sábado, 7 de fevereiro de 2026

PUSERAM-ME A REFLETIR...

(Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt)

Luís Afonso deixa-nos hoje nas páginas do “Público” uma questão quase existencial deste “dia de reflexão”, a qual também serviu para me alertar sobre essa necessidade de corresponder a um dever exigido por lei a todos os portugueses. Claro que o que está em causa amanhã não é matéria que possa reclamar de mim, e espero que de uma larga maioria dos meus concidadãos, um aturado puxar pela cabeça, nem as opções em presença são tantas nem tão diversas assim.

Não obstante, haverá no boletim de voto o nome de um candidato cuja polivalência em termos de modo de ser e estar e de posicionamento político remete para uma atrofia essencial em sede de princípios referenciais, de conteúdo propositivo e de decência e escrúpulos democráticos, razão pela qual não serão certamente escusadas quaisquer menções que apontem para a confirmação de, como afirma o próprio, estarmos todos contra ele (até duplas como as de Cavaco e Louçã, Mendes e Gouveia, Moreira e Rio se juntaram a uma multiplicidade de outras mais ou menos improváveis, com a exceção confirmadora dessa regra quase generalizada a ser aquela que Montenegro e Cotrim decidiram formar por confundirem calculisticamente alegadas vantagens de oportunidade política com permissividade à alienação de valores).

 

(Riki Blanco, https://elpais.com)
 

Veremos o que nos reservam os números da noite eleitoral porque, dizem os inteligentes especialistas e comentadores da praça, nada mais será igual para o primeiro-ministro se Ventura subir o seu peso pessoal para valores bem acima do Chega de maio passado e, pior ainda, para valores superiores aos obtidos pela AD naquela ocasião. Não que Montenegro não merecesse que lhe estragassem o brinquedo que tanto o enche de visível regozijo, embora o problema não seja obviamente esse mas o dos respetivos efeitos previsíveis em termos de convencimento e legitimação do populista e, consequentemente, de contributo para a emergência que assim resultará de um estado ainda mais caótico e trágico da situação política nacional. Uma certeza, reconfortante apesar de tudo, é que a escolha deste Domingo se traduzirá numa contagem decrescente para Marcelo Rebelo de Sousa, um personagem com qualidades incontornáveis mas senhor de um ego tão gigantesco que o levou à obsessão de querer ficar na História de Portugal sem que para tal tenha esboçado uma construção coerente de caminhos compatíveis de pensamento e atuação.


(João Fazenda, https://expresso.pt)

UM VOTO DE CORAGEM

 


(Amanhã, a maioria dos portugueses votará, apesar de, para muitos deles, a perceção da fragilidade e vulnerabilidade dos seus territórios, infraestruturas e habitações estar mais clara e esfriar as suas expectativas de um futuro melhor. Atingidos quer pelos efeitos diretos da sucessão de intempéries, quer pela sensação mediática errada de que todo o país está devastado ou inundado, a maioria dos portugueses votará com a afirmação clara de que a democracia vale a pena, mesmo que por vezes a qualidade da governação nos faça duvidar dessa superioridade congénita. É provável, não o sabemos bem, dada a multiplicidade de efeitos que as intempéries podem provocar do ponto de vista eleitoral, que o número de portugueses que associam Ventura à afirmação do ressentimento e da sensação de abandono possa aumentar e assim diminuir o fosso de segurança que existe entre o voto pelo seguro em Seguro e o voto da confusão e do caos político, em que não existe qualquer racionalidade, mas tão só ressentimento, saudosismo e atavismo inebriado pelo passado. Estou em crer que, apesar das condições desfavoráveis em que a votação de domingo pode acontecer e do risco elevado de se confundir má qualidade da governação com malefícios da democracia, a grande maioria dos portugueses vai exercer um voto de coragem e manter o fosso de segurança contra o oportunismo e a sedução pelo caos. A apatia inicial com que o governo, que parece ter perdido o rumo e seguramente a coerência do comando, e a demonstração de que a severidade climática dos acontecimentos extremos continua para alguns ministros e estruturas do Estado a ser literatura de ficção abriram uma passadeira vermelha ao disparar sobre qualquer vulto que surja no ponto de mira em que a campanha de Ventura é perita. Mas mesmo assim, confio que a coragem e a lucidez predominarão sobre os fogachos do voto de ressentimento.)

Mas obviamente que não poderemos ignorar o significado político de uma possível votação em Ventura acima dos 25%. A aparente despreocupação e até enfado com que Montenegro arrastou o PSD para uma não demarcação face a Ventura tenderá a provocar na direita portuguesa um abalo telúrico com inúmeras réplicas subsequentes cuja amplitude e natureza não são para já antecipáveis. Mas neste caso é enganoso admitir que com os problemas na casa dos outros poderemos nós bem. Como partido fundador da democracia portuguesa, qualquer abalo sobre o sistema de valores do PSD pagar-se-á caro em termos democráticos e, por isso, zurzi desde o princípio no analfabetismo político de Montenegro. A uma democracia sólida e consistente não interessa a derrocada do PSD e dos seus valores e posicionamento.

É por isso que, nas condições atuais de ameaças sobre a democracia portuguesa, a péssima gestão da crise das intempéries que o Governo atual nos ofereceu pode ter um sério impacto político, com alguns ministros a revelarem que não têm condições e vocação para governar em circunstâncias como as das duas últimas semanas e que o seu narcisismo de exposição mediática nas redes revela uma patologia profunda. A revelação da descoordenação política no terreno é sempre fatal e tanto mais o é quanto mais grave era a situação em que a devastação colocou as populações.

Aguardemos, pois, com calma e esperança os resultados da votação de amanhã e que os adiamentos de uma semana para alguns concelhos e freguesias constituam uma oportunidade de iniciar a recuperação das condições de vida que esses territórios precisam para recuperar eles próprios a esperança-

 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

JEFFREY EPSTEIN, UM MANANCIAL

O caso do financeiro e abusador sexual de menores Jeffrey Epstein mancha há anos a realidade político-social dos EUA, não sendo a ele alheios nomes tão relevantes como Bill Clinton ou o ex-Príncipe britânico André – nem muito menos o de um Donald Trump que tudo vai fazendo, por todos os meios legais e ilegais para escapar à condenação pública –, constituindo-se numa gigantesca e escandalosa história de desmando e corrupção com desdobramentos de múltiplos tipos.

 

Percebeu-se hoje que Macron está sob pressão em relação a salpicos que atingiram Jack Lang (presidente do Instituto do Mundo Árabe), mas a mais triste das recentemente reveladas passa pelas ligações perversas de Peter Mandelson (membro do Partido Trabalhista que foi membro do governo britânico e comissário europeu) a Epstein (incluindo uma documentada informação da noite de 9 de maio de 2010 relativa a um bailout salvador do Euro no valor de 500 mil milhões de euros que ocorreria, como ocorreu, na manhã seguinte – uma manifesta evidência de manipulação de mercado, de inside trading e de corrupção em alta escala), sendo que o rápido abandono de Mandelson do cargo em Washington não parece ter bastado a muitos deputados e militantes do Labour que agora se voltam contra o primeiro-ministro Keir Starmer responsabilizando-o por tal nomeação a despeito dos avisos e das suspeitas que já circulavam à época – a situação tornou-se deveras complexa e não será certamente ultrapassada sem a entrega de alguma cabeça, muito provavelmente a do chefe de gabinete Morgan McSweeney.

 

Denunciado este episódio, que não tem necessariamente a ver com a assumida homossexualidade de Mandelson mas que terá talvez alguma conexão com a sua postura e prestação enquanto comissário do Comércio de Barroso, o que continua a não surgir no horizonte é uma completa divulgação dos ficheiros escondidos por forma a impedir a cabal clarificação do envolvimento de Trump com Epstein e dos escabrosos contornos de vária natureza a que ele indubitavelmente se alargou.


(Nicola Jennings, https://www.theguardian.com)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

HOMENAGEM A JOÃO CRAVINHO

Ontem participei com enorme gosto na sessão de homenagem ao Engenheiro João Cravinho (JC) que ocorreu na FEP no âmbito de uma iniciativa do Professor José Reis (Faculdade de Economia de Coimbra) visando simultaneamente um tributo ao servidor da causa pública e o estudo da sua obra pelas universidades portuguesas. A sessão em causa fez parte de um ciclo, intitulado “Uma Obra Imensa”, que decorreu nos últimos meses na Universidade de Coimbra, no ISEG, no ISCTE, agora na FEP e proximamente na Universidade do Algarve.

 

Foi-me solicitada uma intervenção subordinada ao tema “João Cravinho e o pensamento progressista antes e depois do 25 de Abril” e assim procurei fazer recorrendo ao meu conhecimento próximo da pessoa e da sua multifacetada atividade, subdividindo a sua vida profissional em dois períodos, um anterior e outro posterior à sua maior visibilidade pública (desde que foi Ministro do Equipamento, Planeamento e Administração do Território do primeiro governo de António Guterres até ao seu desaparecimento em 16 de abril do ano transato). Não me alonguei, portanto, sobre estas três décadas mas a elas me referi sublinhando as quatro dimensões em que JC foi mais ativo e, por vezes, incompreendido: as Obras Públicas (designadamente a ferrovia, a desagregação da JAE, o novo aeroporto de Lisboa ou o Alqueva, sempre com os fundos europeus e a comissária alemã Wulf-Mathies à perna), o Combate à Corrupção (onde o “profundo mal-estar do PS” levou a que se afastasse da vida política e parlamentar – “foi dos maiores choques da minha vida”), a Troika e a Dívida (a mobilização em torno do Manifesto dos 74 ficou a marcar esta fase, durante a qual também escreveu um livro sobre o tema) e a Descentralização/Regionalização (comandando e levando a bom termo os trabalhos de uma “Comissão Independente para a Descentralização” cujo relatório permanece nas gavetas do poder executivo após uma vergonhosa desconsideração por parte do então primeiro-ministro António Costa).

 

Depois mais atenção, portanto, ao período precedente, aquele que se estende da sua licenciatura em Engenharia Civil no Técnico (1959), passa pelo 25 de Abril e tem especial refinamento pensante nos anos 80 do século passado. Num paralelismo algo abusivo chamei a este trajeto que forjou o homem, o intelectual e o decisor público o do “Jovem Cravinho”. No plano político, tive oportunidade de enumerar a sua participação no MES e a sua prematura saída em dezembro de 1974 com o “Grupo do Florida” de Jorge Sampaio, a sua assunção da função de Ministro da Indústria e Tecnologia do IV Governo Provisório (onde teve como Secretário de Estado João Martins Pereira, o executor das nacionalizações de grandes empresas industriais) e a sua intervenção no GIS e a aproximação e adesão (1978) ao Partido Socialista. No plano da reflexão, os meus recortes permitiram-me recuperar contributos inestimáveis de JC em áreas como as dos modelos de sociedade, da política económica (a política restauracionista da AD ou, como alguns se lembrarão o vivo debate em que participou sustentando que “travar a desvalorização do escudo é sacrificar o setor exportador”), da adesão à CEE (“transferência de recursos necessária mas não suficiente” ou “subdesenvolvimento tecnológico como elo fraco”), do investimento e planeamento (“transformações planeadas”, sempre!), da política industrial (substituição de importações, novo protecionismo para a indústria nascente, “não sou partidário do abandono das indústrias tradicionais mas da eliminação rápida dos produtos tradicionais das indústrias tradicionais”, “quem não fez a segunda revolução industrial não fará a terceira” ou “o desafio da convergência das produtividades”) e da liderança e gestão das empresas (“é preciso criar uma nova classe empresarial”).

E por aqui andei numa digressão que não procurei apenas encher de lados substantivos mas em que também recorri a aspetos curiosos ou pitorescos. No essencial, procurei até ao limite do meu saber deixar um testemunho de amizade e gratidão a um homem especial a quem não foi dado, apesar de tudo, o valor devido em função do modo como conseguia aliar inteligência e competência com inconformismo e generosidade. Mantendo sempre um incontornável livre-arbítrio (“faculdade de decidir de acordo com a própria vontade”), talvez melhor do que independência, e um enorme sentido do coletivo.

E LÁ SE VAI A INDEPENDÊNCIA DO FED!

 

(É deveras impressionante o modo agressivo como a administração Trump tem minado a independência de grande parte das instituições americanas, em regra apontadas como garantes dos equilíbrios políticos na sociedade americana, os tão badalados “checks and balances” que já viveram melhores dias. A ofensiva é diversificada e obedece claramente a uma agenda programada. A tentativa de controlo das redes sociais (com a cumplicidade de Musk), a agressividade para com algumas universidades, o ataque despudorado a Estados que votam Democratas (Minneapolis como ilustração maior), intromissão em instituições culturais (veja-se o encerramento “para obras” do Kennedy Center), o ensaio de controlo da justiça, a ofensiva contra as televisões e jornais que não se identificam com a cartilha de Trump, a diversidade é imensa e compreensiva. Já há muito tempo que Trump escolhera o FED como alvo preferencial, daí a ignomínia de um processo judicial contra Jay Powell, no sentido de o fragilizar e precipitar a sua substituição. A ideia é simples, mas despudorada, como tudo o que Trump decide fazer. Trata-se de ter um Banco Central, que seja a VOZ DO DONO e atue no sentido de ocultar as vicissitudes macroeconómico das decisões erráticas e por vezes contraditórias de Trump em matéria de política económica. A nomeação de Kevin Warsh para a Presidência do FED não se revestiu para Trump da mesma facilidade como que por exemplo nomeou gente para o Supremo Tribu nal de Justiça ou para agências públicas importantes, algumas das quais indicando verdadeiros coveiros para ditar a sua extinção ou apagamento. Vale a pena por isso refletir sobre as condições que rodearam a indicação de Kevin Warsh.)

O sempre perspicaz Marcus Nunes do Money Fetish é particularmente explícito quando refere a existência de um importante Banking Act de 1935 que determina expressamente que o Presidente e o Vice-Presidente do FED tenham de ser designados a partir da lista de membros do Board do FED, órgão do qual saem coletivamente as decisões sobre política monetária e política de emprego (dado o duplo estatuto de objetivos do FED). Quer isto significar que a nomeação não tem origem nem em Wall Street, na Academia ou no círculo mais íntimo de amizades do Presidente americano. Ela tem de envolver alguém que já seja Governador do FED.

Em 31 de janeiro de 2026, o lugar de Stephan Miran um consultor económico da Casa Branca que Trump indicara para Governador, expirou abrindo uma vaga que Warsh ocupará para viabilizar posteriormente a sua indicação para Presidente.

Warsh não é um economista desconhecido, o que permitiu a especialistas em comunicação avaliar o teor das suas posições públicas em matéria de política monetária (pese embora a existência de períodos em que Warsh não se referiu ao assunto), pronunciando-se sobre as decisões do Board do FED. As conclusões dessa análise apontam para o pior possível em termos de respeito pela independência do Banco Central. As palavras de Krugman são elucidativas do que vem por aí a propósito do FED: “Ele apoiava a política monetária restritiva quando os Democratas estiveram no poder, mas apoiava a emissão monetária quando os Republicamos ocuparam a Casa Branca”. Em linguagem de mercados e de política monetária, o homem passa de falcão a pomba para servir o seu amo e senhor.

São aliás conhecidas algumas estranhas posições de Warsh. O caso mais flagrante aconteceu quando, em 2015, tentou justificar a política monetária restritiva numa conjuntura de inflação baixa e de emprego fraco.

Quer isto significar que teremos um Presidente do FED disposto a servir o seu Amo e Senhor, o que não significa necessariamente que ele possa influenciar totalmente as decisões do Comité, já que o número de Governadores atuais que prezam a independência face ao Governo ainda são maioritários. Recorde-se que os tribunais barraram a decisão de Trump de querer afastar a Governadora Lisa Cook. Tudo isto até que Trump consiga aproveitar eventuais termos de mandatos para ir substituindo as tropas e acomodar a composição do Comité às suas intenções.

Será que os manuais de política monetária e dos bancos centrais terão de ser revistos?

Esperemos que a presidência de Warsh seja só fumaça. Ressalve-se, entretanto, a coriácia Presidência de Powell, bem melhor e mais apetrechada do que se vaticinava quando foi indicado.