quinta-feira, 24 de setembro de 2026

COMO A AVESTRUZ, NÃO!

Nos últimos tempos tenho tido perceções fortes no sentido de que algo de muito grave pode estar no nosso horizonte de curto/médio prazo. Trago aqui o assunto hoje na sequência da capa do “El Mundo” (EM) acima reproduzida, mas a verdade é que as ameaças russas vêm ganhando uma expressão preocupante e que, até no meu bem delimitado canto, já se fizeram sentir de viva-voz. Sem pretender ser alarmista nem especulativo em demasia, recordo o Relatório do Serviço de Investigação do Congresso dos Estados Unidos (CRS) lançado em 11 de agosto (“Russian Hybrid Warfare Activities in Europe”), os recentes avisos de Macron sobre a intensificação dos riscos de ataques híbridos da Rússia contra a Europa e a França (“reais e documentados”, na palavra do seu ministro do Interior) e as suas imediatas e excecionais decisões em torno da preparação de um plano de proteção das infraestruturas críticas nacionais, a misteriosa viagem do diretor da CIA (John Ratcliffe) a Moscovo e o incidente do aeroporto de Leipzig, as recorrentes notícias de agressões variadas que nos chegam da Polónia, da Lituânia ou da Dinamarca (entre outros países da União) e uma conversa assustadora que tive com um agente de ligação entre a Comunicação e a Defesa à escala europeia em que surgiu como central a probabilidade de que as escaramuças e provocações possam desembocar numa guerra de largo alcance. 



Neste quadro, adquire um maior grau de credibilidade a informação do EM, proveniente o serviço de inteligência americano, de que a Rússia prepara uma escalada de novos ataques na Europa com drones lançados do mar, desta vez dirigidos a países mediterrânicos (França, Itália e Espanha), seja para testar pontos vulneráveis ou para dar sinais de força e capacidade para contrariar a imprevisibilidade. Em todo o caso, e isto releva largamente para o interesse português, resulta também claro que, ao contrário do que alguns procuram veicular, “a distância relativamente à fronteira russa não garante a segurança”. Ou seja: a loucura que tomou conta do mundo (wherever) não dá tréguas, a Europa está numa situação de enorme fragilidade (defensiva e ofensiva, para além da descoordenação nacionalista que impera) e Portugal não se encontra imunizado, por razões alegadamente associadas à sua pequenez e localização e por muito que se distraia com distribuições de “migalhas” ou lamentáveis chicanas parlamentares, em relação aos perigos generalizados que crescem no horizonte – o que nos deveria conduzir, pelo menos, a mínimos de preparação das respostas necessárias ou possíveis (que não provirão do Papa, caro Presidente Seguro, dos sinos de Wall Street, prezado Luís ou de voltas temáticas ao País, estimado José Luís Carneiro, muito menos da correria obsessiva com que Ventura não cessa de minar as instituições que por cá ainda conseguem funcionar) a cenários potencialmente dramáticos...

GÁS PIMENTA NA POLÍTICA ESPANHOLA

 

                                                            (Voz de Galicia)

(O Parlamento espanhol, designado de Congresso dos Deputados, transformou-se nos últimos tempos num templo perigoso de bizarria, violência verbal descontrolada, centro de insultos e ofensas inter-pessoais e partidárias. Este estado das coisas não é senão o reflexo da fratura política em que o país está mergulhado. A governação de Sánchez só tem praticamente um objetivo, adiar o mais possível a realização das eleições que com toda a probabilidade interromperá a sua governação. Por isso, a coligação com os partidos regionalistas e nacionalistas reinventa-se permanente em torno das leis e decretos mais desconcertantes, tudo isto acompanhado da grande contradição de a Espanha continuar a crescer, o mercado de trabalho estar pujante como nunca com a ajuda imigração e a agressividade da política externa de Sánchez incomodar profundamente os seus parceiros europeus. E se nos recordarmos que os últimos tempos foram uma sucessão interminável de desgraças e acontecimentos severos, como o desastre do TGV, a devastação da intempérie em Valência e a “invasão migrante” de Ceuta com todas as suas sequelas atuais ainda mais estranha se torna a sobrevivência de Sánchez. Se, adicionalmente, colocarmos em cima da mesa todas as incidências de corrupção grave no entorno mais próximo do primeiro-Ministro, então estou certo que a ciência política fará desta situação um caso de estudo. Esta semana o Parlamento espanhol foi palco de um acontecimento ainda mais bizarro do que o habitual e, cada vez mais, compreendemos que a Espanha é diferente e que face ao acontecido o Parlamento português é uma brincadeira de meninos, mimados e por vezes mal-educados. É sobre esse acontecimento que gostaria de elaborar o post de hoje.)

A história conta-se com facilidade. Os acontecimentos de Ceuta e a massa de jovens deserdados da vida que ficaram por aquelas paragens e que tem sido difícil devolver á fronteira com Marrocos estão a extremar linguagens e argumentos. Exemplo disso, a deputada galega do PP Ana Vásquez, num reflexo condicionado em que é mais VOX do que PP, resolveu levar para o hemiciclo uma embalagem de spray de gás pimenta, mostrando-a ao hemiciclo e associando-lhe a mais do que voxiana afirmação de que o spray era o material educativo básico dos jovens que permanecem em Ceuta. Para além dessa estranha afirmação, obviamente que a inspiração do VOX estava também presente quando a deputada galega juntou a tão estranha afirmação as ideias de que a Espanha está mais insegura do que nunca e de que nunca como hoje teve tantas agressões sexuais.

Apesar da deputada galega ter assegurado que o spray estava vazio, a Câmara percebeu com algum atraso que o spray era uma arma defensiva e que o uso de armas, de qualquer espécie, no Parlamento está proibido, a deputada Vásquez acabou por ser expulsa do hemiciclo, sob os aplausos dos deputados do PP e o olhar atónito do próprio Feijoo, que assim vê, uma vez mais, as coisas correrem-lhe mal.

Para complicar ainda mais o estranho acontecimento, apesar da deputada galega ter reafirmado que o spray tinha sido esvaziado, o problema é que várias pessoas tiveram de ser assistidas com os sintomas típicos de terem sido atingidos por restos do spray esvaziado.

Podemos assim concluir que o gás pimenta irrompeu na política espanhola com toda a força e falta de engenho de uma política galega que terá querido conquistar uns minutos de glória e contribuir para a queda do governo de Sánchez. Este acontecimento, um misto de tragédia e absurdo, exemplifica bem, em meu entender, a toxicidade instalada na política espanhola, em que todos os acontecimentos são acendalhas para a ignição da violência política.

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

HABITUEM-SE!

 


(Voz de Galicia) 

(Há dias, um ilustre membro do painel que o INESC TEC organizou para debater o rumo futuro da nova Agência de Inovação, a AI2, dizia em relação à inteligência artificial que na sua vida de tecnólogo e investidor já longa nunca admitiu poder assistir às coisas que a IA tem alcançado e exemplificava essa questão com a revolução que a IA está a introduzir nos ensaios clínicos. Noutro plano, totalmente diferente, quando ontem visualizava a caótica intervenção de Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, tive uma sensação similar. Alguma vez me passou pela cabeça que um líder mundial se apresentasse em Nova Iorque com um discurso tão errático e volátil? Nem por sombras e, apesar de podermos dizer que tudo é expectável a partir daquela cabeça, continuo a laborar na interrogação que me persegue já há alguns tempos: até que ponto a aparente senilidade e demência de ideias que passam por aquela cabeça não serão construções orquestradas a partir de quem terá entendido ter ali à mão e com acesso fácil um instrumento poderoso para a geração do caos? Dir-me-ão, estás com a idade a ficar cabalístico. Mas a verdade é que quando captamos referências das personalidades que cercam e têm mais intimidade com Trump mais se me enraíza essa ideia de que gente maligna pode ter capturado a personalidade e capitalizado o seu egocentrismo narcísico e profundo. A densidade do problema intensifica-se quando pensamos que neste mundo dinâmico e de interações permanentes o comportamento volátil de Trump interage fortemente com as lideranças de outros países. Podemos identificar muitos exemplos de cedência oportunista, do tipo agradar ao meu Amo e Senhor, pensando ser seguro e eficaz captar no caos instalado uma ponta de sedução e ganhar vantagens com isso. Por agora, não é possível antecipar com clareza se esses comportamentos de cedência oportunista vão ser eficazes e se vão efetivamente granjear aos seus autores uma ponta de privilégio que seja nos desmandos daquela cabeça. Todo este introito veio-me à mente a propósito do recente acordo (?) entre os EU, a Dinamarca e a Gronelândia, representado no cartoon de Pinto&Chinto, cujo traço mais rural do que outros cartoonistas não deixa por vezes de ter a sua piada.)

O assunto passou por cá de certo modo desapercebido, mas a coincidência não é apenas isso. Praticamente em simultâneo com a bravata de Ursula von der Leyen alfinetar os EUA com a promessa de abrir caminho a um estatuto de parceiro associado da União para o Canadá, Trump deu a entender ter chegado a uma negociação mais ou menos sigilosa com a Dinamarca e a Gronelândia, pactando o que estava anunciado no horizonte – a colocação da pata dos EUA naquele território.

Tudo isto acontece uns tempos depois da União Europeia ter operado uma outra bravata, com os líderes da União e da NATO terem visitado o território, procurando demonstrar que existia uma retaguarda europeia para defender a Gronelândia.

Podemos obviamente discutir, e alguns analistas fazem-no sem hesitações, se a valorização do papel geoestratégico e geopolítico da Gronelândia é exequível sem a participação dos EUA. Muito provavelmente não o é, atendendo aos acontecimentos e investimentos precursores. O conjunto de bases já existentes no território com a marca americana anunciou-nos essa realidade.

O que me deixa profundamente alarmado é não ter ideia alguma de qual foi a posição da Dinamarca em todo este imbróglio, sobretudo acerca da real possibilidade da Dinamarca ter contribuído para o ridículo a que a União Europeia foi exposta com aquela bravata da missão EU-NATO à Gronelândia. E acho que não deveremos deixar de fora a hipótese do acordo agora anunciado ser apenas um acordo da treta para racionalizar o que já sabíamos, os EUA já mergulharam no território há muito tempo e assim irão estar.

 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

LOUVOR À JUVENTUDE BERLINENSE?

 

O meu parceiro de blogue já aqui abordou ontem a questão das eleições regionais disputadas no passado Domingo em dois estados alemães e cujos grandes resultados acima reproduzo – na Pomerânia Ocidental, a AfD venceu a incumbente do SPD mas a CDU de Merz ficou ineditamente de fora do Parlamento (tal como a BSW de Sahra Wagenknech) e torna-se bastante previsível que Manuela Schwesig (que cresce em popularidade nacional) consiga manter-se no poder em coligação com o “Die Linke” e/ou os Verdes (a despeito das deslocadas exigências dos populistas no sentido de formarem governo); em Berlim, a coisa fiou mais fino e a vitória foi para a extrema-esquerda, com a extrema-direita a ficar-se pelo terceiro posto do ranking eleitoral partidário, o que determina um governo provavelmente liderado por uma política de origem turca (embora já nascida em Munique), Elif Eralp, que tanto poderá tentar coligar-se à esquerda (SPD e Verdes) como mais ao centro (juntando, em várias possíveis geografias negociais, a CDU) porque uma coligação exclusiva com os cristãos-democratas não parece aceitável por parte de uns e de outros.

 

Duas mulheres progressistas no poder, sustendo a ascenção radical e extremista, uma numa lógica de continuidade e outra num exercício que será certamente complexo e terá ainda a relevância de poder permitir demonstrar (ou não) que posições de esquerda mais heterodoxas e menos tradicionais conseguem caber no espetro democrático e contribuir para soluções nacionais e europeias de estabilidade e bem-estar – um desafio que, ao que parece, foi assimilado pela juventude berlinense que votou maciçamente nessa perspetiva (veja-se os interessantes dados da infografia mais abaixo). Digam o que disserem os sempre pessimistas e os arautos da desgraça – que eu por vezes também sou, reconheço! –, a verdade é que algo de esperançoso tem de existir no horizonte quando temos cerca de metade dos eleitores jovens a votarem numa força política contrária aos mais perversos sinais dos tempos, ademais se a tal adicionarmos os votos de pendor alternativo que provêm dos Verdes. A questão – determinante, diria – é a de observarmos em que medida tal esperança pouco mais contém do que uma expressão de protesto ou, ao invés, alarga oportunidades de exploração de novos caminhos (quais?) liderados por quem é portador do porta-estandarte e do desenho que marcarão as configurações do futuro.

 

Dito isto, não deixa de ser obviamente preocupante a quebra brutal dos partidos tradicionais (social-democratas, cristãos-democratas e liberais) e a desorientação cidadã e ausência de rumo político que tal manifestamente evidencia – porque assim se tem de registar que se trata de uma sociedade em que tais partidos apenas têm voz predominante junto das pessoas acima dos 70 anos! –, tudo contribuindo para que seja suscetível de ser estimada uma débâcle de contornos imprevisíveis nas eleições nacionais que se vão aproximando, a qual se irá acrescentar às direções em vias de concretização na França de Marine Le Pen e em vários outros estados europeus. Haverá esboços de soluções criativas e factíveis que possam surgir para ajudar a inverter de algum modo este deprimente destino?


A QUE OMBRO NOS VAMOS AGORA ENCOSTAR?

 


(O curto noticiário das oito da manhã na Antena 2 em viagem para o escritório em Matosinhos trouxe-me a notícia. Uma paragem cardiorrespiratória traiu Jorge Palma e mais um Grande nos deixa. É verdade que já recuperámos de outros Grandes que nos foram deixando e a nova geração da música popular portuguesa esforça-se por nos facilitar a recuperação dessas perdas. Mas o vazio que fica é grande. A Estrela do Mar empalideceu, o Encosta-te a Mim passará a ter um outro significado e quando perante a dimensão de um equívoco expressarmos o Deixa-me Rir tudo terá um diferente significado. O sempre informado André Cunha Leal que conduz agora o espaço das sete às dez da manhã na Antena 2, também ele surpreendido pela notícia, relembrou e bem os tempos em que Palma passou pelo conservatório depois de ter atuado em público pela primeira vez aos oito anos, bem como o seu fascínio pelos impressionistas franceses, especialmente Debussy e mostrou acertadamente como a versão de A Estrela do Mar para piano reflete essa inspiração.)

Não será fácil substituir a música de Palma e sobretudo o imaginário urbano que ele representava, a sua música e a sua própria e inconfundível figura. Sim, Palma é de facto uma figura incontornável de uma certa Lisboa boémia, embora nos últimos tempos o artista vivesse num tom bastante mais recatado.

Se percorrermos toda a sua vastíssima obra vamos deparar com a permanente desconstrução do facilitismo musical, por isso quase todas as suas canções surpreendem, espantam e depois entranham-se na nossa memória musical para todo o sempre. É sobretudo esse tom que ficará da sua obra, preenchendo o vazio do seu desaparecimento. E, de facto, a herança da cultura e da sensibilidade musicais, adquiridas com a formação e as suas próprias digressões pelas correntes musicais que mais o impressionaram, ajudam-nos a compreender que por vezes as nossas dicotomias, popular versus erudito, pop versus clássico, deixam de ter sentido quando alguém assume na sua plenitude a música.

O Jorge Palma certamente que vai descansar em paz com um Ombro amigo a acolher a sua eterna inspiração.

E como ele cantava em 1991, a gente vai continuar.