terça-feira, 27 de outubro de 2026

ATÉ NO NOSSO MUNDINHO...

Uma pequena e simples ilustração de como por cá também abundam os al revés que cada vez mais dão prova de pressentidas limitações de leitura política, de exibições de falta de coerência temporal e de atitudes e opções estranhamente atiradas para o caixote do lixo da história. O caso de hoje, associado à questão das “acampadas” de Lisboa e Porto e às cargas policiais ocorridas contra esses protestos pacíficos, mostra-nos um ex-líder da JSD e ex-candidato à liderança do PSD (atualmente desligado da atividade politica quotidiana) a expressar publicamente a sua opinião no sentido de tais factos serem injustificáveis e constituírem um “tremendo erro dos decisores” e algo de que “se alimenta o populismo, a radicalização e a descrença na política”, ao mesmo tempo que nos traz um ex-militante do PCP e ex-eurodeputado do PS, octogenário e constitucionalmente responsável em termos máximos, a falar-nos de “ocupação selvagem” ilegal (ou “aventureirismo insufragável”) e a defender a intervenção policial (com a devida salvaguarda da proporcionalidade dos meios, também era o que mais faltava!), em nome de uma incompatibilidade de se colocarem tendas numa praça pública com o “regime do domínio público de uso comum”. Mas já estamos quase todos loucos ou, havendo quem tenha ganho a capacidade de interpretar o seu entorno à luz da velha ideia de uma “análise concreta da situação concreta” (ademais se a mesma procurar ser objetiva e desligada de interesses particulares ou partidários), há quem queira parecer crescentemente tocado/encantado pelos desvarios do entorno e pelo relativismo das convicções?

UM CONTEXTO POLÍTICO MAIS EXIGENTE PARA A POLÍTICA MACROECONÓMICA

 


(Desde o período da Grande Recessão de 2007-2008 com seguimento breve para a crise das dívidas soberanas, a conflitualidade da política macroeconómica, designadamente entre as dimensões da política monetária e da política fiscal, tem estado ao rubro. Até à Grande Recessão, o primado da política monetária, associada à independência dos bancos centrais e à estabilidade dos preços como grande objetivo, impôs-se, apagando a política fiscal e as diferentes variantes do keynesianismo. No rescaldo da Grande Recessão e do período de taxas de juro nulas ou negativas, foi a política monetária que esmoreceu, fazendo ressurgir a política fiscal, dando um novo alento ao keynesianismo e abrindo caminho a intervenções não ortodoxas dos bancos centrais. O “whatever it takes” de Mario Draghi e as formas agressivas de “quantitative easing” que lhe sucederam mostrou exemplarmente um novo contexto que emergia, não esquecendo o olhar mais cético e interrogado sobre a política monetária mais restritiva, vulgo austeridade. Desde então e não foi assim há muito tempo, como se a história estivesse em irreversível aceleração, as coisas precipitaram-se e várias foram essas coisas, a começar por uma violenta alteração do contexto internacional, cada vez mais bélico no sentido militar do termo, mas também no sentido da guerra comercial alimentada pelas loucuras de Trump, cujo risco maior é lançar o mundo numa perigosa onda de protecionismo, com a velha tentação de tentar resolver os nossos problemas à custa do vizinho, que a keynesiana Joan Robinson batizou brilhantemente de políticas de “beggar-my-neighbour”. Tudo parece ter regressado à velha ordem da conflitualidade entre a política monetária e a política fiscal. Por um lado, o regresso do espectro da inflação não controlada faz ressurgir a exigência de política monetária mais restritiva. Por outro, as perspetivas da guerra, da segurança e da defesa voltam a pressionar os orçamentos públicos. O problema é que o contexto político e social se alterou e tido isso exige reconsideração. É sobre este último ponto que gostaria de fazer incidir o post de hoje.)

Nunca tive dúvidas acerca da necessidade de contextualizar sempre o debate macroeconómico. A conflitualidade entre a política monetária e a política fiscal não acontece numa torre de marfim, isolada dos contextos sociais e políticos e, por isso, sempre fui fiel à inspiração keynesiana, não dos principais seguidores de Keynes, mas dele próprio no seu tempo, atento ao mundo e procurando através da economia nele intervir.

Este é de novo o tempo pertinente para não esquecer essas raízes.

O que temos de novo no contexto de hoje? Três coisas essencialmente: i) o regresso da inflação; ii) a renovação dos problemas de “affordability” para uma faixa muito alargada de populações nos diferentes países, tocando em duas necessidades básicas – a da alimentação e a do alojamento (habitação); iii) democracias em risco de rotura, provocado por demónios de populismo nacionalista à solta, com multiplicação de inúmeros exemplos de cleptocracia autoritária, bullying internacional e disseminação de democracias iliberais, numa palavra de falsas democracias.

O estatuto dos bancos centrais interessa para esta questão, consoante a respetiva missão está como acontece com o BCE centrada na estabilidade dos preços, ou, como se regista no FED USA, essa missão é mais abrangente, integrando as dimensões do crescimento económico e do emprego/desemprego.

O facto da ressurgente inflação atingir especialmente itens como a habitação, a alimentação, a energia, os combustíveis e as comunicações, com impacto muito diferenciado consoante os estratos de rendimento, evidencia com clareza que as questões de affordability são também uma extensão dos problemas da desigualdade, que se tem intensificado nas sociedades ocidentais. Este campo é fértil para a intensificação do descontentamento de quem trabalha e não consegue, apesar disso, responder plenamente às suas necessidades, abrindo caminho aos cantos da sereia extremista de direita, que proliferam nas sociedades europeias, com matizes diversos, é certo, mas com o denominador comum de assalto às instituições democráticas.

Conforme outros períodos da história nos alertaram e ensinaram, entre os quais períodos vividos pelo próprio Keynes, dificilmente e por si só uma política monetária restritiva será suficiente para combater na raiz estes problemas. Obviamente que a situação orçamental da qual os países partem pesa fortemente na abordagem possível. Veja-se o caso da França, em que o governo pressionado por todos os lados, o social, o económico e o político e pela violência nas ruas, se apresenta com uma folga orçamental nula. Outros países estarão em melhores condições para combinar a condição necessária da política monetária mais restritiva, com manifestações mais imaginativas de política fiscal. O problema é que, no meu modesto entendimento, essa combinação criativa dos dois pilares da política macroeconómica exige uma base política de apoio, estando convicto de que a sua prática permitira encontrar uma base social de apoio. Mas esse apoio social e político não se consegue alcançar apenas por via do discurso, antes exige uma prática consequente. É o seu lançamento em terreno que criará as bases para a sua própria sustentação.

Até agora, o caso do Reino Unido merece alguma atenção, já que a partir do momento em Andy Burnham, líder do Labour, começou a tomar medidas neste sentido, as sondagens existentes registaram a subida do Labour à liderança das mesmas, suplantando finalmente a posição do Reform UK de Farage.

Bem sei que tudo isto é precário e que os eleitorados estão cada vez mais voláteis. Mas creio que são menos voláteis a resultados concretos do que a meras intenções discursivas e retóricas.

Moral da história, a situação será sempre mais difícil para forças políticas na oposição como o PS. É que no exterior da governação, a dimensão discursiva sobrepõe-se sempre e é penalizada quando os resultados são gerados pela governação e não pelo discurso, por mais imaginativo que ele seja.

Nota final: esta reflexão foi-me sugerida pela leitura do artigo de Isabela Weber no Financial Times.

 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

LULA VIROU O JOGO

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

Incontornável uma menção mais do que honrosa ao presidente Lula da Silva que conseguiu a “remontada” na segunda volta de ontem, conquistando a sua quarta vitória em eleições presidenciais brasileiras (em sete que disputou). Trata-se, goste-se mais ou menos, de uma autêntica força da natureza a todos os títulos, desta vez logrando afastar do poder um perigo nacional e internacional que parecia inevitável e claramente facilitador da agenda de desordem que Trump ostenta à sua reacionária e demente maneira. Pouco tempo para comentários detalhados neste dia, mas ainda assim será justo louvar o posicionamento eleitoral dos mineiros (que terá sido determinante – curioso registar que Minas Gerais foi o único estado que mudou de vencedor entre as duas voltas), o reequilíbrio que proveio das elites, sobretudo paulistas e cariocas (que diminuíram a expressão da supremacia local da trupe dos Bolsonaros), e a continuada fidelidade dos nordestinos (que se contam entre os maiores beneficiários do ataque à pobreza que é imagem de marca dos mandatos de Lula). Ontem à noite, e após mais uma contagem eleitoral exemplar e uma muito profissional cobertura da “Globo”, bebi um copo de espumante em celebração do resultado, revendo-me naquela Paulista festiva em termos iguais aos de há quase um quarto de século.

A VIRADA

 


(Fim de semana em Alcântara -Lisboa para revisitar filho, nora e netos, logo com tempo reduzido para o trabalho de pesquisa que o blogue exige e sem grandes oportunidades para sentir a Cidade que protesta e sofre na pele, seja os descontrolos da força policial, seja as próprias dificuldades do movimento em torno da crise da habitação para dar uma expressão política consistente à espontaneidade observada. Algum tempo, porém, para em torno das atividades desportivas dos netos compreender a força do movimento associativo que vai proporcionando ao tecido social alguma sustentação e amarras, neste caso do velho Atlético que, no intervalo de um jogo de basquetebol da sua equipa sénior, aproveitou para apresentar os jovens que estão na formação da modalidade e na qual a franzina Catarina vai encontrando o seu caminho. E também o Esfera Andebol Masters em que o Francisco dá as suas passadas no andebol no Pavilhão da Ajuda. A norte, uma outra associação desportiva de gema portuense, o Vasco da Gama, vai acolhendo a experiência basquetebolística da Margarida e agora, nos intervalos do ténis, também do Pedro. Está por estudar em profundidade o peso e importância que estas agremiações assumem na estruturação do tecido social e de construção de relações de pertença e de identidade numa Cidade que se vai deslassando. Mas esse não é o tema do post de hoje, que gostaria de dedicar à virada octogenária em cima da linha de Lula da Silva nas Presidenciais no Brasil. Esta vitória de Lula na segunda volta de umas eleições que anunciaram o pior, primeiro pela incapacidade da esquerda brasileira de encontrar uma alternativa ao velho e desgastado Lula, segundo pelo primarismo de Bolsonaro que anunciava coisas bem piores, gera-me aqueles mixed feelings que sempre se formam quando se pretende derrotar a barbárie possível, embora com a convicção de que o deveríamos fazer com outra alternativa. Mas as eleições não se concretizam entre candidatos ideais. Elas acontecem com candidatos bem reais que foram até ao final e é com eles que o voto se decide. A resistência aos 80 anos de Lula é em si um facto notável e a alternativa que resta ao Brasil para, em torno do seu carisma e do seu papel ainda agregador de várias fações, ir preparando alguém com robustez para continuar a derrotar a perigosa onda de direita que varre por estes dias a América Latina, com destaque para a Argentina, Colômbia e Peru.)

Lula terá beneficiado dos receios que o primarismo de Bolsonaro filho inspirou no eleitorado brasileiro que, embora cansado do PT e dos fogachos de Lula, compreendeu que a alternativa poderia ser bem pior, gerando um risco elevado de confronto social futuro. Essa perceção talvez se tenha formado já depois dos resultados da 1ª volta que colocaram Flávio Bolsonaro em primeiro lugar e o sempre intuitivo Lula compreendeu essa tendência de rejeição do primarismo, explorou-a com o seu próprio carisma, construindo uma vitória que pode ajudar a fechar a sua longa carreira política de forma digna.

Creio que o mundo agradecerá esta vitória, ela equilibra em parte a onda de direita retrógrada e pseudo-neoliberal que se instalou em alguns países e assegura ao equilíbrio da Amazónia melhores condições de mitigação dos desastres ambientais que por lá a exploração económica do território vai provocando.

Não será seguramente uma vitória de Pirro, sobretudo se Lula se rodear das personalidades e do conhecimento adequados para construir um modelo de governo que possa assegurar-lhe uma retirada futura digna e à altura do seu papel na política brasileira. Creio que grande parte do empresariado brasileiro terá também compreendido que o primarismo de Bolsonaro lhe poderia provocar grandes dissabores num mundo que, por si só, já é demasiado volátil para poder aguentar desordem evitável e gratuita.

A democracia eleitoral tem destas coisas e por isso é insubstituível.


 

Que o diga também a alternativa política sérvia criada a partir de um vigoroso movimento de estudantes que oxalá possa assegurar a Belgrado uma preparação mais consistente para a integração europeia. Hungria e Sérvia já são dois por aquelas paragens, contrariando a sedução instalada pelo autoritarismo de Putin. No ponto de vista da ciência política, não me recordo de outros movimentos estudantis que tenham ganho expressão política eleitoral como a observada na Sérvia. O que significa que a democracia pode ser renovada através de dinâmicas populares ascendentes robustas e consistentes.

 

domingo, 25 de outubro de 2026

CRITÉRIOS E ALGO MAIS

Depois de uma segunda parte da semana em que Francesco Farioli e o FC Porto serviram de bombos da festa nas redes sociais (veja-se a imagem abaixo, que até tem a sua graça...) e na fala da larga maioria dos comentadores do centralista regime que reina no futebol português – além da despropositada alegria com que se referiram à derrota frente ao PSV e ao alegadamente afastamento correspondente dos “azuis-e-brancos” da Champions –, os portistas venceram em Barcelos, consumando uma nona vez consecutiva a ganhar que constitui um recorde destes tempos em que uma vitória vale três pontos (de antes, há o registo histórico de um arranque com treze seguidas em 1939/40 por parte do FC Porto de Siska). Pois a capa do jornal “A Bola” de hoje é aquela que reproduzo acima e elege como destaque o “ataque demolidor” do Benfica (que só jogará na Segunda-Feira!) em detrimento de um bem mais circunspecto “Dragão não facilita” que se limita a referenciar ao de leve o que constituiu a verdadeira novidade do dia anterior, numa pouco profissional chamada da atenção dos “lampiões” que ainda leem jornais visando encontrar-lhes um elemento substitutivo para os títulos que crescentemente lhes vão escapando...


sexta-feira, 23 de outubro de 2026

DA DEMOGRAFIA EUROPEIA

 

Uma breve nota demográfica que ilustra bem mais um dos inúmeros elementos de diferenciação interna à União Europeia. Apenas seis dos 27 Estados-membros evidenciam taxas de crescimento populacional natural positivas (lado direito do gráfico) – Irlanda, Luxemburgo, Chipre, Suécia, Dinamarca e Malta – e três outros revelam taxas negativas muito acentuadas (Bulgária, Letónia e Lituânia). Por outro lado, as dinâmicas demográficas não possuem qualquer impacto significativo em alguns (poucos) casos – como a Eslováquia, a Letónia ou a Polónia – mas são extremamente visíveis na maioria dos restantes países, com destaque para Malta, Espanha, Chipre, Luxemburgo, Irlanda, Bélgica e Portugal (aqui, uma relativa novidade proveniente das recentes estimativas divulgadas, que vieram patentear o nosso real posicionamento e fazer subitamente emergir alguns dos problemas que tínhamos por inexistentes ou bem ocultos). Um tema a merecer melhor exploração.