quinta-feira, 23 de julho de 2026

OS CANADIANOS JÁ PREFEREM OS CHINESES!

 

O Prémio Nobel da Economia Paul Krugman, frequentemente aqui objeto de referência, continua a comentar, a escrever, a entrevistar numa atividade quase arrepiantemente frenética e de enorme utilidade pela sua veia ativamente intervencionista na política americana e nos grandes temas que marcam a atualidade mundial (incluindo incursões relevantes em sede de Inteligência Artificial) – que a energia não lhe esmoreça, a mão não lhe doa e Deus o conserve!
 
O mais recente dos seus escritos que me passou pelas mãos diz respeito a mais uma “trumpice” protecionista (dadas as circunstâncias das suas guerras e respetivos custos, talvez até se trate mais de tentativas de colmatar os buracos orçamentais que não cessam de se manifestar – veja-se o gráfico abaixo), concretamente, o anúncio por parte de Donald de ir aplicar um aumento alargado de tarifas ao vizinho Canadá alegando práticas desleais (invasion of wildfire smoke). Krugman reagiu do seguinte modo: “O Canadá devia ser, e costumava ser, o mais amigo americano no mundo. Partilhamos valores políticos e morais essenciais com o mosso vizinho nortenho. Na sua maior parte, até partilhamos uma língua comum, eh? E os canadianos viam-nos muito favoravelmente até que Trump começou com as suas tarifas e ameaças. Agora, somos vistos menos favoravelmente do que a China.” Afirmação que remete para o gráfico acima, por demais esclarecedor dessa viragem absolutamente contranatura ocorrida em tão escasso período de três anos.


 

As autoridades canadianas, designadamente Mark Carney e o governador provincial do Ontário Doug Ford, fazem bem, portanto, em mostrar cara feia às diatribes de Trump (que, além das taxas aduaneiras discriminadoras que vem aplicando – veja-se o gráfico abaixo, que exclui a tresloucada especificidade da China para não distorcer a análise – e também resiste muito abertamente a qualquer renovação de um acordo estrutural de comércio com os seus vizinhos a norte e a sul) e em argumentar em favor da autonomia do país e da correspondente necessidade de abordagens de tipo novo como a que promissoramente assenta nos chamados middle-powers.


 

(cartoon de Ann Kiernan, https://www.ft.com)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A DIVERSIDADE E MESTIÇAGEM COMO FORÇA COLETIVA

 


(A vitória da força coletiva da Espanha, acomodando todos os talentos individuais que se afirmam e despontam nesta seleção, demonstrou também o contraponto com a inferioridade de outras equipas em que os egos e talentos individuais se sobrepuseram ao coletivo, Portugal incluído. Mas o regresso a casa de La Roja, enchendo as avenidas e praças de Madrid, mostrou também como, neste caso, o futebol suplantou a polarização política que varre a sociedade espanhola. Mas não se trata de um futebol qualquer. A diversidade e a mestiçagem estruturam a sociedade espanhola e, como bem o sublinhou o jornalista Fernando Salgado da VOZ DE GALÍCIA, liderada por um homem exemplar cujas características de “Católico, amante dos touros e espanhol sem complexos” somaram à diversidade atrás referida, não a diminuindo, antes a reforçando. A seleção espanhola é, assim, um exemplo vivo de como a diversidade suplanta sempre a sensaborona monotonia da homogeneidade, neste caso colocando essa diversidade e mestiçagem ao serviço de uma força coletiva exemplar. As rastras de Nico Williams com a sua elástica cabeçada dirigida ao artístico pé esquerdo de Ferran Torres, o catalanismo de Cubarsi, a excentricidade de Cucurella, a contemplação muçulmana de Lamine Yamal, a bandeira galega de Borja Iglesias e a canária de Pedri tudo isso conviveu na insuperável força coletiva daquele conjunto. Que bela metáfora do valor da diversidade e da mestiçagem nos deu a seleção espanhola. E como o jornalista galego rematou como sentença final, durante todo este período nem um pio se ouviu do truculento Abascal. Pudera …)

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

ANDY IN CHARGE

Dia um de Andy Burnham (AB) como primeiro-ministro britânico. Um discurso breve de apenas sete minutos em que não detalhou prioridades mas apenas procurou evidenciar o simbolismo de um posicionamento que parece advogar de um líder menos politicamente formal (menos ideologicamente determinado) e mais driven por uma atenção preponderante ao quotidiano dos cidadãos (care of people).
 
Chris Smith (“Financial Times”) identificou nele cinco tópicos principais: uma primeira tarefa traduzida em fazer cessar a instabilidade política (turmoil, disse); de seguida, promete a mudança (as maiores dos últimos 40 anos, disse) e exemplifica com a reversão do esvaziamento do poder local (people feel powerless because decisions are made far away,numa referência já habitual aos left behind) e da privatização das utilities mas não abandona uma incursão na indesejável desindustrialização da sua Inglaterra do Norte; prossegue com a descentralização do poder como via para relançar as regiões em dificuldades com foco em áreas como a energia, os transportes, o ambiente ou as qualificações (prometendo políticas, entre de concorrência e fiscais, que contribuirão igualmente para aliviar o custo de vida) e a fazer assentar num plano a 10 anos que se comprometeu a apresentar a breve trecho; insiste no seu conceito de “Estado preventivo” (também porque preventative” public spending will truly end up cutting costs in the long runpara sublinhar as suas prioridades reformistas em matéria de bem-estar e segurança social em implícito detrimento da centralidade das regras orçamentais e da despesa em defesa; acaba com a ideia de uma instrução que produzirá desde o início (to end rough sleeping in our country) e com um apelo a um novo sentido de unidade nacional, de comunidade de propósitos e de positividade. Do novo Governo, também hoje designado, saliência para dois nomes: Ed Miliband nos Negócios Estrangeiros (um ex-líder do Labour quando bateu o seu irmão David em 2010) e Wes Streeting (que se demitiu da Saúde e chegou a ser apontado como sucessor de Starmer) na Defesa.
 
Em resumo: os mais incrédulos (e conhecedores?) terão encontrado nas palavras de AB algo entre a inocência da boa-vontade e a incontornável demagogia da política, eu li-as com alguma dose de esperança de que possa ter finalmente emergido um comando normal e competente para um país que se arrasta em contradições e manifestações de declínio (sobretudo depois da consciencialização do engano cada vez mais consensualmente reconhecido do Brexit – gráfico e imagem abaixo) e que não estará longe de ver chegar ao poder, caso não seja invertida a rota em curso (sondagens favoráveis ao Reform UK de Nigel Farage, apesar de uma ligeira quebra após a revelação de um escândalo que o obrigou a demissão parlamentar), a extrema-direita mais traiçoeira, mentirosa e corrupta da Europa.


(Jonathan McHugh, https://www.ft.com)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O FUTEBOL DE BAIRRO FOI ESMAGADO

 



(A americanada do Mundial 2026 lá terminou e a alocução de Tom Cruise no início da final ficará para a história como uma das mais refinadas manifestações de retórica da hipocrisia, sobretudo no contexto dos EUA de hoje, que apontam para tudo menos seguramente para a ideia de harmonia mundial inclusiva que Infantino e seus pares pretenderam transmitir. No plano mais futebolístico, não me recordo de uma final em que se tenha registado um amasso tão evidente como aquele que a equipa de Lafuente proporcionou, só pecando por tão fraca capacidade de concretização de um domínio tão avassalador. O futebol de bairro argentino tinha conseguido passar pelos pingos da chuva nas eliminatórias anteriores, num misto de raiva e do talento de Messi e durante o jogo de ontem fiquei com a convicção de que os jogadores argentinos se sentiam protegidos por alguma mensagem divina, esperando que algum milagre se produzisse nos últimos minutos do jogo e do prolongamento, admitindo até que essa esperança se estendesse às grandes penalidades. Mas terminar o tempo de jogo sem um remate à baliza da Espanha equivale a levar essa esperança divina aos limites do incomportável. E, como sempre acontece, a rebeldia e matreirice do futebol de bairro tendem a morrer com as suas próprias manhas, algo que cruelmente se revelou com a expulsão sem espinhas do Enzo Fernández, colocando nas cordas a vulnerável seleção argentina.)

A classe coletiva, que ofusca os inúmeros talentos individuais, da equipa da Espanha produziu um gigantesco amasso da rebeldia argentina e só espanta que os argentinos tenham conseguido conter no parco 1-0 as suas insuficiências, disfarçadas até à final. Do ponto de vista comportamental, a seleção espanhola foi exemplar, resistindo a todas as matreirices e provocações argentinas e no plano da estratégia de jogo, como alguém luminosamente dizia, impedir que Messi tivesse a bola e fosse obrigado a correr para alcançar essa possibilidade apagou qualquer oportunidade de êxito aos argentinos, que se dispuseram a defender e esperar pela tal inspiração divina.

Talvez se o golo espanhol tivesse aparecido mais cedo o futebol de bairro tivesse ousado uma outra resposta, como a que conseguiu oferecer nos últimos minutos, nos quais duas falhas defensivas espanholas colocaram no ar a possibilidade de uma vez mais a seleção argentina conseguir o impossível. E não esteve longe, diga-se.

Mas a força e organização coletivas da Espanha ficam para a história como a principal marca e dá para pensar como que é que uma desconjuntada seleção portuguesa conseguiu ser apenas eliminada também por um parco 1-0 por esta equipa. A seleção espanhola demonstra uma cultura organizacional e de jogo que se estende da seleção principal aos restantes escalões etários que é um verdadeiro caso de estudo e um guia relevante para qualquer projeto de ascensão futebolística que parta da formação e evolua para outros voos.

É sempre bonito o futebol de bairro, irreverente e rebelde, continuar a manifestar-se, mas o amasso de ontem traduz os limites dessa irreverência e rebeldia, sobretudo quando a estrutura etária já não ajuda e quando a transição geracional não está ainda assegurada, como o está na seleção espanhola.

Sua Majestade e o sempre em pé Pedro Sánchez bem podem agradecer à robustez coletiva da equipa e ao talento enorme de muitos dos seus protagonistas mais esta prova de orgulho nacional. Trump terá engolido em seco, não podendo felicitar o seu amigo Milei, mas afinal o homem contenta-se com a possibilidade aparecer na fotografia dos campeões quaisquer que eles sejam. Como ontem aconteceu.