A Espanha vai a eleições em final de novembro, após mais uma antecipação de legislatura decidida por Pedro Sánchez. Este presidente do governo espanhol é – goste-se ou não e goste-se mais ou menos – um político na verdadeira aceção do termo. Porque Pedrito joga taticamente, porque Pedrito não foge e enfrenta, porque Pedrito arrisca... Dir-me-ão os mais críticos que ele é homem de golpadas e falta de escrúpulos (ouvi-o ontem na SIC-N ao histérico e dogmático dono de todas as verdades que é Miguel Morgado, alguém cuja forma de estar e se situar faz desacreditar o interesse que até existe nalgumas das suas análises e no saber de que dispõe em relação a certos temas), mas qual é o político que não é assim? O amolecido Feijóo ou a conflituosa Ayuso são diferentes? E, por cá, não abundam também os exemplos factuais e de posicionamento estrutural que o confirmam, da matreirice de Luís ao encantamento de serpentes de Passos, do oportunismo Costa ao estabilizacionismo-mor de Seguro ou do aparvalhamento de Moedas à amabilidade de Pedro Duarte? Quem pode jurar que não reside aí uma das essências que marcam a atividade política, com a advinda agravante decorrente dos tempos de escrutínio permanente que vivemos?
Reconheço sem rebuço que Sánchez exagerou em diversos momentos e dossiês. Mas não quero deixar de considerar que se trata de alguém que tende a ser único no contexto de uma Europa feita de políticos orientados para o estrito interesse nacional, partidário ou pessoal, sem talento estratégico e de muito limitada coragem (recordem-se as suas tomadas de posição sobre Gaza e Israel ou sobre a NATO e Trump). E, deve sublinhar-se, às vezes a sorte até premeia o engenho, o que explicará que Sánchez tenha novamente optado por arriscar e apostar na sua boa estrela, escolhendo com esmero a ocasião conjunturalmente mais propícia (ocasião que, como diz o povo, faz o ladrão) – no caso, a crise em torno do problema da habitação que vemos grassar em protestos violentos nas grandes cidades, a fase de desnorte que estão a atravessar as forças à sua esquerda e as organizações nacionalistas e a prestação macroeconómica do país – e assim aceitando pôr em jogo a sua sobrevivência política numa espécie de plebiscito pessoal em que irá certamente combater até à última todas as lógicas de desgaste e artimanha com que em permanência o ferem. Probabilisticamente, o que vai sair de 29 de novembro resultará em que Feijóo e Abascal acabem no poder, mas vou gostar de assistir ao magistral desempenho político com que Sánchez vai procurar evitá-lo e também não tenho hoje grandes dúvidas quanto ao facto de que a alternativa que se desenha é bem mais perigosa e paralisante do que aquela que estava sobre a mesa da Moncloa.









