sábado, 13 de agosto de 2022

DIFERENÇAS COMPROMETEDORAS

                                                                                 


(O Twitter é um mundo inesgotável de matéria para a reflexão, expurgado que seja do imenso lixo tóxico que por lá campeia. Mas do ponto de vista da investigação académica e do debate que precede a publicação de artigos e livros, ele traz-nos um campo de ideias que fervilha a todo o momento e que tem a particularidade de estar para além de toda a rigidez institucional que caracteriza estes universos. Recupero para hoje um longo testemunho de uma investigadora de seu nome Lucía Cores-Sarría que dá que pensar e que me vai levar a uma conclusão em matéria que nos interessa a nós Portugueses e de que maneira ...)

Começo pelo testemunho (link aqui):

O meu companheiro e eu própria doutorámo-nos numa universidade dos EUA. Fiz depois um pós-doc na Dinamarca e ele um outro em Espanha. Eis uma sequência com elementos da eficiência e da ineficiência da burocracia na Europa.

Na Dinamarca, tive de apresentar os meus diplomas de mestrado e doutoramento. Foram aceites em inglês. Aceitaram o certificado digital da Universidade de Indiana. Foi tudo o que tive de fazer. Online. Custou-me zero euros e foi concluído imediatamente.

Em Espanha, ele teve de apresentar os seus diplomas de licenciatura e doutoramento, primeiro apostilados (certificados como autênticos) e depois traduzidos para espanhol por um tradutor oficial. A obrigação de apostilar o documento exigiu a ida a Chicago para obter um documento oficial e teve de pagar ao tradutor oficial. Mas atenção os diplomas não foram suficientes. Teve de obter uma “equivalência” concedida pelo governo espanhol com um pagamento de 160 euros por cada, ou seja 480 euros. Mas não é tudo. A tradução, o apostilamento, a transcrição e as taxas não foram bastantes. Foi-lhe exigida uma memória descritiva de 20 páginas da sua tese de 200 páginas em espanhol. Ele não fala espanhol, mas quem se preocupa com isso. E já agora o tempo de processamento é de 6 meses.

Resumindo: na Dinamarca, o processo é imediato e não tem qualquer custo. Em Espanha, custa 1000 euros e demora 6 meses. E o stresse. Já não falando no pesadelo burocrático dos processos para obter a residência em Espanha. Se forem um investigador proveniente de uma universidade americana e se estiverem perante a oportunidade trabalharem num pós-doc na Dinamarca ou em Espanha, qual seria a sua opção?”

Dirão os mais crédulos ou renitentes que há universidades americanas e universidades americanas. Sim, o sistema americano é fortemente hierarquizado, sem dó nem piedade para as instituições mais fracas. Mas esse não é o ponto. O ponto fundamental é que a situação processual identificada em Espanha, em Portugal não seria substancialmente diferente, evidencia, para além da rigidez e da inércia da burocracia, que resistiu em Espanha à “transición” e em Portugal à revolução democrática, o total alheamento do país face a uma realidade incontornável – a necessidade de atrair, acolher e integrar migrantes, dos quais a fixação de talento internacional é apenas uma manifestação.

As dimensões de facilitação como a que é descrita pela investigadora Lucía Cores-Sarría influenciam tanto as decisões de “should I stay or should I go?” como as mais estruturais e económicas como o gap salarial. A mensagem que paira é contraditória – o país e as pessoas são amigáveis e acolhedores mas o sistema de acolhimento coloca-se deliberadamente nos antípodas dessa revelação.

Portugal ainda não entendeu que tem de se organizar melhor do que os seus concorrentes para atrair pessoas e talentos, pois não sendo possível colmatar o gap salarial há que o contornar através de outras variáveis. Os empecilhos burocráticos descritos no tweet colocam estrangulamentos onde a ideia de via verde devia ser o cartão de visita.

Claro que a Universidade com a caterva de poderzinhos não escrutinados que lá se acolhem estará sempre na primeira linha dos estrangulamentos. Temos uma ridícula e pretensa noção de superioridade no nosso ensino superior, por muita qualidade internacionalmente reconhecida que ele possua. Mas atenção que os critérios de aferição internacional dessa qualidade estão a mudar radicalmente. E há novas tendências crescente valoradas como a flexibilidade e a organização para o acolhimento.

ANTUNES COM BOAS COSTAS

(Luis Grañena, https://elpais.com)

 

Por muita lata de que António Costa esteja municiado, até dela dispor ao ponto de estar em condições de a dar e vender, começo a ter sérias dificuldades em realizar até que limites conseguirá ele suportar as gafes e os sucessivos vícios comportamentais que emanam dos governantes que designa. Porque o facto é que me custa realmente a crer que um homem inteligente e perspicaz, além de um político experiente e de alguns princípios (a despeito de “mata-borrão”), consiga conviver com tal sucessão de trapalhices, inabilidades e incompetências sem manifestações de uma vergonha que decorram da sua responsabilidade objetiva e última pelo que quase quotidianamente por aí vai sucedendo de lamentável (antes as substituindo até por trocadilhos e jogos de palavras de efeito nulo e duvidosa graça).


Vem isto a propósito da última dessas incompetências, sim porque a incompetência política não deixa de ser incompetência também. Os factos: a ministra da Agricultura, Maria do Céu (que entrou Albuquerque e depois evoluiu para Antunes), quando instada pelos jornalistas a responder às críticas do secretário-geral da CAP (que considerou “inexistente” a resposta do Governo para mitigar o impacto da seca no setor da produção e alimentação animal), respondeu com a seguinte, sugestiva e esplendorosa reflexão: “É melhor perguntar porque é que durante a campanha eleitoral a própria CAP aconselhou os eleitores a não votar no Partido Socialista”.



A CAP reagiu como lhe cabia: “Apelamos ao escrutínio do verdadeiro sentido destas declarações. Não cederemos um milímetro a este ‘bullying’ político e continuaremos a ser a voz de defesa dos agricultores sempre e em todas as ocasiões.” E em seguida: “São declarações que nos parecem ser pouco saudáveis no Estado de direito democrático e que têm que ser explicadas.” Para concluir: “A ministra não paga aos agricultores e adia decisões por retaliação política à CAP?” E as oposições também mostraram publicamente a sua discordância e inaceitabilidade ― debalde, como o maioritário absolutismo necessariamente determina...

 

Mas a reação da entidade visada, procurando uma reposição do essencial em termos de normalidade democrática, não deveria nunca obstar, muito antes pelo contrário, a que um primeiro-ministro com autoridade e sentido de responsabilidade tivesse vindo a terreiro para com firmeza levar as coisas para o seu devido lugar ― ao não o fazer, Costa expôs-se a pronúncias incómodas como a do diretor do “Público” (“sobram razões para se temer que a arrogância, a prepotência e a inimputabilidade entrem nas rotinas da ação do Governo”) e assim vai descendo mais uns furos na consideração de que talvez ainda goze junto de muitos portugueses de bem.


sexta-feira, 12 de agosto de 2022

SINAIS INILUDÍVEIS DE UMA NOVA ERA

É já um lugar-comum o sublinhado de que a economia mundial atravessa um período de inflexão e mudança que a transporta para uma espécie de novo regime de crescimento ou, se preferirem, para uma era cujos parâmetros definidores se revelam largamente distintos dos que marcaram as décadas precedentes. Neste quadro, a(s) economia(s) europeia(s) surge(m) especialmente tocada(s) por tal conjugação (sobretudo negativa) de dimensões diferenciadas, designadamente porque nela(s) se concentra(m) vulnerabilidades de expressão ímpar a uma escala globalmente comparativa entre regiões desenvolvidas.

 

Limitando hoje o nosso foco à questão monetária e cambial ― a qual não deixa, porém e como é consabido, de ter implicações nada negligenciáveis sobre a esfera real da economia ―, veja-se no gráfico acima uma representação elucidativa do recente e assinalável regresso do adormecido fenómeno inflacionista, aspeto absolutamente decisivo para caraterizar o que será a configuração macroeconómica que irá prevalecer no próximo futuro (um futuro que, aliás, já aí está bem diante de nós). Abaixo, e complementarmente, registe-se a consequente perda de valor do euro para níveis nunca vistos em mais de duas décadas (o que não deixa de ter explicações alternativas, como as associadas à guerra na Ucrânia e à inerente valorização do dólar, e interpretações ambivalentes, ou seja, diversas consoante os países considerados e os domínios de análise selecionados, como sejam p.e. o da competitividade-preço versus o da competitividade estrutural), facto que acabou por conduzir a que os responsáveis do Banco Central Europeu cedessem finalmente, após uma obstinada resistência, no sentido de uma alteração da orientação da sua política monetária ao elevarem em julho passado, pela primeira vez em 11 anos, a fasquia tutelar que decorre da sua taxa de juro diretora.

 

Preços em alta, moeda em perda, juros em alta... Matéria(s) de bem maior complexidade do que tão simples evidências e que aqui abordaremos mais em detalhe, e com outro grau de sofisticação de tratamento, quando a silly season se for e as nossas cabeças puderem dar-se ao luxo de irem um pouco mais além.


quinta-feira, 11 de agosto de 2022

A FEIRA

                                                                             


(Agosto avança a passo rápido, nevoeiros por companhia, a exigir manta na cama e camisola ou casaco nas manhãs como a de hoje, em que escrevo no deck fronteiro a Caminha, com os primeiros raios de sol a irromperem pelas nuvens e a banharem aquela encosta evidência do mau urbanismo (dizia alguém próximo que o fim do mundo era quando houvesse casas nos montes e faltasse água nas fontes), com a música da Argerich como companhia no TIDAL do computador. Por isso, dando tempo a que o sol vença a sua timidez, há tempo para pensar nos exercícios de imaginação de ocupação que o nevoeiro estimula. A feira ou as feiras semanais pertencem a esse campo de descoberta de outros tempos de ocupação. Ontem foi dia de feira em Caminha, sábado será em Vila Nova de Cerveira e assim passa o tempo.)

Penso há anos no fenómeno que as feiras representam. Tanto poderei falar no singular universal, como nas feiras particulares e concretas, como a de ontem em Caminha ou mais regularmente na de Vila Nova de Cerveira.

As férias são um fenómeno inclusivo e integrador. Assim, podemos ver tanto as senhoras, espanholas ou nacionais, mais sofisticadas a disputar o produto de ocasião, seja um vestido de linho ou algodão, seja a toalha mais atraente, como a personagem mais popular a explorar qual garimpeiro mais ousado as montanhas de tecidos, tea-shirts e outros produtos a preços de exceção. Tudo numa santa convivência em torno do consumo de ocasião.

As feiras são o oposto da xenofobia emergente. Imensas famílias ciganas ocupam os espaços de venda com outros vendedores sem um conflito que seja, com os seus produtos próprios, marcas e imitações para todos os gostos, num festival de pregões e chamamentos ao consumo que dão à feira um toque inconfundível.

As feiras são um pequeno microcosmos do “nosso” empreendedorismo. Muitos dos vendedores que animam o espaço da feira já são mais pequenos empresários do que simples feirantes. A forma hábil e diferenciada com que lidam com os diferentes consumidores (portugueses e espanhóis), como fixam os preços, como escolhem os “trends” de moda e produtos, como gerem stocks e encontram os pontos de abastecimento constituem processos onde se formam competências empresariais e de venda. E onde assistimos à formação de economias familiares, revelando aqui e ali rejuvenescimento de lideranças. As feiras são, à nossa escala, uma espécie de equivalente do armazém chinês que povoa os nossos centros urbanos.

As feiras reproduzem a memória histórica do comércio e da troca. Estou convencido que grande parte da dinâmica de participação e frequência que as feiras ainda hoje revelam representa a transposição para os tempos de hoje de uma memória de comércio e de troca, que ficou geneticamente associado à nossa existência. Claro que hoje vemos cada vez menos a deliciosa migração semanal de gente da aldeia ou da montanha que vem à feira vender os seus produtos e abastecer-se, uma reminiscência da troca direta de tempos ancestrais.

As feiras transformam as vilas e centros urbanos nos dias em que se realizam. Sim, nesses dias é um grande problema encontrar estacionamento e lugar nas esplanadas. Por isso, é fundamental a qualidade da infraestruturação do espaço em que se realizam (Vila Nova de Cerveira bem melhor do que Caminha), bem como o ordenamento dos espaços circundantes. E é também essencial o modo como, feira terminada, as brigadas de limpeza municipais atuam (grandes melhorias nesta dimensão já foram concretizadas).

As feiras são ainda um espaço de melhoria e inovação na qualidade. Sim, sobretudo no domínio dos produtos alimentares (queijos, enchidos, principalmente) há muito para fazer e recordo-me sobretudo das pequenas feiras de queijos em alguns “arrondissements” de Paris ou de centros urbanos perdidos na periferia francesa, como o modelo a seguir.

O nevoeiro já praticamente se dissipou sobre a encosta de Caminha, mas Santa Tecla permanece totalmente encoberto, nem sequer dá para simular a fotografia do costume.

Receio que a praia tenha de ficar para mais tarde. Recordo-me do saudoso Arquiteto Duarte Castel-Branco que, a braços com problema semelhante em São Martinho do Porto, o local de eleição das suas férias, afirmava que nevoeiro e imaginação casavam bem. Sempre percebi bem porquê.