sábado, 19 de janeiro de 2019

CHUMBOS E NOKIA 5210


(Klaus Stuttman, http://www.tagesspiegel.de)

(Matt Pritchett, http://www.telegraph.co.uk)

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

Se alguma coisa resultou clara ao longo destes últimos meses de inqualificável confusão em torno da saída britânica da União Europeia, essa foi a combatividade e a capacidade de sofrimento de Theresa May. Sem prejuízo de alguns preferirem caraterizar as mesmas evidências observadas no posicionamento da personagem por manifestações de teimosia e masoquismo.Um conhecido jornalista descreve-a assim: “She will go on to the end, indestructible. She is the Nokia 5210.” De um modo ou de outro, acabamos de assistir a mais uma renovada sucessão de dias sempre frustradamente decisivos, a qual ficará bem retratada com o registo (ver abaixo, acrescentado de um breve apanhado do que por cá se sublinhou) das capas desses dias em que o acordo de May foi rejeitado pela Câmara dos Comuns e em que uma subsequente moção de censura de Corbyn foi igualmente afastada pela mesma Câmara. A pergunta relevante mantém-se, cada vez mais atual aliás: what happens now?






sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

ROMA, VISTO POR UMA MEXICANA



(A visualização do filme ROMA de Alfonso Cuarón impressionou-me vivamente, sobretudo pelo registo de memórias de juventude numa cidade do México hoje profundamente transformada e pelo foco na “nanny” Cleo. Visto e interpretado por uma mexicana é como se visualizasse de novo o filme.)

A lenta evolução do ritmo do tempo e da própria imagem do ROMA até à insuportável rapidez da violência e do modo como ela irrompe de quando em vez no filme é para mim um prodígio de confronto com o fervilhar por vezes tonto e sem sentido dos nossos tempos. Sei pouco, e como o lamento, da história do cinema, mas não conheço nenhum filme contado do ponto de vista central que uma empregada interna de família suscita às memórias de um realizador como Cuarón o faz, numa espécie de homenagem às que pelas voltas da vida acabam por se afeiçoar mais aos filhos de quem servem do que aos seus.

Tinha percebido no filme que Cuarón tinha resistido a fornecer ao espectador chaves adicionais para a contextualização da narrativa na cidade do México, que para mim se limita à literatura de Bolaño e a algumas histórias de amigos e profissionais sobre a insegurança permanente que se vive naquele monstro urbano. É como se isso perturbasse a evocação das suas próprias memórias, receando conspurcá-las com esclarecimentos para quem a não conhece.

Por isso, foi com inequívoco júbilo que acabei de ler na New York Review of Books (link aqui) a sensível crónica interpretativa do filme de Cuarón por uma jornalista-escritora de mão cheia nascida na Cidade do México e com um largo conhecimento vivencial daquela Cidade e dos seus períodos de transformação, Alma Guillermoprieto. O título da crónica é enigmático, The Twisting Nature of Love, que arrisco traduzir por A natureza torcida ou enrolada do amor, que não é mais do centrar o foco do filme no amor que Cleo, a nanny frágil e pequena nascida no sul do México. A forma como Alma Guillermoprieto percorre as ruas da sua própria memória da vida e da cidade e nos ajuda a interpretar melhor o filme, porque melhor contextualizado, equivale a uma segunda leitura do filme sem o visualizar de novo, embora com ganas de o fazer. E com a leitura do artigo de Guillermoprieto, compreende-se ainda melhor o pudor de Cuarón em ser mais explícito, sob pena de violentar as suas memórias.

Decididamente um grande filme e eis a razão para um segundo post sobre o mesmo.

RUI E LUÍS


À hora a que escrevo ainda não se conhece o resultado do Conselho Nacional do PSD e eu, algo fatigado por um dia extenuante que terminou com um jantar em Viana do Castelo, já não consigo que a curiosidade vença o apelo ao descanso. Do que fui conseguindo saber, a grande questão continua a colocar-se em torno de determinar se o voto final deve ou não ser secreto, o que me parece de uma absoluta e quase insana falta de bom senso coletivo. Quanto ao resto, digamos que a atitude de Montenegro – dizem-me que fortemente impulsionada a partir de Lisboa, onde o PSD estará em perda vertiginosa – poderá acabar por se tornar num bálsamo retemperador de algumas energias e até capaz de contribuir para uma renovada mobilização eleitoral do partido. No entretanto, e enquanto não chega o veredito de Paulo Mota Pinto, primeiro, e dos conselheiros, depois, o melhor registo vai para o patético momento protagonizado por Rio e Menezes, dois incessantes inimigos políticos que a tantas maldades recíprocas se dedicaram e que acabam comovidos nos braços um do outro – um episódio que terá tido a sua candura e beleza quando avaliado por certos observadores mais distantes e impressionáveis, mas também um episódio que não terá deixado de ser profundamente revelador de quanto a idade não perdoa...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

UMA BÚSSOLA PARA SÁNCHEZ



(A situação política espanhola está cada vez mais atolada em contradições que as há para todos os gostos, à direita com as vénias demasiado permissivas do PP de Casado e do Ciudadanos à direita extrema do VOX e à esquerda com as sucessivas fugas para a frente do PSOE. O que sugere que alguém inadvertidamente acordou demónios incómodos e que as diferentes Espanhas estão definitivamente em rota de colisão.)

O desafio enfrentado pela liderança de Pedro Sánchez no PSOE era gigantesco. Tudo se resumia em tentar, duma assentada, repor as condições para o diálogo político na Catalunha ao mesmo tempo que no Congresso dos Deputados se conseguia uma precária maioria parlamentar para arredar o PP da governação. O caminho era muito estreito. Por um lado, o espectro de eleições antecipadas por quebra da maioria parlamentar nunca deixaria de pairar sobre o Parlamento. Por outro, nada garantia que o independentismo catalão estivesse de boa-fé.

Todos os maus presságios associados à estreiteza do caminho se confirmaram e até agravaram. Para mais, o viajante PSOE e a sua liderança revelaram-se bem menos preparados para a viagem que a constituição inicial do governo permitia antever. Depois, a má-fé do independentismo catalão veio ao de cima nos mais pequenos pormenores, apesar da relativa contenção que a Esquerra Republicana tem introduzido no processo, logo contrariada pelo persistente oportunismo político de quem lidera hoje a Generalitat.

Entretanto, depois do êxito parlamentar da moção de censura ao governo de Rajoy tudo se precipitou. À direita e ao totalmente ao contrário do que eu havia previsto (e desejado) a luta interna no PP abriu caminho ao ressurgimento da inspiração Aznar, pois Casado não é senão um discípulo reverente do que eu considero ser uma das mais sinistras figuras da política espanhola recente. Esta guinada pró Aznar, creio que em total oposição ao que Rajoy pretenderia, acabou por ter influência no posicionamento do próprio Ciudadanos. Fortemente atingido pela sua deficiente gestão política da ofensiva do PSOE no Parlamento, Rivera nunca recuperou a partir daí aquilo que parecia ser uma perspetiva consistente de modernização da direita espanhola. E, no meio de todas esta trapalhada à direita e espicaçada pela tonta e supremacista clivagem Catalunha versus a outra Espanha, o VOX fez o seu estágio pelas fileiras do PP, ganhou autonomia e surgiu no panorama político espanhol despedaçando a ilusão de vitória do PSOE na Andaluzia. A partir da erupção andaluza, está hoje criada no eleitorado espanhol uma maioria de direita PP + Ciudadanos +Vox que a todo o momento tenderá a produzir efeitos do ponto de vista da governação nacional.

O percurso do PSOE e de Sánchez tem sido tortuoso, casuístico e de sistemático empurrão para a frente dos problemas, dos quais o maior é a criação de condições para a aprovação dos Pressupuestos de 2019. Sem mais argumentos para contornar a constante má-fé dos independentistas na Catalunha, Sánchez recorreu a uma espécie de bazuca descontrolada, geradora de todos os efeitos colaterais possíveis. A territorialização dos Pressupuestos acabou por oferecer à Catalunha praticamente a percentagem de fundos que a aplicação plena do seu estatuto de autonomia lhe poderia garantir. Como é óbvio, quando o lençol é curto, há sempre uma parte do corpo que fica exposto. E neste caso uma dessas peças chama-se Galiza, claramente penalizada na repartição. Não deixando de refletir o estado depressivo em que o PSOE galego se encontra, por conseguinte sem força interna para contrariar o processo, aqui temos o principal efeito da basuca descontrolada. A Espanha das regiões está a ferro e fogo, com a sensação sentida por algumas regiões que a má-fé e a inconstitucionalidade de alguns propósitos dos catalães são recompensadas.

Apesar desta concessão à Catalunha, não há a certeza de que os Pressupuestos sejam aprovadas. O que parece certo é o tempo das eleições antecipadas vai precipitar-se. E o resultado mais provável é o de uma vitória eleitoral do PSOE, mas com a formação de uma maioria de direita que assegurará a governação, provavelmente com mais um caso de governo com participação ou pelo menos apoio parlamentar da direita extrema. Ou seja, uma espécie de réplica da Andaluzia por toda a Espanha. De todo este processo, o principal fator de indeterminação vem das contradições entre a referida maioria de direita. Entretanto, à esquerda, cada vez mais se confirma a inorganiciade do PODEMOS.

SERÁ QUE ESTAMOS A FICAR MENOS INTELIGENTES?



(Tim Taylor no Conversable Economist é uma fonte permanente de problematização de novas ideias e de novas evidências trazidas por resultados de investigação. A evolução do QI e das suas causas é uma dessas matérias.)

Já perceberam que tenho uma especial afeição pelo Conversable Economist e pelo seu autor, Timothy Taylor, gestor de edição de uma das mais prestigiadas revistas de economia, o Journal of Economic Perspectives, americana, claro está.

O Conversable Economist é uma fonte permanente de novas ideias, alinhando com o que entendo dever ser a economia, rigorosa mas sempre aberta à fertilização cruzada com outras perspetivas disciplinares e não abdicando de contribuir para a compreensão dos desafios do nosso tempo.

O post do passado dia 15 (link aqui) retoma uma questão que tem permanecido relativamente misteriosa. O mistério não resulta da ausência de explicações, mas antes do facto de nenhuma explicação se ter imposto às demais. A questão é conhecida na ciência por “Flynn effect”, reconhecendo o contributo de James Flynn, essencialmente ligado à psicologia e ao estudo da inteligência humana, professor na Universidade de Otago na Nova Zelândia. São conhecidas as análises de Flynn sobre o crescimento progressivo da inteligência humana medida pela evolução do QI em universos humanos de grande magnitude sujeitos a esse tipo de testes. A investigação de Flynn tem suscitado a interrogação de saber, em primeiro lugar, se o aumento progressivo do QI pode ou não constituir o resultado de um “bias” introduzido pelos próprios testes que procuram medir o referido QI. Não se registando evidência pertinente para admitir este “bias”, o mistério não desaparece pois a explicação dos resultados do aumento do QI tem suscitado uma imensa controvérsia. Fatores como a melhoria das condições de nutrição (como isso foi importante na sociedade portuguesa!), a evolução das próprias metodologias e contextos de ensino e aprendizagem ou e evolução de contexto, determinando em termos evolucionistas o maior apelo às competências cognitivas, têm-se confrontado para explicara referida evidência. Talvez se verifique um predomínio das explicações que valorizam essencialmente o contexto da aprendizagem, mas não é matéria resolvida.

Muito empíricamente, a generalidade dos professores, dos diferentes níveis de ensino, reconhece a existência de uma certa polarização, os bons alunos são cada vez melhores e os piores são cada vez mais uma desgraça completa. Eu próprio a constatei ao longo dos 35 anos de ensino universitário.

Ora o que o post do Conversable Economist nos traz de perturbador é a emergência das primeiras evidências de que o QI estará a recuar em alguns universos, nuns casos na idade liceal dos 14 aos 18 anos e noutros casos em idades mais tenras. Flynn sempre referiu que o aumento dos QI não deveria ser entendido como uma espécie de lei da gravidade. Estaríamos assim perante uma lei dos rendimentos decrescentes da inteligência humana. É especialmente relevante, para além dos trabalhos do próprio Flynn, uma investigação centrada na Noruega que demonstra que a descida do QI se observa não só no interior das famílias mas também entre elas, o que parece sugerir que não se deve a alterações de composição familiar, mas predominantemente a fatores de contexto. Quais são esses fatores é uma outra questão, não resolvida, o que vai adensar o mistério dos fatores explicativos da evolução da inteligência humana.

Toda a gente já tinha percebido que o mundo está menos inteligente. O que não sabemos é se isso tem relação com a descida dos QI dos vulgares mortais.

MACRON FAZ PELA VIDA

(Jean Plantu, http://lemonde.fr)


Enquanto os britânicos se digladiam incessantemente em torno do “Brexit” – já lá vamos! – e os alemães se começam a preocupar seriamente com os sintomas de uma recessão no horizonte, em França a cena pública é dominada pelas tentativas desesperadas de Macron para salvar a sua própria pele, que o mesmo é dizer o seu mandato presidencial, a sua carreira política e alguma normalidade democrática. A capa do velho “Libé” lá vai continuando a assinalar com classe e rigor o estado de coisas em torno – veja-se como aquele bonjour, c’est pour un débat, acompanhado de um cenário tentativo e de desolador isolamento, é por demais magistral...

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

ATLANTA



(Ecos da reunião anual da American Economic Association em Atlanta com foco na Richard T. Ely Lecture, este ano a cargo do incontornável David Autor, economista do MIT já por repetidas vezes mencionado neste blogue. O futuro do trabalho ou o trabalho futuro como tema do nosso tempo.)

Circulam por aí mapas sugestivos que representam a intensidade diferenciada de luz vista do espaço (satélites) e a distribuição pelo mundo. Existem até metodologias que estimam por essa via o produto de parcelas do mundo com menor qualidade de medida do desempenho económico. Se estivesse disponível um índice que medisse em determinado momento do tempo a intensidade de disseminação do conhecimento económico, estou seguro que nos dias 4-6 de janeiro de 2019 teríamos no ponto Atlanta uma fortíssima intensidade de luz.

A reunião anual da American Economic Association, regra geral no princípio de janeiro de cada ano, representa uma concentração brutal de conhecimento, envolvendo os consagrados (prémios Nobel que apresentam os seus papers, regra geral com estudantes de doutoramento ou Phd’s recentes) e os que procuram a notoriedade do primeiro paper. Só a leitura do vastíssimo programa da reunião anual nos deixa cansados e aí compreendemos a magnitude da academia económica nos EUA. Imagino que daqui a algum tempo, senão já agora, o equivalente chinês da reunião magna da AEA nos deixaria também de queixo caído. Recordo que algumas funções que procuram medir a produção de ideias colocam a demografia entre as principais variáveis explicativas. Compreende-se: 1% de investigadores face à população ativa da China ou de um qualquer minorca demográfico tem um significado completamente diferenciado do ponto de vista da massa crítica absoluta onde as ideias podem emergir.

É impressionante que em reunião magna de tamanha envergadura uma conferência em particular atraia a atenção dos economistas. A Richard T. Ely Lecture cumpre esse critério. Regra geral, o número da American Economic Review que dava conta dos principais outputs da conferência anual começava pela T.Ely Lecture, o que está em linha com a minha ideia.

Este ano, sob a apresentação de Ben Bernanke, a honra da Richard T. Ely Lecture coube a David Autor, Ford Professor of Economics no MIT, que a dedicou ao confronto Trabalho do Passado, Trabalho do Futuro, o que também constitui uma forma de abordagem do futuro do trabalho (link aqui). Autor, com a ajuda de alguns colegas, é curiosamente responsável por duas áreas de pesquisa fundamentais para compreender o estado atual da economia americana e dos debates que o mesmo tem suscitado. Por um lado, Autor analisa o mundo do trabalho pelas consequências que o progresso tecnológico e ultimamente a robotização determinam sobre a procura de trabalho e de competências e os salários das profissões associadas. É essencialmente a David Autor que se devem os avanços mais significativos na chamada evidência da polarização dos empregos, qual como já aqui referi em tempos tem penalizado essencialmente as chamadas qualificações intermédias, de certo modo as mais rotinizáveis, logo passíveis de substituição por máquinas, e menos “offshorizáveis”. Por outro lado, Autor é também líder da investigação sobre os reais impactos da economia chinesa na desindustrialização americana.

A conferência de Autor na AEA de Atlanta é um prodígio de segurança, sobriedade, clareza e honestidade intelectual. Autor não é seguramente um militante ativista. Mas no domínio da sua investigação, ele é um alimentador crucial do debate sobre o futuro do trabalho.

Num registo totalmente diferente, um Nobel de Economia, Robert J. Shiller apresentou na reunião magna da AEA um paper muito sugestivo sobre “Narratives about Technology-Induced Job Degradation – Then and now” (link aqui para uma versão preliminar). A forma como Shiller integra o uso das narrativas na análise económica é uma delícia e mostra bem o lado inventivo dos consagrados:

“O termo ‘narrativa’ é frequentemente usado como sinónimo de ‘história’, uma sequência de eventos. Mas a palavra narrativa tem um outro aspeto muito importante. Uma narrativa é o contar de uma história, que atribui significado e significância a ela, que muitas vezes é entendido como proporcionando uma lição ou uma moral. Uma narrativa pode transformar-se numa interpretação de eventos em curso comparando-os com uma história. Com as narrativas económicas, a narrativa pode representar um proto-modelo económico, compreensível pela grande maioria do público em geral

No meu modesto entender, teoria económica e narrativas não se podem ignorar. Assim, por exemplo, o populismo económico tem-se alimentado de narrativas que se não forem confrontadas criticamente com os resultados da teoria correm o risco de se eternizar.

Imaginem, a partir destes dois simples exemplos, a intensidade de disseminação de conhecimento da reunião magna da AEA.