É compreensivelmente frequente ouvirmos crescentes exclamações de surpresa e perplexidade da boca de muitos cidadãos do mundo aturdidos pelo completo nonsense que marca a atual conjuntura internacional de destruição pelos EUA da ordem liberal que vigorava desde finais da 2ª Grande Guerra Mundial. Exclamações a que tendem a acrescentar o gravoso elemento de tal acontecer num quadro democrático, i.e., após uma vitória eleitoral do presidente Trump, o que reforça o “como é possível?” que sempre acompanha as preocupadas trocas de impressões sobre a matéria.
Em tempos passados, o criticismo em relação às peculiaridades dos americanos (ou, se quiserem, do americano médio) integrava vários tipos de considerações do foro mais ou menos factual: as origens históricas daquele povo, o seu autocentramento e nacionalismo essencial, a enorme diversidade observável no território sob inúmeros pontos de vista e por aí adiante. Havia mesmo quem salientasse que apenas uma fração mínima dos congressistas e/ou senadores americanos possuíam passaporte (o que era explicado por muitos pela alegada desnecessidade que ostentavam de saírem de um país que não apenas dominava a cena económica e geopolítica mundial como também lhes preenchia todos os requisitos exigíveis em termos de modo de vida e de ação política).
Recentemente, passaram-me pela mão dados que encaixam bem nas elucubrações precedentes. Por um lado, e recorrendo a informação recolhida pela OCDE (“Program for the International Assessment of Adult Competencies”, PIAAC) sobre a literacia adulta nos seus diversos países membros, a “Beyond Basics” veio chamar a atenção para o facto de um número gigantesco de cidadãos americanos (54%, equivalentes a cerca de 130 milhões) estar dotado de competências baixas em termos de literacia, sendo mais de 1 em cada 5 os que se situam em níveis básicos (entre a instrução primária e o ciclo preparatório) – e logo analistas atentos vieram trazer à colação a mais pertinente das questões resultantes (why does nobody talk about this?). Ao que acrescem as diferenças regionais (por estados – ver primeiro mapa abaixo) que à partida quase apostaria terem algum grau de correlação com o comportamento eleitoral que tem vindo a ser revelado. Por fim, e observando ainda o ranking apresentado pela OCDE, é de constatar o modesto posicionamento dos EUA no seio de tal amostra (18º em 31 países), o qual é tão mais assustador quanto decorre do que surge visivelmente expresso no quadro mais abaixo em que as desigualdades internas de competências (medidas pela dispersão da respetiva distribuição, concretamente pela distância entre o percentil 90% e o percentil 10% da performance dos cidadãos adultos) são nos EUA as mais significativas de todos os países considerados.
E, nem de propósito, foi Paul Krugman a vir colocar a cereja no topo do bolo num dos artigos que agora publica quase diariamente no “Substack” (no caso “Dreaming of a Blue Texas”). Escreve o Prémio Nobel: “o rendimento per capita não é provavelmente o maior fator determinante das diferenças na orientação política entre os estados. Os níveis de escolaridade são quase certamente muito mais importantes. De facto, existe uma relação surpreendentemente forte entre a percentagem da população de um estado com mais de 25 anos com um grau de bacharelato ou superior e o modo como ela votou em 2024.” Aqui está confirmada a minha intuição que acima refiro, com o gráfico que encerra este post(“Education v. Trump”) a traduzir a dita evidência e a assim contribuir para elucidar parte da surpresa e perplexidade com que estamos cada vez mais confrontados.




















