quinta-feira, 30 de julho de 2026

NEVES EM EXPLICAÇÕES PARA TOTÓS

 

A aguardada conferência de imprensa explicativa do ministro da Administração Interna Luís Neves foi um sucesso aos olhos do inefável Hugo Soares e dos portugueses mais distraídos. Pudera, tanto tempo ela levou a preparar com vista a uma argumentação convincente (e até comovente), independentemente de alguns argumentos esfarrapados a que recorreu. Viu-se ali o dedo mestre do outro Luís (Montenegro), exímio na arte típica do causídico de província, tão bem-falante e cheio de sinónimos em catadupa quanto demagogo e pouco preocupado com a verdadeira chico-espertice das suas elucubrações. Ilustrando: o longo currículo de um combatente contra o crime organizado (trinta anos de investigações e prisões com permanentes ameaças e riscos pessoais), o arrependimento vago e cirúrgico (se fosse hoje, não teria...), a humildade do homem bom (“nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem”), o gestor que decidiu extraordinariamente no tocante ao atrelado (ademais poupando dinheiro ao Estado), a inexistência de aproveitamentos (ninguém poupou nem ganhou nada), as obras pagas em dinheiro ou com cartão Multibanco (como acontece com qualquer português comum), a informação que não foi prestada ao servidor público (afinal, o Tribunal Constitucional não lhe comunicou em tempo que teria de apresentar a sua declaração de rendimentos), a piscina que lhe fizeram num fim de semana em que esteve ausente (mas que voltará a ser um tanque) e por aí adiante. Tudo com um objetivo final, que também ficou claro: o homem sente-se, como o seu primeiro se sentiu no quadro do caso Spinumviva, “totalmente legitimado e empoderado”.
 
André Ventura e Mariana Leitão não tardaram a pronunciar-se sobre o conteúdo da prestação do ministro, surgindo-me como especialmente estranho o criticismo implacável da líder da Iniciativa Liberal dado que não consigo alcançar ao que pretende chegar nesse eu radicalismo contra o seu mais natural aliado político. Com o Partido Socialista a prosseguir num calculismo de moderação que já se vai tornando insuportável, quase todos os analistas apontam agora para António José Seguro como sendo a personagem capaz de pôr alguma ordem na balbúrdia instalada – o que tendo a apostar que não acontecerá, dado que no Palácio de Belém parece viver-se ainda sem que o seu principal ocupante tenha recuperado do estado de perplexidade e choque que dele se apoderou em janeiro e sob o efeito unitário e paralisante das correspondentes missas, loas e encómios em intenção do facto e seus promotores.


(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

O NACIONAL-PORREIRISMO TRAVESTIU-SE DE GOVERNAÇÃO

 

                                                                            (Jornal Público)

(Devo confessar-vos que assisti ontem ao fim da tarde a um dos mais inenarráveis momentos políticos da nossa democracia e governação, difíceis de comentar dada a heterodoxia que por ali andou. Estou a falar obviamente da conferência de imprensa do ministro da Administração Interna Luís Neves, acompanhado na primeira fila de cadeiras da sala da sua equipa governativa de Secretário(a)s de Estado no MAI, também ele(a)s, creio eu, atónito(a)s pelo que estava ali a acontecer. Anunciada com pompa e circunstância ao longo do dia, a conferência de imprensa teria obviamente de despertar toda a atenção possível, devido sobretudo ao silêncio a que o Ministro se votara, à medida que a investigação jornalística foi colocando cá fora as principais peças do imbróglio. Dada a abundante reação que as declarações de Luís Neves estão a gerar, não vou obviamente, de modo redundante, analisar aqui se as explicações dadas pelo Ministro estão ou não em linha com as inúmeras interrogações que as diferentes peças do imbróglio suscitaram. De modo geral, com exceção da também inenarrável declaração de Hugo Soares, criou-se um amplo coro de estupefação pela desconformidade das declarações. Mas esse não é o meu ponto. Em meu entender, a reação do Ministro anuncia uma nova era na governação e na gestão da coisa pública, sendo sobre essa matéria que gostaria de elaborar uma pequena reflexão, para memória futura, pois a conferência de imprensa é, a meu ver, um marco de referência para o futuro.)

Para que essa reflexão seja possível, é necessário contextualizar alguns elementos.

O Ministro Luís Neves não é um elemento qualquer e indiferenciado, mobilizado para a governação. Modernizou durante um largo período a Polícia Judiciária, aliás puxou desses galões na conferência de imprensa, ficou conhecido por ser um homem de ação (também na conferência de imprensa não se inibiu de comunicar que prendou criminosos, violadores, gente violenta e outros salafrários), ficou conhecido pela sua capacidade de decisão e nunca lhe foi atribuída qualquer tentação de beneficiar em proveito próprio da coisa pública. Foi aliás essa imagem que esteve na origem da vasta aceitação que a sua nomeação para Ministro da Administração Interna suscitou, numa das raras manifestações de aceitação de decisões do atual governo de Montenegro.

Temos, por isso, pela frente um homem de ação, com capacidade de decisão, dedicado ao serviço público e relativamente austero nas suas condições de vida. O que acontece é que as diferentes peças do imbróglio do monte em Odemira mostraram à evidência um Luís Neves que, sem contrariar aquelas ideias centrais, aparece associado a uma série de peripécias em que pontuam dimensões como a perigosa informalidade da gestão, o desconhecimento da lei em aspetos que é difícil compreender para alguém Ministro da Administração Interna, a nebulosidade da relação entre pequenos negócios privados (neste caso da mulher e do filho, outra vez?) e a matéria pública, decisões tomadas no âmbito da Política Judiciária sem rastreamento. O que é que existe aqui de diferente? O nacional-porreirismo instalado na sociedade portuguesa não costuma andar associado a homens de ação, com capacidade de decisão e austeridade nas condições de vida. Mas neste caso é isso que acontece. A conferência de imprensa foi assim organizada. Luís Neves partiu dessa sua característica de dedicação ao serviço público, de capacidade de decisão e de ação e de austeridade impoluta para apresentar depois desculpas algo esfarrapadas da sua estranha informalidade, a ponto de considerar o caso do atrelado como um ato de boa gestão, de afirmar que a piscina vai regressar ao seu estatuto de tanque e que o empresário de Barcelos, seu amigo, já não está a realizar obra no seu monte. Por mais estranho que possamos considerar esta associação, foi isso que foi anunciado.

Invocando aqui a cultura de diferentes séries do Star Crime, que muito aprecio, estou aqui a antever um novo padrão nas condições da governação. A história dirá se esse padrão foi fundamentalmente iniciado com o caso Spinumviva de Luís Montenegro ou se será Luís Neves o seu iniciador. No fundo, estamos aqui perante uma interpretação larguíssima da lei e da doutrina que vai sendo produzida pelos acórdãos do Tribunal de Contas. Não faço ideia se Luís Neves faz ideia do que dirão desse padrão os inúmeros autarcas que têm caído nas malhas da irregularidade, considerada muitas vezes dolosa pelas autoridades judiciais, quando foram vítimas do seu voluntarismo e da sua vontade de agir.

Não encontrei melhor expressão do que considerar que o nacional-porreirismo, neste caso casado com capacidade de ação e de decisão e austeridade nas condições de vida, se travestiu de governação.

Será isto um novo padrão?

 

 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

AS INFANTIS DIABRURAS DE ANDRÉ CLARO

Deparamo-nos ontem com mais um insólito caso desta nossa estranha Democracia, o da alegada vandalização do gabinete de André Ventura na Assembleia da República. O “Público” sintetiza bem os factos realmente observados: “a porta que Ventura deixou aberta, a empregada e o deputado madrugador”. Mas os demais órgãos de informação lida, ouvida ou vista adiantaram bastante mais e o “Now” até dedicou ao chefe do Chega um longo tempo de antena para que ele ali explicasse tudo de quanto de queixava – e era muito, especialmente que dali tinham sido retirados documentos relevantes relativos à comissão parlamentar de inquérito que anunciara ir suscitar a propósito de Luís Neves e outros relacionados com Luís Montenegro.
 
André Claro não chegou a acusar a senhora da limpeza, que poderá estar ao serviço de forças insondáveis de qualquer proveniência política mas também ser uma avençada da Judiciária desde os tempos de Neves, nem o seu correligionário madeirense (Francisco Gomes), que poderá estar simplesmente desgostado pelo facto de o seu líder não cobrir os “dois carrinhos” em que vem circulando simultaneamente (as viagens para casa pagas pelo Parlamento e o recebimento de um subsídio social de mobilidade). Há dois fortes suspeitos, portanto, que o chegano-mor preferiu desconsiderar, embora consequentemente pouco espaço e matéria lhe sobre para qualquer outra acusação credível, mesmo aos olhos do cidadão comum e crescentemente desconfiado das prodigiosas e pasmáveis possibilidades de ocorrências bizarras neste “lindo torrão lusitano”.
 
Por outro lado, o primeiro-ministro, sempre pronto a abraçar as manobras de diversão que se lhe oferecerem para devido desvio das atenções face aos casos que se manifestam (na Saúde, no Trabalho, na Educação e na Administração Interna), logo veio mostrar a sua indignação perante o sucedido (?), qualificando-o de “inconcebível numa democracia madura como é a democracia portuguesa” e exigindo um trabalho de investigação “rápido e conclusivo” por forma a que “possamos erradicar qualquer tentação mais extremista em termos de ataque aos esteios do sistema democrático e ao respeito daqueles que representam a vontade política do povo português” – quase um discurso de Estado, pois, para algo que poucos duvidam não mais se tratar do que de uma mera inventona para alimentar os ambiciosos e desmedidos delírios de poder do rapaz de Algueirão.


terça-feira, 28 de julho de 2026

DA SINGULARIDADE HUMANA

Tinha sabido da existência de Jorge Rocha e do seu livro “O Caminho de Adis Abeba – uma viagem pela singularidade humana” através do nosso comum amigo Nuno Ferrand de Almeida aquando do lançamento da obra na Galeria da Biodiversidade, tendo então podido constatar a quase natural mas enorme erudição e eloquência do autor (que é professor da Faculdade de Ciências do Porto e investigador do Biopolis). Neste início de férias, agarrei-me ao livro e absorvi-o de uma assentada – obviamente, tanto quanto o pode fazer um leigo na matéria em apreço, indiscutivelmente fascinante mas complexa na sua tentativa de fazer evidenciar o modo como “somos diferentes de uma maneira diferente”, mesmo em relação aos primatas que mais se nos aproximam, ou seja, quanto uma especial relação entre a biologia e a “cultura” leva a que nos distingamos em absoluto e a imensos níveis físicos e mentais num processo historicamente acumulado em que a linguagem desempenha um papel determinante – “aquilo em que os seres humanos são exímios é na eficácia com que recorrem aos outros para compensarem a sua ignorância e as suas debilidades”. Um trabalho notável que é também uma extraordinária fonte de divulgação do conhecimento.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

PASSADEIRA VERMELHA PARA VENTURA

 


(Tenho por vezes a sensação, e não será a canícula a explicá-la, de que o comportamento das duas forças políticas estruturantes da democracia portuguesa, PSD e PS, laboram frequentemente em erros políticos de palmatória, que tenho dificuldade em entender, não me considerando de todo um iluminado do comentário político. Seguramente que o meu afastamento deliberado do centro da prática política quotidiana desses partidos poderá explicar essa minha dificuldade de compreender alguns dos seus comportamentos. Passa-se algo de semelhante por estes dias quando assisto atónito e cada vez mais intrigado ao modo como, à sua maneira, desconchavada em ambos os casos, PSD e PS têm colocado uma passadeira vermelha ao aproveitamento político que Ventura e o Chega têm realizado da inconcebível prestação política e ética do ministro da Administração Interna e do seu legado na Polícia Judiciária. Da parte do PSD, a lógica é a da defesa da continuidade da governação, resistir a todo o custo, como se a permanência no poder permita alimentar todas as esperanças de colocar no esquecimento acontecimentos tão insólitos. Quanto ao PS de José Luís Carneiro estou perplexo quando ao foco colocado no desastre da pretensa gestão digital dos exames nacionais do ministro Fernando Alexandre e da sua equipa mais próxima, escondendo-se num mar de sombras quanto à denúncia necessária da insustentável prestação de Luís Neves. O favor de gala que estes dois comportamentos estão a proporcionar aos avanços de Ventura é de tal maneira incómodo e politicamente surreal que dou comigo, sobretudo em relação ao comportamento do PS, a alimentar-me com as mais amplas perspetivas cabalísticas e sobre as piores razões para explicar o ar manso com que o líder do PS se tem referido ao imbróglio protagonizado pelo ministro da Administração Interna.)

É conhecida a reação positiva que se gerou à esquerda sobre as corajosas tomadas de posição de Luís Neves sobre as alarmistas perceções que o Chega e uma certa direita mais conservadora alimentaram sobre as condições de segurança em Portugal e principalmente sobre a sua pressuposta (não demonstrada) articulação com a intensificação do fenómeno da imigração do país. Obviamente que considero que esse facto não é por si só justificativo de tanta mansidão e indiferença para com o desnorte do ministro da Administração Interna. O mesmo se diga pelo facto de estarmos no meio de uma época de incêndios, sendo por isso necessário poupar o ministro ao incómodo de encontrar justificações plausíveis para tanta irresponsabilidade. Se dermos por certa a inadequação de tais explicações, as interrogações adensam-se e esse é o caminho fácil para Ventura cavalgar todo o processo e emergir aos olhos da população preocupada com tanta interrogação como a única força política a acionar parlamentarmente a bomba de uma Comissão de Inquérito. Com as dúvidas que a prática recente do Ministério Público tem vindo a evidenciar, acompanhado em algumas iniciativas de pura justiça mediática pela Polícia Judiciária, ainda com Luís Neves ao leme, e tendo presente que há exemplos de Comissões de Inquérito espúrias e de verdadeiro desperdício democrático, não consigo descortinar outra forma de escrutínio político de tanta irresponsabilidade ética e política.

Sou assim levado a concluir não apenas sobre a incontornável necessidade do ministro da Administração Interna prestar esclarecimentos públicos e fundamentados sobre decisões ou ausências de decisão tão problemáticas, mas também, por mais paradoxal que isso possa parecer no meu pensamento, sobre a necessidade de José Luís Carneiro explicar com pormenor tão estranha posição.

Estancado até há bem pouco tempo no seu crescimento e às voltas com inúmeras contradições geradas por esse mesmo crescimento, o Chega tem neste processo uma grande oportunidade de preparar uma rentrée política não direi triunfal, mas suficiente para colocar numa inação expectante os dois partidos estruturantes da nossa democracia. Sem fazer nada por isso, limitando-se a cavalgar a inação de quem deveria liderar a proatividade política.

Nota complementar de pesar pessoal

Tomo conhecimento a partir do post do meu colega de blogue do desaparecimento de um colega que muito prezava e com o qual tive duas experiências de avaliação de políticas públicas de inovação inesquecíveis. O rigor de análise, a gentileza do trato e a permanente abertura de espírito a novas perspetivas sobre a inovação empresarial faziam do Vítor Corado Simões uma companhia para sempre recordar. 

A revelação da finitude da vida nos que nos são mais próximos começa a apoderar-se de nós à medida que o tempo inexorável vai correndo.

Até sempre Vítor.