quinta-feira, 23 de abril de 2026

PARA QUÊ, PEDRO NUNO?

(cartoons de Nuno Saraiva, https://expresso.pt/inimigo-publico e Luis Grañena, https://elpais.com) 

Tem sido uma animação entre os comentadores da praça! O regresso de Pedro Nuno Santos (PNS) ao Parlamento, acompanhado de uma insólita declaração política, tem sido uma verdadeira festa para os analistas políticos que enxameiam o nosso entorno. Como seria de esperar, quase todos orientados para a ideia de um novo ruído dentro do PS, agora que o seu desempenho nas sondagens começa a melhorar, e para uma eventual luta interna que já desenhavam entre Carneiro e Cordeiro mas que anteveem que possa ser perturbada por um PNS que ademais vem lançar a confusão ao mostrar-se crítico dos seus ex-amigos e seguidores (“os taticismos que se escondem atrás da porta”).

 

Vamos por partes. A meu ver, PNS volta a evidenciar que não tem noção de si próprio, por um lado, e que a soberba que não consegue deixar de exibir não agrada em definitivo à larga maioria dos portugueses, por outro. Do PNS, que em tempos tanto bramiu a “empatia” como marca essencial a procurar imprimir, esperar-se-ia mais recato e um regresso colaborante, agregador e focado em ajudar a sua área política “contra um Governo medíocre” – o que manifestamente parece um posicionamento que lhe requereria algo de superior às suas forças. Ao invés, o PNS que nos apareceu disse ao que vinha, ao confronto contra tudo e todos sem critério explicável nem sentido das conveniências ou do impacto político nefasto que necessariamente advém do antipático e radicalizado modo de estar que adota – a quarentena que fez não lhe moderou os instintos mais primários?

 

Assim sendo, julgo que PNS só terá um tentativo caminho de recuperação de uma real notoriedade e visibilidade política. Árduo e trabalhoso, o que seguramente não lhe garantirá os resultados rápidos (mesmo que precários) que sempre o motivam, tal caminho está mesmo muito longe de caber nos horizontes de uma situação política impregnada de “causas” de direita e extrema-direita e pela diabolização do “socialismo” que Costa tão bem soube trocar pela sua carreira europeia. Mas PNS ainda dará sinais de alguma coerência se se declarar pronto a ajudar a reativar uma esquerda em quase completa perda de reconhecimento, contando para isso com a previsibilidade de uma qualquer crise profunda que recrudesça no mundo e/ou na Europa e se repercuta por cá. Porque se se limitar a entreter-se com jogos florais de âmbito caseiro e televisivo, só será um protagonista marcante na destruição de qualquer hipótese de uma potencial alternativa progressista em Portugal, acabando assim dissolvido numa espécie de lixo da história da social-democracia.

 

Quanto a Carneiro e Cordeiro, remeto-os para outro dia em que me apeteça mais pronunciar-me objetivamente sobre a importância de se ter mundo, a incontornável atenção ao conhecimento disponível, a exigência de coragem e risco na política e os malefícios geminados da falta de bom senso ou de um excesso do dito.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O QUE PODE A MUDANÇA NO FED USA REPRESENTAR PARA A ESTABILIDADE MUNDIAL?

 


(Trump parece estar cada vez mais em modo de desatino permanente, investindo contra tudo e contra todos que pode ser obstáculo às suas diatribes disruptivas, cada vez mais diversas e inesperadas. Permanecendo quase sempre online, disparando os comentários mais banais, seja na sua própria rede social, seja respondendo a qualquer microfone que lhe apareça pela frente, a sua opinião reinventa-se à velocidade dos cliques, tornando praticamente inviável a tentativa de identificar contradições nos seus múltiplos aparecimentos. A sua ofensiva de influência sobre o comportamento do banco central americano, o FED USA, esteve por estes dias algo esquecida, mas a audição no Senado de Kevin Warsh, a personagem preparada por Trump para suceder na Presidência do FED a Jerome Powell, depois do acosso descarado a este último, procurando descaradamente precipitar a sua substituição, veio reavivar a quão despudorada tentativa de quebrar a independência do regulador. A tentativa de Trump quebrar em proveito da sua muito peculiar intervenção macroeconómica a independência do FED não é nova. Já no seu primeiro mandato, no período 2017-2021, a então Presidente do FED, a Professora Janet Yellen esteve sob o fogo intenso de Trump, conseguindo nessa época o prestígio académico de Yellen ajudado a suster os sucessivos ataques, mostrando-nos como é relevante, embora escrutinável, a independência do banco central.).

A avaliação em escrutínio aberto da valia de um qualquer personagem para assumir a Presidência de um banco central e, neste caso, do mais importante banco central na economia mundial, pode ser concretizada através do prestígio académico, se o tiver, nas áreas de intervenção da política monetário e, no caso dos EUA, também da estabilidade da criação de emprego na economia ou, em alternativa, da opinião publicamente manifestada pelo candidato sobre períodos e matérias que foram relevantes na condução da política monetária. Este parece ser o caso de Kevin Warsh, já que ao contrário de presidentes anteriores como Ben Bernanke e Janet Yellen, o candidato de Trump não é propriamente um académico respeitado pela sua investigação. O que confirma que a praia de prospeção de Trump não é propriamente a academia, que abomina e destrata quase em permanência. Foi, por isso, que a sua audição no Senado foi tão escrutinada, se bem que economistas como Paul Krugman já tivessem manifestado a sua preocupação pela inconsistência de tomadas de posição e argumentos do candidato.

Segundo alguns analistas, Marcus Nunes é talvez o mais contundente nesta matéria, a audição de Marsh no Senado mostrou como eram corretas as dúvidas colocadas à sua nomeação, sobretudo em função de três debilidades sérias do candidato: registo sistemático de posições que podem ser consideras maus juízos de apreciação relevantes para a política monetária; excessiva flexibilidade ideológica para agradar ao “patrão” e dúvidas sobre a sua independência face a interesses instalados na economia americana. Marsh é conhecido por ter prolongado no tempo a sua opinião de com a crise do Lehman Brothers os riscos fundamentais eram inflacionistas, tendo argumentado na altura contra a descida das taxas de juro, precipitando a depressão.  Tal como Nunes o afirma, há situações em que ser falcão em matéria de política monetária é mais gravoso. O seguidismo de Marsh em relação às preferências macroeconómicas de Trump é mais eloquente e identificável, o que adensa as preocupações sobre o papel que irá desempenhar no FED. Será que a independência do banco central é outro princípio que será arrasado com esta administração? Quanto à sua falta de independência pessoal, a senadora progressista Elizabeth Warren tem-se encarregado de mostrar que Warsh será o Presidente do FED mais rico da história americana. O Senado interrogou Marsh sobre a sua não declaração de ativos em empresas associadas a Trump, empresas controladas por chineses e até ativos financeiros ligados a Epstein. Marsh limitou-se a responder que os abandonará antes de tomar posse.

Se associarmos em contraponto estes aspetos obscuros nos interesses de Marsh à tentativa judicial de colocar Jerome Powell em contexto de investigação criminal e ao despedimento infundado de Lisa Cook, compreendemos que a era do vale tudo estará proximamente instalada na política monetária americana.

Será difícil, estimo eu, imaginar maior disrupção de contexto.

Preparem-se.

 

ÍNDIOS E COWBOYS NAS RUAS DE LISBOA

 

Lula passou brevemente por cá e conversou sobre assuntos de interesse comum, o que era óbvio e obrigatório de parte a parte, com Montenegro e Seguro. Mas Ventura, a sua malta habitual e uns bolsonaristas que para cá vieram e têm pouco que fazer resolveram manifestar-se contra a presença do presidente brasileiro numa anedótica e inconcebível “garotada” que só ajudou a mostrar aos portugueses e aos brasileiros normais o total desajuste do “Chega” em relação a matérias de governação e de relações entre Estados soberanos. Exibindo algemas e cartazes insultuosos e provocatórios, os companheiros de partido de vários fora-da-lei revelados na nossa praça pública (entre ladrões de malas e pedófilos, passando por várias incidências de corrupção) entretiveram-se durante umas horas a posar sorridentes para as câmaras televisivas sem que Ventura fosse capaz de responder às incómodas perguntas dos jornalistas sobre o que faria em idêntica situação se acaso fosse primeiro-ministro. Enfim, uma “coboiada” oportunista e de puro mau gosto que terá correspondido, a meu ver, a algo que se irá encarar como um tiro-no-pé dos cada vez mais autoconfiantes “cheganos” que, à medida que o Governo e o PSD com eles pactuam como se de um partido responsável se tratasse, se vão convencendo de que estão a ganhar asas ao mesmo tempo que não vão dando mostras de algum dia virem a conseguir voar. Que Deus me ouça!


(excertos de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

terça-feira, 21 de abril de 2026

PORTOBELLO DE MARCO BELLOCCHIO

 


(O tempo disponível tem sido malevolamente curto para tirar partido do que vale a pena ver na oferta Netflix, HBO e Apple TV. Um sentido crítico mínimo e uma informação atualizada que se preze, aproveitando a notoriedade que a produção daqueles três colossos do streaming tem hoje na imprensa especializada, permitem sem dificuldade aceder a muita coisa boa que nos é oferecida com as assinaturas. Mas o tempo disponível é, por vezes, mau conselheiro e, por isso, nos últimos tempos, a minha vontade de comunicar o que vou vendo nesses espaços é praticamente nula, pela razão simples de estar a zero nessa matéria. Mas o nome de Marco Bellocchio, com os seus resistentes 80 anos, era motivo suficiente para contornar as limitações do tempo disponível. A HBO oferece-nos uma série de seis episódios, PORTOBELLO de sua graça, que retrata espantosamente bem a Itália do ressurgimento dos juízes. Mas neste caso não se trata de uma luta implacável contra as máfias italianas. Trata-se, antes, da história tremenda de um caso de imputação falseada de ligações de um popularíssimo homem de televisão da Rai, Enzo Tortora, à Camorra italiana e a uma das suas fações conhecida por Nova Camorra. Ao contrário do que estimava à partida (só visualizei por agora quatro episódios), a história não versa aquele tipo de situações em que a verdade e a mentira mergulham num espaço difuso, em que se torna difícil compreender se há culpa ou falsidade. Pela maneira como Bellocchio reconstitui o processo, intui-se que a imputação do popular jornalista resulta de uma trama nascida de confrontos internos à própria Camorra, com arrependidos ou “dissociados” como o sublinha uma das personagens mais enigmáticas e mais bem construídas da série, um tal Giovanni Pandico, contabilista e superletrado. A notoriedade política do jornalista e a necessidade do grupo de juízes mostrar serviço perante um país inteiro que desconfiava das instituições parecem ter-se combinado, com testemunhas pouco credíveis a construir a acusação e a levar Tortora a julgamento (creio que será o episódio 5 a consagrar esse ato).

Nos quatro episódios que já visualizei, há imagens oníricas do próprio Tortora seja na cela das várias prisões por que foi passando, seja na enfermaria, imagens que têm uma inspiração claramente felliniana, como é aquela em que supostamente da janela da enfermaria da prisão em Bérgamo Tortora vê uma troupe de comediantes a atuar em sua honra, como se Bellocchio quisesse homenagear o mestre excessivo e irredutivelmente onírico. Fabrizio Gifusi tem um desempenho insuperável na figura de Tortora e Alessandro Preziosi compõe uma figura notável do juiz instrutor Giorgio Fontana. Curiosamente, o mais famoso dos juízes da época, Di Pietro, tem na série um papel limitado, distinguindo-se apenas pelo uso sistemático dos óculos escuros.

Quando se penetra na trama urdida em torno da imputação do jornalista entertainer da RAI é impossível a nossa imaginação não se escapar para outros casos da justiça, designadamente nacional, em que subsistiu sempre a ideia da não credibilidade de alguns testemunhos acusatórios. Mas ao contrário desses casos judiciais que me dispenso de mencionar, na série de Bellocchio, pelo menos até ao quarto episódio, a ideia central é a da trama persecutória de uma personalidade de grande notoriedade, que lhe valeu inclusivamente, antes do julgamento, a eleição europeia pelo partido radical de Marco Pannella.

Vale a pena ver, esperando que a resiliência de Bellocchio continue a encantar-nos.

 

EXPLIQUEM-SE!

 

Que irritação me provoca esta discreta mas descarada presença de “iminências pardas” acedendo privilegiadamente aos corredores do poder e beneficiando candidamente de formas diversas de favorecimento ilícito ou imoral! As ditas são muitas e de múltiplas cores políticas, entre amigos de algum primeiro-ministro de mais ou menos longa data ou seus companheiros de férias ou de futeboladas, consultores que tendem a saber primeiro as oportunidades que vão estar no mercado por mão governamental, patriotas sempre disponíveis para ajudar mas nunca ou quase nunca para assumir responsabilidades escrutináveis ou meros compagnons de route de lealdade à prova de bala ou simplesmente conhecedores do que não lhes deveria ter chegado ao conhecimento.

 

Podia encher este post com situações e respetivos protagonistas mas o meu objetivo não é tanto seguir por essa via, antes sim o de deixar expressamente sublinhado que há quem esteja minimamente atento e a ver e, em especial, o de sugerir a alguma desta gente que dê a cara e mostre o que vale ou desapareça da vista pública, assim como aos titulares de cargos de poder que façam exames de consciência integrais quando decidem entrar em disputas partidárias e políticas que lhes possam vir a granjear um acesso a informação ou uma capacidade de decisão que sejam potencialmente suscetíveis de ser reputacionalmente afetados por anteriores andanças e envolvimentos menos cuidadosos. Não fora a indignidade do golpe propriamente dito, quase me apeteceria aqui louvar aqueles que fizeram essa maldadezinha que lhes encheu os bolsos mas logo saíram pela calada para o recato da sua privacidade sem pretensões tolas de uma qualquer forma de prosseguimento em termos de notoriedade ou valorização por parte da comunidade de entorno.

 

O caso que tem vindo a lume de Eurico Castro Alves – um cirurgião prestigiado, uma figura com significativo grau de exposição pública a Norte e no País e um cidadão muitíssimo próximo de Luís Montenegro – pode ou não caber no espírito que animou este post. Tal dependerá, sobretudo, de explicações articuladas e fundamentadas do próprio, da administração do Santo António, do IGAS e da ministra da Saúde. O que de todo não basta é a sua mera garantia de que tem a consciência tranquila...

segunda-feira, 20 de abril de 2026

PROMENADE À MODA DO PORTO

 


(Uma manhã de domingo diferente da rotina habitual, que valeu a pena como alternativa a sentir pela manhã o ar mais leve de Seixas, debruçado sobre o Coura que se espraia até à foz. A razão era válida. Os concertos Promenade 2026 do Coliseu do Porto traziam a Sinfonia Incompleta de Schubert, motivo suficiente para recuperar forças para uma semana agitada que será esta em termos de trabalho. O programa era aliciante. A jovem Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto assinava um programa, sob a direção do maestro Fernando Marinho, que integrava além da Incompleta, música de Offenbach e de Carl Maria von Weber. Pela música de Schubert faço qualquer sacrifício e para mais os jovens músicos da Orquestra Sinfónica do Conservatório do Porto tocam com uma maturidade de espantar, ilustrando bem o que é a espantosa evolução do ensino da música em Portugal e o Norte não fica nada mal representado nesta matéria. A solista flautista Leonor Lopes que abrilhantou a Fantasia sobre "Der Freischutz" de Weber é de cortar a respiração e impressionaria qualquer auditório europeu exigente. Os comentários de Alexandre Delgado, musicólogo que ouço regularmente na RDP Antena 2, como agora se chama, deu ao concerto a mensagem pedagógica adequada, contextualizando as obras de Offenbach, Weber e Schubert. A Incompleta de Schubert é daquelas peças, a minha versão mais ouvida é a de Carlos Kleiber, a que sempre recorro quando me apetece saltar para lá do ruído e do incómodo das perturbações do quotidiano. Alexandre Delgado explicou bem que Schubert nunca ouviu tocados em público os dois andamentos a que a Sinfonia se limita, pois já perto da sua morte precoce terá entregue o manuscrito a algum editor que não o divulgou durante longo tempo, até que se compreendeu estar-se perante uma das peças mais belas da história da música, com a curiosidade de termos uma sinfonia apenas com dois andamentos.)

Nunca tive o prazer de assistir um concerto Promenade britânico no majestoso Royal Albert Hall. Os Promenade à moda do Porto do Coliseu AGEAS não terão certamente o fascínio londrino que ressalta das transmissões da Antena 2 que por vezes sigo. Mas a manhã de ontem no concerto do Coliseu trouxe-nos uma orquestra sinfónica do Conservatório de Música do Porto que sugere estar o futuro assegurado, encontrem estes jovens a oportunidade certa de profissionalização. A direção de Fernando Marinho foi contagiante. Vejam-no a falar do concerto que dirigiu.