
(É de um livro pequeno que vos falo. Não tem mais do que
143 páginas, incluindo referências bibliográficas e é de autoria de Gerard Roland,
Professor Emérito de economia e de ciência política na Universidade da Califórnia,
Berkeley. Chama-se EMPIRES, NATION-STATES AND DEMOCRACIES e tem edição da prestigiada
Princeton University Press, com data de 2026. Fui alertado para a relevância
desta obra seja pelo conselho sempre pertinente de Bradford DeLong, seja também pelo substack que Gerard Roland publica há cerca de dois anos, no qual o autor
tem-nos proporcionado uma sugestiva resenha e invocação dos anos da sua
passagem por Berkeley até ter adquirido o estatuto de Professor Emérito, como é
prática usual de muitas Universidades americanas que não condenam os seus expoentes
de investigação ao exílio forçado depois da sua jubilação. A análise comparada da vida útil, futura e potencial de impérios,
estados-nação e democracias coloca a obra no centro de cogitações
contemporâneas. O interesse da questão é que, ao contrário do que seria
imaginável, a discussão comparada das formas institucionais dos impérios,
estados-nação e democracias não a projeta para uma temática do passado, mas
antes para uma evidente atualidade. Por muito estranho que nos pareça, nunca
como hoje, aquelas três formas se conflituam e daí o interesse da análise
desenvolvida por Roland, obviamente inspirada em sólida evidência histórica. O interessante
da questão está no facto de Roland nos transmitir uma perspetiva otimista de
longo prazo sobre a referida conflitualidade. Embora admita que a ideia de
ameaça temporária tem de ser contextualizada à luz de períodos que podem
comprometer gerações inteiras, vale a pena mergulhar na sua ideia de que as
ameaças que pairam sobre as democracias de hoje serão temporárias. Trata-se de um tónico para o
pessimismo com que assistimos à degradação da cena mundial. Como precisamos
desse tónico!)
Resumindo bastante os argumentos expressos
na obra, Roland olha para os remanescentes grandes impérios da Rússia e da
China como formas institucionais que tenderão, nos seus propósitos de
expansionismo e de repressão, a enfrentar debilidades internas, expondo-os a
ameaças externas e principalmente á fragmentação territorial. A mensagem
histórica aqui presente é a de que se torna fundamental a duração do período em
que um dado império consegue ocultar as suas debilidades internas. Quanto mais
se prolongar essa ocultação menos intensa e provável será a emergência de
alguém capaz de desafiar o poder instalado. Isto leva-nos a um paradoxo que
Roland resume brilhantemente na ideia de que, sendo os impérios autocracias, eles
podem parecer fortes até que de repente mostrem a sua fraqueza. A indeterminação
da história faz com que não seja possível antecipar por quanto tempo será
possível ocultar as debilidades internas, geradoras de apetites de conquista do
poder, o qual pode até conduzir a uma nova forma de autocracia. Creio que este
modelo se aplica como uma luva ao caso da Rússia e menos ao da China.
Quanto ao argumento de que os
estados-nação têm também o seu futuro ameaçado, a tese pode parecer ainda mais
peregrina se tivermos em conta a intensidade com que o nacionalismo se tem afirmado
nos últimos tempos. Mas o argumento é compreensível, sobretudo se tivermos em
conta que os impérios milenários não conseguiram resolver o desafio da
homogeneidade étnica. Assim sendo, embora os estados-nação possam permanecer
durante mais tempo do que os impérios, eles assentam numa ilusão – o objetivo
da homogeneidade étnica que surge associado ao nacionalismo. O pensamento da
extrema-direita está recheado de versões romantizadas de períodos em que as
pessoas viviam em comunidades relativamente homogéneas do ponto de vista
étnico. Isso não mais existiu e Roland apresenta uma tabela em que calcula a
percentagem de população estrangeira a viver em economias avançadas, com valores
como 30,4% na Austrália, 28,2% na Nova Zelândia, 25,5% na Áustria, 23% no Canadá
e 31,1% na Suíça.
O argumento mais problemático e
Roland tem a noção de que pode ser apontado como alguém excessivamente otimista
é a sua convicção de que a crise vivida presentemente pela democracia é
temporária, nunca esquecendo que esta ideia do temporário tem de ser bem
compreendida, já que pode abranger gerações inteiras. A razão principal para
que Roland insista nessa visão da crise da democracia como temporária advém não
apenas dos problemas identificados na sobrevivência dos impérios e dos
estados-nação, mas especialmente na ideia de que a democracia vive bem e se
alimenta do desenvolvimento económico. Talvez seja aqui que resida essencialmente
o referido otimismo, o que nos conduziria a toda uma outra discussão.
Mas esta obra merece reflexão
adequada e sobretudo consegue-nos transmitir uma visão saudável do progressismo
da história e não a visão reacionária da negação do desenvolvimento.