quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

DESGRAÇA, DESGRAÇA FOI NA LUZ!

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Portugal está em estado de emergência, não tanto pela tempestade que se abateu sobre a sua Região Centro mas principalmente pela desgraça que irrompeu no Estádio da Luz quando o extremo argentino Prestianni do Benfica decidiu insultar o avançado brasileiro Vinicius Júnior do Real Madrid imediatamente após este ter marcado o único golo do encontro e festejado exuberantemente na linha final. Um estranho ato de racismo, alegadamente objeto de testemunho por Mbappé, e que logo obteve o beneplácito generalizado das bancadas da Luz para passar em seguida a ser encoberto pelos dirigentes do Benfica (que não compreenderam o peso da ofensa e do correspondente castigo a surgir por parte da UEFA). Mas pior do que esta incompetência de Rui Costa e seus pares – que teriam, obviamente, de ter vindo a lume para repudiar o incidente e minorar o seu alcance e não de se terem esgotado em comunicados acusatórios do ofendido e da testemunha –, é a forma como o assunto se tornou uma matéria que obsessivamente preenche as televisões e enormemente aflige os respetivos comentadores, tão desesperados e chorosos quanto incapazes de denunciarem comportamentos inaceitáveis de atletas, adeptos e dirigentes encarnados com a mesma verborreia fácil com que gastaram dias a criticar os apanha-bolas do Dragão. Portugal não sai do sítio por razões divisivas deste tipo, ferozmente alimentadas sem critério por centralistas de turno a quem é disponibilizado um tempo de antena injustificado e gasto com uma parcialidade que já não cabe nos difíceis dias de hoje. E – nem de propósito! – quando eu acabava de escrever este post, as notícias anunciavam que um jogo de futsal entre Sporting e Benfica era acompanhado por confrontos graves junto ao Pavilhão João Rocha e culminava em 124 detidos e vários feridos oriundos das claques de um e outro lado. E assim vamos à deriva e com pouca esperança...


Em tempo, pela manhã do dia seguinte:


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

QUASE NINGUÉM DEU VALOR AOS SOFRIDOS ESFORÇOS DE VENTURA!

(cartoons de Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt e excertos de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt

Estão definitivamente encerradas as eleições presidenciais, após a votação ocorrida nos concelhos em que as mesmas tiveram de ser adiadas devido ao temporal que se abateu sobre o nosso País. O saldo final nada trouxe de novo, exceto quanto à confirmação do arraso sofrido por André Ventura – de facto, este não logrou vencer um único dos concelhos que estavam em jogo, tendo-se inclusivamente verificado que Seguro virou o resultado da primeira volta em 77 concelhos que tinham dado a vitória a Ventura ou Mendes e que, assim tendo sido, apenas 2 dos 308 concelhos nacionais mantiveram uma opção populista (Elvas no Alto Alentejo e São Vicente na Madeira). Até na Madeira, onde a instalada tradição laranja tinha dado lugar a uma fuga generalizada para o Chega a 18 de janeiro, todos os municípios (exceto o acima referido) alteraram o seu sentido de voto em favor do ex-líder socialista. Em suma: sobram menos argumentos utilizáveis para que Ventura possa levar a água ao seu moinho, sendo embora certo que o dito tende a dispensar qualquer argumentação lógica e coerente.

O LOBO MAU, O LOBO FOFINHO E O PROMOTOR DO CAOS PERMANENTE

(A conferência de Munique, quando comparada com a edição do ano passado, trouxe a alguns europeus a ilusão de que a relação da União Europeia com os EUA poderia eventualmente regressar a um terreno de normalidade, como se tivéssemos acordado de um pesadelo. Essa ilusão foi criada comparando a desbragada e insultuosa intervenção de J.D. Vance no ano passado com a mais polida intervenção de Marco Rubio, cheia de referências históricas aos princípios e valores (até arrepia ouvir gente desta a falar de valores e princípios) que germinaram a partir da Europa. A melhor metáfora que encontro para descrever esta ilusão de alguns europeus é a do lobo mau (Vance) e do lobo fofinho (Rubio). Mas o lobo mau e o lobo fofinho são extensões apaniguadas do promotor do caos permanente que é Trump e é no âmbito desse triunvirato, a que se junta um conjunto de personagens sinistras que vagueiam pelos corredores da Casa Branca e pelas receções de Mar-a-Lago, que deveremos analisar a conferência de Munique. Valha a verdade que no dia seguinte o fofinho Rubio mostrou de novo as garras apoiando despudoradamente Orbán em Budapeste, sabendo que este é um seu aliado e disposto a tudo para conservar o poder e continuar por essa via a minar as instituições europeias e o que resta delas. Só gente muito incrédula e distraída poderia imaginar que é possível manter relações de normalidade, quando a administração Trump pratica internamente o oposto dos valores europeus e se conluia externamente com os que frontalmente procuram destruir o edifício europeu. Estes factos são mais importantes e perniciosos do que reconhecer que a estratégia de segurança nacional americana é outra e que a defesa da Europa deixou de ser considerada como um vetor inatacável dessa mesma estratégia…).

Podemos, assim, concluir metaforicamente, que o lobo mau e o lobo fofinho são meras representações do caos permanente que Trump e os seus seguidores trouxeram à cena internacional. Independentemente de poderem ser adversários políticos futuros, o que significaria que Trump se absteria de provocar ainda mais caos querendo prolongar o seu mandato contra todas as interpretações, a mensagem certa é que a Europa deve uma vez por todas arrepiar caminho e fazer-se à luta de querer ser ouvida e respeitada. Tontos seríamos todos se interpretássemos a vinda de Rubio à conferência de Munique como um sinal de recuo americano. A mensagem está lá, cruel e não dando lugar a dúvidas: o conceito de liberdade que nos querem impor é o quero posso e mando dos gigantes tecnológicos americanos, todos eles animais domésticos da corte de Trump e a colocação de passadeiras vermelhas às forças políticas de extrema-direita que Trump considera “good fellows” e que estão no terreno para minar as instituições europeias.

Ir à luta do querer ser ouvida e respeitada coloca especiais desafios às instituições europeias. O principal desafio no meu modesto entender é identificar as lutas certas. Imaginando que a competitividade poderá ser uma delas, não tenho ainda presa suficiente sobre o assunto para aferir se a iniciativa de António Costa tem capacidade de voo para transformar pelo menos parte do Relatório Draghi em ações consequentes, dificilmente tomadas por unanimidade. Mas se vier a ser considerada uma luta certa, então não valerá a pena diversificar excessivamente os pontos de fricção, internos (o amansamento dos nacionalismos que vão começar a emergir) e externos (política comercial externa mais estratégica e consistente).

Os fundamentos de bom senso deste entendimento são óbvios. Se o processo de decisão europeu é, por natureza e tradição, difícil e complexo, então será inteligente não diversificar os processos e concentrar a “luta” em processos que possam fazer a diferença, no sentido de criar uma dinâmica que se reforce a si própria pela demonstração de resultados.

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

DE FEIJÓO A RUBIO

Repito-me, mas a verdade é que Alberto Feijóo começa a exagerar na sua pressa, tornando ainda maior o perigo de subserviente contemporização com Abascal. Porque uma Espanha de portas escancaradas à extrema-direita não é apenas uma má ideia, é um precedente descontroladamente permissivo de discursos e práticas que arriscarão mergulhar a Península Ibérica em radicalismos divisionistas que se pensavam enterrados em definitivo.

 

Ademais, tal não deixará de se traduzir em inevitáveis impactos na ação do populista de pacotilha que opera neste nosso tão azoratado retângulo e terá, obviamente também, salpiques desgovernados por essa Europa fora, agora que nela parecem começar a surgir alguns sinais de haver quem queira levantar a cabeça e enfrentar os imensos e tremendos desafios que décadas a fio de inércia e business as usual fizeram recrudescer e de que uma atualidade internacional imparavelmente inconsequente e desviante agora lhe apresenta a correspondente fatura.

 

Neste plano, vem mesmo a propósito trazer à colação uma nova ocorrência maléfica de ontem, o apoio claro e intolerável que Rubio foi a Budapeste conceder à campanha eleitoral de Orbán, um personagem de cujo caso a União tem de começar urgentemente a pensar com a necessária frontalidade e seriedade política. 

(Idígoras y Pachi, http://www.elmundo.es)

domingo, 15 de fevereiro de 2026

CIÊNCIA ECONÓMICA VERSUS BASÓFIA DE TRUMP

 

(O momento que a economia americana atravessa é particularmente estimulante para discutir a questão de saber quem é que está com a razão, a ciência económica ou, pelo menos, parte dela ou o discurso fanfarrão de Trump, seja no universo das promessas com que se apresentou aos americanos, seja no modo como ele próprio avalia o estado da economia. É importante referir, entretanto, que para quem se reporta ao momento do setor da bolsa de valores como indicador de desempenho macroeconómico, pode construir uma narrativa positiva da evolução atual da economia americana. Os índices bolsistas americanos parecem validar o bom momento da economia americana, mas como sabemos o mercado bolsista não representa um indicador completamente fiável do desempenho macroeconómico. Além disso, como nem toda a população possui títulos cotados em bolsa e consequentemente tem acesso aos níveis de riqueza que a valorização bolsista proporciona aos detentores de títulos cotados, pode acontecer, e muito provavelmente é o que presentemente acontece, pode gerar-se uma enorme contradição e desvio entre o comportamento da bolsa e a perceção do estado da arte de “affordability” que o cidadão mediano expressa quando avalia a sua capacidade de acesso a bens e serviços com o seu rendimento mensal. A existência deste gap é conhecida, repete-se frequentemente nas economias com informação macroeconómica mais pormenorizada e neste caso pode ser artificialmente empolada pela especificidade do discurso de Trump, que confunde quase em permanência a sua visão do estado da economia com a avaliação o mais objetiva possível dos indicadores e evidência macroeconómicos. É sobre este gap que gostaria de construir o post de hoje, de novo em confronto tenaz com o desaparecimento do sol e o regresso da chuva, agora miudinha e irritante…)

Uma das promessas de Trump e do movimento MAGA em geral que não está a ser confirmada é a sua ideia de que as suas políticas iriam fazer acordar o gigante industrial americano adormecido, trazendo de novo à indústria transformadora a sua capacidade do passado de proporcionar aos americanos ressentidos as perspetivas de emprego que perderam no passado recente. Tal como Adam Tooze o destacou no seu Chartbook, o ano de 2025 revelou um comportamento regular de perda de emprego na indústria transformadora, apagando claramente a ideia de renascimento industrial com que Trump embelezou o seu programa disruptivo de protecionismo entendido como arma de guerra.

Este é muito provavelmente o tema em que a ciência económica resiste bem ao discurso fanfarrão de Trump. É de uma longa mudança estrutural que se trata impulsionada pelo desenvolvimento económico da economia americana, logo um processo que, embora passível de oscilação conjuntural, acaba por se tratar na queda do emprego na indústria transformadora, sendo discutível se essa queda é apenas percentual (peso no total do emprego) ou se integra também uma queda absoluta dos níveis de emprego industrial (indústria transformadora). A proteção aduaneira agressiva com que Trump pretendeu estimular a produção industrial americana ignorou a dimensão crucial dos produtos intermédios, matéria em que a economia americana continuou dependente de fornecimentos chineses. A impreparação da disrupção aduaneira provocada levou inclusivamente algumas indústrias americanas a ser penalizadas, porque viram os seus consumos intermédios com preço aumentado devido aos direitos aduaneiros lançados sem uma racionalidade económica. O Departamento de Comércio da administração Trump deu mostras de dominar mal a compreensão das cadeias de valor globais e sobretudo o avanço de competitividade que alguma produção asiática revelava no mercado. Por conseguinte, neste tema a criatividade inventiva do discurso de Trump não parece capaz de contrariar o que a ciência económica da mudança estrutural de longo prazo anunciava. O problema não está, assim, na perda de emprego industrial sentida por alguns (muitos) americanos. O problema estará na sua eventual incapacidade de encontrar ocupação alternativa para as competências que apresenta, com ou sem necessidade de formação profissional indutora da adaptação no mercado de trabalho.

O segundo tema está relacionado com este último e pode ser descrito pela interrogação que Krugman colocou aos seus leitores – afinal quem está a pagar os direitos aduaneiros impostos pela administração Trump? Uma coisa sabemos, em matéria de receitas públicas nada de novo está a acontecer em relação ao esperado– a administração Trump está a receber rios de dinheiro com os direitos lançados.

Tal como no tema do renascimento manufatureiro, a administração Trump apresentou-se contrariando o pensamento dominante da ciência económica nesta matéria. Quem estaria a pagar os direitos aduaneiros não seriam os consumidores e empresas americanos, mas antes os fornecedores estrangeiros que para continuar a entrar no mercado americano tenderiam a absorver esses custos. Também aqui a evidência que vai sendo conhecida tende a mostrar que não têm sido os fornecedores estrangeiros a suportar o ónus da política comercial protecionista de Trump. O que está a dar algum fôlego e esperança à administração americana é que os estudos que documentam não serem os fornecedores estrangeiros a suportar o ónus da medida revelam também que os dados da inflação americana não estão compatíveis com esse ónus anunciado sobre os consumidores e empresas americanos. O que do ponto de vista da ciência económica é uma questão relevante e que merece ser analisada em profundidade.

O estudo realizado pelo Banco da Reserva Federal de Nova Iorque mostra que no mês menos penoso para os consumidores e empresas americanos, a repartição do ónus aduaneiro recaiu 86% nos importadores americanos e 14% nos estrangeiros. O efeito sobre os consumidores americanos pode estar a ser minimizado pela descida de lucros de empresas importadoras. Mas o que constitui o dado mais curioso indicado por Krugman é que o impacto previsto no aumento dos preços no consumidor, admitindo que todo o peso dos direitos passaria para os consumidores, seria apenas de 1%. Este número é surpreendentemente baixo e o economista americano explica-o por dois motivos essenciais: as importações representam apenas 11% do PIB americano e o aumento efetivo das tarifas ficou bastante aquém do discurso anunciado por Trump, designadamente através da errática política de isenções praticada pela própria administração americana em função dos impulsos do Presidente.

                                                                (Paul Krugman, artigo citado)

Krugman analisa com pormenor as razões pelas quais o comportamento da inflação está abaixo do previsto. O carácter aprofundado da análise transcende o alcance deste post, recomendando-se por isso a leitura do artigo do economista americano. Não é possível para já afirmar com segurança por quanto tempo o peso do ónus dos direitos aduaneiros nos importadores americanos e não nos fornecedores estrangeiros irá continuar a não ter fortes repercussões na inflação americana. Mas o que é curioso é que, embora a administração Trump tenha errado na ideia de que seriam os fornecedores estrangeiros a suportar os custos, a verdade é que por agora parece estar a salvo da ameaça da inflação. O que não é despiciendo do ponto de vista da tão falada “affordability” para o cidadão mediano americano, não necessariamente detentor de títulos cotados em bolsa.

Moral da história: a ciência económica vence mas o discurso de basófia de Trump resiste em parte.