terça-feira, 25 de agosto de 2026

UCRÂNIA ANO 35

(Nicola Jennings, https://www.theguardian.com) 

Ontem foi o dia do 35º aniversário da independência da Ucrânia, com um terço desse período a ter sido marcado por uma situação bélica mais ou menos generalizada (a questão da Crimeia começou em 2014). Os líderes europeus lá voltaram a Kiev pela enésima vez, assinalando a estreia de Andy Burnham numa comitiva política da “Coligação de Vontades” encabeçada por um António Costa que já vai em cinco visitas e que não cessa de dirigir a mesma e inútil mensagem à Rússia (“está na altura de parar esta guerra, de parar de matar pessoas, de parar de destruir infraestruturas, de parar de atacar objetivos civis e dar uma oportunidade para que se possa negociar a paz”).

Isto enquanto Ursula von der Leyen declarava em Bruxelas que “hoje, aprovámos €6,1 mil milhões para os sistemas de defesa aérea e antimíssil, mísseis, munições e radares de que a Ucrânia necessita urgentemente”, um financiamento que faz parte do empréstimo de apoio à Ucrânia de €90 mil milhões e que nos conduz a uma interrogação fundamental sobre os inevitáveis limites da dimensão do “saco” europeu visando esta finalidade, nomeadamente quando a União se defronta com uma série imensa de outras prioridades igualmente identitárias ou vitais (da competição internacional aos desafios tecnológicos, da coesão interna a múltiplas questões de affordability) – um catch 22 que não parece resolúvel, ademais com o ambiente político reinante (i.e., marcado pelo peso imobilizador da extrema-direita nacionalista) e com a mediocridade de decisores sem rasgo e capturados pelo business as usual.

 

Zelensky faz meritoriamente a sua parte e é até largamente exímio na forma e no conteúdo dos seus pedidos/ultimatos junto dos europeus e outros aliados (e, mais pontualmente, no enfrentamento da volubilidade dos americanos), também porque a necessidade aguça o engenho – o buraco do seu orçamento de defesa está nos 27 mil milhões de dólares – e porque os sinais de crise política interna (entre demissões por corrupção e o caso da rotura entre o ex-ministro da Defesa Miykhailo Fedorov e o comandante do exército do país) se multiplicam, sempre com a hipótese de realização de eleições presidenciais (devidas desde 2024 mas adiadas por força da lei marcial vigente em associação à presença de uma situação de guerra) a pairar – aqui, as opiniões populares parecem ir no sentido de favorecer a posição de Zelensky contra a de Fedorov. 

 

Em síntese, uma reiterada e desconfortável sensação de intermezzo, faltando porém saber-se o essencial: será que estão minimamente controlados os danos que uma incerteza quase radical nos faz adivinhar e será que temos algum tipo de perspetiva sobre para onde estamos a encaminhar-nos? Ou vamos confiar, de consciência tranquila pois claro, num sempre irritante e pouco persuasivo “seja o que Deus quiser”...

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

CURIOSIDADES EM TORNO DE UM REGRESSO

Começou o futebol europeu a doer (centro-me essencialmente nas “Big 5 Leagues”) no último fim de semana – início da “Premier League” inglesa, da “Serie A” italiana e da “Ligue 1” francesa, além de uma verdadeira abertura da “La Liga” espanhola (devido a Real Madrid e Barcelona também só terem arrancado neste Sábado), sendo que apenas a “Bundesliga” arranca na semana próxima –, com jogos já disputados em alto ritmo e superior nível de qualidade (destaco o Manchester City-Bournemouth e o Newcastle-Liverpool, o Atlético de Madrid-Villarreal e o Stade Rennais-PSG).

 

Dado que há muito me interrogo sobre o historial destas ligas, assumo ser hoje o momento adequado para algumas incursões de estrita curiosidade nessa matéria. Deixo aos leitores cinco infografias atualizadas sobre os grandes números de cada um desses campeonatos, deixando-lhes o espaço que entenderem para os tratarem de acordo com os seus próprios critérios e limitando-me a alguns sublinhados genéricos que me pareceram mais pertinentes.

 

Abro com a “Premier League” (“First Division” até 1991/92), em disputa desde 1888/89 (com interrupções mas Grandes Guerras Mundiais), onde a supremacia é irmãmente dividida entre o Liverpool e o Manchester United (com o Arsenal no terceiro lugar do pódio) e nada menos de 24 formações já foram campeãs (incluindo, entre os pequenos, o Leicester City em 2015/16 e o Preston North End, atualmente no “Championship”, nos dois primeiros anos de torneio em finais do Seculo XIX).

 

Prossigo com “La Liga” (desde 1929), onde a hegemonia é merengue (Real Madrid com 36 títulos) e os catalães do Barça são o grande challenger (29 conquistas) e um total de 6 equipas já venceram o troféu (Bétis, Sevilha e Corunha somente uma vez e Real Sociedade por duas vezes, com Atlético de Madrid, Atlético de Bilbau e Valência a serem os segundos melhores por esta ordem).


Em seguida, veja-se a “Bundesliga” (lançada em 1963/64) e a sua antecessora, com os registos iniciais a datarem de 1903 e a serem fortemente influenciados pelas vicissitudes político-militares do Século XX (note-se, por exemplo, que o Rapid de Viena foi campeão alemão em 1941 e que o primeiro vencedor foi o Lokomotiv de Leipzig), onde o destaque absoluto é do Bayern de Munique (35 vitórias contra 9 do segundo mais titulado e atualmente muito afastado das grandes lides, o FC Nurenberga, e 13 dos últimos 14 títulos disputados, quebra apenas ocorrida devido à conquista do Bayer Leverkusen de Xavi Alonso em 2014) – outras equipas a registar são o Borussia de Dortmund em terceiro lugar histórico (8 vitórias) e o Schalke 04, o Hamburgo, o Estugarda, o Borussia de Mönchengladbach, o Werder Bremen e o FC Kaiserslautern com mais de três e por ordem decrescente de sucesso.

 

A “Serie A” é toda uma outra e rica história que vem de 1898, onde pontua a “Vecchia Signora” (Juventus de Turim) com os seus 35 títulos, muito à frente dos rivais milaneses (Inter e AC Milan, por esta ordem) e, obviamente, dos restantes treze que já levantaram o troféu e nos quais se contam equipas hoje relativamente modestas no contexto (Génova, Bolonha e Torino) e uma que anda pela “Serie C” (Pro Vercelli), todas em posição mais saliente do que o Nápoles, a Roma, a Fiorentina e a Lázio).




Termino com a “Ligue 1”, onde já se registaram 19 vencedores (se considerarmos o período pré-histórico iniciado em 1894 seriam 28) com o recente domínio avassalador do PSG (doze dos últimos catorze títulos disputados, já sob o controlo de um grupo do Catar) a já ter ido a ponto de o tornar o clube historicamente mais vezes ganhador (apesar de apenas ter sido criado em 1970); o “velho” Saint-Étienne (por onde andou Michel Platini e que está agora na divisão secundária) e o Olympique de Marselha estão taco-a-taco no lugar de segundos (dez ligas, embora os marselheses dele tenham sido despojados em 1992/93 por corrupção), o Monaco e o Nantes são terceiros (oito ligas), seguindo-se-lhes o Olympique Lyonnais (curiosamente com a sequência recorde de sete vitórias entre 2002 e 2008, aliás as únicas conseguidas pelo clube) e o Girondins de Bordéus e o Reims à frente do Lille (que ostenta também o prestígio de um dos seus fundadores, o Olympique Lillois, ter sido o primeiro campeão) e do Nice.

 


Não haverá propriamente conclusões a retirar de todo este panorama, mais pleno de informações curiosas do que de qualquer tipo de lições que não sejam as enormes diferenças existentes entre as várias realidades sob cotejo. Talvez que a mais óbvia moral a retirar de todos os elementos apresentados seja a de ali residir um dos fundamentos da força do futebol inglês de clubes – muito mais concorrencial do que os restantes quatro considerados – e, em alguma medida, do interesse competitivo (embora com perdas qualitativas associadas a uma menor capacidade financeira) da “Serie A” italiana. A liga espanhola situa-se numa posição intermédia, por força da expressão incomparável da realidade Real-Barça (com o Atlético a cheirar um espaço de entrada), enquanto os campeonatos alemão e francês começam a ser mais marcados pela disputa dos lugares seguintes ao vencedor e às qualificações para a Champions. Realidades estas, todas elas, que os sinais existentes tendem a apontar como em vias de prolongamento na época que se inicia – as perguntas de mais difícil resposta vêm de Inglaterra e Itália, onde a hierarquia de maio de 2027 surge como altamente imprevisível.

O ABSURDO DA FOME É DOMINANTEMENTE AFRICANO

 


(Andava muita gente convencida que isto das mudanças climáticas poderia estar a beneficiar o centro e o norte atlântico e julho e a primeira metade de agosto pareciam confirmar essa previsão. Mas todo o litoral centro e norte está a braços com borrascas e chuva que bastem, com forte prejuízo para os que decidiram vir até Caminha nesta semana de 24 de agosto, que assim terão de desafiar a sua imaginação mais criativa para justificar viagem e investimento que fizeram. Os que já cá estão há mais tempo, como eu, encolhem os ombros, afinal o hábito vem de longe e transformam-se em ruminantes do tempo e da reflexão. É nesse contexto que surge a reflexão de hoje. Em tempos de avanço tecnológico como os que vivemos é um absurdo estranho e incompreensível trazer a FOME para o centro da reflexão. Mas se pensarmos bem, esse absurdo não é de hoje, foi recorrente no passado. A escassez ou a inexistência de alimentos para alguns sempre foi inexplicável considerando o potencial tecnológico e de produtividade. É verdade que se conseguiram progressos assinaláveis na redução da pobreza absoluta, graças especialmente aos avanços na China, mas essa redução não logrou erradicar o espectro da fome. Essa mancha negra está hoje essencialmente centrada no continente com maior potencial demográfico do mundo, o que constitui em si próprio um sinal cruel dos nossos tempos. O continente que melhor poderia tirar partido do potencial demográfico que apresenta, quando o mundo dominantemente envelhece, é também aquele em que os problemas da subnutrição e da fome mais estão localizados. Além dessa mancha global, as imagens que nos chegam de Gaza prolongam essa dura realidade a uma população que está a mercê da mais cruel violência israelita. Sim, pelo que está a perpetrar em Gaza e na Cijordânia, Israel está por sua conta e responsabilidade a esvair a memória do Holocausto que ficará para o mundo nos tempos vindouros.)

O estado da saúde alimentar e nutrição no mundo recentemente publicado por instituições internacionais a FAO das Nações Unidas, o Programa Alimentar Mundial e o IFAD (International Fund for Agricultural Development) alerta-nos para a existência no mundo de 7,8% de incidência de fenómenos de subnutrição na população mundial e para 644,6 milhões de pessoas nessa situação. Se no plano global a incidência da subnutrição está praticamente constante, com ligeiríssimas descidas nos últimos 15 anos com aumento do número de pessoas em situação de subnutrição, o que poderia alimentar algum ligeiro otimismo sobre a possibilidade de fazer baixar esses números com uma melhor utilização e distribuição do potencial tecnológico existente, quando olhamos para a distribuição espacial do fenómeno esse otimismo desaparece. A África emerge com números devastadores – 20% de taxa de incidência de fenómenos de subnutrição e mais de 50% das pessoas nessa situação, estimadas em 309,2 milhões de indivíduos.

São números avassaladores, que o são tanto mais quanto se sabe que o crescimento económico não está ausente nas duas últimas décadas do continente africano e que aquele continente apresenta, no contexto de envelhecimento mundial galopante, um potencial demográfico indesmentível.

O paradoxo a que aludia parece estar a transformar-se num problema dominantemente africano, com especial relevância na África subsaariana.

Quando a Europa se choca e até enraivece com o fenómeno das migrações e com a cor da pele dos que conseguem desesperados chegar a um destino alternativo, como em Ceuta, talvez fosse conveniente recordar estes valores sobre a subnutrição e sobre a fome e sobretudo interrogar-se sobre o que fizeram e o que podem fazer no futuro para o mitigar.

 

domingo, 23 de agosto de 2026

OS TÍTULOS AMERICANOS SOB PRESSÃO

 


(As discussões sobre a dívida pública americana são recorrentes e até, por vezes, fastidiosas. É que nos últimos tempos as administrações americanas podem dar-se ao luxo de permanecer duradouramente em posição deficitária, pois existiram sempre investidores internacionais, designadamente asiáticos, dispostos a financiar esses défices, adquirindo títulos americanos. A esta possibilidade permanente não é estranho, como se compreende, o papel do dólar como moeda de referência e de reserva internacional. Assim sendo, se o tema é recorrente e enfadonho, que razões terá este Vosso Amigo para o trazer de novo a este espaço de reflexão? Não vou arriscar invocar a velha máxima de que “desta vez tudo será diferente”, mas a verdade é que as condições em que os americanos estão a financiar a sua dívida se alteraram profundamente nos tempos mais recentes. O que mudou então para o tema deixar de ser enfadonho? O que está a acontecer é que os custos aos quais a administração americana se financia estão a subir vertiginosamente. Um simples número permite dar conta desta importante alteração: se em 2021 o Tesouro americano emitia títulos de longo prazo a 30 anos à taxa de 1,7%, essa taxa subiu nos últimos dias para 5,3%, o que significa que a administração americana já não se financiava a um custo tão elevado desde 2007, quando se iniciou a Grande Recessão.)

Enunciada a importante diferença, podem questionar-me com a velha expressão “so what?” Não se tratará de uma simples questão de mercado que tenderá como muitas outras a autorregular-se? A questão não é tão simples como isso, pois no contexto internacional de hoje e no contexto de guerra que a administração Trump fez ele própria eclodir (caso do Irão) ou tardou em travar (Ucrânia), os americanos necessitam imperiosamente de aumentar despesa pública ou, pelo menos, a realocar profundamente os seus padrões de escolha pública.

O que parece estar a acontecer é uma espécie de tempestade perfeita fortemente penalizadora das condições em que a administração americana pode financiar-se.

Por um lado, temos uma convergência algo estranha de procura de financiamento de longo prazo com origem na própria administração Trump e nas grandes empresas tecnológicas que, desvairadas com as perspetivas lucrativas anunciadas para a inteligência artificial buscam desesperadamente financiamento para os seus investimentos disruptivos. Um especialista destas matérias, Mohamed A. El-Erian, estima que os gigantes tecnológicos depois de terem vendido em 2026 cerca de 500 mil milhões de títulos, necessitarão ainda de cerca de 300 mil milhões de dólares para concretizar os seus planos de investimento. Por outro lado, os compradores habituais da dívida americana, os asiáticos, estão numa de procura de outras oportunidades de colocação de poupanças excedentárias, que dá origem a uma mudança de detentores desses mesmos títulos, que passam de mãos mais estáveis para investidores mais voláteis. A estas manifestações, teremos de acrescentar o aumento dos prémios de risco, impulsionado pelas condições de incerteza bélica e pelos riscos inflacionistas que estão vivos, apesar dos agentes económicos não terem perdido a sua confiança no FED USA e nos seus propósitos de respeitar a meta dos 2% de aumento dos preços.

Obviamente, que as condições altistas de subida dos custos do financiamento a longo prazo não esgotam as suas consequências no mercado americano. Daí que a matéria se tenha transformado em problema do G7.

Não é ainda claro o que as autoridades americanas poderão fazer para controlar esta pressão altista do financiamento de longo prazo. Fala-se que poderá intervir com condições apetecíveis de recompra dos títulos a longo prazo, de maneira a tentar rebaixar os rendimentos dos mesmos. Mas uma coisa é certa. A economia americana vive mais um indicador de preocupação, o que adensa a cor negra do cenário económico com que as intercalares de 2026 irão ser realizadas.