domingo, 19 de julho de 2026

FINALMENTE, A FINAL

 


Capas dos jornais de hoje na Argentina e em Espanha, todas puxando pelas respetivas seleções nacionais na grande final de logo à noite. Sempre salientando Messi e Lamal como as suas grandes figuras simbólicas, os argentinos dirigem-se ao seu ídolo com um “o último que te peço” (e bem podemos dizer que foi ele quem os carregou até aqui!) e os espanhóis, mais coletivos, salientam naquele criativo título da “Marca” a sua vontade de repetir com um “há que lhe dar uma irmãzinha” (para acompanhar, obviamente, a única copa ganha pelo país em 2010). Polémicas e pequenos favorecimentos à parte, e houve-os pontualmente em favor dos argentinos (Messi joga no Inter de Miami, Infantino é subserviente a Trump e o presidente não gosta de Sánchez e adora Milei), a verdade objetiva talvez se possa sintetizar na afirmação de que disputam a vitória as duas equipas mais capazes e completas que passaram pelos estádios americanos, canadianos e mexicanos. Mesmo se o Inglaterra-França de ontem (com um espantoso 6-4!) deixou a ideia de que uma e outras destas seleções também podiam aspirar legitimamente à final, não foram as táticas medrosas de Thomas Tuchel e enleantes de Luis de la Fuente nas respetivas meias-finais. Que vença o melhor!

RESEIRICE COMO PANO DE FUNDO


(Suas Senhorias as ministras da Saúde e do Trabalho estão por agora de costas folgadas, esquecendo as amarguras da sua governação, porque, entretanto, a trapalhada dos exames e dos atrelados e obras em propriedades transportou para a voracidade das notícias os seus colegas da Educação e da Administração Interna. Como estes colegas eram as “estrelas” do governo de Montenegro, as duas ministras viram finalmente reduzida a pressão mediática que pairava sobre as suas cabeças, a primeira devido a um problema estrutural que continua por resolver e a segunda pela sua teimosia digna de quem está à beira de um ataque de nervos e dos fortes. Quanto ao problema dos exames ele já mereceu atenção suficiente neste blogue, estando convicto que os problemas mais sérios vão começar agora a emergir depois de alguns dos resultados terem sido publicados. A máxima de que o que nasce torto nunca se endireita vai aplicar-se aqui na perfeição e o ministro Fernando Alexandre vai ter seguramente as férias comprometidas. Cumpre dizer que outro ministro vai estar implicado, Gonçalo Matias, ministro da Reforma Administrativa, já que estou seguro que o mesmo acicatou o Ministro da Educação para não recuar nos seus propósitos kamicaze de digitalização. Resta-me, por isso, aguardar o desenvolvimento dos acontecimentos para compreender a real magnitude dos dados que irão ser observados. Mas, do ponto de vista do que costumo designar de “sociologia da governação”, o caso do ministro da Administração Interna é bem mais interessante e, por isso, vou nele concentrar-me.)

Cada cavadela, cada minhoca. É essa sensação que se experimenta à medida que os pormenores do caso vão sendo desvendados, sobretudo na sequência do que o jornalismo de investigação permitiu concluir. E, por melhor impressão que a passagem do ex-Diretor da Polícia Judiciária para o ministério da Administração Interna tenha causado, num raro momento de confluência entre diferentes forças políticas, a verdade é que o caso espelha melhor do que outra qualquer evidência a pequenez foleira que ainda está implantada na sociedade portuguesa. A sucessão de evidências comprometedoras é deveras impressionante.

Comecemos pela empresa (ai Barcelos, há outras maneiras de aparecer nas notícias) que está no centro das atenções. A sua precariedade é manifesta e o melhor indicador é o facto de nem sequer ter neste momento o seu alvará de construção atualizado. Depois, o nacional porreirismo do então Diretor da Polícia Judiciária é de bradar aos céus, utilizando os serviços de uma empresa que contratava com a PJ para realizar obras no seu monte de Odemira, assumindo uma indiferença comprometedora com a confusão entre os planos da contratação pública (que já agora deveria ser investigada) e a mobilização da mesma empresa para obras privadas. Existe ainda a questão de saber se as obras do tal tanque/piscina que aparece nas imagens respeitaram a legalidade de implantação urbanística. Existe ainda a questão das madeiras da REFER que terão sido utilizadas no monte do ex-Diretor da Polícia Judiciária em mais uma demonstração de que para esta gente os limites entre o público e o privado são muito nebulosos. E, por fim (admitamos que sim), levanta-se a questão do atrelado que fora apreendido no âmbito de uma operação de grande envergadura contra o tráfico de droga que apareceu parqueado nas instalações da empresa de Barcelos, alegadamente retirado com autorização do próprio ex-Diretor da Política Judiciária. As declarações da jornalista Felícia Cabrita (que ressurge assim em casos de foro mediático alargado) sugerem que existirá material adicional. Eis como uma das estrelas do governo empalidece gravemente e fica desprovida do seu brilho por força da foleirice que grassa entre a massa crítica de pessoas mobilizáveis para cargos públicos e para a classe política. Os casos de foleirice são tantos que, existindo um check up das situações possíveis que podem configurar problemas posteriores, o rol de condições é tão grande que, antes de começar a responder a tais critérios, o candidato já terá debandado, comprometido com os possíveis conflitos de interesses e desvios éticos reprováveis.

E a pior sensação que este caso provoca é a ideia de que se trata de comportamentos, práticas e desvios que são comuns e generalizados. A reação mais lógica que me assiste é a de rever todas as apreciações positivas que a indicação de Luís Neves para Ministro da Administração Interna suscitou, incluindo algumas intervenções corajosas sobre a desmistificação das condições de segurança e da sua associação ao crescimento da população imigrante. Afinal, pensando bem, questões de competência e coragem políticas estão a ser comprometidas com estas manifestações da foleirice mais interesseira. Isso é que representa em meu entender a maior fonte de preocupação e, tratando-se de práticas enraizadas na sociedade portuguesa, então a preocupação adensa-se ainda mais.

Entretanto, para o primeiro-Ministro nada disto é relevante, o que sugere fazer ele parte do tal estado de coisas enraizado na sociedade portuguesa. Afinal, nada disto nos deveria surpreender. Não emanam os políticos dessa sociedade?

 

sexta-feira, 17 de julho de 2026

RETALHOS LUSITANOS

 

A sondagem do Cesop (Universidade Católica), divulgada pelo “Público”, é elucidativa do estado de transtorno e paralisia que grassa na sociedade portuguesa: só 12% dos inquiridos entendem que o país está melhor do que há um ano mas 79% dos ditos consideram que o melhor para o país seria que o Governo cumprisse o seu mandato até ao fim (apesar de as últimas sondagens partidárias indicarem também que o PS comanda as intenções de voto e a AD ocupa o terceiro lugar ou disputa o segundo com o Chega). Bloqueados estamos, portanto, visivelmente incapazes de percecionar alguma saída política minimamente confortável e confiável.
 
Se olharmos em volta, os indícios desta desorientação são de toda a ordem. Junto de seguida alguns: o primeiro-ministro a correr desesperadamente atrás dos fundos europeus e da execução do PRR e a contar aos seus concidadãos uma fábula em torno da nossa obrigação de cada vez mais não dependermos de fundos europeus; o “patrão dos patrões” a pedir um “sobressalto da nação produtiva” em prol de uma interesseira e mais do que discutível reforma laboral; os serviços públicos a darem sinais de deslaçamento, umas vezes na Saúde, outras na Educação, outras na Mobilidade, outras ainda nos recursos básicos (como a falta de água em Almada); os imigrantes a surgirem recorrentemente como os grandes culpados de todo o mal que nos atinge, mesmo quando se regista com clareza a sua importância para a estabilidade da Segurança Social – e para o funcionamento do País num número crescente de setores e regiões, sem prejuízo das chamadas “portas abertas” que o Governo de António Costa irresponsavelmente patrocinou.

(cartoon de Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt)

 

A tudo isto não será ainda alheio o facto das nossas qualificações. Sim, enchemos a boca com a geração mais preparada de sempre mas não valorizamos seriamente, como devíamos, a presença entre nós de 36,3% da população em idade ativa sem ensino secundário, dito de outra maneira, de pessoas que mais não são capazes de compreender do que textos simples e matemática básica. E quando assim é, não há milagres que nos salvem de uma apagada e vil tristeza...

quinta-feira, 16 de julho de 2026

PATÉTICO!

 
(Missão Escola Pública, https://www.facebook.com

A meio desta manhã do dia em que os exames nacionais deveriam estar corrigidos de forma a que as suas notas sejam publicadas amanhã, Fernando Alexandre convoca os jornalistas para um local esconso e faz uma declaração desesperada em que apela aos professores no sentido de um último esforço conducente ao encerramento do processo de correção de exames em várias disciplinas ainda em aberto (por décimas ou milésimas, referiu).
 
Entre pedidos de desculpa e lamentos piedosos, o ministro da Educação logrou assim – mais do que suscitar uma compreensível vergonha alheia por parte dos seus concidadãos... – que fosse atingido o clímax de compaixão alguma vez relevado na democracia portuguesa, numa prestação que não desejaria ter observado na pessoa do meu pior inimigo.
 
É tempo de se deixar de politiquices mais ou menos bem-intencionadas e de voltar a Braga e à Universidade do Minho para se dedicar ao que melhor sabe fazer, meu caro Fernando Alexandre!

O FUTURO PROMISSOR DA ORQUESTRA XXI

 


(A noite de ontem tinha a atração do Argentina-Inglaterra, sempre picante, mas com o otimismo da alma argentina poder sobreviver à onda destrutiva dos Milei deste mundo. Apesar dessa atração, pesou mais o concerto da Orquestra XXI na Casa da Música, visualizando depois o que antecipava poder ser um jogo épico. E posso afirmar com segurança que não me arrependi dessa decisão. O meu entusiasmo assentava em três razões relevantes. Primeiro, o projeto em si. A Orquestra XXI que poderíamos considerar ser a diáspora portuguesa de jovens músicos por todo o mundo é daquelas coisas que faz bem à alma dos portugueses mais amargurados, dada a qualidade que está assente naquela juventude. Segundo, era a primeira vez que assistiria em público a uma direção do maestro Dinis Sousa, que para mim, entre outros importantes cartões de visita e reconhecimento em diferentes orquestras por todo o mundo, tem a importante referência de ter substituído John Elliot Gardiner, era o seu assistente, quanto este destrambelhou e começou a ser inconveniente por razões psicológicas com as orquestras e artistas que dirigia. Dinis Sousa assumiu essa responsabilidade e as referências que recebeu por essa prestação em tão difíceis condições elevou o seu nome na crítica internacional e nas revistas da especialidade (Diapason, BBC Music e Grampphone). Terceiro, porque o programa era aliciante – uma estreia internacional de uma compositora portuguesa residente nos EUA, Andreia Pinto Correia, a combinação do concerto para piano e orquestra de Grieg em lá menor e a Sinfonia do Novo Mundo de Dvorjak e a possibilidade de visualizar pela primeira vez, no concerto de Grieg, uma jovem pianista Marie-Ange Nguci. Creio que o auditório da Guilhermina Suggia reconheceu a qualidade desta combinação, proporcionando a Dinis Sousa, a Marie-Ange Nguci e aos jovens da Orquestra XXi uma das maiores ovações a que já assisti naquele auditório.)

Tratando-se de artistas, o maestro e os elementos da Orquestra XXI, que fazem vida artística no estrangeiro, a iniciativa de os manter em rede e contacto através desta iniciativa é das únicas que conheço, na qual existe a preocupação de combater a atomização que regra geral define a nossa presença no mundo, em flagrante oposição com o que se passa com algumas “tribos-comunidades” de diásporas conhecidas. A qualidade da orquestra é superlativa e no concerto de Grieg a identificação da pianista com a direção de Dinis Sousa e o desempenho da orquestra foi sublime, com a vantagem de ser uma obra conhecida e que entra com facilidade nos nossos ouvidos incultos e impreparados. Ficamos sempre com aquela interrogação amarga na cabeça: quando e como será possível conseguir que grande parte deste talento se fixe no país? Quando teremos capacidade de iniciativa institucional para capitalizar esta virtuosa passagem por grandes orquestras deste mundo de tanto talento?

Se alguém tinha dúvidas, a pujança com que a Sinfonia do Novo Mundo foi abordada entregou o auditório à mais pura fruição do momento. Decididamente não era uma orquestra de principiantes que tínhamos a oportunidade de ver e ouvir. E foi gratificante ver que, nos aplausos finais, os elementos da orquestra se saudavam a abraçavam, a prova mais explícita de que a Orquestra XXI é também uma forma de afetividade coletiva.

O texto do programa, organizado pela própria Orquestra XXI, é especialmente feliz quando se afirma: “Na Orquestra XXI, há um país que se dá a conhecer através do talento e da sensibilidade artística. Um país que se faz ouvir pelo mundo e que na orquestra se encontra para recordar de onde vem”. Aqueles abraços no palco significavam precisamente e nada mais do que isso.

Nota complementar

No pós-visualização do Argentina-Inglaterra confirmei uma vez mais a existência de uma alma argentina, a insuperável leveza e inteligência de Messi e a confirmação de que Tuchel, alemão selecionador de Inglaterra pode dedicar-se a outra coisa, plantar batatas ou o que quer que seja. Fazer recuar a equipa depois do golo alcançado, colocando fora jogadores que interpretam o ataque como ninguém e defender com cinco ou seis jogadores é dos erros mais trágicos que alguma vez vi em jogos de futebol.

 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

SOBRE A AGONIA DO BLOCO

 

“Todos ralham e ninguém tem razão” será talvez a melhor síntese da mais recente, e significativa, cisão ocorrida no Bloco de Esquerda e ontem comunicada. Com efeito, e na sequência de outras já verificadas, a desfiliação de um grupo de 60 militantes do Bloco (incluindo Mário Tomé e Pedro Soares como nomes mais sonantes, este último que foi um deputado ativo e competente) – classificada pela Direção liderada por José Manuel Pureza como mais uma etapa de “ação coordenada” e “decisão programada e repetidamente anunciada na comunicação social” por parte dos críticos internos – não deixa de constituir, objetivamente, mais um golpe num partido que chegou a desempenhar um papel importante na política portuguesa e que o perdeu por sua obra e graça e consequente aproveitamento de António Costa.

 

Embora por mera coincidência de timings, o facto permite-me voltar ao post de anteontem para avançar mais alguns elementos sobre a desorientação que grassa na esquerda nacional (e internacional, já agora). Porque o que parece guiar a saída dos ditos críticos internos vai simultaneamente ao arrepio e ao encontro do que necessita uma esquerda adaptada aos tempos presentes. Por uma banda, adiantam-se argumentos estafados e insuscetíveis de mobilizar uma franja minimamente representativa dos cidadãos – que o “núcleo dirigente” fez do acordo e continuidade da “geringonça” uma estratégia política “que o fez perder autonomia”, que o partido se confundiu “com a prática do Governo” e “passou a ser visto como um apêndice do PS”, que cedeu em áreas como a da Saúde e da Habitação, que “não foi claro na recusa da ofensiva contra lutas sindicais” e o pacote laboral e “fugiu a quem trabalha” (citando Tomé), que fez da ação no Parlamento o cerne político, que assim se rendeu “a uma social-democracia por sua vez dissolvida no neoliberalismo”; tudo evidências de um posicionamento excessivamente ideologizado e que colhe cada vez menos. Por outra banda, explicitam-se razões que indiciam a presença de uma organização partidária envelhecida por práticas demonstradamente inconsequentes – “centralização da atividade”, “organização de base desprezada”, cerceamento da democracia e da participação, recusa de uma reflexão autocrítica e de qualquer balanço da ação política, insensibilidade à crítica interna, “perseguições” a militantes, em suma, uma imposição autocrática na esfera interna (e não há fumo sem fogo...) que contraria as crescentemente imprescindíveis essências de democraticidade e transparência numa época dominada pelas redes sociais e pela inteligência artificial.

 

Um aspeto específico merece ser ainda referenciado em sentido oposto ao assumido pelos críticos: o que se liga à acusação do secretariado do Bloco de que as divergências dos dissidentes se manifestam desde há muito, nomeadamente na crítica da posição solidária do Bloco com o povo ucraniano, vítima da invasão de Putin”. Aspeto que aqueles confirmam ao sustentarem que o partido mostrou apoio à guerra da Ucrânia e enquadrou a mesma como uma “luta pela autodeterminação”, em vez de se ter focado em denunciar a “intervenção da NATO a Leste” – uma narrativa que é, no mínimo, duvidosa...

 

Tudo aponta, nesta zona do espetro político, para um declínio imparável que, quase paradoxalmente, parece dar razão aos críticos internos do Bloco, agora ex-militantes: sim, tudo conduz a sugerir que o partido acabou, tudo corrobora quanto o partido “não mostra capacidade de interpretação da realidade ou vontade de agir” (citando Tomé), tudo tende a atestar a inexistência de “um projeto autónomo credível”. Mas o verdadeiro busílis da questão está longe da orientação que eles pretendiam fazer ressaltar quando lamentavam, na conclusão do seu comunicado, “ o fim de um projeto que se destinava a unir amplos sectores da sociedade por uma alternativa contra a hegemonia neoliberal, tendo como horizonte a radical transformação da sociedade”.

 

Muito TPC à vista para as hostes que trouxeram Francisco Louçã, Luís Fazenda, Fernando Rosas e Miguel Portas, seguidos depois de outros como Mariana Mortágua, ao palco do espaço político nacional, deles sendo exigível que não abandonem o barco que coletivamente construíram como meros ratos tolhidos pela cegueira e pela surdez e por uma intolerável irresponsabilidade...