quarta-feira, 23 de setembro de 2020

terça-feira, 22 de setembro de 2020

GRÁFICOS PANDÉMICOS DE NOVO, UPS!

 


(Não é bom sinal interessar-me de novo por gráficos pandémicos, mas é a vida. Na perspetiva mundial, a coisa deu uma grande volta relativamente aos meus últimos gráficos, já não sei de que data. Alegremente para Trump, os EUA já deram a volta dos 200.000 e o New York Times tem de pensar numa outra capa arrasadora.)

A primeira reflexão que me vem à cabeça passando os olhos pelos números é uma pergunta dura que nunca pensaria ter de colocar: que mais atrocidades precisam os americanos para compreenderem a torpe insensibilidade do seu Presidente? Será que a distribuição das 205.000 mortes já registadas é tão socialmente assimétrica que a base social de apoio de Trump foi poupada? Estamos a acumular tremenda e incómoda informação para perceber até que ponto pode chegar o poder de influência eleitoral do populismo mais boçal, o que sugere que não avaliamos a dimensão do fenómeno e a sua resistência à mais eficaz evidência (pensávamos nós) dos seus efeitos perniciosos, a chamada evidência letal.

Quanto à taxa de letalidade (por caso confirmado), apesar das tragédias latino-americanas (com o inenarrável México à frente), os valores atingidos no Reino Unido, na Itália, na Espanha e na Suécia mostram como o fenómeno bateu forte em terras europeias, talvez por força do seu envelhecimento. Deixou marcas e uma segunda onda anuncia o pior, apesar da mudança dos padrões etários de infetados.

 


Quanto à taxa de incidência, a reduzida população dos petrolíferos árabes, alguns dos quais com aproximação Trumpiana a Israel, vicia um pouco a distribuição. A América Latina entra em força na incidência e EUA e Brasil emergem cada vez mais irmanados no seu destino de dupla tragédia consentida.

A vertigem continua.

Cálculos a partir de https://www.worldometers.info/coronavirus/#countries

PENETRAÇÃO DA CHINA NA ECONOMIA EUROPEIA

(Hanna Barczyk, https://www.economist.com)

 

Na semana passada, a União Europeia (UE) e a China voltaram com alguma pompa a um diálogo bilateral tanto mais imperioso quanto domina no mundo esse clima de guerra comercial que se tornou uma pesada imagem de marca de Donald Trump. A consecução de algum reequilíbrio adicional nas relações sino-europeias seria efetivamente um passo desejável e de previsíveis consequências muito positivas para a estabilidade da economia mundial, sendo contudo também certo que existem fatores importantes de dificuldade nessa perspetiva de aprofundamento da ideia de “rival estratégico sistémico” com que a UE passou a qualificar a China desde o último ano; para além da questão de princípio associada ao respeito pelos direitos humanos (ou à falta dele no gigante asiático) e da crescente desconfiança em relação à China que se vai observando em todos os meios relevantes da influente sociedade alemã, há uma inquietação essencial que tem vindo a emergir de modo avassalador no quadro europeu: o do enorme crescimento da presença chinesa na economia europeia (estima-se ter acontecido um investimento de 150 mil milhões de euros na década 2010-2019) e o correspondente peso estrutural que dele já decorre em múltiplos países e setores de atividade.

 

Os gráficos da “Politico” (ver abaixo) são disso mesmo elucidativos, quer em termos de fluxos de investimento neste século (onde é visível o largo predomínio do Reino Unido, com Portugal a ocupar um oitavo lugar tão pouco descansativo quanto surge como quarto em termos ponderados pela dimensão da sua economia) quer em termos de stock (onde é visível a dominância dos destinos alemão e francês, com Portugal a já ocupar um nono lugar absoluto e um sexto em termos ponderados). Uma matéria que deve exigir, pois, atenção e foco por parte da política externa europeia (agora a cargo de um cinzento Dombrovskis) e uma matéria que dá que pensar quanto ao que foram as incompreensíveis anomalias desses trágicos anos troikistas que nos impuseram sem apelo e com a vacilação colaborante das autoridades nacionais.



segunda-feira, 21 de setembro de 2020

RAJOY EM APUROS

 

(El Español)

(O estimulante Diretor do El Español, Pedro J. Ramírez, continua a sua senda de denúncia dos podres mais incómodos da democracia espanhola, não poupando ninguém a partir de um dos mais populares, e com mais ampla distribuição, diários digitais do país vizinho, depois da sua saída do El Mundo. Com o mais completo desatino que a sociedade espanhola atravessa e com uma das mais erráticas gestões da pandemia que se conhece, parece violento colocar a nu neste momento este tipo de desvarios na vizinha Espanha. Mas o papel da imprensa é este, fundamentalmente este, esperando algum dia que alguém em Portugal, sem necessidade de processos “hackerianos”, possa clarificar os aspetos mais nebulosos da democracia portuguesa.)

Quando Mariano Rajoy abandonou o governo espanhol pela ascensão ao poder do PSOE por uma via exclusivamente político-parlamentar sem recurso a eleições, fiquei na altura com a sensação de que o ex-líder do PP desejaria avidamente recuperar o fôlego de uma vida fora da pressão mediática. Quando pouco tempo depois tomei conhecimento do regresso de Rajoy ao seu emprego público na área do registo predial e que esperou pacientemente a passagem do tempo para uma transferência que garantiria maior proximidade ao seu local de residência, mais convencido fiquei do que na altura me parecia uma evidência. O estilo da política espanhola que se avizinhava com a também saída da corrida à liderança do PP de Soraya de Sáenz de Santamaría para ingresso num grande escritório de advogados parecia-me incompatível com o registo de baixo perfil do político Galego. Por isso, o cargo burocrático do registo predial combinado com as férias pacatas na Galiza pareciam-me o estilo ideal de retirada para um já cansado Rajoy.

Entretanto, as matérias do financiamento partidário do PP continuavam nebulosas como sempre. As nuvens adensaram-se quando estalou o caso Barcenas, uma espécie de contabilista do PP que sabia demais e que pôs a boca no trombone para explicar uns movimentos estranhos que passavam por contas no estrangeiro e todo o rol de manigâncias de que estas coisas costumam versar. Tenho refletido sobre o facto de em plena revolução digital e com a tecnologia a fazer rasteiras e imparáveis fintas de corpo a fiscais, polícias e reguladores, haver sempre nestes casos a evidência do papel, das folhas, dos cadernos e dos livros. No caso BES também se falou de um livro, uma espécie de RAZÃO (no sentido contabilístico do termo) SUPREMO, que estará desaparecido em parte incerta, provavelmente destruído por outro personagem também desaparecido nas brumas de qualquer paraíso turístico, com infraestrutura fiscal associada (2 em 1). No caso Barcenas, as folhas também apareceram e nas mesmas falou-se muito da referência a um Senhor X, que nunca foi rigorosamente identificado. Lembro-me de ter comprado na altura imensos exemplares do El Mundo, com a digitalização de muitas das tais folhas e dos registos manuais que o contabilista que sabia demais (título excelente para um filme de arrasar).

Onde é que entra nesta história o atual diretor do El Español, que se sabe hoje ter sido afastado da direção do El Mundo porque, a troco de algo que não é totalmente conhecido, a direção do então El Mundo, ao contrário da que no Washington defendeu os seus jornalistas, cedeu às pressões do poder e despachou Ramírez com uma chicotada psicológica?

O artigo-crónica que Pedro J. Ramírez assinou ontem no El Español, provocatoriamente intitulado “Pesadilla en la cocina” (link aqui) é demolidor, como o já tinham sido as suas incursões no caso dos GAL (terrorismo de Estado) que envolveu Felipe González e, mais recentemente, as incursões pelos mundos da corrupção do ex-monarca Juan Carlos. O envolvimento de Rajoy no caso Barcenas é fulcral no desenvolvimento da crónica, sendo agora possível compreender o exercício gigantesco de proteção política a Rajoy que Soraya de Sáenz de Santamaría assumiu durante o foco da investigação do El Mundo.

Ramírez situa o clímax da crónica no dia 1 de agosto de 2013, manhã em que Rajoy arremete no Parlamento contra o El Mundo acusando o jornal de manipulação e dia em que funcionários do Ministério do Interior vigiaram de perto o almoço do jornalista com a mulher e filho de Barcenas. Ao contrário do que Rajoy pretendeu convencer os espanhóis, Barcenas integrava ainda os quadros do PP quando as operações se desenrolaram. A vigilância intimidatória a que o então diretor do El  Mundo foi submetido a partir desse dia está agora a ser investigada, sem que Pablo Casado possa fazer alguma coisa em defesa do seu último líder. Rajoy será ouvido na justiça, assim como o Ministro do Interior de então Fernández Díaz e muito provavelmente também a ministra Cospedal. O confronto com o caso Watergate no que respeita à defesa do diretor do Washington Post e à desproteção de Ramírez no El Mundo é talvez o aspeto mais relevante do ponto de vista do que muitos consideram a queda irreversível do modelo de liberdade de imprensa que o El Mundo pretendia representar.

Pressinto que o regresso de Rajoy ao seu emprego burocrático não terá o conforto e isolamento que o ex-líder do PP pretenderia assegurar e dificilmente a partir da sua tribuna editorial no El Español Pedro Ramírez largará o assunto. Há quem faça analogias entre o projeto do El Español e do Observador em Portugal. Tenho associado o El Español a uma tentativa de reedição do estilo inicial do El Mundo e o próprio Ramírez não esconde que a solução política para Espanha estaria numa coligação PSOE-PP e Ciudadanos, que eu interpretei como representativa de uma direita espanhola empresarial e moderna. Não sigo o jornal com o pormenor diário para perceber se também pelas bandas do El Español circulam personagens da direita alt-right que escrevem na opinião do Observador, caracterizada por um ressabiamento estrutural contra tudo que é socialismo em Portugal. Mas bastar-me-ia a frontalidade de um editorial como o de ontem escrito por Pedro Ramírez para justificar a minha atenção e, depois, já sou bem crescidinho para peneirar o que se escreve num jornal.

Caro D. Mariano, creio que as próximas férias de verão pela Galiza, desejavelmente já liberta da ameaça pandémica, não vão correr com a distensão desejada a alguém que se retira da vida política. Mas isto de intuir acertadamente as companhias em política tem que se lhe diga e está transformado numa competência de eleição. Que o digam António Costa e os subscritores de Comissões de Honra.

E SE FALÁSSEMOS MENOS E MAIS BAIXO?

 

(The Atlantic)

(À medida que a intensidade de disseminação do vírus se acentua, proliferam de novo as controvérsias e as dicas, mais ou menos cientificamente fundamentadas, para melhor resistirmos ao embate. E aí vamos nós outra vez a navegar num mar crítico de informação, intuindo o que deve ser lido e o que deve engrossar a nossa caixa de lixo noticioso. Cá para mim, que não me enganei muito nessa intuição ao longo da primeira onda, a pista mais relevante é a dos aerossóis.)

As minhas curvas polinomiais anunciam mais do que 200 observações, o que parece ser suficiente para inspirar alguma confiança nos registos, embora a política de disseminação de informação por parte da DGS nem sempre permita avaliar a qualidade da mesma. Em simultâneo, se seguirmos com alguma regularidade a disseminação de informação científica por esse mundo fora, com os cuidados necessários de utilização dos filtros mais convenientes (e quem nos orienta na definição desses filtros?) compreendemos que alguma coisa mudou no conhecimento dos mecanismos de contágio. E não podemos deixar de reconhecer que existe um desvio temporal acentuado entre as novidades da ciência e a resposta das instituições que gerem a pandemia. Há razões válidas para esse desvio. Primeiro, como a literatura da economia do desenvolvimento me ensinou há muito tempo, a inércia da decisão nessas instituições é por demais conhecida. Elas não estão preparadas para agilizar a entrada de ideias e resultados novos. Estão antes muitas vezes presas à esperança de testar ideias antigas, porque isso corresponde à perpetuação das relações de poder interno. Segundo, aquilo que nos aparece como novidade na informação requer a maior parte das vezes mais densidade de evidência e multiplicação de equipas com experiências válidas nesse sentido. Não é preciso ser um cientista para intuir que essa prática penaliza a emergência das ideias mais revolucionárias, já que uma ideia fortemente disruptiva tenderá inicialmente a suscitar uma menor densidade de demonstração por equipas diferentes.

Aplicando esta abordagem ao caso da disseminação da presente pandemia, podemos dizer com algum realismo que a influência das superfícies como veículo de contágio e das gotículas provenientes da atividade respiratória têm vindo a perder relevância como fatores de transmissão viral. Recordo-me perfeitamente que, numa das primeiras entrevistas televisivas do pneumologista Filipe Froes (uma das raras vozes sensatas que importa ouvir), ele nos dizia que a propagação via aerossóis era essencialmente produzida em ambiente hospitalar em intervenções intrusivas do aparelho respiratório dos pacientes. Na altura em que o pneumologista português nos transmitia o seu conhecimento, essa era a orientação dominante entre as evidências científicas da propagação. Pelo que tenho lido, as superfícies perderam relevo e as gotículas (de maior micro-diâmetro do que os aerossóis) também embora em menor grau, com crescente importância destes últimos sobretudo para explicar a disseminação em ajuntamentos mais expressivos de pessoas.

O professor José L. Jimenez da Universidade americana de Boulder no Colorado tem-se destacado na ênfase dada aos aerossóis como fator de propagação, retirando daí algumas máximas de atuação, algumas bastante desconcertantes, mas que dão que pensar a alguém de mente aberta. Por exemplo esta: “use máscara e fale pouco e baixo por uns tempos”. Os meus amigos libertários dirão imediatamente que lá estão as forças ocultas de cerceamento da nossa liberdade em plena atividade. Mas se estivermos atentos a resultados de experiências que mostram que os palradores emitem mais aerossóis do que um cidadão com atividade respiratória normal então a máxima de Jiménez não é assim tão provocadora como isso. Como seria de esperar, esta evidência não inspirou ainda decisivamente as organizações internacionais e nacionais.

Cá por mim, por um lado, estou sossegado pois de palrador não tenho nada e não sou dos que falo alto, exceto em algumas intervenções públicas por agora interrompidas. Mas a máscara em espaços por onde proliferam palradores arrebatados é decisão assisada que pratico. Sem esquecer os meus amigos libertários a máxima de Jiménez seria de grande utilidade para reduzir o ruído de muitos palradores que não têm nada de substancial para dizer, embora consigam a proeza de serem pagos para isso.

O The Atlantic publicou uma entrevista com o Professor Jimenez que agora a VOZ de GALICIA reproduziu (links aqui e aqui).