
(As
aleluias já deram um ar da sua graça em Seixas e o verde sublime dos carvalhos
está também a tomar forma, o que me indica que a primavera está aí à porta a
apelar que não resistamos ao seu encanto libertador, por mais que o contexto de
guerra e indeterminação nos puxe na direção contrária. Sem grande vontade para
me embrenhar à secretária em questões de trabalho que aguardam resolução metodológica,
afinal é fim de semana, refugio-me em algumas notas para mim próprio, centradas
na decisão de apresentar ou não uma comunicação, com elaboração de paper
correspondente, à Conferência Anual da Associação Portuguesa do Desenvolvimento
Regional, da qual sou um dos sócios mais antigos, que se realizará em julho
próximo no Politécnico do Cávado. Devo confessar que já não tenho
pachorra, nem tempo disponível, para elaborar uma aprofundada investigação
empírica sobre um determinado tema de política regional, sobretudo porque os
cada vez mais exigentes trabalhos de avaliação de políticas públicas têm
suscitado a necessidade de fortes investimentos metodológicos, que não são mais
do que outras formas de investigação aplicada. Por isso, nas tais notas que
designei de reflexões para mim próprio está mais presente o propósito de
apresentar uma comunicação que traga reflexão às políticas regionais, hoje
completamente perdidas na forte dependência dos fundos europeus, facto agravado
até fins de 2026 com a intensa pressão de execução do PRR. É nessa direção que
organizo o post de hoje, que interpreto como um guião possível para a
elaboração de uma comunicação para julho próximo, organizando algum trabalho de
pesquisa que será sempre necessário concretizar.)

Nestas coisas,
existe sempre uma ideia central ou um título a germinar. É assim também neste
caso. Posso descrever a ideia deste modo, em jeito de interrogação:
Como promover equilíbrios territoriais num
universo de políticas regionais (de inovação e competitividade) dominadas pelo
princípio económico dos rendimentos crescentes?
Desagreguemos
então esta ideia central em temas parcelares.
O estado da arte
da opinião pública mais informada é hoje caracterizado por uma preocupação
sonante com os equilíbrios territoriais no continente, que já há algum tempo
não era sentida. O que é em si próprio um facto muito positivo.
Vários fatores
contribuíram para este aparente ressurgimento dos princípios da equidade
territorial.
Os fenómenos dos
incêndios nas suas sucessivas manifestações de impotência de resposta e as mais
recentes intempéries permitiram olhares diversos sobre o território continental
e sobre a sua fragilidade intrínseca. Esses novos olhares foram claramente além
da velha dicotomia litoral-interior. Mostraram, pelo contrário, uma teia
complexa de novos desequilíbrios e vulnerabilidades que não se limitam à
chamada baixa densidade do interior mais longínquo. Numa linha de reflexão que,
sem falsa modéstia, acho que foi pioneira na comunidade de práticas do
desenvolvimento regional, mostrei que esses desequilíbrios e vulnerabilidades se
observavam também em territórios mais densos, mas desordenados e pobres, nas
imediações das grandes concentrações litorais. Quis também a ironia do destino que
a descoberta generalizada destas novas vulnerabilidades acontecesse em
simultâneo com um período de fortes perturbações na aglomeração metropolitana
de Lisboa (problemas na saúde, na educação, na habitação, na pobreza urbana)
que dificilmente poderão ser dissociadas da incapacidade organizativa existente
para lidar e gerir níveis tão elevados de concentração de pessoas e de
atividades.
Esta combinação
virtuosa para o ressurgimento dos princípios de equidade (equilíbrio) territorial
tem conduzido a diferentes tomadas de posição públicas sobre a necessidade de
um maior reequilíbrio territorial do investimento público (e da organização da
máquina do Estado, algo de mais difícil concretização). Entre tais posições
destacou-se mais recentemente o Círculo de Estudos do Centralismo (com sede em
Miranda do Douro), hoje presidido por Carlos Tavares (mas em que pontuam nomes
como Arlindo Cunha e Miguel Cadilhe), que, além de manifesto sobre essa
necessidade de maior equilíbrio territorial do investimento público, organizou
na FEP a sua 1ª Conferência Anual, que teve algum eco na comunicação social. No
mesmo sentido, alguns jornalistas como Ana Sá Lopes, Daniel Oliveira, David
Pontes e Manuel Carvalho, entre outros, têm escrito artigos que situam também o
tema, apresentando-o até como o elemento essencial da tão propagada e sempre adiada
reforma do Estado.
Não estou a
sugerir que esta dinâmica de opinião pública seja suficiente para conduzir ao
sobressalto nacional necessário. Mas é importante que ela aconteça, pois a
crítica da lógica de alocação territorial do investimento público é um processo
duro, que mexe com princípios adquiridos (como por exemplo o hub de transporte
aéreo de Lisboa) e que, por isso, existe sucessivas vagas de espírito crítico.
Mas a ideia
central que estrutura o meu argumento para uma possível comunicação à
Conferência da APDR é que este ressurgimento (em si valioso) acontece ao mesmo
tempo que, em matéria de política regional, designadamente a que é financiada
por fundos europeus, está instalado um paradigma que colocou no centro da
política regional as políticas de inovação e de competitividade. Ora, sem
querer ser desmancha-prazeres, estas políticas desenvolvem-se num contexto que
os economistas costumam designar de rendimentos crescentes. O que é que
significa este palavrão? Significa que, por muito e mais esforço que possamos
fazer no sentido de mitigar esses efeitos, a verdade é que tais políticas
tendem a favorecer e a reforçar massas críticas organizacionais e de recursos
já existentes. Por outras palavras, são as concentrações de recursos de I&D
e de práticas de inovação já existentes que tendem a beneficiar mais das
políticas de apoio inspiradas por lógicas de inovação e competitividade.
Existe aqui
obviamente matéria de pesquisa empírica necessária para demonstrar que tem sido
assim que tem acontecido. Basta por exemplo seguir com atenção a implementação no
PT2020 e agora no PT2030 das estratégias regionais de especialização inteligente
para compreender como a lógica dos rendimentos crescentes se tem reproduzido.
Daí o título-ideia
proposto no início desta reflexão. Como mitigar esta inevitabilidade, a partir
do momento em que nas políticas regionais os objetivos de equidade territorial
foram hierarquicamente suplantados pelos de inovação e competitividade?
A resposta a esta
questão abre um novo capítulo na possível comunicação a realizar. Como organizar
a política de investimentos públicos para ajudar a contrariar essa tendência de
inevitabilidade que os rendimentos crescentes trazem consigo?
Obviamente que
esse tema dá para um novo post, mas há pelo menos uma ideia central que
ressalta desde já. Para operar a mitigação de efeitos pretendida, há que romper
com a ideia de atomização do investimento público. O que traz consigo uma
consequência óbvia: não é a dimensão e âmbito do investimento municipal que
serão suficientes para mitigar os efeitos do tal princípio instalado dos
rendimentos crescentes.
Retirem daqui as
consequências necessárias.
Mas isso será
tema de outros posts ou da tal comunicação hoje abordada.