segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

E SE FOSSE VERDADE?

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt

Já foi ultrapassado o tempo em que o regressado José Mourinho ensaiava mind games de trazer por casa, talvez convencido de que “para quem é, bacalhau basta!” – chegou mesmo a fazer sair da sua boca uma vitória dos seus em jogos que os mesmos acabavam de perder ou empatar. Animado pela vinda de Rafa e pela disponibilidade de alguns lesionados, e para encanto da nossa comunicação social, refinou entretanto o discurso num sentido menos arruaceiro e mais articulado, ainda que sem conseguir abandonar a significativa dose de cinismo e arrogância com que mantém em respeito os embevecidos comentadores que nos calharam em sorte e permitindo-lhes capas magníficas nos pasquins diários que por aí se vendem – na semana passada, não precisavam de milagres para enfrentarem o Real Madrid na primeira mão que se avizinhava, mas perderam bem e com um incidente tristérrimo a pontuar a partida e a desgraçar a imagem do clube de Eusébio; agora, parece que o homem tem a receita para conquistar Madrid e com tal banha da cobra enche de esperança vã os fanáticos da catedral da Luz.

 

Mas e se, por obra e graça de um Mourinho apoderado pelo Diabo, os “encarnados” fossem ao Bernabéu e arranjassem maneira de vencer o Real, mesmo sem contarem com Prestianni no onze? A hipótese não é académica para essas luminárias que em permanência se nos apresentam a explicar, até com derivadas e integrais, tudo quanto acontece para aqueles lados da Segunda Circular e, assim sendo, há que não evitar que que ela ganhe tração e possa vingar por forma a que – será preciso assumi-lo com frontalidade! – o País finalmente celebre uma vitória internacional como já não alcança desde 1962 e o portista envergonhado que é Montenegro se veja obrigado a decretar um novo feriado nacional a 25 de fevereiro. E se o engenho de Mourinho alcançar um tal brilhantismo, como intimamente tanto espera, não seremos nós que abdicaremos de aplaudir patrioticamente o feito e de reconhecer que a final de Budapeste estará ao virar da esquina, apesar da infâmia da UEFA ao dar aso às mentiras de Vinicius Júnior e Mbappé e ao menorizar a pujança eterna conquistada pelo “glorioso” quando o presidente Čeferin ainda não tinha cinco anos de idade...

domingo, 22 de fevereiro de 2026

TRUMP “ENTARIFADO”

 


(Ao contrário da Procuradora-Geral dos EUA Pam Biondi, que evidenciou bem na sua audição sobre o caso Epstein a bela peça subserviente que representa dos interesses de Trump, o Supremo Tribunal parece apostado em não permitir que a defesa da lei seja defraudada pelo casuísmo instável do Presidente. Tudo isto, apesar da composição do Supremo Tribunal ter sido cuidadosamente tecida e preparada para consagrar na decisão suprema a defesa dos valores que pretende impor à sociedade americana. Mas a decisão de considerar ilegais os direitos aduaneiros indiscriminados que lançou sem a aprovação do Congresso escapou claramente a essa preparação e isso significa apenas que o quadro legal indicava sem dúvidas que o presidente americano abusou da sua posição ao contornar o Congresso. Trump ficou, assim, enredado na teia que ele próprio criou, invertendo, com o seu International Emergency Economic Powers Act, cuja sigla IEEPA é por si só tenebrosa, as condições de uma política aduaneira que foi meticulosamente concebida entre 1934 e 2025, primeiro com base em negociações bilaterais e no princípio da reciprocidade iniciadas por Franklin Roosevelt e depois alicerçadas no quadro do multilateralismo designadamente do já saudoso GATT, General Agreement About Tariffs and Trade e do célebre princípio da Nação mais favorecida que se destinava a impedir que os países pudessem voltar atrás do que tinham inicialmente acordado…).

O sistema legal americano que enquadra os poderes presidenciais no estabelecimento da política aduaneira, marcando bem o que tem de passar pelo Senado e pelo Congresso, é complexo, sendo composto por normas que derivam em parte do acordo do GATT de 1974. Krugman destaca três situações em que a Presidência pode impor direitos aduaneiros mediante fundamentação e audição de um painel de especialistas: i) proteger indústrias ameaçadas por um surto descontrolado de importações, ii) proteger indústrias consideradas vitais para a segurança nacional e iii) compensar práticas ilegais de países estrangeiros na subsidiação de exportações. O choque aduaneiro introduzido por Trump transcendeu claramente as condições anteriormente enunciadas quer na extensão do que foi taxado, quer no casuísmo de algumas opções por artigos para os quais não se consegue descobrir qualquer racional, a não ser proteger os interesses de industriais amigos próximos da administração Trump.

O IEPPA, inspirado por uma legislação americana de 1977, destinar-se-ia em princípio a emergências económicas, que não é de modo algum aquela em que a decisão de Trump foi tomada. Seria de prever que a ultrapassagem do Congresso iria ser considerada ilegal e assim aconteceu, entendendo o Supremo Tribunal que a referida legislação de 1977 não poderia ser utilizada como fundamento da lista de direitos aduaneiros que Trump fez questão de mostrar num quadro público para evidenciar a força do seu bullying comercial.

Após a decisão do Supremo Tribunal, Trump invocou um novo fundamento legal para impor primeiro uma taxa de 10%, logo de seguida corrigida para 15%, baseada na imposição por 150 dias de resposta a uma pressuposta emergência a nível de balança de pagamentos, que realmente não existe. O padrão é claro: responde-se a uma declaração de ilegalidade com provavelmente uma fundamentação também bastante discutível até que alguém coloque o problema de novo na via judicial. Este vai ser o padrão. Não é difícil perceber as consequências penosas que resultam deste padrão para a incerteza na política comercial externa, a qual, recorde-se um post anterior, está a ser paga essencialmente (estima-se em 86%) pelos consumidores e empresas americanas, resultando que apenas 14% tem sido infligido ao exterior.

A desaprovação que está instalada na sociedade americana sobre esta política errática reflete a polarização política, mas começa a ser indiscutível: i) 60% dos adultos americanos aprovou fortemente ou em alguma medida a decisão do Supremo Tribunal; ii) entre os Democratas essa aprovação é de 88%; iii) entre os independentes de 66% e iv) entre os Republicanos de 30% (dados do You Gov, citados por Krugman).

Entretanto, apesar do comportamento errático de Trump, a verdade é que a estrutura do comércio internacional continua a evoluir de modo imparável. Por outras palavras, o hub asiático da indústria transformadora continua a afirmar-se inexoravelmente, como o mostra a evolução do peso do emprego na indústria transformadora dos principais países exportadores. O bullying comercial de Trump é qualquer coisa do tipo de “tapar o sol com a peneira”. A densificação estrutural da divisão internacional do trabalho é qualquer coisa que o espalhafato errático do Trump não conseguirá travar. O grau de finura com que seria necessário tecer uma política comercial externa para que a indústria transformadora americana pudesse inverter o deslocamento para a Ásia é incompatível com o modelo de decisão da administração Trump. Por agora a ameaça inflacionária tarda em manifestar-se. Não sabemos, porém, por quanto tempo.

Nota complementar (23.02.2026 - 08.30)

Laura Dubois, no Europe Express do Financial Times, chama a todo este processo o caos das tarifas (tariff chaos), com as consequentes implicações de incerteza em negociações que estavam a culminar em acordo comercial, como o entre a União Europeia e os EUA. Os novos 15% impostos por Trump penalizam de novo a União, a ponto da assinatura do acordo poder ser diferida no tempo. Ou seja, Trump "entarifado" no seu próprio caos.

 

NETO E VALENTE COM A REIGIONALIZAÇÃO

Não pretendo neste breve comentário contribuir para qualquer espécie de branqueamento dos pasquins extremistas que por aí continuam a perorar aos seus convertidos e a tentar alargar o seu espaço de audição junto dos portugueses incautos e/ou descontentes. Pretendo, isso sim, expressar o meu lamento pelo facto de a tal projeto se associarem cidadãos com provas dadas e obrigações adquiridas em função da sua experiência de vida profissional e política, gente insuspeita de poder ser associada a causas antidemocráticas, como é o caso de Henrique Neto – um autêntico caso de estudo em termos de deriva cívico-política mas ainda não tendo alcançado um estado suscetível de ser considerado totalmente irrecuperável... – e de Ricardo Valente – um liberal que andou pela vereação da Câmara Municipal do Porto e dá umas aulas na FEP, um candidato pela lista vencida de Pinto da Costa ao FCP que se apresenta como assumidamente regionalista e  que – maldições do destino! – partilha a primeira página de “O Diabo” com uma chamada para a sua provocatória peça central intitulada “A Reigionalização – Bem dividido, dá para todos!”. Quando as elites dão despudoradamente o exemplo, nem o povo nem o Estado podem ser acusados de impreparação ou farsa.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A UNIVERSIDADE NO SEU PIOR

 

(Vai por aí uma grande algazarra envolvendo a até agora imaculada Universidade Nova de Lisboa, apontada por muita gente como fazendo jus ao seu nome de “Nova”. Mas convém recordar que foi na Universidade Nova de Lisboa que Susana Peralta encontrou forte resistência pela presença mediática no debate público, como essa presença fosse uma mácula na sacrossanta pureza dos mandamentos universitários. Pois agora, não sei exatamente se com a mesma raiz e origem, a controvérsia estalou a propósito da decisão do Reitor recentemente eleito de invocar a lei para que a Nova School of Business and Economics seja proibida de ostentar na sua designação expressões em inglês, popularizada pela sigla NOVA BSE. Estou perplexo e sobretudo farto deste tipo de hipocrisias universitárias, que pululam entre os seus órgãos de gestão (é um eufemismo designar de gestão o que muitas equipas reitorais estão na prática a fazer, gerindo o imobilismo). Quem alguma vez tenha já visitado a NOVA BSE em Carcavelos apercebe-se facilmente, se tiver um mínimo de intuição e sobretudo de abertura à inovação organizacional, que aquela organização é sem dúvida uma Escola diferente no panorama universitário nacional. O modo como o campus está organizado para transformar a bela localização da Escola em termos de ativo poderoso de atração e animação do espaço num ecossistema que atraia as empresas à colaboração com a Nova BSE destaca-se no horizonte das escolas de economia e de gestão nacionais. Sim, a Nova BSE é uma Escola vocacionada para a internacionalização e para a atração de talento ao país e é isso que parece incomodar o imobilismo universitário que vai buscar proteção à ciência e à pretensa valorização da língua portuguesa para embirrar com o uso da língua inglesa no cartão de visita desta Escola. Já não há pachorra…).

A utilização do inglês como língua em que muitos cursos são ministrados, designadamente para acolher estudantes estrangeiros de licenciatura, mestrado e doutoramento, é hoje prática corrente em muitas universidades e até institutos politécnicos, mesmo nos mais atávicos em termos de internacionalização. Tudo isto radica no princípio estabilizado de que, mal ou bem não interessa agora discutir, o inglês se transformou na principal língua da investigação científica. A peregrina ideia de que a defesa da língua portuguesa passa por esse tipo de batalhas está condenada ao fracasso, sobretudo num contexto em que a defesa da língua portuguesa é tão esquecida e conspurcada na política cultural do país, que não tem de facto uma política consequente de apoio sistemático a quem cria, investiga ou escreve na língua portuguesa.

Tal como tenho acompanhado a evolução dos ecossistemas universitários em Portugal, existe uma fissura potencial entre as estratégias modernas e internacionalizadas de interfaces universidade-empresa do tipo INESCTEC ou INEGI e de Escolas como a NOVA BSE que nascem com uma outra cultura e um poderoso financiamento de empresas de grande dimensão e as universidades que continuam a reger-se pelas regras apertadas da administração pública e com práticas de proteção endógena (aos de dentro) que bradam aos céus. Esses ecossistemas não estão organizados e o seu modelo de governação continua a ser atirado para a indiferença da espera, apesar de alguns progressos nos últimos tempos como, por exemplo, a consolidação de contas (caso pelo menos da Universidade do Porto que conheço melhor). Mas a fissura está lá, até porque estamos perante o confronto terrível entre a agilidade da gestão e o imobilismo mais burocrático, e esse confronto é sobretudo penoso para os mais modernos e internacionalizados que, falando com os botões, interrogar-se-ão porque carga de água deverão continuar a aturar a ineficiência e a depender do sempre insuficiente financiamento público das instituições.

Se a Universidade Nova não for capaz de compreender que a Nova BSE é um ativo poderoso para a sua própria afirmação no mundo então o imobilismo virou estupidez pura e simples. Se a Universidade Nova está de facto interessada em valorizar a língua portuguesa, então que se apresente às autoridades do país com um programa regular e consequente de defesa da mesma, projetando-se pioneiramente nesse capítulo.

Por mais importância que o espaço territorial e de influência da língua portuguesa deva ser relevado, no âmbito científico e da economia dos negócios querer obrigar as universidades a movimentar-se apenas nesse círculo é condená-las a uma inferioridade consentida, que obviamente as universidades e as equipas de excelência, respeitadas entre os seus pares internacionais, rejeitarão sempre.

A minha perplexidade aumenta quando o ministério da tutela, de cujo Ministro Professor Fernando Alexandre tenho as melhores impressões, parece estar a ser contaminado com o atavismo de algumas das instituições universitárias. Fico assim espantado quando, depois da aspiração dos Institutos Superiores Politécnicos em ascender ao estatuto de Universidades Politécnicas ou Universidades Técnicas (dizem as más-línguas que nem os próprios Presidentes dos Politécnicos escapam à estigmatização da palavra “politécnico”) ser sistematicamente rebatida e diferida no tempo, surge agora associada ao Plano de Recuperação das intempéries a proposta de transformação dos Institutos Politécnicos do Porto e de Leiria em Universidades. Não haveria outro contexto para discutir serenamente as condições (de rigor e exigência) para que alguns Politécnicos pudessem aceder ao estatuto de Universidade, com a designação que a lei indicar? Não poderia o Instituto Politécnico de Leiria ser projetado como alavanca ao serviço daquela martirizada região sem o implicar à força num processo cuja discussão deveria ser serena e rigorosa?

Afastado das lides universitárias pelas razões óbvias da idade, é com alguma deceção que vejo o atavismo universitário a prosperar, enquanto o mundo pelas suas exigências e transformações esperaria da Universidade um outro contributo. Por quanto tempo, os “excelentes” e os mais dinâmicos aguentarão este atavismo que só estorva?

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

DESGRAÇA, DESGRAÇA FOI NA LUZ!

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Portugal está em estado de emergência, não tanto pela tempestade que se abateu sobre a sua Região Centro mas principalmente pela desgraça que irrompeu no Estádio da Luz quando o extremo argentino Prestianni do Benfica decidiu insultar o avançado brasileiro Vinicius Júnior do Real Madrid imediatamente após este ter marcado o único golo do encontro e festejado exuberantemente na linha final. Um estranho ato de racismo, alegadamente objeto de testemunho por Mbappé, e que logo obteve o beneplácito generalizado das bancadas da Luz para passar em seguida a ser encoberto pelos dirigentes do Benfica (que não compreenderam o peso da ofensa e do correspondente castigo a surgir por parte da UEFA). Mas pior do que esta incompetência de Rui Costa e seus pares – que teriam, obviamente, de ter vindo a lume para repudiar o incidente e minorar o seu alcance e não de se terem esgotado em comunicados acusatórios do ofendido e da testemunha –, é a forma como o assunto se tornou uma matéria que obsessivamente preenche as televisões e enormemente aflige os respetivos comentadores, tão desesperados e chorosos quanto incapazes de denunciarem comportamentos inaceitáveis de atletas, adeptos e dirigentes encarnados com a mesma verborreia fácil com que gastaram dias a criticar os apanha-bolas do Dragão. Portugal não sai do sítio por razões divisivas deste tipo, ferozmente alimentadas sem critério por centralistas de turno a quem é disponibilizado um tempo de antena injustificado e gasto com uma parcialidade que já não cabe nos difíceis dias de hoje. E – nem de propósito! – quando eu acabava de escrever este post, as notícias anunciavam que um jogo de futsal entre Sporting e Benfica era acompanhado por confrontos graves junto ao Pavilhão João Rocha e culminava em 124 detidos e vários feridos oriundos das claques de um e outro lado. E assim vamos à deriva e com pouca esperança...


Em tempo, pela manhã do dia seguinte: