terça-feira, 31 de março de 2026

SANGRAMENTO NA BASE DAS LAJES E NOS AÇORES

A posição espanhola foi rápida e marcada pela clareza – nem tudo é mau na forma de estar de Pedro Sánchez! Macron e outros líderes europeus também já vieram mostrar a sua relutância em relação ao apoio objetivo às operações militares dos EUA contra o Irão em instalações situadas em territórios nacionais. E esta tarde foi mesmo Meloni, a cada vez mais perspicaz chefe do governo italiano, a recusar aos americanos a utilização de uma base localizada na Sicília. E nós? Bom, nós cá continuamos na nossa “apagada e vil tristeza”, primeiro usados sem saber (ou fingindo não saber) e depois afirmativos do subserviente alto do nosso pequeno poder autorizando que a Base das Lajes seja peça logística/operacional importante de uma guerra sem uma ponta de sentido aceitável nos termos em que foi decidida e está a ser travada. Mas é Portugal, ninguém leva a mal... e quando é que deixará de ser tal?

segunda-feira, 30 de março de 2026

DO PATRIOTISMO ECONÓMICO

Não vai há muito tempo que em Portugal se discutia fervorosamente a necessidade e importância de um “patriotismo económico”, onde a salvaguarda de centros de decisão nacionais era tida como condição não negligenciável de afirmação e sustentação da nossa economia. Hoje, de acordo com um quadro publicado no último “Expresso”, 70% dos dividendos das empresas cotadas – que em 2025 bateram um recorde, atingindo 3015 mil milhões de euros – já não ficam por cá e países de duvidosa credibilidade estratégica (como a China, através da EDP, da REN e da Mota-Engil, e Angola, através do BCP e da GALP) recebem de volta, respetivamente, mais de dois terços e um terço do que cabe aos acionistas portugueses, enquanto um valor próximo deste acaba taxado num paraíso fiscal permissivo como são os Países Baixos (onde, designadamente, a Jerónimo Martins e a Amorim Energia fazem o seu planeamento fiscal). “O capital não tem pátria”, é bem verdade que são essas as regras do sistema, embora também o seja que alguns capitalistas talvez devessem ser menos gananciosos!

TELETRABALHO, TRABALHO HÍBRIDO E FERTILIDADE: ESTAREMOS DE ESPERANÇAS?

 


(Tenho alertado frequentemente neste blogue para a cada vez mais sólida evidência que aponta para a generalizada queda da taxa de fertilidade total, número médio de filhos que uma mulher em idade ativa de procriação terá ao longo da sua vida, considerando que vão manter-se no futuro as taxas de fertilidade hoje observadas nos diferentes escalões etários. É sabido que os diferentes grupos de países têm chegado a este fenómeno não simultaneamente, mas antes em função das respetivas transições demográficas, que ocorrem a ritmos diferentes. Existem evidências de matizes muito diversos. Países que caminharam lentamente para essa descida da taxa de fertilidade e países que precipitaram abruptamente essa tendência, como se observou na grande generalidade dos países asiáticos incluindo a China, cujo Partido Comunista estará hoje profundamente arrependido pela proibição no passado de mais de um filho por família. É também conhecido o caso da própria região Norte de Portugal que precipitou rapidamente o seu inverno demográfico. Tenho insistido no facto de que, subjacente a essa diminuição, mais lenta ou acelerada da taxa de fertilidade, está uma complexa relação entre desenvolvimento económico e fertilidade que, aliás não para de nos surpreender. Insisti também no facto de que Portugal pode ser um dos casos em que a diminuição da taxa de fertilidade se prolongue mais no tempo, sobretudo por duas razões – a indeterminação global que paira sobre o desenvolvimento e condições de vida no país e o ainda em crescimento peso da mulher no mercado de trabalho. Trazendo nova evidência à complexa relação entre taxa de fertilidade e desenvolvimento económico, é hoje tempo para vos mencionar um elemento promissor na possível inversão do comportamento da taxa de fertilidade, aliás um dos únicos com presença relativamente sólida na evidência de investigação, a ponto de no título deste post falar de “esperanças”. O fator que tem contribuído para melhores números em matéria de fertilidade é surpreendente: o fenómeno do teletrabalho e do trabalho híbrido surge como um dos raros casos que tem contribuído para mitigar o peso dos outros fatores que tendam a rebaixar essa mesma taxa de fertilidade. Que o tema do trabalho à distância em regime híbrido ou total era complexo já o sabíamos, a ponto de muita gente considerar que se transformou em prática irreversível. Ora aqui está um elemento de evidência que adensa ainda mais essa complexidade.)

A evidência que traz esta esperança foi publicada há cerca de cinco dias no VOX EU, que é hoje um dos repositórios mais sólidos da nova investigação económica que se vai fazendo por esse mundo fora, anunciando em versões de síntese o que está plasmado em papers pelas revistas mais prestigiadas. O artigo é publicado com sete assinaturas, o que sugere uma investigação coletiva de grande amplitude.

Os resultados publicados são efetivamente surpreendentes. Para um conjunto de 38 economias entre as mais desenvolvidas no mundo, foi possível concluir que a taxa de fertilidade é mais elevada em famílias em que pelo menos um elemento trabalha a partir de casa pelo menos um dia por semana. A evidência mostra ainda que a taxa de fertilidade é, tudo o resto constante, ainda mais elevada quando pai e mãe trabalham à distância. Quer isto significar, que o trabalho híbrido veio colocar às famílias novas e melhores condições de vida, embora possa ter impacto negativo na vida interna das organizações que o praticam. Resta agora explicar como é que essa melhoria das condições de vida, não apenas materiais, mas também de qualidade de vida, impacta positivamente a taxa de fertilidade. De qualquer modo, a robustez de evidência encontrada traz à discussão do trabalho híbrido novos elementos, podendo dizer-se que essa discussão não pode ser mais limitada à oposição condições de vida do trabalho versus interesses da organização em que trabalha. Existe aqui um valor social importante: o da facilitação dos objetivos de inverter o comportamento da taxa de fertilidade, tanto mais que os resultados das chamadas políticas natalistas têm sido, senão nulos, pelo menos muito incipientes.

O que parece mais relevante é que a robustez da evidência encontrada (essencialmente para inquiridos entre os 20 e os 45 anos) está em linha com a teoria geral da fertilidade, designadamente a teoria económica da mesma, que se foi consolidando nos últimos anos. Essa teoria aponta para a centralidade da relação entre condições de vida familiar e evolução das carreiras profissionais na explicação da fertilidade, designadamente a das mulheres, aquelas que vêm mais sacrificadas a sua evolução profissional por uma ou mais maternidades.

A relação encontrada entre formas de trabalho híbrido e mais elevada taxa de fertilidade é controlada por variáveis como idade, educação, Casamento e existência de filhos antes de 2023 e variáveis país.

Tudo indica que as formas de trabalho híbrido acrescentam uma nova dimensão às tão conhecidas políticas de conciliação da vida profissional e familiar, melhorando acentuadamente as condições de compatibilização da vida profissional com o cuidar quotidiano dos filhos. É discutível que o trabalho híbrido possa, por si só, resolver o problema da queda generalizada da taxa de fertilidade. Mas o que parece indiscutível é que existe agora uma outra abordagem a considerar na questão do trabalho híbrido, da sua continuidade ou regressão. É que o trabalho parece ter também ter um valor social a considerar, podendo contribuir para um dos desafios mais prementes que se colocam às sociedades mais avançadas – a questão demográfica. A discussão não pode ficar limitada ao confronto entre os interesses dos trabalhadores e das organizações que os empregam. Vai além disso.

 

domingo, 29 de março de 2026

FALAR PARA O BONECO!

 
(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

Bem pode alguma gente alertar, solicitar ou criticar que o Governo (este como os anteriores, diga-se) não ouve e nada diz. Muito menos quando se trata de grandes obras ou obras de regime, daquelas de encher o olho. É o presente caso da construção do Novo Aeroporto de Lisboa, uma decisão que aguardou cinco décadas e que aconteceu quando as projeções já estavam requentadas, para não dizer completamente desatualizadas (como apontou a Carta Aberta aos presidentes dos principais órgãos de soberania, elaborada no quadro do Círculo do Centralismo (ACEC) agora dirigido por Carlos Tavares). Pois soube-se esta semana que o Governo (Pinto Luz, o ministro das Infraestruturas, em Portugal um permanente candidato a herdeiro do fontismo) manifestou preocupação em relação aos cálculos usados pela ANA para prever o número de passageiros que irão utilizar a nova infraestrutura a edificar no atual Campo de Tiro de Alcochete, preocupação exatamente inversa da que foi manifestada pela ACEC – defeito versus excesso, obviamente. Alguma coisa não bate certo, pessoalmente cá tenho as minhas suspeitas de se tratar apenas de uma ilustração mais do Portugal do tarefismo/incompetência e do fogacho/desperdício...

O REPOSICIONAMENTO DO PS

 


(A realização do congresso do PS neste fim de semana trouxe de novo ao debate público a questão do seu reposicionamento político. A questão não é nova, já se colocava antes da queda abrupta registada nas últimas eleições legislativas e regressa agora, à medida que José Luís Carneiro vai fazendo uma espécie de caminho das pedras para se afirmar como alternativa de governação. Obviamente que questões laterais como a interpretação da viagem de Carneiro e Brilhante Dias à Venezuela e de certo modo centrais como o preenchimento das vagas para o Tribunal Constitucional têm perturbado, senão mesmo ocultado, o debate mais decisivo sobre o reposicionamento do partido para oferecer uma alternativa sólida ao eleitorado que não quer embarcar no namoro mais ou menos implícito que a AD vai testando com o Chega. Não se conhece nada de relevante em matéria de ideias que tenha brotado do anunciado Conselho de Estratégia criado por José Luís Carneiro, o que adensa a preocupação quanto ao estado tardio em que se encontra o debate sobre o reposicionamento. Vamos por partes. Admitir que a composição do Tribunal Constitucional ficaria indiferente ao crescimento do Chega e à profunda alteração do quadro parlamentar equivale ao mais estranho “wishful thinking” de como contrariar a “direitização” em curso, seja ela interpretável como algo de efetivo e sólido, ou como um produto de moda circunstancial, sem espessura. Perante essa “direitização” em curso cabe ao PS alertar o eleitorado para os perigos associados a essa perda do balanceamento que sempre caracterizou o quadro constitucional e, obviamente, responsabilizar o PSD por se deixar arrastar por essa onda de mimetização das tendências que engrossaram até agora a direita populista em Portugal. A fragilidade atual do PS vem do facto de para querer manter uma posição clara de rejeição desse namoro implícito o partido arriscar precipitar novas eleições, sem que o seu edifício político esteja recomposto e pronto para uma nova luta eleitoral. Ou seja, até que ponto a demarcação face à aproximação que o PSD está a fazer a algumas causas do Chega pode ou não ser concretizada sem precipitar a instabilidade política. Trata-se de um equilíbrio muito difícil de conseguir e, por isso, considero que quanto mais tarde se concretizar o desejado reposicionamento pior será essa fragilidade.)

Quando se equaciona o reposicionamento de uma força política como o PS existem sempre duas vias, que se necessitam mutuamente, para o concretizar. Uma das vias constrói-se pela negativa. Ou seja, afirmar com clareza o que o partido não quer ser, o lugar que não quer ocupar. Esta via está hoje facilitada, pois abundam os exemplos de posicionamentos a rejeitar, tão variados e escabrosos são os que mais recentemente têm emergido. Um dos temas mais recentes protagonizados pela ala agonizante da AD identificada com o CDS mais retrógrado, é o indesejável confronto entre wokismo e anti-wokismo, que levou (o primeiro) à agonia do Bloco de Esquerda e tem entusiasmado (o segundo) os Núncios deste mundo. Este confronto tem um elemento comum, a chamada cultura do cancelamento. É este elemento comum que tem de ser rejeitado com convicção, pois não corresponde de todo às necessidades reais do eleitorado que se pretende recuperar, seja ele o mais jovem, seja o das classes médias em progressivo empobrecimento e perda de alavancas sociais, especialmente a partir do período pandémico e do sucessivo agravamento da estabilidade internacional.

Mas existem outros exemplos importantes para afirmar o lugar e os valores que não quer ocupar. O tema da imigração, da demografia e dos problemas do relacionamento entre culturas exige uma posição de equilíbrio que só, em meu entender, o PS está em condições de trabalhar. O posicionamento a rejeitar é o dos extremos que entretanto emergiram: de um lado, os que continuam a defender a rejeição da imigração e a esperança pífia de que a redução da taxa de fertilidade possa ser ultrapassada a curto prazo; do lado oposto, os que são incapazes de perceber que a integração cultural é para algumas populações uma miragem e que a formação de guetos culturais em torno das populações imigradas constituirá sempre um fator de perturbação social e fonte dos aproveitamentos mais sórdidos e aviltantes.

Mas chega de reposicionamento pela via negativa. É necessário também afirmar posições, que reconduzam o eleitorado a uma nova perspetiva de confiança relativamente às soluções que são propostas.

Uma primeira ideia, que podemos considerar vulgar, mas que está longe de o ser, é a de que um reposicionamento pela positiva não pode propor o céu e a terra, mas antes concentrar-se num conjunto reduzido de grandes mudanças.

Creio que não é necessário pertencer ao Conselho de Estratégia do PS para propor um consenso alargado em torno de algumas, poucas, apostas temáticas, suscetíveis de interessar o eleitorado e conduzir a um novo pacto de confiança.

Em meu modesto entender, existem quatro grandes temas agregadores que podem ser enriquecidos com a desmultiplicação de medidas mais concretas. Esses quatro temas são os seguintes:

§  Um posicionamento claro em matéria empresarial, tema que o PS sempre evitou de aprofundar e ao abrigo do qual existem outros temas a considerar como o da qualificação da população e a questão da investigação científica e tecnológica;

§  Uma estratégia de longo prazo para a saúde em Portugal que resista à tentação ideológica que Marta Temido não conseguiu ultrapassar e que reconsidere o SNS no estado da arte atual e não no estado desejável, ou seja, considerando o grau de implantação do setor privado já alcançado;

§  Um programa de habitação que rompa de vez com as falácias de que o mercado resolverá o problema, às quais Montenegro e Miguel Luz estão tão apegados e incapazes de compreender os efeitos perversos que os instrumentos “pró-mercado” estão a provocar, adensando o problema da “affordability” que atinge um número cada vez maior de indivíduos e famílias;

§  Um novo pacto territorial com o país, que promova de uma vez por todas um programa e critérios-compromissos de investimento público que combatam de vez o excesso de concentração em Lisboa e ofereça novas oportunidades a outros territórios e potenciando melhores condições de atração de pessoas e de investimento privado.

Estas quatro opções centrais podem ser combinadas com opções de carácter mais transversal como o serão seguramente o da justiça ou o da consolidação de uma resposta consistente à severidade das mudanças climáticas, com incentivos à mudança de comportamentos.

Obviamente que este programa de mudança e de recuperação da confiança do eleitorado exige considerações e aprofundamentos complementares que serão objeto de desenvolvimentos atempados neste blogue, particularmente do primeiro em que a viragem de posições no interior do PS poderá ser mais controversa.

A seu tempo e na medida do possível procurarei elaborar um pouco mais sobre estas matérias.

Mas fica a ideia central de que um novo reposicionamento assenta em questões-chave e não no arranjo sistemático de tudo que vem à linha na espuma das tentações eleitorais.