sábado, 3 de outubro de 2026

UM PAÍS A SER COMPRADO PARA DEGRADAR OS SEUS VALORES COLETIVOS

 


(O povo diz “nunca digas desta água não beberei” e tem toda a razão. Deveria ter pensado nesse exemplo de sabedoria popular e não me comprometer a ficar à margem da novela Ronaldo. Mas não resisto, não propriamente a fazer parte do coro de comentário sobre a mesma, mas antes à maneira como nos últimos dias assisti à sabuja e grotesca campanha de alguns media e jornalistas e parte das redes sociais a glorificar a imagem de Ronaldo, a valorizar a sua quebra inclassificável de relação com o coletivo da seleção, a fazê-lo ascender ao estatuto de símbolo nacional inatacável e associando esse estatuto de Embaixador à necessidade de o deixar continuar a jogar a seleção e a mandar naquilo tudo. É uma campanha sabuja e grotesca claramente determinada pelo dinheiro que a marca Ronaldo hoje representa, que tudo compra, mesmo que seja um lugar na seleção quando há alguns anos ele se arrasta mediaticamente em frente à baliza e bloqueia a ascensão natural dos que podem fazer naturalmente melhor. Dei comigo a pensar em todos os treinadores deste país, de diferentes modalidades e dos agentes desportivos que asseguram muitas vezes com carolice e esforço pessoal, que se esforçam por ensinar aos seus jovens atletas o valor do coletivo nas equipas e a necessidade de colocar o talento individual ao serviço desses valores. O que é que eles poderão a partir de agora dizer aos seus jovens atletas, quando os influencers deste país se entregam subjugados ao valor da marca Ronaldo, ao seu poderio financeiro e quando o tal símbolo nacional se borrifa para o coletivo, se embriaga com o seu poderoso ego e mostra a esse mundo a negação do valor do coletivo. Tive a estranha sensação de estar perante um País que se deixa comprar para aceitar a degradação dos seus valores coletivos. Porque se Ronaldo pretendia afirmar os valores da tenacidade e da capacidade ímpar de trabalho, chapéu a esses valores, o que deveria ter feito era continuar a treinar com denodo e abnegação e assim demonstrar que não é apenas um símbolo comercial, mas um símbolo de valores que deveriam estar mais disseminados na sociedade portuguesa. Não o que ele fez é a negação disso tudo, é a demonstração de que o ego deve sobrepor-se à força do coletivo e não o contrário”.

E o que ressalta disto tudo é que, se pensarmos retroativamente, percebemos que Fernando Santos, Martinez e o próprio Fernando Gomes estavam enredados na mesma armadilha, subjugados ao mesmo poder comercial. E foi preciso que surgisse alguém, de pelo na benta, indomável, famoso pelas suas contradições, o futebol feito intuição e sem grande capacidade para racionalizar e formalizar o que sabe, para dar um murro na mesa e colocar a Federação de Proença alarmada com uma massa de likes a menos, potencialmente traduzidos em quebra de cifrões.

Não discuto se Cristiano é ou não um Embaixador do país. Que o seja, ofereçam-lhe esse perfil e uma função para o disseminar pelo mundo, sujeito ao conflito de interesses de não poder aparecer a protagonizar os interesses da Arábia Saudita em receções na Casa Branca ou em qualquer outro sítio, considerado vespeiro nas condições trágicas dos nossos dias. Mas um Embaixador e um símbolo não tem necessariamente de continuar a jogar, inventem jogos particulares com o Azeitonense ou qualquer das ligas inferiores para o homem chegar aos mil golos desejados, mas não submetam o coletivo ao ego individual e sobretudo garantam que outros mais jovens possam também florescer e ascender a símbolos nacionais. E sobretudo não permitam que a formação desportiva de tantos jovens neste país seja prejudicada e adulterada pela vaidade incomensurável de alguém que confundiu algo de essencial, os seus interesses e os da seleção em que estava integrado.

 

POR MANCHESTER

 

O ambiente que se vive nas ruas e espaços públicos ingleses tem, por estes dias, duas dominantes que seguidamente explicito.



Uma tem a ver com o grau de crença e convicção com que os cidadãos britânicos encaram a chegada de Andy Burnham ao poder no seu país (de forma bem mais estrategicamente preparada do que terá parecido daqui de longe), ele que, enquanto político com discurso consolidado e obra feita na Greater Manchester, veio (no landmark speech que proferiu na Conferência Anual do Labour que se desenrola neste fim de semana em Liverpool) criticar os inúmeros erros acumulados do passado (designadamente: privatizações, desregulação, desindustrialização, austeridade e Brexit), prometer mportantes mudanças de fundo (especialmente em sedes caras a uma Esquerda descaraterizada desde Blair, como sejam as reformas no sistema eleitoral ou outra abordagem da questão das pensões da segurança social) e renovar apelos  à esperança, à devolution e até a uma eventual hipótese de reversão do Brexit (cada vez mais mal visto em termos sociais e económicos) através de um referendo e de uma renegociação viabilizadores de um regresso (Rejoin) do Reino Unido à União Europeia – e a verdade é que, de modo meramente simbólico ou eventualmente não, o Number 10 North (unidade governamental representativamente desconcentrada e onde Burnham já passa a maioria das suas Sextas-Feiras, o que também lhe permite manter a boa tradição de acompanhar in loco o seu Everton) já está em funcionamento e acelerada instalação no centro da cidade de Manchester (Heron House).



A segunda é suscitada pelo escândalo que emergiu em torno de uma batota reiterada por parte do Manchester City (certamente o clube mais vencedor do país na década mais recente e, obviamente também, um dos grandes investidores internacionais – mais de 500 milhões de euros em contratações para esta época!), cujos efeitos são ainda inimagináveis mas podem ir até pontos brutais (e indesejáveis?) de rotura na Premier League e no futebol europeu em geral. Um aspeto positivo de todo este imbróglio decorre do que o mesmo arrasta em termos de questionamento do quase exclusivo poder do money above all (ademais de proveniências nem sempre muito credíveis, entre petrodólares, corrupção, lavagem de dinheiro e autoritarismos políticos indecorosos) que se apoderou do desporto-rei e que já começou a abalar inapelavelmente os seus alicerces fundadores; embora seja duvidoso que daqui venha a surgir algum 25 de abril capaz de repor o regresso de uma sanidade de comportamentos e de essências éticas de posicionamento...

 

Concluo: não sei se foi impressão minha, quiçá proveniente do estado de alma positivo que esta deslocação em mim provocou em virtude dos impactos da mudança de ares, de um aproveitamento culturalmente útil dos tempos livres e de contactos académicos interessantes e estimulantes (de Philip McCann a Raquel Ortega-Argilés ou ao nosso Nuno Pinto, um nome já consolidado no domínio do Planeamento Urbano). Andei ainda, e digo-o apenas para aguçar a inveja e a memória do meu parceiro de blogue, pelo Edifício que homenageia um dos grandes da Universidade local que foi Prémio Nobel pelos seus trabalhos na área da Economia do Desenvolvimento e sobre quem ambos ensinamos alguns tópicos ao alunos que fomos tendo na FEP.


sexta-feira, 2 de outubro de 2026

GUERRAS SANTAS COM EXTREMISMOS À VISTA

 

Isto é que vai por aí uma crise extensa e nunca vista neste nosso desorientado País! E o tema é digno da dita desorientação... Com efeito, chegado a selecionador o homem que Kelvin ajoelhou no Dragão, e que entretanto fora fazer o seu tirocínio no Flamengo e na Arábia Saudita (aprendendo ao mesmo tempo o hino nacional TODO!), eis que um CR7 confiante na continuidade (de Martínez e Fernando Santos) se deparou, afinal, com alguém à altura de desconstruir as suas atuais verdades, mais feitas de história (muita e por demais prestigiante para Portugal e construída à custa de um profissionalismo exemplar) e de uma dimensão financeira não despicienda para diversas partes (Pedro Proença incluído – veja-se o “Expresso” de hoje, onde se titula “Ronaldo deixou Federação com problemas de milhões”) do que de uma capacidade minimamente aceitável de prestação em campo.

 

Daniel Oliveira explica bem a situação nas páginas do “Expresso” de hoje quando refere que todos os heróis transformados em semideuses “acabam em tristes caricaturas de si mesmos”. O que se me torna incompreensível é que haja tantos e tantos portugueses (muitos até estimáveis) que consigam confundir o lado objetivo do problema surgido com a qualidade ímpar do atleta ao longo de toda uma carreira e com o inquestionável reconhecimento que Portugal deve ter para com “o Cris” (há aqui algo do tipo do que ocorreu a tantos portistas em relação a Jorge Nuno Pinto da Costa) – achará esta gente que vamos a algum sítio, desportivamente falando, a jogar com dez a correr e uma vedeta parada do meio para a frente do terreno e sempre pronta a falhar todos os pontapés de livre que surgirem e a concretizar os penáltis que forem caindo?



Claro que Jesus também é um narcisista e alguém que peca por ser demasiado cheio de si. Além de possuidor de toques excessivos de burgesso, por vezes inqualificáveis em termos de ignorância, má-criação ou arrogância... Não obstante, é indesmentível que foi ele quem teve a coragem de decidir pela sua cabeça e de sentar CR7 no banco de suplentes. Daí a infografia que circula nas redes sociais, e que subscrevo integralmente, parodiando uma palavra de ordem de revolucionários tempos idos: “30 de Setembro Sempre! Ronaldismo Nunca Mais!”. Acresce que a atitude de prima donnado jogador, amuando, abandonando o hotel da seleção e partindo sozinho para o seu ninho de Madrid, mostrou à saciedade uma débil formação moral e ética e o quanto na realidade é desrespeitador da imagem e dos interesses nacionais (ao invés do que faz em relação à Arábia Saudita de que é um assalariado de luxo e para a qual se presta a manifestações de mau gosto pesetero como aquela que tristemente exibiu na Casa Branca). Tudo com a agravante de uma exibição categórica em Copenhaga da “equipa das quinas” já descontada do contributo de CR7 (atente-se no título de “O Jogo” ao referir um coletivo de “união, nervo e talento”, sintetizado num feliz CR11).




A pergunta que sobra, quiçá pouco portadora de esperança, é a seguinte: estará o “caldo” definitivamente estragado ou ainda haverá por aí algum Jorge Mendes, algum Montenegro, algum Seguro ou alguma Dona Dolores que possam ajudar a pôr aquela cristiana cabeça feita num oito num mood menos depreciativo para si próprio e para a reputação que soube granjear a ponto de se ter transformado num embaixador nacional?

LITERACIAS E SABERES

Inauguro este primeiro mês inteiramente outonal com recurso a uma mão cheia de vinhetas assinadas por uma notável cartunista do “El País” (Flavia Álvarez Pedrosa, com “Flavita Banana” por nome de guerra). As remissões são óbvias, o que o título deste post também sugere explicitamente. Apontam-se elementos de ignorância e desistência e de entendimento e indiferença, num quadro em que são as presentes posturas em relação à significância e ao alcance do saber que emergem de modo tão realista quanto crítico. Um mundo que se deixou tristemente condicionar...





A DISCUTIR A ECONOMIA DE VILA NOVA DE GAIA NO SEU CENTRO HISTÓRICO

 


(Tive a felicidade de nos últimos dias estar com uma enorme pressão de trabalho, essencialmente determinada pela avaliação das políticas de emprego com financiamento europeu que funcionam como instrumentos d combate à exclusão social. Tal pressão permitiu-me passar ao lado da tragicomédia da saída de Ronaldo da seleção que agitou as mentes de tudo que é analista, comentador, cientista político, homens do marketing e da comunicação, numa espécie de vertigem algo suicida de quem procura todo o pretexto para fugir à dura realidade dos nossos dias. Para me ajudar a escapar a essa tragicomédia existiu também o convite do Departamento de Planeamento da Câmara de Vila Nova de Gaia e da equipa que está a animar internamente a revisão do Plano Diretor Municipal, que muito agradeço, para participar na sessão pública específica dedicada às atividades económicas, em companhia dos amigos de longa data Professores José Varejão (FEP) e Luís Ramos (UTAD), com moderação do também amigo de longa, o espinhense de quatro costados Engº António Lacerda. É a essa participação e esse tema que dedico o post de hoje, escapando assim ao tema de momento, às guerras de egos, ao amadorismo da gestão desportiva e a todo este imbróglio em que o futebol se transformou, sem possibilidade de diálogo construtivo entre os reis da tática e os senhores da estratégia. Depois, no fim de semana alargado, virá a necessidade de regressar em pleno ao referido relatório de avaliação para o acabar e entrar num outro, o que me vai permitir passar incólume pelas pontas do enredo “ronaldesco”.

A discussão do papel da economia nos trabalhos de elaboração e/ou revisão de uma Plano Diretor Municipal e fortemente relacionada com o dealbar da minha experiência profissional, através da qual dialoguei com equipas de arquitetos e engenheiros em planos como Oliveira do Bairro, Águeda, Murtosa, Alijó e o próprio Porto. Foram bons tempos de experiência e de diálogo interprofissional. Da minha experiência, o problema fundamental que se levanta nestes processos e experiências consiste em saber se a análise económica e territorial que nos cabe desenvolver será entendido como um faz de conta, um capítulo monográfico que se faz porque a prática assim o obriga que não vai ter grandes implicações no modelo territorial do plano e nas suas propostas de ordenamento ou se, pelo contrário, ela vai interagir com a estratégia do plano, influenciando-a, podendo até representar um vetor relevante da estratégia territorial a promover. Tudo isto porque a liberdade do mercado e de circulação dos investimentos assenta nas suas próprias leis, regras e padrões, podendo ser condicionada pela dimensão regulamentar do plano é certa, mas fazendo sempre lembrar ao planeador que a sua ação reguladora tem limites e que dificilmente pode sobrepor-se aos ditames do mercado.

Nas minhas experiências profissionais, a minha vertente de economista do território conseguiu sempre impedir que a análise económica fosse aprisionada nos limites da monografia e a forte interação com as equipas de planeamento em que estive inserido permitiu que a economia não fosse uma parente pobre desses exercícios.

Projetando-me agora no tema da economia de Vila Nova de Gaia (relembro que sou cidadão metropolitano, resido em Gaia, trabalho em Matosinhos e tenho a afetividade de filhos e netos no Porto, também em Lisboa, claro) vieram-me à ideia alguns elementos-chave para tornar a discussão digna de um trabalho de planeamento e ordenamento territoriais.

Primeiro, Vila Nova de Gaia é um município com natureza metropolitana, inserido no que costumo designar de coração da Área Metropolitana do Porto, o único território que deveria justificar essa designação; essa filiação metropolitana, elemento essencial para repensar a atração de investimento, combina-se com particularidades significativas em matéria de extensão territorial, fator não despiciendo do ponto de vista do espaço físico disponível para atração e localização de novas indústrias e serviços; nessa dimensão física existe ainda uma valiosa frente de mar, cujo potencial na atração de talento e de recursos humanos mais qualificados não deve ser ignorado.

Segundo, o concelho apresenta uma estrutura produtiva, na qual se combinam fatores de inércia de especialização, associados a uma base de especialização mais tradicional, de metalomecânica, por exemplo, mas onde existe também o entreposto de distribuição do vinho do Porto, ele próprio em mutação de perfil funcional, hoje com uma mais intensa relação com a atividade turística e de lazer; essa base mais tradicional de especialização tenderá a interagir com a dinâmica de novas localizações, à qual se deve estar atento, porque por vezes o mercado traz surpresas.

Terceiro, nessa mesma inserção metropolitana, devemos estar preparados para assistir a uma dinâmica de forte concorrência de atração de novos perfis de investimento, protagonizada e animada por relações intensas de disputa de notoriedade atrativa que emergirão de municípios como Vila Nova de Gaia, Matosinhos e Maia, essencialmente, face ao poder de atração ainda existente da cidade-central; sem governação metropolitana formal ou informal, a concorrência será dura e, na minha perspetiva, vai ser desenvolvida a partir de projetos âncora, sejam eles imobiliários, científico-tecnológicos, ambientais, grandes projetos empresariais em domínios disruptivos, etc.

Quarto, uma análise sumária da demografia empresarial mostra que Vila Nova de Gaia é o concelho metropolitano com natalidade de novas empresas mais elevada, 12.959 novas empresas em 2024, com uma taxa de natalidade de 25,9%, ou seja, uma fertilidade empresarial bem mais dinâmica do que a fertilidade humana. Percebe-se que essa dinâmica de criação de novas empresas não financeiras é essencialmente concretizada nos serviços em geral, o que contrasta com o peso de cerca de 27% das indústrias transformadoras no concelho – cerca de 995milhões de euros para um total de VAB de 3.686 milhões de euros.

Quinto, apesar da enorme competitividade que existe no coração da AMP, não pode ignorar-se o potencial de conhecimento científico e tecnológico, de I&D e transferência de tecnologia e de talento que ainda existe na cidade central, ainda que essa localização não seja imutável; é provável que assistamos nos próximos tempos a deslocalizações e crescimentos de universidades e universidades técnicas e dos principais inter-faces.

Sexto e por último, creio que o grave problema da habitação paira sobre toda a reflexão que possamos alimentar sobre as atividades económicas futuras; a relação atividade económica-emprego conflitua com a existência desse gravíssimo problema de insolvência da procura de habitação para uma larga franja da população portuguesa; os municípios que melhor se posicionarem e resolverem este problema acrescentarão aos fatores de atratividade económica uma dimensão suplementar apreciável.

A estratégia do plano deve ser flexível para se adequar a este tipo de transformações e deve integrar uma estratégia mais ampla de atração de novas atividades. Mas como o referia numa nota inicial, o concelho dispõe de espaço físico suficiente para novas localizações e a sua frente de mar, pela sua amenidade e condições residenciais, oferece uma base fortemente atrativa para atração de talento e gente qualificada, que tanto pode ser puxada pelo investimento, como potenciar a atração do próprio investimento.

Que o debate seja profícuo e que possa ser útil para os trabalhos do PDM.