quinta-feira, 29 de outubro de 2026

IRÃO: O QUE SE SEGUIRÁ?

 

Leio com regularidade uma das mais reconhecidas revistas de geopolítica internacional, a “Foreign Affairs”, e acabo de receber com a costumeira antecipação o número 6 do seu volume 105 relativo a Novembro/Dezembro que tem por principal título “The Delusions of American Power”. Mas mais escondido nos títulos menores e em dois artigos das páginas interiores está um tema que quotidianamente nos chega cheio de ruído e dominado pela bazófia de Donald Trump: o long game a que vamos assistindo em torno do Irão e da guerra estúpida para que Netanyahu conduziu os Estados Unidos e a sua totalmente inculta e covarde Administração.

 

Dois interessantes artigos, aliás algo contraditórios entre si, chamaram a minha atenção a ponto de lhes ter dedicado a primazia da minha atenção noturna da última noite. Procurando ambos os autores perspetivar o que se poderá seguir no tocante à questão iraniana, o primeiro (Ali Vaez, um ex-negociador do acordo nuclear de 2015) enfatiza em “The New Forever War” a ideia de uma luta sem fim nem vitória previsíveis num próximo futuro (the conflict is nowhere near over), ao passo que o segundo (Mohammad Ayatollahi Tabaar, professor na Universidade do Texas A&M) argumenta em sentido contrário e escreve em “Why Iran Escalates” que a estratégia de Teerão aponta para enviar os americanos para fora do Médio Oriente, assim levando a que uma escalada provavelmente se imponha através de uma forma muito própria de prosseguir um caminho estratégico de ir “aparando a relva” em termos algo semelhantes aos dos israelitas, indicando ainda ameaças e riscos inquietantes como os de assistirmos a breve trecho a cortes de cabos submarinos, a assassinatos de representantes oficiais americanos ou israelitas ou ao lançamento de ofensivas terrestres contra países vizinhos. Cenários desigualmente assustadores em sede de consequências concretas mas igualmente plenos de razões de preocupação quanto ao que irá traduzir-se num continuado prolongamento de fatores e situações alimentadores da desordem internacional que se vai apoderando do planeta.


ADAMUZ E URDA: A INSEGURANÇA FERROVIÁRIA ANDA POR AÍ

 


(Ainda não tive a oportunidade pessoal de viajar na alta velocidade ferroviária em Espanha e sinceramente a propensão para o fazer está em baixa. A Espanha que revolucionou quase em surdina a sua rede de alta velocidade a ponto de a tornar na segunda mais extensa do mundo, a seguir à da China, o que contrasta com a atávica incapacidade de decisão portuguesa, tem claramente a sua estratégia de segurança ameaçada. Dois acidentes trágicos envolvendo a alta velocidade, em Adamuz e agora em Urda perto de Toledo, projetam uma nuvem de insegurança na ADIF, no ministro da tutela e no Governo em funções e vêm adensar a presença de fatores estranhos no confronto eleitoral de novembro próximo. Os dois acidentes, independentemente do desfecho dos inquéritos e investigações que suscitaram, que por vezes, depois de longos processos, chegam a conclusões bem diferentes das primeiras avaliações realizadas nos primeiros dias após as tragédias, suscitam várias interrogações cuja resposta deve ser tomada em linha de conta na experiência portuguesa de construção da alta velocidade. A coexistência da alta velocidade com a infraestrutura existente, o estado de conservação e manutenção desta última, os sistemas que asseguram a segurança na circulação[1], () incluindo toda a sinalização de suporte são questões que os dois acidentes de 2026 em Espanha trouxeram para o centro do debate e para a política de segurança que deve enquadrar uma rede de alta velocidade tão extensa como a espanhola.)

As eleições de fins de novembro em Espanha já tinham a nível político um enquadramento de grande tensão, suscitada sobretudo pela possibilidade real de elas darem origem a uma rotura de grandes proporções com a governação socialista e da esquerda regionalista que tem gerido a Espanha nos últimos anos, depois da saída do poder de Mariano Rajoy. Acidentes desta envergadura, por mais recato que as tragédias das vítimas e das suas famílias imponham nos dias de luto que se seguem aos acontecimentos, e assim normalmente acontece, adensam obviamente o material de conflitualidade e violência verbal que é visível no processo que está em marcha. Frequentemente, a possibilidade de ocorrência de erros humanos, ou pelo menos a sua invocação enquanto investigações mais conclusivas e fundamentadas se realizam, não consegue apagar o ónus sobre as entidades que tutelam a operação e a infraestrutura ferroviárias e obviamente sobre o ministro responsável e daí sobre o governo em funções. E assim vai ser, até porque neste caso, e também como o registado em Adamuz, não há a questão da partilha de competências entre governo central e as autonomias regionais que por vezes funciona como espaço de esconder responsabilidades a perturbar a interpretação do que efetivamente aconteceu, como foi o caso da trágica intempérie em Valença, em que o governo regional da Comunidade Valenciana esteve no olho do furacão.

Visto nesta perspetiva, os acidentes trágicos de Adamuz e de Urda-Toledo vêm acrescentar à já problemática serie de acontecimentos negativos em torno do governo de Sánchez material explosivo. Certamente que há decisões que foram tomadas pelo controlo central da ADIF em Madrid que são discutíveis e que exigem apuramento. Com a entrada em baixa do sistema de controlo automático LBZ, que determinou a paragem imediata de vários comboios, é bastante estranha a ordem de retoma da circulação dada ao AVE, não em regime de velocidade à vista para proporcionar ao maquinista o controlo de reação face a a qualquer obstáculo, mas sem restrições de velocidade que o levou rapidamente a alcançar a velocidade de 200 Kms horários, à qual embateu no IRYO, entretanto parado, porque não conseguiu arrancar e retomar a marcha e assim responder positivamente à ordem vinda de Atocha para prosseguir o seu caminho. Mas, apesar de todo este contexto, a voragem eleitoral vai projetar este acidente na já de per si violenta tensão em que a campanha eleitoral vai decorrer.

Nestas ocasiões, os analistas eleitorais comentam sempre a questão de saber se o eleitor mediano é ou não sensível a este tipo de aproveitamentos políticos. A barganha eleitoral de novembro já tem a adensá-la motivos suficientes de polarização, em grande medida provocados por tiros no pé do círculo de poder mais íntimo de Sánchez, sendo provável existir discernimento democrático suficiente para não utilizar a tragédia de Urda – Toledo como combustível eleitoral. E não se ignore a possibilidade do eleitorado mais consciente rejeitar em absoluto que tragédias humanas sejam transformadas em armas de arremesso político.



[1] O sistema de segurança de circulação LBZ esteve em baixa num trajeto de 63 quilómetros algum tempo antes do choque dos dois comboios AVE e IRYO, passando a ser controlado diretamente a partir de Atocha Madrid.

 

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

2º RELATÓRIO DO DESENVOLVIMENTO E COESÃO TERRITORIAL (NOVA BSE)

 

(Gráfico NOVA BSE; Notas: eixo dos XX, nível de RPC à PPC em 2016; eixos dos YY - crescimento global entre 2016 e 2023; reta vertical vermelha - 75% da média comunitária; reta vertical a tracejado - RPC médio da União à PPC; reta oblíqua a verde - regra de regressão da convergência absoluta)

(A equipa da NOVA Business School of Economics – BSE, que esteve no centro de um debate espúrio e desconectado deste tempo sobre a legitimidade de utilizar uma designação em inglês, vai prosseguindo a sua atividade de prestadora de serviços de conhecimento a diferentes entidades responsáveis por diferentes políticas públicas. É este o caso do agorapublicado Relatório de Desenvolvimento e Coesão Territorial, o segundo, financiado pelo PAT – Programa de Assistência Técnica 2030, programa cuja avaliação de operacionalização tive oportunidade de coordenar em 2025. O estudo está publicado e acessível ao público, dando assim seguimento à obrigatoriedade de comunicação transparente sobre os financiamentos do PAT 2030, representando uma boa oportunidade para analisar o estado da arte essencialmente económico do desenvolvimento e da coesão territorial em Portugal, agora que o PT2030 procura recuperar em matéria de execução dos efeitos perversos que os timings apertados de conclusão do PRR provocaram na capacidade de investimento público e privado. Dizia-me há dias alguém em funções públicas importantes que só agora municípios e mesmo as empresas estavam a acordar para explorar o financiamento do PT2030, já que a conclusão do PRR esgotou reservas de capacidade. Sabemos de experiência feita que quando emergem problemas de execução de Fundos Europeu, o alerta e a mobilização são gerais, agitando as hostes e convidando ao investimento. Por isso, nunca existiu no país um problema de execução de Fundos Europeus. Outra coisa, bem diferente e sumarenta, é a interrogação sobre a capacidade dessa força de execução ter aplicação estratégica efetiva em consonância com as necessidades estruturais do país. O estudo coordenado pelo mediático Professor Pedro Brinca da NOVA BSE constitui mais uma oportunidade para tentar responder a essa interrogação sossegando os espíritos ou agitando consciências.)

Como é timbre da equipa da Nova BSE, o estudo agora publicado é claro, escorreito e vai ao encontro de questões essenciais como: como é que Portugal e as suas regiões se comportaram em matéria de convergência?; como é que a produtividade nacional e regional evoluiu desde 2018 (data do 1º relatório); está o país apanhado na chamada armadilha do rendimento médio que relatórios europeus evidenciaram existir (e que internamente a Professora Elisa Ferreira tanto tem divulgado para encontrar as soluções mais pertinentes)?; que desafios estatísticos e de medida tem o alargamento da União feito emergir?

É um bom repositório de questões, cuja abordagem traz a principal implicação de contribuir para uma discussão mais saudável das reformas estruturais necessárias, sobretudo menos enviesada do ponto de vista ideológico do que as ideias trazidas por Passos Coelho e admiradores, exemplo de propostas de discussão que trazem água no bico e que estão inquinadas por um viés preconceituoso. Já agora na voracidade de escrever quase diariamente, passou-me a publicação de um excelente artigo sobre o tema publicado pelo ex-governador do Banco de Portugal, Carlos S. Costa, no ECO, jornal digital, que também é um bom exemplo de uma discussão não preconceituosa do que devemos entender por reformas e mudanças estruturais.

O estudo da NOVA BSE traz a boa nova de que, num ambiente generalizado de convergência da União entre 2016 e 2023, embora com a persistência de disparidades relevantes entre países, Portugal alinhou com esse movimento de convergência, ganhando posição em termos de rendimento per capita face à média da União, com melhoria de 7 pontos percentuais entre 76% e 83% da média da União. A proclamada tese do crescimento “poucochinho” encontra aqui alguma comprovação, especialmente se compararmos a progressão dos 7 p.p. com os 15% da Lituânia. Só esta comparação daria para uma meia dúzia de posts, especialmente porque para isso seria essencial comparar os contextos de partida das duas economias.

O gráfico que abre este post e que é de autoria da equipa da NOVA BSE mostra como Portugal, partindo em 2016 de um rendimento per capita à paridade de poder de compra inferior à média europeia, cresceu mais do que o observado nessa média (crescimento global português de cerca de 42%), embora não tanto como o esperado a partir da reta de regressão. Aqui a curiosidade está no facto da evolução portuguesa ter contrastado com a dos restantes países da economia do Sul (Espanha, Grécia e Itália) que cresceram abaixo da média comunitária. Surpresa ou não surpresa, deixo essa avaliação à vossa consideração. Comparando com a Lituânia, o espectro do poucochinho emerge de novo, mas em relação à Europa do Sul a nossa convergência positiva salta aos olhos. Tanto mais que, decompondo o crescimento observado, foi o crescimento da produtividade hora que mais explicou esse crescimento (73% de contributo), seguido do aumento da taxa de emprego com 15% de contributo. Este é talvez o dado mais relevante de todo o relatório da Nova BSE, sobretudo no quadro de uma economia como a portuguesa na qual os défices de produtividade aparente do trabalho são, regra geral, apontados como uma das principais insuficiências da nossa competitividade.

Sabemos que as insuficiências de produtividade do trabalho em Portugal resultam fundamentalmente de insuficiências organizacionais e do baixo peso de empresas de grande dimensão, já que quanto às baixas qualificações o panorama não é hoje tão negro como no passado, especialmente quanto aos novos fluxos de entrada na força de trabalho. O forte contributo da produtividade-hora para a convergência positiva da economia portuguesa é um sinal de que algumas coisas estão a mexer, não sabemos ainda com total rigor o que terá potenciado essa melhoria.

 

(Gráfico Nova BSE - a reta de regressão menos inclinada representa um ritmo de convergência menos expressivo após 2010)

Mas quando se utiliza a variável da produtividade para analisar as condições de convergência da economia portuguesa, verifica-se que ela é mais fraca após 2010, numa tonalidade geral comum a praticamente todas as regiões portuguesas, no âmbito da qual se percebe que todas elas combinam níveis baixos de partida da produtividade com crescimentos relativamente baixos dessa mesma produtividade. O relatório sugere a existência de constrangimentos estruturais que dificultam o apanhar quem vai à frente. A região Centro é aqui um caso de estudo pela negativa, traduzido no facto de se tratar da única região com divergência negativa – de 68% do PIB per capita da União em 2016 e 67% em 2023.

A Comissão Europeia tem assinalado a entrada das regiões portuguesas num ciclo que pode ser definido pelo conceito de armadilha do rendimento médio, que atinge economias que depois de terem vencido a barreira dos rendimentos baixos evidenciam séria dificuldade de passar a um escalão de rendimentos mais elevados. Essa dificuldade de entrar numa transição virtuosa dever-se-á essencialmente à incapacidade de concentrar no tempo um esforço suficiente de aceleração da inovação, de investimento e de adaptação tecnológica que não tem sido possível assegurar, apesar de todas as oportunidades abertas pelos Fundos Europeus.

A principal conclusão que retiro desta vertente do relatório é que, do ponto de vista económico, tudo que distraia a capacidade de investimento nacional deste esforço central representará um puro desperdício de recursos, afastando a trajetória da economia portuguesa de um desenvolvimento mais sustentado, em clara divergência com o esforço já avançado de modernização infraestrutural e de melhoria generalizada das qualificações.

E assim me quedo nos comentários ao relatório da Nova BSE. Existem outras variáveis que valerá a pena analisar, mas por agora é suficiente para documentar a sua importância.

 



ISRAEL À ESPERA DE CONHECER O QUE DECIDIU...

 
(cartoon de Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

As eleições de ontem em Israel ainda estão em fase de contagem dos votos, mas as indicações existentes já permitem retirar algumas conclusões: (i) a despeito de todos os seus desmandos (corrupção e crimes de guerra), Benjamin Netanyahu poderá ter perdido a maioria absoluta mas sobreviveu e ainda pode vir a pesar na dinâmica política do país – uma demonstração do gigantismo do trauma nacional que decorreu do 7 de outubro de 2023, bem como da habilidade e resiliência do atual primeiro-ministro no xadrez político (mesmo que ao comando de um “eixo do mal” sem escrúpulos e que tanto desacreditou a imagem de Israel no mundo); (ii) o principal opositor Gadi Eisenkot, liderando sem grande carisma o “Yashar”, terá ficado em condições de disputar mano-a-mano o lugar de primeiro-ministro mas a sua situação objetiva é complexa na medida em que dependerá de negociações árduas e de resultados muito incertos (especialmente com os partidos árabes); (iii) estas forças terão sido aquelas que maior vencimento obtiveram ao passarem de 10 para 17 lugares no “Knesset”; (iv) os partidos à direita coligados governamentalmente com o “Likud” terão resistido em ligeira baixa na respetiva expressão parlamentar; (v) qualquer significância da esquerda é atualmente uma miragem. No cômputo geral, e para ser curto e grosso, diria que faltam os resultados finais (tradicionalmente com tendência para trazerem surpresas em relação às projeções iniciais) e que falta observar qual a distância efetiva entre os dois partidos mais votados, o que ajudará a determinar quem será o escolhido pelo presidente Isaac Herzog para começar a tentar a formação de um governo viável, não sendo de todo de excluir que estas negociações redundem num fracasso e acabem por levar à necessidade de um novo processo eleitoral. Em tudo isto, a permanência de Netanyahu em posição de tomada de decisão – seja enquanto existirem meses de compassos de espera ou enquanto qualquer tipo de clarificação não se vier a tornar definitivo contra si – continuará a ser uma desgraça internacional, com a agravante de esta se converter em catástrofe se o figurão lograr alguma forma de se manter à tona e com as rédeas na mão...