(Gráfico NOVA BSE; Notas: eixo dos XX, nível de RPC à PPC em 2016; eixos dos YY - crescimento global entre 2016 e 2023; reta vertical vermelha - 75% da média comunitária; reta vertical a tracejado - RPC médio da União à PPC; reta oblíqua a verde - regra de regressão da convergência absoluta)
(A equipa da NOVA Business School of Economics – BSE, que esteve no centro de um debate espúrio e desconectado deste tempo sobre a legitimidade de utilizar uma designação em inglês, vai prosseguindo a sua atividade de prestadora de serviços de conhecimento a diferentes entidades responsáveis por diferentes políticas públicas. É este o caso do agorapublicado Relatório de Desenvolvimento e Coesão Territorial, o segundo, financiado pelo PAT – Programa de Assistência Técnica 2030, programa cuja avaliação de operacionalização tive oportunidade de coordenar em 2025. O estudo está publicado e acessível ao público, dando assim seguimento à obrigatoriedade de comunicação transparente sobre os financiamentos do PAT 2030, representando uma boa oportunidade para analisar o estado da arte essencialmente económico do desenvolvimento e da coesão territorial em Portugal, agora que o PT2030 procura recuperar em matéria de execução dos efeitos perversos que os timings apertados de conclusão do PRR provocaram na capacidade de investimento público e privado. Dizia-me há dias alguém em funções públicas importantes que só agora municípios e mesmo as empresas estavam a acordar para explorar o financiamento do PT2030, já que a conclusão do PRR esgotou reservas de capacidade. Sabemos de experiência feita que quando emergem problemas de execução de Fundos Europeu, o alerta e a mobilização são gerais, agitando as hostes e convidando ao investimento. Por isso, nunca existiu no país um problema de execução de Fundos Europeus. Outra coisa, bem diferente e sumarenta, é a interrogação sobre a capacidade dessa força de execução ter aplicação estratégica efetiva em consonância com as necessidades estruturais do país. O estudo coordenado pelo mediático Professor Pedro Brinca da NOVA BSE constitui mais uma oportunidade para tentar responder a essa interrogação sossegando os espíritos ou agitando consciências.)
Como é timbre da equipa da Nova BSE, o estudo agora publicado é claro, escorreito e vai ao encontro de questões essenciais como: como é que Portugal e as suas regiões se comportaram em matéria de convergência?; como é que a produtividade nacional e regional evoluiu desde 2018 (data do 1º relatório); está o país apanhado na chamada armadilha do rendimento médio que relatórios europeus evidenciaram existir (e que internamente a Professora Elisa Ferreira tanto tem divulgado para encontrar as soluções mais pertinentes)?; que desafios estatísticos e de medida tem o alargamento da União feito emergir?
É um bom repositório de questões, cuja abordagem traz a principal implicação de contribuir para uma discussão mais saudável das reformas estruturais necessárias, sobretudo menos enviesada do ponto de vista ideológico do que as ideias trazidas por Passos Coelho e admiradores, exemplo de propostas de discussão que trazem água no bico e que estão inquinadas por um viés preconceituoso. Já agora na voracidade de escrever quase diariamente, passou-me a publicação de um excelente artigo sobre o tema publicado pelo ex-governador do Banco de Portugal, Carlos S. Costa, no ECO, jornal digital, que também é um bom exemplo de uma discussão não preconceituosa do que devemos entender por reformas e mudanças estruturais.
O estudo da NOVA BSE traz a boa nova de que, num ambiente generalizado de convergência da União entre 2016 e 2023, embora com a persistência de disparidades relevantes entre países, Portugal alinhou com esse movimento de convergência, ganhando posição em termos de rendimento per capita face à média da União, com melhoria de 7 pontos percentuais entre 76% e 83% da média da União. A proclamada tese do crescimento “poucochinho” encontra aqui alguma comprovação, especialmente se compararmos a progressão dos 7 p.p. com os 15% da Lituânia. Só esta comparação daria para uma meia dúzia de posts, especialmente porque para isso seria essencial comparar os contextos de partida das duas economias.
O gráfico que abre este post e que é de autoria da equipa da NOVA BSE mostra como Portugal, partindo em 2016 de um rendimento per capita à paridade de poder de compra inferior à média europeia, cresceu mais do que o observado nessa média (crescimento global português de cerca de 42%), embora não tanto como o esperado a partir da reta de regressão. Aqui a curiosidade está no facto da evolução portuguesa ter contrastado com a dos restantes países da economia do Sul (Espanha, Grécia e Itália) que cresceram abaixo da média comunitária. Surpresa ou não surpresa, deixo essa avaliação à vossa consideração. Comparando com a Lituânia, o espectro do poucochinho emerge de novo, mas em relação à Europa do Sul a nossa convergência positiva salta aos olhos. Tanto mais que, decompondo o crescimento observado, foi o crescimento da produtividade hora que mais explicou esse crescimento (73% de contributo), seguido do aumento da taxa de emprego com 15% de contributo. Este é talvez o dado mais relevante de todo o relatório da Nova BSE, sobretudo no quadro de uma economia como a portuguesa na qual os défices de produtividade aparente do trabalho são, regra geral, apontados como uma das principais insuficiências da nossa competitividade.
Sabemos que as insuficiências de produtividade do trabalho em Portugal resultam fundamentalmente de insuficiências organizacionais e do baixo peso de empresas de grande dimensão, já que quanto às baixas qualificações o panorama não é hoje tão negro como no passado, especialmente quanto aos novos fluxos de entrada na força de trabalho. O forte contributo da produtividade-hora para a convergência positiva da economia portuguesa é um sinal de que algumas coisas estão a mexer, não sabemos ainda com total rigor o que terá potenciado essa melhoria.
(Gráfico Nova BSE - a reta de regressão menos inclinada representa um ritmo de convergência menos expressivo após 2010)
Mas quando se utiliza a variável da produtividade para analisar as condições de convergência da economia portuguesa, verifica-se que ela é mais fraca após 2010, numa tonalidade geral comum a praticamente todas as regiões portuguesas, no âmbito da qual se percebe que todas elas combinam níveis baixos de partida da produtividade com crescimentos relativamente baixos dessa mesma produtividade. O relatório sugere a existência de constrangimentos estruturais que dificultam o apanhar quem vai à frente. A região Centro é aqui um caso de estudo pela negativa, traduzido no facto de se tratar da única região com divergência negativa – de 68% do PIB per capita da União em 2016 e 67% em 2023.
A Comissão Europeia tem assinalado a entrada das regiões portuguesas num ciclo que pode ser definido pelo conceito de armadilha do rendimento médio, que atinge economias que depois de terem vencido a barreira dos rendimentos baixos evidenciam séria dificuldade de passar a um escalão de rendimentos mais elevados. Essa dificuldade de entrar numa transição virtuosa dever-se-á essencialmente à incapacidade de concentrar no tempo um esforço suficiente de aceleração da inovação, de investimento e de adaptação tecnológica que não tem sido possível assegurar, apesar de todas as oportunidades abertas pelos Fundos Europeus.
A principal conclusão que retiro desta vertente do relatório é que, do ponto de vista económico, tudo que distraia a capacidade de investimento nacional deste esforço central representará um puro desperdício de recursos, afastando a trajetória da economia portuguesa de um desenvolvimento mais sustentado, em clara divergência com o esforço já avançado de modernização infraestrutural e de melhoria generalizada das qualificações.
E assim me quedo nos comentários ao relatório da Nova BSE. Existem outras variáveis que valerá a pena analisar, mas por agora é suficiente para documentar a sua importância.




