
(Nos
bons tempos que já lá vão em que lecionava economia da inovação e do
conhecimento na FEP, matéria que então dominava as atenções dos estudiosos do
crescimento económico e da explicação dos seus ritmos a longo prazo, havia uma
matéria que prendia a minha atenção e criatividade pedagógica. Tratava-se de
estudar a sucessão dos paradigmas tecnológicos e estudar as condições através
das quais um determinado paradigma tecnológico se sobrepunha aos demais, dominando
a cena da inovação. A dita matéria suscitava-me interesse porque era das poucas
em torno das quais era possível despertar a atenção e criatividade dos alunos,
a larga massa dos quais já nessa altura manifestava alguma propensão para a
indiferença, não sendo fácil despertar a sua curiosidade. O valioso e
diversificado material empírico já então disponível para concretizar, por
exemplo, os termos da superioridade que os motores de combustão vieram a
apresentar facilitava muito o trabalho pedagógico. Uma das ideias fundamentais que resultava dessa valiosa
bibliografia era a de que a substituição de um paradigma tecnológico por outro
mais pujante nos seus índices de inovação nunca acontecia abruptamente e com a
morte súbita do velho paradigma substituído pelo novo. A luta acesa pelo
mercado de inovação inscrevia-se numa duração temporal que poderia ser longa,
com avanços e recuos, até que a superioridade no mercado de uma dada tecnologia
era por ele assumida. Uma outra ideia chave era a de que, sendo embora um elemento
fortemente influenciador, a superioridade científica e tecnológica de uma dada
tecnologia poderia não bastar para afirmar a sua superioridade face às
restantes, designadamente no que respeita às tecnologias incumbentes. Outra
coisa bem interessante, que deixarei de fora neste post, é a luta entre
diferentes tecnologias emergentes que lutam entre si para se afirmarem na
superiorização face à velha tecnologia. Toda essa literatura ensina-nos que
essa superiorização depende também de um conjunto de condições complementares,
por exemplo a formação de qualificações intermédias e superiores para suportar
a superioridade dessa tecnologia, a existência de mão de obra e de quadros
especializados, a existência de serviços técnicos especializados de suporte, o
modo como a I&D pública e empresarial se organiza e a própria influência
das políticas públicas que tanto podem dar uma mãozinha à nova tecnologia ou
defender a tecnologia incumbente.)
Este fim de semana veio-me à cabeça todo esse vasto
espólio da economia da inovação para tentar compreender a sucessão complexa entre
paradigmas energéticos, que se alonga já há algum tempo e sobre a qual estamos,
em meu modesto entender e à luz da economia da inovação, longe de assistirmos à
superiorização que muita gente espera que venha a acontecer para o campo das
renováveis.
No caso dos paradigmas energéticos existem
especificidades que implicam a utilização com cautela de todo o vasto espólio
teórico a que anteriormente me referia. O que está em causa é a oposição entre
o que por vezes dá a entender ser um paradigma em agonia, o dos combustíveis
fósseis, mas que por vezes parece ressurgir das cinzas, face às alternativas
das renováveis e da energia nuclear.
Em primeiro lugar, a “luta” entre estes paradigmas tem
sido fortemente influenciada não por grandes e disruptivas inovações no plano
estritamente tecnológico, mas antes pela pressão de condicionantes externos –
em primeiro lugar a transição climática e, mais recentemente, com os
acontecimentos bélicos, invasão da Ucrânia pela Rússia e ataque dos EUA-Israel
ao Irão e bloqueios sobre o estreito de Ormuz - que introduzem, por si só,
mudanças disruptivas no fornecimento de petróleo e derivados e de gás natural.
Por outro lado, a chegada ao poder de Trump e da sua camarilha alterou de novo
as regras de jogo dos estímulos da política pública, desmontando a opção da
administração Biden pelas renováveis e favorecendo despudoradamente os
interesses fósseis. Mas a administração Trump está hoje em apuros para acabar
com uma crise energética que ela própria suscitou. Ao contrário do que seria
imaginável, as grandes petrolíferas americanas da ExxomMobil e da Chevron
têm-se recusado a aceitar os pedidos da Casa Branca para aumentar a produção de
petróleo.
Neste contexto complexo para a clarificação de um
paradigma sobre outro, o paradigma elétrico tem avançado, sobretudo na China,
que domina praticamente todas as indústrias elétricas e tomou a dianteira na
mobilidade elétrica. Mas a opção pelas renováveis, solar e eólica, em terra e
marítima, embora em franca progressão, curiosamente até em estados Republicanos
nos EUA como o Texas, continua a enfrentar argumentos de relativização do seu
potencial de crescimento, como a intensidade do vento e das horas de exposição
solar. Do ponto de vista do contributo das condições complementares, neste caso
das atividades de investigação e desenvolvimento, podemos dizer que as renováveis
têm sido fortemente apoiadas por I&D de grande valia, por exemplo em
matéria de baterias e de modelos de otimização e mitigação dos efeitos decorrentes
da instabilidade de produção (eólica, sobretudo) e da sua introdução em redes de
distribuição que devem apresentar estabilidade, sob pena de riscos de
segurança. O apagão ibérico que deixou em nós profunda preocupação poderia ter
sido um excelente momento para discutir com alguma frieza e racionalidade as
vantagens e inconvenientes das renováveis, mas a delicadeza política, mais em
Espanha do que em Portugal, de identificação com clareza das causas do apagão tenderá
a não concretizar a valia desse momento.
Mas em matéria de luta entre paradigmas, não daria por totalmente
adquirida a ideia de que a opção nuclear esteja fora do combate, embora não a
defenda. Essa impressão foi avivada pela leitura da entrevista de Pedro Sampaio
Nunes ao suplemento P2 do Público do passado domingo, que tem a virtude de nos
trazer um adepto da opção de construção de quatro centrais nucleares em
Portugal, com clareza de ideias e que não se esquiva ao debate. A personagem foi
Diretor da Comissão Europeia para as Novas Tecnologias da Energia e secretário
de Estado da Ciência e Inovação no efémero governo de Santana Lopes. A
entrevista é muito informativa sobre o estado da investigação em matéria de evolução
da energia nuclear e também, indiretamente, para compreender como é que esta
perspetiva avalia a inelasticidade supostamente existente de aumentar muito
mais a produção de renováveis.
Regressando ao meu tema de início, embora devamos
reconhecer que os fenómenos exógenos da guerra tendem a introduzir nesta
questão um contexto muito particular, a sucessão dos paradigmas energéticos
ilustra bem a importância de um correto entendimento do modo como um dado
paradigma tecnológico se superioriza a um outro. Não se trata de uma questão de
superioridade tecnológica tout court. É algo mais complexo e com uma
duração que, no caso da transição energética, talvez transcenda temporalmente a
minha geração. A não ser que algo de imprevisível possa acontecer. Essa é a
grande verdade – a inovação não se consegue antecipar plenamente, podemos, isso
sim, é hoje compreendê-la depois dela se manifestar e ter conquistado o
mercado.