
(Sabemos
que a economia mundial está em profunda reestruturação, com a curiosidade não
antecipada dessa mudança não ter penalizado em 2025 a dinâmica do comércio
internacional, apesar dos constrangimentos impostos por diferentes guerras.
Como alertei em post anterior, a estrutura das trocas alterou-se, mas essa
alteração não retirou dinâmica à progressão do comércio internacional, o que
aponta para uma forte resiliência do comércio mundial, pelo menos em 2025, não
sendo ainda antecipável se 2026 confirmará essa resiliência. Sabemos ainda que
a inovação tecnológica atravessa praticamente de modo transversal todos os
setores económicos, sobretudo porque estamos em período das chamadas “general
purpose technologies”, tecnologias de largo espectro, face às quais a imunidade
setorial é praticamente impossível. Mas, apesar dessa mudança de largo
espectro, existem indústrias nas quais é mais fácil e até interessante
acompanhar a evolução. Esse é o caso da indústria automóvel, porque além da sua
abertura às tecnologias de largo espectro de aplicação, a indústria automóvel
está também no coração do aparecimento de novos paradigmas energéticos, em resposta
à tão badalada transição climática. Quando
se analisa a resposta mundial à transição energética e se compreende que, de
repente, a China está na frente de todo esse processo, liderando com clareza a
transição elétrica, apetece colocar a hipótese de, face a alguns resultados de
atraso nítido nessa transição, haver países que não estão ainda convencidos da
efetividade da transição elétrica e que continuam suspensos de uma mais
decisiva alteração de fontes de energia, seja a sempre controversa hipótese do
hidrogénio, seja uma alternativa energética ainda mais radical e cujos contornos
não são ainda plenamente conhecidos. Pretendo no post de hoje ir além da costumeira
evidência de que a Europa está a perder o pé nessa matéria, que acontece apesar
da força com que o pacto ecológico europeu foi lançado, para mostrar que a
liderança da China se faz também à custa da perda de outros países asiáticos.
Quando se fala de indústria automóvel ocorre imediatamente a referência do
Japão e é essencialmente sobre esse país que centro a reflexão de hoje.)
Há alguns anos, não muitos, diria cerca de cinco e poucos,
se a memória não me atraiçoa, num almoço-convívio com alguns colegas de curso,
calhou-me ficar ao lado de uns amigos, Dra. Angelina Caetano e Engº José Ramos,
filha e genro de Salvador Caetano, da minha geração e que, na altura, lideravam
ainda o Grupo Salvador Caetano. Recordo-me que na altura a conversa entre nós
focou-se na transição energética e nos seus efeitos sobre a indústria
automóvel, neste caso aproveitando o seu olhar e experiência em torno da
Toyota. Recordo-me que, na altura, o seu entusiasmo pelo projeto de autocarro
protótipo a hidrogénio que o grupo estava a construir era visível e apercebi-me
então que no seu entender as viaturas elétricas seriam provavelmente apenas uma
passagem para outro paradigma. Desde essa conversa, não tive evidência
suficiente que me indiciasse que a transição elétrica seria apenas um ponto de
passagem para outros paradigmas mais definitivos.
O gráfico que trouxe para o post de hoje e que me foi
sugerido pelo sempre perspicaz Adam Tooze no seu Chartbook mostra sem tibieza a
forte dependência dos motores de combustão que os grandes produtores japoneses
de automóveis ainda revelavam nos fins de 2025. Curiosamente, a Toyota é nesse
gráfico o grupo que menos dependência mantém dessa tecnologia. É também visível
no mesmo gráfico a dimensão inexpressiva de vendas de carros elétricos
japoneses, sendo a categoria dos modelos híbridos a que evidencia praticamente
em todos os grupos empresariais uma expressão mais significativa.
Quando olhei para esse gráfico não pude deixar de me
recordar dessa conversa com os amigos Angelina Caetano e José Ramos. É verdade
que se os construtores japoneses vendem viaturas híbridas é porque existem
consumidores que ainda não estão em condições de aceitar ou estão hesitantes ou
céticos sobre o paradigma elétrico. Mas quando tomamos devida conta de que
alguns destes construtores japoneses estão em profunda reestruturação, com
encerramento de várias unidades industriais e perdas de quota de mercado
mundial, caso mais expressivo da Nissan, compreendemos que é sobretudo a
concorrência chinesa que está a baralhar também o mercado asiático e não apenas
o europeu. Não será seguramente por acaso que o grupo comercial de distribuição
automóvel Caetano já distribui marcas elétricas chinesas.
Estes números mostram que a ideia de que os mercados aguardariam
uma nova alternativa energética e que o elétrico seria apenas uma transição em
matéria automóvel está a desvanecer-se.
As diatribes de Trump em torno da sua dependência da
riqueza fóssil e do escarnecimento da transição climática pareceram inicialmente
introduzir alguma indeterminação na transição elétrica. Mas quando essas mesmas
diatribes perturbaram o universo do petróleo, inflamando o Golfo e trazendo de
novo o espectro de uma nova crise energética, elas estão a contribuir para que
a transição elétrica seja cada mais entendida como uma alternativa real, na
qual a liderança chinesa é praticamente irreversível.
E, se em termos discutíveis, quisermos atribuir aos mercados
algum sentido, a bolsa americana parece estar já a comportar-se num cenário
para lá da guerra com o Irão.