(O economista americano Paul Krugman está de férias algures na Europa, provavelmente para aliviar o espírito das asneiras alarves de Trump, mas não tem deixado por isso de alimentar o seu “substack” que substituiu, como é sabido, a sua crónica regular no New York Times. O talento de Krugman para suscitar o debate é por demais conhecido, característica olhada de soslaio pelos economistas de mainstream que detestam fazer ondas e incomodar as ideias estabelecidas. Num destes últimos substacks, mesmo a partir da Europa, Krugman trouxe para o debate público a ideia de que o declínio económico da Europa merecia alguma análise crítica, sobretudo do ponto de vista das condições utilizadas para medir o crescimento da produtividade, indicador invocado para justificar a tal ideia do declínio europeu sustentado. Embora este debate seja algo complexo para leitores sem formação económica, dimensão que os economistas americanos assinalam regularmente com a indicação de aviso prévio “very wonkish”, ele é interessante e justifica o seu registo neste blogue. Não estão em causa as claríssimas diferenças de modelo social e de condições de vida entre os europeus, pelo menos os dos países mais desenvolvidos do Norte e os americanos. Essa questão é conhecida e não vale a pena chover no molhado. O debate é outro e constitui matéria relevante pois tem influência na condução da política europeia. O tema do declínio económico europeu veio de novo a terreiro quando Mario Draghi publicou com pompa e circunstância o seu relatório (Relatório Draghi), no qual alertava para o forte constrangimento de produtividade que a Europa enfrentava, seja na sua versão de produtividade aparente do trabalho (PIB por pessoa empregada ou PIB por hora trabalhada), seja na de produtividade total dos fatores, que costuma ser um pouco artificialmente apontada como uma medida da eficiência global com que a economia funciona. Os números que servem de base a esse raciocínio utilizam recorrentemente a medida do PIB em termos reais, isto é, expurgada da inflação, dividindo esse valor seja pelo emprego, seja pelas horas efetivamente trabalhadas. Ora, é sobre este cálculo que Krugman constrói o seu argumento que tentarei explicitar o mais sucintamente possível neste post.)
A medida da produtividade aparente do trabalho (por pessoa empregada ou por hora trabalhada, prefiro normalmente esta última, já que permite integrar na análise a jornada de trabalho) utiliza no numerador como anteriormente referi o PIB em termos reais, ou seja, calculado aos preços de um determinado ano. No caso dos valores utilizados por Krugman, que são os do Banco Mundial, o ano base é o ano de 2021. Conforme o gráfico de autoria do economista americano que abre este post evidencia, a produtividade europeia face à americana apresenta um declínio sustentado, descrito pela curva a preto do referido gráfico. Parece ser este então a base de todo o discurso sobre o declínio económico europeu.
Mas o economista americano está cheio de razão quando critica este modo de cálculo da produtividade aparente do trabalho para comparar a situação europeia e a americana. Como rácio que é, o numerador, o PIB, é influenciado pela composição desse produto e pelo nível geral de preços das duas economias em confronto. Assim, em vez de se construir uma série com a evolução dos PIB a preços constantes de um dado ano e dividi-lo pelo total de horas trabalhadas, o processo de cálculo correto é comparar o PIB e consequentemente a produtividade em cada ano à paridade de poder de compra e construir a sucessão desses valores. Como também é visível no mesmo gráfico que abre este post, a curva azul mostra que não há declínio da produtividade europeia face à americana, quando medida à paridade de poder de compra. Ela é menor do que a americana, mas o gap não se tem acentuado como o observado quando calculamos a produtividade do trabalho a preços constantes. A diferença é fundamental: calcular a preços constantes equivale a calcular aos preços de um determinado ano; comparar à PPC significa que se neutraliza em todos os anos a diferença de composição dos PIB e os níveis gerais de preços das duas economias.
O que é importante no argumento de Krugman, mas também a parte mais complexa do seu argumento, é a referência ao facto de se tratar de um falso paradoxo. É falso porque o que efetivamente acontece é que a Europa e os EUA produzem diferentes conjuntos de bens (os cabazes de PIB são distintos) e isso não é apanhado pela medida convencional da produtividade a preços constantes de um dado ano. A efetiva explicação do falso paradoxo implica que tenhamos em conta que a economia americana é de facto incontestavelmente superior na produção de bens tecnologicamente sofisticados (o big tech ou high tech). E, como é conhecido, os bens high tech têm apresentado um crescimento da produtividade do trabalho superior aos restantes conjuntos de bens. É, assim sem surpresa que o crescimento da produtividade na Califórnia e no Texas (influência do Sillicon Valley e de Austin) é muito superior à verificada noutros estados americanos, aliás em montante bem superior à da diferença entre os EUA e a Europa mais desenvolvida.
É de facto a relevância do big tech americano que explica a diferente composição da produtividade nos dois países, mas quando expurgamos da análise o efeito dos preços relativos e do nível geral dos preços, existe de facto um desvio de produtividade ligeiramente inferior a 10%, mas a tese do declínio económico sustentado não se verifica (não tem evidência correspondente).
Mas, como pergunta Krugman, qual é então a verdadeira razão para os europeus se preocuparem e ajustarem nesse sentido as políticas de inovação?
A preocupação está no facto da Europa não ter nos últimos tempos muito que dizer na duopolização do big tech entre os EUA e a China. Esse sim, é o verdadeiro problema. Claro que poderemos afirmar que uma política europeia inteligente de abertura e difusão do progresso técnico produzido pelos dois colossos pode mitigar o problema. Mas não o resolve. Enquanto o big tech não tiver uma irradiação tripolar, com os países do Norte da Europa a disputarem liderança e os restantes países a prosseguir políticas hábeis de nichos de inovação (um papel para Portugal?) a preocupação subsistirá, até pela razão simples, mas imperiosa de controlar o avanço do progresso técnico à luz dos valores europeus.
Creio, por isso, que Krugman tem razão neste debate, por mais estranho que seja a um não economista de formação sólida ver a queda da produtividade aparente do trabalho a preços constantes e concluir que, à paridade de poder de compra, a diferença de produtividade da Europa face à dos EUA se mantido.
Nota final:
Como exemplo da argumentação contrariada por Krugman, veja-se por exemplo o sempre perspicaz Noah Smith.








