sexta-feira, 22 de setembro de 2017

OS SALDOS DO TARGET2

(Matthew C Klein, https://ftalphaville.ft.com)

Aproveito uma entrada de um blogue do “Financial Times” para voltar a uma realidade já aqui por diversas vezes aflorada: o Target2, i.e., a rede de processamento de pagamentos da Zona Euro. Onde se sublinha que, antes da crise de 2008, os saldos relativos dos diferentes países eram pequenos e estáveis e que, após a crise, o banco central alemão (parcialmente acompanhado pelos da Finlândia, Luxemburgo e Holanda) se tornaram credores de grande dimensão, em contraponto às evoluções devedoras dos bancos centrais dos países que estiveram em pleno epicentro da crise (Grécia, Irlanda, Itália, Portugal e Espanha). Com o autor a referir ainda que, embora a maioria das explicações para que tal assim tenha ocorrido vá no sentido de focar a causalidade nos mecanismos inerentes às operações do banco central e num afunilamento do sistema financeiro da Zona Euro, ele tende a atribuir a essas evoluções dos saldos um significado mais profundo e associado a uma (potencial) flexibilidade e resiliência do euro. Uma matéria importante e a que procurarei voltar noutra ocasião.




Por ora, apenas uma incursão mais detalhada (ver acima) sobre os dados mais recentes disponibilizados pelo “Statistical Data Warehouse” do Banco Central (http://sdw.ecb.europa.eu). Por um lado, para evidenciar uma outra visão de conjunto e a enormidade das posições credoras da Alemanha e, por outro, para salientar o caráter sempre enganoso das médias, no caso quanto aos 5 países que chegaram a receber o insultuoso epíteto de PIIGS – comparem-se, desde logo, os fluxos e os stocks de Portugal e Grécia com os de Espanha e Itália e, sobretudo, constate-se o comportamento absolutamente excecional das posições irlandesas (do equilíbrio inicial ao inferno de 2010 e deste ao excedente final de 2017). Tema, ou temas, que têm pano para mangas...

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

A ROTURA ANUNCIADA





O que está ao rubro e em curso na Catalunha não é bonito, nem se recomenda em qualquer nação civilizada. A rigidez, a demagogia, a desinformação estão no ar e não é seguro que após todo este tumulto, com ou sem a realização do plebiscito de 1 de outubro, a percentagem de apoiantes do independentismo não tenha aumentado para gáudio das formas nacionalistas e independentistas. O governo de Madrid, pressionado pela acusação de perigosa inação política, decidiu não recorrer ao célebre artigo 155 da Constituição espanhola e intervir com base na decisão do Tribunal Constitucional de considerar o referendo de 1 de outubro inconstitucional e ilegal, apoiando-se na necessidade de cumprir enquanto polícia judicial um mandato emitido por um juiz de instrução de Barcelona no sentido de fazer cumprir a suspensão do referendo.

Mas como é óbvio ver a Guardia Civil a confiscar boletins de voto e a deter funcionários da Generalitat envolvidos na preparação do referendo é um pano de fundo excelente para o discurso da repressão e da opressão de Madrid. Em meu entender, era isso no fundo que o independentismo que se apoderou da Generalitat pretendia em última instância. Conseguiu-o, não à custa de mártires propriamente ditos. Mas para esse fim qualquer detenção serve e o ato simbólico do confisco dos boletins de voto é demasiado poderoso para o populismo nacionalista não cavalgar esse símbolo de poder do governo de Madrid.

Claro que não é correto dizer que o estatuto da autonomia e a democraticidade da vida na Catalunha tenham sido violentados. Mesmo que simbolicamente repressiva, a intervenção de Madrid limitou-se a fazer cumprir uma decisão do Tribunal Constitucional e de um juiz de instrução que pretendia velar pela lei nacional. Mas a rotura era daquelas que estava anunciada há muito tempo, pois o governo do PP não tem flexibilidade suficiente para trabalhar numa solução política. Mas confesso que não sou capaz de pensar numa solução política que permita salvar a face da Catalunha e do governo de Madrid a não ser numa revisão constitucional que organize uma Espanha de nações, por mais voltas no túmulo que os mais aguerridos defensores do centralismo castelhano iriam necessariamente dar.

Há um elemento que impressiona e que sobre o qual não podemos deixar de nos fixar, dada a sua relevância. O independentismo não será maioritário na Catalunha e a mensagem que tem transmitido à população que essa opção seria digerida pela União Europeia é de uma falsidade extrema. Mas, embora não seja maioria, é transversal da direita à esquerda. Dizia-me há dias o amigo Alberto Castro que a elite de professores da ESADE catalã que colabora com o Centro Regional do Porto da Católica é nacionalista e pugna pela independência e que não o esconde nos seus comentários. A minha interpretação é simples. A história interessa sempre, embora a economia se recuse por vezes a admiti-lo. Mas quando essa história não ficou resolvida e atormenta por isso os povos e o seu imaginário a questão é ainda mais problemática. A autonomia catalã é já extremamente avançada e dá vontade de rir quando se ouve na rua o povo indiferenciado falar de opressão do governo de Madrid. Por isso, compreendo as margens de manobra limitadas que rígido Rajoy enfrenta para mostrar alguma agilidade de rins que não tem, ponto.

Para já, o independentismo não tem os seus mártires imolados pelo fogo. Mas tem detenções e sobretudo aquele ato simbólico do confisco dos boletins de voto. É uma imagem demasiado poderosa. Aliás, quando o independentismo não rejeitou instrumentalizar os atentados das Ramblas para marcar a sua posição anunciou claramente o seu roteiro. E se com as ruas ao rubro qualquer sondagem mostrar que a taxa de aprovação do independentismo aumentou isso é o melhor indicador de que só uma solução política permitirá ultrapassar o problema, embora seja de difícil antecipação a situação que daí resultará.