sexta-feira, 16 de novembro de 2018

UM GRÁFICO DAQUELES


Faz tempo que aqui não trago aos nossos leitores um daqueles gráficos falantes que de vez em quando nos passam pelas mãos e ajudam a melhor perceber uma determinada realidade ou a inverter uma leitura estabelecida de outra. O que hoje reproduzo vem do “Peterson Institute for International Economics” é retirado de uma admirável resource page que os seus investigadores construíram em torno da globalização (“What Is Globalization? And How Has the Global Economy Shaped the United States?) e é apenas um de muitos de grande utilidade e relevância. Dele se conclui, entre outros aspetos possíveis, que a ideia de várias globalizações vividas pelas sociedades humanas tem as suas claras limitações quando aplicada aos últimos cinco séculos – com efeito, e apesar das evoluções registadas pelo peso do comércio internacional no PIB mundial em outros períodos mais recentes (entre 1870 e a Grande Depressão ou após a Segunda Guerra Mundial) ou mais longínquos (anteriores ao século XIX), aquele rácio atingiu níveis incomparáveis com o de qualquer passado a partir da década final do século XX. E é esta globalização, mais estatisticamente impressiva, que hoje estamos a testemunhar (quer em termos da dimensão dos seus benefícios quer em termos do alastramento dos seus custos) em muito do seu contraditório esplendor.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

“ETHICS IS BULLSHIT” OU O ESVANECIMENTO DA VERGONHA



(Vivemos em sistemas de atores em que a dimensão ética do comportamento individual é uma espécie em desaparecimento, o que converge com a perceção de que o sentimento da vergonha é cada vez algo de exótico e raro. Alinho com Peter Dorman no Econospeak quando apela para que este tema seja considerado nas relevantes alterações que se vêm observando na esfera pública.)

A dimensão ética e moral da economia e da política sempre foi um tema que me interessou. Em tempos já idos, gastei algumas pestanas a mergulhar na Theory of Moral Sentiments de Adam Smith (acho que nunca houve uma tradução portuguesa), ficando fascinado pelo confronto entre o Smith da divisão do trabalho e da proeminência do mercado e o Smith da base moral de uma economia. Recordo-me de ter, lá longe, apresentado uma comunicação a uma das conferências do CISEP sobre economia portuguesa, em Lisboa, dinamizadas pela Professora Manuela Silva, com o tema “A degenerescência da base moral da economia portuguesa”, que há dias reli depois de um encontro acidental com uma cópia entre arquivos praticamente ignorados lá em casa (que antiguinho!). Acho que na altura a ignorância do tema na academia era manifesta e a comunicação foi recebida embora com interesse como se tratasse de um produto exótico.

Em estreita articulação com a intensificação dos fenómenos de captura do Estado pelos interesses económicos mais poderosos e de aumento dos índices de corrupção, económica e política, a dimensão ética e moral destes dois mundos, cada vez mais entrelaçados, tem andado pelas ruas da amargura. Muito boa gente é veículo de um discurso de desculpabilização destes processos, invocando precisamente o posicionamento face ao mercado. Ou seja, se no mercado aparecem com êxito comportamento que se borrifam para a ética e que representam a degenerescência clara da base moral, então os mecanismos da concorrência encarregam-se de induzir novos comportamentos com essas características. Claro que este argumento torna-se uma falácia desculpabilizante se atendermos aos ensinamentos de Smith que não ignorava a relevância dos sentimentos morais. É óbvio que podemos invocar que a regulação está lá é para alguma coisa e pode atuar. Mas uma sociedade minada pelo afundamento ético e pela degenerescência da base moral mais tarde ou mais cedo tende a envenenar os próprios processos de regulação, como acontece hoje por exemplo na sociedade americana.

O tema entretanto tem merecido alguns desenvolvimentos em matéria de investigação, sobretudo no campo da ética empresarial. Neste domínio, avultam contributos de gente claramente identificada com a OPUS DEI e também com a formação pós graduada jesuíta. Muito sinceramente basta a primeira evidência para me por a milhas de tais ilustres mentes e não é por usar avental, espero que me entendam. Nos últimos tempos, o fenómeno tem penetrado também a ação política. Basta recordar alguns conflitos de interesses de deputados e outros personagens e a maneira como acabam por ser resolvidos para ter a evidência clara de que se a economia e a política estão cada vez mais interligadas, isso parece também estender-se à perda de referenciais éticos e morais no seu exercício.

No ECONOSPEAK, um blogue que por vezes visito, Peter Dorman (link aqui) abordava no recente dia 11, a questão por um outro ângulo, o do desaparecimento da vergonha como um elemento regulador destas matérias. A vergonha é uma categoria entendida como praticamente a única alternativa que existe relativamente à coerção pura e dura tendo em vista evitar a violação das normas de convivência em sociedade. A vergonha é uma espécie de consequência da sanção de rejeição social do grupo face à sem vergonha de um “artista” qualquer. Mas Dorman é pessimista quanto a esta força reguladora:

A fé em que a vergonha seja uma força de aplicação universal e efetiva é uma indulgência moderna, um produto do racionalismo e do otimismo num mundo Iluminado. Ela ignora pelo menos duas verdades desconfortáveis. A primeira é a de que a resposta vergonha não é igualmente forte em todas as pessoas. Algumas são influenciadas pelo medo da vergonha e tendem por isso a acionar poucos juízos ou iniciativas independentes. Outros são a maior parte das vezes impermeáveis a essa influência; parecem alimentar-se da desaprovação que os rodeiam e só cedem à aplicação de um poder de coerção. A segunda é que essa vergonha, tal como outros fatores psicológicos, é mediada pelo modo como interpretamos o mundo – em termos religiosos, ideológicos e de hábitos sociais. É por isso que padres e senhores da guerra só sentem vergonha entre pares e não universalmente e que a noção de vergonha universal é uma hipótese política de contextos históricos específicos”.

Ora aqui está uma nova maneira de olhar para a esfera pública e para a maneira como os interesses privados aí se movimentam.

Nos tempos que correm, a nação que se anuncia como a mais avançada do mundo (na minha aceção olharia mais para os escandinavos) é presidida por alguém que não tem claramente qualquer sentimento de vergonha, ou seja com um efeito de demonstração ao mais alto nível. O que não deixa de ser um ponto máximo de exacerbação. Será que os americanos e as suas instituições ficarão indiferentes a este efeito de demonstração, resistindo à contaminação?

Correção:

O meu amigo e sempre atento António Oliveira das Neves recorda-me a  existência de uma tradução brasileira de The Theory of Moral Sentiments e até me indica o link para essa referência:
https://www.wook.pt/livro/teoria-dos-sentimentos-morais-adam-smith/55306. Bem haja.

(Atualizado a 15.11.2018 às 21.26)

“AMIGO DE PORTUGAL”


Diretamente da Finlândia, onde se reunia o PPE para escolher o seu candidato a presidente da Comissão Europeia, o sempre pressuroso Paulo Rangel não perdeu tempo a tentar fixar a ideia de que o eleito (o alemão Manfred Weber) seria um “amigo de Portugal”. Só que, e ao invés do que aquele eurodeputado pretendia deixar sub-repticiamente estabelecido, o caso é mais para se dizer que, com amigos destes, o nosso país necessita pouco de inimigos: com efeito, não esqueço, porque o pude testemunhar de perto, quanto foi a de um carrasco (provocador e absolutamente inflexível) a prestação de Weber ao comando da bancada europeia do PPE durante o pior período troikista que atravessamos. Já mais recentemente (2016), Weber não se coibiu de voltar a fazer das suas ao escrever uma carta ao presidente Juncker solicitando-lhe que as regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento “sejam aplicadas sem permissividade”, nelas devendo incluir-se as da “vertente corretiva” (“todos os instrumentos, incluindo os da vertente corretiva [do PEC], devem ser usados na sua força máxima”), e manifestando-lhe a “profunda preocupação” do seu grupo partidário com o que considerou estar a ser “uma interpretação, implementação e aplicação permissivas do Pacto de Estabilidade e Crescimento” por parte dos países com défices superiores a 3% do PIB (ou seja, Portugal e Espanha).Confrontado criticamente com esta sua tomada de posição, logo veio tentar corrigir-se (é sempre pior a emenda que o soneto!), explicando que apenas pretendia evitar que o comissário Moscovici “impusesse regras a Portugal e Espanha, diferentes das que impõe a Itália ou França” (?) e acrescentando que “uma coisa é aplicar a flexibilidade do PEC dentro das regras do PEC, outra, muito diferente, é aplicar esta flexibilidade apenas a alguns países amigos que partilham da mesma cor política” e, ainda, que “seria difícil a Moscovici explicar porque propõe agora penalizar países que têm estado a esforçar-se para implementar reformas simplesmente porque não cumpriram as metas do ano passado, quando no passado propôs que não se sancionasse membros com governos socialistas que não só não cumpriram as metas como foram relutantes em fazer reformas e até passaram o tempo a encontrar desculpas”. Eis a muito provável cara feia e de poucos amigos lusitanos (Rangel excluído) que vai ser comando na Europa 2019/2024...

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

DESIGUALDADE, TAKE (?)



(À boleia de um cada vez mais arguto Branko Milanovic no Global Inequality (link aqui), oportunidade para mais um take, perdi-lhe a conta, sobre um dos temas centrais deste blogue. O tema da desigualdade a nível mundial, a chamada desigualdade global, regressa com dados novos e algumas regularidades.)

Branko Milanovic, economista que trabalhou no Banco Mundial durante longo tempo e que agora investiga e ensina na City University de New York com associação ao think-tank do Luxembourg Income Study (LIS), a que também Krugman está ligado, é hoje um dos mais reputados membros da comunidade de investigação que estuda os temas da desigualdade. Para os efeitos deste post, convém sabermos que, entre outras possíveis abordagens, o tema da desigualdade pode ser entendido a dois níveis: o da comparação entre países, no âmbito do qual a desigualdade entre os indivíduos e consequentemente do país é calculada país a país, não sendo os rendimentos objeto de comparação, por exemplo, dos portugueses, dos americanos e dos chineses; o da desigualdade a nível mundial ou global, em que o universo para o qual se calcula um qualquer índice de desigualdade entra em linha de conta com os rendimentos de toda a população a nível mundial.

A notoriedade relativa das duas abordagens tem oscilado com o tempo. Em tempos de foco na globalização é a desigualdade global que tem mais notoriedade. Em tempos de recuo dessa globalização e de exacerbação dos fenómenos nacionais é a desigualdade entre países que tende a atrair mais atenção. Ora, temos vindo a atravessar tempos de recuo da globalização (protecionismo, nacionalismos, populismos) e coerentemente com essas tendências é a desigualdade entre países que se tem destacado. É esse o foco que tem identificado os EUA como uma das nações avançadas mais desiguais do mundo, a que se associam níveis preocupantes de pobreza e de reprodução destas últimas e das condições de desigualdade.

Mas ignorar artificialmente o tema da desigualdade global é empobrecedor, sobretudo para aqueles que nunca deixaram de acompanhar os padrões evolutivos da economia mundial, apesar dos populismos e nacionalismos.

Deixando em paz as tecnicidades que decorrem do grau de cobertura dos inquéritos às famílias sobre os quais os cálculos de desigualdade são realizados, o que impressiona é o comportamento do rendimento mediano global em si próprio entendido e também em confronto com o rendimento médio mundial. O que o gráfico que abre este post nos mostra com clareza é que o rendimento per capita mundial mediano tem a partir do período de 1998-2003 crescido a taxas bem mais elevadas do que o rendimento per capita médio mundial. É irónico que seja no período de 2008-2013 (período bem penalizador para os grupos sociais mais desfavorecidos das economias mais avançadas) que a divergência entre a dinâmica do rendimento per capita mediano e do médio seja mais acentuada. Esta evidência limita-se a confirmar o que já sabíamos: uma multidão enorme de populações muito pobres de algumas economias asiáticas, como a China, Indonésia, Índia e Vietname, entre outros) viram o seu rendimento crescer consideravelmente (certamente a partir de valores muito baixos). Tal Milanovic o assinala, quando o rácio “média/mediana” baixa isso regra é sinal de que a desigualdade está a diminuir. Praticamente todos os indicadores de desigualdade confirmam esta regra.

Mas Milanovic é um mestre das distribuições e dos indicadores associados. Aprofundando a análise, ele mostra-nos que, apesar das boas notícias que o rendimento per capita mediano nos traz, indo abaixo da mediana observa-se que as evidências do reforço da pobreza se intensificam. Ou seja, o movimento positivo atrás observado deixa para trás um montão de gente. Por outro lado, apesar do recuo da desigualdade de 2008 a 2013, os 1% mais ricos não perdem posição. Se pensarmos que os híper-ricos dispõem de uma vasta bateria de formas de ocultação de rendimento, então haverá cada vez mais super-ricos.

A síntese de Milanovic ajuda-nos a compreender a diversidade dos sinais na economia mundial: o rendimento per capita mediano aumenta expressivamente, mas o mundo está cada vez mais polarizado. Tudo isto nos pode ajudar a refletir sobre as dificuldades para a ocidente se encontrar uma fórmula política que integre este paradoxo. Não é fácil. O falsamente iluminado Trump pensa que terá encontrado essa fórmula. Duvido.

MERECIMENTO BLOQUISTA


(Cristiano Salgado, https://expresso.pt)

Encerrada a Convenção do Bloco de Esquerda, fica clara a maturidade adquirida por um agrupamento político que, vindo da extrema-esquerda, começou por ser de protesto mas se foi tornando no partido sistémico (mesmo que crítico ou muito crítico, mesmo que por vezes irrealista ou até demagógico) que indiscutivelmente hoje já é.

Catarina Martins será com certeza a maior revelação da política portuguesa dos últimos anos, tendo logrado com forte personalidade e inequívoco engenho dar uma imprevisível continuidade, e até algum acrescento de valor, ao líder histórico Francisco Louçã. A seu lado, muitos bons valores, quase todos jovens, com especial destaque para Mariana Mortágua e Jorge Costa.

Teremos ou não o Bloco num governo, isso dependerá largamente das vicissitudes conjunturais do voto e circunstâncias afins; mas lá que temos um Bloco preparado e crescentemente capacitado para assumir responsabilidades de poder, isso parece-me cada vez mais notório.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A ALEMANHA GERACIONAL



(Com a passagem de testemunho de Angela Merkel, primeiro ao nível da liderança da CDU e mais tarde com o seu abandono da cena política, é natural que o foco nas transformações das sociedade alemã e as suas consequências em termos de espectro político seja mais pronunciado. É também tempo, como lucidamente alguns observadores o salientam, para dedicar mais atenção aos problemas geracionais que a política alemã enfrenta.)

O fim do tempo de Angela Merkel aproxima-se, em tempos diferentes. Numa primeira fase, abandonará a liderança da CDU, mantendo-se como chanceler. Numa segunda fase, não se recandidatará a um novo mandato e provavelmente irá dedicar-se às suas conhecidas caminhadas, que bem aprecia. Está no seu direito.

É sempre precipitado fazer avaliações de personalidades tão marcantes na hora da preparação para a sucessão. Não conhecemos suficientemente o contexto em que a política alemã é exercida e, por isso, os juízos de valor sobre a sua prática política provavelmente só a distanciação no tempo e o apuramento efetivo das consequências da sua governação permitirão algum rigor de avaliação. É verdade que conhecemos o contexto da sua formação e da sua experiência política e daí poderemos inferir algumas regularidades do seu comportamento político. Mas isso não chega, até porque em políticas as curvas de aprendizagem pessoais não param de nos espantar.

A memória recente do seu futuro legado político será provavelmente marcada por uma dualidade de apreciação: por um lado, a sua tibieza em relação ao aprofundamento do edifício europeu é conhecida (há rumores de que Macron e a sua entourage se exasperam com a eterna indefinição e protelamento da resposta de Merkel às suas propostas); por outro lado, ninguém pode ignorar a sua coragem política interna na decisão de acolher um número tão significativo de refugiados, no contexto de uma sociedade que é cada vez mais securitária e revela sinais preocupantes de intolerância. Mais ainda, esses sinais têm penetrado a própria classe média alemã.

O que Merkel não poderá negar é a evidência cada vez mais segura de que a CDU está cada vez mais reativa ao aparecimento da extrema-direita no Parlamento alemão e nos Parlamentos de praticamente todos os Länder. E essa reatividade é no sentido camaleónico de adaptação ao que o eleitorado parece querer com a sua adesão a uma força política como a AfD (presentemente sob o fogo de acusações por ter recebido donativos nas últimas eleições de 2017 provenientes da Suiça). O que não anuncia boa coisa.

Se é verdade que o SPD não tem motivos para sorrir (o roto não tem condições de se rir do esfarrapado) pois tem experimentado uma muito séria erosão, a verdade é que a CDU de Merkel não tem sido pressionada apenas à direita. Os recentes ganhos eleitorais dos Verdes anunciam algum fervilhar de ideias e de projetos à esquerda.

É por isso que achei curioso um artigo de opinião publicado ontem no New York Times por Jagoda Marinic (link aqui) que considera que a divisão mais fraturante na Alemanha de hoje não é entre a esquerda e a direita, entre a moderação e o extremismo. O colunista chama a atenção para a fratura geracional que abala a sociedade alemã e para a onda de rotura que as gerações mais novas alimentam quanto ao pessimismo que domina entre as gerações mais velhas. Segundo estas gerações, a política alemã representa pessimamente o clima de diversidade já instalado na sociedade alemão e que parece de todo irreversível.

Não demos conta cá pelo reino mas uma grande manifestação de cerca de 250.000 jovens, organizada sob o tema “#unteilbar” (inseparáveis), aconteceu em Berlim a favor de uma sociedade mais aberta e mais diversa. Vale o que vale mas o êxito eleitoral dos Verdes na Baviera aconteceu com lideranças de 33 e 40 anos.

Ora aqui está um fenómeno a que Habermas dedicará seguramente toda a sua atenção.