terça-feira, 28 de julho de 2026
DA SINGULARIDADE HUMANA
segunda-feira, 27 de julho de 2026
PASSADEIRA VERMELHA PARA VENTURA
(Tenho por vezes a sensação, e não será a canícula a explicá-la, de que o comportamento das duas forças políticas estruturantes da democracia portuguesa, PSD e PS, laboram frequentemente em erros políticos de palmatória, que tenho dificuldade em entender, não me considerando de todo um iluminado do comentário político. Seguramente que o meu afastamento deliberado do centro da prática política quotidiana desses partidos poderá explicar essa minha dificuldade de compreender alguns dos seus comportamentos. Passa-se algo de semelhante por estes dias quando assisto atónito e cada vez mais intrigado ao modo como, à sua maneira, desconchavada em ambos os casos, PSD e PS têm colocado uma passadeira vermelha ao aproveitamento político que Ventura e o Chega têm realizado da inconcebível prestação política e ética do ministro da Administração Interna e do seu legado na Polícia Judiciária. Da parte do PSD, a lógica é a da defesa da continuidade da governação, resistir a todo o custo, como se a permanência no poder permita alimentar todas as esperanças de colocar no esquecimento acontecimentos tão insólitos. Quanto ao PS de José Luís Carneiro estou perplexo quando ao foco colocado no desastre da pretensa gestão digital dos exames nacionais do ministro Fernando Alexandre e da sua equipa mais próxima, escondendo-se num mar de sombras quanto à denúncia necessária da insustentável prestação de Luís Neves. O favor de gala que estes dois comportamentos estão a proporcionar aos avanços de Ventura é de tal maneira incómodo e politicamente surreal que dou comigo, sobretudo em relação ao comportamento do PS, a alimentar-me com as mais amplas perspetivas cabalísticas e sobre as piores razões para explicar o ar manso com que o líder do PS se tem referido ao imbróglio protagonizado pelo ministro da Administração Interna.)
É conhecida a reação positiva que se gerou à esquerda sobre as corajosas tomadas de posição de Luís Neves sobre as alarmistas perceções que o Chega e uma certa direita mais conservadora alimentaram sobre as condições de segurança em Portugal e principalmente sobre a sua pressuposta (não demonstrada) articulação com a intensificação do fenómeno da imigração do país. Obviamente que considero que esse facto não é por si só justificativo de tanta mansidão e indiferença para com o desnorte do ministro da Administração Interna. O mesmo se diga pelo facto de estarmos no meio de uma época de incêndios, sendo por isso necessário poupar o ministro ao incómodo de encontrar justificações plausíveis para tanta irresponsabilidade. Se dermos por certa a inadequação de tais explicações, as interrogações adensam-se e esse é o caminho fácil para Ventura cavalgar todo o processo e emergir aos olhos da população preocupada com tanta interrogação como a única força política a acionar parlamentarmente a bomba de uma Comissão de Inquérito. Com as dúvidas que a prática recente do Ministério Público tem vindo a evidenciar, acompanhado em algumas iniciativas de pura justiça mediática pela Polícia Judiciária, ainda com Luís Neves ao leme, e tendo presente que há exemplos de Comissões de Inquérito espúrias e de verdadeiro desperdício democrático, não consigo descortinar outra forma de escrutínio político de tanta irresponsabilidade ética e política.
Sou assim levado a concluir não apenas sobre a incontornável necessidade do ministro da Administração Interna prestar esclarecimentos públicos e fundamentados sobre decisões ou ausências de decisão tão problemáticas, mas também, por mais paradoxal que isso possa parecer no meu pensamento, sobre a necessidade de José Luís Carneiro explicar com pormenor tão estranha posição.
Estancado até há bem pouco tempo no seu crescimento e às voltas com inúmeras contradições geradas por esse mesmo crescimento, o Chega tem neste processo uma grande oportunidade de preparar uma rentrée política não direi triunfal, mas suficiente para colocar numa inação expectante os dois partidos estruturantes da nossa democracia. Sem fazer nada por isso, limitando-se a cavalgar a inação de quem deveria liderar a proatividade política.
Nota complementar de pesar pessoal
Tomo conhecimento a partir do post do meu colega de blogue do desaparecimento de um colega que muito prezava e com o qual tive duas experiências de avaliação de políticas públicas de inovação inesquecíveis. O rigor de análise, a gentileza do trato e a permanente abertura de espírito a novas perspetivas sobre a inovação empresarial faziam do Vítor Corado Simões uma companhia para sempre recordar.
A revelação da finitude da vida nos que nos são mais próximos começa a apoderar-se de nós à medida que o tempo inexorável vai correndo.
Até sempre Vítor.
VÍTOR CORADO SIMÕES
domingo, 26 de julho de 2026
EM PREPARAÇÃO PARA A MODORRA ESTIVAL
(Ainda me faltam duas semanas intensas de trabalho para me entregar definitivamente à modorra estival por estas bandas de Seixas e Caminha, este fim de semana perturbado pelas irritantes festividades da Feira Medieval que continuam a atrair visitantes em massa e que suscitam a rejeição dos mais propensos ao sossego urbano, como eu, devo confessá-lo. Provavelmente com exceção do evento de Santa Maria da Feira, que nunca visitei e que, por isso, me abstenho naturalmente de criticar, as feiras medievais são hoje por estas paragens do Alto Minho um fenómeno estritamente comercial, que a mais agressiva iniciativa empresarial dos espanhóis tem capitalizado e ninguém os critica por isso. A ideia da reconstituição histórica já há muito tempo que se esfumou, submetida pelo crescimento de expositores e feirantes, incluindo comes e bebes, visível por exemplo no modo como a feira vai ocupando mais área na vila, incluindo do parque de estacionamento central. Ontem, deu apenas para comprar um saquinho de chá Rooibos que muito aprecio e que os comerciantes galegos expõem nas suas tendas cromáticas, nada de semelhante às de Marraquexe ou dos bazares de Istambul, mas ainda assim agradáveis ao olhar do visitante seduzido pela cor. Em preparação para a tal modorra estival, confirma-se um ano mais que valeria a pena escolher julho como mês de férias e não agosto, já que ele se apresenta regra geral como mais confiável climaticamente. Até a água do mar deu tréguas este mês aos ossos dos mais friorentos subindo a temperaturas que nos fazem pensar que isto está tudo bastante alterado. Mas trabalho é trabalho e não tem dado para essa escolha, até porque estranhamente desde há muitos anos que o mercado público dos concursos tem uma concentração absurda nos fins de julho e no mês de agosto, como se provocação se tratasse e quisesse impedir as consultoras de poder usufruir de férias normais e merecidas.
A modorra aproxima-se, mas o mundo não está definitivamente para aí virado. O tema que me tem mais impressionado é a esmagadora enormidade dos incêndios em Madrid e Ávila, seguindo-se aos de França, gerando uma magnitude de deslocação de pessoas que nos anuncia a gravidade do fenómeno e sobretudo a vulnerabilidade exposta de muitos territórios. Estranhamente, ao contrário do que teria imaginado, incêndios de tal magnitude não foram perturbados pela polarização política aberta que grassa naqueles países. Tudo se passa como se a gigantesca deslocação de pessoas recomendasse o recato político ao serviço da mais eficaz possível intervenção das autoridades da proteção civil, das forças de ordem e dos bombeiros e as forças políticas o tenham compreendido. O Rei terá tido essa perceção e, como era lhe era devido, apareceu a registar a relevância da ação conjunta que tem permitido combater focos de tão elevada magnitude, contrastando com o observado na calamidade de Valência. Por cá, por agora, a questão dos incêndios tem estado controlada embora com larga extensão de área ardida e não será nesse contexto, oxalá ele se mantenha, que o ministro da Administração Interna encontrará a redenção para as suas incompreensíveis argoladas.
No plano internacional, a opção de Trump em promover de novo o escalamento da guerra com o Irão transporta os EUA para a vertigem da ausência de saída consequente, anunciando em cada intervenção pública que o Irão estará definitivamente destruído, o que vai embatendo de frente com a capacidade iraniana de ir retaliando nos territórios do Golfo, onde existem bases e interesses americanos. Nunca no passado a avaliação dos americanos foi tão negativa como o é hoje a avaliação do significado da intervenção no Irão. Entretanto, num conceito estranhíssimo de equidade os sauditas foram autorizados a formas de enriquecimento de urânio incompreensíveis do ponto de vista da segurança a longo prazo do Golfo. O conceito de equidade aqui presente é tão estapafúrdio como a sugestão de que Infantino deveria ser o novo secretário-geral das Nações Unidas. Ou seja, Trump continua a querer governar o mundo como do seu quintal se tratasse e esse mesmo mundo ainda não sabe bem se há de rir, encolher de indiferença os ombros ou protestar.
E assim vai sendo preparada a modorra estival. O conceito de silly season ficou de repente obsoleto. O mundo, sim, esse virou silly.
sábado, 25 de julho de 2026
VOU DE FÉRIAS!
Isto está verdadeiramente irrespirável! Diariamente somos obrigados a ouvir novidades provenientes das loucuras animalescas que saem da boca de Donald Trump (que continua a ensaiar a hipótese de um terceiro mandato em 2028), das atrocidades dos israelitas no Líbano ou das inconsequências políticas dos mais variados líderes internacionais e europeus. E, porque nós por cá também somos gente, apanhamos de hora em hora informações, declarações e comentários sobre como o ministro da Educação é um génio da nossa academia e fez quase tudo bem no reformista processo dos exames nacionais (e com transparência corrigiu o que não o estava), como o ministro da Administração Interna é um servidor público que falará quando entender ser o tempo certo ou como o primeiro-ministro acha que o pior já passou e que o Governo está aí para as curvas mas, ainda assim, decidiu que só fará férias depois do Verão – com o PS, através do seu líder parlamentar Eurico Brilhante Dias, a ameaçar com uma Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso dos exames para setembro (se até lá...) e Ventura a aproveitar-se convenientemente dos vazios da restante Oposição e a anunciar uma Comissão Parlamentar de Inquérito potestativa à gestão da Polícia Judiciária durante o mandato de Luís Neves. Pois antes que algo mais faça entornar em definitivo o copo já demasiado cheio da minha pobre cabeça, vou eu de férias na expectativa de ver se o ruído diminui e alguma normalidade pode regressar, onde e como quer que seja.





