(A grande recetividade que a Encíclica Magnifica Humanitas tem vindo a receber mostra duas coisas, que devemos atribuir mais importância e atenção ao que o Papa Leão XIV tem a dizer ao mundo e que existe instalada uma profunda preocupação quanto à necessidade crucial de colocar a dimensão humana no centro do debate que muito tardiamente começou a ser travado em torno dos avanços e das possíveis derivas da inteligência artificial. Muita da reação que anda por aí faz-me concordar com a eterna Mafalda da banda desenhada, quando ela na sua irreverência confessa que está mais preocupada com o recuo da inteligência humana do que com o rumo da IA. Tenho para mim, e não tenho dúvida em aceitar que cheguei tarde ao mundo da IA e que por isso não sou ainda um utilizador confesso e generalizado da mesma. Por razões de preparação para a docência universitária de outros tempos, fui durante largo tempo um estudioso relativamente aprofundado das questões da inovação e da tecnologia, embora sempre admitindo que os engenheiros estão em vantagem em relação aos economistas para as entender, tal qual elas evoluem historicamente. Recorrendo a esses conhecimentos que fui adquirindo, sou levado a concluir que a IA não é mais do que mais um momento particular dessa longa evolução dos paradigmas da inovação tecnológica. Grande parte dos medos e fobias, alguns pouco inteligentes, que começam a formar-se em torno da IA e dos seus possíveis malefícios, encontrei-os, embora sob outras formas, noutros momentos da evolução tecnológica. A história do desta vez é que é tem tido expressões diversas ao longo do tempo, seja na ficção futurista, seja na reação por vezes violenta das sociedades. Era sobre esta questão, de saber se desta vez é diferente e de vez, ou se pelo contrário as sociedades avançadas acabarão por encontrar a interação certa com a nova tecnologia. O que não significa que não existam diferenças de contexto que importe assinalar.)
Na verdade, recorrendo às minhas principais referências bibliográficas sobre o modo como as principais revoluções tecnológicas foram recebidas pelas sociedades mais avançadas, não é difícil reconhecer a presença nesses debates de questões que estão de novo a ser colocadas pela disseminação da IA. É o caso da destruição de emprego provocada pelas sucessivas inovações, em que recorrentemente sempre existiu o dilema de focar a atenção no curto-prazo em que a destruição de emprego supera a criação de novos empregos ou no longo prazo em que a história económica mostra que a criação líquida de emprego foi sempre positiva. Mas é também o caso da alienação humana pela tecnologia, como foi por exemplo o caso das novas tecnologias de comunicação onde se receou que a interação humana fosse reduzida a mínimos, quando ela efetivamente aumentou, a ponto de assumir fórmulas doentias de “messaging” permanente, sem, contudo, as questões de a alienação terem desaparecido. Veja-se o caso da adição aos telemóveis dos mais novos aos mais velhos. É ainda o caso do aproveitamento oportunista das novas tecnologias, como hoje acontece com jovens universitários e do secundário em que o recurso fácil a soluções de IA está a conduzi-los a uma total iliteracia de compreensão, como os relatos de professores universitários que me são próximos não se cansam de documentar. E é ainda o caso das implicações da tecnologia na organização das empresas e de todas as instituições em geral, onde a história nos mostra que os vencedores foram sempre aqueles que compreenderam mais cedo as implicações organizacionais das novas tecnologias.
Se invocarmos esta recorrência no passado, talvez compreendamos que a tese do “desta vez é que vai ser diferente” talvez deva ser relativizada.
Mas sou sensível às diferenças abissais de contexto em que a ameaça de hoje se coloca. A principal diferença de contexto é ilustrada na capa da mais recente edição do Nouvel Observateur, onde os quatro profetas da desgraça ou do futuro mais risonho são apresentados. Qual é a diferença de contexto? A principal diferença está no contraponto existente entre a maior concentração de hoje na fronteira tecnológica, isto é, na frente da corrida e a maior desigualdade que se regista, seja nas sociedades mais avançadas, seja entre quem comanda a corrida e o restante pelotão.
É neste contexto que o apelo do Papa Leão XIV no sentido de colocar de novo o humano no centro da revolução tecnológica tem justificação plena, sendo importante pelo grau de consciencialização da ameaça que o seu pronunciamento pode proporcionar. Esse sim é o rumo que a regulação da IA deve assumir. Para lá disso, subsiste o problema de saber se a inteligência natural e humana será capaz, como o foi no passado, de saber utilizar as novas possibilidades da IA, ou se, pelo contrário, irá sucumbir à preguiça, ao facilitismo, entregando-se à sedução da tecnologia. Certamente que os empregos e as competências irão ser impactados, que os riscos da alienação humana estarão aí à mão de semear, que as mentes mais diabólicas e transviadas poderão encontrar na IA novas formas de submissão do humano. Tudo isso é verdade, mas como o foi também no passado com outras revoluções tecnológicas.
Se nos projetarmos nas experiências do passado, outros como nós estiveram também perante a interrogação: será que desta vez vai ser diferente? Os mais positivos vão admitir que a nossa adaptação não irá ser perfeita, mas fará avançar o mundo. Os mais pessimistas e cabalísticos verão certamente ameaças mais pesadas. Mas talvez a Mafaldinha tenha razão: o verdadeiro perigo estará na incapacitação da inteligência natural e na propensão para o abismo que as sociedades por vezes revelam. E, de facto, a propensão para o abismo assume hoje proporções inquietantes.









