quinta-feira, 2 de julho de 2026

A SUPREMACIA DA MENTIRA

 
(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com) 

A abrir Julho e um Verão que se augura escaldante, recorro à criatividade de uma das nossas inspirações mais duradouras e consistentes (El Roto) para pôr em evidência a crescente exuberância da mentira enquanto continuidade mais irremediável destes intricados tempos que vivemos.
 
Redes sociais e fake news a comandarem os quotidianos do homem comum e a ditarem as escolhas dos poderosos aos quais se impõe uma prestação de contas que sabem fingir quase admiravelmente, análise de dados complexos e inteligência artificial em alastramento exponencial a baralharem as rotinas ativas e passivas do ensino e a estabilidade e conteúdo das profissões e da vida empresarial, confrontos geopolíticos em formato absolutamente descontrolado por lideranças narcísicas, tresloucadas e promotoras de belicismos bárbaros a anunciarem o risco de uma qualquer espécie de regresso às cavernas após uma prosperidade arduamente conquistada e que se prometia garantida.
 
Reconhecendo ser este um momento de alerta que se tornou demasiado repetitivo porque seguramente pouco capacitado no sentido de produzir consequências reais ajustadas a uma perspetiva de salvaguarda do bem comum, importa também ver nele um reparo que acaba por se constituir no ensejo possível para valorizar o exclusivo reduto de lucidez ao alcance dos cidadãos vigilantes e angustiados perante a alienante e sinistra perversão de maiorias letradas e iletradas que permanecem alheias à tempestade (e ao caos) que não veem nem antecipam em irrupção no horizonte.

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com) 


(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com) 

SOBRE A INDEPENDÊNCIA DOS BANCOS CENTRAIS EM CONTEXTO DE INCERTEZA

 

(A vinda de Kevin Warsh, o novo presidente do Banco Central americano, o FED USA, teria necessariamente de apimentar a reunião anual promovida pelo BCE em Sintra, que passa por ser uma das principais reuniões de macroeconomistas em Portugal. As condições em que a sua passagem a presidente do FED ocorreu, sucedendo a um Jay Powell que se revelou bastante mais resistente às pressões de Trump do que era antecipável, têm antecipado dúvidas vindas de diferentes quadrantes sobre a real capacidade de Warsh levar a cabo a independência do seu mandato, em função dos objetivos consagrados para o FED, a estabilidade dos preços e a questão do desemprego, o que suscita a sua relação com o crescimento económico. A cobertura noticiosa e jornalística do evento em Sintra é, regra geral, muito limitada, pelo que só para alguns privilegiados é possível o acesso ao fervilhar de conhecimento que aquela reunião terá suscitado. Fico-me com uma notícia do Expresso (ver aqui) e a restante imprensa focou-se sobretudo num interessante artigo apresentado no evento, no qual o incremento da imigração aparece relacionado com aumentos de produtividade para os países mais abertos a esse fenómeno, tema a que regressarei num dos próximos posts, acaso tenha tempo para mergulhar no artigo e compreender o sentido causal que poderá suportar aquela conclusão econométrica. Pela notícia do Expresso, fica-se a perceber que Warsh jurou de novo a sua independência face à administração americana, declaração que afinal não poderia ser diferente, já que se assumisse a não independência dificilmente poderia aguentar-se no lugar. O carácter apimentado do encontro teve ainda o especial condimento de , praticamente em simultâneo, o Supremo Tribunal americano, com composição favorável a Trump, ter decidido que o Presidente americano não tem poderes para afastar a governadora do FED Lisa Cook, barrando, assim, a sua saída.)

Por mais perentório que Warsh tenha sido na afirmação da sua independência, pode ser entendido como conversa mole e de circunstância, sendo antes essencial compreender nas entrelinhas do que tem sido comunicado para o exterior que tipo de Presidência do FED poderemos antecipar para este mandato.

Socorro-me por isso de algumas análises que têm surgido na imprensa e blogosfera económica americana sobre o teor de algumas considerações que o novo governador, que são fundamentalmente mais preocupantes do que a sua reiterada independência. Recorda-se que, tentando perceber a aproximação a Trump a Warsh que conduziu à sua indicação para o cargo, pode concluir-se que terão agradado a Trump algumas afirmações recentes de Warsh, as quais permitem associá-lo a um maior laxismo e diferimento de subidas de taxas de juro de referência em resposta às ameaças inflacionistas que pairam sobre a economia americana. Trump já se insurgiu quanto a essa possibilidade, na medida em que ela naturalmente a uma narrativa de que a administração Trump está a penalizar a economia americana, e as intercalares para o Senado e Congresso estão aí à porta.

Todos compreendem que a clareza e transparência da comunicação do Banco Central são algo de fundamental para a política monetária. Existe mesmo um termo técnico, forward guidance, que descreve uma espécie de regras de conduta a seguir escrupulosamente pelo Banco Central, dirigidas ao futuro circunstancial e incerto que se consideram essenciais para que a incerteza já existente nos mercados e na situação mundial não seja majorada.

Analisando palavras e escritos recentes de Warsh, Brad DeLong explicita o que, segundo ele, são as ideias orientadoras expressas pelo novo governador:

§  “1. O FED assumirá a estabilidade dos preços – isto é, não se prepcupem com outras coisas como o pleno emprego e o favorecimento do aumento da produtividade através da realocação em direção aos setores de maior valor acrescentado, antes da primeira estar assegurada;

§  2. Ele só se preocupa com o lado esquerdo dos pontos decimais quando a inflação chegar – isto é, mais do que tentar manter a inflação dos preços das despesas de consume pessoais ao nívelA afirmação ma dos 2% ano ao longo do tempo, ele ficará satisfeito enquanto os números da inflação se mantiverem no nível de 2,x % ao ano – o que equivale a um aumento de 0,5 pontos percentuais na meta da inflação do FED;

§  3. Ele não pensa que a curva de Philips seja real – isto é, que os aumentos da taxa de juro não e por isso a estabilidade de preços não estãosão uma via credível de arrefecimento da economia e que a diminuir a inflação quando ela está acima da meta e qu, por isso, a estabilidade dos preços não está a ser assegurada.”

A afirmação mais surpreendente de Warsh é a de que não vai dizer rigorosamente nada sobre a estratégia de forward guidance (orientação futura).

Nas condições atuais de incerteza em que a atuação dos Bancos Centrais se insere, abandonar a orientação futura mais do que uma atitude de precaução e adaptação constitui, em si mesmo, um fator de incerteza e de ampliação da mesma.

O que conduzirá Warsh a este estranho posicionamento? Muito provavelmente, porque não quer explicitar a sua posição quanto à valoração dos riscos de inflação que a economia americana enfrenta. Ou, por outras, palavras uma outra forma de agradar ao seu AMO e SENHOR, embora garantindo a sua independência.

Será, assim, que vamos ter uma presidência do FED do tipo “gato escondido com rabo e fora”?

Se assim for, a economia americana entrará porta adentro nos manuais da política monetária mais atípica, embora o seu Presidente jure fidelidade aos seus princípios de sustentação.

 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

A CONFIRMAÇÃO DO POLICENTRISMO URBANO GALEGO

 


(Quando comecei a interessar-me cultural e profissionalmente pelos assuntos galegos tive a sorte de o fazer sempre numa perspetiva complementar de foco nas questões regionais, a tal Euroregião de que falavam essencialmente os amigos galegos, e urbanas, o seu sistema urbano. Isso deveu-se ao facto dos trabalhos profissionais com a CCDR Norte e a Xunta da Galiza incidirem preferencialmente sobre o nível regional e os diferentes estudos para o Eixo Atlântico, associação de Cidades/municípios, terem o foco no sistema urbano. Nesta última dimensão, a amizade e a proximidade que tive o privilégio de consolidar com dois grandes urbanistas galegos, o economista Anxel Viña e o arquiteto Juan Luís Dalda da Universidade da Corunha, este já infelizmente desaparecido, permitiu-me acompanhar de perto o estimulante debate então emergente na Galiza sobre a abordagem mais ajustada para pensar os diferentes modelos de desenvolvimento urbano que emergiam na Galiza. O debate tinha um alcance fortemente político, pois nessa altura, anos 90, o Partido Socialista galego dava mostras de uma frescura de análise que o PP galego não apresentava, pois a sua implantação na base urbana galega não estava ainda consolidada. Na altura, o pensamento do PP galego era essencialmente marcado pelo projeto de Andrés Precedo Ledo, professor catedrático de Geografia Humana da Universidade de Santiago de Compostela, Diretor Geral da Xunta da Galiza, que liderava um projeto, que viria a abortar, de constituição de comarcas, associações de pequenos ayuntamientos, forte dependência da Xunta e do serviço dirigido por Precedo Ledo. Esta abordagem contrapunha-se à ideia de sistema urbano e os meus Amigos galegos viam nesse tradicionalismo de abordagem um alvo a abater, pois era incapaz de dar conta das diferentes nuances que o sistema urbano galego então apresentava, com relevo para a singularidade do modelo urbano das Rias Baixas, que Viña e Dalda tão profundamente estudaram e planearam.)

Precisei deste longo introito para comentar, como o mundo é pequeno e comprimido no tempo, um artigo interessante que o atrás referido Andrés Precedo Ledo, hoje liberto da grilheta das comarcas e sem funções, creio eu, na Xunta da Galiza, publica hoje na VOZ DE GALICIA, precisamente sobre o sistema urbano galego.

Quem conhece os antecedentes deste tema, diria que Precedo Ledo teve uma espécie de revelação e que, liberto da infeliz ideia da comarcalização da Galiza, recorre finalmente às lentes adequadas para ler e compreender a transformação urbana acelerada que a Galiza presentemente vive e que os meus Amigos Viña e Dalda anteciparam com inteligência e finura de análise.

A tese que o referido artigo expõe consiste, finalmente direi eu, em reconhecer que a Galiza das duas cidades, baseada no contraponto entre o modelo urbano-industrial de Vigo e o urbano-financeiro da Corunha está a transformar-se aceleradamente num sistema urbano marcadamente policêntrico, estruturado por uma rede de cidades “mais especializada, melhor conectada e orientada para a economia do conhecimento”. Uma rede que abandona a tal bipolaridade para atribuir funções especializadas a cidades como Santiago de Compostela (investigação, biotecnologia e ciências da computação), Ferrol, Lugo, Ourense e Pontevedra, as quais buscam a sua diferenciação em áreas como “a energia eólica a energia marinha, a digitalização dos estaleiros navais, a indústria de drones, a bioeconomia, a saúde termal, a cibersegurança ou a indústria aeroespacial”.

Por outras palavras, Precedo Ledo reconhece finalmente a relevância da lógica de sistema urbano em profunda transformação.

Este reconhecimento, em meu entender, só faz jus à inovação analítica que os meus Amigos urbanistas galegos revelaram há mais de 30 anos e premeia também a intuição política que o Eixo Atlântico evidenciou desde muito cedo ao inscrever a lógica de sistema urbano na cooperação inter-regional e transfronteiriça e ao considerar o sistema urbano como o grande elemento de estruturação da Euro-região.

Quem diria!

 

terça-feira, 30 de junho de 2026

BABELL, CIDADE-LIVRO

 



Foi indescritivelmente brutal o acontecimento que ocupou o centro do Porto durante seis dias. Um evento literário e cultural, organizado pela Fundação Livraria Lello e designado por “Babell”, trouxe ao Porto umas dezenas de escritores de reputação mundial e pô-los a conversar sobre a sua obra e o seu entendimento da vida com os leitores de todas as idades que responderam admiravelmente à chamada – foi realmente mágico ver mais de um milhar de pessoas sucessivamente sentadas na Praça dos Leões, a imensa fila para o Coliseu na noite em que Salman Rushdie lá iria estar ou a junção dos “três mosqueteiros” (Pedro Abrunhosa, Rui Veloso e Rui Reininho) que, em complemento musical, atuaram nos Aliados; entre tantas e tantas outras componentes de um programa exemplarmente construído pelo comissário Rui Couceiro. Parabéns, muito merecidos, devem também ser endereçados a Pedro Pinto e sua mulher Aurora, incansáveis criativos de uma utopia cuja concretização foi muito para além das melhores expectativas.



Pessoalmente, foi para mim especial poder assistir à sessão de Julian Barnes (entrevistado por Richard Zimler), até na sequência da recente publicação do seu “Partida” que anunciou ser o seu adeus à escrita (“Sinto que já disse tudo o que tinha a dizer”). O sentido de humor britânico de Barnes esteve bem presente naquele palco em que nos disse também ser portador de “um tipo de cancro de sangue raro que é curável e gerível, como a vida”. Uma nota final para sublinhar ainda que também tivemos autores portugueses da maior nomeada (Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe) e sessões culturais de vária ordem, como foram os ciclos “O Porto em 90 minutos”...