(Já alguns anos, não muitos, quando eu e a minha colega Maria Pilar González, hoje retirada das lides académicas, estivemos envolvidos em trabalhos para a Organização Internacional do Trabalho, OIT, sobre a evolução do modelo social europeu, o nosso colega francês que se ocupou do modelo sueco ajudou-nos a perceber que esse modelo se encontrava em evolução declarada. Os traços mais salientes dessa evolução apontavam já para uma evidente degenerescência da dimensão equitativa do modelo. Não é que a feliz combinação entre modelo social, inovação e competitividade estivesse em declínio acentuado, aliás o modelo escandinavo em geral continua a gerir melhor essa relevante combinação, mas o incremento da desigualdade germinava já quer no teor das medidas de política, quer na então evolução recente dos indicadores de desigualdade. Era um triste sinal dos tempos, atingindo o coração do que pensávamos ser a saúde da herança social-democrata e mostrando que o então oásis europeu em matéria de superação da desigualdade começava a ficar seco. O heterodoxo economista Lars P. Syll, algumas vezes invocado neste blogue sobretudo pela sua persistente crítica aos modelos de equilíbrio geral, regressa ao tema e ajuda-nos a compreender que a intuição do nosso colega francês estava certa e que a Suécia começa a alinhar com as grandes tendências para o incremento da desigualdade nas economias mais avançadas. A questão não é, apenas, de modelo económico, assume também conotações e ligações políticas, estando aliás na raiz dos problemas que as formações políticas social-democratas enfrentam hoje pelo mundo.)
A citação que Syll realiza do relato de Ahmand Seif é muito precisa:
“A partir de 1990, foram introduzidas reformas fiscais substanciais, que resultaram numa significativa redução da progressividade do sistema de impostos sueco. Em 2007, o país aboliu o imposto sobre a riqueza e eliminou também impostos sobre heranças e doações. Além disso, os impostos sobre o rendimento baixaram, particularmente para aqueles situados nos escalões mais altos de rendimento, enquanto os impostos sobre os rendimentos do capital desceram com o objetivo de estimular o investimento e o empreendedorismo. Embora estas reformas tenham sido concretizadas para melhorar a competitividade da Suécia no mercado global, resultaram perversamente num aumento da desigualdade atribuindo um benefício aos indivíduos de rendimentos elevados e com ativos de capital.”
A cartilha é conhecida, tem-se revelado muito popular entre as fileiras da direita, da moderada à mais radical, o que é tanto mais surpreendente quanto mais não se conhece evidência relevante de efeitos relevantes no crescimento económico e na competitividade global, a não ser na melhoria indiscutível das condições dos titulares de rendimentos mais elevados. Mas a popularidade persiste à prova da inexistência de evidência, sendo tais mais surpreendente quanto se estende a modelos como o sueco.
Apesar desta não evidência, o líder do Partido Liberal Sueco anunciou há dias que a sua intenção era transformar s Suécia num paraíso fiscal e duplicar até 2037 o número de bilionários. A moda está, perspetiva-se, para ficar.
Mas se compreendermos que se virmos o crescimento económico através de um indicador que meça o crescimento global do rendimento, não é difícil perceber que essa taxa de crescimento é uma média ponderada das taxas de crescimento do rendimento de cada escalão pelo peso no rendimento nacional de cada um desses escalões. Ora, por muito elevada que seja a taxa de crescimento do rendimento dos mais ricos (os percentis mais altos), esse crescimento nunca será suficiente para mais do que compensar o crescimento anémico dos restantes.
A evidência não existe, mas a ilusão da relação entre baixos impostos e crescimento económico persiste e entranha-se nas direitas.
Até que alguém diga que o Rei ou a Rainha vão nus.
O “trickle down” é uma treta e já há algum tempo. Montenegro e Sarmento chegam tarde. O que também não é novidade.





