domingo, 26 de julho de 2026

EM PREPARAÇÃO PARA A MODORRA ESTIVAL

 


(Ainda me faltam duas semanas intensas de trabalho para me entregar definitivamente à modorra estival por estas bandas de Seixas e Caminha, este fim de semana perturbado pelas irritantes festividades da Feira Medieval que continuam a atrair visitantes em massa e que suscitam a rejeição dos mais propensos ao sossego urbano, como eu, devo confessá-lo. Provavelmente com exceção do evento de Santa Maria da Feira, que nunca visitei e que, por isso, me abstenho naturalmente de criticar, as feiras medievais são hoje por estas paragens do Alto Minho um fenómeno estritamente comercial, que a mais agressiva iniciativa empresarial dos espanhóis tem capitalizado e ninguém os critica por isso. A ideia da reconstituição histórica já há muito tempo que se esfumou, submetida pelo crescimento de expositores e feirantes, incluindo comes e bebes, visível por exemplo no modo como a feira vai ocupando mais área na vila, incluindo do parque de estacionamento central. Ontem, deu apenas para comprar um saquinho de chá Rooibos que muito aprecio e que os comerciantes galegos expõem nas suas tendas cromáticas, nada de semelhante às de Marraquexe ou dos bazares de Istambul, mas ainda assim agradáveis ao olhar do visitante seduzido pela cor. Em preparação para a tal modorra estival, confirma-se um ano mais que valeria a pena escolher julho como mês de férias e não agosto, já que ele se apresenta regra geral como mais confiável climaticamente. Até a água do mar deu tréguas este mês aos ossos dos mais friorentos subindo a temperaturas que nos fazem pensar que isto está tudo bastante alterado. Mas trabalho é trabalho e não tem dado para essa escolha, até porque estranhamente desde há muitos anos que o mercado público dos concursos tem uma concentração absurda nos fins de julho e no mês de agosto, como se provocação se tratasse e quisesse impedir as consultoras de poder usufruir de férias normais e merecidas.

A modorra aproxima-se, mas o mundo não está definitivamente para aí virado. O tema que me tem mais impressionado é a esmagadora enormidade dos incêndios em Madrid e Ávila, seguindo-se aos de França, gerando uma magnitude de deslocação de pessoas que nos anuncia a gravidade do fenómeno e sobretudo a vulnerabilidade exposta de muitos territórios. Estranhamente, ao contrário do que teria imaginado, incêndios de tal magnitude não foram perturbados pela polarização política aberta que grassa naqueles países. Tudo se passa como se a gigantesca deslocação de pessoas recomendasse o recato político ao serviço da mais eficaz possível intervenção das autoridades da proteção civil, das forças de ordem e dos bombeiros e as forças políticas o tenham compreendido. O Rei terá tido essa perceção e, como era lhe era devido, apareceu a registar a relevância da ação conjunta que tem permitido combater focos de tão elevada magnitude, contrastando com o observado na calamidade de Valência. Por cá, por agora, a questão dos incêndios tem estado controlada embora com larga extensão de área ardida e não será nesse contexto, oxalá ele se mantenha, que o ministro da Administração Interna encontrará a redenção para as suas incompreensíveis argoladas.

No plano internacional, a opção de Trump em promover de novo o escalamento da guerra com o Irão transporta os EUA para a vertigem da ausência de saída consequente, anunciando em cada intervenção pública que o Irão estará definitivamente destruído, o que vai embatendo de frente com a capacidade iraniana de ir retaliando nos territórios do Golfo, onde existem bases e interesses americanos. Nunca no passado a avaliação dos americanos foi tão negativa como o é hoje a avaliação do significado da intervenção no Irão. Entretanto, num conceito estranhíssimo de equidade os sauditas foram autorizados a formas de enriquecimento de urânio incompreensíveis do ponto de vista da segurança a longo prazo do Golfo. O conceito de equidade aqui presente é tão estapafúrdio como a sugestão de que Infantino deveria ser o novo secretário-geral das Nações Unidas. Ou seja, Trump continua a querer governar o mundo como do seu quintal se tratasse e esse mesmo mundo ainda não sabe bem se há de rir, encolher de indiferença os ombros ou protestar.

E assim vai sendo preparada a modorra estival. O conceito de silly season ficou de repente obsoleto. O mundo, sim, esse virou silly.

 

sábado, 25 de julho de 2026

VOU DE FÉRIAS!

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)

Isto está verdadeiramente irrespirável! Diariamente somos obrigados a ouvir novidades provenientes das loucuras animalescas que saem da boca de Donald Trump (que continua a ensaiar a hipótese de um terceiro mandato em 2028), das atrocidades dos israelitas no Líbano ou das inconsequências políticas dos mais variados líderes internacionais e europeus. E, porque nós por cá também somos gente, apanhamos de hora em hora informações, declarações e comentários sobre como o ministro da Educação é um génio da nossa academia e fez quase tudo bem no reformista processo dos exames nacionais (e com transparência corrigiu o que não o estava), como o ministro da Administração Interna é um servidor público que falará quando entender ser o tempo certo ou como o primeiro-ministro acha que o pior já passou e que o Governo está aí para as curvas mas, ainda assim, decidiu que só fará férias depois do Verão – com o PS, através do seu líder parlamentar Eurico Brilhante Dias, a ameaçar com uma Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso dos exames para setembro (se até lá...) e Ventura a aproveitar-se convenientemente dos vazios da restante Oposição e a anunciar uma Comissão Parlamentar de Inquérito potestativa à gestão da Polícia Judiciária durante o mandato de Luís Neves. Pois antes que algo mais faça entornar em definitivo o copo já demasiado cheio da minha pobre cabeça, vou eu de férias na expectativa de ver se o ruído diminui e alguma normalidade pode regressar, onde e como quer que seja.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

THE AMERICAN EXPERIMENT

Uma proposta para férias a quem for assinante da Netflix: uma excelente série histórico-documental em cinco episódios sobre as origens e a atualidade da democracia americana: “The American Experiment”. Produzida por várias personalidades, entre as quais Tom Hanks, realizada por Brian Knappenberger e contando com participações como as de Kamala Harris, Al Gore, Mike Pence, Hillary Clinton, Ted Cruz e Nancy Pelosi – uma mescla de Democratas e Republicanos que comprova quanto os dois lados partidários, hoje aparentemente incapazes de qualquer concordância substantiva, podem conseguir associar-se na valorização do idealism and spirit behind one of the greatest underdog narratives in history –, a peça foi realizada com vista a celebrar os 250 anos de fundação dos EUA e contém elementos essenciais, e até inovadores, para uma melhor compreensão do complexo processo que levou aqueles treze territórios colonizados pelos britânicos à independência, à sua inédita auto-organização institucional e governativa e à sua sobrevivência ao longo de dois séculos e meio. Mas o dito documentário não deixa também de questionar o presente e as vicissitudes trumpianasque o marcam, o que surge bem sintetizado desde o final do primeiro episódio na canção folk interpretada por Laura Marling (“Devil’s Spoke”) que tem por apropriado refrão All of this can be broken.
 
A este propósito, o realizador é claríssimo em entrevistas que concedeu. Numa frase: the experiment is clearly ongoing. E acrescenta: “Herdamos algo incrível – e estamos na iminência de o perder”. Na série, explica-o a diversos títulos, designadamente  pela voz de Mike Pence, quer quando este relata os lastimáveis acontecimentos de 6 de janeiro e as pressões a que resistiu face a Trump para que não cumprisse o seu dever de validação da vitória de Biden em 2021, quer quando o mesmo recupera, vinte anos depois, a louvável certificação por Al Gore dos controversos resultados eleitorais que então lhe atribuíam uma derrota contestável. Voltando ao presente, Knappenberger refere que os desequilíbrios de poder que prevalecem seriam certamente interpretados como “surpreendentes para os fundadores”, designadamente no que toca às relações entre o Congresso e os apaniguados de Trump – no entanto, “o medo de perder tudo é realmente uma fonte da nossa força” (afirma o historiador conservador Yuval Levin) e, por isso, “atravessamos uma boa dose de momentos de crises verdadeiramente sérias”, ultrapassando-as através de um come together que também agora não irá permitir que o futuro fique em questão.
 
Junto uma síntese do conteúdo dos cinco episódios em causa:
· 1. Freedom: Early military actions of George Washington and colonial pushback against British taxes.
· 2. Tyranny, Like Hell, Is Not Easily Conquered: Drafting of the Declaration of Independence and early military struggles.
· 3. The United States Are Not United: Seeking foreign alliances during the Revolutionary War using Benjamin Franklin.
· 4. We the People: Post-war government formation and constitutional creation.
· 5. Washington's Warning: George Washington's presidency and the emergence of early political rivalries.
 
Termino sublinhando que o documentário é imperdível no que nos traz de memória, conhecimento e análise, mesmo se alguns críticos se lhe referem como tendo limitado restritivamente as dimensões autopunitivas à importante questão da escravatura e suas diversas facetas factuais e filosófico-concetuais. Uma quase verdade que não impede, porém, referências frontais à questão dos povos índios e, sobretudo, cuja perspetiva subjacente omite o objetivo primordial do projeto em causa e a virtuosa abrangência do seu cumprimento.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

OS CANADIANOS JÁ PREFEREM OS CHINESES!

 

O Prémio Nobel da Economia Paul Krugman, frequentemente aqui objeto de referência, continua a comentar, a escrever, a entrevistar numa atividade quase arrepiantemente frenética e de enorme utilidade pela sua veia ativamente intervencionista na política americana e nos grandes temas que marcam a atualidade mundial (incluindo incursões relevantes em sede de Inteligência Artificial) – que a energia não lhe esmoreça, a mão não lhe doa e Deus o conserve!
 
O mais recente dos seus escritos que me passou pelas mãos diz respeito a mais uma “trumpice” protecionista (dadas as circunstâncias das suas guerras e respetivos custos, talvez até se trate mais de tentativas de colmatar os buracos orçamentais que não cessam de se manifestar – veja-se o gráfico abaixo), concretamente, o anúncio por parte de Donald de ir aplicar um aumento alargado de tarifas ao vizinho Canadá alegando práticas desleais (invasion of wildfire smoke). Krugman reagiu do seguinte modo: “O Canadá devia ser, e costumava ser, o mais amigo americano no mundo. Partilhamos valores políticos e morais essenciais com o mosso vizinho nortenho. Na sua maior parte, até partilhamos uma língua comum, eh? E os canadianos viam-nos muito favoravelmente até que Trump começou com as suas tarifas e ameaças. Agora, somos vistos menos favoravelmente do que a China.” Afirmação que remete para o gráfico acima, por demais esclarecedor dessa viragem absolutamente contranatura ocorrida em tão escasso período de três anos.


 

As autoridades canadianas, designadamente Mark Carney e o governador provincial do Ontário Doug Ford, fazem bem, portanto, em mostrar cara feia às diatribes de Trump (que, além das taxas aduaneiras discriminadoras que vem aplicando – veja-se o gráfico abaixo, que exclui a tresloucada especificidade da China para não distorcer a análise – e também resiste muito abertamente a qualquer renovação de um acordo estrutural de comércio com os seus vizinhos a norte e a sul) e em argumentar em favor da autonomia do país e da correspondente necessidade de abordagens de tipo novo como a que promissoramente assenta nos chamados middle-powers.


 

(cartoon de Ann Kiernan, https://www.ft.com)

quarta-feira, 22 de julho de 2026

A DIVERSIDADE E MESTIÇAGEM COMO FORÇA COLETIVA

 


(A vitória da força coletiva da Espanha, acomodando todos os talentos individuais que se afirmam e despontam nesta seleção, demonstrou também o contraponto com a inferioridade de outras equipas em que os egos e talentos individuais se sobrepuseram ao coletivo, Portugal incluído. Mas o regresso a casa de La Roja, enchendo as avenidas e praças de Madrid, mostrou também como, neste caso, o futebol suplantou a polarização política que varre a sociedade espanhola. Mas não se trata de um futebol qualquer. A diversidade e a mestiçagem estruturam a sociedade espanhola e, como bem o sublinhou o jornalista Fernando Salgado da VOZ DE GALÍCIA, liderada por um homem exemplar cujas características de “Católico, amante dos touros e espanhol sem complexos” somaram à diversidade atrás referida, não a diminuindo, antes a reforçando. A seleção espanhola é, assim, um exemplo vivo de como a diversidade suplanta sempre a sensaborona monotonia da homogeneidade, neste caso colocando essa diversidade e mestiçagem ao serviço de uma força coletiva exemplar. As rastras de Nico Williams com a sua elástica cabeçada dirigida ao artístico pé esquerdo de Ferran Torres, o catalanismo de Cubarsi, a excentricidade de Cucurella, a contemplação muçulmana de Lamine Yamal, a bandeira galega de Borja Iglesias e a canária de Pedri tudo isso conviveu na insuperável força coletiva daquele conjunto. Que bela metáfora do valor da diversidade e da mestiçagem nos deu a seleção espanhola. E como o jornalista galego rematou como sentença final, durante todo este período nem um pio se ouviu do truculento Abascal. Pudera …)