
(O meu registo de interesses académicos assenta em raízes
incontornáveis que são os da economia do (sub)desenvolvimento, domínio em que
cheguei a acalentar a esperança de poder ter uma carreira universitária e de
investigação em exclusividade. Outros interesses se levantaram e essa
esperança, embora nunca abandonada, teve de ser partilhada com o mundo da consultadoria
até as forças recomendarem que a partilha de tempo já não era possível. Nesse
percurso agitado, os temas da economia da inovação e do conhecimento emergiram
como parceiros dos da economia do desenvolvimento e devo confessar que quando
chegou a reforma das lides universitárias foram os temas da inovação que
deixaram uma marca mais saliente, amenizadas por alguns trabalhos profissionais
nos quais, na companhia do Amigo Professor Mário Rui Silva, tive oportunidade
de continuar a trabalhar o tema. A economia portuguesa atravessa um estádio de
desenvolvimento em que a problematização da inovação se torna especialmente
atrativa, tema que me tem servido de inspiração para alguns artigos,
oportunidade única para ir acompanhando a literatura mais relevante, não
perdendo o fio à meada da reflexão mais conceptual. Esta longa introdução tem uma
justificação e ela deve-se essencialmente a um bem simpático convite do INESC
TEC e do seu Presidente Professor João Claro para participar na semana que vem
num painel de reflexão estratégica sobre as prioridades e domínios estratégicos
da nova Agência Nacional de Inovação, a AI2, de cuja controversa criação tive
oportunidade de um pouco contra a corrente publicar neste blogue algumas
reflexões pessoais. Conforme então expressei, o facto da criação da nova
Agência ter acontecido em simultâneo com um processo de fusão que implicou o
desaparecimento da FCT tal como os investigadores a conheciam suscitou um
ambiente de recriminações de toda a espécie por parte da comunidade científica.
Esse ambiente tornou-se pouco propício a uma discussão séria do alcance da nova
Agência. A ironia do processo deveu-se sobretudo ao facto de, embora a FCT
estivesse longe de ter uma presença assegurada e sem mácula no coração dos
investigadores, a verdade é que a sua integração numa Agência de Inovação
suscitou fantasmas e ameaças no universo da ciência portuguesa, que viu no
processo uma perda de poder e influência. Além disso, ter-se percebido que a
criação da nova Agência não tinha sido precedida de um estudo aprofundado por
parte do Ministério de Fernando Alexandre acirrou os ânimos. E, assim, de
amplamente criticada, a FCT viu-se apoiada, relativamente, pela generalidade da
comunidade científica. Mas esse não é o meu ponto para hoje.)
Temos, assim, no horizonte e já em
instalação uma nova Agência, para a qual se impõe a definição de prioridades em
matéria de domínios de atuação e de áreas de inovação a promover e a apoiar.
Vou tentar neste post alinhar
algumas ideias para elaborar o meu contributo reflexivo.
Primeira reflexão
A primeira ideia foca-se no contexto
muito particular em que as prioridades da AI2 irão ser definidas. Todos os meus
referenciais de economia da inovação, que aprendi e lecionei, foram forjados
num clima de economia mundial bem determinado, com progressão antecipada e
calculada, ainda que por vezes com ritmos de evolução não compatíveis com previsões
anteriores. Diria que o fator de incerteza existente se circunscrevia à questão
do ritmo de evolução e não aos domínios através dos quais essa evolução se
concretiza.
Definir hoje prioridades
estratégicas para uma AI renovada acontece num contexto totalmente distinto,
que poderíamos caracterizar por incerteza dinâmica, à qual é praticamente
impossível associar um cálculo probabilístico. Quer isto significar que
questões como voluntarismo, risco, flexibilidade, consistência das escolhas
estratégicas para estes tempos devem ser totalmente reconsiderados.
Devemos inclusivamente
interrogar-nos se aquilo que considerávamos ser boas práticas e soluções
vencedoras para tempos menos indeterminados o serão para tempos mais incertos e
conturbados. Não sabemos ainda se os conceitos e contornos das cadeias de valor
globais terão ou não de ser completamente redimensionados. Por outro lado, vão
emergir com força e poder de captura de recursos orçamentais novas agendas
públicas, com relevo para a segurança e defesa, competindo com outras agendas que
começavam a instalar-se, como por exemplo a da descarbonização.
É neste contexto que a AI2 terá de ser
definida e só o refiro porque em grande medida os grandes referenciais da
economia da inovação foram concebidos em tempos de menor indeterminação. Não sei
se isso equivalerá a sair-nos em sorte a fava ou se, pelo contrário,
oportunidades inesperadas surgirão.
Segunda reflexão
Falámos de domínios estratégicos com
agilidade, mas a sua operacionalização está longe de estar adquirida no nosso
sistema científico e tecnológico nacional, que na economia da inovação
designamos de sistema de inovação, com diferentes configurações territoriais.
E não está totalmente adquirida
porque a definição desses domínios estratégicos deve corresponder aos
interesses da diversidade de stakeholders que povoa e anima o referido sistema:
investigadores, tecnólogos, infraestruturas, instituições de formação, empresas
incumbentes e novas empresas. Por isso, a definição desses domínios estratégicos
não deve corresponder nem a áreas científicas, nem a setores de atividade,
quando muito algo que se integre bem com as capabilities tecnológicas
dos territórios, neste caso do Norte como espaço de referência. A teoria dos
sistemas de inovação e das estratégias de especialização inteligente ensina-nos
como devemos operar, mas o nosso sistema científico e tecnológico tem tido
dificuldades em concretizar essas orientações. Sabemos que a definição de
domínios estratégicos de inovação a explorar resulta, por um lado, de processos
verticais e descendentes, com lógica de planeamento rigorosa e grande
incorporação de conhecimento sobre estado da arte e oportunidades tecnológicas.
Mas essa lógica racional tem de ser habilmente combinada com práticas mais
ascendentes, bottom-up, relacionados com processos de descoberta
empresarial. Ora, esta combinação exige longos processos de aprendizagem organizacional,
coletiva e em cada instituição ou entidade e poderemos dizê-lo essa não é ainda
a nossa praia. Já escrevi em alguns artigos e trabalhos profissionais que essa
menor competência se deve em parte a uma deficiente representação do sistema de
inovação. Para muito boa gente, o sistema de inovação tem no seu núcleo central
o sistema científico e, para mim, essa não é a representação mais operativa. A
representação mais pertinente coloca as empresas potencialmente inovadoras,
incumbentes e start-up’s, no núcleo desse sistema. Sei que isto não é
pacífico. Podem existir variantes e sem dúvida a inovação institucional pode
povoar a relação entre as empresas e o sistema científico com diferentes engenharias
institucionais. Mas isso cabe às dinâmicas dos sistemas concretos encontrar as
fórmulas mais pertinentes.
Terceira reflexão
A terceira reflexão prende-se com
uma ideia que gostaria de propor ao painel em que vou participar, que está
relacionada com o estádio em que a inovação da economia portuguesa se encontra.
Esta reflexão foi-me sugerida essencialmente pela minha participação nos
trabalhos técnicos que conduziram à Estratégia Nacional de Especialização Inteligente,
ainda dirigidos à antiga ANI.
Em meu entender, a consolidação do
sistema científico e tecnológico nacional e os avanços observados nos
indicadores de inovação foram operados essencialmente ao longo de uma fase que
caracterizaria sucintamente como: incorporar conhecimento e científico e
tecnológico nacional através de processos de inovação incremental, registados
no que designaria de atividades com sólido saber-fazer nacional. Do vinho à
metalomecânica, passando pelo têxtil, vestuário e calçado, cerâmica, entre
outros, essa inovação incremental conduziu essas atividades a uma sólida evolução,
ainda que sem ganhos espetaculares de produtividade (limitação reconhecida essa
a dos ganhos de produtividade aparente do trabalho não serem de largo
espectro). E este processo corresponde bem a uma economia que era essencialmente
follower do ponto de vista da inovação, com a difusão do progresso técnico
a ser virtuosamente aplicada ao serviço de estratégias conducentes a uma maior
autonomia tecnológica.
Mas esta já não é a situação atual
da economia portuguesa ou, pelo menos, o modelo anteriormente descrito já não
explica toda a dinâmica de inovação emergente. O que mudou então?
Certamente que o novo mundo de
aplicação das chamadas tecnologias digitais e de descarbonização poderá prolongar
os já mencionados processos de inovação incremental. O que em meu entender está
a acontecer é que no âmbito dessas tecnologias de aplicação estão a surgir
oportunidades de novas atividades tecnológicas e negócios que já não são
compagináveis com processos de inovação incremental. Poderão estar a surgir
novas oportunidades, cuja aposta e potencialidades de sobrevivência vão
implicar escolhas mais complexas e com maiores desafios de indeterminação. Seguramente
que a economia portuguesa não vai passar do predomínio da inovação incremental
ao mundo aliciante da inovação disruptiva. Mas que estão a emergir oportunidades
mais disruptivas disso não tenho dúvidas.
Uma coisa é fazer escolhas de
inovação incremental em atividades que correspondiam ao que sabemos fazer. Outra
coisa bem mais desafiante e isso cai sobre os ombros da nova AI2 é fazer
escolhas de rumo em domínios mais disruptivos nas quais o nosso saber-fazer
está ainda em construção e que exige escalamento e experimentação. O diálogo incremental-disruptivo
oferece ainda um elevado potencial na economia portuguesa, mas em domínios mais
específicos o disruptivo pode oferecer novas oportunidades. Elas existirão por
certo no vastíssimo mundo das tecnologias digitais, na área dos materiais, das
tecnologias de descarbonização e de novas fontes energéticas, não esquecendo
domínios ainda mais excêntricos ao nosso perfil de especialização, como por
exemplo as tecnologias espaciais e de observação da terra.
Resumindo, um mundo fascinante este
o da definição de atividades transformativas que podem conduzir ao interesse
objetivo de diferentes stakeholders, exigindo a tal combinação de lógicas mais
verticais e de planeamento e dinâmicas mais ascendentes e de descoberta
empresarial. Creio que esta combinação não corresponde ainda a um saber-fazer
coletivo adquirido. Importa por isso começar e aprender com os erros, que afinal
foi esse também o modelo seguido pelas tais atividades em que o nosso
saber-fazer é sólido.
Talvez ainda regresse ao assunto,
antes da próxima sexta-feira.
Com os meus agradecimentos ao INESC
TEC convite que é em si próprio um excelente estímulo à reflexão.