(Robert Rubin)
(Já aqui repetidas vezes se fez eco do significado
assumido pela subida progressiva dos rendimentos (yields) dos títulos a longo
prazo, designadamente dos títulos do Tesouro americanos. Por exemplo, o yield
dos títulos a 10 anos atingiu recentemente o valor de 5,36%, que é nada mais nada
menos do que um valor superior ao que aqueles títulos apresentavam no período
imediatamente anterior à crise de 2008 e à subsequente Grande Recessão então
observada. O comportamento deste indicador contraria frontalmente a narrativa
de Trump de que tudo vai bem na economia americana e por isso tem sido objeto
de um amplo debate sobre as razões que explicam aquele comportamento. A explicação que tem sido
considerada mais robusta é a que aponta o dedo explicativo aos mega-investimentos
que as empresas de inteligência artificial estão a realizar, por via da
desesperada procura de fundos que paira sobre os mercados de financiamento.
Poderíamos aqui também fazer eco dos receios que têm emergido nos mercados
sobre a real capacidade das empresas de IA para alcançar o retorno adequado desses
investimentos tão avultados e assim poder solver os compromissos de pagar os
seus financiamentos em larga escala. Existe por isso um cutelo que paira sobre
a dinâmica de investimento em IA, falando alguns da possibilidade de um crash
de financiamento, atendendo ao volume de retorno que será necessário alcançar para
acomodar um custo de financiamento tão elevado. Todos estes fatores explicativos
reportam ao mistério económico dos yields historicamente tão elevados que estão
a ser observado nos títulos a longo prazo. A questão relevante a colocar, e
gente bem importante como o ex-secretário do Tesouro americano nos anos 90 Robert Rubin colocou-a com toda a pertinência, é a de saber se não existirá aqui também
um mistério político para justificar essa dimensão do mercado. A questão é
muito relevante, até porque tudo leva a crer que possa existir interdependência
viciosa entre as dimensões económica e política desse mistério.)
O pensamento de Rubin ancora-se no
facto de, na grande maioria das eleições intercalares realizadas no passado,
terem sido questões económicas a suscitar o cartão amarelo levantado pelos
eleitores à força política que governa na altura (It’s the economy, stupid, máxima que se popularizou para explicar
o comportamento dos eleitores que pensam com o bolso e com a carteira e não com
as suas convicções ideológicas e partidárias). Se nos projetarmos nessa dimensão
económica, são vários os assuntos que podem levar os americanos a concluir que
estão hoje pior do que estavam quando o mandato de Trump foi iniciado. Não foi
certamente por acaso que Trump tirou da cartola o mal-amanhado e ultrajante acordo
do gasóleo com a Rússia de Putin, para tentar assim sossegar a sua base de
apoio de que o valor sagrado do baixo preço do diesel será mantido a todo o
custo para satisfação do princípio básico da mobilidade barata na sociedade
americana.
A pertinência da análise de Rubin
justifica-se essencialmente pelo facto de acrescentar a este rol de fatores a importante
indeterminação política quanto ao comportamento fraudulento ou respeitador da
democracia que Trump vai assumir quanto às intercalares que estão aí à porta.
Não se trata de elucubração gratuita, mas antes da invocação de um conjunto de
factos e comportamentos reais no passado, que pode ser até escalado se as pseudo
narrativas de fraude poderem ser utilizadas para controlo de sítios eleitorais e
locais de voto, bem como processos diversos de não reconhecimento de
resultados. O problema é que tudo isto não é inventiva criativa, mas antes algo
em que Trump tem apostado no passado e que o desespero do seu comportamento de
negação do estado real da economia americana pode precipitar.
O que a clarividência de Rubim nos
diz é que a hipótese de manipulação declarada dos resultados das intercalares
teria um forte impacto económico (daí a invocada interação entre o económico e
o político), que adensaria a indeterminação e os riscos que pairam sobre o
elevado valor títulos a longo prazo, efeitos que tenderiam a prolongar-se ao
longo de toda a administração de Trump no poder. Vale a pena citar o que Rubin
considera ter sido o valor histórico de eleições regulares com resultados
aceites: “O papel da lei, sustentado por uma tradição
de eleições livres e de transferências pacíficas de poder, apoia as decisões de
investimento e atrai o investimento de sociedades estrangeiras. Suporta ainda a
posição do dólar como moeda mundial de reserva. Favorece a confiança dos
investidores na plena confiança e crédito dos EUA e baixa as taxas de juro da
nossa dívida. A integridade das nossas eleições, por outras palavras, tem sido
um dos fatores-chave da prosperidade económica”.
Temos assim nas palavras de quem
teve uma sólida experiência de governação que o destempero político
antidemocrático de Trump e seus parceiros mais próximos pode contaminar todas
as expectativas dos investidores (os conhecidos “espíritos animais” de Keynes),
penalizar o crescimento da produtividade por inibição do investimento,
pressionar ainda mais os yields dos títulos do Tesouro e o dólar.
Mas, o que é ainda mais relevante e
que mostra que mais americanos estão finalmente a abrir os olhos para a realidade
e não para as narrativas construídas a preceito, é a afirmação de Rubin de que
nunca esperaria na sua vida ter de escrever para o New York Times um artigo como
este. Os alarmes e os sinos tocam a rebate, mas ainda não estou seguro que toda
a gente de boa fé, democrata, republicano ou simplesmente cidadão os ouça e aja
em conformidade.