Contrariamente ao que é habitual, as primeiras páginas dos jornais nacionais de hoje não primam pela imaginação. Invariavelmente, todas fazem sobressair o nome de Seguro – o eleito novo Presidente da República – recorrendo a um estilo previsível e discreto, aliás em completa consonância com o que é dito sobre a personalidade, o modo de estar e o discurso monocórdico do grande vencedor de ontem. A verdade é que o “patinho feio” conseguiu levar a sua intenção em frente ao concretizar uma hipótese de sucesso que poucos lhe concediam há poucos meses ou semanas. É certo que a sorte esteve do seu lado, quer porque a maioria da direita democrática escolheu um inconcebível candidato (Marques Mendes), quer porque a minoria dessa mesma direita decidiu apresentar-se autonomamente (Cotrim), quer porque o Almirante Gouveia e Melo surgiu para corroer mais uma parte desse eleitorado centrista moderado, quer porque o espaço socialista não encontrou forma de convencer um candidato alternativo, quer porque aquela divisão intestina conduziu a um adversário de segunda volta de pendor extremista e populista e com taxas de rejeição gigantescas. Mas não deixa de ser igualmente certo que Seguro teve o seu mérito, sobretudo em termos de opção por uma estratégia de campanha equilibrada, escassamente propositiva e alheia a todo o tipo de afrontamento e mediatização em excesso (o que alguns designaram por “fazer-se de morto”), afinal a fórmula adequada às expectativas do português médio para o pós-marcelismo, farto como estava em crescendo dos descocos intervencionistas do ainda Presidente. Duas coisas mais: a “beleza” da política também emerge nestas ocasiões em que os esquecidos e/ou maltratados voltam inesperadamente à boca de cena, mesmo que tal não ocorra necessariamente para fins de vingança (embora, no caso vertente, tenha sido feio o modo como Costa chutou despudoradamente Seguro para canto há mais de uma década); ninguém pode afiançar quão saboroso será o “melão” que agora vai ser aberto pela prática de Seguro em Belém, mas espero muito ele possa não ser complacente com a “paz podre” em que mergulhamos nos tempos de Costa e prosseguimos com a sua presente continuidade através do manifesto antirreformismo de Montenegro – alguém tem de chamar o País à razão!
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
VAMOS AO TRABALHO QUE SE FAZ TARDE
(Os portugueses demonstraram mais uma vez que não votam com os pés e, num assomo de empenho e coragem democráticos, votaram em condições adversas, tirando partido da sua vontade e de alguma trégua climática que o domingo nos proporcionou. Face aos surpreendentes resultados da primeira volta, sim foi nesse plano que aconteceram as grandes e ambivalentes surpresas eleitorais, com perdedores e ganhadores inesperados, poder-se-iam alimentar algumas dúvidas se António José Seguro conseguiria atrair todo o voto útil dos candidatos anti-Ventura que se perfilavam no horizonte das decisões deste domingo. As posições dúbias de Montenegro e institucionais do PSD mais adensaram essas dúvidas (não me refiro a idênticas posições de Melo e Núncio no CDS, pois não gosto de zombies moribundos). Embora Seguro não tenha capitalizado a 100% o pronunciamento anti-Ventura, a verdade é que num contexto trágico de intempéries que poderiam ter reforçado o ressentimento que alimenta Ventura e o Chega, a votação em Seguro excedeu as minhas estimativas. Desta vez, estou de acordo com Clara Ferreira Alves que manifestou ontem na SIC com clareza a ideia de que se tratava de uma vitória da decência. Sim, em tempos em que a obscenidade e a alarvidade políticas dominam as reações mais primárias, a personalidade de Seguro estava no sítio certo e à hora certa para capitalizar o sentimento de colocar em Belém alguém em quem se possa confiar e que não se serve da política para cultivar outros interesses. E, por mais que os media tenham explorado o sentido redondo de algumas das posições de Seguro, a verdade é que o seu discurso de vitória nas Caldas da Rainha, e saúdo a feliz ideia de sair dos hotéis da capital ou do Porto para celebrar as vitórias, é um discurso de um homem de Estado, já para além do estatuto de candidato. Mas os resultados de ontem merecem algumas reflexões adicionais.)
Os 33% de Ventura mostram que o personagem está ainda numa onda crescente de aspirar a voos mais largos e, como o antecipei, Montenegro seria o principal penalizado por uma votação de ressentimento que, embora não atinja o valor da AD mas últimas legislativas, lhe dá alvíssaras para caminhar na desejada liderança da direita e reforçar perspetivas de governação. Seguro levou o seu discurso de Estado ao ponto de considerar que os 33% de votantes de Ventura são para ser considerados com respeito, já que são votos democráticos expressos em eleições livres. O problema é que o comportamento dos que conseguiram essa percentagem de voto democrático está muito longe na prática de respeitar as regras mais básicas da democracia, colocando por isso problemas de diversa natureza à função a exercer pelo novo Presidente da República
A figura da exigência que Seguro destacou como a marca principal da sua Presidência vai exigir especiais finura e pertinência políticas, sobretudo no quadro em que a votação de Ventura vai por ele ser utilizada para forçar Montenegro a derivas de aproximação às posições do Chega. A preocupação daí resultante é perfeitamente justificada quando no seio da governação encontramos gente como Leitão Amaro ou Maria do Rosário Ramalho sempre dispostas a transformarem-se em cópias vulgares da direita mais tramontana.
Vamos assim entrar num rodopio de interações entre Parlamento, Governo e Presidência com Ventura no epicentro da agitação. Por muito que o PS não o desejasse, é neste contexto algo sinistro que terá de cumprir o seu caminho das pedras, até conseguir forjar uma alternativa de governo.
Sempre acreditei que as competências políticas têm, como não pode deixar de ser, uma natureza inata ou já adquirida no passado. Mas acredito cada vez mais que, tal como noutras profissões, mas aqui neste caso mais do que reforçadas, as competências políticas se constroem na função e exercendo a prática política. Espero não me enganar a propósito de António José Seguro, estimo mesmo que ele nos possa surpreender, pois parte para a função sem “rabos de palha” que o possam comprometer.
E o contexto em que vai iniciar a Presidência talvez seja o ideal para afirmar esse propósito de exigência, a marca de água que pretende imprimir ao seu mandato. Daí o meu título “Vamos ao trabalho que se faz tarde”. O esforço de reconstrução dos territórios mais atingidos, com relevo para a martirizada região Centro, é a melhor ilustração desse desafio, que não deve afastar a necessidade da preparação para novas formas de severidade climática que virão por aí. E, já agora, Seguro poderá ter no ex-autarca do Fundão Paulo Fernandes, indicado para liderar a estrutura de missão de reconstrução na região Centro, um excelente parceiro.
Com a noite eleitoral de ontem uma estranha sensação de alívio envolveu-me, sem ignorar os desafios que virão por aí. E, também simbolicamente, lá para as bandas da Luz, os 17 anos do predestinado para o golo Anísio Cabral conseguiram de novo em poucos segundos após a sua entrada o alívio do golo redentor, voando de novo entre os centrais.
Alívio total para um sono bem merecido.
domingo, 8 de fevereiro de 2026
DESEJA-SE UM PRESIDENTE SEGURO!
Hoje a reflexão transforma-se em ação, através de uma simples cruzinha no boletim de voto – eis acima, pelo traço de António, o que deve fazer se tenciona dar o seu apoio a André Ventura; e eis abaixo, pelo mesmo traço, o vaticínio implícito que há uns meses poucos admitiam como realista e que mais logo iremos ver confirmado pelos portugueses com a ajuda das tréguas com que o S. Pedro nos brindou: António José Seguro é o novo Presidente da República eleito.
E é ainda o mesmo e notável artista que nos traz a representação do grande derrotado destas eleições, o pequeno Marques Mendes que não percebeu as limitações – talvez até menos físicas do que de carreira profissional, o que quer que tal queira dizer no seu caso concreto – com que se defrontava para poder concretizar a sua imensa e tão meticulosamente trabalhada ambição presidencial. Um derrotado que bem poderá partilhar o seu revés e o seu desânimo com o gorado estratega político que tão fortuitamente se nos revelou após os tiros no pé de António Costa, primeiro, e Pedro Nuno Santos, depois – um primeiro-ministro sempre propenso ao autoelogio e tão bem-falante quanto ridiculamente gongórico (aquela sua declaração de pesar em relação às pessoas que morreram no contexto do temporal é lapidar: “o nosso sentimento e as nossas condolências para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida”), novamente caricaturado num “Cartoon do António” em que é mostrado com Ventura como sua estranha sombra numa possível mas indesejável premonição dos meses que estão para vir.
sábado, 7 de fevereiro de 2026
PUSERAM-ME A REFLETIR...
Luís Afonso deixa-nos hoje nas páginas do “Público” uma questão quase existencial deste “dia de reflexão”, a qual também serviu para me alertar sobre essa necessidade de corresponder a um dever exigido por lei a todos os portugueses. Claro que o que está em causa amanhã não é matéria que possa reclamar de mim, e espero que de uma larga maioria dos meus concidadãos, um aturado puxar pela cabeça, nem as opções em presença são tantas nem tão diversas assim.
Não obstante, haverá no boletim de voto o nome de um candidato cuja polivalência em termos de modo de ser e estar e de posicionamento político remete para uma atrofia essencial em sede de princípios referenciais, de conteúdo propositivo e de decência e escrúpulos democráticos, razão pela qual não serão certamente escusadas quaisquer menções que apontem para a confirmação de, como afirma o próprio, estarmos todos contra ele (até duplas como as de Cavaco e Louçã, Mendes e Gouveia, Moreira e Rio se juntaram a uma multiplicidade de outras mais ou menos improváveis, com a exceção confirmadora dessa regra quase generalizada a ser aquela que Montenegro e Cotrim decidiram formar por confundirem calculisticamente alegadas vantagens de oportunidade política com permissividade à alienação de valores).
Veremos o que nos reservam os números da noite eleitoral porque, dizem os inteligentes especialistas e comentadores da praça, nada mais será igual para o primeiro-ministro se Ventura subir o seu peso pessoal para valores bem acima do Chega de maio passado e, pior ainda, para valores superiores aos obtidos pela AD naquela ocasião. Não que Montenegro não merecesse que lhe estragassem o brinquedo que tanto o enche de visível regozijo, embora o problema não seja obviamente esse mas o dos respetivos efeitos previsíveis em termos de convencimento e legitimação do populista e, consequentemente, de contributo para a emergência que assim resultará de um estado ainda mais caótico e trágico da situação política nacional. Uma certeza, reconfortante apesar de tudo, é que a escolha deste Domingo se traduzirá numa contagem decrescente para Marcelo Rebelo de Sousa, um personagem com qualidades incontornáveis mas senhor de um ego tão gigantesco que o levou à obsessão de querer ficar na História de Portugal sem que para tal tenha esboçado uma construção coerente de caminhos compatíveis de pensamento e atuação.
UM VOTO DE CORAGEM
(Amanhã, a maioria dos portugueses votará, apesar de, para muitos deles, a perceção da fragilidade e vulnerabilidade dos seus territórios, infraestruturas e habitações estar mais clara e esfriar as suas expectativas de um futuro melhor. Atingidos quer pelos efeitos diretos da sucessão de intempéries, quer pela sensação mediática errada de que todo o país está devastado ou inundado, a maioria dos portugueses votará com a afirmação clara de que a democracia vale a pena, mesmo que por vezes a qualidade da governação nos faça duvidar dessa superioridade congénita. É provável, não o sabemos bem, dada a multiplicidade de efeitos que as intempéries podem provocar do ponto de vista eleitoral, que o número de portugueses que associam Ventura à afirmação do ressentimento e da sensação de abandono possa aumentar e assim diminuir o fosso de segurança que existe entre o voto pelo seguro em Seguro e o voto da confusão e do caos político, em que não existe qualquer racionalidade, mas tão só ressentimento, saudosismo e atavismo inebriado pelo passado. Estou em crer que, apesar das condições desfavoráveis em que a votação de domingo pode acontecer e do risco elevado de se confundir má qualidade da governação com malefícios da democracia, a grande maioria dos portugueses vai exercer um voto de coragem e manter o fosso de segurança contra o oportunismo e a sedução pelo caos. A apatia inicial com que o governo, que parece ter perdido o rumo e seguramente a coerência do comando, e a demonstração de que a severidade climática dos acontecimentos extremos continua para alguns ministros e estruturas do Estado a ser literatura de ficção abriram uma passadeira vermelha ao disparar sobre qualquer vulto que surja no ponto de mira em que a campanha de Ventura é perita. Mas mesmo assim, confio que a coragem e a lucidez predominarão sobre os fogachos do voto de ressentimento.)
Mas obviamente que não poderemos ignorar o significado político de uma possível votação em Ventura acima dos 25%. A aparente despreocupação e até enfado com que Montenegro arrastou o PSD para uma não demarcação face a Ventura tenderá a provocar na direita portuguesa um abalo telúrico com inúmeras réplicas subsequentes cuja amplitude e natureza não são para já antecipáveis. Mas neste caso é enganoso admitir que com os problemas na casa dos outros poderemos nós bem. Como partido fundador da democracia portuguesa, qualquer abalo sobre o sistema de valores do PSD pagar-se-á caro em termos democráticos e, por isso, zurzi desde o princípio no analfabetismo político de Montenegro. A uma democracia sólida e consistente não interessa a derrocada do PSD e dos seus valores e posicionamento.
É por isso que, nas condições atuais de ameaças sobre a democracia portuguesa, a péssima gestão da crise das intempéries que o Governo atual nos ofereceu pode ter um sério impacto político, com alguns ministros a revelarem que não têm condições e vocação para governar em circunstâncias como as das duas últimas semanas e que o seu narcisismo de exposição mediática nas redes revela uma patologia profunda. A revelação da descoordenação política no terreno é sempre fatal e tanto mais o é quanto mais grave era a situação em que a devastação colocou as populações.
Aguardemos, pois, com calma e esperança os resultados da votação de amanhã e que os adiamentos de uma semana para alguns concelhos e freguesias constituam uma oportunidade de iniciar a recuperação das condições de vida que esses territórios precisam para recuperar eles próprios a esperança-











