segunda-feira, 25 de maio de 2026

O DINAMISMO EMPRESARIAL NORTENHO VISTO DA GALIZA

 

(A atividade económica do Norte de Portugal está sempre em permanente observação do lado da Galiza, o que contrasta fortemente com a indiferença generalizada com que a atividade económica galega é seguida do lado de cá. Esta divergência de atenção e acompanhamento tem razões várias. Em primeiro lugar, a inexistência em Portugal de imprensa regional ativa e pujante, ao contrário da dinâmica da comunicação social na Galiza, acompanhando a autonomia, explica que o tema da economia transfronteiriça e inter-regional seja uma constante na Galiza e um deserto por cá. Em segundo lugar, há o desequilíbrio de mercado a influenciar a situação. O mercado espanhol é para nós uma extensão do mercado interno, mas trata-se da Espanha como um todo, não apenas da Galiza. Por outro lado, uma parte significativa do aparelho industrial galego tem utilizado o Norte de Portugal quer como mercado de exportação, quer como espaço de deslocalização de investimento direto, para não falar das relações de subcontratação existentes. Em terceiro lugar, há o tema sensível do solo industrial atrativo, infraestruturado e a baixo preço que municípios transfronteiriços em Portugal, com destaque para Valença e Vila Nova de Cerveira, que sempre foi uma atenção permanente da imprensa galega, incomodada com a deslocalização de empresas galegas que essa atratividade de localização, suscita. É, assim, recorrente que a imprensa galega coloque em lugar de destaque evidências do dinamismo empresarial nortenho, sobretudo em casos em que a subalternidade económica galega seja uma realidade. Sabemos que a imprensa regional galega, toda ela organizada para se ajustar ao mercado das diferentes cidades e províncias, tem um impacto político assinalável. As referências ao dinamismo empresarial nortenho, quando ele se destaca do galego, visam também essa repercussão política, acicatando as autoridades e as forças políticas regionais a refletirem sobre a realidade dos números.)

É esse o caso frequente da VOZ DE GALICIA, onde frequentemente podemos recolher evidência do impacto que os acontecimentos económicos nos territórios fronteiriços e no Norte em geral tendem a provocar na imprensa galega. É assim frequente a menção ao dinamismo da procura do aeroporto de Sá Carneiro, que contrasta com a atomização dos aeroportos galegos e é o caso também de tudo que diga respeito ao investimento empresarial. Curiosamente, ou talvez não, a referência a iniciativas concretas de cooperação entre as duas regiões não abunda, o que não significa de todo inexistência das mesmas.

Com base em informação proveniente do EUROSTAT, a VOZ DEGALICIA dedica hoje na sua edição online (estranhamente as versões em papel dos jornais galegos e espanhóis deixaram praticamente de ser distribuídas em Portugal) a sua atenção ao diferente dinamismo de criação de novas empresas, apresentando por um lado a comparação Galiza-Norte de Portugal e, por outro, a situação europeia relativamente a esse indicador. Este calcula a taxa de crescimento de novas empresas face à massa de empresas já existentes, que é de facto um indicador.

A comparação com a Galiza é — nos de facto bastante favorável, como o ilustra o gráfico que abre este post. Essa superioridade é genérica e estende-se praticamente a todos os setores de atividade considerados, mesmo em domínios em que julgaríamos que a superioridade galega existisse, como seria o caso das atividades financeiras e de seguros.

Este dinamismo comparativo vale o que vale, mas funciona como um alerta sobre o dinamismo de criação de empresas que vai acontecendo a norte e que justificaria uma maior atenção da política industrial e de inovação a nível nacional.

Mas onde a informação é mais saliente é quando se compara a evolução do rácio de criação de novas empresas face à massa de empresas existentes em toda a Europa. Aí a novidade do dinamismo nortenho é mais retribuidora, a incidência do encarnado das taxas de crescimento de 15% ou mais ressalta do gráfico, o que são boas notícias.

Claro que o completo convencimento sobre a bondade deste dinamismo exigiria que analisássemos a sustentabilidade do mesmo, aferindo por exemplo da intensidade em inovação com que este dinamismo se concretiza e das melhorias de desempenho de gestão e organização com que as novas empresas se apresentam face às existentes. Será de esperar que, com a melhoria de qualificações de quem se perfila no mercado de trabalho para apoiar estas novas empresas em termos de recursos humanos, essa maior sustentação possa estar a acontecer. Mas são conhecidas as forças de inércia estrutural que se têm oposto a essa possibilidade, mas a continuidade do dinamismo agora observado tenderá a enfraquecer essa inércia.

É curioso como o fascínio dos galegos com o que vai por cá acontecendo em termos económicos e de investimento empresarial acaba por colocar a pensar melhor a nossa própria evolução.

 

domingo, 24 de maio de 2026

VIVA O TORREENSE!

Ainda quase a quente, aqui venho saudar a vitória no Jamor do Torreense sobre o Sporting na final da Taça de Portugal. Uma vitória inédita para um clube da 2ª Divisão que assim conquista também o direito de participar na Liga Europa da próxima época e relega o Benfica para as pré-eliminatórias dessa mesma competição. Os golos do maliano Zohi e do cabo-verdiano Stopira fizeram a diferença, sendo que a maturidade da equipa de Torres Vedras e a falta de ideias e de condição física dos de Rui Borges – “jogam pouco”, diria Varandas do alto da sua grosseira sobranceria... – não permitiu aos favoritos impor a sua maior valia e o peso financeiro do seu plantel e os “lagartos” acabaram vergados neste final de tarde profundamente inesperado em que o mérito esteve todo do lado das gentes de Torres, do treinador Luís Tralhão e dos dezassete jogadores que entraram em campo vestidos de grená (talvez com destaque para o guardião brasileiro Lucas Paes, para o defesa-esquerdo espanhol Javi Vásquez e para o médio brasileiro Léo Azevedo). Parabéns a Torres Vedras e ao Torreense, também por terem rapidamente tirado da primeira fila do camarote os desconsolados presidentes do Sporting e da Câmara de Lisboa que vinham preparados para uma festança e saíram rapidamente e sem glória pela porta dos fundos.

CRÓNICAS ANUNCIADAS

 

(Se não fora o relatório da Presidência Aberta patrocinado pelo Presidente da República sobre a resposta às intempéries no distrito de Leiria, a situação política interna estaria numa modorra pré-estival, que esta aceleração do calor está a provocar. Um aspeto positivo destes dias tem sido o ofuscamento mediático do ministro Leitão Amaro. Compreende-se, por mais controlador que alguém seja, os cunhados não se escolhem e o de Leitão Amaro navegou alegadamente por águas mais turvas e negócios menos claros, o que levou o ministro a reivindicar que não pode ser culpabilizado pelos familiares mais próximos, sobretudo quando o seu próprio nome não surgiu envolvido em nada de grave, a não ser a de promotor das ações políticas para agradar à direita retrógrada do Chega. Mas a verdade é que mediaticamente se apagou depois do incidente, o que é uma benesse para os nossos ouvidos, cansados do seu frenesim para aliviar as costas de Montenegro. Pelas bandas da Administração Interna e do SIRESP a situação está instável, com a demissão do secretário-geral adjunto do MAI, com acusações graves ao responsável pelo SIRESP. Nada que seja novidade, pois a história do SIRESP está por contar com todos os pormenores de rigor e transparência, já vem dos governos de António Costa e o atual governo esteve longe de clarificar a situação. Noutro plano, a saída invocando razões do foro pessoal de Tiago de Oliveira da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Florestais (AGIF), após oito anos, como o tempo passa, de tentativa empenhada de colocar um pouco de ordem na gestão dos fogos florestais coloca interrogações relativamente ao futuro da Agência, embora o benefício da dúvida deva ser dado ao novo presidente, que pertencia já à Direção anterior. Mas esperar encontrar novidade e estranheza no relatório crítico da resposta governamental às intempéries em Leiria só é compreensível com um grande desconhecimento do modo como a organização territorial da governação em Portugal implica riscos sérios de descoordenação da ação no terreno. Esses riscos emergem na perspetiva da coordenação horizontal entre diferentes serviços situados ao mesmo nível de decisão da administração pública, seja da coordenação vertical, envolvendo os poderes e competências de decisão de nível central, regional desconcentrado e local descentralizado.)

Não tem havido coragem política de “pegar o touro pelos cornos”, não percebendo que as alterações que têm sido introduzidas no sistema, com relevo para a esperança depositada na nova configuração das CCDR, são meros arranjos de biscates, sem soluções estruturais profundas. A solução engendrada pelo governo de António Costa e Eduardo Cabrita nunca foi a resposta aprofundada que o problema exigia e a sua continuidade com pequenas alterações pelo governo de Montenegro mais acentuou em meu entender a fragilidade da solução. Fragilidade que pode medir-se pela questão fundamental: aumentou ou melhorou a capacidade de coordenação da atividade governativa nos territórios NUTS II? Penso que ninguém de boa-fé e de mente aberta responderá positivamente esta questão. Já não trabalho há alguns anos em matérias com forte proximidade às CCDR, mas pelo que vou escutando aquelas prestigiadas casas estão ainda a organizar-se para acolher as funções que lhes foram adicionalmente cometidas.

A cultura de “silos” ainda predominante em muitos ministérios e respetivas estruturas orgânicas reduz praticamente a zero as evidências de cooperação de recursos entre serviços públicos. Confundir essa colaboração/cooperação com os múltiplos órgãos e comissões concebidos para exercitar essa cooperação é grave e não tem evidência em termos de resultados. Quem faz avaliação de políticas públicas como eu percebe isso nos mínimos pormenores.

Por isso, estranho (de meu conhecimento, posso estar enganado) que a experiência da AGIF, criada precisamente para promover a gestão integrada dos fogos florestais, nunca tenha sido avaliada em profundidade.

Assim sendo, a descoordenação, por demais evidente e largamente mediatizada nos primeiros dias de combate à intempérie em Leiria, corresponde a uma crónica anunciada que o relatório patrocinado pelo Presidente da República teria obviamente, sem surpresa, de registar. A atuação eficaz e integrada nesses contextos, fortemente exigente em processos de cooperação de recursos e assunção de práticas colaborativas, só por mero milagre de transformação das consciências públicas poderia ter ocorrido. A densidade de intervenção política que, no contexto nacional a gestão integrada das intervenções requer, é incompatível com o estilo de governação que por agora temos, mais propensa a gerir a espuma dos dias e o imediato, do que trabalhar consciente e persistentemente nas soluções de integração. Os resultados dessa ação consciente e densa não se medem pelo impacto mediático das apresentações.

Reconhecer esta realidade é essencial para depois, e só depois, debater se a regionalização anunciada na Constituição portuguesa constitui ou não uma solução para o problema que afeta estruturalmente a nossa intervenção pública. Até porque a regionalização, como qualquer outra reforça da organização territorial do Estado, tem de ser praticada no concreto para se avaliar se as condições colaborativas e de cooperação de recursos melhoram. Existe, pois, uma práxis da regionalização que é necessário consumar para se compreender qual o seu real efeito no problema central da administração pública portuguesa, que é a baixa densidade colaborativa e de cooperação de recursos entre os diferentes serviços e níveis da administração.

Devo avisar os meus mais fiéis leitores que esta compreensão do problema não me tem granjeado grande popularidade entre os defensores da regionalização, nos quais tenho aliás amigos próximos. Vale o que vale, mas é um facto.

 

sexta-feira, 22 de maio de 2026

ISRAEL EM VISÍVEL DESCRÉDITO

(Carlos Latuff, https://x.com) 

Itamar Ben-Gvir é atualmente o ministro da Segurança Nacional de Israel. Mas muito mais do que isso ele é o líder de uma extrema-direita radical, um autêntico carrasco do povo palestiniano, um criminoso condenado e o homem que tem Benjamin Netanyahu – que, como temos visto, está longe de ser um passarinho... – literalmente acorrentado num governo em que o seu apoio é indispensável. Bem-Gvir é hoje o nosso “herói”, só para que aqui conste o nome de um autêntico monstro dos dias que correm. As suas façanhas são incontáveis, quer por serem muitas quer por serem abaixo de mínimos de decência, sendo que o vídeo que exibiu sobre a forma desumana e afrontosa como tratou os ativistas da flotilha que se deslocava para Gaza é apenas mais uma de tantas. Desta vez, a opinião pública internacional exibiu o seu desagrado em voz relativamente elevada – até tivemos o nosso Montenegro a defender uma suspensão parcial do acordo com Israel! – e assim vieram ao de cima vários contributos no sentido de poder ser denunciada com alguns possíveis efeitos práticos a violência inaudita, que roça claramente o genocídio, com que Israel vem agindo no Médio Oriente. Quem diria que tudo isto proviria dos representantes legítimos de um povo judeu que tão sacrificado foi pelo nazismo há pouco mais de oitenta anos?




(Yonatan Popper, https://www.newyorker.com)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

O PORTO TAMBÉM TEM DESTAS COISAS...

Lembram-se quando circulavam pessoas na rua com um autocolante que dizia “Não tenho culpa, não votei AD”? Já foi há uns anos largos mas a prática sempre me pareceu uma boa forma de produzir uma crítica cirúrgica ao governo instalado e suas políticas. Pois ao ler a notícia de que Pedro Duarte estará prestes a reduzir a vereação do PS na Câmara Municipal do Porto, passando-a dos seis eleitos nas listas do partido para quatro por via de dois refratários/arrependidos (um logo concretizado à saída das eleições, a outra alvo de um “’namoro’ que se prolonga há meses e poderá estar em vias de se concretizar”), aquela velha prática veio-me à cabeça. O que me leva a sentir-me tentado a aqui vir declarar publicamente, em nome de uma lógica de vergonha alheia múltipla e multifacetada, que não tenho culpa porque não votei PS nas últimas eleições autárquicas – e tal assim foi não só mas também porque a lista proposta por um Manuel Pizarro incompreensivelmente néscio e deslumbrado não me oferecia garantias de cumprimento de mínimos olímpicos para a respetiva validação; sobretudo por duas razões pessoalizadas naqueles dois candidatos refratários/arrependidos.

 

O “Público” tem vindo a referenciar ao longo dos anos várias dimensões das carreiras dos dois candidatos em causa pela sua referida mudança de camisola. Trata-se, afinal, de uma espécie de gestores, sendo um mais cultural em sentido estrito e outra igualmente cultural mas mais “pau para toda a colher”. A praça pública e/ou a vox populi integram episódios de vária ordem com epicentro nos mesmos – em termos recentes, mas longe de serem exclusivos: “Jorge Sobrado foi acusado pelo Ministério Público de ter violado as leis da contratação pública quando era vereador da Câmara de Viseu, com o objetivo de favorecer um grupo empresarial privado” e “vai responder pelos crimes de prevaricação e participação económica em negócio”; Francisca Fernandes, segundo uma peça da “Sábado” e uma crónica de João Miguel Tavares a ela ligada (“Francisca Carneiro Fernandes e os conflitos de interesses”) “adjudicou ao marido €115.069 em contratos [sete ajustes diretos] quando era a presidente do Teatro São João”.

 

Mas nem foram estes e outros incidentes potencialmente judicializáveis que sobretudo determinaram aquela minha decisão cidadã, antes sim a perceção de questões comportamentais indiciadoras do modo de ser e estar dos ditos na profissão e na vida. As pequeníssimas resenhas das suas deambulações mais recentes que abaixo se reproduzem a partir de títulos do “Público” ilustram nas entrelinhas o que tem estado em causa, designadamente através do jogo de aproveitamento pouco escrupuloso de Sobrado perante a ofuscada dupla Rui Moreira/António Cunha e da insinuante exploração por Francisca dos seus alegados atributos perante outra dupla improvável (Rui Moreira/Pedro Adão e Silva); deixando de lado as diatribes de Sobrado em Viseu e as voltas que foi trocando ao malogrado Almeida Henriques, bem assim como aquelas que fizeram de Francisca uma girl do tolerante Moreira em tudo quanto mexia na Cultura do Porto para acabar na administração da “Go Porto” depois de uma passagem pelo CCB, o que resulta de mais lamentável politicamente é o modo como o PS e Pizarro se deixaram envolver nesta teia pardacenta de gatos traiçoeiros.


Uma palavra final para Pedro Duarte (PD). Há que reconhecer a habilidade com que tem gerido este aumento da sua representatividade no executivo camarário do Porto, nada se lhe podendo assacar quanto aos “namoros” que tem feito e ao respetivo sucesso. Ainda assim, PD discute política semanalmente na CNN, no quadro de um programa designado por “O Princípio da Incerteza” mas que já se intitulou “A Quadratura do Círculo”, e lá vai levando a água ao seu moinho através de um jogo de palavras tipo “uma no cravo e outra na ferradura” que o começam a colocar como passível de uma leitura indefinida ou até assética. Claro que o presidente do município não quer, nem pode, romper ou contrariar significativamente Montenegro – noblesse oblige... Mas a sensação que tenho é a de que PD vai ter, mais cedo do que tarde, de assumir posições firmes e próprias para que a sua colagem ao governo não resulte em perda de espaço junto dos seus concidadãos eleitores – e talvez a dimensão regional pudesse ser uma boa oportunidade para empunhar um estandarte que é popular e não afronta em excesso os medos do líder laranja. Uma matéria a revisitar aqui, talvez um pouco mais lá para a frente.