terça-feira, 10 de março de 2026

COSTA DISCREPA?

(cartoons de Agustin Sciammarella, http://elpais.com) 

Não tenho qualquer tipo de inside information sobre a matéria e posso, por isso, estar a especular e a laborar em cima de uma perceção sem fundamento. Mas a fonte (“El País”) é credível por si só e ganha ainda com o facto de o gabinete de Teresa Ribera (a comissária espanhola) parecer de algum modo envolvido no assunto. A haver algum fogo para que tenha surgido o fumo, tudo se estará a passar como se Costa tivesse considerado que o seu período formativo de nojo estaria terminado e que chegara o tempo em que deveria ter mais controlo sobre o que lhe vai passando por cima da cabeça, fruto da hoje já indisputada caraterística de centralização decisional e protagonista da Senhora Ursula. E a ser assim, duas notas se impõem: a primeira vai no sentido de um aviso precaucionário à presidente da Comissão porque Costa não brinca em serviço (não querendo ir muito atrás, Seguro, Passos, Marcelo e Mortágua que o digam...) e tem dotes similares aos que fizeram do rei Midas uma imortal figura mitológica; a segunda aponta para a probabilidade forte de Costa estar do lado certo desta vez ao fazer contravapor em relação a uma política alemã que nunca perde uma oportunidade de mandar e ficar na fotografia, pesem embora as suas manifestas limitações em termos geoestratégicos e um modus faciendi por demais duro sob a capa que exibe de ser incapaz de partir um prato.

BASTA DE HIPOCRISIA POLÍTICA EUROPEIA

 

(A convite da Fundación Juana de Vega com sede na Corunha, a minha ida a Santiago de Compostela para tentar descobrir pontes entre Adam Smith e o tema da Euro-região, deu finalmente para ver deliciado o reabilitado Pórtico da Glória da Catedral, trabalho financiado por uma outra importante Fundação, a Barrié, também com sede na Corunha. Santiago tem aquele clima irritante em que nesta altura do ano o frio e a chuva convergem, mas a Cidade continua no seu melhor, com o perigo da turistificação à porta e a festa gastronómica permanente na rua é algo que já passou as fronteiras de uma simples cidade estudantil. O que é alias uma marca galega, pois na viagem de ida o centro histórico de Pontevedra, num domingo de sol na Cidade, estava ao rubro naquela combinação inimitável de gastronomia, convivialidade e direito à rua. Com este contexto e com a preparação da intervenção na Conferência, na qual os Amigos Professora Elisa Ferreira, companheira de viagem, e Francisco Carballo Cruz fizeram excelentes intervenções que valia a pena publicitar[1], obviamente que o tempo para o blogue foi nulo. Na ressaca dessa gratificante jornada, apetece-me hoje falar da hipocrisia europeia perante a guerra iniciada por Trump e Netanyahu no Irão e obviamente escalada através de uma estratégia suicida de resistência por parte do Irão. A posição do Irão assenta teimosamente na estratégia já conhecida de outras guerras no Médio Oriente de tentativa de envolvimento dos países do Golfo e assim agravar os custos económicos da guerra, entendendo, talvez sabiamente, que estes Senhores da Guerra quanto estão perante custos económicos de monta que podem provocar a tão por eles temida reação dos mercados.)

O jornalista Fernando Salgado da VOZ de GALICIA, pelo qual tenho grande apreço, considera e bem que o ataque dos EUA e Israel ao Irão, colocou em evidência uma vez mais as divisões no interior da União. Não está aqui em causa a natureza cruel e até sanguinária do regime teocrático de Teerão, que continua a aniquilar todo o potencial de afirmação criativa de uma vasta população que valoriza a sua cultura milenária, mas que rejeita o fanatismo religioso. O que está aqui em causa é a profunda divisão que o ataque suscitou entre as lideranças europeias, com Salgado a distinguir essencialmente três tipos de reações: a que é liderada por Pedro Sánchez de um claro não à guerra; o grupo dos que assobiam para o lado para não irritar Trump, onde eu acho que Portugal se integra, apesar das tentativas de escapar a esse escrutínio por parte do Governo e de Paulo Rangel; e a posição recentemente enunciada por Ursula von der Leyen de que não devemos derramar uma lágrima que seja pelo regime ucraniano, que não pode ser lida de outra maneira do que mandar às urtigas o direito internacional. A posição de Von der Leyen obrigou mesmo o Presidente do Conselho Europeu António Costa a corrigir a pintura, reforçando a ideia de que a União tem de defender o direito internacional.

Há, por isso, necessidade de denunciar a profunda hipocrisia, que neste caso é uma forma clara de cobardia política, que reina entre as lideranças europeias sobre o discurso a fazer sobre mais este atentado ao direito internacional, sem narrativa fundamentada para suportar a decisão do ataque. E é da mais profunda hipocrisia construir a narrativa de justificação a partir das retaliações iranianas, de ínfima proporção face à força do ataque. Tudo se passa como se exigíssemos ao Irão que, agredido numa face, oferecesse a outra face para suportar mais algumas vergastadas.

A hipocrisia europeia está refém da nova sigla que os media criaram sobre Trump – o síndroma do TACO: Trump Always Chickens Out, que poderíamos traduzir por Trump acobarda-se sempre ou recua sempre nas suas pretensões.

A questão fundamental está em aceitarmos ou não a justificação de que o regime irá cair face à força da devastação como se fosse um baralho de cartas se tratasse. Admito que possa existir essa ingenuidade, mas se assim for, quem nisso acreditar deve enunciar com clareza que apoia a operação nessa base de fundamentação. O que a União Europeia não o faz com clareza. Além disso, a parceria EUA-Israel não assenta num só argumento sólido comum. O que Israel quer sabemo-lo bem, quer instalar o caos no seu raio de alcance e defender-se destruindo tudo e todo que possam comprometer essa defesa. Quanto aos EUA estamos dependentes do vício TACO e, assim, depois de Trump dizer inicialmente que a operação se destinava a implantar a democracia no Irão e eliminar o regime teocrático, rapidamente a posição mudou, dando-se ao desplante de afirmar que gostaria de influenciar a substituição do Líder Supremo, entretanto eliminado, depois da sova dada ao regime teocrático.

A narrativa de que o regime teocrático pode cair com a devastação do ataque é altamente indeterminada, porque, pelo que se sabe, entre as forças políticas de oposição, cujo principal capital humano está no exterior, não parece haver força e organização suficientes para ser alavancadas pela agressão exterior. O enraizamento que o regime teocrático foi conseguindo implantar na sociedade iraniana e a indiferença por medo da repressão consequente que a rejeição dos valores estruturantes foi gerando nessa mesma sociedade torna a narrativa da transformação a partir do exterior um imenso campo de indeterminação. O que significa colocar a questão: arruinar o direito internacional para isto? Mas para quê afinal?

Podemos especular sobre o assunto e perguntar o que é que vai acontecer se o TACO se manifestar uma vez mais e ser claro que o prolongamento dos ataques pode ficar limitado à iniciativa israelita?

Mas o que começa a ser indiscutível é que quanto mais a hipocrisia europeia se consolida mais evidente fica a sua fragilidade no contexto mundial. Não se tem discutido muito o assunto, mas em meu entender Zelensky deve estar apavorado, inferindo da hipocrisia europeia face ao ataque ao Irão o que lhe pode acontecer em termos de apoio europeu com o elefante Trump no meio da sala.

Já não há muita pachorra para tanta hipocrisia.



[1] Interrogo-me frequentemente, sobretudo quando os auditórios que nos escutam são confrangedoramente pouco frequentados e quando a imprensa ou a própria academia não têm qualquer iniciativa de divulgar o que ali foi apresentado, se o esforço de qualificação das nossas intervenções é justificado perante tão escassa divulgação. Obviamente que sobretudo no último dia da Conferência, em que aconteceram as nossas intervenções, o campus da Universidade de Santiago de Compostela estava ao rubro com diferentes iniciativas e, por isso, apesar do entusiasmo do Professor Diego Sande Veiga na organização e dos contactos da Fundação Juana de Vega diria o impacto da Conferência foi muito reduzido. Valeu, entretanto, que a entrevista da Professora Elisa Ferreira à comunicação social, julgo que do Correo Galego, terá salvo a honra do convento. Isto não invalida, obviamente, que esteja imensamente grato ao Professor Diego sande Veiga e à Fundação pelo convite e pelo acolhimento.

 

segunda-feira, 9 de março de 2026

SEGURO EM CENA

(cartoon de Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt

Aconteceu hoje a despedida de Marcelo e a posse de Seguro. Sobre aquela, sou dos que entendem que o ex-Presidente não deixa saudades e que, como bem expressa Luís Afonso, ele terá mais saudades nossas do que nós teremos dele. Sobre esta, há uma grande incógnita que persiste quanto à qualidade do “melão” depois de aberto, havendo de tudo em termos de crença mais ou menos otimista nas análises que por aí circulam. No que me toca, associo-me aos votos do meu colegue de blogue, fico satisfeito por Seguro ter sido capaz de encontrar uma saída condigna para encerrar uma carreira política que lhe fora coartada e tenho até algum gosto em me manifestar positivo em relação ao que o inesperado Presidente fará sair da sua cartola. Mixed feelings, pois, mas com figas a puxar para que a pesca resulte em peixe graúdo.

domingo, 8 de março de 2026

DIA DA MULHER FOI DIA DA MÃE

Este Dia Internacional da Mulher, de celebração sempre indiscutível por muitas e boas razões (incluindo o facto de estarem a vir ao de cima riscos relevantes de regressão de direitos), foi especial para o meu lado. Com efeito, e por iniciativa da Direção do Clube Fenianos Portuenses, a minha mãe há pouco falecida foi homenageada com a atribuição do seu nome à Biblioteca do Clube, onde ela trabalhou pro bono durante anos.

 

Sendo obviamente suspeito, não deixo de entender que foi justa a decisão do Vítor Tito e seus pares –à qual eu e os meus irmãos correspondemos com a oferta do diversificado espólio de livros da Mãe –, ademais concretizada no quadro do criativo programa aberto e de dia inteiro de que abaixo dou conta. Andei por lá durante parte do dia e ouvi várias intervenções interessantes e elucidativas, quer sobre o que vai sendo o quotidiano feminino em algumas das zonas de conflito bélico em curso (Ucrânia e Irão, em especial), quer protagonizadas por mulheres nacionais com conhecimento e provas dadas na matéria (Fernanda Rodrigues, Ana Catarina Mendes e Fátima Vieira, designadamente). Muito curiosa também a belíssima exposição de “Marias – PaperDolls” que Cláudia Oliveira inaugurou na ocasião.

 

Ainda há alguma sociedade civil que mexe num Porto em que, como em grande parte do País, as elites estão adormecidas, para não dizer paralisadas e doentiamente autocentradas. Os “Fenianos” são disso uma ilustração cabal – e não é apenas pela celebração de hoje, antes principalmente pelo modo como por lá se apoiaram grupos culturais existentes, se estimulou o empreendedorismo cultural, se acolheram mulheres imigrantes, se fomentou o diálogo intercultural (monitoras russas de pintura para crianças ucranianas ou vice-versa em termos de aulas de dança), entre várias outras atividades fervilhantes que ocorrem diariamente no local.

sábado, 7 de março de 2026

BOA SORTE, SENHORES PRESIDENTES

 

(Os portugueses têm um especial fascínio para os elogios póstumos. Como estimava que acontecesse, tenho lido textos excelentes sobre a obra e a personalidade de António Lobo Antunes, alguns dos quais acrescentando interessantes interpretações da obra e do escritor, que estimulam não tenho disso dúvidas a releitura de alguns dos seus romances e crónicas. Gostaria algum dia de tentar estudar este fascínio dos portugueses pelo elogio post-mortem, que interpreto provisoriamente como problemas de consciência pelo facto de não termos dado a devida atenção aos visados em vida. Mas isso é tema para outras reflexões. Entretanto, a atração pela prosa de ALB, espero que a póstuma edição de alguma da sua poesia não publicada não nos desiluda, pois, o próprio confessava o seu profundo desgosto pelo não domínio desse tipo de criação literária, foi apagando por estes dias a inconcebível guerra em que o delírio trumpiano está a oferecer ao mundo civilizado. E também a sucessão na Presidência da República. Sobre a mais do que escandalosa ausência de narrativa fundamentadora para a guerra no Irão, onde estamos a assistir ao esbracejar desesperado de um colosso em agonia, haverá seguramente nos próximos dias oportunidade para voltar ao assunto. Daí que hoje me concentre na sucessão da Presidência da República, desejando boa sorte aos dois Presidentes, o que sai de funções e o que ocupará a partir da próxima segunda-feira o Palácio de Belém. Ambos precisarão dessa boa sorte, é certo por razões diferentes.

Sou dos que, comungando da não perfeição dos humanos, acho que a Presidência de Marcelo cumpriu uma importante função, que foi a de devolver aos portugueses a confiança na Presidência da República, através de uma relação de proximidade e de insistência vocal que foi obviamente em muitos momentos exagerando, destruindo o efeito da gravitas que deve pairar sempre sobre a intervenção dos políticos, qualquer que seja o âmbito da sua intervenção. Marcelo terá querido em termos práticos competir com a efemeridade preocupante das redes sociais, falando sobre tudo e a todo o momento, como de um culto diário se tratasse. Teve obviamente derrotas com significado. Não conseguiu evitar e sobrepor-se ao avanço do Chega no eleitorado, mas o fenómeno é de tal maneira global que nem um Super-Homem poderia aspirar a fazê-lo. E cultivou a ideia politicamente errada de que sem Orçamento Geral do Estado aprovado o caminho inevitável é o da antecipação de eleições. No plano pessoal, os portugueses compreenderam que o rocambolesco caso do seu filho residente no Brasil foi uma machadada que pegou forte e o afetou profundamente.

Mas o clima global que imprimiu à Presidência é suficiente para passar por cima da baboseira da última selfie com o Governo de Montenegro e sobretudo a vacuidade, já analisada pelo meu colega de blogue, do “éramos felizes e sabíamos” da relação institucional com Montenegro.

Merece por isso os meus votos de boa sorte. Explico-me.

A promessa estabelecida por Marcelo de que não terá futuramente nenhuma intervenção política após a sua saída de funções é qualquer coisa de semelhante à experiência de um inveterado boémio que decide dedicar-se à vida monástica e de isolamento. Resistirá ele aos impulsos do comentador sibilino e do político sagaz? Hipocondríaco como é, a grande interrogação é como resistirá ele ao isolamento do envelhecimento inexorável, dando aqui de barato que o atravessará sozinho ou acompanhado. Certamente que Marcelo terá lido algumas das linhas terríveis que ALB escreveu em algumas das suas crónicas sobre o que é isolamento da velhice. Por isso, em jeito de agradecimento pelo que nos foi dando, ainda que contraditório, na Presidência, aqui ficam os meus votos de boa sorte para a passagem à monástica não intervenção política, seja dando conferências sobre temas jurídico-constitucionais, relembrando memórias com o seu Amigo António Guterres, dando aulas circunstanciais na Califórnia, ou simplesmente conversando com os seus Amigos mais próximos. Boa sorte e da grande.

Mas o novo Presidente António José Seguro, apesar do retumbante êxito político da sua vitória, precisa também que lhe desejemos boa sorte e também da grande. Encontrar a gravitas certa perante uma comunicação social que usou e abusou da predisposição quase inata de Marcelo para falar a todo o momento não será tarefa fácil, em medida proporcional às dificuldades esperadas que o governo de Montenegro irá enfrentar nos próximos tempos. Quanto mais escolhos se colocarem na frente do Governo mais Seguro será chamado a pronunciar-se. Encontrar o registo certo vai ser tarefa prolongada no tempo, até que os jornalistas se habituem a um novo registo e compreendam, eles também, o que é a gravitas.

Do mesmo modo, a procura de um equilíbrio entre a compreensão do que significa governar face a um estilo de oposição como a do Chega e a crítica da opção por temas que não são reclamados como centrais pela sociedade portuguesa, exceto da parte de alguns empresários assanhados como o Presidente da CIP, é tarefa que, em meu entender, definirá o que vai ser António José Seguro em termos de estadista. O contexto internacional é daqueles que não permite qualquer Presidente a fingir-se de morto.

Sempre entendi que na política, salvo raríssimos casos de predestinados, as competências se ganham exercendo-as, na aprendizagem que a prática política permite construir, sobretudo para aqueles que têm a capacidade de aprender fazendo. Por isso, e pelo que lhe devemos com a vitória presidencial, boa sorte também para o novo Presidente. A legislação laboral está aí ao virar da esquina e quanta aprendizagem pode ser alcançada na sua discussão com as forças políticas e parceiros sociais.

Por tudo isso, muito sinceramente, boa sorte Senhores Presidentes.