(Continuo em busca das metáforas que o Mundial nos está a oferecer. A loucura do jogo com a Croácia, já madrugada adentro, representa em meu entender uma interpretação representativa do destino português neste estádio de perturbação mundial em que vivemos. Num estádio, embora pequeno, maioritariamente luso, dada a importância da comunidade portuguesa em Toronto (ainda me lembro dos jardins fronteiros de algumas casas de portugueses com cultivo de vegetais, tomates e outros, a afirmar uma presença singular), o desenrolar das incidências do jogo retrata bem o que somos e o que temos sido por estes tempos mais próximos. A primeira parte finalmente bem jogada, com circulação de bola mais rápida do que o habitual, mas com uma capacidade nula de finalização, foi o espelho de muita da inconsequência nacional, deambulamos muito, sobretudo para o lado e para trás, mas o foco objetivo na concretização escapa-nos e invocamos depois a má sorte. Na segunda parte, perante uma Croácia que confirmou que sabe jogar e bem, pese embora a cruel necessidade de renovação etária, sofremos um amasso dos antigos. As crateras abertas nas inúmeras transições defensivas em que nos entregámos abertamente às investidas do adversário foram antecipando o pior, não fora a qualidade de um insuperável Diogo Costa (por quanto tempo o FCP vai aguentar esta preciosidade?). O empate surgiu inevitavelmente e poderia ter sido bem pior, pois estivemos no limirar do abismo de sofrer uma das mais poderosas humilhações desportivas. Quando os treinadores mais conservadores e empatas como Martinez se entrega a mudanças disruptivas receio sempre o pior. O selecionador ousou abdicar praticamente da consistência do nosso meio-campo, Ronaldo perdeu por poucos centímetros de um ombro demasiado adiantado a possibilidade de consumar uma das mais belas receções de bola na sua carreira, mas eis que há sempre um português pronto a desafiar o destino e Gonçalo Ramos, nos seus primeiros minutos de mundial, expliquem-me esta evidência, sai do banco e num cruzamento teleguiado de Rafael Leão eleva-se, suplantando os centrais e com uma inteligente cabeçada coloca Portugal a ganhar.)
Gonçalo Ramos assumiu neste caso aquele papel do português único que é capaz de, nas condições mais adversas e improváveis, concretizar coisas, suscitando aquele nosso velho dilema de saber como é que não é possível replicar estas situações. E, no caso dele, já não é a primeira vez.
Consumada a reviravolta, trancas à porta e trata-se agora de compensar as audácias da mudança radical imposta com a substituição de quatro jogadores e recuperar com Ruben Neves a consistência do meio-campo de que tínhamos abdicado voluntariamente. A partir daí, o fado da não contenção repetiu-se como tantas outras vezes sucedeu no passado, criando no espectador atento a sensação de que o golo croata estava próximo, naquela estranha sensação da incapacidade coletiva que nada pode compensar. E assim aconteceu. Mas a tecnologia apurada dos sensores protegeu a nossa incapacidade coletiva, sendo demonstrável que o centro-avançado croata Matanovic tocou de raspão na bola colocando em fora de jogo o colega que abriu caminho ao golo de Gvardiol. Jogo loco e repleto de metáforas.
E, por fim, vários jogadores portugueses invocaram a alma e recordação de Diogo Jota para justificar a força daquela vitória. Teria de ser, obrigatoriamente e em termos esperados.
O que eu não sei é se a qualidade da Espanha estará para aí virada.








