sexta-feira, 24 de abril de 2026

JÁ NÃO HÁ PACHORRA PARA AS MINUDÊNCIAS PESSOAIS NA POLÍTICA

 

(Fotografia de Margarida Antunes no âmbito de uma exposição passada com o tema Minudências)

(Como se o mundo de hoje não nos oferecesse desafios bem mais decisivos para a renovação sustentada da democracia, a política interna portuguesa emerge nos últimos dias configurada pela teimosia a despropósito do governo de Montenegro em termos de lei laboral e, pior do que isso, pelo regresso mediático às questiúnculas suscitadas pelo regresso de Pedro Nuno Santos e pelas alfinetadas do mesmo ao seu colega de aventuras Duarte Cordeiro. O meu colega de blogue já se pronunciou e bem sobre a “não questão” que o regresso de Pedro Nuno Santos, não questão porque apesar do arrebatado ex-líder do PS se julgar com dimensão para ofuscar tudo o que mexa na política mediatizada, a verdade é que navega numa ilusão criada pela perceção errada de si próprio. Além disso, não é necessário andar a estudar para analista político para compreender que Duarte Cordeiro é bem mais consistente como figura política do que PNS e se, apesar do “tão amigos que nós éramos” estão agora desavindos, isso não é mais do que uma minudência para jornalista sem assunto, que não acrescenta nada ao que os portugueses esperam da política. A incapacidade que estes personagens revelam de conhecimento das condições atuais em que estão ou querem fazer política é de bradar aos céus. Políticos incapazes de compreender o contexto novo em que pretendem dedicar-se à profissão temos por aí à mão cheia, pelo que daí à sua mais completa irrelevância é um pequeno passo. E, neste caso, há dois elementos de contexto cuja exigência de compreensão não parecem estar ao alcance do arrebatamento político de PNS. Primeiro, a situação do próprio Partido Socialista é por si só um desafio enorme e esse desafio não desapareceu por uma ou duas sondagens positivas de liderança momentânea. O que acontece por agora é que com o desatino da AD e o Chega a estrebuchar para todo o lado, atirando a tudo que mexe, basta não cometer erros para influenciar as perceções da opinião pública. É isso que explica o ligeiro ressurgimento do PS nas sondagens. Segundo, a deriva antidemocrática, complexa e diversificada que grassa pelo mundo ocidental muda completamente as prioridades da ação política, de esquerda ou de direita democrática, estabelecendo um novo guião para quem pretenda entrar na mais completa irrelevância política.).

Pensando bem vale claramente mais a afirmação recente do velho Manuel Alegre segundo a qual as democracias não se abatem hoje com tanques, mas minam-se por dentro, do que todo o arrebatamento dos jovens turcos como PNS.

É também à luz dos desafios deste novo contexto para a ação política que tem de ser politicamente combatida a teimosia arrogante de Montenegro e da ministra do Trabalho em apresentar a revisão da Lei Laboral como se fosse a grande fonte de preocupação dos portugueses e o centro da mudança estrutural do país. O assunto está a ser discutido há já bastante tempo e ainda não consegui vislumbrar entre todos os bicho-caretas que se têm pronunciado sobre o assunto uma ideia que fosse que demonstrasse com clareza a relevância da revisão. A insistência de Seguro no diálogo a todo o custo soa a choco, por mais relevante que seja o apelo à concertação de posições.

Por muito que custe ao Governo e aos mais radicais defensores do novo pacote laboral a revisão da legislação é nessa matéria uma minudência face aos problemas mais profundos da sociedade portuguesa e ao mundo em que a ação política é hoje projetada.

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

PARA QUÊ, PEDRO NUNO?

(cartoons de Nuno Saraiva, https://expresso.pt/inimigo-publico e Luis Grañena, https://elpais.com) 

Tem sido uma animação entre os comentadores da praça! O regresso de Pedro Nuno Santos (PNS) ao Parlamento, acompanhado de uma insólita declaração política, tem sido uma verdadeira festa para os analistas políticos que enxameiam o nosso entorno. Como seria de esperar, quase todos orientados para a ideia de um novo ruído dentro do PS, agora que o seu desempenho nas sondagens começa a melhorar, e para uma eventual luta interna que já desenhavam entre Carneiro e Cordeiro mas que anteveem que possa ser perturbada por um PNS que ademais vem lançar a confusão ao mostrar-se crítico dos seus ex-amigos e seguidores (“os taticismos que se escondem atrás da porta”).

 

Vamos por partes. A meu ver, PNS volta a evidenciar que não tem noção de si próprio, por um lado, e que a soberba que não consegue deixar de exibir não agrada em definitivo à larga maioria dos portugueses, por outro. Do PNS, que em tempos tanto bramiu a “empatia” como marca essencial a procurar imprimir, esperar-se-ia mais recato e um regresso colaborante, agregador e focado em ajudar a sua área política “contra um Governo medíocre” – o que manifestamente parece um posicionamento que lhe requereria algo de superior às suas forças. Ao invés, o PNS que nos apareceu disse ao que vinha, ao confronto contra tudo e todos sem critério explicável nem sentido das conveniências ou do impacto político nefasto que necessariamente advém do antipático e radicalizado modo de estar que adota – a quarentena que fez não lhe moderou os instintos mais primários?

 

Assim sendo, julgo que PNS só terá um tentativo caminho de recuperação de uma real notoriedade e visibilidade política. Árduo e trabalhoso, o que seguramente não lhe garantirá os resultados rápidos (mesmo que precários) que sempre o motivam, tal caminho está mesmo muito longe de caber nos horizontes de uma situação política impregnada de “causas” de direita e extrema-direita e pela diabolização do “socialismo” que Costa tão bem soube trocar pela sua carreira europeia. Mas PNS ainda dará sinais de alguma coerência se se declarar pronto a ajudar a reativar uma esquerda em quase completa perda de reconhecimento, contando para isso com a previsibilidade de uma qualquer crise profunda que recrudesça no mundo e/ou na Europa e se repercuta por cá. Porque se se limitar a entreter-se com jogos florais de âmbito caseiro e televisivo, só será um protagonista marcante na destruição de qualquer hipótese de uma potencial alternativa progressista em Portugal, acabando assim dissolvido numa espécie de lixo da história da social-democracia.

 

Quanto a Carneiro e Cordeiro, remeto-os para outro dia em que me apeteça mais pronunciar-me objetivamente sobre a importância de se ter mundo, a incontornável atenção ao conhecimento disponível, a exigência de coragem e risco na política e os malefícios geminados da falta de bom senso ou de um excesso do dito.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

O QUE PODE A MUDANÇA NO FED USA REPRESENTAR PARA A ESTABILIDADE MUNDIAL?

 


(Trump parece estar cada vez mais em modo de desatino permanente, investindo contra tudo e contra todos que pode ser obstáculo às suas diatribes disruptivas, cada vez mais diversas e inesperadas. Permanecendo quase sempre online, disparando os comentários mais banais, seja na sua própria rede social, seja respondendo a qualquer microfone que lhe apareça pela frente, a sua opinião reinventa-se à velocidade dos cliques, tornando praticamente inviável a tentativa de identificar contradições nos seus múltiplos aparecimentos. A sua ofensiva de influência sobre o comportamento do banco central americano, o FED USA, esteve por estes dias algo esquecida, mas a audição no Senado de Kevin Warsh, a personagem preparada por Trump para suceder na Presidência do FED a Jerome Powell, depois do acosso descarado a este último, procurando descaradamente precipitar a sua substituição, veio reavivar a quão despudorada tentativa de quebrar a independência do regulador. A tentativa de Trump quebrar em proveito da sua muito peculiar intervenção macroeconómica a independência do FED não é nova. Já no seu primeiro mandato, no período 2017-2021, a então Presidente do FED, a Professora Janet Yellen esteve sob o fogo intenso de Trump, conseguindo nessa época o prestígio académico de Yellen ajudado a suster os sucessivos ataques, mostrando-nos como é relevante, embora escrutinável, a independência do banco central.).

A avaliação em escrutínio aberto da valia de um qualquer personagem para assumir a Presidência de um banco central e, neste caso, do mais importante banco central na economia mundial, pode ser concretizada através do prestígio académico, se o tiver, nas áreas de intervenção da política monetário e, no caso dos EUA, também da estabilidade da criação de emprego na economia ou, em alternativa, da opinião publicamente manifestada pelo candidato sobre períodos e matérias que foram relevantes na condução da política monetária. Este parece ser o caso de Kevin Warsh, já que ao contrário de presidentes anteriores como Ben Bernanke e Janet Yellen, o candidato de Trump não é propriamente um académico respeitado pela sua investigação. O que confirma que a praia de prospeção de Trump não é propriamente a academia, que abomina e destrata quase em permanência. Foi, por isso, que a sua audição no Senado foi tão escrutinada, se bem que economistas como Paul Krugman já tivessem manifestado a sua preocupação pela inconsistência de tomadas de posição e argumentos do candidato.

Segundo alguns analistas, Marcus Nunes é talvez o mais contundente nesta matéria, a audição de Marsh no Senado mostrou como eram corretas as dúvidas colocadas à sua nomeação, sobretudo em função de três debilidades sérias do candidato: registo sistemático de posições que podem ser consideras maus juízos de apreciação relevantes para a política monetária; excessiva flexibilidade ideológica para agradar ao “patrão” e dúvidas sobre a sua independência face a interesses instalados na economia americana. Marsh é conhecido por ter prolongado no tempo a sua opinião de com a crise do Lehman Brothers os riscos fundamentais eram inflacionistas, tendo argumentado na altura contra a descida das taxas de juro, precipitando a depressão.  Tal como Nunes o afirma, há situações em que ser falcão em matéria de política monetária é mais gravoso. O seguidismo de Marsh em relação às preferências macroeconómicas de Trump é mais eloquente e identificável, o que adensa as preocupações sobre o papel que irá desempenhar no FED. Será que a independência do banco central é outro princípio que será arrasado com esta administração? Quanto à sua falta de independência pessoal, a senadora progressista Elizabeth Warren tem-se encarregado de mostrar que Warsh será o Presidente do FED mais rico da história americana. O Senado interrogou Marsh sobre a sua não declaração de ativos em empresas associadas a Trump, empresas controladas por chineses e até ativos financeiros ligados a Epstein. Marsh limitou-se a responder que os abandonará antes de tomar posse.

Se associarmos em contraponto estes aspetos obscuros nos interesses de Marsh à tentativa judicial de colocar Jerome Powell em contexto de investigação criminal e ao despedimento infundado de Lisa Cook, compreendemos que a era do vale tudo estará proximamente instalada na política monetária americana.

Será difícil, estimo eu, imaginar maior disrupção de contexto.

Preparem-se.

 

ÍNDIOS E COWBOYS NAS RUAS DE LISBOA

 

Lula passou brevemente por cá e conversou sobre assuntos de interesse comum, o que era óbvio e obrigatório de parte a parte, com Montenegro e Seguro. Mas Ventura, a sua malta habitual e uns bolsonaristas que para cá vieram e têm pouco que fazer resolveram manifestar-se contra a presença do presidente brasileiro numa anedótica e inconcebível “garotada” que só ajudou a mostrar aos portugueses e aos brasileiros normais o total desajuste do “Chega” em relação a matérias de governação e de relações entre Estados soberanos. Exibindo algemas e cartazes insultuosos e provocatórios, os companheiros de partido de vários fora-da-lei revelados na nossa praça pública (entre ladrões de malas e pedófilos, passando por várias incidências de corrupção) entretiveram-se durante umas horas a posar sorridentes para as câmaras televisivas sem que Ventura fosse capaz de responder às incómodas perguntas dos jornalistas sobre o que faria em idêntica situação se acaso fosse primeiro-ministro. Enfim, uma “coboiada” oportunista e de puro mau gosto que terá correspondido, a meu ver, a algo que se irá encarar como um tiro-no-pé dos cada vez mais autoconfiantes “cheganos” que, à medida que o Governo e o PSD com eles pactuam como se de um partido responsável se tratasse, se vão convencendo de que estão a ganhar asas ao mesmo tempo que não vão dando mostras de algum dia virem a conseguir voar. Que Deus me ouça!


(excertos de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

terça-feira, 21 de abril de 2026

PORTOBELLO DE MARCO BELLOCCHIO

 


(O tempo disponível tem sido malevolamente curto para tirar partido do que vale a pena ver na oferta Netflix, HBO e Apple TV. Um sentido crítico mínimo e uma informação atualizada que se preze, aproveitando a notoriedade que a produção daqueles três colossos do streaming tem hoje na imprensa especializada, permitem sem dificuldade aceder a muita coisa boa que nos é oferecida com as assinaturas. Mas o tempo disponível é, por vezes, mau conselheiro e, por isso, nos últimos tempos, a minha vontade de comunicar o que vou vendo nesses espaços é praticamente nula, pela razão simples de estar a zero nessa matéria. Mas o nome de Marco Bellocchio, com os seus resistentes 80 anos, era motivo suficiente para contornar as limitações do tempo disponível. A HBO oferece-nos uma série de seis episódios, PORTOBELLO de sua graça, que retrata espantosamente bem a Itália do ressurgimento dos juízes. Mas neste caso não se trata de uma luta implacável contra as máfias italianas. Trata-se, antes, da história tremenda de um caso de imputação falseada de ligações de um popularíssimo homem de televisão da Rai, Enzo Tortora, à Camorra italiana e a uma das suas fações conhecida por Nova Camorra. Ao contrário do que estimava à partida (só visualizei por agora quatro episódios), a história não versa aquele tipo de situações em que a verdade e a mentira mergulham num espaço difuso, em que se torna difícil compreender se há culpa ou falsidade. Pela maneira como Bellocchio reconstitui o processo, intui-se que a imputação do popular jornalista resulta de uma trama nascida de confrontos internos à própria Camorra, com arrependidos ou “dissociados” como o sublinha uma das personagens mais enigmáticas e mais bem construídas da série, um tal Giovanni Pandico, contabilista e superletrado. A notoriedade política do jornalista e a necessidade do grupo de juízes mostrar serviço perante um país inteiro que desconfiava das instituições parecem ter-se combinado, com testemunhas pouco credíveis a construir a acusação e a levar Tortora a julgamento (creio que será o episódio 5 a consagrar esse ato).

Nos quatro episódios que já visualizei, há imagens oníricas do próprio Tortora seja na cela das várias prisões por que foi passando, seja na enfermaria, imagens que têm uma inspiração claramente felliniana, como é aquela em que supostamente da janela da enfermaria da prisão em Bérgamo Tortora vê uma troupe de comediantes a atuar em sua honra, como se Bellocchio quisesse homenagear o mestre excessivo e irredutivelmente onírico. Fabrizio Gifusi tem um desempenho insuperável na figura de Tortora e Alessandro Preziosi compõe uma figura notável do juiz instrutor Giorgio Fontana. Curiosamente, o mais famoso dos juízes da época, Di Pietro, tem na série um papel limitado, distinguindo-se apenas pelo uso sistemático dos óculos escuros.

Quando se penetra na trama urdida em torno da imputação do jornalista entertainer da RAI é impossível a nossa imaginação não se escapar para outros casos da justiça, designadamente nacional, em que subsistiu sempre a ideia da não credibilidade de alguns testemunhos acusatórios. Mas ao contrário desses casos judiciais que me dispenso de mencionar, na série de Bellocchio, pelo menos até ao quarto episódio, a ideia central é a da trama persecutória de uma personalidade de grande notoriedade, que lhe valeu inclusivamente, antes do julgamento, a eleição europeia pelo partido radical de Marco Pannella.

Vale a pena ver, esperando que a resiliência de Bellocchio continue a encantar-nos.