O dossiê (ou novela?) Cristiano Ronaldo versus Jorge Jesus adquiriu ontem contornos novos e tresloucados. Só um país que perdeu as suas referências mínimas, lateralizando vergonhosamente os reais problemas que o atingem, pode produzir um espetáculo de tão repugnante nível como aquele a que a vaidade e soberba de CR7 conduziu – a ponto de a sua assessoria (meça-se, caro Tiago Craveiro!) ter chegado ao cúmulo, já na sequência dos incidentes, de elaborar um documento com oito pontos para orientação da conferência de imprensa do selecionador; por alma de quem e a propósito de quê?
Mas que gente é esta submetida a uma personagem que confunde a brutal dimensão da sua carreira e do seu património com um poder absoluto que de facto não possui nem lhe é conferido pelos ditos? E onde para o presidente Pedro Proença na sua prestação risível de completo “verbo de encher”? Nas televisões, há felizmente comentadores que vão dando mostras de bom senso na matéria, embora também surjam outros (como o Carlos Coelho das marcas e do marketing) capazes de evidenciar a sua incompetência em sede desportiva e futebolística em favor do primado do seu pequeno mundo e do alcance do businessque assim logrará em benefício pessoal e financeiro. E, por fim, há ainda o que de repulsivo se nos apresenta ao minuto nos canais da “Medialivre”, com o jornalista Vítor Pinto (porque mais impulsivo, mais arrogante e mais conhecedor) a destacar-se na argumentação com que tenta limpar o “patrão” (há momentos sublinhava, com fervor e admiração, as seis vezes que Ronaldo pede desculpa no seu comunicado de ontem!) e quiçá conquistar as promoções que de há muito colocou no seu horizonte de legitimidade – acresce que até já lhes passou pela cabeça forçarem um despedimento de Jesus em proveito de uma continuidade da paz podre que se vem traduzindo desde há muitos anos no comando puro e duro que CR7 assumiu com a tolerância covarde dos selecionadores sem personalidade que andaram por cá a obedecer e a fingir que decidiam.
Aqui chegados, assunto encerrado. Para mim, CR7 não existe enquanto ser com dignidade bastante para respeitar os seus concidadãos, os seus colegas e os seus superiores. Desejo-lhe muitas viagens no avião pessoal, muitas viaturas nas garagens e muitas figuras tristes sob as diretrizes saloias daquelas que mais aceita ouvir (D. Dolores e suas manas) e dos oportunistas a quem paga para lhe dizerem com a devida graxa o que quer que lhe seja dito. Embaixador de Portugal para o que for? Valerá o que vale, mas estou com o Miguel Sousa Tavares quando há tempos escreveu tendo o primeiro-ministro por destinatário: “Montenegro que me desculpe mas eu dispenso a inspiração fornecida por Cristiano Ronaldo. Há outros valores em que vale mais a pena apostar.”













