Uma breve nota demográfica que ilustra bem mais um dos inúmeros elementos de diferenciação interna à União Europeia. Apenas seis dos 27 Estados-membros evidenciam taxas de crescimento populacional natural positivas (lado direito do gráfico) – Irlanda, Luxemburgo, Chipre, Suécia, Dinamarca e Malta – e três outros revelam taxas negativas muito acentuadas (Bulgária, Letónia e Lituânia). Por outro lado, as dinâmicas demográficas não possuem qualquer impacto significativo em alguns (poucos) casos – como a Eslováquia, a Letónia ou a Polónia – mas são extremamente visíveis na maioria dos restantes países, com destaque para Malta, Espanha, Chipre, Luxemburgo, Irlanda, Bélgica e Portugal (aqui, uma relativa novidade proveniente das recentes estimativas divulgadas, que vieram patentear o nosso real posicionamento e fazer subitamente emergir alguns dos problemas que tínhamos por inexistentes ou bem ocultos). Um tema a merecer melhor exploração.
sexta-feira, 23 de outubro de 2026
quinta-feira, 22 de outubro de 2026
ESTA SEMANA EM TRÊS APONTAMENTOS SINALIZADORES
A abrir, uma “gorda” do “The Guardian” que expressa bem o ponto já indefinível por indecoroso a que chegou a aberrante e traiçoeira liderança de Trump. Um desastre inigualável desde meados do século XX!
De seguida, a visita de Milei a Espanha e o modo efusivo como a presidente madrilena Isabel Díaz Ayuso o recebeu, mesmo com o “louco argentino” a repetir por lá os insultos que diariamente dirige aos seus opositores e jornalistas (“merdas humanas”, “lixos repugnantes”, “imbecis”, “idiotas” e “corruptos”), com destino a Pedro Sánchez e privilegiando embora a contenção de epítetos como “ladrão” ou “ditador inapresentável” – para onde foi parar o cumprimento de mínimos nacionais por parte de uma alta responsável política, quando até Felipe González, que informou que iria votar nulo nas eleições que se aproximam, se mostrou incomodado e sublinhou ironicamente que “se Milei visita Espanha umas quinze vezes mais, é possível que Sánchez ganhe”?
Por fim, o Brasil e a sucessão de jogadas e contra-jogadas que procuram a qualquer custo (re)conquistar eleitores no finalzinho dos dias que vão conduzir à segunda volta de Domingo que vem.
O MISTÉRIO (ECONÓMICO E TAMBÉM POLÍTICO) DO VALOR DOS TÍTULOS A LONGO PRAZO
(Robert Rubin)
(Já aqui repetidas vezes se fez eco do significado assumido pela subida progressiva dos rendimentos (yields) dos títulos a longo prazo, designadamente dos títulos do Tesouro americanos. Por exemplo, o yield dos títulos a 10 anos atingiu recentemente o valor de 5,36%, que é nada mais nada menos do que um valor superior ao que aqueles títulos apresentavam no período imediatamente anterior à crise de 2008 e à subsequente Grande Recessão então observada. O comportamento deste indicador contraria frontalmente a narrativa de Trump de que tudo vai bem na economia americana e por isso tem sido objeto de um amplo debate sobre as razões que explicam aquele comportamento. A explicação que tem sido considerada mais robusta é a que aponta o dedo explicativo aos mega-investimentos que as empresas de inteligência artificial estão a realizar, por via da desesperada procura de fundos que paira sobre os mercados de financiamento. Poderíamos aqui também fazer eco dos receios que têm emergido nos mercados sobre a real capacidade das empresas de IA para alcançar o retorno adequado desses investimentos tão avultados e assim poder solver os compromissos de pagar os seus financiamentos em larga escala. Existe por isso um cutelo que paira sobre a dinâmica de investimento em IA, falando alguns da possibilidade de um crash de financiamento, atendendo ao volume de retorno que será necessário alcançar para acomodar um custo de financiamento tão elevado. Todos estes fatores explicativos reportam ao mistério económico dos yields historicamente tão elevados que estão a ser observado nos títulos a longo prazo. A questão relevante a colocar, e gente bem importante como o ex-secretário do Tesouro americano nos anos 90 Robert Rubin colocou-a com toda a pertinência, é a de saber se não existirá aqui também um mistério político para justificar essa dimensão do mercado. A questão é muito relevante, até porque tudo leva a crer que possa existir interdependência viciosa entre as dimensões económica e política desse mistério.)
O pensamento de Rubin ancora-se no facto de, na grande maioria das eleições intercalares realizadas no passado, terem sido questões económicas a suscitar o cartão amarelo levantado pelos eleitores à força política que governa na altura (It’s the economy, stupid, máxima que se popularizou para explicar o comportamento dos eleitores que pensam com o bolso e com a carteira e não com as suas convicções ideológicas e partidárias). Se nos projetarmos nessa dimensão económica, são vários os assuntos que podem levar os americanos a concluir que estão hoje pior do que estavam quando o mandato de Trump foi iniciado. Não foi certamente por acaso que Trump tirou da cartola o mal-amanhado e ultrajante acordo do gasóleo com a Rússia de Putin, para tentar assim sossegar a sua base de apoio de que o valor sagrado do baixo preço do diesel será mantido a todo o custo para satisfação do princípio básico da mobilidade barata na sociedade americana.
A pertinência da análise de Rubin justifica-se essencialmente pelo facto de acrescentar a este rol de fatores a importante indeterminação política quanto ao comportamento fraudulento ou respeitador da democracia que Trump vai assumir quanto às intercalares que estão aí à porta. Não se trata de elucubração gratuita, mas antes da invocação de um conjunto de factos e comportamentos reais no passado, que pode ser até escalado se as pseudo narrativas de fraude poderem ser utilizadas para controlo de sítios eleitorais e locais de voto, bem como processos diversos de não reconhecimento de resultados. O problema é que tudo isto não é inventiva criativa, mas antes algo em que Trump tem apostado no passado e que o desespero do seu comportamento de negação do estado real da economia americana pode precipitar.
O que a clarividência de Rubim nos diz é que a hipótese de manipulação declarada dos resultados das intercalares teria um forte impacto económico (daí a invocada interação entre o económico e o político), que adensaria a indeterminação e os riscos que pairam sobre o elevado valor títulos a longo prazo, efeitos que tenderiam a prolongar-se ao longo de toda a administração de Trump no poder. Vale a pena citar o que Rubin considera ter sido o valor histórico de eleições regulares com resultados aceites: “O papel da lei, sustentado por uma tradição de eleições livres e de transferências pacíficas de poder, apoia as decisões de investimento e atrai o investimento de sociedades estrangeiras. Suporta ainda a posição do dólar como moeda mundial de reserva. Favorece a confiança dos investidores na plena confiança e crédito dos EUA e baixa as taxas de juro da nossa dívida. A integridade das nossas eleições, por outras palavras, tem sido um dos fatores-chave da prosperidade económica”.
Temos assim nas palavras de quem teve uma sólida experiência de governação que o destempero político antidemocrático de Trump e seus parceiros mais próximos pode contaminar todas as expectativas dos investidores (os conhecidos “espíritos animais” de Keynes), penalizar o crescimento da produtividade por inibição do investimento, pressionar ainda mais os yields dos títulos do Tesouro e o dólar.
Mas, o que é ainda mais relevante e que mostra que mais americanos estão finalmente a abrir os olhos para a realidade e não para as narrativas construídas a preceito, é a afirmação de Rubin de que nunca esperaria na sua vida ter de escrever para o New York Times um artigo como este. Os alarmes e os sinos tocam a rebate, mas ainda não estou seguro que toda a gente de boa fé, democrata, republicano ou simplesmente cidadão os ouça e aja em conformidade.
quarta-feira, 21 de outubro de 2026
A EXTREMA-DIREITA ADOCICA-SE
(A entrevista de Alice Weidel, líder da AfD alemã, ao Insider da revista The Economist é um documento de análise obrigatória para se compreender a evolução do discurso da extrema-direita à medida que vai ganhando peso eleitoral e, no caso alemão, uma presença territorial mais alargada e não limitada aos territórios da ex-RDA, ou Alemanha de Leste. De certo modo, o que se vai intuindo do discurso de Weidel já se tinha percebido nos posicionamentos de Le Pen em França e de Meloni em Itália, caso paradigmático desta última, porque foi o primeiro caso de presença direta na governação da extrema-direita e também nas instâncias comunitárias. Em Espanha, o VOX de Abascal não tem essa inteligência e por cá a trajetória de Ventura e do Chega é mais errática do que adocicada. Nas palavras de Weidel existe de forma clara um propósito de suavização da imagem e de conotação com os extremismos de direita, o que acontece em simultâneo com a reafirmação de questões-chave de posicionamento com relevo principal para a posição marcadamente anti-Ucrânia que a líder da AfD manifesta despudoradamente. O argumento pérfido é o de que a Ucrânia é “um país pequeno” (???) que já perdeu e que a manutenção da guerra com apoio da União só vai aumentar a insegurança alemão, Aqui o discurso não é de adocicamento ou de suavização, mas a continuidade de expressão de um egoísmo securitário que brada aos céus.)
A contradição do discurso de Weidel relativamente à ameaça russa é por demais evidente. Por um lado, considera que a continuidade do apoio europeu e alemão à Ucrânia tenderá a colocar o território alemão sob a mira russa. Por outro, desvaloriza totalmente as evidências de guerra híbrida levada a cabo por Putin, negando mesmo que o incidente de Leipzig tenha qualquer relação com a ofensiva russa.
A manifestação mais óbvia de adocicamento é a sua desesperada tentativa de demonstrar que a AfD não alberga extremistas de qualquer espécie, quando é conhecida a ligação existente entre personalidades da AfD e grupos nazis e etno-nacionalistas, declaradamente xenófobos. A intenção de suavização estende-se às questões da imigração, a propósito da qual Weidel dá uma no cravo e outra na ferradura, considerando que existe população que deve abandonar a Alemanha pelo facto dos seus países de origem já não estarem em guerra (Síria, por exemplo), mas defendendo por outro a permanência de profissionais.
Quer isto significar que a dimensão nacionalista e pró-russa irá persistir no discurso e na prática política, enquanto as dimensões do extremismo mais violento irão ser colocadas debaixo do tapete, com mescla de posições em relação ao surti imigratório. Trata-se de matéria a monitorizar sobretudo do ponto de vista de saber se essa será também a tendência em França e na Itália e proximamente em Espanha se o VOX vai ou não aproximar-se do poder na sequência das próximas eleições.
A entrevista pode ser visualizada aqui, bem como um pequeno texto de resumo da mesma aqui.
FADADOS PARA A PEQUENEZ DO FÁCIL?
Os exemplos acima não passam disso mesmo: exemplos. Mas não deixam de ser sintomáticos do estado em que está o País, apreciação que é generalizável a quase todas as áreas. Aqui refere-se o Governo, hoje cheio de peito perante o brilhantismo com que tratou da “resolução” do problema dos manifestantes das tendas em praças de Lisboa e Porto mas ontem com “o rabo entre as pernas” a apelar pelo fim das atuações “egoísticas” e a declarar a sua compreensão perante a dor dos que sofrem por falta de casas ou de condições para a elas acederem. O mesmo Governo em que o ministro dos Negócios Estrangeiros exibe a sua “imensa felicidade” (cito Miguel Sousa Tavares) por ter chegado ao seu ponto aspiracional mais alto de surgir num palanque ao lado de Marco Rubio a ser apresentado como o representante de “um grande entre os grandes aliados” dos EUA de Trump ou, ainda, em que a ministra da Justiça não tem mais defesa para apresentar em relação ao seu colega da Administração Interna do que afirmar que o dito está a gerir o processo da melhor forma que sabe (se é muito ou se é pouco, só os humores do vento e da PGR o irão clarificar). E depois temos a economia, essa que está bem e se recomenda segundo as autoridades – a ponto de já termos os brasileiros ricos a investir mais no nosso imobiliário do que nos EUA (embora sejam as vítimas do mercado que o pagam!) ou a CML a conceder milhões em borlas fiscais aos festivais musicais que tanto ajudam a sustentar a qualidade do nosso turismo feito elemento vital do nosso autoproclamado crescimento sustentável. E assim se vai cumprindo um fado que só varia nas margens...
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
DEBATE FALHADO, TEME-SE O PIOR...
Ontem à noite cometi novamente um erro que insisto em tornar recorrente: o de acreditar no interesse histórico do direto e assim entrar pela madrugada dentro para assistir a um debate televisivo, no caso o das presidenciais brasileiras entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro – resultado: um verdadeiro flop! O primeiro é um político cheio de experiência e obra mas que agora vai mostrando cada vez mais que a predominância do recurso à ronha se esboroa inapelavelmente com o tempo; o segundo é um trapaceiro puro que afirma e promete tudo e o seu contrário sem cuidar de qualquer intencionalidade ou sentido. Pelo que chegou mesmo a ser doloroso observar aquele debate vazio (porque nem as escassas afirmações de índole programática continham mínimos de coerência e rigor capazes de poderem ser encaradas a sério) e estritamente acusatório no plano pessoal, familiar e político-partidário. Como pode continuar a ser uma sina inultrapassável, num país com o gigantesco potencial do Brasil, que a escolha do seu grande responsável presidencial redunde numa espécie de redução ao absurdo, ou seja, em sucessivas demonstrações demagogicamente tentadas por um e outro dos lados de que o outro é pior? Para quando a recusa de um mal menor e a mobilização de uma sociedade rica e plena de energia em prol de uma defesa lógica e estruturada das suas gentes e dos seus interesses? Acorda Brasil!









