
(O momento que a economia americana atravessa é particularmente
estimulante para discutir a questão de saber quem é que está com a razão, a
ciência económica ou, pelo menos, parte dela ou o discurso fanfarrão de Trump,
seja no universo das promessas com que se apresentou aos americanos, seja no
modo como ele próprio avalia o estado da economia. É importante referir,
entretanto, que para quem se reporta ao momento do setor da bolsa de valores
como indicador de desempenho macroeconómico, pode construir uma narrativa
positiva da evolução atual da economia americana. Os índices bolsistas
americanos parecem validar o bom momento da economia americana, mas como
sabemos o mercado bolsista não representa um indicador completamente fiável do
desempenho macroeconómico. Além disso, como nem toda a população possui títulos
cotados em bolsa e consequentemente tem acesso aos níveis de riqueza que a
valorização bolsista proporciona aos detentores de títulos cotados, pode
acontecer, e muito provavelmente é o que presentemente acontece, pode gerar-se
uma enorme contradição e desvio entre o comportamento da bolsa e a perceção do
estado da arte de “affordability” que o cidadão mediano expressa quando avalia
a sua capacidade de acesso a bens e serviços com o seu rendimento mensal. A existência deste gap é conhecida, repete-se frequentemente nas economias
com informação macroeconómica mais pormenorizada e neste caso pode ser
artificialmente empolada pela especificidade do discurso de Trump, que confunde
quase em permanência a sua visão do estado da economia com a avaliação o mais
objetiva possível dos indicadores e evidência macroeconómicos. É sobre este gap
que gostaria de construir o post de hoje, de novo em confronto tenaz com o desaparecimento
do sol e o regresso da chuva, agora miudinha e irritante…)
Uma das promessas de Trump e do
movimento MAGA em geral que não está a ser confirmada é a sua ideia de que as
suas políticas iriam fazer acordar o gigante industrial americano adormecido,
trazendo de novo à indústria transformadora a sua capacidade do passado de
proporcionar aos americanos ressentidos as perspetivas de emprego que perderam
no passado recente. Tal como Adam Tooze o destacou no seu Chartbook, o ano de
2025 revelou um comportamento regular de perda de emprego na indústria
transformadora, apagando claramente a ideia de renascimento industrial com que
Trump embelezou o seu programa disruptivo de protecionismo entendido como arma
de guerra.
Este é muito provavelmente o tema em
que a ciência económica resiste bem ao discurso fanfarrão de Trump. É de uma
longa mudança estrutural que se trata impulsionada pelo desenvolvimento económico
da economia americana, logo um processo que, embora passível de oscilação conjuntural,
acaba por se tratar na queda do emprego na indústria transformadora, sendo
discutível se essa queda é apenas percentual (peso no total do emprego) ou se
integra também uma queda absoluta dos níveis de emprego industrial (indústria
transformadora). A proteção aduaneira agressiva com que Trump pretendeu
estimular a produção industrial americana ignorou a dimensão crucial dos produtos
intermédios, matéria em que a economia americana continuou dependente de fornecimentos
chineses. A impreparação da disrupção aduaneira provocada levou inclusivamente
algumas indústrias americanas a ser penalizadas, porque viram os seus consumos
intermédios com preço aumentado devido aos direitos aduaneiros lançados sem uma
racionalidade económica. O Departamento de Comércio da administração Trump deu
mostras de dominar mal a compreensão das cadeias de valor globais e sobretudo o
avanço de competitividade que alguma produção asiática revelava no mercado. Por
conseguinte, neste tema a criatividade inventiva do discurso de Trump não
parece capaz de contrariar o que a ciência económica da mudança estrutural de
longo prazo anunciava. O problema não está, assim, na perda de emprego
industrial sentida por alguns (muitos) americanos. O problema estará na sua
eventual incapacidade de encontrar ocupação alternativa para as competências
que apresenta, com ou sem necessidade de formação profissional indutora da
adaptação no mercado de trabalho.
O segundo tema está relacionado com
este último e pode ser descrito pela interrogação que Krugman colocou aos seus leitores – afinal quem está a pagar os direitos aduaneiros impostos pela
administração Trump? Uma coisa sabemos, em matéria de receitas públicas nada de
novo está a acontecer em relação ao esperado– a administração Trump está a
receber rios de dinheiro com os direitos lançados.
Tal como no tema do renascimento
manufatureiro, a administração Trump apresentou-se contrariando o pensamento
dominante da ciência económica nesta matéria. Quem estaria a pagar os direitos
aduaneiros não seriam os consumidores e empresas americanos, mas antes os
fornecedores estrangeiros que para continuar a entrar no mercado americano
tenderiam a absorver esses custos. Também aqui a evidência que vai sendo
conhecida tende a mostrar que não têm sido os fornecedores estrangeiros a
suportar o ónus da política comercial protecionista de Trump. O que está a dar
algum fôlego e esperança à administração americana é que os estudos que
documentam não serem os fornecedores estrangeiros a suportar o ónus da medida
revelam também que os dados da inflação americana não estão compatíveis com
esse ónus anunciado sobre os consumidores e empresas americanos. O que do ponto
de vista da ciência económica é uma questão relevante e que merece ser analisada
em profundidade.
O estudo realizado pelo Banco da Reserva Federal de Nova Iorque mostra que no mês menos penoso para os consumidores e
empresas americanos, a repartição do ónus aduaneiro recaiu 86% nos importadores
americanos e 14% nos estrangeiros. O efeito sobre os consumidores americanos
pode estar a ser minimizado pela descida de lucros de empresas importadoras. Mas
o que constitui o dado mais curioso indicado por Krugman é que o impacto
previsto no aumento dos preços no consumidor, admitindo que todo o peso dos
direitos passaria para os consumidores, seria apenas de 1%. Este número é
surpreendentemente baixo e o economista americano explica-o por dois motivos
essenciais: as importações representam apenas 11% do PIB americano e o aumento
efetivo das tarifas ficou bastante aquém do discurso anunciado por Trump,
designadamente através da errática política de isenções praticada pela própria administração
americana em função dos impulsos do Presidente.
(Paul Krugman, artigo citado)
Krugman analisa com pormenor as razões
pelas quais o comportamento da inflação está abaixo do previsto. O carácter aprofundado
da análise transcende o alcance deste post, recomendando-se por isso a leitura
do artigo do economista americano. Não é possível para já afirmar com segurança
por quanto tempo o peso do ónus dos direitos aduaneiros nos importadores
americanos e não nos fornecedores estrangeiros irá continuar a não ter fortes
repercussões na inflação americana. Mas o que é curioso é que, embora a administração
Trump tenha errado na ideia de que seriam os fornecedores estrangeiros a
suportar os custos, a verdade é que por agora parece estar a salvo da ameaça da
inflação. O que não é despiciendo do ponto de vista da tão falada “affordability”
para o cidadão mediano americano, não necessariamente detentor de títulos
cotados em bolsa.
Moral da história: a ciência económica vence mas o discurso de basófia de Trump resiste em
parte.