estende à política espanhola e à governabilidade do país, formulo complementarmente algumas reflexões sobre o significado político do descalabro generalizado que atinge o centro-esquerda praticamente por toda a Europa. O facto da extrema-direita que aguarda expectante a possibilidade de influenciar a governação em muitos países, realidade em meu entender já em curso, tem sido apontada por muitos analistas como exemplo de assinalável resistência democrática e também como oportunidade de preparação de alternativas de governação por parte do centro-esquerda. Se é verdade que na grande maioria dos países o acesso à governação por parte da direita radical tem sido, o que não significa, repito, inexistência de influência na governação, já a emergência de alternativas geradas pelo centro-esquerda tem sido um deserto completo. O que traduz razões profundas ainda não debeladas para o afastamento do poder, seja a grave perda de confiança que sofreu por parte do eleitorado mais desfavorecido, seja a ausência de rumos de esperança para os mais novos. Mas, em meu entender, a presença continuada e expectante da direita radical à porta da governação gera outros efeitos, bem menos positivos do que os sinais de resistência democrática ou do que a abertura de oportunidades de regeneração do centro-esquerda. Era sobre esses outros aspetos que gostaria de organizar o post de hoje, enquanto o Alfa Pendular cada vez mais irregular e incapaz de cumprir horários me vai levando a Lisboa para o lançamento de mais um trabalho de avaliação. Tem sido, de facto, esquecido, que onde alguns pressentem o estancamento da extrema-direita, existe um risco sério de habituação do eleitorado a essa presença expectante, o que a meu ver pode conduzir a uma espécie de normalização política da extrema-direita, ou se preferirem à banalização das suas propostas de desmantelamento das instituições democráticas. Este sim é um perigo real, tanto mais relevante quanto mais insistentes e graves forem os problemas de governabilidade gerados pela incapacidade de alternativa do centro-esquerda e pela ausência de maiorias estáveis lideradas pela direita moderada.)
Esta reflexão foi-me sugerida pela pena do jornalista galego Fernando Salgado que, a propósito das eleições andaluzas, escreve na VOZ DE GALICIA que Abascal, o líder truculento do VOX, deixou de assustar o eleitorado espanhol (com a exceção da Galiza em que o PP continua a dominar), não podendo considerar-se que a sua influência política esteja estagnada (ganhou mais um deputado regional face `eleição anterior). O não provocar medo ao eleitor mediano não é senão uma outra maneira de dizer que a presença do VOX está banalizada. Em que é se traduz essa banalização? Traduz-se na evidência de que, apesar da insistência na dissolução democrática, revanchista ou não, isso depende de cada situação concreta, passa a ser considerada um elemento do xadrez político-partidário. O que é a mesma coisa que admitir que as famigeradas linhas vermelhas tendem a dissipar-se e a ser inconsequentes.
É óbvio que este modelo global de interpretação não pode deixar de ser aprofundado à luz de cada situação concreta que as posições expectantes e à porta do poder da extrema-direita europeia apresenta. A título de exemplo, as estratégias do Chega (Portugal), VOX (Espanha), Rassemblement National de Bardella-Le Pen (França) ou AfD Alemanha) podem partilhar elementos comuns e uma carta internacional do desaforo democrático, mas não deixam de projetar elementos específicos no seu trajeto, pelo que poderemos estar perante níveis diferenciados de intensidade e de formas de banalização da sua presença. Mas existe um elemento determinante que é também comum – os problemas de governabilidade que os países apresentem.
Daqui retiro uma importante consequência para o centro-esquerda. Enquanto discute e prepara alternativas de governação, diga-se que não estou otimista quanto aos sinais de que isso esteja a acontecer, o centro-esquerda debate-se com uma interrogação fundamental: deve facilitar a vida, com acordos pontuais, à direita moderada que não quer governar com a direita radical ou, pelo contrário, ao negar esses acordos e essa condescendência, deve precipitar a concretização desse abraço entre as duas direitas, a moderada e a radical?
Tempos difíceis e decisão ainda mais complexa.
De qualquer modo, existe um trabalho de sapa que é compatível com qualquer uma das duas alternativas – combater a banalização do mal que a habituação à extrema-direita tende a provocar.
E a história mostra-nos com clareza quão importante é combater a banalização do mal.













