(O sempre perspicaz analista do Financial Times, Martin Sandbu, assina na newsletter Free Lunch do jornal uma curiosa reflexão sobre as ondas de pânico que, com epicentro na Alemanha e na Volkswagen, estão precipitadamente a formar-se na União em torno do relacionamento comercial com a China. O problema existe e os cerca de 100.000 trabalhadores da Volkswagen atingidos pelo despedimento potencial melhor do que ninguém darão razão a essa onda de preocupação. A análise de Sandbu tem o mérito de com evidência simples mostrar que a contaminação gerada pela situação daquela empresa alemã está longe de ter justificação plena, olhando para os números globais do comércio externo europeu. O problema existe, mas seguramente que a má compreensão dos dados do comércio externo que está na base das tais ondas de pânico não será seguramente boa conselheira para traçar os rumos de política mais consentâneos com a proatividade de mitigar a sua incidência.)
Os problemas que a Volkswagen enfrenta em termos de supressão de postos de trabalho foram associados à ameaça chinesa na sequência do aumento das importações provenientes da China registado nos tempos mais recentes, com relevo para a vertente dos veículos automóveis. Como a história económica nos ensina, ondas de pânico conduzem regra geral à generalização do protecionismo mais defensivo, tanto mais fácil quanto Trump vulgarizou essa prática com a volatilidade do seu humor em matéria de política comercial externa.
O que a análise fria de Sandbu nos mostra é que essa onda de crescimento das importações chinesas é registada num contexto em que as importações europeias globais tiveram um crescimento praticamente residual. Assim sendo, o que efetivamente aconteceu é que as importações chinesas se limitaram a substituir outras importações, provenientes seja dos EUA, do Reino Unido, Japão ou de outros países. Ou seja, não há uma invasão global de importações, o que acontece é que as importações chinesas (cerca de um milhão de veículos em 2025) traduziram uma perda de competitividade das importações de outros países no mercado europeu. Em termos geopolíticos, isso pode ser um problema, acaso as autoridades europeias entendam desejável que o seu mercado interno não seja dominado pelo poderio industrial e elétrico chinês. Mas do ponto de vista da ameaça à indústria europeia não tem grande significado, por muito impressivos que sejam os números do aumento de importações provenientes da China.
Mas ainda mais surpreendente é a evidência de que a União Europeia continua a ser uma exportadora líquida de veículos elétricos, por mais impressionados que estejamos com a presença física do vasto manancial de marcas de veículos elétricos chineses que se passeiam pelas nossas estradas. Certamente que o potencial competitivo, ardiloso como o sabemos, da produção chinesa de veículos elétricos é em si revelador, sobretudo do ponto de vista, esse seguramente mais ameaçador, de que os chineses dominam praticamente toda a fileira elétrica. Acresce que a faixa de preços a que a União exporta os seus veículos é claramente superior à faixa de preços a que as importações chinesas se materializam.
Face à realidade dos números, não parece saudável que os problemas registados no “motor alemão” (que já não é o que era, assinale-se) façam o pânico europeu galopar desorientadamente. O pânico, sobretudo o pânico injustificado e com deficiente compreensão dos números de suporte, nunca foi bom conselheiro de uma política industrial, mais propriamente de ressurgimento industrial. E não são números complexos. Antes pelo contrário, são bem simples e esclarecedores.











