quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ENTRETENGA

 


Ouvindo as notícias destes dias e os comentários por elas suscitados não pude deixar de pensar numa pessoa próxima e entretanto desaparecida que inventou a palavra em título e a utilizava com frequência a propósito das minudências com que grande parte dos portugueses perdem o seu precioso tempo. No caso, a questão é esta: enquanto na Europa se debate com preocupação a “guerra híbrida” que a Rússia vem recrudescendo – a ponto de nos fazer recear por qualquer coisa mais efetiva e com consequências imprevisíveis –, os nossos políticos e analistas enchem o seu quotidiano com fait-divers absolutamente marginais e ridiculamente explorados.

 

O pretexto já vem do início do Verão com os diversos desenvolvimentos do chamado “caso Luís Neves” mas ganhou contornos inacreditáveis com as afirmações do ministro da Administração sobre a sua permanência no Governo (numa lógica tipo “daqui não saio, daqui ninguém me tira”). As reações políticas vão de mau a péssimo: o PSD, guiado pelas chocantes intervenções públicas de Hugo Soares e Sebastião Bugalho (eles acharão mesmo que alguém os leva a sério na sua imparável demagogia e até desonestidade argumentativa, até porque já não é Carnaval para que ninguém leve a mal?), faz de conta que impera a normalidade e insiste numa equidistância entre a oposição do PS e do Chega e em que o que importa é a sua excelente governação de cariz reformista; o Chega e André Ventura fazem o costume, i.e., aproveitam os deslizes do ministro para uma chicana politiqueira que acabou na apresentação ilícita de uma moção de censura ao Governo; o PS diz e faz o que pode, com as cautelas que caraterizam José Luís Carneiro a sobreporem-se a todo e qualquer rasgo maior que pudesse irromper (embora o taticismo em presença possa vir a ser remunerador, sobretudo em função das circunstâncias que se observam no entorno); a Iniciativa Liberal não sabe de que terra é, ora se apresentando como o arauto de iniciativas de toda a natureza (incluindo uma “iniciativa estrutural!) ora pedindo a demissão do ministro e pondo em causa o primeiro-ministro; o Presidente da República, esse, mantém o silêncio, tolera que falem em seu nome (mesmo que seja apenas para mostra de serviço ou autoafirmação, como nos casos de Adalberto Campos Fernandes e de Álvaro Beleza), vem depois declarar (sem autorizar imagem) que ninguém o pode fazer e parece hesitar quanto ao que lhe cabe numa situação tão insólita e degradante com a que está instalada. Por seu lado, o desempenho dos editores e comentadores não é de molde a justificar mais conversa, conquanto não passem quase sem exceção de um produto do que mexe e ralha em cada dia e hora e não do que interessa ao País e à nossa vida coletiva.





Entretenga, pois, mas com consequências previsíveis que vão muito para além do lazer e da fruição...

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A ARTE DE COZINHAR UM MINISTRO EM LUME BRANDO

 


(A tragicomédia centrada no Ministro da Administração Interna, com flash backs perturbadores sobre a sua Direção da Polícia Judiciária, continua em cena, com um ator protagonista algo desesperado, Luís Neves, e um diretor de cena, o primeiro-Ministro, aos bonés, incapaz de entender a degenerescência da situação e um Produtor, o Presidente da República, que começa a dar sinais de impaciência pelo desconchavo instalado. Luís Montenegro já nos habituou a este tipo de indiferença, como o demonstra principalmente a reiterada incapacidade de algumas instituições hospitalares em responder à procura dos utentes e ao ar de abandono que a ministra da Saúde vai revelando, com as suas olheiras cada vez mais cavadas. Daniel Oliveira tem sido o analista político mais profundo quando assinala a preceito que a esquerda, PS incluído, parece também estar refém da defesa das posições humanistas e corajosas de Luís Neves, enquanto Diretor da Polícia Judiciária e já como Ministro sobre a imigração, contribuindo com informação objetiva para desmontar o universo das perceções erradas e grosseiras que a direita mais extremada tem alimentado sobre a imigração. O problema é que Luís Neves, o humanista, ou se preferirem a costela humanista do agora Ministro, assume também outras costelas, a da informalidade praticada sobre todas as regras da condução de recursos públicos e a da luta contra os ventos do populismo, sendo contraditoriamente ministro de um Governo que cedeu claramente aos clarões desse populismo em matéria de imigração, matéria bem representada no empertigado ministro Leitão Amaro.)

Compreendo que aos olhos da esquerda seja necessário defender quem revela espírito de humanidade suficiente para resistir ao engodo das falsas perceções. Mas não é possível respeitar dois Amos e dois Senhores. A esquerda não pode defender a informalidade mais arbitrária, sem protagonizar uma proposta decente de expurgar a ação pública de regras de controlo dos recursos públicos que, por vezes, podem ser excessivas, rígidas e paralisantes. E muito menos pode defender uma luta antipopulismo que não faz mais do que aligeirar o escrutínio que deveria ser impiedoso sobre este Governo. Luís Neves dá o peito às balas, como xerife corajoso e, simultaneamente, o Governo não suscita a crítica necessária a entradas e saídas em falso da sua governação.

A Ventura e ao Chega não interessa de todo discutir os flops mais evidentes da governação, simplesmente porque não tem nada de novo a acrescentar sobre os temas. A arte de Ventura resume-se a comandar a agenda mediática e, neste último caso, a ser autora de uma nova receita culinária, a de cozinhar em lume brando, prolongando o momento, um Ministro de ação pelos domínios da informalidade mais desconcertante.

José Luís Carneiro explicou há dias, com um conjunto de personagens próximas atrás de si (é interessante analisar quem são essas personagens, as que variam consoante o local em o líder se pronuncia e as que permanecem constantes), expectantes sobre o que ele dizia aos jornalistas, que o PS é alternativa de Governo, e que nela trabalha com denodo. O problema é que, diz-me a experiência, nem sempre as alternativas controlam o timing da sua preparação. O tempo político é mais instável e traiçoeiro do que o tempo desejado pelas equipas de assessores e de membros mais chegados. Pelo menos algumas dimensões dessa alternativa têm de refletir e questionar os problemas subjacentes à crise que as determina. Essa dimensão é praticamente impossível de ser prevista e preparada antecipadamente. É como se as alternativas tivessem de enfrentar os mesmos desafios da governação, ou seja, responder a desafios que subitamente emergem e concentram as preocupações dos eleitores.

Não pretendo fazer previsão política barata. Mas mesmo cozinhando Ministros em lume brando, haverá momentos em que o dito estará no ponto. Ou saiu reforçado e nesse caso a alternativa pode ser adiada no tempo, ou algum laço quebra e a antecipação de eleições é inevitável.

E assim se desata a metáfora gastronómica.

 

COM APRECIÁVEL DIGNIDADE...

 
(cartoon de Bernardo Erlich, https://bernardoerlich.com

A minha evolução enquanto adepto do desporto-rei foi acompanhada de uma tomada de posição em favor do nosso CR7 relativamente ao seu grande rival à escala global (o argentino Lionel Messi), seja por razões patrióticas ou por razões de admiração pelo notável profissionalismo que o madeirense ia exibindo e lhe permitia performances e feitos excecionais.

 

Claro que aquele pé esquerdo de Messi e a naturalidade do talento que punha em campo também não me passavam despercebidos mas logo os desvalorizava perante contos e ditos pouco elogiosos ou algo estranhos relativos à personalidade e ao modo de estar do argentino. E assim vim até ao Mundial passado, momento em que a classe de Messi e a sua presença esforçada, liderante e desequilibradora à frente da seleção do seu país se me tornou por demais merecedora de uma revisão das ideias preconceituosas que construíra (sobretudo quando confrontado em paralelo com a vergonhosa passagem de CR7 pelos estádios da América do Norte).

 

Tal revisão adquiriu razões novas para que a consolidasse através do recentíssimo anúncio pelo próprio Messi da sua retirada da albiceleste em termos de enorme dignidade, sublinhando designadamente que “já não tenho mais para dar” e que “vêm aí miúdos muito bons que merecem estar aqui” numa declaração contrastante com o risível e obsessivo afogueamento do capitão do Al-Nassr na sua busca pelos 1000 golos na carreira (quem sabe se uma convocatória de Jorge Jesus ainda lhe venha a ser determinante para que o sucesso aconteça ao serviço de uma Seleção Nacional onde se arrasta, perturba o fio de jogo e evita a chegada de sucessores mas da qual insiste em não querer colocar a hipótese de abdicar).

 

Voltando a Messi, junto-me ao coro de pessoas de todas as espécies e lugares que lhe vão agradecendo estes vinte incomparáveis e inesquecíveis anos e aproveito a oportunidade para enviar um abraço a todos os Sonzini Astrudillo que de Buenos Aires nunca deixaram de me alertar com fervor e entusiasmo para as proezas do seu ídolo – ainda por lá deve estar (agora já em uso pelos netos) uma camisola do Messi por mim comprada em Barcelona quando ele dava os primeiros passos de uma carreira que inaugurou no jogo de inauguração do Estádio do Dragão. Curiosidades que não pretendem mais do que personalizar um post enaltecedor.



terça-feira, 1 de setembro de 2026

O DESCONCHAVO DA ESQUERDA FRANCESA

 


(As eleições presidenciais em França já não estão longe e, se projetássemos simplesmente a situação atual para o futuro próximo, os franceses teriam pela frente a mais clara expressão possível da polarização política extrema em que estão mergulhados. Uma segunda volta entre Marine Le Pen do Rassemblement National (extrema-direita) e Jean Luc Mélenchon da França Insubmissa (esquerda mais radical) seria o resultado dessa projeção e não se antecipam por agora sinais reveladores e impactantes de que algo poderá mudar. Este sempre foi o cenário desejado pelas duas forças extremas do espectro político em França. Le Pen interessada em apresentar-se como a barreira à esquerda radical e Mélenchon esfusiante por se apresentar como o único obstáculo à chegada da extrema-direita ao Eliseu. Não queria estar na pele dos franceses mais equilibrados, pois nenhuma das personalidades se apresenta com empatia, estimando eu que nesse cenário o Eliseu será tomado pela extrema-direita. Nada permite afirmar que Le Pen seja capaz de conseguir uma evolução à Meloni em Itália e de Mélenchon esperar flexibilidade e moderação equivale a esperar sentado. Apetece perguntar que raio de bicho da madeira deu no centro francês moderado, dos tempos passados de Chirac ou Srakozy, no centrismo modernizante de Macron e no velho Partido Socialista de Jospin, Hollande ou Fabius?

Pois, a polarização extrema é isso mesmo. Os extremos sempre existiram na sociedade francesa. Seja como extensão do chauvinismo mais aberto no caso da extrema-direita, brandindo a bandeira do nacionalismo contra a anulação da França mais profunda pela ameaça imigratória, seja alimentando as raízes históricas do radicalismo em França, avivada com o maio de 68 e seus desenvolvimentos, no caso da extrema-esquerda. A par da extrema-esquerda italiana, a francesa sempre se destacou pela sua vasta produção teórica. O que é novo nesta questão é o completo apagamento dos partidos da moderação democrática, sejam eles mais inspirados pelas questões da desigualdade ou pelas virtualidades do mercado. E, ao contrário dos Verdes nas Alemanha, os Ecologistas em França nunca lograram constituir-se em força política estável e de abrangência crescente no eleitorado francês.

O Partido Socialista francês está neste momento em plenas eleições primárias, com o deputado europeu Raphael Glucksmann a procurar evidenciar-se nessa contenda, antecipando-se ao líder do partido Olivier Faure, pelo qual os socialistas franceses não nutrem grande afeição. Mas, embora vos possa parecer algo ridículo, François Hollande, a grande deceção do PS francês nos últimos tempos, admite ainda a possibilidade de se candidatar.

Quer isto dizer que a pulverização da esquerda francesa é viral e Le Pen agradece deliciada a passadeira vermelha que lhe estão a oferecer para se abeirar do Eliseu.

Em tempos em que a severidade já visível da emergência climática, as sérias perturbações da inteligência artificial e do que ela significa em termos de concentração tecnológica e do poder de comando e controlo sobre as sociedades democráticas e as profundas desigualdades que as sociedades ocidentais vão mostrando, matérias suficientes e estimulantes para estimular a inventiva política, a esquerda pulveriza-se em torno do que costumo designar de minudências do umbigo. E, neste caso, não é por excessiva sobrevalorização dos campos teóricos em detrimento da prática política que isso acontece. O que a determina é a mais profunda imbecilidade política.

Não quero ser ave de agoiro, mas preparemo-nos para uma internacional reacionária europeia, pois os campos de forças para ela apontam em França , na Itália, em Espanha, na Alemanha e na Áustria, realçando apenas os casos mais evidentes.