segunda-feira, 5 de outubro de 2026

LEMBRA DISSO? E DISTO?

 
(Raúl Arias, https://elpais.com) 

O Brasil foi a votos. Para decidir, como bem escreveu o “El País”, entre um estadista desgastado e o filho de um ultra – uma escolha amaldiçoada à partida, pese embora a qualidade e a experiência política de Lula. Estou cada vez mais convencido de que o problema político brasileiro não reside na ideia de a chamada “Esquerda” (o que quer que isso seja lá para aqueles lados) não lograr renovar caras capazes de propostas audíveis pelos cidadãos mas antes nos erros acumulados e nunca verdadeiramente assumidos que foram cometidos pelo PT desde a vitória de Lula em 2002, por um lado, e pelo sinal dos tempos políticos – do individualismo ao horror ao social, do primado do bolso próprio à desvalorização do papel do Estado e da inerente tributação, do seguidismo fake e populista à recusa da reflexão e do pensamento  – que nos envolve loucamente e de modo quase invariável pelo mundo fora, por outro.

 

Como quer que seja, o resultado correspondeu ao pior cenário de entre aqueles que as sondagens adiantavam: uma vitória de Flávio Bolsonaro (47% versus 45% do seu principal adversário) que o coloca em boas condições de vitória na segunda que disputará, dentro de três semanas, contra Lula. A fragmentação do país tem contornos de continuidade mas com claro agravamento das piores tendências de divisionismo sul-norte, rico-pobre ou educado-não educado: Lula só venceu no Nordeste e em três estados do Norte (ou seja, em 7 de 27 estados), conhecendo todavia quebras de algum significado e justificativas de um pessimismo em movimento; Flávio ganhou largo no Sul e no Centro-Oeste e, pior, também se destacou na região mais rica e populosa do país (incluindo os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais).



As evoluções temporais, designadamente no que toca a comparações com a eleição de 2022, também são elucidativas de uma deriva direitista de brutal extensão (que, como refiro atrás, também já vai atingindo os bastiões tradicionais do PT). E, por fim, as outras eleições ocorridas (Senado Federal, Câmara dos Deputados, Governadores Estaduais) ainda vieram agravar a situação, com as forças de Direita (e o PL dos Bolsonaro, em particular) a ganhar peso em todas aquelas instâncias, nalguns casos um peso que prenuncia riscos sérios de involução democrática.

 

Saberemos o desenlace a 25 de outubro. Lula está em manifestos maus lençóis e qualquer análise objetiva no-lo diz (com a acrescida ajuda da estatística que estipula que, até agora, nunca um vencedor da primeira volta perdeu a segunda), mas foi com agrado que o ouvi na sua declaração de balanço falando em prorrogação, na sua inclinação para o “um para um”, na denúncia que fará da corrupção de largo e perigoso espetro de toda uma família e seus acólitos e do legado da sua passagem pelo poder no tempo da pandemia, na sua confiança em Alckmin e outros companheiros de percurso e na sua convicção sobre o seu lugar histórico na luta contra a pobreza no Brasil. E como houve mais de 33 milhões de abstencionistas, além de quase 6 milhões de votos brancos e nulos, talvez que alguma esperança possa subsistir...



DO BRASIL A FRANÇA, OS MESMOS DILEMAS

 


(A incapacidade da esquerda brasileira para gerar um novo protagonista que não o velho e desgastado Lula da Silva e a onda de direita populista que varre as Américas colocaram Flávio Bolsonaro à frente para uma segunda volta decisiva, de mau augúrio para o progressismo no Brasil. Os tempos correm de feição à direita mais extrema e o centro-esquerda não atina com a postura adequada para combater esse fenómeno e tem sido um deserto de novos rostos pensantes e com algum carisma popular, com alguns tiros no pé pelo meio. Em França, num título extremamente sugestivo, o Nouvel Observateur fala da “La primaire de la dernière chance”, algo que poderíamos traduzir pelas primárias da última oportunidade. Porque em França, o panorama é resumidamente este. A direita de Le Pen e do Rassemblement Nacional caminham para uma vitória presidencial e é a esquerda mais radical e também populista de Jean-Luc Mélenchon que se perfila para uma possível segunda volta. No centro-esquerda, mais propriamente no Partido Socialista e forças próximas, joga-se a cena das primárias entre o atual secretário-geral Olivier Faure e o deputado europeu Raphaël Glucksmann, apostado na refundação da esquerda democrática, com o objetivo ambicioso de gerar uma dinâmica eleitoral capaz de retirar Mélenchon de uma segunda volta. As expectativas são claramente baixas e este centro-esquerda, sem considerar o possível elã das primárias, parte com cerca de 10 a 12% do eleitorado, o que dá a ideia da montanha que o centro-esquerda tem à sua frente.)

O drama francês é que as hipóteses de vitória de Mélenchon numa segunda volta são ínfimas e o próprio líder da França Insubmissa não esconde que se prepara para querer ser o porta-voz de uma oposição futura, com o libelo de luta contra o fascismo no poder, reduzindo o PS a escombros. Esta antecipação é um pouco grosseira e ignora uma questão fundamental. Le Pen não é uma líder estática, assim como Meloni não o foi em Itália. É expectável, por isso, que uma possível vitória nas Presidenciais leve a líder do RN a mudanças de postura e de posicionamentos que coloquem Mélenchon em desvio de rota, a posicionar-se perante um alvo que vai mudar muito provavelmente de dimensões a combater.

Pelo que se vai conhecendo do dealbar das primárias, o confronto Faure-Glucksmann precisaria de um qualquer Viagra político para entusiasmar as hostes e projetar-se para uma segunda volta de desespero. O que não está a acontecer. O que existe é uma certa nostalgia do passado das maiorias presidenciais de Mitterrand e Hollande, que assentaram de facto em grandes “rassemblements” do centro-esquerda e que os levaram ao poder. A refundação da esquerda democrática que Glucksmann acena para justificar a sua entrada em cena e gerar esperança no eleitorado não é mais do que uma ideia. No seio de um Estado Social que é dos mais avançados na Europa, a França debate-se com problemas de falsa abundância e sérias desigualdades, campo de invenção para essa refundação da esquerda democrática que tarda em concretizar-se face à onda instalada de direita nacionalista e populista.

O que há para construir no Brasil e em França não é seguramente o mesmo e o centro-esquerda tem que compreender isso mesmo. Como diria Fernando Henrique Cardoso é na avaliação concreta dessas situações concretas que as refundações deverão construir-se. Caso contrário, preparem-se para a hibernação, que o tempo do afastamento pode ser longo.

Entretanto, acossado por uma coligação sem futuro com as forças regionalistas e nacionalistas, Sánchez deitou a toalha ao chão e convocou eleições gerais para 29 de novembro. O último dos moicanos teve de ir a votos.

 

sábado, 3 de outubro de 2026

UM PAÍS A SER COMPRADO PARA DEGRADAR OS SEUS VALORES COLETIVOS

 


(O povo diz “nunca digas desta água não beberei” e tem toda a razão. Deveria ter pensado nesse exemplo de sabedoria popular e não me comprometer a ficar à margem da novela Ronaldo. Mas não resisto, não propriamente a fazer parte do coro de comentário sobre a mesma, mas antes à maneira como nos últimos dias assisti à sabuja e grotesca campanha de alguns media e jornalistas e parte das redes sociais a glorificar a imagem de Ronaldo, a valorizar a sua quebra inclassificável de relação com o coletivo da seleção, a fazê-lo ascender ao estatuto de símbolo nacional inatacável e associando esse estatuto de Embaixador à necessidade de o deixar continuar a jogar a seleção e a mandar naquilo tudo. É uma campanha sabuja e grotesca claramente determinada pelo dinheiro que a marca Ronaldo hoje representa, que tudo compra, mesmo que seja um lugar na seleção quando há alguns anos ele se arrasta mediaticamente em frente à baliza e bloqueia a ascensão natural dos que podem fazer naturalmente melhor. Dei comigo a pensar em todos os treinadores deste país, de diferentes modalidades e dos agentes desportivos que asseguram muitas vezes com carolice e esforço pessoal, que se esforçam por ensinar aos seus jovens atletas o valor do coletivo nas equipas e a necessidade de colocar o talento individual ao serviço desses valores. O que é que eles poderão a partir de agora dizer aos seus jovens atletas, quando os influencers deste país se entregam subjugados ao valor da marca Ronaldo, ao seu poderio financeiro e quando o tal símbolo nacional se borrifa para o coletivo, se embriaga com o seu poderoso ego e mostra a esse mundo a negação do valor do coletivo. Tive a estranha sensação de estar perante um País que se deixa comprar para aceitar a degradação dos seus valores coletivos. Porque se Ronaldo pretendia afirmar os valores da tenacidade e da capacidade ímpar de trabalho, chapéu a esses valores, o que deveria ter feito era continuar a treinar com denodo e abnegação e assim demonstrar que não é apenas um símbolo comercial, mas um símbolo de valores que deveriam estar mais disseminados na sociedade portuguesa. Não o que ele fez é a negação disso tudo, é a demonstração de que o ego deve sobrepor-se à força do coletivo e não o contrário”.

E o que ressalta disto tudo é que, se pensarmos retroativamente, percebemos que Fernando Santos, Martinez e o próprio Fernando Gomes estavam enredados na mesma armadilha, subjugados ao mesmo poder comercial. E foi preciso que surgisse alguém, de pelo na benta, indomável, famoso pelas suas contradições, o futebol feito intuição e sem grande capacidade para racionalizar e formalizar o que sabe, para dar um murro na mesa e colocar a Federação de Proença alarmada com uma massa de likes a menos, potencialmente traduzidos em quebra de cifrões.

Não discuto se Cristiano é ou não um Embaixador do país. Que o seja, ofereçam-lhe esse perfil e uma função para o disseminar pelo mundo, sujeito ao conflito de interesses de não poder aparecer a protagonizar os interesses da Arábia Saudita em receções na Casa Branca ou em qualquer outro sítio, considerado vespeiro nas condições trágicas dos nossos dias. Mas um Embaixador e um símbolo não tem necessariamente de continuar a jogar, inventem jogos particulares com o Azeitonense ou qualquer das ligas inferiores para o homem chegar aos mil golos desejados, mas não submetam o coletivo ao ego individual e sobretudo garantam que outros mais jovens possam também florescer e ascender a símbolos nacionais. E sobretudo não permitam que a formação desportiva de tantos jovens neste país seja prejudicada e adulterada pela vaidade incomensurável de alguém que confundiu algo de essencial, os seus interesses e os da seleção em que estava integrado.

 

POR MANCHESTER

 

O ambiente que se vive nas ruas e espaços públicos ingleses tem, por estes dias, duas dominantes que seguidamente explicito.



Uma tem a ver com o grau de crença e convicção com que os cidadãos britânicos encaram a chegada de Andy Burnham ao poder no seu país (de forma bem mais estrategicamente preparada do que terá parecido daqui de longe), ele que, enquanto político com discurso consolidado e obra feita na Greater Manchester, veio (no landmark speech que proferiu na Conferência Anual do Labour que se desenrola neste fim de semana em Liverpool) criticar os inúmeros erros acumulados de um passado neoliberal de 40 anos (designadamente: privatizações, desregulação, desindustrialização, austeridade e Brexit), prometer importantes mudanças de fundo (especialmente em sedes caras a uma Esquerda descaraterizada desde Blair, como sejam as reformas no sistema eleitoral ou outra abordagem da questão das pensões da segurança social) e renovar apelos  à esperança, à devolution e até a uma eventual hipótese de reversão do Brexit (cada vez mais mal visto em termos sociais e económicos) através de um referendo e de uma renegociação viabilizadores de um regresso (Rejoin) do Reino Unido à União Europeia – e a verdade é que, de modo meramente simbólico ou eventualmente não, o Number 10 North (unidade governamental representativamente desconcentrada e onde Burnham já passa a maioria das suas Sextas-Feiras, o que também lhe permite manter a boa tradição de acompanhar in loco o seu Everton) já está em funcionamento e acelerada instalação no centro da cidade de Manchester (Heron House).



A segunda é suscitada pelo escândalo que emergiu em torno de uma batota reiterada por parte do Manchester City (certamente o clube mais vencedor do país na década mais recente e, obviamente também, um dos grandes investidores internacionais – mais de 500 milhões de euros em contratações para esta época!), cujos efeitos são ainda inimagináveis mas podem ir até pontos brutais (e indesejáveis?) de rotura na Premier League e no futebol europeu em geral. Um aspeto positivo de todo este imbróglio decorre do que o mesmo arrasta em termos de questionamento do quase exclusivo poder do money above all (ademais de proveniências nem sempre muito credíveis, entre petrodólares, corrupção, lavagem de dinheiro e autoritarismos políticos indecorosos) que se apoderou do desporto-rei e que já começou a abalar inapelavelmente os seus alicerces fundadores; embora seja duvidoso que daqui venha a surgir algum 25 de abril capaz de repor o regresso de uma sanidade de comportamentos e de essências éticas de posicionamento...

 

Concluo: não sei se foi impressão minha, quiçá proveniente do estado de alma positivo que esta deslocação em mim provocou em virtude dos impactos da mudança de ares, de um aproveitamento culturalmente útil dos tempos livres e de contactos académicos interessantes e estimulantes (de Philip McCann a Raquel Ortega-Argilés ou ao nosso Nuno Pinto, um nome já consolidado no domínio do Planeamento Urbano). Andei ainda, e digo-o apenas para aguçar a inveja e a memória do meu parceiro de blogue, pelo Edifício que homenageia um dos grandes da Universidade local que foi Prémio Nobel pelos seus trabalhos na área da Economia do Desenvolvimento e sobre quem ambos ensinamos alguns tópicos ao alunos que fomos tendo na FEP.