(Não é a primeira vez nos tempos mais recentes que o ceticismo sobre a capacidade de a moeda americana manter o seu estatuto incontornável de referencial das trocas internacionais se formou, seja a ocidente, seja noutras paragens da economia mundial. Mas desses surtos de ceticismo registados no passado sobre o dólar a verdade é que foram todos superados. Sabemos também que a história monetária internacional nos mostra que no passado existiram outras moedas que assumiram esse papel, com momentos de auge e outros de declínio, até darem lugar a outra moeda. Nessa perspetiva, a história diz-nos que provavelmente o dólar deixará um dia de continuar a assumir esse papel dominante. Mas não sabemos quando e como isso acontecerá, pelo que a evidência histórica não faz desaparecer a incerteza sobre esse problema. Sabemos ainda que o ceticismo de hoje está essencialmente ligado ao elevadíssimo nível da dívida pública dos EUA e ao ritmo a que o mesmo está a crescer. Ainda há dias, dediquei um post a esta matéria, invocando mais um fator de agravamento desse ceticismo – o elevado preço a que a administração americana se está a financiar a longo prazo. Este blogue é elaborado sob um compromisso rigoroso de não vender gato por lebre aos seus leitores. Em questões económicas, esse princípio concretiza-se num outro que consiste em trazer para a reflexão argumentos de gente de peso, concordemos ou não com as suas posições. Os autores deste blogue argumentam em torno de posições de gente com reconhecimento firmado entre pares e na informação económica especializada e não com base em argumentos de arrivistas ou de oportunistas que aproveitam todos os momentos possíveis para uns minutos de glória e notoriedade. Obviamente que esse compromisso não nos defende em absoluto de erros possíveis. A conflitualidade em economia existe e não vale a pena escamotear essa possibilidade. E até os mais reconhecidos entre pares. A economia não é uma ciência da previsão. É mais uma ciência que procura explicar evidência registada, esperando que dessa explicação possa resultar aprendizagem e melhores condições de previsão. Respeitando esse princípio, trazemos hoje à reflexão sobre o tema de uma eventual desdolarização da economia mundial o pensamento de um economista da Universidade de Berkeley, Barry Eichengreen, já por repetidas vezes invocado neste bloque.)
Eichengreen considera que é muito provável estarmos perante uma mudança estrutural (palavra bastante desacreditada pela direita económica mais ideológica) no ceticismo suscitado quando à capacidade de o dólar poder manter o seu estatuto de referente da economia mundial. Apresenta para isso dois argumentos, cada o qual mais relevante, que passaremos a sistematizar do modo mais breve e menos enfadonho possível.
Uma das razões principais pelas quais o dólar tem mantido a confiança dos investidores internacionais que assim financiam os défices da economia americana (externos e fiscais) assenta no respeito pelos princípios do primado da lei, da separação de poderes, da independência do banco central e do controlo da corrupção. Se percorrermos cada um destes princípios através do modo como estão presentemente a ser aplicados nos EUA, compreende-se facilmente a desconfiança alimentada por bancos centrais estrangeiros que detêm reservas de dólares e de investidores que pretendem investir em títulos dolarizados.
Em segundo lugar, há um outro princípio que a história monetária internacional nos ensina e que consiste na evidência de que a confiança numa moeda internacional como referente das trocas mundiais está normalmente associada a alianças e a cooperação estável com a nação emissora dessa moeda. Ora, também aqui, a administração Trump tem feito tudo o que está ao seu alcance para quebrar este princípio, destruindo alianças estáveis e longas.
Obviamente que Eichengreen não nos diz que o não cumprimento destas duas condições associadas seja suficiente para, por si só, conduzir imediatamente à desdolarização da economia mundial. Entre outras coisas, em meu entender, porque não está hoje claramente formada a hipótese de uma moeda alternativa. Se a capacidade do dólar for enfraquecida pelos dislates da própria administração Trump e dada a cada mais provável multipolarização da economia mundial então a génese de uma forte concorrência entre o euro e a moeda chinesa adiará por tempo indeterminado a cessação do poderio do dólar.
Mas que os dois argumentos baseados na história monetária apresentados por Eichengreen são robustos disso não tenho dúvida. Quer isto dizer que o ceticismo atual sobre o dólar referente está melhor explicado. Mas talvez apenas isso.














