Tenho grande simpatia pelo ministro Manuel Castro Almeida (MCA). Por muitas e boas razões, a maioria das quais não necessariamente políticas: porque ajudou a construir a Casa excecional que foi (é?) a CCDR-N, porque fez amizades de diversa ordem nesse quadro estruturado por Luís Valente de Oliveira (entre as quais a da minha mulher), porque foi um bom presidente de Câmara em São João da Madeira, porque teve como chefe de gabinete uma das pessoas de princípios sólidos e inatacável seriedade que conheci nestas últimas décadas (o hoje também meu amigo José Carlos Gomes), porque é senhor de uma lealdade pessoal e política à prova de bala (um mérito em que às vezes também exagera por falta de algum sentido crítico), porque tem exercido com empenho e dedicação a terrível função que Montenegro lhe destinou (nada menos do que a Economia e a Coesão Territorial).
Feita a indispensável declaração de interesses, importa agora abordar a adversativa que se impõe: MCA prestou-se ontem a um serviço governamental desnecessário e, portanto, pouco dignificante ao vir declarar publicamente, em pomposa última hora noticiosa, não apenas que o PRR nacional está plenamente executado (o que não é o caso – exceto para cumprimento das exigências burocráticas do gabinete de Ursula – face à multiplicidade de ajustamentos que sofreu e que desvirtuaram o seu rumo inicial e face à quantidade de verbas ainda precisas para encerramento de vários projetos inicialmente dados como estratégicos, já para não referir as habilidades que se tiveram de arranjar) como ainda que “estão totalmente concluídas as 44 reformas” (nada menos!). É certo que possa ter sido algo titânico o esforço de MCA para que não houvesse dinheiros europeus a serem devolvidos a Bruxelas, tarefa meritória embora limitada do ponto de vista do nosso futuro coletivo, mas a verdade pura e dura é que se desconhecem as reformas que realmente aconteceram por via dessa componente do Next Generation EU que nos coube em sorte e que António Costa apelidou de “bazuca” – terá sido a digitalização dos exames com que Fernando Alexandre se descredibilizou ou o magnífico Whatsapp do Governo que não chegou a funcionar? Ou também contam para o efeito as residências estudantis por terminar, as casas camarárias por entregar e a ferrovia por relançar, além da compra encarecida das fragatas da Marinha ou da aposta falhada no hidrogénio verde, entre outras e variadas transformações imaginadas que preenchem “a lógica e o espírito da ação deste Governo” num guião difícil de compreender (como afirma Barreto na sua crónica de hoje)?
Enfim, e como já ocorrera quando foi levado a pronunciar-se sobre a regionalização (matéria em que tem responsabilidades historicamente adquiridas) e o fez com ligeireza e politiquice barata, MCA sabe que quem o conhece também sabe que o seu desempenho será tanto mais útil ao País quanto mais a sua capacidade de trabalho e organização de equipas o levar a equacionar os reais problemas nacionais e a definir-lhes meios de resolução em que somente seja delimitadamente considerado o papel proclamatório do marketing político – até porque, como ontem afirmou de modo perentório e muito claro, “Bruxelas vai fechar a torneira dos fundos”...







