segunda-feira, 27 de abril de 2026

A VULNERABILIDADE MARÍTIMA SEGUNDO FERNANDO LAXE

 

(O Professor Fernando Laxe, Professor Catedrático Emérito da Universidade da Corunha, com o qual tive o prazer de partilhar alguns trabalhos e reflexões no âmbito da associação de Cidades do Eixo Atlântico, é entre os economistas europeus vivos o que sempre tratou melhor a economia marítima como elemento estruturante da globalização. Recordo-me da sua visão do sistema portuário ibérico enquanto espaço que ganharia com mais cooperação de recursos entre si, de maneira a tirar partido da concentração excessiva de atividade em torno de Roterdão. Os acontecimentos suscitados pelo duplo bloqueio do estreito de Ormuz, vá lá saber-se de facto quem bloqueia quem, vieram de novo dar razão à preocupação que Laxe sempre enunciou sobre a vulnerabilidade marítima do comércio mundial. No seu último artigo para a VOZ DE GALICIA, Laxe menciona de novo o absurdo e a imprudência das lideranças mundiais em não salvaguardarem atempadamente a segurança marítima internacional, o que significa na prática ignorar a vulnerabilidade marítima, matéria que o Irão rapidamente compreendeu, independentemente de saber se irá ser capaz de superar o contra bloqueio americano, enquanto não se descobre uma alternativa ao famoso estreito. O ponto de partida de reflexão de Fernando Laxe é a perceção da importância vital dos fornecimentos energéticos que utilizam a via do transporte marítimo, cujas cadeias globais são abruptamente interrompidas com as consequências conhecidas e que tinham sido já antecipadas com acontecimentos como o terramoto de Taiwan em 1999, o tsunami do Japão em 2011, o bloqueio do canal de Suez em 2021 e a própria guerra da Ucrânia em 2022. E é também um dado que nos ajuda a compreender a imprudência de ignorar a vulnerabilidade da dimensão marítima do comércio mundial: 80% do comércio mundial processa-se por via marítima.)

Com o reconhecimento desta vulnerabilidade, uma de duas grandes alterações pode ocorrer: ou os mares e oceanos são confirmados efetivamente como globais e a sua vulnerabilidade tem de ser combatida com avanços corajosos em matéria de governação marítima mundial, ou o comércio mundial vai partir-se em espaços de influência, cada um dos quais procurará assegurar os seus mares dedicados, tratando nesse contexto de assegurar condições de segurança e proteção à livre circulação marítima.

Laxe acrescenta a esta realidade um outro dado que é também frequentemente ignorado: os 10 agentes de navegação mais importantes controlam 85% do transporte marítimo de mercadorias. Este dado sugere que os principais conglomerados empresariais de navegação estarão por estes dias a trabalhar em soluções de compromisso e alternativas que tenderão posteriormente a impor aos governos, incapazes de chegar a acordos que assegurem a livre circulação marítima.

A situação criada pelo bloqueio de Ormuz é segundo Fernando Laxe já quantitativamente impressionante: a redução da navegação pelo estreito atingiu 94% e cerca de 750 navios aguardam nos portos de vizinhança, dos quais 450 transportam gás e petróleo e 200 são navios de transporte a granel. Não é difícil imaginar o que significa esta retenção como fator de perturbação dos fornecimentos a nível mundial e de encarecimentos dos prémios de risco e fiabilidade do transporte marítimo. Um aumento de custos em cadeia a partir dos custos de transporte é impossível de evitar, com os consequentes agravamentos de todas as previsões macroeconómicas em matéria de crescimento económico e de inflação. Fica a sensação de que, com o grau de antecipação com que a vulnerabilidade marítima do comércio mundial era conhecida, muita gente andou a brincar com o fogo. Ou seja, tudo isto era conhecido antes do ataque ao Irão.

 

domingo, 26 de abril de 2026

O QUE MUDOU NA DESIGUALDADE?

 

(Mesmo com 83 anos de idade e hoje com nova produção teórica praticamente nula, qualquer entrevista ou tomada de posição de Joseph Stiglitz, prémio Nobel de Economia em 2001, é um acontecimento relevante. Stiglitz é como, por exemplo, Paul Krugman, um dos economistas que, embora mantendo-se fiel ao formalismo económico matemático, cedo se manifestou contra a utilização política do mainstream da teoria económica, construindo visões alternativas e mais progressistas para a política económica. Os seus trabalhos sobre a informação imperfeita e as suas consequências para a leitura consequente dos mercados sempre acrescentaram à teoria macroeconómica uma densidade de realismo que o conduziu justamente ao Nobel. A sua fidelidade ao formalismo económico matemático valeu-lhe algumas inimizades e pronunciamentos críticos entre os macroeconomistas mais ativistas, mas em meu entender a sua obra mostra-nos que, mesmo o quadro desse formalismo matemático, pode ser-se conscientemente diferente. A entrevista telefónica que o El País publicou com o economista americano suscitou.me reflexões que vale a pena trazer para este blogue que, entre os seus objetivos, tem também o de conceder notoriedade a uma outra maneira de fazer macroeconomia, procurando contribuir para a incipiência do debate público com origem na academia, panorama que contrasta fortemente com, por exemplo, a sempre aninada academia americana.).

Obviamente que na entrevista do El País Stiglitz zurze com veemência a ameaça antidemocrática de Trump, mostrando que por detrás do “cow-boy” Trump não existe nenhuma teoria económica válida a suportá-la, mesmo que o secretário de Estado Bessent se esforce, por vezes por tentar mostrar o contrário. Assim foi com o caso dos direitos aduaneiros arbitrários que Trump impôs a seu belo prazer, mas rapidamente se compreendeu que essa fundamentação económica tinha pés de barro e era inconsequente, além de contrariada pela evidência empírica conhecida. Mas essa não é a matéria mais interessante da entrevista. A matéria mais relevante é fornecida pela reflexão que o economista americano elabora sobre a desigualdade na economia americana, mas que pode sem grande dificuldade se estendida a outras economias avançadas.

Se excetuarmos o chamado período de ouro do capitalismo ocidental, os anos 50 e 60, período que o chamado Estado de Bem-estar ganhou forma e conteúdo, o capitalismo sempre dependeu do fenómeno desigualdade para se poder reproduzir. Obviamente que os níveis de desigualdade nunca foram constantes, foram evoluindo, e as distribuições do rendimento foram assumindo configurações diferentes, seja no topo, na base e até no miolo das distribuições com a chamada classe média ela própria também a evoluir.

Para vos documentar a complexidade das alterações que foram sendo observadas pelo menos nestes três grupos de percentis da distribuição do rendimento vários posts seriam necessários. Por isso, prefiro concentrar-me nas observações pertinentes que Stiglitz realiza sobre o topo da distribuição. Diz Stiglitz que, ao contrário do que era registado na idade de ouro do capitalismo, na qual a responsabilidade social dos magnatas, americanos mas não só, direi eu, era significativa com exemplos claros dos seus investimentos a favor do bem público, o individualismo egoísta dos hiper-milionários de hoje, Musk, Bezos ou Ellison, é algo de alucinante e sem qualquer confronto possível com o passado. Isso significa que não só a desigualdade mundial atinge valores extremos, Stiglitz menciona que 50% da população mundial só recebeu 1% de toda a riqueza criada nos últimos 25 anos, como o comportamento dos que pontificam no topo das distribuições não acrescentam nada com o seu o egoísmo alucinante ao bem público. Uma análise rigorosa das fontes de rendimento principais do topo da distribuição resulta de atividades em que o investimento público inicial em matéria de investigação foi essencial para que os negócios futuros alcançassem massa crítica para gerar retorno elevado.

O comportamento de Trump é hoje indissociável da sua cumplicidade transacional com estes multimilionários e não admira que todos estejam preparados para embarcar rumo à longevidade, entendida como estádio supremo da reprodução da desigualdade.


 

sábado, 25 de abril de 2026

RESISTIR

 


(O belo texto que António Barreto assina hoje no Público como crónica semanal representa a oportunidade certa de reflexão neste feriado, encoberto pela sombra do sábado, comemorativo do 25 de Abril, com A grande, mesmo contra a corrente do acordo ortográfico. O sábio cronista sublinha bem como é de uma estúpida ignorância tentar comparar várias décadas de atrocidades de ditadura com dois anos de perturbação revolucionária até à estabilização constitucional do país e ainda mais estúpido e soez confundir esses dois anos de perturbação com uma avaliação dos 52 anos de democracia que o 25 de Abril proporcionou aos portugueses. RESISTIR é a palavra que me ocorre para associar ao 25 de abril de hoje, a repousar, protegido, ao sol de Seixas, num município que este ano, com a AD no poder, será pouco eloquente em comemorações festivas da data. E o resistir tem várias dimensões. Desde logo, resistir, travando, a despudorada reescrita da história em que o Chega de Ventura está decididamente empenhado, socorrendo-se de todos os truques comunicacionais possíveis, aprendidos na “internacional” do comentário televisivo futebolístico. Mas também resistir, combatendo a perda de memória coletiva que vai acontecendo à medida que vão desaparecendo na usura dos corpos e das mentes os personagens, os atores e a população em geral que viveu a rotura de Abril. E aqui não poderemos ignorar a sinistra perda de memória com duas dimensões: a da memória coletiva que acontecerá se não for trabalhada e permanentemente renovada com investigação histórica contemporânea e criação artística multifacetada; e a da memória individual que os elementos da geração que viveu os acontecimentos irão começar a sentir à medida que a usura do tempo se for observando, não necessariamente sob a forma das patologias que mais me assustam, mas também como produto natural da nossa finitude. Entendido nestes termos, o RESISTIR é um ato democrático que importa consagrar como tal, com capacidade de iniciativa e de organização, como por exemplo o valioso trabalho de José Pacheco Pereira na biblioteca e arquivo EPHEMERA ou o trabalho de investigação de Irene Flunser Pimentel, só para citar os mais mediáticos, mas aos quais se deve juntar a referência a toda a população anónima que colabora nesse esforço heroico de resistência à perda de memória coletiva.).

Assim entendido, este esforço de RESISTIR não implica de maneira alguma a necessidade de romancear o período mais revolucionário, já que o significado dos 52 anos de democracia que importa preservar é bem mais importante do que todas as derivas e injustiças observadas nesse período curto da nossa história mais recente.