segunda-feira, 23 de março de 2026

O MUNDO COMO UM BRINQUEDO QUE OS MERCADOS VALIDAM

 

                                                                Operation Blind Fury

(Os cenários de guerra no Irão e no Líbano estão ao rubro, no nível máximo da indeterminação. A perturbação com a disrupção petrolífera está instalada, multiplicam-se as medidas de mitigação a curto prazo, algumas delas contraditórias, vejam-se por exemplo as diferenças entre um cidadão português ou espanhol, não transfronteiriço, que tem de encher o seu depósito para trabalhar. Entretanto, Trump continua fascinado pela mega-potência do arsenal militar americano. O mundo e a sua incerteza dinâmica parecem um brinquedo nesse fascínio, que ele manipula a seu belo prazer, atacando quanto baste para poder inventar uma negociação qualquer, da qual seguramente retira benefícios para o seu universo de apoiantes. O que importa não existir uma fundamentação segura para ter iniciado as hostilidades com o Irão? O que importa que Israel de Netanyahu apareça aos olhos do mundo como o verdadeiro instigador de todo o processo e como a única força que tem objetivos claros? Nada disso importa quando, afirmando o poderio militar que tem por trás da sua errática política, Trump tira da manga uma possível trégua com o Irão através de uma negociação ainda pouco clara e provavelmente manhosa e abre caminho a uma profunda reviravolta dos mercados, que passaram em segundos do caos à euforia. O Eco Logout anuncia uma queda dos preços do petróleo de cerca de 14% e a recuperação em força das bolsas. Ou seja, o mundo é um brinquedo que Trump manipula em função dos seus tempos políticos e os mercados parecem validar essa manipulação, rejubilando. Mundo estranho este que o Economist, uma vez mais, descreve exemplarmente com uma das suas capas assassinas. Tudo isto sem que o bloqueio à navegação no estreito de Ormuz pareça estar resolvido, a não ser que seja matéria central da tal obscura negociação. Para agudizar a incerteza, a declaração unilateral de Trump sugere que o novo Líder Supremo do Irão não estará a participar nas negociações, imagino que por razões básicas de proteção da nova liderança teocrática, suscitando a interrogação de quem estará a assumir essa função.)

Que o mundo de hoje está mais difícil de entender é uma conclusão a que chegamos a todo o momento, à medida que mais e diversas evidências se vão acumulando para o considerarmos uma espécie de “novo normal”.

Já que recorremos à capa do Economist para identificar este post é justo que permaneçamos na revista para documentar mais uma dessas evidências malucas que ilustram o incompreensível mundo que temos pela frente.

 

Quando seria previsível que surgisse informação sobre movimentos de expatriação e imigração provenientes de países em guerra ou mais diretamente tocados pela instabilidade bélica que hoje se vive, a revista reúne, pelo contrário, dados relativos a 31 países ocidentais, documentando um fenómeno de expatriação com origem no ocidente. Trata-se de um indicador sobre o conjunto de pessoas que terão deixado de residir nesses países da amostra de 31, temporária ou definitivamente, sem contudo nos seus grandes números deixar de ter como destino outros países ocidentais. É um facto que os países do Golfo influenciaram essa expatriação, mas é de imaginar que a incerteza hoje aí vivida tenda a fazer desacelerar essa atração. A revista, sem contudo incluir na estimativa a emigração americana, por considerar ainda pouco fiáveis as fontes de informação disponíveis, estima esse movimento mais recente em cerca de 4 milhões de pessoas, com a evidência de que quem sai tende a ser mais liberal do que quem fica, o que pode trazer consequências políticas. Sempre me causou alguma impressão o registo de alguma população inglesa que poupa uma vida inteira para se fixar com a reforma noutro país. Tudo indica que esse comportamento está a generalizar-se, explica a revista devido essencialmente a três fatores: a deslocalização hoje possível do trabalho, a fiscalidade e razões políticas (o declínio da democracia parece induzir o crescimento da emigração). Não deixa de ser curioso que este movimento de expatriação ocidental está contra a corrente do populismo político que clama contra a imigração e adquire outro significado quando acontece a partir de países que não estão propriamente numa primavera demográfica.

Mundo estranho este!

 

TÍTULOS QUE DIZEM TUDO!

A “The Economist” distribuiu esta manhã uma daquelas suas frequentes sínteses noticiosas que logo nos dão uma primeira base para conhecimento e apreciação do que nos vai rodeando pelo mundo. No caso, desgraçadamente.

 

Repare-se: por um lado, mesmo o melhor cenário para os mercados energéticos é desastroso; por outro lado, Donald Trump tem quatro más opções para a guerra no Irão. Como vamos então sair daqui, dominados por um “narcisista maligno”, por um assassino sem mercê, por um regime igualmente assassino e sem mercê e por uma comunidade das nações despida de poder e impotente para fazer impor qualquer tipo de lógica humanista nos conflitos que alastram? Sem esquecer um outro assassino sem mercê que de Moscovo vai assistindo alegremente ao desenrolar dos acontecimentos, beneficiando das tornadas inevitáveis compras de petróleo e gás ao seu país e aproveitando as distrações que tornam a guerra na Ucrânia um campo largamente aberto às suas ambições imperialistas. E sem esquecer ainda Gaza e o Líbano, pois claro, invasões tão hediondas quanto injustificadas à luz de mínimos em termos de direitos humanos internacionalmente consagrados.

 

Tudo agravado à enésima potência com o sonso Netanyahu – sempre pronto a exaltados louvores a Trump – a lograr o cúmulo de inversão que é o de os EUA se disporem a ser uma espécie de subproduto da estratégia do “Grande Israel” por força do fascínio com o poder tecnológico e militar com que o presidente americano desenvolve, aos altos e baixos e entre Inteligência artificial, memes e uma narrativa simplista, a sua inconcebível “guerra de videojogos”.


(Emilio Giannelli, http://www.corriere.it)

(Riki Blanco, https://elpais.com)

sábado, 21 de março de 2026

NOTAS PARA MIM PRÓPRIO

 


(As aleluias já deram um ar da sua graça em Seixas e o verde sublime dos carvalhos está também a tomar forma, o que me indica que a primavera está aí à porta a apelar que não resistamos ao seu encanto libertador, por mais que o contexto de guerra e indeterminação nos puxe na direção contrária. Sem grande vontade para me embrenhar à secretária em questões de trabalho que aguardam resolução metodológica, afinal é fim de semana, refugio-me em algumas notas para mim próprio, centradas na decisão de apresentar ou não uma comunicação, com elaboração de paper correspondente, à Conferência Anual da Associação Portuguesa do Desenvolvimento Regional, da qual sou um dos sócios mais antigos, que se realizará em julho próximo no Politécnico do Cávado. Devo confessar que já não tenho pachorra, nem tempo disponível, para elaborar uma aprofundada investigação empírica sobre um determinado tema de política regional, sobretudo porque os cada vez mais exigentes trabalhos de avaliação de políticas públicas têm suscitado a necessidade de fortes investimentos metodológicos, que não são mais do que outras formas de investigação aplicada. Por isso, nas tais notas que designei de reflexões para mim próprio está mais presente o propósito de apresentar uma comunicação que traga reflexão às políticas regionais, hoje completamente perdidas na forte dependência dos fundos europeus, facto agravado até fins de 2026 com a intensa pressão de execução do PRR. É nessa direção que organizo o post de hoje, que interpreto como um guião possível para a elaboração de uma comunicação para julho próximo, organizando algum trabalho de pesquisa que será sempre necessário concretizar.)

Nestas coisas, existe sempre uma ideia central ou um título a germinar. É assim também neste caso. Posso descrever a ideia deste modo, em jeito de interrogação:

Como promover equilíbrios territoriais num universo de políticas regionais (de inovação e competitividade) dominadas pelo princípio económico dos rendimentos crescentes?

Desagreguemos então esta ideia central em temas parcelares.

O estado da arte da opinião pública mais informada é hoje caracterizado por uma preocupação sonante com os equilíbrios territoriais no continente, que já há algum tempo não era sentida. O que é em si próprio um facto muito positivo.

Vários fatores contribuíram para este aparente ressurgimento dos princípios da equidade territorial.

Os fenómenos dos incêndios nas suas sucessivas manifestações de impotência de resposta e as mais recentes intempéries permitiram olhares diversos sobre o território continental e sobre a sua fragilidade intrínseca. Esses novos olhares foram claramente além da velha dicotomia litoral-interior. Mostraram, pelo contrário, uma teia complexa de novos desequilíbrios e vulnerabilidades que não se limitam à chamada baixa densidade do interior mais longínquo. Numa linha de reflexão que, sem falsa modéstia, acho que foi pioneira na comunidade de práticas do desenvolvimento regional, mostrei que esses desequilíbrios e vulnerabilidades se observavam também em territórios mais densos, mas desordenados e pobres, nas imediações das grandes concentrações litorais. Quis também a ironia do destino que a descoberta generalizada destas novas vulnerabilidades acontecesse em simultâneo com um período de fortes perturbações na aglomeração metropolitana de Lisboa (problemas na saúde, na educação, na habitação, na pobreza urbana) que dificilmente poderão ser dissociadas da incapacidade organizativa existente para lidar e gerir níveis tão elevados de concentração de pessoas e de atividades.

Esta combinação virtuosa para o ressurgimento dos princípios de equidade (equilíbrio) territorial tem conduzido a diferentes tomadas de posição públicas sobre a necessidade de um maior reequilíbrio territorial do investimento público (e da organização da máquina do Estado, algo de mais difícil concretização). Entre tais posições destacou-se mais recentemente o Círculo de Estudos do Centralismo (com sede em Miranda do Douro), hoje presidido por Carlos Tavares (mas em que pontuam nomes como Arlindo Cunha e Miguel Cadilhe), que, além de manifesto sobre essa necessidade de maior equilíbrio territorial do investimento público, organizou na FEP a sua 1ª Conferência Anual, que teve algum eco na comunicação social. No mesmo sentido, alguns jornalistas como Ana Sá Lopes, Daniel Oliveira, David Pontes e Manuel Carvalho, entre outros, têm escrito artigos que situam também o tema, apresentando-o até como o elemento essencial da tão propagada e sempre adiada reforma do Estado.

Não estou a sugerir que esta dinâmica de opinião pública seja suficiente para conduzir ao sobressalto nacional necessário. Mas é importante que ela aconteça, pois a crítica da lógica de alocação territorial do investimento público é um processo duro, que mexe com princípios adquiridos (como por exemplo o hub de transporte aéreo de Lisboa) e que, por isso, existe sucessivas vagas de espírito crítico.

Mas a ideia central que estrutura o meu argumento para uma possível comunicação à Conferência da APDR é que este ressurgimento (em si valioso) acontece ao mesmo tempo que, em matéria de política regional, designadamente a que é financiada por fundos europeus, está instalado um paradigma que colocou no centro da política regional as políticas de inovação e de competitividade. Ora, sem querer ser desmancha-prazeres, estas políticas desenvolvem-se num contexto que os economistas costumam designar de rendimentos crescentes. O que é que significa este palavrão? Significa que, por muito e mais esforço que possamos fazer no sentido de mitigar esses efeitos, a verdade é que tais políticas tendem a favorecer e a reforçar massas críticas organizacionais e de recursos já existentes. Por outras palavras, são as concentrações de recursos de I&D e de práticas de inovação já existentes que tendem a beneficiar mais das políticas de apoio inspiradas por lógicas de inovação e competitividade.

Existe aqui obviamente matéria de pesquisa empírica necessária para demonstrar que tem sido assim que tem acontecido. Basta por exemplo seguir com atenção a implementação no PT2020 e agora no PT2030 das estratégias regionais de especialização inteligente para compreender como a lógica dos rendimentos crescentes se tem reproduzido.

Daí o título-ideia proposto no início desta reflexão. Como mitigar esta inevitabilidade, a partir do momento em que nas políticas regionais os objetivos de equidade territorial foram hierarquicamente suplantados pelos de inovação e competitividade?

A resposta a esta questão abre um novo capítulo na possível comunicação a realizar. Como organizar a política de investimentos públicos para ajudar a contrariar essa tendência de inevitabilidade que os rendimentos crescentes trazem consigo?

Obviamente que esse tema dá para um novo post, mas há pelo menos uma ideia central que ressalta desde já. Para operar a mitigação de efeitos pretendida, há que romper com a ideia de atomização do investimento público. O que traz consigo uma consequência óbvia: não é a dimensão e âmbito do investimento municipal que serão suficientes para mitigar os efeitos do tal princípio instalado dos rendimentos crescentes.

Retirem daqui as consequências necessárias.

Mas isso será tema de outros posts ou da tal comunicação hoje abordada.