segunda-feira, 2 de março de 2026

IRÃO: DA CONVERGÊNCIA PERFEITA DO ATAQUE À CORDA BAMBA DAS IMPLICAÇÕES GEOPOLÍTICAS FUTURAS

 

(À medida que vão sendo disponibilizados novos elementos sobre o ataque dos EUA e Israel ao Irão e as respostas perpetradas por este último, com a novidade das primeiras baixas entre americanos e israelitas, vai sendo possível reunir mais interpretações sobre o que terá corrido melhor no ataque de surpresa da assustadora dupla Trump-Netanyahu. Tal como aconteceu com o episódio Venezuela, também neste caso me deixei levar pelo convite inspirador de Bradford DeLong, guiando-me para a interpretação de um antigo elemento da CIA, que analisou com algum pormenor a convergência, que alguns consideram perfeita, dos fatores que conduziram à eliminação do Líder Supremo do Irão, algo que considerávamos inviável uns tempos atrás. O dito analista chama-se como se recordam os mais atentos a este blogue Michael D. Sellers e pareceu-me que sabe do ofício, por isso recorro de novo à sua interpretação para tentar compreender a tal convergência dita perfeita. Só alguém com a experiência e frieza de trabalho numa agência de inteligência pode dar-se ao luxo de pedir-nos que consigamos abstrair-nos da ilegalidade da intervenção à luz do direito internacional para nos concentramos na fria análise das condições que terão determinado a tal convergência perfeita …)

Sellers começa por assinalar a novidade do ataque matutino (o ataque israelita terá começado às 7.30 hora de Teerão), contrariando a prática dos raids noturnos, concebidos em regra para provocar maior desorientação de quem é agredido. Existe evidência de que pelas 9.40 hora de Teerão estava reunido num único edifício um conjunto muito elevado de oficiais e outros políticos iranianos, estimando-se que Khameini estivesse num outro edifício contíguo ao que acolhia o referido conjunto de oficiais. Ora, segundo Sellers, o conjunto de mísseis lançados por israelitas e americanos terão impactado esses edifícios cerca de duas horas e cinco minutos após o início do ataque israelita. Quer isto sugerir que a opção pela operação matutina terá sido justifica por informações relativas à referida concentração de oficiais e líderes religioso, estimando Sellers que a reunião dos iranianos tenha sido ligeiramente adiantada (testemunho da Reuters), agindo a informação israelita e americana em conformidade. O que parece relevante assinalar é que os mísseis sobre a concentração de oficiais e líderes religiosos que levou à eliminação de Khameini e elementos próximos foram integrados num vastíssimo conjunto de ataques sobre todo o território iraniano espalhando a confusão e a descoordenação.

A dimensão do complexo em que os oficiais iranianos estavam reunidos à hora do ataque, independentemente de estar ou não organizado em forma de bunker, é de tal envergadura que a sua identificação se torna extremamente facilitada em qualquer imagem de satélite. Mas o facto do espaço albergar diferentes edifícios terá dado origem a uma programação multi-objetivos de impacto, a que o ataque terá recorrido com a ajuda do sofisticado armamento que foi utilizado nesta ocasião.

A surpresa tática do ataque foi, tudo o indica, mortífera e ajuda a perceber que a reunião iraniana não tenha sido desconvocada, muito provavelmente porque o impacto foi assegurado sem qualquer ensaio ou aviso inicial. Desconhece-se se operações de guerra cibernética foram utilizadas para reduzir a probabilidade de antecipação ou alerta. Tudo isto adensa a perplexidade causada pela estranha decisão de reunir tantos e importantes elementos do regime teocrático num edifício que pelos vistos não tinha as características de bunker intransponível.

Mas se a convergência perfeita da operação tem a sua explicação consistente, já o mesmo não poderá ser dito quanto à antecipação do modo como o Irão decapitado do seu líder Supremo iria ripostar. Daí o meu título “da convergência perfeita á corda bamba das implicações”.

A resposta dominante do Irão dirigiu-se aos países do Golfo que acolhem bases americanas, mas tudo indica que os alvos não terão sido apenas os alvos militares dessas bases. Isto pode ser interpretado como um sinal de desespero dos iranianos, procurando que esses países, mais ou menos próximos, dos EUA ou simplesmente neutrais sejam envolvidos no conflito, escalando a todo o Golfo a guerra iniciada com os múltiplos ataques a Teerão. Alguém na SIC Notícias dizia que, por exemplo, no Bharain, a comunidade xiita é muito relevante, contribuindo assim para incendiar o Golfo e imediações e, com isso, atingir com estrondo a economia mundial. A fragilidade do Irão parece hoje indiscutível e o êxito do ataque americano-israelita mostrou-o claramente. Essa fragilidade é consistente com a tentativa desesperada de escalar o conflito e assim saltar a neutralidade da aparente indiferença chinesa. Uma coisa parece certa: a eliminação do Líder Supremo não inibiu a resposta iraniana e o alcance estratégico, embora desesperado, da sua reação.

Trump é conhecido por não ter intuição de longo prazo e creio que neste caso cedeu obviamente à pressão de Netanyahu. Estarão os transacionais EUA interessados numa escalada imprevisível no Golfo, alinhando apenas com a tentação de valorização do petróleo americano? Estarão os mais endinheirados países do Golfo interessados em interromper o seu processo de atração de investimento e pessoas, vendendo charme urbano de arquitetura milionária? Será desta vez que o conflito “sunitas versus xiitas” vai ter consequências ainda mais sangrentas do que a guerra Irão-Iraque?

Da convergência perfeita passamos à plenitude da indeterminação. O medo que esta indeterminação possa causar entre alguns dos beligerantes por convicção ou por envolvimento não desejado corre o risco paradoxal de ser um dos únicos fatores a conduzir a um mínimo de racionalidade e paragem das hostilidades.

Continuo a pensar que é demasiado mecanicista a presunção de que as bombas por mais violentas que sejam são suficientes para alavancar, sem presença no terreno, a mudança de um regime teocrático execrável. Assim sendo e perante o caos que pode ser instalado no Golfo pelo desespero desse mesmo regime, não consigo vislumbrar que narrativa poderá Trump continuar a alimentar para prolongar o ataque.

 

MOURÃO RIPOSTA

Confesso que não conhecia nada de Mário Mourão (MM), o atual secretário-geral da UGT, e que não tinha por isso uma ideia muito definida e positiva sobre a personagem. A verdade é que MM me tem surpreendido pela positiva, designadamente pela forma inteligente como enfrentou a arrogância governamental a propósito de uma reforma laboral inesperadamente produzida e contando com o alto patrocínio da CIP. Neste quadro, a verdade é que a UGT foi parte de uma greve geral unitária como de há muito não ocorria em Portugal e prossegue concentrada numa linha de defesa de uma visão própria sobre os interesses dos trabalhadores, por discutível que esta possa ser (e só o é em parte dos assuntos que desalinham a UGT da proposta do executivo e acolhida com aplausos pelas entidades patronais).

 

E é precisamente esse mesmo foco de firmeza e frontalidade que MM exibe na sua entrevista ao “Expresso” do último fim de semana em que responde à letra à de Armindo Monteiro (aqui comentada num post de final do mês passado) – não evita sequer uma referência crítica à operação em negociação entre o Governo e a Confederação Empresarial de Portugal (CIP)segundo a qual o Palácio do Manteigueiro, na Rua da Horta Seca, no coração do Chiado, será cedido mediante condições estranhamente desconhecidas para nova localização da confederação patronal (anúncio do ministro Castro Almeida durante as comemorações dos seus 50 anos) e desenvolvimento de atividades de formação para empresas – um negócio que levanta como principal suspeita a falta de transparência em torno dele, seja em matéria de conteúdo qualitativo, de números envolvidos ou de contrapartidas publicamente obtidas.

domingo, 1 de março de 2026

O ISOLAMENTO DO IRÃO

 


(Era música cantada e conhecida já algum tempo. As alegadas negociações que os EUA estiveram a desenvolver com o Irão tinham um objetivo preciso, construir uma narrativa de fundamentação que o direito internacional e a carta da decrépita ONU não permitem invocar. A interrupção de alegadas negociações para desferir um ataque em toda a linha é prática comum no curriculum de Washington e o que me espanta é a subestimação clara da fragilidade das defesas iranianas em que o regime teocrático de Teerão tem sistematicamente insistido. Concentrar as altas patentes do regime numa reunião, cuja localização seria conhecida dos serviços secretos americanos e israelitas da Mossad, os quais devem naturalmente ter aproveitado as manifestações de rua duramente reprimidas pelo regime para se infiltrarem na sociedade iraniana, é a prova mais provada de que o regime teocrático se confunde com os seus próprios erros e fragilidades. Sem aviação capaz de controlar o seu espaço aéreo, com uma armada cheia de rombos e não sabemos com que qualidade de defesas antiaéreas, Teerão e o vastíssimo território iraniano são um alvo fácil para os ataques americanos e israelitas, que dupla, aliás como se tem verificado nas muito filtradas notícias, de parte a parte, que vamos recebendo. Tenho muitas dúvidas que o real alcance dos ataques americanos e israelitas seja a transformação do regime dos Ayatollas, alavacando uma revolta popular que torne a posição do regime insustentável. EUA e Israel não arriscarão muito provavelmente uma guerra muito prolongada para dar tempo à debilitação do regime, abrandamento da repressão das diferentes forças militares e policiais que enquadram o regime e criação de melhores chances para a movimentação popular gerar uma transição, vá lá saber-se para que rumo. Mas a ideia mais forte que me salta à ideia é a do paradoxo de que quanto mais reagir e mais dê prova de alguma força na resistência, atacando alvos próximos da sua capacidade de fogo, mais o Irão cavará o seu isolamento, que me parece ser neste momento já efetivo e dificilmente reversível. Há muitas maneiras de se perder uma guerra …)

É isto que está efetivamente a acontecer. O Irão ripostou em diversas frentes, menos na que poderia gerar algum embaraço à administração Trump – atingir alguns dos porta-aviões estrategicamente situados nas “redondezas” do Irão, para agilizar o poder de ataque a partir de embarcações. É verdade que Israel continua a ser um alvo, mas outros alvos foram escolhidos. Ao fazê-lo, ou seja, atingindo território de países como o Bahrain, Emiratos Árabes Unidos, Catar, Iraque e não tenho evidência segura se também território da Arábia Saudita, e não apenas visando bases americanas aí implantadas), o Irão envolve grande parte do mundo árabe numa cumplicidade com os EUA e Israel e destrói quaisquer laços de alguma proximidade solidária, já que religiosa ela nunca existiu (sunitas e xiitas sempre se destruíram mutuamente). Por outras palavras, por mais paradoxal que o possamos sentir, a verdade é que ao ripostar (e a natureza dos ataques não reflete o discurso já gasto do regime com ameaças de ataques catastróficos), o Irão está a cavar a sepultura do seu próprio isolamento. Ficam as “proxies” debilitadas e angustiadas dos Huti no Yémen, do Hezbollah e do Hamas, elas próprias em regime de sobrevivência a todo o custo, como companheiros de rota.

Custa, por isso, ver um país de cultura milenária a ser votado ao isolamento mais enfraquecedor por um regime teocrático, incapaz de perceber os desejos de vida urbana e de liberdade de grande parte do povo iraniano. É verdade que continuamos a ver alguns grupos de mulheres de negro chorando a morte do Líder Supremo e pedindo vingança. Mas esses grupos estão longe, muito longe, das majestosas manifestações de negro que acolheram a chegada dos ayatollas ao poder, depois de humilharem os EUA na sua embaixada de Teerão.

E é esta ambivalência de sentimentos que tornam esta situação irrespirável. De um lado, dois líder internamente acossados, Trump e Nethanyau, que se sobrepõem ao direito internacional; de outro lado, um regime teocrático, sanguinário, cavalgando as manifestações mais rudimentares de fanatismo religioso, cavando a sepultura de um povo de cultura milenária e votando-o ao isolamento mais empobrecedor.

Que estranha ordem internacional esta com que a minha geração se confronta!

 

KHAMENEI SUCUMBE AO IMPERIALISMO AMERICANO

(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es) 

Subitamente, mas não inesperadamente, o mundo ficou ainda mais perigoso do que já estava (e já não estava nada de somenos). O ataque ordenado por Trump e Netanyahu ao Irão foi de uma precisão cirúrgica e eliminou muitas altas personalidades do regime islâmico radical que controla o país com mão-de-ferro desde 1979, incluindo o Líder Supremo (Ayatollah Ali Khamenei).

 

A situação internacional complicou-se e ganhou em incerteza fundamental, seja militarmente (os riscos são brutais se o Irão que conhecíamos não for o “tigre de papel” que acabou por se mostrar ser o Iraque de Saddam Hussein) ou nos planos da ordem geopolítica (com a Rússia a ficar numa posição altamente melindrosa a vários títulos, sendo que um caminho de crescente desespero não é bom conselheiro) ou da ordem geoeconómica (com a China a ser a principal potência indiretamente atingida, sendo que os estrategas americanos, que operam ativamente nos bastidores, têm esse objetivo por foco prioritário).

 

Acresce, para tornar a situação potencialmente explosiva como nunca, a situação interna do Irão, onde o descontentamento era largamente reprimido pelo regime mas grassava de modo visível e com um sentido comum e onde agora se corre o risco de movimentações sociais menos estruturadas na perspetiva de uma capacidade para forjarem em tempo útil as lideranças e as articulações programáticas necessárias a uma transição desejavelmente democrática e pacífica. Neste quadro, Trump talvez não desdenhe a hipótese de recorrer a uma entrega fantoche do poder, na pessoa do filho do Xá (que tem feito aparições sinalizadoras da sua existência e disponibilidade) – uma solução que tudo indica só contribuirá para mais uma evolução incendiária na Região, quiçá para desembocar num novo e muito relevante “Estado falhado”. Dito isto, convém lembrar que vivemos uma fase em que nada parece adquirido e em que quase tudo pode ser deitado a perder.

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

IRRESPONSÁVEL A UGT?

Um dos temas que recorrentemente mais se tem mostrado divisivo no espaço público português é o da legislação laboral. Verdadeiramente, e depois de tanta conversa balofa mais ou menos interesseira e ideologicamente dominada, acho mesmo que já ninguém sabe ao certo o peso da mesma na competitividade nacional. Conhecemos, isso sim, os factos e as fases sucessivas atravessadas pela economia portuguesa ao longo das últimas décadas e, nesse quadro, podemos aquilatar razoavelmente da justeza dos equilíbrios que as autoridades governativas e os parceiros sociais vão ensaiando. E sabemos hoje também que já ninguém ousa defender – por indecente e má figura – a ideia de um tecido económico a evoluir num sentido desejável com base em salários competitivos por muito baixos em termos comparados no seio da nossa zona de inserção natural geoeconómica.

 

Vem tudo isto a propósito do pacote de revisão laboral que, à socapa e sem tal ter sido dado a conhecer e sustentado no programa eleitoral da AD, o Governo e a ministra Maria do Rosário Palma Ramalho procuraram impor às organizações sindicais. A reação destas, e designadamente da UGT, foi algo inesperada e a ela se associaram vozes de apoio e de teor incómodo para Montenegro e Ramalho, obrigando-os a meter o rabo entre as pernas e a preparar um recuo em toda a linha cuja dimensão e alcance ainda estão por apurar. Em sua defesa, e procurando salvaguardar algumas “conquistas” que já davam por adquiridas, os patrões e a CIP em especial não têm cessado de explicitar quanta desilusão sentem pela atitude mais dura adotada pela UGT, o que a entrevista de Armindo Monteiro (AM) ao “Expresso” evidenciou descaradamente – chego a ter alguma admiração pelo modo como estes associativos empresariais são capazes de afirmar a mesma coisa e o seu contrário consoante o público com que estão confrontados, eles que são alegadamente os arautos de uma sociedade mais competitiva mas também menos assente em desequilíbrios insustentáveis como são os nossos níveis salariais e algumas flexibilidades instabilizadoras estabelecidas na lei do trabalho.

 

A meu ver, não apenas a escassa margem de manobra do Governo em termos de apoio parlamentar como também a bem presente memória dos anos da Troika – a despeito da aparente contrapartida negativa que foi a “Agenda para o Trabalho Digno”, o que AM qualifica de maior campanha de marketing deste país” e que constituiu mais um dos muitos contributos de António Costa para a paralisação em que mergulhamos durante a sua vigência (até a concertação social embarcou neste logro!) – teriam aconselhado a que o Governo não escolhesse esta área complexa e conflitual para trazer à tona os arremedos reformistas que a sua tática de gestão política casuística largamente impede de terem tradução substantiva. Assim não tendo sido, muito por força da manifesta incompreensão relativamente ao “Chega” e ao modo como com ele lidar que grassa no seio dos estrategas (a palavra é obviamente lisonjeira!) da AD, a situação é de impasse e os caminhos airosos de saída não parecem fáceis de encontrar, ademais com Passos a andar a falar incontidamente por aí – um assunto a revisitar.