terça-feira, 2 de junho de 2026

RIVALIDADES PRIMEIRO

Breve paragem para férias com mudança de ares e, necessariamente, com escassa vontade de alimentar o blogue. Insisto no jogo de Sábado em Budapeste e na vitória do Paris Saint-Germain sobre o Arsenal por grandes penalidades, mantendo o título pela primeira vez conquistado na época transata com a ajuda de quatro portuguesinhos que vieram somar-se a alguns mais na inversão da fracassada estratégia milionária do clube franco-catari. Assisti ao jogo rodeado de ingleses mas – por incrível que possa parecer! – apoiando os gauleses por oposição ao Arsenal londrino. Ver ingleses a aplaudir franceses foi algo de inesperado e até paradoxal à luz da História, mas o certo é que o futebol explica estes imprevistos – e, afinal, lá como cá, os nacionalismos que tanto prevalecem em diversos planos são notoriamente afastados pelas rivalidades locais ou pelos choques regionais e, em especial, por aqueles que passam por cidades-capitais sempre mais bem tratadas do que as outras. E até o incontroverso Sir Alex Ferguson veio a terreiro dizer de sua justiça, ou seja, arrasar os arsenalistas que só souberam defender...

 

O SÍNDROME CHINÊS DA UNIÃO

 

(A China e a pujança do seu modelo industrial e dos seus avanços nas indústrias elétricas estão de novo a colocar as autoridades europeias de cabeça à roda. Depois de Trump e a sua camarilha mais próxima terem trocado as voltas à chamada aliança atlântica, a União Europeia regressa às interrogações de como tratar a ameaça chinesa. Os números não enganam e o défice comercial da Europa com a China não para de aumentar, sabendo nós que a conquista do mercado interno europeu por uma corrente contínua de importações chinesas não pode deixar de ter consequências para o modelo económico europeu. Já não é apenas a evidência de que as importações de produtos manufaturados chineses correntes ocupam um lugar de destaque na norma de consumo das classes desfavorecidas e médias europeias. Dizia uma nossa empregada no passado que ia ao El Corte Inglês dos pobres quando comparava alguma coisa nos grandes armazéns de produtos chineses que pululam nas nossas cidades e vilas. Agora é a evidência declarada de que em termos de indústrias elétricas e de produtos intermédios a dependência face às importações chinesas é flagrante, a Alemanha de Merz que o diga. O Conselho Europeu reunirá nos dias 18 e 19 de junho com este tema na agenda, embora com a preocupação manifesta de nunca referir a palavra China nos textos e nas discussões a realizar, para não abrir uma guerra comercial com as autoridades chinesas. Até porque é cada vez mais evidente que a posição de animosidade dos diferentes estados-membros relativamente à ameaça chinesa é bastante heterogénea, bastando para isso ter em conta os mais recentes posicionamentos da França, da Alemanha e da Espanha.)

Entretanto, começam já a ser visíveis os efeitos da decisão europeia de em 2024 ter aumentado os direitos aduaneiros sobre a importação de carros elétricos provenientes da China, em alguns casos atingindo valores em torno dos 30%, o que já é um forte incentivo de deslocalização para solo europeu de fábricas chinesas para produzir os referidos veículos.

Por estes dias, na sequência destes efeitos, o setor automóvel da vizinha Galiza esfrega as mãos de contentamento pela decisão assumida por um gigante elétrico automóvel chinês, a SAIC MOTOR, de localizar na zona de Ferrol – As Pontes a sua primeira fábrica de automóveis elétricos na Europa. Esta decisão vem na sequência da diplomacia económica de Pedro Sánchez, bastante agressiva na China, com contactos com os grandes produtores de viaturas elétricas, à qual se seguiu iniciativa complementar do Presidente da Xunta de Galicia Alfonso Rueda. Apesar das acusações de traição económica que o presidente do PP Feijoo dirigiu a essa viagem de Sánchez, partidos, partidos, negócios à parte, terá pensado Rueda. Os industriais galegos nunca perderam de vista a ambição de transformar a Galiza numa região de fortíssima predominância da especialização automóvel e a nova fábrica da SAIC MOTOR vem mesmo a calhar para dar um impulso nessa direção, criando um momentum suscetível de atrair novas iniciativas. Não ignoramos a atenção que as autoridades galegas e os meios de comunicação regionais têm dedicado à dinâmica automóvel no Norte de Portugal. Se é verdade que algumas dessas vozes clamam por uma região transfronteiriça orientada para a especialização automóvel, outras persistem na ideia da ambição de colocar a Galiza no mapa industrial europeu por essa via.

Entretanto, o que parece evidente é que se estivermos atentos ao parque automóvel elétrico que vai preenchendo as nossas estradas é cada vez mais difícil acompanhar o número de marcas chinesas que se perfilam diante dos nossos olhos. Não será obviamente o mesmo se essa diversidade resulta apenas de mercado de importações ou se começará a refletir a deslocalização da produção chinesa para a Europa.

A história da inovação tecnológica mostra, por exemplo, que a ascensão industrial da Coreia do Sul resultou de uma estratégia própria de inovação concebida e implementada através da transferência de tecnologia possível pelo mercado de importações, designadamente na indústria automóvel e nas telecomunicações. O mesmo poderá consumar a União Europeia se tiver unhas e orientação para isso, transformando a transferência de tecnologia em inovação própria. Não devemos, porém, esquecer um facto importante: hoje, a dependência europeia face aos consumos intermédios chineses que a produção de um veículo elétrico exige é bem mais forte do que a indústria coreana à época enfrentava. O que não é uma questão de somenos. Mas não estou a ver outra via.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

ESTE ANO HÁ MUNDIAL!

(Bernardo Erlich, https://bernardoerlich.com

Vem aí um mês de futebol à fartazana! Assim o anuncia o nosso velho conhecido Bernardo Erlich, um argentino que andou anos a desenhar para o “El País” e agora nos revela aquilo que será um verdadeiro “ópio do povo” numa fase das nossas vidas coletivas em que não está fácil aguentar tanta agitação e tantos perigos no horizonte. Claro que, nesta altura do ano, o esmero do jogo não é o maior para o lado das melhores seleções, esgotadas como estão as suas vedetas na sequência de uma época muito longa e exigente (veja-se o que foi a final da Champions entre o PSG e o Arsenal, bem longe do que prometia e poderia ter sido). Acresce que, no caso português, a imposição de Cristiano Ronaldo (já sem velocidade e fisicamente debilitado) e a falta de mínimos do selecionador espanhol não auguram um futuro risonho aos lusitanos que Martinez leva para Miami (mas espero enganar-me). Quanto a prognósticos, claro que só no fim, embora anteveja uma Noruega forte, julgo que serão a França e a Espanha (talvez à frente da Argentina, da Alemanha, da Inglaterra e da Bélgica) as formações com mais hipóteses de darem luta pelo título.

domingo, 31 de maio de 2026

MEMÓRIA, COMPLEXIDADE, INTERDISCIPLINARIDADE

 


(Morrer aos 104 anos de idade é um acontecimento que preza bem a ideia frequentemente invocada de que Edgar Morin significa mais um projeto de uma vida cheia como muito poucas do que uma carreira notável de investigador e pensador nas suas diferentes incursões de antropólogo, sociólogo, filósofo, pensador da complexidade e da integração disciplinar. Ontem, em França, a antecâmara da vitória do PSG na final da Liga dos Campeões terá ofuscado o reconhecimento do legado de Morin para o lugar que a França tem de desempenhar na compreensão e na abordagem ao mundo de hoje, cada vez mais complexo e exigente em termos de integração. Enquanto escrevo em Seixas esta pequena homenagem, olho para a estante que ladeia a minha mesa-secretária de fim de semana e confirmo com o olhar que só Morin poderia ter escrito obras como Pleurer, Aimer, Rire, Comprendre ou o L’Année Sisyphe, que dão bem conta da riqueza criativa que o pensador francês nos ofereceu durante uma longa vida. Num sistema científico e de investigação, cada vez mais especializado e atomizado, em que cada um sabe cada vez mais de uma parte cada vez mais ínfima da realidade, é necessária uma coragem de Vida e não de Carreira para assumir temas tão complexos como o pensamento da complexidade ou a interdisciplinaridade. São domínios em que as grandes realizações e avanços são sempre provisórios, dificilmente podendo assegurar prémios NOBEL ou coisas do género e exigindo uma persistência contínua e que se debate com um problema difícil de ultrapassar – o número de pares que pratica o pensamento da complexidade ou a integração disciplinar é reduzido, não proporcionando, assim, a massa crítica de prática e de experimentação que os avanços metodológicos exigiriam. Mas Morin era um lutador e não dava tréguas a essa dificuldade, principalmente por que o seu projeto era de VIDA e não de CARREIRA, como muitos dos seus pares. Foi com Morin que aprendi que a abordagem da interdisciplinaridade é um desafio permanente , construída do todo, visão global, para o particular, embora ainda longe de termos um referencial metodológico acabado para a conceber em termos de programas de investigação, num contexto de saberes fortemente especializados.)

Em Portugal, fica-se com a ideia de que a Universidade, cada vez mais atomizada, não aproveitou como poderia a obra de Edgar Morin, louvem-se embora os exemplos que rema e ram contra essa corrente. Terá sido o Instituto Piaget a instituição que mais tirou partido da proximidade a Morin, alguém que gostava de Portugal como ontem João Soares e Guilherme d’Oliveira Martins bem explicitaram, revelando recordações das visitas de Morin a Lisboa, a última já com 101 anos de idade. Foi conhecida no seu tempo a curiosidade e afeição que o pensador francês revelou relativamente à Revolução portuguesa, identificando-se com a sua versão democrática e antitotalitária.

O que é para mim impressionante na obra de Morin é como as questões da memória (ele foi membro da resistência francesa ao nazismo em França, daí o seu nome Morin), da abordagem à complexidade e do apelo à interdisciplinaridade se combinam virtuosamente, representando cada uma dessas expressões a sua função específica. Por essa razão, Morin é um dos últimos pensadores da Europa, com memória e reflexão suficientes para compreender a importância nevrálgica desse projeto e a necessidade de no seio das suas impurezas e desvios encontrar saídas para o defender e fazer vingar. Só essa dimensão nos permitirá compreender obras como Penser L’Europe (Gallimard, 1987) ou Mês Berlin 1945-2013 (Le Cherch Midi, 2013)

Não restarão muitos mais para trazer para o presente essa memória reflexiva de uma experiência e projetar no futuro os seus traços distintivos e civilizacionais.

Vai-nos fazer falta o seu espírito atento para, à luz dessa virtuosa combinação de memória-complexidade-interdisciplinaridade, nos ajudar a compreender os desafios e as armadilhas do contemporâneo.

 

sábado, 30 de maio de 2026

É A ECONOMIA, ESTÚPIDO!


As atoardas e atrocidades de toda a ordem que marcam este segundo mandato de Donald Trump continuam a fazer com que qualquer cidadão do mundo caraterizado por mínimos de normalidade se espante com a relativa continuidade do apoio dos americanos ao seu presidente. Sim, eu sei que a sua popularidade está em queda, mas ainda assim há demasiados a não desgrudarem frontalmente dele e dos seus malefícios. O que já nos tem levado a procurar, neste espaço, algumas causas para tal – ora, a “The Economist” trouxe-nos esta semana uma síntese muito clara sobre o respetivo ponto da situação e são da prestigiada revista britânica os dados apresentados neste post.

 

Acima, um gráfico que nos dá a taxa de aprovação líquida atual de Trump (-24), mostrando-a bem abaixo dos níveis equivalentes do seu primeiro mandato e dos de Biden (há mesmo sondagens a posicioná-lo em níveis recordes de desagrado). Abaixo, três formas convergentes de explicar o apoio a Trump, inequivocamente demonstrativas do materialismo que domina aquela sociedade e, como alguém disse, de que os americanos votam com o bolso: os temas considerados mais importantes numa avaliação temporal, com a economia a tornar-se cada vez mais essencial (após um período em que a saúde e a imigração ainda lhe fizeram frente); a desagregação temática da taxa líquida de aprovação de Trump, com a inflação e o emprego a mostrarem uma prevalência incontestável; a escolha dos temas mais prementes para os EUA, subdividida entre Democratas e Republicanos mas praticamente não os distinguindo em termos de opções no domínio da inflação e preços (ao invés de matérias de dimensão preferencialmente ideológica ou valorativa).

 

Assim encaráveis como novamente básicos nos seus posicionamentos, e a despeito de alguma variabilidade pouco significativa face ao que se imporia, os americanos somam e seguem na sua condescendência para com um presidente que os desonra e só merecerão uma outra respeitabilidade se derrotarem os Republicanos nas eleições mid-term para o Congresso daqui a meio ano. Até lá, tudo péssimo com Trump e seus servis e amedrontados seguidores.



sexta-feira, 29 de maio de 2026

A TRÉGUA QUE É UMA FARSA

 


(É cada vez mais difícil compreender as nuances que se ocultam por detrás dos acontecimentos em torno do conflito no Irão e do seu alastramento praticamente a todo o Golfo, com a ameaça dos bloqueios do Estreito de Ormuz a pairar sobre a economia mundial. Do que sabemos sobre esta última dimensão do problema, é hoje claro que a redução da produção de petróleo com origem nos países do Golfo, Irão incluído, é brutal e que a exportação de petróleo por parte dos EUA é assinalável. Os americanos estão a recorrer à exportação das suas próprias reservas para obviamente ganhar dinheiro com isso, mas também para tentar suster o desequilíbrio do mercado e a pressão latente sobre os preços de comercialização. O gráfico abaixo mostra, surpreendentemente, que a economia americana é a mais atingida em matéria de preços internos de combustíveis. Mas o que ressalta da grande generalidade dos analistas internacionais é a convicção que exprimem que Trump está perdido no seio das negociações que ele próprio, paradoxalmente, não se cansa de perturbar com sucessivas mudanças de posição e o destempero de comunicação que lhe é muito próprio. O presidente americano, com o seu comportamento estruturalmente errático e não confiável, consegue a proeza de colocar parte do mundo a apreciar a sobriedade e rigor de negociação de que as autoridades iranianas dão provas, sejam elas quem forem que estão à frente dos destinos do país, sem embargo do reconhecimento do carácter abominável do regime teocrático. A grande generalidade dos países do Golfo está a aprender a partir das evidências do dia a dia que é arriscado fazer depender a saída para o problema da capacidade negocial de Trump. Omã que o diga, objeto da mais destemperada ameaça proferida por Trump nos últimos dias, ameaça que ninguém percebeu, alvitram alguns que Trump ter-se-á confundido com a geografia da zona ou com a semelhança dos personagens seus interlocutores.)


A trégua anunciada de 60 dias que foi agora associada ao processo negocial faz parte da tentativa desesperada de Trump querer sair de mansinho de todo este imbróglio que ele próprio criou. A persistência estratégica das autoridades iranianas tem evoluído essencialmente entre dois níveis, o do controlo do estreito de Ormuz e a reivindicação da libertação dos fundos iranianos congelados por todo o mundo para abrir caminho à recuperação económica do país que deve encontrar-se à beira da exaustão completa. As exigências americanas quanto ao nuclear iraniano parecem, umas vezes, estar no centro da estratégia negocial, para logo depois serem proteladas e não integrar os passos iniciais a desenvolver.

Por isso, a trégua anunciada parece mais uma farsa do que outra coisa qualquer.