terça-feira, 14 de julho de 2026

GAULESES CONTRA VIZINHOS

 
(Idígoras y Pachi, http://www.elmundo.es) 

Hoje, dia nacional francês, joga-se a primeira meia-final do Mundial de Futebol entre a França e a Espanha. Uma prova arriscada a diversos níveis mas que até tem corrido bem, desportivamente falando, pesem embora as dúvidas que se abatem sobre algumas decisões pontuais que afastaram equipas “pequenas” em favor de outras mais poderosas (o caso do Egito perante a Argentina terá sido o mais gritante) ou que levaram o inconcebível presidente da FIFA (Gianni Infantino) a acolher a “cunha” de Trump (ou terá sido ordem?) para que retirasse o jogo de suspensão que impendia sobre um dos melhores jogadores dos EUA nos Oitavos contra a Bélgica.
 
Sustentam os mais desconfiados que tudo está inclinado para o lado dos sul-americanos comandados por Messi, talvez tendo até chegado a haver quem sonhasse com uma final multimilionária entre o argentino e CR7 (sonho inconcretizável face à prestação miserável do português) – pessoalmente, ainda resisto a validar a presença de um tal tipo de expediente/artimanha e só passarei a considerar definitivamente a hipótese depois de assistir aos jogos da Argentina contra a Inglaterra e, se for caso disso, um dos vencedores de hoje, tanto mais que assumo que qualquer das três equipas europeias é coletivamente mais equilibrada do que a de Messi e Cª.
 
Outra polémica, assaz menos interessante, é a que foi suscitada por Rajoy a propósito da origem dos jogadores franceses. Uma demonstração de estupidez da parte do ex-presidente do governo espanhol visto que se referia a uma evidência (a maioria dos atletas adversários tem origem africana mais ou menos longínqua) mas que a explorou em sentido contrário ao que pretendia e lhe poderia até ter fornecido um bom argumento político em favor da imigração que se observa na Europa (e em França, obviamente) e do exemplo do seu acolhimento em moldes socialmente pacíficos e vantajosos.
 
No ínterim, a partida desta noite coloca as expectativas num plano bastante elevado, a despeito da forma física que já começa a falhar nos jogadores e da complexidade dos esquemas táticos que cresce com a responsabilidade associada ao desfecho final – a linha avançada dos franceses (Dembelé, Mbappé e Olise, com Doué, Barcola e Mateta a poderem sair do banco a qualquer momento) garante-lhes algum favoritismo (Lamine Yamal não está, ademais, no seu melhor) mas tudo poderá acontecer, atento o facto incontroverso de a bola ser redonda...

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

PIRATARIA NO ESTREITO

 


(A sobrevivência política do Presidente Lula no Brasil não é coisa que esteja por natureza assegurada e a minha intuição diz-me que a esquerda brasileira estará em maus lençóis se não construir atempadamente uma alternativa assente numa figura que consiga assegurar a desejada transição e bloquear que a onda populista de extrema-direita não penetre também o Brasil. Além disso, o posicionamento de Lula na cena internacional é tudo menos claro, sobretudo do ponto de vista do seu relacionamento com a Rússia de Putin, com reflexos na abordagem ao problema da Ucrânia. Porém, a voz rouca de Lula continua a ser indispensável em algumas questões da cada vez mais complexa situação internacional e, embora ameaçados politicamente, Lula e Pedro Sánchez são um verdadeiro oásis no mundo de líderes cobardes e oportunistas que se passeiam pelas reuniões internacionais. Tudo isto vem a propósito da recente afirmação de Lula que vociferava sobre a inqualificável proclamação de Trump que iria controlar de novo o movimento marítimo no estreito de Ormuz, acrescentando a essa decisão uma outra de impor uma taxa de 20% sobre os fluxos comerciais por ali realizados para remunerar esses serviços. Ora o que Lula afirmou alto e com bom som é que se tratava de um regresso à pirataria e que Trump era o pirata dos tempos modernos por aquelas bandas do Estreito. Obviamente que as virgens diplomáticas ofendidas e os florzinhas dos salamaleques mais elegantes virão a terreiro afirmar que isso não é linguagem própria de um estadista e que a política não pode entregar-se aos sortilégios da rua e da populaça. Mas, se pensarmos bem, é de pirataria da grossa que se trata, sobretudo porque a situação atual no Estreito resulta de um erro de cálculo político que o próprio Trump praticou. Não sabemos se a sua proclamação acabará por engrossar a já vasta gama de afirmações sem concretização, seja porque os ventos mudam de feição, seja porque sim, simplesmente.)

Se estivermos atentos aos efeitos e reações que tão estranha decisão provocou nos agentes logísticos e de transportes marítimos que asseguram a passagem pelo estreito de Ormuz das cargas petrolíferas e de outras mercadorias, percebe-se que a preocupação é manifesta, dado o impacto nos custos de movimentação dessas mercadorias será elevado. Se alguns desses operadores tiveram força e dimensão suficientes para impressionar Trump e os seus mais próximos é natural que a medida não passe da inventiva de um pirata fogoso e que rapidamente encontrará um outro ponto de interesse para o seu narcisismo. O New York Times reproduz um pequeno cálculo de um operador logístico especializado e que reza em termos simplificados o seguinte: para um custo de 80 dólares o barril, o custo praticado pelas companhias de transporte anda hoje pelos 10 dólares; no caso da taxa de 20% ser aplicada, isso significará 16 dólares mais e que o custo de transporte passará para 26 dólares o barril. Nesse caso, para um transportador que movimente dois milhões de barris, a medida de Trump implicará um custo adicional de cerca de 30 milhões de dólares, que dificilmente não será repercutido para os consumidores.

Se isto não é pirataria, aceito explicações em contrário. Mas compreende-se que a voz rouca e cansada de Lula tenha soado de diferente maneira.

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

O LIVRE NO SEU LABIRINTO


Socorro-me da cobertura feita pelo “Público” ao XVII Congresso do Livre, realizado em Sintra. Um partido simpático, com apenas dez anos de existência e até agora muito enfeudado às boas intenções e ao voluntarismo de Rui Tavares – sem prejuízo da emergência de outros quadros com qualidade (Jorge Pinto, Isabel Mendes Lopes, Paulo Muacho) – com reflexos no cometimento de erros relativamente graves de posicionamento estratégico e conjuntural (vejam-se, designadamente, os episódios em torno de Joacine Katar Moreira ou de Francisco Paupério), fruto do lirismo que por vezes ostenta (a despeito da sua excelente ou boa preparação em variados domínios).
 
A reunião plenária era encarada como centrada numa eventual mudança de liderança (que parcialmente ocorreu) e numa eventual mudança do partido (que essencialmente não ocorreu). As figuras mais visíveis do partido mantêm-se como aquelas que, para o melhor e para o pior, irão continuar a influenciar os destinos da organização. E os seus remates conclusivos dizem quase tudo nessa perspetiva, i.e., sobre o excessivo triunfalismo que os anima – entre Isabel Mendes Lopes (“está aqui a refundação da esquerda”) e Jorge Pinto (“é mesmo inevitável que o Livre vai chegar ao poder”).
 
Mas há qualquer coisa de potencialmente virtuoso que emana do Livre, seja por via da juventude militante que patenteia seja por via do discurso aberto que procura acrescentar às opções da esquerda. Ainda assim, julgo que importaria que os responsáveis do partido se esforçassem por ganhar credibilidade adicional junto da opinião pública por via de um rompimento mais claro com as velhas tradições provenientes de posicionamentos e atitudes de caducado referencial revolucionário e, também, de se deixarem cair menos na tentação de modernismos laterais face ao que de fundamental o País de hoje necessita de enfrentar (da luta indefensável pela semana de quatro dias à questão romantizada da mobilidade nacional, para não explorar a sua autoapresentação enquanto “uma esquerda libertária, ecologista e europeísta”, o que quer que tal possa significar e implicar em concreto e diferenciadamente).
 
Além disso, temos a tática. O Livre diagnostica bem alguns traços marcantes da sociedade portuguesa – colocando a regionalização na agenda (mesmo que de uma forma ainda demasiado colada com cuspe) ou reagindo à ascensão da extrema-direita (“Percebi também que muitas pessoas sentem que perderam voz. Uma parte do eleitorado que hoje vota no Chega fá-lo mais como forma de protesto do que por convicção ideológica. Queremos disputar esse eleitorado, mostrando que também pode encontrar representação no Livre.”, declarou Jorge Pinto) –, admite as suas debilidades (determinando a sua necessidade de crescer, estruturar a organização a nível nacional, aumentar a ligação ao Paísvalorizando a autonomia local e uma lógica descentralizada) e defende a construção de pontes e cooperação entre as forças progressistas (embora pretendendo favorecer o seu crescimento orgânico e a sua “identidade própria).
 
Não obstante, os protagonistas do partido vão longe demais quando referem, algo contraditoriamente, que “o Livre nasceu para refundar e congregar a esquerda” e assim rejeitam qualquer coligação duradoura com o Bloco ou com o PS (afirma-se mesmo que querem “condicionar o PS no Orçamento” e que “o PS só voltará a ser Governo com a ajuda do Livre”), quando avançam com metas para o futuro (que só podemos qualificar como de horizonte longínquo) – “Nas próximas legislativas queremos afirmar-nos como a quarta força política. A médio prazo, ambicionamos tornar-nos o terceiro maior partido português.”, definindo um tal prazo como “dois ciclos eleitorais, cerca de dez anos” – e quando esquecem, portanto, a velocidade vertiginosa da realidade, ou seja, a urgência de uma ação focada que seguramente não poderá esperar pelas várias iterações a promover antes da “mudança de ciclo político, em Portugal e na Europa” no quadro da qual “queremos que o Livre esteja na linha da frente”.
 
Os críticos de dentro, e talvez também de fora, têm a sua quota de razão: o Livre pode e deve ter um papel na construção e afirmação de uma resposta adequada aos dilemas do País mas esse desiderato não pode ganhar tração e reconhecimento sem que o partido mude como talvez não tenha mudado no Congresso do fim de semana.

CAOS ORGANIZATIVO, INCOMPETÊNCIA PRIVADA OU QUEDA PARA O ABISMO POLÍTICO?

 


(Por mais que o ministro Fernando Alexandre se esforce para tirar a pata da poça, vão chegando a nível pessoal e da comunicação social em geral testemunhos de professores com atribuições na revisão de exames que anunciam o pior e que o descalabro organizativo em curso é algo de mais profundo do que um simples atraso na publicação das notas dos exames nacionais. A desorientação e o pânico instalados no sistema de revisão atormentam os professores e, pior do que isso, existe uma total ausência de interlocução para os professores reportarem anomalias que as solicitações por eles recebidas transportam. Ninguém consegue alimentar um pingo de confiança acerca do que pode resultar de tudo isto. Confrontando os ecos individuais que me vão chegando de diferentes quadrantes e o estado de avaliação de alarme que vai grassando pelos meios de comunicação, pressente-se que os primeiros antecipam algo de bem pior do que os segundos prefiguram, mas pode ser apenas uma imagem impressiva. Percebe-se também que o ministro da Reforma Administrativa Gonçalo Matias é o grande aliado de Fernando Alexandre na decisão de não recuar, dada a importância do processo de digitalização em todo o processo por ele conduzido. Imagino que por banda dos ministros mais políticos, a sensação será de pânico instalado, sobrevalorizando os custos sociais e políticos de todo este processo.)

A imagem do armazém algures em Lisboa em que as provas estão depositadas que as televisões reproduzem com insistência, com o Ministro e Secretário de Estado a deambularem por ali, esperando o milagre da organização, é penosa e vai acompanhar por certo a carreira política que o ministro queira futuramente realizar, no pressuposto de que não pretenda regressar às lides académicas. E mais desagradável do que tudo isto é a perceção de que os professores são piões indefesos nesta grande trapalhada, arruinando o processo necessário de reconquista do seu valor social e do seu reconhecimento por parte das famílias e alunos.

O caos é tão generalizado que é praticamente impossível garantir se se trata de deficiências organizativas de um ministério que nos últimos anos se centralizou ainda mais, ou se é pura incompetência privada à solta, mais propriamente deficiente avaliação da situação a resolver ou se a combinação é ainda mais explosiva com a teimosia do Ministro a imperar em todo o processo, forçando uma situação que não tinha devidamente controlada.

O diabo que escolha. Mas o que é flagrante é que o estado de transição em que o sistema educativo nacional se encontra, a exigir um paradigma de maior eficiência e qualidade depois do salto quantitativo que conseguiu dar, não é compatível com perturbações deste calibre. O ministro Gonçalo Matias pode invocar obviamente o interesse de não voltar para trás na sua senda da digitalização. Mas tem de compreender que a transição com êxito pela qual o sistema educativo está a passar está muito para lá do sucesso da digitalização, é bem mais complexa do que isso e não pode ser perturbada por passos demasiado ambiciosos que podem comprometer a eficiência e a melhoria de qualidade do sistema, é disso que o país necessita e não de agendas individuais.

Claro que esta questão é do domínio da coordenação política e isso pertence ao 1º Ministro e não a porta-vozes por mais ambiciosos que sejam. Creio que não ouvimos ainda uma palavra que seja de Montenegro, o que é um bom indicador do seu estilo de (não) governação.

 

sábado, 11 de julho de 2026

RUTTE COMO INFANTINO, TWO OF A KIND

(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

Realizou-se na passada semana, em Istambul, uma importante Cimeira da NATO. Um Erdoğan visivelmente diminuído fez as honras da casa e procurou enquadrar o voluntarioso presidente americano. De facto, Trump consegue sempre, onde quer que esteja, chamar sobre si as atenções, por muito infantis ou imbecis que sejam as suas posturas e declarações – desta vez, entrou a criticar e depreciar brutalmente os líderes europeus para, depois de estes o terem bajulado de forma por vezes pornográfica, acabar contente e a louvar o amor que todos lhe demonstram.
 
Neste quadro, a reunião que parecia visar a abertura de uma nova fase da Organização (chamam-lhe NATO 3.0), especialmente orientada para uma estrutura menos dependente dos americanos (ou mais europeia, se se quiser), saldou-se por ligeiros avanços e muito mais por um ganhar de tempo dos responsáveis dos países europeus e da União, que insistem em ir adiando até onde puderem as decisões difíceis que tardam mas lhes são exigíveis.
 
No meio deste estado de coisas, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, insiste em evidenciar à saciedade o seu enorme temor a Trump através de uma chocante necessidade de se rir com ele, de lhe mostrar aprovação de quanto diga e de sempre fazer o devido eco de tudo o que ele proponha ou determine – Rutte é, assim, um “lambe-botas” encartado que manifestamente não representa os cidadãos europeus, para não referir mais direta e frontalmente que envergonha a maioria deles. Assistimos assim, e mesmo sabendo-se que as cartas principais do jogo estão na mão de Trump, à enésima oportunidade perdida para o colocar no seu lugar ou, pelo menos, para lhe fazer sentir o despeito que nos merece.

quinta-feira, 9 de julho de 2026

A UNIÃO EUROPEIA NÃO COMPREENDE OS NÚMEROS DO SEU PRÓPRIO COMÉRCIO EXTERNO?

 

(O sempre perspicaz analista do Financial Times, Martin Sandbu, assina na newsletter Free Lunch do jornal uma curiosa reflexão sobre as ondas de pânico que, com epicentro na Alemanha e na Volkswagen, estão precipitadamente a formar-se na União em torno do relacionamento comercial com a China. O problema existe e os cerca de 100.000 trabalhadores da Volkswagen atingidos pelo despedimento potencial melhor do que ninguém darão razão a essa onda de preocupação. A análise de Sandbu tem o mérito de com evidência simples mostrar que a contaminação gerada pela situação daquela empresa alemã está longe de ter justificação plena, olhando para os números globais do comércio externo europeu. O problema existe, mas seguramente que a má compreensão dos dados do comércio externo que está na base das tais ondas de pânico não será seguramente boa conselheira para traçar os rumos de política mais consentâneos com a proatividade de mitigar a sua incidência.)

Os problemas que a Volkswagen enfrenta em termos de supressão de postos de trabalho foram associados à ameaça chinesa na sequência do aumento das importações provenientes da China registado nos tempos mais recentes, com relevo para a vertente dos veículos automóveis. Como a história económica nos ensina, ondas de pânico conduzem regra geral à generalização do protecionismo mais defensivo, tanto mais fácil quanto Trump vulgarizou essa prática com a volatilidade do seu humor em matéria de política comercial externa.

O que a análise fria de Sandbu nos mostra é que essa onda de crescimento das importações chinesas é registada num contexto em que as importações europeias globais tiveram um crescimento praticamente residual. Assim sendo, o que efetivamente aconteceu é que as importações chinesas se limitaram a substituir outras importações, provenientes seja dos EUA, do Reino Unido, Japão ou de outros países. Ou seja, não há uma invasão global de importações, o que acontece é que as importações chinesas (cerca de um milhão de veículos em 2025) traduziram uma perda de competitividade das importações de outros países no mercado europeu. Em termos geopolíticos, isso pode ser um problema, acaso as autoridades europeias entendam desejável que o seu mercado interno não seja dominado pelo poderio industrial e elétrico chinês. Mas do ponto de vista da ameaça à indústria europeia não tem grande significado, por muito impressivos que sejam os números do aumento de importações provenientes da China.

Mas ainda mais surpreendente é a evidência de que a União Europeia continua a ser uma exportadora líquida de veículos elétricos, por mais impressionados que estejamos com a presença física do vasto manancial de marcas de veículos elétricos chineses que se passeiam pelas nossas estradas. Certamente que o potencial competitivo, ardiloso como o sabemos, da produção chinesa de veículos elétricos é em si revelador, sobretudo do ponto de vista, esse seguramente mais ameaçador, de que os chineses dominam praticamente toda a fileira elétrica. Acresce que a faixa de preços a que a União exporta os seus veículos é claramente superior à faixa de preços a que as importações chinesas se materializam.

Face à realidade dos números, não parece saudável que os problemas registados no “motor alemão” (que já não é o que era, assinale-se) façam o pânico europeu galopar desorientadamente. O pânico, sobretudo o pânico injustificado e com deficiente compreensão dos números de suporte, nunca foi bom conselheiro de uma política industrial, mais propriamente de ressurgimento industrial. E não são números complexos. Antes pelo contrário, são bem simples e esclarecedores.