Operation Blind Fury
(Os cenários de guerra no Irão e no Líbano estão ao rubro, no nível máximo da indeterminação. A perturbação com a disrupção petrolífera está instalada, multiplicam-se as medidas de mitigação a curto prazo, algumas delas contraditórias, vejam-se por exemplo as diferenças entre um cidadão português ou espanhol, não transfronteiriço, que tem de encher o seu depósito para trabalhar. Entretanto, Trump continua fascinado pela mega-potência do arsenal militar americano. O mundo e a sua incerteza dinâmica parecem um brinquedo nesse fascínio, que ele manipula a seu belo prazer, atacando quanto baste para poder inventar uma negociação qualquer, da qual seguramente retira benefícios para o seu universo de apoiantes. O que importa não existir uma fundamentação segura para ter iniciado as hostilidades com o Irão? O que importa que Israel de Netanyahu apareça aos olhos do mundo como o verdadeiro instigador de todo o processo e como a única força que tem objetivos claros? Nada disso importa quando, afirmando o poderio militar que tem por trás da sua errática política, Trump tira da manga uma possível trégua com o Irão através de uma negociação ainda pouco clara e provavelmente manhosa e abre caminho a uma profunda reviravolta dos mercados, que passaram em segundos do caos à euforia. O Eco Logout anuncia uma queda dos preços do petróleo de cerca de 14% e a recuperação em força das bolsas. Ou seja, o mundo é um brinquedo que Trump manipula em função dos seus tempos políticos e os mercados parecem validar essa manipulação, rejubilando. Mundo estranho este que o Economist, uma vez mais, descreve exemplarmente com uma das suas capas assassinas. Tudo isto sem que o bloqueio à navegação no estreito de Ormuz pareça estar resolvido, a não ser que seja matéria central da tal obscura negociação. Para agudizar a incerteza, a declaração unilateral de Trump sugere que o novo Líder Supremo do Irão não estará a participar nas negociações, imagino que por razões básicas de proteção da nova liderança teocrática, suscitando a interrogação de quem estará a assumir essa função.)
Que o mundo de hoje está mais difícil de entender é uma conclusão a que chegamos a todo o momento, à medida que mais e diversas evidências se vão acumulando para o considerarmos uma espécie de “novo normal”.
Já que recorremos à capa do Economist para identificar este post é justo que permaneçamos na revista para documentar mais uma dessas evidências malucas que ilustram o incompreensível mundo que temos pela frente.
Quando seria previsível que surgisse informação sobre movimentos de expatriação e imigração provenientes de países em guerra ou mais diretamente tocados pela instabilidade bélica que hoje se vive, a revista reúne, pelo contrário, dados relativos a 31 países ocidentais, documentando um fenómeno de expatriação com origem no ocidente. Trata-se de um indicador sobre o conjunto de pessoas que terão deixado de residir nesses países da amostra de 31, temporária ou definitivamente, sem contudo nos seus grandes números deixar de ter como destino outros países ocidentais. É um facto que os países do Golfo influenciaram essa expatriação, mas é de imaginar que a incerteza hoje aí vivida tenda a fazer desacelerar essa atração. A revista, sem contudo incluir na estimativa a emigração americana, por considerar ainda pouco fiáveis as fontes de informação disponíveis, estima esse movimento mais recente em cerca de 4 milhões de pessoas, com a evidência de que quem sai tende a ser mais liberal do que quem fica, o que pode trazer consequências políticas. Sempre me causou alguma impressão o registo de alguma população inglesa que poupa uma vida inteira para se fixar com a reforma noutro país. Tudo indica que esse comportamento está a generalizar-se, explica a revista devido essencialmente a três fatores: a deslocalização hoje possível do trabalho, a fiscalidade e razões políticas (o declínio da democracia parece induzir o crescimento da emigração). Não deixa de ser curioso que este movimento de expatriação ocidental está contra a corrente do populismo político que clama contra a imigração e adquire outro significado quando acontece a partir de países que não estão propriamente numa primavera demográfica.
Mundo estranho este!








