quinta-feira, 9 de julho de 2026

A UNIÃO EUROPEIA NÃO COMPREENDE OS NÚMEROS DO SEU PRÓPRIO COMÉRCIO EXTERNO?

 

(O sempre perspicaz analista do Financial Times, Martin Sandbu, assina na newsletter Free Lunch do jornal uma curiosa reflexão sobre as ondas de pânico que, com epicentro na Alemanha e na Volkswagen, estão precipitadamente a formar-se na União em torno do relacionamento comercial com a China. O problema existe e os cerca de 100.000 trabalhadores da Volkswagen atingidos pelo despedimento potencial melhor do que ninguém darão razão a essa onda de preocupação. A análise de Sandbu tem o mérito de com evidência simples mostrar que a contaminação gerada pela situação daquela empresa alemã está longe de ter justificação plena, olhando para os números globais do comércio externo europeu. O problema existe, mas seguramente que a má compreensão dos dados do comércio externo que está na base das tais ondas de pânico não será seguramente boa conselheira para traçar os rumos de política mais consentâneos com a proatividade de mitigar a sua incidência.)

Os problemas que a Volkswagen enfrenta em termos de supressão de postos de trabalho foram associados à ameaça chinesa na sequência do aumento das importações provenientes da China registado nos tempos mais recentes, com relevo para a vertente dos veículos automóveis. Como a história económica nos ensina, ondas de pânico conduzem regra geral à generalização do protecionismo mais defensivo, tanto mais fácil quanto Trump vulgarizou essa prática com a volatilidade do seu humor em matéria de política comercial externa.

O que a análise fria de Sandbu nos mostra é que essa onda de crescimento das importações chinesas é registada num contexto em que as importações europeias globais tiveram um crescimento praticamente residual. Assim sendo, o que efetivamente aconteceu é que as importações chinesas se limitaram a substituir outras importações, provenientes seja dos EUA, do Reino Unido, Japão ou de outros países. Ou seja, não há uma invasão global de importações, o que acontece é que as importações chinesas (cerca de um milhão de veículos em 2025) traduziram uma perda de competitividade das importações de outros países no mercado europeu. Em termos geopolíticos, isso pode ser um problema, acaso as autoridades europeias entendam desejável que o seu mercado interno não seja dominado pelo poderio industrial e elétrico chinês. Mas do ponto de vista da ameaça à indústria europeia não tem grande significado, por muito impressivos que sejam os números do aumento de importações provenientes da China.

Mas ainda mais surpreendente é a evidência de que a União Europeia continua a ser uma exportadora líquida de veículos elétricos, por mais impressionados que estejamos com a presença física do vasto manancial de marcas de veículos elétricos chineses que se passeiam pelas nossas estradas. Certamente que o potencial competitivo, ardiloso como o sabemos, da produção chinesa de veículos elétricos é em si revelador, sobretudo do ponto de vista, esse seguramente mais ameaçador, de que os chineses dominam praticamente toda a fileira elétrica. Acresce que a faixa de preços a que a União exporta os seus veículos é claramente superior à faixa de preços a que as importações chinesas se materializam.

Face à realidade dos números, não parece saudável que os problemas registados no “motor alemão” (que já não é o que era, assinale-se) façam o pânico europeu galopar desorientadamente. O pânico, sobretudo o pânico injustificado e com deficiente compreensão dos números de suporte, nunca foi bom conselheiro de uma política industrial, mais propriamente de ressurgimento industrial. E não são números complexos. Antes pelo contrário, são bem simples e esclarecedores.

 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

O MECI TEM DE PARAR PARA PENSAR

 
(excerto de Missão Escola Pública, https://www.facebook.com

A polémica em torno dos exames nacionais está ao rubro e o caso não é para menos tão abrangentemente reveladora se apresenta quanto a múltiplos dos vícios que configuram a nossa presente realidade nacional. Ele é o novo-riquismo associado aos fundos europeus, que atingiu o grau máximo de absurdo e desperdício com o PRR a que Costa chamou de bazuca e sobre o qual perguntou se já podia ir levantar o respetivo cheque. Ele é o exibicionismo associado à “modernização” feita à pressa, com dinheiros fáceis e sem cuidar de prioridades, do que a digitalização das provas é uma ilustração clara. Ele é uma sociedade civil que olha para o Estado como uma fonte de cumprimento obrigatório e atempado dos seus interesses e vontades, ao mesmo tempo que se queixa amargamente do volume de impostos a que procura escapar. Ele é uma classe política crescentemente incompetente, muito por força do afastamento de tantos por força da respetiva remuneração e do escrutínio a que está sujeita, agora engrossada por académicos bem-intencionados (embora por vezes desmedidos em ambição) mas notoriamente impreparados para o desempenho e a decisão políticos.
 
Este último tópico é o que corresponde à passagem governativa de Fernando Alexandre, um académico de primeira água (à luz de um critério objetivo centrado em investigação aplicada aplicável e não de lógicas que privilegiem os papers que publicou e as avaliações de júris mais ou menos duvidosos) que decidiu vir dar uma mãozinha à política mas se quis colocar como dono e senhor de um espectro de áreas difíceis e muito trabalhosas (só a Educação já é mais do que bastante para um homem só!) e, não satisfeito com isso, se quis também apresentar como o maior dos reformadores dos tempos modernos. Conclusão: eliminou ou fundiu estruturas fundamentais e altamente experimentadas do Ministério sem acautelar a passagem de testemunho do conhecimento adquirido; introduziu alterações no regime geral de acesso e ingresso no Ensino Superior; criou um novo modelo de bolsas de estudo; extinguiu a FCT e a ANI para criar uma AI2 que lá penando para existir e se afirmar, não sendo nada claro como tal modelo acabará por enfrentar a velha questão da investigação versus inovação; criou um novo sistema de ação social no Ensino Superior, de contornos significativamente duvidosos em sede de objetivos não necessariamente complementares (coesão social e territorial versus elevador social); fez aprovar um novo RJIES que vai seguramente constituir uma fonte de entropia de toda a espécie nas instituições; criou duas universidades técnicas em corrida desenfreada para efeitos de consolidação da imagem de um tal PTRR; e muito mais, com a particularidade de mostrar quase sempre como um maestro sozinho (onde para e o que diz a luminária que era Alexandre Homem Cristo quando foi designado seu principal secretário de Estado), do trabalho à decisão (e, mais decentemente, na assunção de responsabilidades) uma secundarização do parecer dos principais envolvidos e até de uma oposição declarada por parte dos mesmos.
 
Neste quadro, o destino político de Fernando Alexandre parece ameaçado. O que se lamenta, principalmente porque se trata de alguém capaz e com boa energia. Importa, por isso, que o ministro consiga a ponderação requerida para não se posicionar como pretendendo “apanhar o céu com as mãos”. Assim o espero, a bem dele e a bem do País.

OS PASSOS EM FALSO DE UM MINISTRO REFORMISTA

 


(Agora que no Mundial os emergentes foram à sua vida, rendidos à força dos incumbentes e aos interesses da organização, que a Bélgica tratou de colocar ao nível as intromissões de Trump e a subserviência do careca do Infantino e que a crónica anunciada da sobrevalorização permanente das capacidades futebolísticas nacionais se consumou, pouco interesse associo ao evento. Resta a hipótese de Marrocos poder fazer estragos nas apostas estabelecidas, não estou muito otimista quanto a essa possibilidade, ou dos glaciais, mas irreverentes noruegueses pregarem alguma partida, mas veremos se nos próximos dias haverá algum motivo de comemoração. Sem matéria para as minhas metáforas futebolísticas, devo virar-me para a atualidade política nacional e nela encontrar alguma motivação que vença a minha preguiça pré-estival, que antecipa claramente aquela modorra das férias da qual dificilmente recupero. Ora, na atualidade política nacional, a principal fonte de interesse está em mais uma barracada disruptiva que a educação nos proporciona. A sucessão de problemas de confusão administrativa em que a educação está permanentemente mergulhada, transforma em verdadeiro milagre sistémico a melhoria dos indicadores do sistema educativo nacional que tem vindo a ser observada nas duas últimas décadas, embora as avaliações de desempenho que o programa PISA da OCDE nos proporciona, aconselhem a monitorizar com cautela a referida melhoria dos indicadores, sobretudo da mais impressiva que é a redução substancial do abandono e insucesso escolar. A mais recente perturbação no sistema, relacionada com as correções dos exames nacionais, 9º e 12º ano, torna-se mais apimentada porque o ministro da Educação, Ciência e Inovação Fernando Alexandre é por mim considerado um dos únicos ministros reformistas do governo de Montenegro e isso é para mim motivo suficiente para o tratar de forma respeitosa, o que não significa de todo ausência de crítica, impiedosa se necessária.)

A questão da barracada administrativa armada com a correção dos exames parece ser mais um exemplo de digitalização apressada sem estarem criadas as condições necessárias para que a sua aplicação pudesse decorrer sem os sobressaltos mínimos e de ajustamento que todos os processos deste tipo acabam por exigir. Aliás, num país como o nosso, em que o reconhecimento da qualidade da oferta formativa superior em matéria de sistemas de informação e de computadores é generalizado, não consigo entender a série de engulhos que tenho identificado nas infoestruturas de suporte às políticas públicas.

Ora, segundo o que tem sido conhecido, a ideia de digitalização precoce parece robusta. A experiência do ano passado com os exames de Filosofia deu para perceber que os erros e adaptações necessárias eram muitos e que o salto de escala para a digitalização integral dos exames em 2026 era um salto para o abismo e para o risco, como veio a confirmar-se. O ziguezaguear do ministro nesta questão foi preocupante, aliás como tem sido comum noutros dossiers, com relevo para a informação vinda dos próprios serviços do ministério. Mas o que é novo nesta questão dos exames, é que desta vez não estão em causa possíveis ineficiências das estruturas públicas do sistema, mas antes o mau trabalho desenvolvido por uma empresa privada. Sem querer entrar aprofundadamente nesta questão, porque me falta informação robusta para o fazer, não posso ignorar que o problema tem sal e pimenta que baste.

Por vias travessas, fui informado de um post no Facebook de Miguel Prata Roque (devo confessar que tenho reservas fundamentadas quanto a esta personagem típica da corte lisboeta, afeta ao PS, isso não me interessa, e por isso não queria explorar profundamente esta questão) se faz referência à empresa que foi objeto de contratação pelos serviços do Ministério de Fernando Alexandre para assumir a referida tarefa da digitalização. Pelos vistos, a empresa é a AXIANSEU II DIGITAL CONSULTING S.A, integrada no grupo VINCI, o tal que recebeu a prenda dourada do governo de então na privatização da ANA, gestora dos aeroportos nacionais, com o ex-ministro Arnaut no furacão dessa decisão. O contrato terá importado segunda a mesma fonte em cerca de um milhão e quinhentos mil euros.

Imaginem o caos mediático que emergiria se a incompetência do processo de digitalização fosse atribuível a alguma estrutura pública. Mas não é o caso, trata-se de uma empresa privada e não é necessário ser especialista da matéria para compreender que existiu aqui uma deficiente avaliação das responsabilidades a assumir.

A falta de respeito para com as expectativas e compromissos das famílias quanto a datas de exames, correções, publicação de notas e eventuais segunda edição dos exames é confrangedora e evidencia um Ministro acossado, que já admite a hipótese de ressarcimento financeiro de famílias, com evidência demonstrada de prejuízos incorridos. Quanto mais reformista um dado Ministro pretende ser, mais exigentes se tornam estes processos em que o passo supera a perna de quem o dá. Abrir frentes de reprovação nas Escolas, nas famílias, na ciência, no sistema das instituições de ensino superior (IES), universitário e politécnico, não é estratégia que se recomende ao reformismo. Mas é isso que está a acontecer. Normalmente, o rescaldo destes processos consiste em meter no saco as reformas pretendidas.

Veremos se o Ministro Alexandre confirma a regra.

Nota complementar

Como receava, informação complementar disponível no Expresso on line sugere que a referência concreta à empresa privada que terá trabalhado a digitalização das respostas dos exames estava errada. Pelo que se percebe do artigo de Ângela Silva, a empresa inicial terá sido uma tal BLAT - Creative Powerhouse Lda, sendo o ministério posteriormente obrigado a recorrer aos serviços da Delloitte. Entretanto, é um facto que o Público, na sua investigação, refere o contrato com a Axianseu II Digital Consulting para desenvolver a GAEBS, uma plataforma de gestão do processo das provas de avaliação externa, das inscrições à divulgação dos resultados. Mas segundo a dita empresa, o o projeto GAEBS adjudicado pelo IAVE “não corresponde” à plataforma que tem sido referida nas notícias sobre falhas técnicas nos exames do secundário". A confusão está instalada. Esta confusão não penaliza contudo o alcance do meu post.

 

terça-feira, 7 de julho de 2026

ASI NO, ADIÓS MUCHACHOS!

 
(Hamid Sahari, https://x.com/Hamidsahari20) 

Quem diria que as minhas incursões de análise futebolística internacional acabariam com um louvor a Messi e uma reprovação de Cristiano Ronaldo? Pois a verdade é que o comportamento que CR7 vem evidenciando de há anos, tendo atingido o cúmulo neste Mundial, só pode ser classificado como miserável. Como miserável é a subserviência covarde dos responsáveis principais, o selecionador Roberto Martinez – cuja incompetência e manha foram objeto de grotesca exibição nestes seus quase quatro anos de contrato –, o presidente da Federação Pedro Proença – um “sempre em pé” que nunca foi sequer capaz de tentar pôr alguma “ordem na casa” – e, ao que vimos ontem nas suas declarações de final do jogo, o primeiro-ministro – que preferiu as trivialidades de um duvidoso “politicamente correto” ao balanço crítico que se lhe deveria ter imposto não fora o seu saloio “esforço” de se deslocar três vezes aos Estados Unidos (ao que se julga no avião do Estado Português) com a equipa ainda longe das grandes decisões apenas pela forte consciência que tem das suas obrigações associadas à sua alegada e irredutível afiliação ao povo de que emana e que representa. Cada vez mais me convenço quão decisivo é “tomar chá em pequeno”...


A mesma lógica de considerações vale para CR7, um pobre diabo com enorme vocação para o futebol e para o trabalho físico que subiu a pulso as escadas do merecimento profissional e da notoriedade mundial mas não alcançou o entendimento de que tal mais não lhe asseguraria do que brutais condições materiais e de vida e não qualquer direito a vedetismos despropositados e a interferências indevidas. As suas declarações no final do jogo de ontem foram, nessa linha, de uma infelicidade atroz.


Ninguém no mundo que seja minimamente lúcido em matéria de futebol, para não dizer de conhecimento dos limites naturais do ser humano, poderá contrariar as afirmações de Ibrahimovic a propósito da relação entre o escalonamento da equipa portuguesa neste Mundial e as suas ambiciosas pretensões, designadamente no tocante a uma liderança do ataque nacional conduzida por um jogador de 41 anos (e com Gonçalo Ramos no banco e a marcar quase sempre quando teve alguns minutos). E volto ao início, recorrendo ao venenoso Mourinho quando há uns anos se referiu à comparação e rivalidade então no auge entre Messi e Cristiano.


Terminado o embuste que nos quiseram vender, vamos brevemente ao jogo de ontem. Desde logo, a constituição da equipa: mais do que previsível face aos tiques conservadores de Martinez, estranhei ainda assim que Cancelo e Bruno Fernandes se tivessem mantido e que tenha sido João Félix o eleito para o lugar de Rafael Leão. Mas adiante, até porque vimos Félix a fazer finalmente um jogo positivo e empenhado. Na segunda parte, o posicionamento e a atitude da equipa logo deixaram antecipar o pior de uma lógica ainda mais defensiva e de entrega da bola aos espanhóis; acrescem as substituições, que foram desastrosas: Nuno Mendes por Nelson Semedo foi obrigatório face à lesão do primeiro (um momento de azar para um dos poucos que se exibia a nível adequado), mas as de Cancelo por Dalot e Neto por Conceição foram inócuas (quando havia a hipótese não queimar uma substituição, explorando a mobilidade e eficácia de Ramos sem mexer na “estátua”, e de utilizar o efeito-surpresa de Trincão ou Gonçalo Guedes em vez do pequeno Francisco) e as entradas de Rafael Leão e Bernardo SIlva aceitam-se, ou só talvez no segundo caso (porque também se podia ter equacionado Rúben Neves ou até o inventado e já usado Samu Costa), mas nunca por troca com Félix e Vitinha (os que melhor se apresentavam no miolo). Mau demais, portanto, perante uma seleção espanhola que está bem longe da categoria de algumas das suas mais brilhantes antecessoras!


Por fim, uma nota sintética de balanço geral. Para sublinhar que o melhor jogador da seleção nacional foi Diogo Costa – o que também serve para demonstrar quanto a mesma não cumpriu os mínimos –, o salvador que fez com que a equipa sobrevivesse largamente à sua incapacidade em três dos cinco jogos realizados (Colômbia, Croácia e Espanha). Indiscutíveis nesta seleção são ainda Nuno Mendes e Pedro Neto (já Rafael Leão precisa de abordar a questão da concentração em campo para o ser igualmente) e, se CR7 deixasse, sê-lo-ia naturalmente Gonçalo Ramos (recentemente adquirido pelo AC Milan por mais de 70 milhões de euros). Depois, será justo referir que Rúben Dias ainda é o nosso melhor central (sem prejuízo de momentos em que parece desligar) e que Renato Veiga se consolidou como o segundo na hierarquia dessa tipologia de defesas (Tiago Gabriel, hoje no Lecce de Itália, será proximamente uma hipótese a considerar com seriedade), e será honesto confessar que nem Vitinha, nem João Neves, nem Bruno Fernandes, nem Bernardo Silva fizeram jus ao prestígio de que granjeiam – embora todos, e especialmente os dois primeiros, sejam peças fundamentais ou não desprezíveis na seleção portuguesa dos próximos anos – assim como apontar que Cancelo mantém caraterísticas de prestação cíclica (é capaz do melhor e do pior e a frescura física já vai falhando) que justificam que se olhe para o lateral-direito do FC Porto Alberto Costa.
 
Enfim, toda uma renovação suave a implementar com urgência pelo novo selecionador – curiosíssimo como a incompetência de Martinez tornou Jorge Jesus (diz-se que já anda a aprender português!) uma escolha quase indiscutível –, sendo que a sua principal motivação terá de estar na preparação e definitiva adoção de um estilo de jogo coerentemente ofensivo e consistente com os recursos à disposição.