quarta-feira, 13 de maio de 2026

AYUSO VERSUS SHEINBAUM

 



(A política espanhola é uma fonte inesgotável de inspiração e pretexto para blogar, só não tenho nela insistido para lá dos limites do razoável porque o número de leitores destes escritos desce com algum significado quando esse é o tema. Mas desta vez não resisto, pois, a líder do PP na Comunidade de Madrid é toda uma inspiração para o comentário político. Conhecemos a peça. Empenhada em mostrar ao povo espanhol, pelo menos ao madrileno, agora que no futebol anda pela rua da amargura, que é possível bater com mais força em Pedro Sánchez do que o timorato Feijoo, Isabel Diaz Ayuso tem uma cultura vasta e esmerada de tropelias para incomodar Sánchez, o qual agradece pois é nessas águas que gosta de navegar. Por vezes, é difícil discernir se Ayuso o faz porque Sánchez a tira do juízo, se, pelo contrário, é o horizonte da liderança futura do PP que estará a comandar o seu comportamento. Imagina-se que, nos seus círculos mais íntimos, Ayuso deve achar que Feijoo é um “jiripollas” sem remédio. A verdade é que os analistas políticos mais à direita em Espanha, embora reprovem algumas escorregadelas de Ayuso, têm um certo fascínio pela personagem, que espero sinceramente seja mais influenciado pela sua animosidade política sem fim do que pelo seu “palminho de cara”. A líder da Comunidade de Madrid resolveu desta vez entrar pela diplomacia de confronto adentro, porta que já tinha entreaberto com a sua receção entusiástica ao inenarrável Milei, presidente da Argentina. Pois, agora, inventou uma viagem, presumo que paga pela Comunidade de Madrid, para homenagear no México, sim no México, o conquistador Hernán Cortés, isto depois do rei Filipe VI ter conseguido alguma abertura e aproximação diplomática com a Presidente mexicana Claudia Sheinbaum Pardo.)

As notícias documentaram assim a intrépida visita de Ayuso:

A presidente do governo regional de Madrid, Isabel Díaz Ayuso (Partido Popular, centrodireita), inicia no domingo, 3 de maio, uma viagem institucional de dez dias ao México. A visita ocorre após declarações públicas em que classificou o país como um “narcoestado” e descreveu a Presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, como uma “ditadora de ultraesquerda”.

Já sabíamos que Ayuso se considera a mais irredutível defensora do espanholismo e por isso homenagear in loco Cortés vende bem nesses meios de ultra-defensores desses valores, mas esta visita não é mais do que um exemplo gritante de diplomacia incendiária, poderíamos dizer inspirada pelo espírito de Trump e das suas tropas mais próximas. Isabel a Católica e Hernán Cortés devem ter revirado as suas ossadas nas respetivas tumbas, felizes por esta prova de reconhecimento e terão imaginado louvores sem fim para agradecer a esta política tão impetuosa.

Tal como o pretendia, a visita de Ayuso gerou um enorme rebuliço a nível local, a ponto da Arquidiocese se ter distanciado da iniciativa, demarcando-se da homenagem ao conquistador na catedral que ele próprio construíra. A visita correu mal e a própria Ayuso viu-se forçada a encurtar a missão e regressar a Espanha face à reação agressiva que a sua iniciativa suscitou. Algo que uma agente da diplomacia incendiária deveria ter calculado que pudesse acontecer.

Da Presidente Sheimbaum fica sobretudo esta frase: “Aos que revivem a Conquista como salvação dizemos que estão condenados à derrota”.

Normalmente quando a diplomacia incendiária corre mal, o passo seguinte é a vitimização. Assim solenemente aconteceu. Já em Madrid, Ayuso afirmou ter passado uma semana terrível de acosso e perseguição, culpando a Presidente Sheinbaum e Pedro Sánchez (obviamente) pelo ambiente hostil criado em seu redor. As autoridades oficiais espanholas não receberam nenhum pedido de proteção por parte de Ayuso e da sua equipa, o que adensa a atitude de vitimização para ocultar o inêxito da iniciativa, mesmo junto da direita mexicana e a dúvida sobre o local em que a comitiva de Ayuso terá sido acolhida desde que suspendeu a agenda até regressar a Madrid.

Este imbróglio mostra com clareza e perfeição como o nacionalismo de pacotilha da direita radical se anula nas suas próprias contradições, não hesitando em ir de frente contra a política externa do país e passando por cima dos esforços de aproximação diplomática urdidos por Filipe VI.

Ayuso e a sua corte são decididamente candidatos a integrar a Grande Internacional do desaforo antidemocrático que a administração Trump tem vindo a semear nos países da União Europeia.

 

terça-feira, 12 de maio de 2026

DIVERGÊNCIAS EVOLUTIVAS COM HISTÓRIA

 


(Há economistas que ostentam essa capacidade espantosa de conceber gráficos que se tornam não propriamente virais, mas que se transformam em capital recorrente de reconhecimento, isto é, artefactos sistematicamente invocados para marcar alguma evidência estrutural que importa sublinhar. O economista sérvio hoje radicado nos EUA, Branko Milanovic, é um desses personagens com essa capacidade e muita gente, incluindo este blogue, recorreu ao seu célebre gráfico da curva elefante para descrever a distribuição do rendimento à escala mundial, que ordena os indivíduos segundo o seu rendimento à paridade de poder de compra, independentemente do país a que pertencem, seja ele mais ou menos desigual. Milanovic é um grande estudioso da economia mundial e da globalização, sendo hoje um dos raros economistas que resistiu à erosão dos estudos sobre as economias de leste europeu e asiáticas, com relevo para o seu conhecimento do modelo soviético e chinês. A história da ciência económica prega-nos por vezes este tipo de partidas. Um determinado assunto de investigação económica entra em desuso, é praticamente esquecido e marginalizado e, passado uns tempos, conclui-se que esse conhecimento nos faz falta para compreender o mundo atual. O que manifestamente é o tempo que vivemos, sobretudo a partir do momento em que as mentes ocidentais já perderam a esperança de que a transição nesses países conduza a uma trajetória linear de afirmação da economia de mercado, linear não será seguramente.)

 

O gráfico que trago para a reflexão de hoje tem a marca Milanovic e apresenta a curiosidade de descrever graficamente a evolução do peso na economia mundial de pares de países cuja história está ligada entre si, não necessariamente por boas razões, mas antes em cenários de conflitualidade histórica, fundamentalmente associada aos processos de independência desses países. Os pares selecionados por Milanovic são sugestivos: China-EUA; Índia-Reino Unido; Indonésia-Países Baixos e Vietname-França.

 

No âmbito dos desenvolvimentos do seu último livro – THE GREAT GLOBAL TRANSFORMATION – National Market Liberalism in a Multipolar World, esta evidência é sistematizada no sentido de ilustrar o que Milanovic designa de a ascensão da Ásia. Esta ascensão tem um contexto curioso, como alguns analistas o assinalam. O neoliberalismo de Reagan e Thatcher visava essencialmente reorganizar o mundo, com o objetivo central de enriquecer as economias ocidentais. A verdade é que, paradoxalmente ou talvez não, esse movimento deu origem ao crescimento inesperado de uma nova elite mundial e penalizando as chamadas classes médias ocidentais. A esperança surgida de que tal crescimento fortaleceria as classes médias asiáticas e geraria por essa via uma alavanca de democratização nesses países revelou-se pífia, senão pelo menos ingénua. Essas classes médias fortaleceram-se , conduzindo a uma recomposição da classe média mundial, mas a alavancagem da democracia foi estancada com o crescimento das tais elites.

Por isso, a divergência evolutiva dos pares de gráficos elaborados por Milanovic tem um significado histórico importante. Até agora a ascensão do big tech ocidental permitiu pelo menos aos EUA salvar a face. Mas nos últimos mesmo esse argumento foi impactado pela evolução. Ninguém hoje pode ignorar o big tech asiático, sobretudo chinês.

Uma boa introdução à nova obra do economista sérvio pode ser encontrada numa excelente entrevista que Milanovic concedeu à Professora Alice Lu do Carter Center.

É uma boa peça para compreender a economia mundial de hoje.

 

LUÍS SEDUZ O EMPRESARIADO ALEMÃO

Agradeço vivamente ao Ricardo Araújo Pereira (RAP) o facto de ter trazido ao meu conhecimento e ao da comunidade nacional as repercussões provenientes da recente presença do primeiro-ministro em Berlim, o que foi justo objeto de críticas furiosas de Paulo Rangel aos critérios da comunicação social existente (“com outros ex-primeiros-ministros, isso abriria telejornais”, afirmou o MNE com RAP a retorquir como consta da infografia abaixo). 

Mas a coisa não se ficou por aqui, por este estrito lamento. Com efeito, RAP foi mais longe ao revelar parte do que no dia seguinte Luís Montenegro declarou a uma plateia de militantes do PSD, declarações arrebatadoras e a que importa conceder o devido destaque. Cito: “Nós temos um país que tem um primeiro-ministro – que no caso é este que vos está a falar mas que podia ser outro – que falou para quase 2000 empresários alemães, respondendo eles por uma grande parte do produto interno bruto da Alemanha – que é só a maior economia da Europa –, e foi agraciado com o respeito espontâneo dessa plateia sempre que se falou da situação económica, da situação financeira, do ímpeto transformador, de ser exemplo concreto com reformas concretas daquilo que está a ser feito na Europa, daquilo que se quer fazer a 27 mas que a velocidade a 27 não consegue acompanhar aquela que é suscetível e possível quando somos apenas nós a depender de nós próprios. Isso aconteceu ontem, eu sei que em Portugal não se deu conta disso.”



Encandeado, o espinhense que nos governa não se coibiu de acrescentar ainda algo sobre o führer (futuro) da Europa e, sem despropositadas falsas modéstias, sobre o impacto da sua maravilhosa prestação, que confessou não saber medir mas assegurou ir ser brutal pela certa (fazendo até lembrar aquela frase de Futre sobre os charterscarregados de chineses que por cá iriam aterrar): “Eu não sei dos cerca de 2000 empresários alemães que estavam ontem no encontro em que tive a honra de participar com o chanceler, não tive – não tenho ainda – forma de avaliar o efeito concreto, mas não me admiraria que jovens portugueses pudessem vir a ter oportunidades de emprego fruto da expressão daquela confiança. Não me admiraria que, para além da possível localização de grandes investimentos das empresas que ali estavam representadas e muitas em consórcio que podem vir para cá, eu não sei quantas pequenas e médias empresas, quantas microempresas, quantos trabalhadores individuais vão usufruir dos investimentos que possam ter sido potenciados pela interação que nós estamos a fazer com aqueles que nos veem de fora para dentro com muita confiança, com muita esperança, com respeitabilidade e com credibilidade. Eu não sei medir mas sei dizer-vos: vai haver, está a haver efeitos muito positivos da imagem que nós tempos de Portugal espalhada pela Europa e espalhada pelo mundo. Vai haver mais do que nunca.”



Agora mais a sério: não sei o que passa pela cabeça desta gente, mas é de pura vergonha alheia que se trata do meu ponto de vista e, decerto, do dos portugueses que cumprem os mínimos de respeito por si próprios e pelo país que lhes calhou em sorte. Como é possível que uma conversa desta natureza (acumulando uma tremenda dose de pequenez, autocomiseração e reverência disfarçada por uma presunção apenas pacóvia e faroleira). Tirem-nos deste filme!

segunda-feira, 11 de maio de 2026

SAUDANDO O CENTENÁRIO DE UM GRANDE SENHOR


(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

Apesar do salto que tem sofrido a esperança média de vida, não é ainda muito frequente que um ser humano consiga durar 100 anos. E quando tal acontece com qualidade e a alguém que deixou marcas indesmentíveis da sua passagem terrena, estamos perante um feito que importa valorizar. É o caso de David Attenborough, o cidadão britânico que é unanimemente reconhecido como o maior comunicador mundial de sempre em matérias relacionadas com a Natureza após uma carreira notável, e é essa a razão pela qual aqui estamos a tentar não deixar passar despercebido o momento neste nosso espaço, a despeito de o termos feito no tocante ao dia exato (8 de maio) em que o centenário se completou. Dizia-nos a “The Economist” a propósito de Sir David que, entre vários elementos elucidativos sobre o gigantesco impacto da sua atividade profissional (como os seus 32 graus honorários, os mais de 100 lugares que visitou na sua série “Life on Earth” ou os 500 milhões de pessoas que se estima terem visionado essa série), o mais apropriado será talvez a referenciação das mais de 50 espécies a que foi dado o seu nome, como sejam ilustrativamente as seguintes três: o lagarto “platysaurus atttenboroughi”, a planta de jarro “nepenthes attenboroughi” e o escaravelho de excrementos “sylvicanthon attenboroughi”. E, como diz o cartunista, “obrigado, David Attenborough, por nos mostrar o mundo, agora cabe-nos protegê-lo”.