quinta-feira, 6 de agosto de 2026

FRANCISCO CARVALHO GUERRA

Desapareceu hoje do nosso convívio, quase aos 94 anos, o Professor Francisco Carvalho Guerra (FCG). Soube-o pela manhã através de uma mensagem (“trago-te a triste notícia de que faleceu, esta noite, o Professor Guerra”) do amigo comum Alberto Castro, ele que foi um dos mais fiéis e capazes intérpretes do prosseguimento da obra iniciada por FCG no Centro Regional do Porto da Universidade Católica. Não quero nem devo discorrer aqui sobre o caráter ímpar da personalidade e a vastidão da sua obra, matérias para que outros estarão certamente mais vocacionados e autorizados, mas não posso deixar de aproveitar estas curtas linhas para aqui registar, com alguma consciência do arrojo mas também com a certeza da sinceridade que só se tem quando se gosta, quanto FCG constituiu para mim a melhor expressão do que Agustina designou por “média virtude” em “As Pessoas Felizes” um “sentido da média virtude, onde cabe o vício discreto, a agressão judiciosa, a malignidade discursiva, a paixão de contradizer e de violar a lei, de dar testemunho, opinião, parecer, outras tantas achegas moralizantes ao arrepio da moral rígida e rotulada”. Refiro-me ao bracarense e homem do Norte que nunca renunciou a essas marcas identitárias, quer nos momentos de afirmação quer nos de constrangimento, e que a elas deu corpo permanente em todos os múltiplos atos, designadamente oficiais, de que foi parte. Dir-me-ão que a descrição não faz ressaltar o FCG que hoje todo o País e as suas Universidades (Católica e do Porto) estão a homenagear com palavras formais, entre o abonatório e o agradecido. Só posso discordar, quase apostando que FCG teria gostado que a propósito dele assim se dissesse e, se possível, se acrescentasse ainda: “Basta que uma autoridade se afirme, para que apareça logo essa frisante e desdenhosa alma coletiva da média virtude que vem pôr em ridículo a palavra excelente demais ou pôr em dúvida a força da lei ou o esplendor da promessa.” Coletiva, sim, porque as realizações de FCG foram sempre participadas e/ou partilhadas por outros, elemento basilar de que nunca prescindiu a par dos arreigados valores éticos e humanos que o definiam e pelos quais se movia.

QUE VERÃO NORTENHO, ESTE!

(Riki Blanco, https://elpais.com) 

Hoje fico-me por um desabafo agradado: a praia a Norte está como não me lembro de alguma vez ter estado em todos estes largos anos subsequentes à minha opção pós-Algarve! Temperatura alta, vento escasso ou inexistente, água pouco fria, gente em número suportável e ambiente muito aceitável, eis o que se me apraz sobre a vida no eixo balnear e urbano que mais tenho frequentado (Póvoa de Varzim/Vila do Conde). Razões mais do que suficientes para pedir pessangas aos nossos acompanhantes e voltar para a beira-mar para por lá ficar até que o Sol comece a dar sinais de ir partir ou até que a leitura do dia já não tenha por onde...

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

A MUDANÇA ESTRUTURAL DAS ECONOMIAS EXPORTADORAS E O QUE ELA SIGNIFICA

 


(Quando se estuda em profundidade a mudança estrutural das economias fortemente exportadoras, existe uma lei bem conhecida que está relacionada com as diferentes vagas de entrada na industrialização para o comércio externo. Por outras palavras, as economias manufatureiras exportadoras não iniciaram todas em simultâneo os seus processos de industrialização extrovertida. Essa entrada acontece por grupos ou ondas, em momentos históricos diferentes, tirando designadamente partido das condições de evolução da economia mundial que abrem mais ou menos oportunidades de entrada. O estudo aprofundado dessas ondas ou vagas de industrialização extrovertida mostra que a entrada manufatureira inicial acontece através de exportações com vantagens comparativas salariais assinaláveis e regra geral com utilização e aproveitamento de processos de difusão e transferência de tecnologia em domínios preparados para uma ampla difusão pela economia mundial. A lógica é simples. A utilização da mesma tecnologia com salários mais baixos abre caminhos de lucratividade irrecusáveis. Sabemos ainda que a entrada por dos exportadores neófitos por essa via se deve fundamentalmente, não apenas a opções internas de política industrial extrovertida, mas antes ao facto desses ramos de entrada serem progressivamente abandonados por países que iniciaram processos sustentados de aumentos de produtividade e de aumentos salariais, que abrem assim caminho a novos candidatos. Esta interpretação da mudança estrutural em processos de industrialização extrovertida permaneceu válida durante largo tempo e, mais do que isso, continuou a ser válida para economias extrovertidas de pequena e média dimensão. O que é que pode acontecer em contrário e comprometer a validade deste argumento? O problema é que existe um elefante na sala que se chama China. Vejamos que estragos provocou este elefante no argumento solidamente apoiado pela evidência histórica concreta de muitos processos de industrialização extrovertida.)

Porque é que a China constitui um elefante na sala de grandes proporções?

A razão é simples. Nenhuma das economias emergentes expoentes dos processos de industrialização protagonizou mudanças estruturais com uma tal dimensão económica de suporte. É claro que praticamente todas as economias asiáticas que emergiram em sucessivas vagas de industrialização aberta partilharam um modelo de elevadas taxas de poupança e muito elevadas taxas de investimento. Taxas de investimento de 30 a 35% dos PIB respetivos eram correntes. Mas a novidade é que esse padrão se alargou a uma economia como a da China que trouxe ao processo uma outra característica relevante – a dimensão económica, demográfica e territorial. Sabemos que hoje a China já não é o El Dorado demográfico do passado. Mas a sua dimensão económica e territorial está intacta. Ora isso traz à industrialização extrovertida novas nuances, principalmente de alternativas de interação entre mercado interno e externo que as restantes economias emergentes não têm condições de aproveitar. O gigante da Índia está longe ainda de apresentar condições claras de industrialização extrovertida e uma economia como a Indonésia tem de ser estudada com atenção nos próximos anos.

O gráfico que abre este post é cristalino do ponto de vista da interpretação dos rumos da industrialização extrovertida da economia chinesa. É perfeitamente visível o crescimento do excedente comercial externo chinês no conjunto de produtos com utilização de elevadas qualificações e nas máquinas e equipamentos elétricos, mostrando que a mudança estrutural está lá e que é pujante. Mas se estivermos atentos, o conjunto dos setores de baixa tecnologia e de mobilização de baixos continua praticamente incólume na sua evolução. Estará a perder peso no total do excedente comercial externo, mas o efeito massa continua lá.

Que implicações suscitam estas evidências para a interpretação da mudança estrutural das economias manufatureiras exportadoras?

De acordo com a interpretação geralmente aceite, a realocação da economia chinesa em favor dos produtos de elevada qualificação e das máquinas e equipamentos elétricos deveria ter criado uma oportunidade para economias emergentes recém-chegadas ocuparem o espaço libertado pela economia chinesa. O problema é que a economia chinesa não libertou espaço suficiente nos campos da baixa tecnologia e dos baixos salários. Assim sendo, a mudança estrutural das exportações chinesas não está a facilitar o caminho ao aparecimento de novos emergentes, já que não liberta espaço para outros explorarem as suas vantagens salariais e acesso a tecnologia de fácil difusão.

Podemos, assim, concluir que a presença do elefante na sala da dimensão e da vitalidade do mercado interno que acompanha essa dimensão altera profundamente a tese das oportunidades associadas às sucessivas ondas de industrialização extrovertida.

O que não é um fator para desvalorizar na análise crítica dos rumos que a globalização parece estar a assumir.

 

UM LIVRO OBRIGATÓRIO

É o livro mundial do momento, seja em termos políticos seja em termos de sucesso editorial. “Regime Change – Inside the Imperial Presidency of Donald Trump” relata de modo envolvente o que foi o primeiro ano e meio do atual segundo mandato de Trump com base num trabalho de investigação rigoroso, acedendo a fontes credíveis, integrando centenas de entrevistas, perscrutando por detrás das cenas à vista e, ao que se diz, reproduzindo gravações de algumas reuniões ditas confidenciais – um trabalho marcante de real-time political history. Chegou-me no segundo dia de férias através de encomenda feita à “Amazon” e acabei ontem de ler as suas mais de 400 páginas “úteis”, que percorri num quase incontrolável jato.
 
Os autores, Maggie Haberman e Jonathan Swan (foto abaixo), são dois jornalistas “veteranos” do New York Times” que há anos seguem Donald Trump. Fintan O’Toole, em comentário para o mesmo jornal, escreve lapidarmente que “os eventos que eles retratam são bem conhecidos: os excessos do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) de Elon Musk, o caos das tarifas de Trump, o retorno vampírico de Jeffrey Epstein, a militarização das cidades americanas, o lançamento do ICE nas comunidades migrantes, o abuso do sistema de justiça para ir atrás dos percecionados inimigos de Trump, o assalto à independência da Reserva Federal, o precipitado passo em falso na guerra contra o Irão” mas que “o que os autores acrescentam é o vívido detalhe que torna estes eventos serem sentidos como reais”. Porque, explicitam, “arrancam a própria realidade do mundo distorcido do entertainment, ilusão, fantasia e negação que Trump gerou à sua volta”. Ou seja, porque “é a corrente de provocação, atrocidade, negócios próprios e invenção que torna a contranarrativa de Haberman e Swan tão vital”.



O livro integra quatro grandes capítulos, sugestivamente intitulados de modo simples mas elucidativo: Whirlpool (Redemoinho), Retribution (Castigo), The Enemy Within (O Inimigo Interno) e Plunder (Saque). E deixa muito claro em todos eles quanto Donald Trump – após quatro anos sofridos de acusações, condenações, tentativas de assassinato e exílio político – regressou à Casa Branca para um segundo mandato mais liberto de qualquer dos condicionamentos que o limitaram no primeiro e, portanto, mais cheio de si, mais vingativo, mais jogador, mais poderoso em suma. Ou, como vários escreveram, a escrita fluida e fluente do livro consegue captar em pleno a mediocridade, violência e perspicácia política da personagem em causa, revelando “um presidente a operar quase inteiramente sob instinto [num impressionante misto de premeditação e total improviso] e uma Casa Branca a operar nos limites do poder político” e mostrando quem tentou mais ou menos vagamente pará-lo e a dimensão em que praticamente todas essas tentativas falharam.
 
O retrato de vários dos “cortesãos” gravitando à roda de Trump surge como uma ilustração eficaz do ambiente em presença, seja no caso das relações com um estranho e tresloucado Elon Musk ou nos de Stephen Miller (um extremista inigualável) e Susie Wiles (a eficiente e discreta chief of staff), os próximos de maior lealdade e, de algum modo, mais ideologicamente ou pessoalmente interessados no sucesso de um mandato que resulte avaliável como um ponto de viragem histórico. Mas há outros episódios deliciosos, como os da conversa telefónica em que Netanyahu se viu forçado a aprovar o plano de paz para Gaza (“I've done everything to protect you. You better fucking go along with this. It's been going on for too fucking long. Everybody's sick of you, Bibi”) ou os da assessora de imprensa a percorrer o campo de golfe ao lado do presidente a ler-lhe mensagens dele indescritivelmente laudatórias nas redes sociais, para apenas deixar dois exemplos. Num plano ainda mais caricatural, valerá a pena referenciar a descrição de um dia típico na Sala Oval: “Era [o quadro] de um presidente passando os seus dias na Resolute Desk numa série de sessões rolantes, acompanhado por um grupo nuclear de íntimos; estes eram complementados por um elenco rotativo de extras que num dado dia podiam ser legisladores republicanos, titãs da indústria, antigos lutadores profissionais, músicos country, príncipes do Golfo, irmãos da crypto ou amigos de criminosos a pedir perdões. Eles entram e saem do quadro, alguns sendo convidados a ficar para reuniões cujo atendimento não lhes dizia respeito.”
 
Cito finalmente a descrição feita pelo correspondente do “Le Monde” em Washington (Piotr Smolar) da história do presidente que revolucionou o modo como o mundo passou doravante a entender o American power: “Num ano e meio, Donald Trump expandiu o âmbito do executivo muito para além de qualquer dos seus antecessores, mudou os tradicionais checks and balances, tentou reformular o comércio internacional, ignorou largamente o Congresso, lançou uma maciça campanha de deportação contra imigrantes sem documentos, intimidou países aliados dos EUA e começou uma guerra no Irão”.
 
Eis uma leitura estival apropriada e verdadeiramente útil para uma compreensão do estado de apodrecimento a que chegou a maior potência mundial.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

BESSENT: AMIGO DOS NIPÓNICOS OU DO CHEFE?

(https://en.macromicro.me e https://www.ft.com)

A primeira intervenção conjunta no mercado cambial levada a cabo pelos EUA (com a FED a vender euros para comprar ienes em nome do Tesouro) e pelo Japão em quase trinta anos surpreendeu alguns analistas mas acaba por ter um racional bem percetível e interessado. Vejam-se as “gordas” na infografia apresentada acima.

 

Com efeito, a moeda japonesa vem sofrendo quebras significativas desde a pandemia, às quais uma compreensível reação defensiva das suas autoridades só poderia ocorrer por via de uma improvável alta marcante das taxas de juro (hoje bem abaixo dos seus pares) ou de uma venda maciça de dólares (ou seja, de obrigações americanas).

 

Ora, o Japão (com um valor bem acima de 1 bilião de dólares) é hoje o maior detentor mundial de dívida americana (a fase chinesa, que atingiu picos por alturas da crise de 2008/10, já foi ultrapassada há muito e a China ocupa atualmente o terceiro lugar em tal ranking), pelo que esta hipótese é assustadora, em termos estruturais e de evolução previsível dos yields, para um país a braços com uma dívida cada vez menos controlada e cada vez mais cara.

 

Assim sendo, e apesar das palavras oportunamente carinhosas de Donald Trump para com os amigos japoneses, a verdade é que a intervenção verificada – e bem sucedida no curto prazo, já que o iene valorizou cerca de 4%, passando 164 por dólar para 156 no final da semana – foi objetivamente menos fundada num apoio à moeda nipónica do que numa proteção do Tesouro americano, dela bem carecido devido aos inúmeros e multifacetados riscos que a política económica de Trump e Scott Bessent vem desmultiplicando na economia do país.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

E SE A CHINA ESTIVER A GANHAR COM A GUERRA NO IRÃO?

 


(A ideia já passou seguramente pelas nossas cabeças, mas quem a formalizou com argumentos seguros é Paul Krugman no seu substack, seguido com alguma regularidade neste blogue. O principal argumento ou evidência convocado para entender que a China, não sendo parte ativa nas hostilidades do Golfo, é a potência que está a extrair melhor proveito da contenda baseia-se sobretudo na alteração disruptiva de opinião observada em muitos países quanto à posição relativa dos EUA face à China na cena internacional. Obviamente que ninguém ignora a superioridade que os EUA continuam a revelar em matéria de investigação científica e tecnológica, rumos da Inteligência Artificial e domínio de outros setores tecnológicos de ponta e em termos de poderio militar, não esquecendo as relações virtuosas que esta última superioridade alimenta em matéria de ciência e tecnologia. Mas as evidências apresentadas são de facto impressionantes para um conjunto de países já muito significativo. À distância geográfica a que estamos, não dá plenamente para perceber se essa perceção é extensiva à própria sociedade americana. A única coisa que sabemos é que a popularidade de Trump tem atingido os níveis mais baixos de sempre e que a intervenção militar no Irão é vista pela maioria dos americanos como algo de indesejável e profundamente contrário aos interesses americanos, sem que isso signifique a apologia do regime teocrático e repressivo iraniano. Mas isso não significa que os americanos tenham a perceção do modo como o poderio do seu país é desvalorizado na cena internacional.)


Também sabemos que alteração das perceções quanto ao poderio e influência relativos dos EUA e da China não pode ser apenas explicado pela pujança manufatureira chinesa, visível na evolução do seu peso na produção industrial mundial. Claro que já há longos anos, a norma de consumo das classes médias mais baixas e das classes mais desfavorecidas do ocidente é alimentada pela capacidade esmagadora da produção com origem na China inundar os mercados europeus. Mas isso não impede o reconhecimento de que se os EUA de Trump tivessem mantido intactas e respeitadas as alianças com a União Europeia e outros países ocidentais de vanguarda a superioridade manufatureira “ocidental” seria ainda uma realidade.

A alteração de perceções não pode, assim, deixar de estar associada à disrupção e à desconfiança que a administração Trump tem propagado não só do ponto de vista dos valores transacionais e de enriquecimento próprio (seu e da sua corte) que professa, mas também devido ao carácter profundamente errático e discriminatório com que exerce o tal poderio americano. O ziguezaguear que é exposto regulamente em relação ao conflito com o Irão é tão errático que, por vezes, não tem explicação racional possível. Podem existir argumentos válidos para uma mudança de posição, mas a maneira como a justificação é apresentada apaga qualquer centelha de racionalidade que possa ser encontrada. É este o caso, por exemplo, da interrupção dos ataques ao Irão que neste fim de semana foi anunciado, invocando uma qualquer possibilidade de regresso às negociações em torno do memorando de entendimento. Provavelmente porque o stock de armas balísticas americanas precisa de reconstituição, mas não há qualquer elemento de seguro que leve a esse entendimento.

Pior ainda, com a sua atitude persecutória em relação a grandes expoentes da ciência americana e a extensão das amizades de conveniência às lideranças militares assistimos perplexos à destruição dos alicerces do poderio americano.

Claro que não podemos ignorar que o recato das autoridades chinesas tem evitado que as suas vulnerabilidades em termos de medidas internacionalmente impopulares sejam publicamente expostas e assim preservado a sua imagem relativa. Não sabemos até quando a China poderá manter esse recato para fazer avançar a sua aposta geopolítica internacional.

Não me admiraria que, por vias muito indiretas, a China venha a apoiar a reconstituição iraniana do seu aparelho de guerra. Mas isso exigirá um outro modelo de seguimento. Uma coisa é seguir o estardalhaço trumpiano. Outra coisa bem diferente é tentar compreender os jogos de sombra chineses.