domingo, 9 de agosto de 2026

OS DEMOCRATAS AMERICANOS DE NOVO NA ESTACA ZERO

 


(Todos os interessados na preservação das instituições democráticas e na necessidade de combater as “novas internacionais” que emergem dos EUA com agendas agressivas favoráveis às extremas-direitas europeias olham para as eleições intercalares de fins de 2026 nos EUA e para as próximas presidenciais como um momento-chave para inverter tais movimentos e suster a intromissão descarada que vem do outro lado do Atlântico. Simultaneamente, nunca tanta dedicação foi dedicada ao que os Democratas americanos estão a fazer para derrotar o movimento MAGA, Trump e os seus acólitos. É sobre esse momento muito particular que os Democratas estão a viver que gostaria de elaborar algumas reflexões, tanto mais que colei essa reflexão a um título que aparentemente estará em conflito com o que se vai sabendo do modo como os Democratas estão a preparar-se para as intercalares deste ano e encontrar um candidato sério para derrotar os Republicanos, cada vez mais reféns do errático Trump. Da reação Democrata aos desmandos da administração Trump sabe-se que aconteceu após um período de desorientação e silêncio que começou a preocupar o mundo democrático. Tudo parecia configurar uma preocupante inação enquanto força política, se bem que o ativismo de alguns elementos isolados nos alertasse para que a reação estava lá, embora não tivesse tomado forma suficiente para esperar um resultado de penalização dos Republicanos nas próximas intercalares. Entretanto, as sondagens favoráveis aos Democratas, embora não inversamente proporcionais ao tombo de popularidade e aprovação que Trump começava a revelar, começaram a desenhar cenários mais favoráveis.)

A vitória do muçulmano e progressista Zohran Mamdani nas eleições para Presidente da Câmara de Nova Iorque representou um marco no acordar das forças democratas mais progressistas, direi mesmo socialistas e pareceu iniciar uma nova tendência de adesão dos Democratas a programas políticos mais ajustados ao estado de desigualdade da sociedade americana e sobretudo à ameaça dos direitos humanos mais elementares que a administração Trump foi perpetrando sobre os grupos ais vulneráveis dessa mesma sociedade, com os imigrantes à cabeça.

Não é a primeira vez que na história dos Democratas a reação das suas tendências mais progressistas acontece, até com personalidades com impacto mediático como Bernie Sanders, Elizabeth Warren ou Alexandria Ocasio-Cortez. O problema é que as famílias Democratas mais conservadoras acabam, regra geral, por sobrepor-se a esse progressismo, impondo agendas mais moderadas e conservadoras, invocando o eterno argumento de que os americanos nunca validarão o socialismo nas urnas.

Acontecimentos recentes observados em torno de algumas primárias entre os Democratas voltam a colocar esse problema na ordem do dia, sendo por isso que a preparação para as próximas intercalares e presidenciais está regressada á estaca zero de outros tempos. A corrida vitoriosa do Dr. Abdul El-Sayed para o Senado em primárias do Michigan está em termos de impacto nas hostes Democratas como a vitória de Mamdani esteve para o ressurgimento do progressismo ativo no partido. O mesmo se diga relativamente à posição favorável em que se encontra a socialista Democrata Francesca Hong para o lugar de Governador do Wiscousin. A campanha que El-Sayed realizou com palavras de ordem como “o Michigan não está à venda” ou “o dinheiro fora da política para estar nos vossos bolsos” agitou as massas Democratas e pareceu evidenciar que pelo menos partes do partido estarão hoje mais recetivas a agendas mais progressistas, chamem-se-lhes socialistas ou não.

Mas a estaca zero está lá, não tenhamos ilusões. Os Democratas mais moderados e conservadores são mais endinheirados e por isso iremos assistir nos tempos mais próximos a gigantescas campanhas de comunicação destinadas a limitar o ressurgimento Democrata progressista apenas a algumas personalidades, com o fim de barrar a ousadia de nomear uma figura vinda desse ressurgimento para tentar derrotar os Republicanos e infligir-lhes uma derrota severa nas próximas intercalares.

Como já o referi, não existe uma correspondência perfeita entre a queda de aceitação de Trump como Presidente e a valorização da posição eleitoral dos Democratas. Por isso, uma guerra ideológica entre os Democratas sempre favorecerá a resistência Republicana, até porque o movimento MAGA jogará todas as armas possíveis na vampirização dos Democratas socialistas. Tudo servirá para atingir esse objetivo. O aproveitamento em torno dos acontecimentos de Ceuta mostrou esse desplante com clareza.

 

A UNIÃO DESUNIDA POR CONFLITOS DE AGENDA

 

Os incidentes de Ceuta deram lugar a mais uma de tantas e sucessivas evidências de uma União Europeia capturada pelo taticismo de interesses nacionalistas, ideológicos, partidários e pessoais em combinações variadas e nem sempre completamente inteligíveis. Desta vez as coisas são bem claras e as responsabilidades têm nomes politicamente identificáveis na sua diferença. Por um lado, temos um socialista espanhol (Pedro Sánchez) que resiste acerrimamente, e com bastante frontalidade e coragem, às já longamente prolongadas tentativas da Direita moderada e radical para o afastar. Por outro lado, temos uma populista que tem vindo a parecer em vias de moderação (Giorgia Meloni) mas que agora carece de temas e pretextos para um processo eleitoral que se aproxima e onde joga grande parte do que pode vir a ser a sua carreira política. Num papel alegadamente arbitra, temos a Comissão Europeia (comandada por Ursula von der Leyen e pelo Partido Popular Europeu) a procurar aproveitar todas as oportunidades que se lhe oferecem para mostrar que tem a situação debaixo de controlo, o que está bem longe de ser o caso, tanto mais que a sua line to take varia em função da força do ladrão que lhe surge na ocasião. E assim vamos... até que a morte nos separe?

AS DUAS GUERRAS DA UCRÂNIA

 


(É trágico afirmar isto, mas a guerra que a Ucrânia trava com o invasor russo deixou de ter na opinião pública internacional o peso que assumiu nos primeiros meses após a invasão, talvez estendido ao primeiro ano após as hostilidades. Apesar do esforço de presença reivindicativa constante que Zelensky tem conseguido manter, desdobrando-se numa gigantesca energia diplomática em várias capitais europeias e mantendo com Trump e a restante administração americana uma paciência admirável para ir aguentando as mudanças de humor do Presidente americano em relação ao invasor Putin. Mas a verdade nua e crua é que o ataque dos EUA e de Israel ao Irão, pela ameaça bélica que representa e pelos efeitos devastadores que está a produzir na economia mundial, está a retirar palco à necessidade de continuar a demonstrar seja a monstruosidade russa, seja a criativa e engenhosa resistência ucraniana, pela sua bravura e pela capacidade tecnológica e de produção militar que tem revelado. Essa perda de impacto que tem sido observada na opinião pública internacional explica em parte que tenha passado algo despercebida a ideia de que afinal estamos com duas guerras na Ucrânia e não apenas uma. Explico-me.)

As duas guerras a que me refiro acontecem em espaços diferentes e desenvolvem-se com meios e estratégias militares também bastante diferentes. Obviamente que existiu sempre uma guerra mortífera, a que se trava nos territórios da invasão russa e onde as evoluções são incrementais na chamada linha da frente. As progressões da invasão russa e algumas recuperações que o exército ucraniano consegue alcançar são na prática incrementais, mas as informações que chegam desses territórios e confirmadas por fontes independentes dos dois beligerantes apontam para que a mortandade de jovens russos precocemente conduzidos à guerra seja nessas linhas da frente impressionante. Apesar disso, o impacto na sociedade russa dessas mortes em grande escala é largamente filtrado pelos meios de comunicação do Kremlin, pelo que no seu conjunto, não no universo das famílias atingidas, mas na sociedade em geral pode dizer-se que pouco se sabe do sacrifício que Putin está a impor aos seus cidadãos nas linhas da frente.

Mas nos tempos mais recentes há uma outra guerra, a de grande alcance e que se processa por cima das linhas da frente, com a Ucrânia a conseguir atingir alvos russos longínquos, essencialmente de três tipos, instalações energéticas, sobretudo petrolíferas, cadeias de abastecimento e navios que transportam petróleo e com a Rússia a fustigar violentamente cidades ucranianas, com relevo para a capital Kiev. Esta guerra processa-se sobretudo através de mísseis balísticos de longo alcance (que os russos exploram enquanto a dotação ucraniana de Patriots continuar a ser deficitária) e de drones cada vez mais tecnologicamente sofisticados e com maior poder de fogo e destruição (matéria em que os Ucranianos se têm especializado e notabilizado). Para a estratégia ucraniana, a possibilidade de alcançar territórios russos longínquos, incluindo a Crimeia, é fundamental para ultrapassar os filtros que Putin tem conseguido colocar na sociedade russa face à mortandade observada na linha da frente.

As duas guerras são obviamente interdependentes e disso depende a possibilidade de os russos chegarem a uma cada vez mais problemática negociação de paz em melhor ou pior condição para aceitar condições impostas pelos ucranianos. Não é ainda claro se essa interdependência poderá obrigar os russos a retirar meios e inteligência das linhas da frente para melhor combater os ataques de longo alcance que possam atingir o seu território.

Até ao próximo inverno será este panorama que chegará com alguma intermitência aos media internacionais. A situação em matéria de ganhos e perdas para os russos alterou-se significativamente, não sendo possível antever se o novo contexto poderá alterar a sua posição quanto à aceitação de negociações.

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

UM DOS ÚLTIMOS GRANDES HOMENS DO NORTE DEIXOU-NOS

 

(Estou de férias cá pelas bandas de Seixas e de Moledo, que recuperou praticamente a sua praia, embora com deslocamento do seu espaço disponível para sul, a zona que foi sempre tradicionalmente mais popular do que a zona norte. Não é período para estar permanentemente conectado, mas o alerta do meu colega de blogue, também a banhos pelas bandas da Póvoa de Varzim e um post do Amigo Professor Américo Mendes trouxe-me a notícia da morte do Professor Francisco Carvalho Guerra, 94 anos de vida cheia na ciência, na defesa da participação cívica, na promoção e protagonismo no associativismo florestal e sobretudo uma daquelas Vozes do Norte que quando se ouvia, era-o com estrondo e respeito. Curvo-me, por isso, perante um Homem que assumiu sempre as suas raízes a Norte, que deu a cara pelo projeto da Universidade Católica do Porto, que sempre lutou pelos desvios e derivas que experimentou no seu trajeto e que sempre se opôs claramente e com convicção ao centralismo lisboeta, que também existe no âmbito da Igreja portuguesa e que sempre olhou de soslaio a rebeldia que no Centro Regional do Porto existia e era cultivada por alguns dos seus protagonistas principais. Fico com a convicção de que talvez não estejamos preparados para substituir uma VOZ com esta potência e alcance, ele que não se expressava por vias indiretas e silenciosas, mas que punha a boca no trombone sempre que alguma deriva centralista o incomodava ou quando a incompetência e ambição regionais colocavam em risco o direito a uma interpretação dos rumos necessários para o país a partir de um território como o do Norte.)

O período da minha vida em que tive mais contacto com a força da natureza que o Professor Carvalho Guerra representava foi quando assumi por alguns anos a função de consultor da Presidência da CCDRN, passando por vários Presidentes, mas com relevo para Valente de Oliveira e Luís Braga da Cruz e quando no âmbito de uma colaboração entre a Faculdade de Economia do Porto e o Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa lecionava um curso de desenvolvimento económico no curso de Economia daquela Escola. Foi nesse período que tive oportunidade de em termos de trabalho concreto contactar com a força da VOZ institucional que Carvalho Guerra sempre associava ao seu trabalho, com o seu talento para a concertação interinstitucional nos tempos em que a CCDRN tinha esse papel vital e que era ouvida como tal e não como gestora de fundos europeus e sobretudo quando era necessário desancar sem piedade os impulsos centralizadores que desrespeitavam a inteligência a Norte.

É neste último plano que penso que institucionalmente o Norte não tem conseguido substituir estas Vozes potentes e esclarecidas, sendo substituídas frequentemente por atitudes subservientes, reproduzindo regionalmente métodos, atitudes e taticismos, disputando as migalhas que o centralismo costuma deixar no seu rasto para acalmar as rebeldias e comprar o seu silêncio cúmplice.

Percorro o meu conhecimento da Região e não encontro ninguém à altura da força de Carvalho Guerra. Isso entristece-me e não confundam isto com regionalismo serôdio ou passadista. Não, não é disso que se trata. Trata-se simplesmente de reivindicar o direito e o fundamento de ousar ter uma visão do País construída com outros mapas mentais e experiências de terreno que não as da corte submissa e interesseira.

Para mim, o Professor Carvalho Guerra encarnava como ninguém esse papel e estatuto.