
(Sempre me intrigaram as rentrées políticas realizadas em
tempo de praia. Primeiro, porque falar de rentrée política num período em que a
maioria dos portugueses que consegue hoje fazer férias é reduzido, sim porque o
número de famílias que não o consegue fazer é crescente, acrescentando com as
férias mais uma questão do tema candente que a affordability constitui,
parece-me ser algo de deslocado e inexplicável. Segundo, porque aquele ar
bronzeado dos personagens políticos que se dignam responder ao convite dos seus
partidos inspira pouca confiança a um público que está mais interessado em ter
novidades para o ano político que se avizinha do que ver ao vivo o que as revistas
cor-de- rosa anunciam, escrutinando os sítios de férias dos personagens políticos.
Terceiro, porque dada a crescente percentagem de portugueses que não pode
deslocar-se de férias para longe das suas residências, centrar a rentrée
política nesses locais é pelo menos mau-gosto e despropósito. O evento do
Pontal em Quarteira, hoje magnificamente infraestruturada por um governo local
do PS, a Câmara Municipal de Loulé, já foi fonte de arrebatamento de PSD’s em
férias, mas isso já foi lá muito atrás no tempo e, por agora, escasseiam-se
lideranças arrebatadoras e matéria para grandes proclamações com trombetas ou
marjorettes a abrilhantar o ambiente e a preparar as massas. Mas a tentação para o abismo dos
partidos em queda é assustadora, o PSD está nesse grupo e, por isso, não se
compreende a insistência num erro, numa coisa que parece fora do tempo da
política de hoje. Visualizando as imagens que foram transmitidas nas principais
televisões, a imagem dos Pontais dos tempos áureos fica presa na memória
longínqua, a indiferença das pessoas presentes foi confrangedora e, sem querer
ser mauzinho, pareceu-me mais um velório político do que propriamente uma
sessão para galvanizar as esperanças num ano político. Ora, não há velório sem
cangalheiro e esse pareceu-me ser Montenegro. É que mesmo entre os dirigentes
presentes, mais ou menos bronzeados, isso não interessa, o entusiasmo era
sepulcral. Por isso, só me ocorreu este título – o velório do Pontal.)
O estilo e habilidade política de
Luís Montenegro não é o de animador deste tipo de eventos que pretendem
recarregar as energias dos militantes. O seu discurso nunca foi arrebatador ou
empolgante e, para mais, o que ele tinha para anunciar era algo de requentado.
Quando a principal novidade pareceu ser a da compra de 13,7% do capital da REN,
adquirindo essas ações ao patrão da Zara, sem que se perceba claramente o que é
que o Governo pretende com essa aquisição, ilustra bem o carácter não
arrebatador do que Montenegro tinha para anunciar. Tanto mais que tinha sido precisamente
o PSD a privatizar a mesma REN, depositando em capitais chineses a condução de
uma das principais infraestruturas do país.
A TAP também surgiu no mesmo pacote,
mas aí o que os portugueses pretendem saber é quem vai conduzir os destinos da
companhia portuguesa nos próximos tempos, compreendendo que desafios vai ter o
cumprimento do serviço público, consoante o grupo de transporte aéreo que irá
ser escolhido.
Além disso, Montenegro ficou-se pela
denúncia do ambiente de gritos e berraria em que a prática do Governo tem sido
apreciada, não se individualizando uma palavra que fosse relativamente aos
assuntos de momento, assuntos que o próprio Governo acabou indiretamente por
colocar na agenda, como são os casos de Luís Neves, de Pinto Luz e da ministra
da Saúde, já que a senhora do Trabalho resolveu pedir pé sangas e dedicar-se à
introspeção que, no seu caso, a irá seguramente conduzir a fazer guerra por
questões laterais em relação ao real funcionamento do mercado de trabalho em
Portugal. Um tema anuncia-se no horizonte que é o da Segurança Social. Quando o
encarregado de estudar a sustentabilidade da Segurança Social é o Professor
Jorge Bravo, o mais declarado apoiante da segurança social privada em Portugal
que tem sistematicamente agitado o espantalho da sustentabilidade da Segurança
Social, não tenho pessoalmente qualquer confiança técnica e científica em alguém,
com aquele perfil, que seguramente não enjeitará as hipóteses que se abram à
sua imaginação para que a dança dos números conduza à opção que sistematicamente
tem defendido. Decididamente, já me estão a «irritar profundamente os silêncios
ensurdecedores do Presidente da República António José Seguro que tem neste
dossier uma grande oportunidade para cumprir as promessas que o conduziram à
eleição. Este é um tema em que a multiplicidade das perspetivas tem de ser
obrigatoriamente assegurada.