quinta-feira, 30 de abril de 2026

MUITO MAIS DO QUE “O BIÓGRAFO DE KEYNES, UM GRANDE ECONOMISTA, ROBERT SKIDELSKY DEIXOU-NOS …

 


(Para um economista que sempre procurou estar disponível para o pensamento crítico, há obras que nos marcam para sempre, tamanho foi o impacto que a sua leitura me provocou. E, estranhamente, a obra marcante que estou a invocar não é uma obra de teoria económica, mas antes a monumental biografia de John Maynard Keynes de autoria de Robert Skidelsky, Professor da prestigiada universidade de Warwick desde 1978, até ao fim dos seus dias. Os três impactantes volumes dessa monumental biografia – HOPES BETRAYED 1883-1920, THE ECONOMIST AS SAVIOUR 1920-1937 E FIGHTING FOR BRITAIN 1937-1946 constituem uma espantosa leitura contextualizada da evolução do pensamento de Keynes e basta estar atento aos períodos de referência dos três volumes para compreender a importância do cruzamento entre formação do pensamento e história económica. A leitura desta biografia estimulou-me sem tréguas a aprofundar dimensões da obra do próprio Keynes que tinham ficado em branco na minha formação inicial e complementar. Foi um contributo decisivo para não me deixar seduzido pelo apagamento do keynesianismo na sequência do período de estagflação que o mundo capitalista viveu e para, anos mais tarde, festejar sobretudo a partir das crises cambiais asiáticas dos fins dos anos 90, o ressurgimento do interesse pelo brilhantismo do pensamento keynesiano. Tudo isso era antecipável pela leitura atenta da biografia elaborada por Skidelsky. Nas diferentes capas de várias edições que a biografia de Keynes suscitou, é uma profunda injustiça termos o rosto de Keynes e a ausência do de Skidelsky, mas um biógrafo insuperável como o economista inglês o era sabe que tem de se apagar para dar palco notoriedade e palco ao biografado.)


Não estou seguro que a monumental biografia assinada por Skildelsky tenha tido uma tradução ou publicação em Portugal (existe tradução publicada no Brasil). Por isso, a leitura dos três volumes em inglês foi épica, sobretudo com o pormenor de evidência e informação com que Skildelsky compõe o contexto daqueles três períodos.

Mas há uma outra obra de Skidelsky, essa publicada em português pela Editora TEXTO em 2010, KEYNES, O REGRESSO DO MESTRE, que nos permite entrar no pensamento combativo que o biógrafo de Keynes sempre desenvolveu como economista e como ele se destacou na luta incessante contra a vulgata económica e contra a propensão para inverter as coisas, adaptar a realidade á teoria e não o contrário.

A Universidade de Warwick dedicou-lhe um epitáfio que honra o prestígio daquela universidade.

Reproduzo aqui as palavras de um outro economista heterodoxo, Lars P. Syll, que lhe dedicou uma despedida muito pessoal:

“Um grande historiador e um grande economista morreu.

Robert Skidelsky era mais do que um biógrafo de John Maynard Keynes. Ele corporizava as qualidades decisivas que ele tanto admirava no seu domínio: curiosidade sem descanso, coragem intelectual e uma profunda preocupação com a dignidade humana. A sua monumental biografia não era apenas um trabalho académico, mas um trabalho longo de devoção. Era tido em grande estima por todos que leram o seu trabalho ou o ouviram falar, e muito sentiremos nessa qualidade a sua falta – um académico apaixonado que não nunca deixou de se questionar sobre o que a economia deve ser.

A última vez que falei com ele foi apenas há um mês, quando me contactou para me dizer que tinha lido o meu The Poverty of Fictional Storytelling e que tinha um novo livro no prelo, intitulado Keynes for Our Times, a ser publicado pela Yale University Press.

Fica em paz, meu amigo. A tua voz era única e importava.”

Aos 87 anos, Skidelsky ainda escrevia e, sempre coerente, continuava a mostrar como foi indigno, mas recuperável, o esquecimento deliberado a que o pensamento de Keynes foi devotado.

 

TWO KINGS

(cartoon de Ilias Makris, https://www.ekathimerini.com) 

Consta do site da Casa Branca a referência patética ao encontro destes dias entre dois reis, o do Reino Unido e o dos Estados Unidos da América. Foi penoso assistir a mais algumas exibições narcísicas de Trump, entre a memória da mãe a chamar pelo Donald para ver na TV a classe da rainha britânica e a certeza do presidente quanto ao que seria a condução consigo solidária dos destinos britânicos se acaso fosse Carlos III o decisor. Tirando os lados absurdos que já quase todos no mundo descontam ao comportamento de Trump, o mais interessante do que foi a viagem de Charles aos EUA esteve na classe que exibiu – a sua educação e sentido de Estado são, definitivamente, de uma galáxia que em Washington se desconhece! –, quer no que deixou dito de substantivo entre sorrisos e apertos de mão quer no modo como assobiou para o lado perante as provocações e referências grosseiras do tal Donald. Não terá servido para muito, provavelmente, mas às vezes cai bem encontrar normalidade, decência e frontalidade nas figuras públicas.

quarta-feira, 29 de abril de 2026

PTRR, UM SIMULACRO TRAPALHÃO DO PRR

 

Aí está o Governo reformista em ação visando um “Portugal + preparado”! Com medidas para todos os gostos, três pilares (recuperar, proteger e responder, o que quer que se queira dizer com estes verbos) e quinze domínios, embrulhando objetivos e meios financeiros numa amálgama cuja visão de conjunto se torna impossível e não pode deixar ninguém descansado, o “Plano” anuncia “Transformação”, essencialmente para resultar em PT como acrónimo de Portugal, usa a “Recuperação e Resiliência” vinda do PRR europeu (Next Generation) e enche as páginas de “reformas” (só para “proteger e responder” são nada menos 85). Junta-se um pequeno detalhe, que o autor do nosso “Bartoon” detetou com propriedade: é que, diz o dicionário, “resiliência é a capacidade de um sistema, material ou ser humano de se adaptar, recuperar ou voltar ao seu estado original após sofrer choque, stress ou adversidades” – o que correspondia ao objetivo europeu de ajudar a contribuir para repor a situação existente nos países na sequência do forte impacto do Covid 19 (coisa diferente é como nós, e alguns outros, o usamos desviantemente e em escassa articulação com o que era o propósito) mas não tem, de facto, grande nexo com a ideia de “transformação” (algo de que o País tanto necessita, mas algo que careceria de outros focos e de uma orientação adicional nesse sentido). A dimensão financeira também não falha em pomposa proclamação (22,6 mil milhões de euros) e em wishful thinking (33% do dinheiro virá de privados, se eles e Deus quiserem, Miranda Sarmento promete que as Administrações Públicas contribuam com mais de 37%, se Trump e a Defesa Europeia permitirem e até já se fazem contas a verbas que hão de vir de um próximo Quadro Financeiro Plurianual cujos dados ainda estão longe de fechados e cujas perspetivas nos não são nada favoráveis). Uma nova agência a levar a cabo a execução do programa é outra novidade que “não lembra ao careca” e põe a nu a incapacidade de gestão que marca a governação, para não referir o depauperamento que disso resultará nos múltiplos e já de si depauperados institutos públicos existentes. O “molho de brócolos” inclui ainda medidas ligadas à Saúde (como a refundação do INEM!) ou ao Ensino Superior (como o surgimento de duas novas “Universidades Técnicas”), entre outros primores. Ou seja: por um lado, as necessárias e urgentes ações de reconstrução e de apoio a pessoas, empresas e instituições afetadas pelas tempestades do início do ano recuperam aqui uma oportunidade que parecia perdida mas, segundo a qual, “agora é que vai ser”; por outro lado, 15 mil milhões (e mais alguns pozinhos garantistas) protegerão comunidades, territórios, infraestruturas e a floresta numa lógica de defesa contra a adversidade vinda do risco de eventos extremos, mas não se articulam com a imprescindibilidade de medidas proativas e transformadoras (a transformação fica remetida e circunscrita ao título). Diga-se, a concluir, que a sessão foi impactante a vários níveis e mostrou à evidência quanto o marketing político pode funcionar como uma proxy do rumo e da eficiência que as limitações governativas não conseguem alcançar.


(Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt)

CELEBRANDO A DANÇA

 


(Este vosso Amigo que não é nada propenso a efemérides e que em matéria de talento para a dança é rígido como uma rocha, pior do que pé de chumbo (estranho que tal incapacidade não se estenda ao desporto), aqui está, não menos estranhamente, a interessar-se pelo Dia Mundial da Dança que hoje se comemora. Dia em que a nossa Grande Olga Roriz será agraciada. Tudo isto graças a uma emissão especial da Antena 2 realizada na Escola Superior de Dança no Instituto Politécnico de Lisboa, provisoriamente residente nas instalações do ISEL, até que as obras do edifício original se concluam. As memórias são como as cerejas e recordo-me que quando coordenei os trabalhos do Plano Estratégico para o Instituto Politécnico do Porto (IPP), a criação de uma Escola Superior de Dança no Porto, ou pelo menos uma licenciatura e mestrado em Dança na ESMAE, Escola Superior de Música, das Artes e do Espetáculo, do IPP, era uma aspiração que creio não chegou a ser concretizada. Mas não é para falar de memórias que este post é redigido, mas sim para partilhar convosco um texto notável, assinado pela coreógrafa canadiana Crystal Pite, como mensagem do Dia Mundial da Dança. É um texto lindíssimo, e quem assim escreve deve dançar e coreografar lindamente. Ao trazer este texto comovente para a partilha de ideias deste blogue, quero simplesmente homenagear os jovens que estão em Portugal a frequentar licenciaturas e mestrados em Escolas Superiores de Dança em Portugal, afirmando com orgulho e teimosia a sua vocação, assumindo o desafio de querer fazer profissão de uma área artística que está em franca evolução, isso é seguro, mas que continua a enfrentar as dificuldades conhecidas de sustentação de rendimento e de emprego. Os participantes na emissão especial da Antena 2 confirmaram que ainda hoje, cerca de 20 anos depois do Ballet Gulbenkian ter sido extinto ainda são sentidos abalos provocados pelo desaparecimento dessa companhia privada de dança.)

Eis a prosa de Crystal Pite (traduzida por mim da versão francesa):

“Os humanos mexem-se – os nossos braços alongam-se, os nossos joelhos dobram-se, acenamos com as nossas cabeças, o nosso peito esvazia-se, as nossas costas arqueiam-se, saltamos, encolhemos os ombros, cerramos os punhos, apoiamo-nos uns nos outros e afastamo-nos. É uma linguagem e também uma ação. É o que o corpo nos diz sobre a necessidade, a derrota, a coragem, o desespero, o desejo, a alegria, a ambivalência, a frustração, o amor. Estas imagens brilham de sentido no espírito porque sentimos essas coisas tão puramente no corpo – emocionamo-nos.

Somos todos bailarinos. A vida faz-nos mexer, a vida faz-nos dançar. Efémera como o suspiro, concreta como o osso, uma dança é feita de nós. Quando dançamos, esculpimos o espaço. Escrevemos com os corpos numa linguagem sem palavras que é compreendida profundamente. Gratificamos o espaço em nós e em redor de nós.

Como a vida, uma dança cria-se e destrói-se a cada instante. Como o amor, está para lá da razão.

Gosto de pensar no corpo como um lugar, um sítio em que o ser é conservado e modelado. Quando dançamos, estamos profundamente comprometidos com o facto de lá estar.

Redijo este texto no início do ano de 2026, num tempo em que a opressão, as perturbações e o sofrimento no mundo parecem não ter fim. Diariamente, enquanto somos testemunhas do horror que estes humanos são capazes de provocar uns aos outros e dos mecanismos do poder que financia e alimenta uma violência indizível contra os povos e o planeta, a dança parece ser uma resposta fácil, inútil. É difícil imaginar o que um artista da dança pode fazer num mundo que tem tanta necessidade de mudança radical e de cura.

E, contudo, a arte, como a esperança, é uma forma de amor. Decididamente generativa face à profanação, a arte é um solvente para o espírito que se calcifica e um bálsamo para o curar. A arte é para nós um navio quer nos acolhe enquanto lutamos, em conjunto, com as nossas questões de uma maneira diferente das novidades, diferente do documentário e da educação, diferente das opiniões e das redes sociais, diferente do ativismo e do protesto, mas sem ser incompatível.

Através da criatividade, acumulamos resistência e esperança para os pequenos atos de coragem, de curiosidade, de bem fazer e de colaboração. Na dança e na criação da dança, encontramos a prova de que a humanidade é algo mais do que o nosso último comovente falhanço global. Mas a dança não tem necessidade de qualquer justificação. Ela é feita de nós, mas não nos deve nada. Ela precisa apenas de habitar um corpo que esteja pronto a recebê-la. Desse lugar, ela pode traduzir o inexprimível; atuando como um intermediário entre nós e o desconhecido

Comovemo-nos com os traços fugazes de beleza no presente momento. E enquanto encarnamos simultaneamente a dança e o seu desaparecimento, lembramo-nos da nossa finitude. Ao mesmo tempo, se prestarmos atenção, a dança dar-nos-á uma impressão ocasional da alma”.

 

Digam lá se não vos apetece dançar, dar fluidez aos impulsos do vosso corpo.