domingo, 20 de setembro de 2026

O SENTIDO DA VIDA

 


(Dias de regressada canícula e agitação de tarefas pessoais além do normal explicam o afastamento do blogue de alguns dias, com relevo particular para o 50º aniversário do meu filho mais velho, que ele quis festejar na aprazível parte comum do condomínio de Seixas, cuja fruição me faz frequentemente refletir sobre o sentido da vida. Atingir o limiar de poder ter um filho com 50 anos e alegria e bem-estar para os festejar não é coisa pouca, e este setembro proporcionou-nos um sábado de excelência e onde os amigos e família mais próximos do aniversariante tiveram as condições ideais para socializar. O impacto desse acontecimento do foro pessoal impediu-me de partilhar com os leitores e amigos a notável e enriquecedora experiência que tive sexta-feira passada no INESC TEC participando num painel sobre inovação e sobre os rumos possíveis e desejáveis que a nova Agência de Inovação, a AI2, deverá prosseguir, discutindo essas ideias com o coletivo pensante daquela interface que tenho seguido com atenção e afeto, designadamente o processo do seu rejuvenescimento de personagens diretivas. Este vosso Amigo teve a honra e a bela oportunidade de trocar reflexões com um conjunto de interventores, moderados pelo Professor João Claro, atual presidente da Direção do INESC TEC, composto por dois empresários e investigadores de grande gabarito, António Murta e Manuel Parente e pelo Amigo de longa data Paulo Fernandes, ex-Presidente da Câmara Municipal do Fundão, a quem foi atribuída a espinhosa tarefa de dirigir a estrutura de Missão criada para intervir na reconstrução das áreas da região Centro, designadamente Leiria, devastadas pela intempérie sobejamente conhecida dos portugueses. Uma indisposição momentânea tirou-nos a possibilidade de contar com a colega da FEP Professora Aurora Teixeira.)

As regras propostas pelo INESC TEC para o funcionamento do referido painel, designadas pelo modelo da Chatham House Rule, permitem-nos que falemos posteriormente do debate ali realizado, sem, contudo, referir as autorias das ideias que gostaríamos de salientar. Mas posso dizer-vos que a qualidade do debate foi excelente e, do ponto de vista dos meus interesses, foi sobretudo reforçada pelo facto de nunca ter privado seja em público, seja em privado com os empresários e investidores António Murta e Manuel Parente, o que para mim foi uma oportunidade rara de contactar tão de perto com gente que tem a inovação entranhada no seu quotidiano e nas suas decisões de criação de valor.

Não me compete aqui, pelas razões atrás referidas, comentar com pormenor ideias concretas desenvolvidas pelos diferentes intervenientes, relembrando que em post anterior apresentei sumariamente o meu ponto de vista reflexivo de abertura para o debate.

Interessa-me sobretudo realçar que nas áreas da ciência e da tecnologia em saúde e da robótica marinha, uma das dimensões mais tecnológicas da economia do Mar, para a qual a economia portuguesa continua a precisar de um desígnio nacional, começamos a ter hoje um tecido empresarial de nova expressão bastante mais disruptivo do que o panorama geral de inovação incremental que dominou a economia portuguesa, sobretudo nos setores de atividade em que sabemos fazer coisas e onde pode falar -se de um saber-fazer coletivo industrial. Foi também possível compreender lateralmente o setor de topo dos moldes atravessa hoje uma forte ameaça chinesa, descrita numa evidência que considero arrepiante: os industriais nacionais compram hoje uma unidade de aço para a construção dos moldes que sabem fazer e bem a um preço que é praticamente idêntico ao do molde que podem importar da China, aliás com qualidade crescente e reconhecida.

Duas evidências revolucionárias cruzaram algures o debate: em Cantanhede, no BIOKANT, existe uma empresa portuguesa que pode muito proximamente concretizar a primeira vacina mundial contra as bactérias resistentes (sim também fiquei de cara ao lado e em pulgas); no Porto, existe uma outra empresa, a SWORD HEALTH que pode transformar-se proximamente a empresa mundial mais importante em matéria de processamento de dados de saúde para todo o mundo, podendo derrotar a Palantir UK.

Já noutros momentos este debate foi travado. Até que ponto alguns exemplos verdadeiramente disruptivos no rejuvenescimento da nossa capacidade produtiva serão suficientes para quebrar o primado do incremental e abrir um caminho novo de inovação na economia portuguesa?

Independentemente da massa crítica de projetos disruptivos, a sua simples existência mostra que eles são possíveis e alguns deles com ambição mundial, como o são claramente os dois exemplos anteriormente mencionados. Os livros mandam que sejam bem estudados e que sejam identificadas as condições de replicação e escalamento. Caso se conclua pela sua excecionalidade, não são menos importantes por isso. Nessas condições, quanto mais tempo permanecerem em mãos portuguesas melhor será. Mas algum dia atrairão o interesse dos grandes investidores internacionais, como consequência de terem sido projetados com essa ambição mundial. Nesse caso, o fundamental será encontrar sucessores e novos exemplos disruptivos.

 

sábado, 19 de setembro de 2026

O MERCADO DA HABITAÇÃO NA EUROPA E PORTUGAL NO CONTEXTO

 
(Elaboração própria a partir de https://ec.europa.eu/eurostat)

(Elaboração própria a partir de https://ec.europa.eu/eurostat)

Hoje trago aqui mais uma atualização da consabida situação dramática que se vive em Portugal no setor da habitação. Os gráficos que precedem mostram, para os 27 países da União Europeia e para a década mais recente, a evolução trimestral dos preços das casas, por um lado, e a evolução anual do rácio preço das casas/rendimento, por outro. Resulta bem clara a enorme pressão a que se encontram sujeitos os cidadãos nacionais em termos comparativos face aos seus congéneres europeus (segunda tendência mais gravosa do índice de preços e pior relação preço/rendimento). Nada de especialmente novo, dir-se-á, mas sempre valerá a pena ir relembrando o estado a que chegamos e quanto dele não vislumbramos sinais de saída airosa.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

VENHA DE LÁ O PORTO!

As imagens acima correspondem a fotos que tirei em tempo real ao ecrã do meu televisor na noite em que o Benfica venceu em Milão por 2-0. Elas dizem tudo sobre o clubismo entusiástico que grassa naquele canal (CMTV/NOW), embora também noutros (como a TVI/CNN e a SIC/SIC-N). Obviamente que, no dia seguinte,  todos acompanharam ao minuto o autocarro que transportou os jogadores do aeroporto para o Seixal. A euforia está assim instalada nos chamados “cartilheiros” do país desportivo quanto ao que será a fantástica prestação da sua equipa no Dragão no próximo Domingo, conduzindo-a naturalmente ao topo do campeonato doravante – apenas mostram inquietação em relação ao “onze”, já que Trubin e Samuel não podem jogar os dois, o mesmo acontecendo com as figuras que marcaram o jogo em Itália e não poderão conviver com um Palhinha que funciona como uma vedeta de qualidade inalcançável (há mesmo quem confunda o seu papel em campo com uma espécie de Eusébio), além de Aursnes, Prestianni, Schjelderup e Pavlovic. Tudo está a postos para uma exibição inesquecível e um resultado mais do que positivamente predestinado – veremos o que vai suceder com a modesta resistência com que os pupilos de Farioli (que tem dormido mal...) enfrentarão os “gloriosos encarnados”, mas as ameaças são muitas, a confiança está em alta e certamente nem um guardião como Diogo Costa conseguirá deter o desempenho estonteante dos “craques” orientados pelo novo “rei da Europa”.


Resta-me uma esperança, a de que os “azuis-e-brancos” logrem colocar no terreno toda a vontade e capacidade técnica e competitiva que têm vindo a evidenciar nestes tempos de Francesco Farioli – e, já agora, recordar a coincidência daquele jogo que ocorreu há exatamente 30 anos na Luz (18/09/1996), onde os da casa acabaram derrotados por cinco bolas a zero e fizeram com que o saudoso juiz-conselheiro José Manuel Matos Fernandes tivesse entrado na sala do Conselho de Ministros do dia seguinte com a mão aberta e um sorriso nos lábios. Porque, em futebol, não se trata de como começa nem do tanto que se deseja (mais reza menos reza, mais ou menos Miguel Nogueira incrivelmente repetido), mas predomina a tirania do jogo jogado e daquilo que o enforma...

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

SUECOS NÃO ALIMENTAM A CORRENTE POPULISTA!

 

Está finalmente encerrado o escrutínio eleitoral na Suécia. Os resultados que mais contam, traduzidos no número de lugares parlamentares conquistados, parecem mostrar uma tendência de mudança de maioria em favor da Esquerda – apesar da pequena quebra dos Social Democratas (perda de 7 lugares), tal é mais do que compensado pela subida dos dois partidos à sua esquerda (ganho de 13 lugares) e do voto adicional de um partido liberal (Centro) que não quisera alinhar-se com a coligação de Direita – e por uma perda relevante (8 lugares) da expressão dos radicais populistas (Democratas Suecos).

 

A divisão da sociedade sueca, quiçá mais geográfica do que sociológico-política, também resulta claríssima: o bloco de Direita (incluindo a extrema-direita, que até ao presente apenas fora apoiante do governo de coligação formado entre os restantes partidos da área) passa a somar 173 lugares no Parlamento contra os 176 do bloco de Esquerda (que antes dispunha de 169) – um diferencial de votos em redor de escassos 26 mil. Mas a verdade é que neste estão considerados os assentos do partido Centro (liberal) que se afirmara em oposição ao atual governo mas se vem distanciando de acordos com as formações mais à esquerda. Assim, e se atentarmos nos 25 lugares de que este partido dispõe, podemos estar seguros de que será hercúlea a tarefa de formar um governo minimamente estável por parte de Magdalena Andersson; a experiência e a capacidade (e dureza) negocial desta constitui um elemento de confiança no sentido do seu sucesso, mas não é de excluir que Ulf Kristersson (atual primeiro-ministro e líder dos Moderados, agora reforçado pela sua liderança à direita) possa vir a conseguir trazer o kingmaker Centro para o seu lado. Uma incógnita de que só as próximas semanas revelarão o real desfecho.


(cartoons de Bracka, https://x.com/HBer76 e Emanu, https://www.etc.se)
 

Termino sublinhando que o melhor do que ocorreu na Suécia esteve na redução das expectativas do poder de Jimmie Åkesson (Democratas Suecos), ao que parece muito por via da dinâmica das grandes cidades (o bloco dito de Esquerda obteve 60,3% dos votos em Estocolmo, 57,6% em Gotemburgo, 61,4% em Malmo e 59,1% em Uppsala) e da recusa da agenda populista que dá sinais de emergir entre os jovens. Um sinal muito positivo que importa assinalar em tempos de trevas como aqueles que atravessamos.




QUE ESTADO DA UNIÃO?

 


(Estou certo de que o discurso de Ursula von der Leyen no Parlamento Europeu sobre o Estado da União irá suscitar reações muito desencontradas. Depois de ler o documento de cerca de 20 páginas, ontem publicado pela Comissão Europeia, fico com a sensação de que a Presidente da Comissão quis mostrar que as coisas estão a mexer, embora sem que possamos embandeirar em arco e concluir que, desta vez, a União irá além das palavras e das promessas. Um bom indicador dessa avaliação foi o comentário do “ratão” António Vitorino na SIC Notícias de ontem à noite. De acordo com o conhecido protagonismo da personalidade, o fundamental vão ser as movimentações nos corredores que o anúncio feito por von der Leyen irá gerar e essas sim deverão ser avaliadas com todo o rigor. Penso que de qualquer modo o discurso e o programa de ação que o organizou estão longe de poder ser entendidos como mais um sinal do imobilismo da União. O futuro dirá se o universo das ideias avançado na proclamação da Presidente irá ou transformar-se em atos relevantes, podendo ainda dizer-se que talvez se esperasse um pronunciamento mais explícito sobre o pedido realizado pela Ucrânia de muitos milhares milhões de euros para superar o défice orçamental que o esforço de guerra está a implicar para o já tão martirizado país. Em resumo, de imobilismo é seguro que não se trata, mas daí a antecipar que a União entrou definitivamente em transformação decisiva talvez seja prematura chegar a essa conclusão.)

Num tom geral que é apanágio da Presidente da Comissão, que consiste em não deixar de fora nenhuma das agendas de preocupação da União, independentemente da concreticidade que essa abrangência temática representa, há temas no discurso cuja controvérsia futura possível é mais saliente.

Talvez o mais saliente seja a ideia alvitrada por von der Leyen de que a ameaça à segurança que paira sobre a União irá exigir no contexto incerto da NATO a criação de uma espécie de NATO dentro da NATO, abrangendo os principais países da União e países como o Reino Unido, a Noruega e o Canadá. A ideia não +e totalmente dissociável de outra das ideias do discurso, cuja materialização jurídica à luz dos tratados constitutivos da União é mais complexa e que consiste no anúncio da proposta do Canadá poder ser um “país associado” da União. As palavras proferidas pela Presidente da Comissão foram as seguintes: “Acredito que é tempo da Europa ter o seu próprio artigo 4 – ou um Protocola de Segurança de Emergência. Quando impulsionado por um Estado-membro, todos os Estados-Membros a ele responderão. Para coordenar uma resposta europeia. Impedir o escalamento futuro da situação. E mitigar o impacto. E acredito que devemos ir mais além. Durante longo tempo, discutimos em formato de reunião de líderes a segurança do nosso continente. Com parceiros como o Canadá, a Noruega, a Ucrânia, o Reino Unido e outros países envolvidos. Isto é hoje ainda mais urgente, dada a natureza e a extensão dos riscos em jogo. É essa a razão pela qual concretizaremos as nossas ideias para transformar em realidade o Conselho de Segurança da Europa. A urgência é clara.”

Independentemente das vicissitudes que a concretização desta ideia irá suscitar, de imobilismo é que não podemos acusar o discurso do Estado da União. A operacionalização dos laços efetivos de cooperação com países não membros como o Reino Unido, o Canadá, a Noruega e a Ucrânia dará seguramente origem a um caminho crítico, sobretudo no quadro das limitações da política externa europeia. Mas estas ideias anunciam um rumo e devo confessá-lo não imagino outro possível e viável.

O discurso é longo e por isso deixarei em aberto, para análise futura, alguns dos seus temas. As questões suscitadas em torno do estado da arte da inteligência artificial refletem, em grande medida, a fragilidade em que a União está nesta matéria, sem grandes possibilidades de intervir na corrida EUA-China e no desencontro inequívoco de posições que se desenha em torno das ideias de abrandamento ou de aprofundamento da IA.

Mas existem outros temas no discurso que merecerão atenção minuciosa futura, destacando nesse campo os temas da água como elemento de defesa e segurança e a resposta aos acontecimentos da severidade climática, designadamente a devastação em torno do aquecimento global, com incêndios e degelo à mistura.

Só o tempo dirá se, com distância temporal suficiente de 2026, concluiremos ter sido um marco transformador que este discurso anunciou. O problema é que a pressão do contexto se traduz numa enorme aceleração do tempo e não temos tempo para ganhar distância e aguardar. Vamos mesmo ter de ser observadores participantes e isso aplica-se também a um país como o nosso.