quinta-feira, 16 de julho de 2026
PATÉTICO!
O FUTURO PROMISSOR DA ORQUESTRA XXI
(A noite de ontem tinha a atração do Argentina-Inglaterra, sempre picante, mas com o otimismo da alma argentina poder sobreviver à onda destrutiva dos Milei deste mundo. Apesar dessa atração, pesou mais o concerto da Orquestra XXI na Casa da Música, visualizando depois o que antecipava poder ser um jogo épico. E posso afirmar com segurança que não me arrependi dessa decisão. O meu entusiasmo assentava em três razões relevantes. Primeiro, o projeto em si. A Orquestra XXI que poderíamos considerar ser a diáspora portuguesa de jovens músicos por todo o mundo é daquelas coisas que faz bem à alma dos portugueses mais amargurados, dada a qualidade que está assente naquela juventude. Segundo, era a primeira vez que assistiria em público a uma direção do maestro Dinis Sousa, que para mim, entre outros importantes cartões de visita e reconhecimento em diferentes orquestras por todo o mundo, tem a importante referência de ter substituído John Elliot Gardiner, era o seu assistente, quanto este destrambelhou e começou a ser inconveniente por razões psicológicas com as orquestras e artistas que dirigia. Dinis Sousa assumiu essa responsabilidade e as referências que recebeu por essa prestação em tão difíceis condições elevou o seu nome na crítica internacional e nas revistas da especialidade (Diapason, BBC Music e Grampphone). Terceiro, porque o programa era aliciante – uma estreia internacional de uma compositora portuguesa residente nos EUA, Andreia Pinto Correia, a combinação do concerto para piano e orquestra de Grieg em lá menor e a Sinfonia do Novo Mundo de Dvorjak e a possibilidade de visualizar pela primeira vez, no concerto de Grieg, uma jovem pianista Marie-Ange Nguci. Creio que o auditório da Guilhermina Suggia reconheceu a qualidade desta combinação, proporcionando a Dinis Sousa, a Marie-Ange Nguci e aos jovens da Orquestra XXi uma das maiores ovações a que já assisti naquele auditório.)
Tratando-se de artistas, o maestro e os elementos da Orquestra XXI, que fazem vida artística no estrangeiro, a iniciativa de os manter em rede e contacto através desta iniciativa é das únicas que conheço, na qual existe a preocupação de combater a atomização que regra geral define a nossa presença no mundo, em flagrante oposição com o que se passa com algumas “tribos-comunidades” de diásporas conhecidas. A qualidade da orquestra é superlativa e no concerto de Grieg a identificação da pianista com a direção de Dinis Sousa e o desempenho da orquestra foi sublime, com a vantagem de ser uma obra conhecida e que entra com facilidade nos nossos ouvidos incultos e impreparados. Ficamos sempre com aquela interrogação amarga na cabeça: quando e como será possível conseguir que grande parte deste talento se fixe no país? Quando teremos capacidade de iniciativa institucional para capitalizar esta virtuosa passagem por grandes orquestras deste mundo de tanto talento?
Se alguém tinha dúvidas, a pujança com que a Sinfonia do Novo Mundo foi abordada entregou o auditório à mais pura fruição do momento. Decididamente não era uma orquestra de principiantes que tínhamos a oportunidade de ver e ouvir. E foi gratificante ver que, nos aplausos finais, os elementos da orquestra se saudavam a abraçavam, a prova mais explícita de que a Orquestra XXI é também uma forma de afetividade coletiva.
O texto do programa, organizado pela própria Orquestra XXI, é especialmente feliz quando se afirma: “Na Orquestra XXI, há um país que se dá a conhecer através do talento e da sensibilidade artística. Um país que se faz ouvir pelo mundo e que na orquestra se encontra para recordar de onde vem”. Aqueles abraços no palco significavam precisamente e nada mais do que isso.
Nota complementar
No pós-visualização do Argentina-Inglaterra confirmei uma vez mais a existência de uma alma argentina, a insuperável leveza e inteligência de Messi e a confirmação de que Tuchel, alemão selecionador de Inglaterra pode dedicar-se a outra coisa, plantar batatas ou o que quer que seja. Fazer recuar a equipa depois do golo alcançado, colocando fora jogadores que interpretam o ataque como ninguém e defender com cinco ou seis jogadores é dos erros mais trágicos que alguma vez vi em jogos de futebol.
quarta-feira, 15 de julho de 2026
SOBRE A AGONIA DO BLOCO
“Todos ralham e ninguém tem razão” será talvez a melhor síntese da mais recente, e significativa, cisão ocorrida no Bloco de Esquerda e ontem comunicada. Com efeito, e na sequência de outras já verificadas, a desfiliação de um grupo de 60 militantes do Bloco (incluindo Mário Tomé e Pedro Soares como nomes mais sonantes, este último que foi um deputado ativo e competente) – classificada pela Direção liderada por José Manuel Pureza como mais uma etapa de “ação coordenada” e “decisão programada e repetidamente anunciada na comunicação social” por parte dos críticos internos – não deixa de constituir, objetivamente, mais um golpe num partido que chegou a desempenhar um papel importante na política portuguesa e que o perdeu por sua obra e graça e consequente aproveitamento de António Costa.
Um aspeto específico merece ser ainda referenciado em sentido oposto ao assumido pelos críticos: o que se liga à acusação do secretariado do Bloco de que as divergências dos dissidentes se manifestam desde há muito, nomeadamente na crítica da posição solidária do Bloco com o povo ucraniano, vítima da invasão de Putin”. Aspeto que aqueles confirmam ao sustentarem que o partido mostrou apoio à guerra da Ucrânia e enquadrou a mesma como uma “luta pela autodeterminação”, em vez de se ter focado em denunciar a “intervenção da NATO a Leste” – uma narrativa que é, no mínimo, duvidosa...
Tudo aponta, nesta zona do espetro político, para um declínio imparável que, quase paradoxalmente, parece dar razão aos críticos internos do Bloco, agora ex-militantes: sim, tudo conduz a sugerir que o partido acabou, tudo corrobora quanto o partido “não mostra capacidade de interpretação da realidade ou vontade de agir” (citando Tomé), tudo tende a atestar a inexistência de “um projeto autónomo credível”. Mas o verdadeiro busílis da questão está longe da orientação que eles pretendiam fazer ressaltar quando lamentavam, na conclusão do seu comunicado, “ o fim de um projeto que se destinava a unir amplos sectores da sociedade por uma alternativa contra a hegemonia neoliberal, tendo como horizonte a radical transformação da sociedade”.
Muito TPC à vista para as hostes que trouxeram Francisco Louçã, Luís Fazenda, Fernando Rosas e Miguel Portas, seguidos depois de outros como Mariana Mortágua, ao palco do espaço político nacional, deles sendo exigível que não abandonem o barco que coletivamente construíram como meros ratos tolhidos pela cegueira e pela surdez e por uma intolerável irresponsabilidade...
terça-feira, 14 de julho de 2026
GAULESES CONTRA VIZINHOS
PIRATARIA NO ESTREITO
(A sobrevivência política do Presidente Lula no Brasil não é coisa que esteja por natureza assegurada e a minha intuição diz-me que a esquerda brasileira estará em maus lençóis se não construir atempadamente uma alternativa assente numa figura que consiga assegurar a desejada transição e bloquear que a onda populista de extrema-direita não penetre também o Brasil. Além disso, o posicionamento de Lula na cena internacional é tudo menos claro, sobretudo do ponto de vista do seu relacionamento com a Rússia de Putin, com reflexos na abordagem ao problema da Ucrânia. Porém, a voz rouca de Lula continua a ser indispensável em algumas questões da cada vez mais complexa situação internacional e, embora ameaçados politicamente, Lula e Pedro Sánchez são um verdadeiro oásis no mundo de líderes cobardes e oportunistas que se passeiam pelas reuniões internacionais. Tudo isto vem a propósito da recente afirmação de Lula que vociferava sobre a inqualificável proclamação de Trump que iria controlar de novo o movimento marítimo no estreito de Ormuz, acrescentando a essa decisão uma outra de impor uma taxa de 20% sobre os fluxos comerciais por ali realizados para remunerar esses serviços. Ora o que Lula afirmou alto e com bom som é que se tratava de um regresso à pirataria e que Trump era o pirata dos tempos modernos por aquelas bandas do Estreito. Obviamente que as virgens diplomáticas ofendidas e os florzinhas dos salamaleques mais elegantes virão a terreiro afirmar que isso não é linguagem própria de um estadista e que a política não pode entregar-se aos sortilégios da rua e da populaça. Mas, se pensarmos bem, é de pirataria da grossa que se trata, sobretudo porque a situação atual no Estreito resulta de um erro de cálculo político que o próprio Trump praticou. Não sabemos se a sua proclamação acabará por engrossar a já vasta gama de afirmações sem concretização, seja porque os ventos mudam de feição, seja porque sim, simplesmente.)
Se estivermos atentos aos efeitos e reações que tão estranha decisão provocou nos agentes logísticos e de transportes marítimos que asseguram a passagem pelo estreito de Ormuz das cargas petrolíferas e de outras mercadorias, percebe-se que a preocupação é manifesta, dado o impacto nos custos de movimentação dessas mercadorias será elevado. Se alguns desses operadores tiveram força e dimensão suficientes para impressionar Trump e os seus mais próximos é natural que a medida não passe da inventiva de um pirata fogoso e que rapidamente encontrará um outro ponto de interesse para o seu narcisismo. O New York Times reproduz um pequeno cálculo de um operador logístico especializado e que reza em termos simplificados o seguinte: para um custo de 80 dólares o barril, o custo praticado pelas companhias de transporte anda hoje pelos 10 dólares; no caso da taxa de 20% ser aplicada, isso significará 16 dólares mais e que o custo de transporte passará para 26 dólares o barril. Nesse caso, para um transportador que movimente dois milhões de barris, a medida de Trump implicará um custo adicional de cerca de 30 milhões de dólares, que dificilmente não será repercutido para os consumidores.
Se isto não é pirataria, aceito explicações em contrário. Mas compreende-se que a voz rouca e cansada de Lula tenha soado de diferente maneira.
segunda-feira, 13 de julho de 2026
O LIVRE NO SEU LABIRINTO
CAOS ORGANIZATIVO, INCOMPETÊNCIA PRIVADA OU QUEDA PARA O ABISMO POLÍTICO?
(Por mais que o ministro Fernando Alexandre se esforce para tirar a pata da poça, vão chegando a nível pessoal e da comunicação social em geral testemunhos de professores com atribuições na revisão de exames que anunciam o pior e que o descalabro organizativo em curso é algo de mais profundo do que um simples atraso na publicação das notas dos exames nacionais. A desorientação e o pânico instalados no sistema de revisão atormentam os professores e, pior do que isso, existe uma total ausência de interlocução para os professores reportarem anomalias que as solicitações por eles recebidas transportam. Ninguém consegue alimentar um pingo de confiança acerca do que pode resultar de tudo isto. Confrontando os ecos individuais que me vão chegando de diferentes quadrantes e o estado de avaliação de alarme que vai grassando pelos meios de comunicação, pressente-se que os primeiros antecipam algo de bem pior do que os segundos prefiguram, mas pode ser apenas uma imagem impressiva. Percebe-se também que o ministro da Reforma Administrativa Gonçalo Matias é o grande aliado de Fernando Alexandre na decisão de não recuar, dada a importância do processo de digitalização em todo o processo por ele conduzido. Imagino que por banda dos ministros mais políticos, a sensação será de pânico instalado, sobrevalorizando os custos sociais e políticos de todo este processo.)
A imagem do armazém algures em Lisboa em que as provas estão depositadas que as televisões reproduzem com insistência, com o Ministro e Secretário de Estado a deambularem por ali, esperando o milagre da organização, é penosa e vai acompanhar por certo a carreira política que o ministro queira futuramente realizar, no pressuposto de que não pretenda regressar às lides académicas. E mais desagradável do que tudo isto é a perceção de que os professores são piões indefesos nesta grande trapalhada, arruinando o processo necessário de reconquista do seu valor social e do seu reconhecimento por parte das famílias e alunos.
O caos é tão generalizado que é praticamente impossível garantir se se trata de deficiências organizativas de um ministério que nos últimos anos se centralizou ainda mais, ou se é pura incompetência privada à solta, mais propriamente deficiente avaliação da situação a resolver ou se a combinação é ainda mais explosiva com a teimosia do Ministro a imperar em todo o processo, forçando uma situação que não tinha devidamente controlada.
O diabo que escolha. Mas o que é flagrante é que o estado de transição em que o sistema educativo nacional se encontra, a exigir um paradigma de maior eficiência e qualidade depois do salto quantitativo que conseguiu dar, não é compatível com perturbações deste calibre. O ministro Gonçalo Matias pode invocar obviamente o interesse de não voltar para trás na sua senda da digitalização. Mas tem de compreender que a transição com êxito pela qual o sistema educativo está a passar está muito para lá do sucesso da digitalização, é bem mais complexa do que isso e não pode ser perturbada por passos demasiado ambiciosos que podem comprometer a eficiência e a melhoria de qualidade do sistema, é disso que o país necessita e não de agendas individuais.
Claro que esta questão é do domínio da coordenação política e isso pertence ao 1º Ministro e não a porta-vozes por mais ambiciosos que sejam. Creio que não ouvimos ainda uma palavra que seja de Montenegro, o que é um bom indicador do seu estilo de (não) governação.










