sexta-feira, 16 de outubro de 2026

INFLAÇÃO: CALCANHAR DE AQUILES DO ESTADO DE NEGAÇÃO DE TRUMP

 


(É sabido que quando associamos inflação a períodos mais longos é fácil concluir que o seu comportamento não é constante. Existem períodos em que o seu comportamento é fator de perturbação não só para a política monetária, dado que um dos objetivos centrais da grande maioria dos bancos centrais é o seu controlo, mas também para a política económica em geral, na medida em que inflação ascendente e descontrolada é fator de degradação das condições de “affordability” de muitos grupos sociais, sobretudo daqueles que não conseguem repercutir para a frente os aumentos dos preços. Não é também difícil compreender que é num desses períodos em que nos encontramos. Obviamente que existem muitos índices possíveis para descrever o comportamento da inflação. Mas como costumo dizer todo o índice de preços é uma abstração, os consumidores e as famílias não comem índices, mas antes produtos concretos que integram a composição desses mesmos índices. Cada família é um caso concreto e, por isso, existem por vees discrepâncias entre a perceção das famílias e o andamento real transmitido pelos diferentes índices de preços. Cabe aqui recordar que um economista português, nascido em Leça da Palmeira, Matosinhos, Ricardo Reis, é coautor de um dos artigos marco sobre esta matéria, datado de 2003. Em colaboração com Gregory Mankiw (Harvard), o artigo versava sobre que índice de preços deveriam os bancos centrais monitorizar para concretizar o seu objetivo de controlar a inflação e a manter em torno do nível de referência dos 2%. Os dois economistas chegaram mesmo a uma proposta de índice concreto que ajudou a transformar o seu artigo para o Journal of the European Economic Association como um verdadeiro marco desta matéria. É também claro que se trata de referências que passam ao lado do cada vez mais errático Trump e dos seus colaboradores mais próximos que obedecem cada vez mais à regra da boa interação com um autocrata e que consiste em não lhe veicular notícias e matérias desagradáveis, mas apenas coisas que ele gosta de ouvir. Pode assim dizer-se que se Trump fosse o destinatário-tipo do conhecimento teórico e empírico produzido pelos macroeconomistas, mais valia mudarem de profissão, pois ninguém os ouviria.)

É um facto hoje inquestionável que o estado de Trump em relação à inflação (aliás como em outras matérias) é hoje de negação aberta relativamente ao que a evidência empírica da informação americana lhe oferece diariamente. Para ele a inflação está em baixa, diria controlada numa via descendente, e parece não haver ninguém que o demova dessa postura de negação. A negação já se transformou em desplante quando ele procurou explicar aos americanos que o seu absurdo acordo com Putin, que envolveu por tabela o pobre do Zelensky, obrigado por essa via a comprometer-se a não atingir as infraestruturas energéticas russas, iria resolver-lhes os problemas diários suscitados pelo aumento sistemático do preço do diesel.

A publicação dos dados do índice de preços ao consumo nos EUA começou por tornar evidente a negação absurda em que Trump está mergulhado a pensar nas intercalares de novembro próximo. Poucos dias depois, a publicação do índice de preços na produção erradicou qualquer dúvida que houvesse sobre essa matéria, especialmente porque este índice é geralmente apontado como um índice que permite antecipar o comportamento futuro dos preços ao consumo, já que descreve o andamento de todos os preços em geral.

O que me parece, entretanto, impressionante é que apenas 55% dos potenciais votantes inquiridos pela amostra da FOX NEWS considere que a inflação não está de modo algum controlada e que nessa apreciação estão incluídos apenas 30% de votantes republicanos (sigo aqui o substack de Paul Krugman). Dito de maneira mais crua, aquilo que face à evidência disponível nos parece uma negação absoluta, pelos vistos é-o para pouco mais de metade dos votantes inquiridos. O que me deixa em estado de rebuliço total. Como dizia anteriormente, todos os índices de preços são abstrações compósitas e cada família tem lo seu cabaz de referência que pode não coincidir com dos índices mais divulgados. Mas a evidência diária na sociedade americana é tão abrangente que dá que pensar a transmissibilidade do estado de negação em que Trump se coloca e que pretende, no fim de contas, transmitir à sociedade americana, anestesiando-a para passar incólume a barreira das intercalares e as suas consequências no Congresso e no Senado. Trata-se de um caso único de estudo e matéria decisiva para se elaborar um manual sobre a disseminação do negacionismo.

Por estas e por outras coisas, as intercalares antecipam-se por agora ainda como um mistério a pairar sobre todas as evidências.

 

LEVADOS, LEVADOS SIM...

Como os leitores atentos deste espaço já se terão apercebido é mania minha, entre outras, a de passar os olhos pelos grandes títulos dos jornais nacionais para deles procurar retirar indicações sobre a extensão do desatino e do absurdo dos tempos que correm. Aí está a minha escolha de hoje (ver acima), limitado embora a sinais que não ultrapassam um grau aparentemente secundário ou relativamente irrelevante ao não parecerem decisivos para a evolução da nossa vida e felicidade coletiva. Sintetizando: Portugal vai deixar de permitir o acesso de estrangeiros não residentes ao SNS (assim se substitui o humanismo por uma oposição a controlos burocráticos que alimenta o populismo e dá azáfama aos políticos), Pedro Duarte declara-se “implacável” contra os manifestantes da Praça D. João I e condescende com as cargas policiais ocorridas (assim se reconfigura o presidente simpático e de livre pensamento num vice-presidente do PSD que governa o País sem grande adesão dos cidadãos), Pinto Luz iliba-se de chatices em relação a temas de que o acusavam quando era vice da autarquia de Cascais (assim se percebe que a lei não está ao serviço da comunidade mas serve preferencialmente para evitar aborrecimentos a alguns poderosos), Moedas atira-se a Passos para vir em defesa do Luís (assim se constata que a lealdade e a gratidão são peças em desuso nas elites que nos comandam), Álvaro Beleza propõe uma candidatura olímpica de Lisboa com a dimensão infraestrutural que António Costa Silva invente à sua maneira (assim se lamenta que a sociedade civil permaneça focada em brilhos sem sentido e desatenta ao centralismo e às formas adequadas de o limitar e combater) e Marisa Matias e seus muchachos radicalizados à direita invadem uma rádio de Coimbra em protesto e ameaça exemplar (assim se observa quanto é estúpida a atuação política dos seguidores de um Ventura que tanto vem fazendo para se moderar aos olhos dos votantes nacionais). E, repare-se bem, não se fala aqui de Orçamento de Estado, dos berros tonitruantes de Hugo Soares em defesa da sua dama (o Luís, a tática canhestra que montou para o seu partido e o poder pessoal que tanto gosta de exibir), dos indecorosos casos em torno de Luís Neves, das risíveis reformas de Ana Paula Martins, da prestação cada vez mais obscena de Fernando Alexandre, das compras de material militar sob a orientação de Nuno Melo, da alternativa (não) protagonizada por José Luís Carneiro, da presença constante de Ventura nos ecrãs televisivos, da nossa "Rainha de Inglaterra", do desligamento produtivo e da ganhuça especulativa da larga maioria do empresariado nacional e de tanto mais que se nos apresenta sem rei nem roque, incluindo esse tópico essencial do “Portugal na CEE”...

(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

terça-feira, 13 de outubro de 2026

DO ORÇAMENTO

Todos os anos por esta altura a comunicação social fornece-nos infografias semelhantes à que apresento acima. Tendemos a passar por elas sem lhes prestar grande atenção, seja em termos dos grandes números ou de comparabilidades mais ou menos canhestras na respetiva essência. Decidi, pois, reproduzir o trabalho do “Público” destes dias, sem grandes notas de comentário. Ainda assim: você sabia que despendemos 60 mil milhões de euros em prestações sociais e 36 em despesas com o funcionalismo público? Ou que as contribuições sociais constituem a parcela mais significativa das receitas arrecadadas pelo Estado (quase 45 mil milhões), que o IVA é o imposto mais “rentável” (acima de 30 mil milhões) e que os recebimentos a título de IRC não chegam aos 10 mil milhões? Mesmo não indo mais longe, não estão já aqui vários elementos merecedores de perplexidade e, para quem tem responsabilidades políticas, de um questionamento sério e consequentes esforços no sentido de forçosas mudanças de direção?

TAXAS DE JURO E OS RECADOS IMPLÍCITOS DO COMITÉ NOBEL DE ECONOMIA

 

(Há anos em que a atribuição do Nobel de Economia me lança naquela estranha sensação de que o mundo da ciência económica é tão vasto e complexo e de que o nosso conhecimento é um grão insignificante nessa vasta imensidão de disciplinas e correntes. Outros anos, pelo contrário, os laureados frequentam a nossa praia e é gratificante perceber que estudamos qualquer coisa em que predominam grandes economistas e que eles são reconhecidos. Este ano, o Comité Nobel voltou-se de novo para a macroeconomia monetária, disciplina que não é propriamente a minha praia, apesar de a partir da Grande Recessão de 2007-2008 ter feito um esforço pessoal de autoformação nessa matéria de maneira a, pelo menos, compreender os grandes debates que emergiram em torno do papel dos bancos centrais e das diferentes estratégias de condução da política monetária. Michael Woodford, cuja obra seminal é Interest and Prices de 2003 e Robert Hall, cujo contributo fundamental se centra no estudo das expectativas dos consumidores em função do comportamento futuro do seu rendimento permanente, foram os colaureados deste ano, premiando assim o coração da investigação económica sobre política monetária. Os dois economistas podem ser considerados os pais convictos do modelo que a grande maioria dos bancos centrais hoje segue para fundamentar a sua política. Os comentários e análises que se seguiram à publicação dos nomes dos dois laureados têm sublinhado que a escolha do Comité é sábia em função do foco de atenção que, de novo, as políticas dos bancos centrais se fixam na melhor maneira de travar a inflação que, sobretudo por via das condições da oferta e da indeterminação internacional, está de novo instalada nas principais economias avançadas, ameaçando a “affordability” das famílias. E, para apimentar ainda mais a questão, esse foco tem-se dirigido especialmente para os EUA, em que o presidente do FED se tem esforçado em vão por agradar a dois senhores, a Trump que trocaria de bom grado os riscos inflacionários por uma descida das taxas de juro de referência e aos membros do Comité do FED que decide a política monetária, face ao qual Warsh é um manifesto outlyer.)

Numa síntese feliz dos contributos dos dois economistas, a fórmula explicativa de Marcus Nunes parece-me simples e extremamente ajustada: “as famílias olham para a frente, os preços são rígidos e a política monetária atua através da trajetória esperada para a taxa de juro”. Quer isto significar que a visão mais estabilizada sobre a política monetária é aquela que coloca as taxas de juro de referência no centro da política e, o Nobel reconheceu-o com clareza, os dois economistas são os principais responsáveis por essa estabilização. Isso significa também que Woodford e Hall ajudaram as taxas de juro a sobreporem-se ao objetivo de controlar a massa monetária (para os especialistas haveria aqui que distinguir entre massa e base monetária) mas, como dizem os americanos, isso seria demasiado “wonkish” para este blogue.

Os contributos dos dois economistas estão inextricavelmente ligados. O alcance das posições de Hall é a sua convicção de que o consumo das famílias não depende rigorosamente nada de variáveis passadas, mas está antes voltado para o futuro, através de uma relação que liga o consumo atual ao consumo esperado futuro com a taxa de juro a fazer a intermediação entre as duas variáveis. Por sua vez, o contributo de Woodford consiste essencialmente em colocar a gestão de expectativas no centro de toda a política monetária. A razão é simples. Os bancos centrais fixam uma taxa de juro de referência e a partir daí tudo acontece em função da forma como os agentes económicos constroem as suas expectativas face ao comportamento esperado dessas taxas no futuro, tomando por comparação a taxa de juro que tenderia a formar-se no mercado se os preços fossem flexíveis, que não são (a rigidez de preços é uma componente essencial do modelo de Woodford).

A importância destes contributos é fundamental para compreender a relevância do modo como os bancos centrais comunicam. Nunes é especialmente objetivo nesta matéria: “A partir do momento em que a despesa depende do rumo esperado das taxas de juro, não da taxa corrente, o que o banco central diz sobre o futuro é tão importante como o que diz sobre o presente”.

E por aqui começamos a compreender a razão por que a decisão do Comité Nobel é tão ajustada ao que se passa essencialmente na política monetária americana (comportamento do FED USA, do seu chairman e do Comité que o assiste). Sabemos que a escolha de Kevin Warsh teve a mão de Trump a inspirá-la, podendo antecipar-se que o errático presidente americano aspiraria a ter no FED um homem de mão que pudesse controlar ao sabor das suas preferências para a economia. Esse domínio de Trump sobre Warsh não tem sido claro e evidente e a consequência é que o presidente do FED parece estar isolado entre Trump, que aspiraria a uma política monetária menos restritiva (as intercalares assim o obrigam, a ponto de ter feito acordo com Putin para importação de diesel e obrigar Zelensky a um acordo que visa não danificar as infraestruturas energéticas russas) e os membros do Comité no qual Warsh parece estar isolado em matéria de abordagem à inflação.

O modo como Warsh tem reagido a esta impossibilidade de servir dois amos e senhores tem afetado curiosamente a comunicação do FED USA e o modo como são explicadas as decisões sobre a fixação da taxa de juro de referência. Warsh é hoje considerado um presidente cuja comunicação é bastante opaca. Ainda recentemente, a economista Claudia Sahm escreveu que a razão principal para a decisão do FED de subir as taxas de juro demorou cerca de três semanas a chegar ao público, fruto da opacidade da comunicação. A mesma economista não tem dúvidas em afirmar que com Warsh o comunicado do FOMC tem menos de metade da extensão que usualmente tinha, o que ele diz nas conferências de imprensas não reproduz as perspetivas do FOMC que vota essas decisões, o que tem tido o efeito dos mercados responderem a essa opacidade projetando um aperto monetário superior ao que o próprio Warsh desejaria. Ou seja, a opacidade da comunicação teve o efeito perverso de intensificar as expectativas de que a política monetária vai ser mais restritiva. O que deve deixar Trump furioso, para o qual parece ser mais fácil fazer acordos com Putin para adoçar a vida dos americanos antes das intercalares do que controlar o FED. Warsh consegue, assim, com a sua opacidade, confundir os mercados e irritar Trump.

É de facto impressionante como todas estas considerações adquirem sentido invocando os contributos de Woodford e Hall. A sabedoria da escolha do Comité Nobel é preciosa.

Mas isto também mostra e desmonta a ideia que vínhamos alimentando de que a influência do conhecimento revelado pelos economistas estaria em declínio absoluto, projetando-os na indiferença e na inutilidade. O Nobel deste ano premeia o contrário. Trata-se de conhecimento fundamental para entender os desafios que os bancos centrais hoje enfrentam. Quando Warsh pretende proteger-se através de uma comunicação opaca, ele está a ignorar o princípio chave de que o que o banco central diz sobre o futuro é tão importante como a visão do presente que ele transmite.

Nota complementar:

Recordando posts anteriores, é óbvio que nos períodos já vividos do que ficou conhecido pelo zero lower bound, períodos em que a taxa de juro real permanecia teimosamente nula ou mesmo negativa o modelo de Woodford-Hall teve dificuldades em ser aplicado e isso trouxe consigo, devemos recordá-lo, um período de perturbação na ação dos bancos centrais, Recordo-me, então de ter anotado que nesses tempos a política fiscal pareceu ressurgir do Além.

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

CLARIFICAÇÕES

 


(Devo confessar que já não tenho pachorra para acompanhar os devaneios de gente que finge não estar na política, mas está, e que se perfilam continuamente como putativos atores da cena em que aparentemente não querem entrar, mas que vagueiam pelos bastidores, candidatos a voyeurs mais ou menos inconsequentes. Por outras palavras, tendo a afastar-me de personalidades como Passos Coelho à direita e de Mário Centeno no centro-esquerda. Não se trata de diabos ou outras possíveis ameaças para conseguir que os meninos e meninas comam a sopa para descanso dos papás, mas isto de ameaçar que se entra no jogo e se vai adiando a decisão é coisa que me irrita e custa-me perder tempo e cansar meninges já gastas com tais reflexões. Desconecto. Ponto. Mas tenho de reconhecer que algumas das fugidias aparições dos “quero entrar, mas não entro” acabam por conduzir a clarificações que para mim não são estranhas ou surpreendentes, mas que o são para muito boa gente. Parece-me ser este o caso da entrevista de Passos Coelho à canastrona Maria João Avillez. As clarificações são de vária ordem. Uma de menor vulto é a perceção de que Passos Coelho afinal não está em retiro monástico e que pode regressar à vida política ativa se determinadas condições forem observadas, Não há nenhuma novidade nem suspense nesta questão. Isso estava claro há muito tempo, só a mais pura ingenuidade política conduziria a conclusão contrária. Mas a principal clarificação não é essa. Passos Coelho assume-se de vez como o único político na direita e centro-direita que aceita a velha tese que subliminarmente a direita Observador tem sistematicamente, desde a Troika, avançado. Suportada por uma conceção de reformas estruturais enviesada e interessada apenas em algumas dimensões de reforma económica e social, esta tese considera que a situação política atual convida, inevitavelmente, a um grande encontro de posições entre a AD, o Chega e a Iniciativa Liberal para alcançar uma maioria parlamentar folgada para a transformar desejada. Ora, isto é uma clarificação. Já tinha intuído essa posição e acresce que a sua não concretização se deve a constituir uma peça para a qual não existia intérprete. Passos Coelho é o ator-encenador desejado.)

Claro que para consumar a clarificação, Passos Coelho teria também de ser claro numa outra dimensão. Por razões que também eram antecipadamente percebidas há já muito tempo, Passos considera que Ventura não é mau homem, que lhe reconhece inventiva e combatividade, o que vem ao encontro do que sempre percebi – bastaria Passos dar uma ordem de comando qualquer e Ventura, tal como cachorrinho obediente, largaria as suas vestes de desbocado, volátil, malcriado, mentiroso, com o rabo entre as pernas e decidido a obedecer aos ditames do Grande Líder.

O mistério da empatia entre estas duas personalidades é de facto um dos grandes mistérios da política portuguesa, mas o que importa assinalar é que, pela primeira vez, a direita Observador tem um político que expressa a possibilidade de levar a tese à prática. Praticamente, todos os jovens turcos que acompanhavam Passos na altura da Troika (Maçães, Lomba e Monteiro, para falar nos mais importantes) estão aparentemente fora do convívio de proximidade com Passos, talvez convencidos de que foram ingénuos ao admitir a mudança possível e que seria melhor virarem-se para outras tarefas. Mas será que Passos está sozinho?

Creio que Passos pensa neste momento por sua própria e livre iniciativa e admite dois cenários possíveis: i) o cenário em que Montenegro vai cedendo progressivamente e acabará por transformar os acordos pontuais com o Chega em algo de mais estruturado, mesmo sem a bengala da IL, um pouco à deriva por estes tempos, o que equivalerá à não intervenção de Passos; ii) o cenário em que os acordos pontuais da AD com o Chega não passam disso e se avolumas as hipóteses de bloco central, cenário que corresponde ao impulso para um possível regresso à política.

Será que o centro-esquerda considera estes cenários académicos e continua a trabalhar sem programa impulsionador para acelerar a produção de uma alternativa?

Se assim for, pode dar-se mal com essa imprudência.