(Foi sem dúvida a figura agregadora do Arquiteto Manuel Correia Fernandes que esteve na origem da qualidade e intensidade do debate que a Casa da Arquitetura promoveu, sábado à tarde, em torno do tema claramente metropolitano de Uma Cidade não é uma Ilha. Moderado com sabedoria por Carlos Daniel, com a intervenção desassombrada de dois autarcas metropolitanos, Luísa Salgueiro e Pedro Duarte, este último uma agradável surpresa, e as intervenções autarquicamente não comprometidas de Elisa Ferreira, com alertas relevantes para um debate de alerta nacional sobre o que se antevê em termos de fundos europeus e a intervenção deste vosso Amigo, de cujos contornos versou o meu post anterior. Neste caso, as intervenções da audiência foram também muito contributivas, tendo ficado no ar o espaço desejado de uma nova família de debates suscetíveis de aprofundar alguns dos temas ali ontem versados. Embora a Presidente da Câmara Municipal de Matosinhos Luísa Salgueiro se tenha esforçado por numa das suas intervenções procurar contrariar o ambiente pessimista que se terá formado sobre as hipóteses reais de cooperação efetiva com base em efetivos projetos metropolitanos, ficou claro que o quadro institucional hoje existente da Área Metropolitana do Porto não permite grandes voos em termos de governo metropolitano. O testemunho do recém-chegado a estas lides Pedro Duarte é disso uma perfeita ilustração, com a curiosidade do Presidente da Câmara Municipal do Porto não só ter alertado para a inexistência de interlocução técnica e política a nível central suscetível de entender os problemas metropolitanos do Porto, mas ter igualmente sublinhado o incómodo, em jeito de autocrítica severa, da Área Metropolitana do Porto ser hoje uma das comunidades intermunicipais com mais baixa taxa de execução do PT2020.)
O carácter estranhamente recorrente do tema, cujas razões objetivas pretendi na minha intervenção identificar, foi sublinhado por intervenções como a de Narciso Miranda que lembrou que já há 30 anos e mais o tema já era discutido e pelo próprio Manuel Correia Fernandes que lembrou o facto de na apresentação do Plano Diretor Municipal do Porto, há 10 anos, quando ele era Vereador do Urbanismo, a minha intervenção e do Professor Valente de Oliveira na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, termos ambos referido que a conurbação do Grande Porto, ou como lhe chamei na minha intervenção a Cidade Central alargada (CCA), não ter governação à altura dos desafios de organização deste espaço.
Creio que passou bem a ideia subjacente à minha intervenção de que, embora recorrente, o tema apresenta-se hoje num contexto radicalmente distinto, por estarmos num período em que existe uma deriva do voto democrático que o procura contraditoriamente enfraquecer, exigindo por isso uma outra preocupação dos agentes e dos processos de planeamento. Ou seja, o desafio é recorrente, mas o contexto atual em que ele se coloca torna-o mais exigente. Se interpretarmos como o faz Schumpeter no Capitalismo, Socialismo e Democracia[1], a democracia como um espaço de concorrência pela liderança política de quem consideramos em melhores condições para defender os nossos princípios e valores, é fundamental que os temas da conurbação entrem no debate e na ação política e que não permaneçam num limbo de voluntarismo que não chega ao escrutínio democrático.
Obviamente que tal como os dois Presidentes o sublinharam, a cooperação é possível. O único exemplo prático concreto que foi referido é o da cooperação na chamada Frente Atlântica (Matosinhos, Porto e Vila Nova de Gaia) que se apresentaram juntos na última feira do imobiliário em Cannes, projetando em conjunto uma parte relevante da CCA. Mas seguramente que os eleitores municipais dos três concelhos pouca informação tiveram sobre a iniciativa, em nada influenciando a relação entre a política local e os eleitores que votam em cada um dos municípios.
Sim, é um facto como os dois Presidentes concordaram que o atual quadro da Área Metropolitana do Porto não permite um modelo de governo consequente, mas mesmo a CCA requer um modelo de governação que teria de ser constituído seja por alguma inovação legislativa, seja por um deliberado processo de delegação ascendente de competências para a formação de uma agência urbana intermunicipal com programa e recursos próprios de intervenção.
Este é o drama a que a intervenção municipal (o poder local) está hoje submetida. A complexidade dos problemas sociais metropolitanos exige, por um lado, cada vez mais políticas de proximidade, ou seja, uma atenção crescente aos problemas intra-urbanos e intra-municipais, mas, por outro lado, há exigências de investimento público cuja lógica de decisão não é mais municipal, mas antes supramunicipal. Veja-se, por exemplo, a decisão de criar um innovation district à altura do potencial científico e tecnológico da CCA ou uma estratégia mais consequente de mobilidade intrametropolitana. Estas duas frentes exigem modelos distintos de intervenção, produzindo um efeito a que chamei alguns anos atrás o efeito tenaz sobre o poder local.
Por conseguinte, como frentes possíveis para avançar este tema temos as seguintes: i) inovação legislativa disruptiva que me parece cada vez mais inviável; ii) esforço deliberado dos autarcas em criar por delegação ascendente de competências novas agências e instituições com orçamento e recursos próprios, para o qual não existe contexto favorável; iii) uma dinâmica ascendente (bottom-up) de movimentação social que agite o tema e o coloque na agenda política local.
Por ironia da vida, esta minha última ideia ocorre-me quando tivemos ontem o desaparecimento do maior filósofo contemporâneo vivo, Jürgen Habermas, que sabia como ninguém combinar o seu europeísmo convicto com a teorização ímpar da animação do espaço público como forma última de dinamização da democracia. Em meu entender, é necessário que a conurbação, o Grande Porto ou a CCA, como lhe queiram chamar, sejam palco de militância cívica e democrática, como única forma de fazer avançar as duas outras anteriormente referidas.
Até porque como o referiu, com pertinência, numa das intervenções finais o meu colega de blogue, não podemos infelizmente dar por adquiridos alguns dos ativos que marcam a internacionalização desta Cidade Central Alargada. O seu financiamento é precário, sobretudo na perspetiva da sua dependência face a financiamento central (caso de Serralves) ou de ainda reduzida participação do financiamento municipal (Casa da Música).
De qualquer modo, um debate excelente que julgo ter honrado a qualidade da obra de Manuel Correia Fernandes e o seu exemplar percurso cívico.
Obrigado Manel, esperando ter honrado a tua inspiração.





