Um debate entre José Pacheco Pereira (JPP) e André Ventura (AV), após desafio nesse sentido por parte do primeiro, parecia uma potencial boa ideia para desmascarar a ignorância e demagogia que carateriza a ação pública do líder populista e que marcara as suas declarações no Parlamento por ocasião do cinquentenário da Constituição. Mas afinal não era.
De facto, as regras impostas por JPP eram impossíveis de cumprir por parte de um personagem com a falta de princípios e o modo de estar que caraterizam AV. Interrupções constantes, mentiras descaradas e insultos gratuitos são uma componente indissociável dos debates em que participa AV e este não iria realisticamente ser diferente. Houve, por isso, quem criticasse a “inocência” da desafiante proposta de JPP, mas a verdade é que ele não falhou na principal demonstração que pretendia fazer de que aquela argumentação de AV era essencialmente falsa e necessariamente conducente a que dela apenas pudesse resultar uma leitura: a de estarmos perante alguém cujo foco inimigo está na democracia – ou seja, JPP contribuiu para que o palavreado do opositor só encontrasse acolhimento junto de algum do eleitoral radical que foi consolidando e, portanto, que não surtisse qualquer efeito incremental junto da restante larga maioria de portugueses.
Falou-se quase exclusivamente de presos políticos no antigo regime e no pós-25 de abril, embora também de raspão da descolonização e da corrupção. Sempre com AV a evidenciar algum trabalho de casa – no que pareceu ter querido sugerir um recurso à ajuda do historiador Rui Ramos – mas também sempre a ser atropelado por uma enorme desonestidade analítica; como quando pedia a JPP que lhe apontasse uma única ordem de prisão assinada por Salazar (mas não havia uma PIDE devidamente empoderada?), vulgarizava o assassinato de Humberto Delgado e da sua acompanhante, confundia incidências casuísticas da transição para a democracia com a sua atual presença estabelecida em condições de normalidade, reagia indignado a quaisquer referências objetivas aos militares portugueses ou a entidades como a PSP e a GNR ou metia os pés pelas mãos quando confrontado com uma escolha que tornava impossível entre um nacionalismo que assim validava o “terrorismo” e um “terrorismo” interno que assim contrariava os seus números...
No final das contas, tem de se saudar a intenção de JPP e a combativa frontalidade com que procurou evitar o relativismo moral que AV acabou por ter de adotar por razões táticas estritamente defensivas – então não é que o Portugal de hoje precisa de três Salazares quando afinal o regime que António de Oliveira Salazar construiu também tinha pobreza, corrupção, tortura e outros malefícios! Mas, dito isto, tornou-se óbvio que este tipo de debates não pode vingar, não tanto por dar palco a um sujeito de fraca qualidade pessoal e intelectual mas mais por poder constituir-se em fonte alimentadora de berraria inaudível e tendente a provocar uma natural rejeição dos cidadãos genuinamente interessados no esclarecimento dos temas em causa; ademais enquanto o moderador não dispuser de um botão que lhe permita silenciar aquele(s) que não esteja(m) a cumprir as regras acordadas.
Sobrou o seu bom esforço e a dignidade com que o concretizou, caro JPP!








