segunda-feira, 3 de agosto de 2026

E SE A CHINA ESTIVER A GANHAR COM A GUERRA NO IRÃO?

 


(A ideia já passou seguramente pelas nossas cabeças, mas quem a formalizou com argumentos seguros é Paul Krugman no seu substack, seguido com alguma regularidade neste blogue. O principal argumento ou evidência convocado para entender que a China, não sendo parte ativa nas hostilidades do Golfo, é a potência que está a extrair melhor proveito da contenda baseia-se sobretudo na alteração disruptiva de opinião observada em muitos países quanto à posição relativa dos EUA face à China na cena internacional. Obviamente que ninguém ignora a superioridade que os EUA continuam a revelar em matéria de investigação científica e tecnológica, rumos da Inteligência Artificial e domínio de outros setores tecnológicos de ponta e em termos de poderio militar, não esquecendo as relações virtuosas que esta última superioridade alimenta em matéria de ciência e tecnologia. Mas as evidências apresentadas são de facto impressionantes para um conjunto de países já muito significativo. À distância geográfica a que estamos, não dá plenamente para perceber se essa perceção é extensiva à própria sociedade americana. A única coisa que sabemos é que a popularidade de Trump tem atingido os níveis mais baixos de sempre e que a intervenção militar no Irão é vista pela maioria dos americanos como algo de indesejável e profundamente contrário aos interesses americanos, sem que isso signifique a apologia do regime teocrático e repressivo iraniano. Mas isso não significa que os americanos tenham a perceção do modo como o poderio do seu país é desvalorizado na cena internacional.)


Também sabemos que alteração das perceções quanto ao poderio e influência relativos dos EUA e da China não pode ser apenas explicado pela pujança manufatureira chinesa, visível na evolução do seu peso na produção industrial mundial. Claro que já há longos anos, a norma de consumo das classes médias mais baixas e das classes mais desfavorecidas do ocidente é alimentada pela capacidade esmagadora da produção com origem na China inundar os mercados europeus. Mas isso não impede o reconhecimento de que se os EUA de Trump tivessem mantido intactas e respeitadas as alianças com a União Europeia e outros países ocidentais de vanguarda a superioridade manufatureira “ocidental” seria ainda uma realidade.

A alteração de perceções não pode, assim, deixar de estar associada à disrupção e à desconfiança que a administração Trump tem propagado não só do ponto de vista dos valores transacionais e de enriquecimento próprio (seu e da sua corte) que professa, mas também devido ao carácter profundamente errático e discriminatório com que exerce o tal poderio americano. O ziguezaguear que é exposto regulamente em relação ao conflito com o Irão é tão errático que, por vezes, não tem explicação racional possível. Podem existir argumentos válidos para uma mudança de posição, mas a maneira como a justificação é apresentada apaga qualquer centelha de racionalidade que possa ser encontrada. É este o caso, por exemplo, da interrupção dos ataques ao Irão que neste fim de semana foi anunciado, invocando uma qualquer possibilidade de regresso às negociações em torno do memorando de entendimento. Provavelmente porque o stock de armas balísticas americanas precisa de reconstituição, mas não há qualquer elemento de seguro que leve a esse entendimento.

Pior ainda, com a sua atitude persecutória em relação a grandes expoentes da ciência americana e a extensão das amizades de conveniência às lideranças militares assistimos perplexos à destruição dos alicerces do poderio americano.

Claro que não podemos ignorar que o recato das autoridades chinesas tem evitado que as suas vulnerabilidades em termos de medidas internacionalmente impopulares sejam publicamente expostas e assim preservado a sua imagem relativa. Não sabemos até quando a China poderá manter esse recato para fazer avançar a sua aposta geopolítica internacional.

Não me admiraria que, por vias muito indiretas, a China venha a apoiar a reconstituição iraniana do seu aparelho de guerra. Mas isso exigirá um outro modelo de seguimento. Uma coisa é seguir o estardalhaço trumpiano. Outra coisa bem diferente é tentar compreender os jogos de sombra chineses.

 

QUEM TE VIU E QUEM TE VÊ

Aquilo que António Costa designou por “Bazuca” está a chegar ao fim dos seus dias e o seu balanço não é de todo entusiasmante. Foram anos de reivindicações de dinheiro para tudo e mais alguma coisa – a maioria das quais sem grande relação com a recuperação e a resiliência que serviam de pretexto ao “cheque” – e, muito em especial, de alegados cuidados com a execução (quem não se lembra do caricatural ralhete de Marcelo a Abrunhosa?) naquela lógica tão nacional de atirar “a massa” para cima dos problemas que suscitem mais barulhento protesto. À medida que o tempo foi passando e o termo fixado e comprometido se ia aproximando, a dura realidade venceu a inércia e as regras lá foram sendo sujeitas a “cunhas” em Bruxelas, mudanças no acesso aos fundos, alterações importantes nas aplicações inicialmente previstas ou devoluções de verbas e correspondentes efeitos de overbooking a funcionar, sempre com o ministro hoje responsável a garantir enfaticamente 100% a 31 de agosto: “fie-se em mim”, disse ao jornalista. O presidente da Comissão de Acompanhamento lá foi levando a água ao seu moinho, sempre sublinhando que “até agora não perdemos qualquer euro”, que mais uma reprogramação era essencial, que alguns objetivos ficariam por cumprir (incluindo nas áreas cruciais da transferência de tecnologia e da Inovação) e que os privados estavam salvaguardados, para finalmente reconhecer, extenuado, que “o desenho inicial do PRR foi demasiado ambicioso”.


Entretanto, o excelente jornalista económico do “Público” Victor Ferreira abalançou-se a um balanço, entrevistando o alegado “idiota” inicial (António Costa Silva), ele que foi rapidamente ultrapassado pelas artimanhas de Costa e dos especialistas do costume (no caso, representados por Fernando Alfaiate), e Ricardo Paes Mamede (um economista capaz e conhecedor da matéria), a despeito de ter sido pena que não tivesse alargado o seu espectro de opiniões recolhidas com alguém a Norte ou a Centro que pudesse trazer alguns apontamentos diferenciados. A conclusão que retirou surge bem sintetizada no título seu artigo (“Quem te viu e quem te vê”), o qual merece uma leitura cuidada para ajudar a que melhor se entendam as razões de uma oportunidade novamente perdida (ou quase, porque se salvaram alguns projetos específicos e a circulação de dinheiros que alimentou o crescimento do PIB nacional). Adicionalmente, Sérgio Aníbal traz também alguns elementos de análise relevantes num artigo em que salienta justamente que “Portugal terá de substituir PRR para travar efeitos negativos nos serviços públicos e produtividade”.

 

E assim vamos de nenúfar em nenúfar até que a Política de Coesão nos feche as portas quase escancaradas que nos têm proporcionado enganosas manifestações de fartura assentes em dinheiro fácil e novo-riquismo e não políticas públicas baseadas em escolhas seletivas e judiciosas que pudessem contribuir efetivamente para uma maior e mais consolidada prosperidade.

domingo, 2 de agosto de 2026

O FUTEBOL NO SEU PIOR...

(Nicolas Vadot, http://www.levif.be)

 

Julgo que já poucos tinham quaisquer ilusões sobre a seriedade de Gianni Infantino, o presidente da FIFA. Mas a verdade é que o Mundial de 2026 afastou todas as dúvidas que pudessem ainda subsistir (entre as limitações à entrada dos EUA de vários jogadores e agentes nacionais, o cartão vermelho retirado a pedido de Trump, algumas arbitragens incompreensíveis, os breaks para publicidade disfarçados de hidratação, etc.). Pior do que tudo, o personagem acabou a fazer um balanço muito positivo do evento (que só o foi em termos desportivos estritamente considerados) e, vai daí, aproveitou para anunciar o seu projeto – devidamente articulado com Donald Trump – de privatizar a competição, tornando o futebol um mero pretexto para fazer dinheiro (como já é, diga-se com frontalidade, embora conseguindo esforçadamente exibir alguns elementos de compensação e/ou disfarce. A coisa foi a um ponto tal que até a UEFA veio a terreiro para denunciar a marosca e pedir a cabeça de tal figurão!

(Nicolas Vadot, http://www.levif.be)

Mudando de assunto dentro da mesma área, sublinhe-se quanto é grotesco, penoso e injusto este longuíssimo “período de mercado” (com pequenas variações inter-países) em que estamos até ao início de setembro, favorecendo os beneficiários das negociatas de jogadores e os donos dos clubes ricos e prejudicando qualquer planeamento de época por parte dos clubes remediados ou pobres e/ou oriundos de países onde a ganância ainda não encontrou significativa razão de ser. Faria bem a UEFA em procurar formas de minimizar esta crescente deriva antidesportiva, uma deriva que naturalmente afeta, e muito, os clubes portugueses. Uma sugestão que continuará a cair em saco roto, até que os amantes da essência do desporto em causa o comecem a boicotar através de menores assistências nos estádios, de menores receitas obtidas nas televisões ou de menores audiências mediáticas de todo o tipo.
 
Entretanto, a época em Portugal teve ontem início com uma pouca interessante final da Supertaça vencida em Coimbra (num relvado perigoso e inconcebível!) pelo FC Porto ante o Torreense (1-0), fazendo com que o clube da Invicta assumisse a liderança de troféus oficiais historicamente conquistados (88 contra 87 dos autoproclamados “encarnados” e 57 dos pretensiosos “lagartos”) – que seja o prenúncio de uns meses de alegrias, mesmo sem sabermos ao que o “mercado” nos vai obrigar a todos e cada um...


O ALVO A ABATER

 

(Sim, os acontecimentos de Ceuta são trágicos, mais trágica ainda é a ausência de perspetivas para aqueles jovens marroquinos que cederam à sedução das redes sociais que, ardilosamente, lhes transmitia a ideia de que se abriram uma oportunidade no minúsculo território de Ceuta e sabe-se lá uma via para chegar a outros sítios. Sedução tão poderosa que os fez arriscar a vida, mais de sessenta assim morreram, nadando cerca de meio quilómetro para chegar em massa e surpreender as autoridades. Tudo isto é trágico, assim como é lamentável a reação de alguns países europeus. Mas, este Vosso Amigo, nada propenso a interpretações cabalísticas, não pode deixar de reconhecer que neste caso há uma convergência de situações, que são objetivas e não simples produtos da imaginação. Enumeremos alguns dos factos que me conduzem a essa conclusão. Marrocos está numa deriva próisraelita, com aproximações aos EUA de Trump sobretudo devido à posição americana quanto à Frente Polissário. O ideário MAGA está, por sua vez, apostado em desmantelar tudo o que aos seus olhos seja interpretado como radicalismo de esquerda, sobretudo porque lhes interessa associar os democratas mais progressistas a essa chancela, reinventando o fantasma do comunismo que os Republicanos sempre acionaram quando se sentem apertados nas próximas eleições. O governo de Espanha liderado por Pedro Sánchez, sobretudo por via do processo de regularização de cerca de quinhentos mil imigrantes ilegais existentes em Espanha que conseguiu politicamente implementar, começou a ser olhado com desconfiança e agressividade por Trump e seus parceiros. Sánchez tem replicado na mesma moeda e tem emergido como o líder europeu que mais tem batido o pé à prepotência americana.)

A imagem disseminada por todo o mundo de cerca de sessenta mil marroquinos a chegar às praias de Ceuta corresponde à necessidade irreprimível do movimento MAGA de mostrar ao mundo o que é que o presumido radicalismo de esquerda significa em termos de posições favoráveis à imigração. Toda aquela operação de corrida de natação para o desconhecido não teria sido possível sem a indiferença cúmplice das autoridades marroquinas. Apesar do extremo cuidado diplomático com que as autoridades espanholas depositaram as suas críticas não nas autoridades marroquinas, mas nas redes de tráfico humano a operar a partir de Marrocos, isso não apaga a indesculpável complacência com que as autoridades marroquinas assistiram à debandada em massa dos seus jovens à procura de um futuro. Claro que, mesmo considerando que quase imediatamente a grande maioria dos que chegaram com saúde à costa de Ceuta foram reencaminhados para a fronteira com Marrocos, lá tivemos a sacrossanta comunicação pública do presidente da Câmara Municipal de Ceuta e do líder do PP Nuñez Feijoo zurzindo em Pedro Sánchez e pintando a figura de que Ceuta está ainda invadida por imigrantes famintos, doentes e descoroçoados pela ilusão que lhes foi criada.

Para complicar a situação criada e adensar a confusão propensa a toda a série de aproveitamentos políticos, o Supremo Tribunal de Justiça espanhol, que manifestamente não é favorável ao governo de Sánchez, resolver produzir um acórdão que versa sobre o seguinte: “O Tribunal Supremo espanhol anunciou a 08 de julho que interpretou a disposição da Lei de Estrangeiros sobre rejeição de imigrantes ilegais na fronteira ("devoluções a quente") como aplicável apenas quando o migrante transpõe "elementos de contenção" física, como saltar uma vedação. Como não existem barreiras físicas no mar, a quem entra a nado em Ceuta (ou no enclave de Melilla) deve aplicar-se o procedimento de devolução ordinário - com direito a entrevista e possibilidade de pedido de asilo - sem procedimento sumário de rejeição na fronteira.”

Vá lá saber-se que motivos levaram o Supremo Tribunal de Justiça espanhol a reafirmar esta posição neste mês de julho. Sem surpresa, o ACNUR admitiu recentemente que a decisão judicial espanhola pode ter estimulado o afluxo em massa de imigrantes a Ceuta. Temos assim um caldo de fatores verdadeiramente explosivo. Apesar do regresso também em massa de grande parte dos recém-chegados, o objetivo central foi alcançado. Aquelas imagens de invasão a nado de jovens marroquinos foram disseminadas por todo o mundo e tê-lo-ão sido também nos EUA e esse era o objetivo. Simultaneamente, as extremas-direitas europeias xenófobas deliciaram-se com as mesmas imagens, adensando a pressão sobre o governo espanhol, apesar de nem um imigrante ter entrado no espaço Schengen.

O verdadeiro alvo a abater é Pedro Sánchez, visto como o derradeiro baluarte da Europa (saúda-se a pronta reação do governo da Irlanda a apoiar o governo espanhol) que bate o pé à intromissão americana nos destinos europeus. Sánchez tem muitas culpas noutro cartório, o da corrupção, e será com toda a probabilidade por essa vulnerabilidade que será apeado do poder, seja em eleições no seu tempo legal, seja antecipadas se a degradação política da sua coligação “frankenstein” se agravar para lá do suportável. Mas neste caso, foi o exército de reserva de jovens marroquinos à procura de um futuro mais promissor que foi manipulado para a mais estranha prova de natação dos últimos tempos e provocar a imagem desejada do caos a bater à porta da União e do Espaço Schengen. Carne humana para canhão a servir de arma de guerra ideológica. Esta é a vergonha do nosso tempo.