(Coimbra parece ser a Nação e nos dois últimos dias foi um fartote mediático de bom relacionamento entre Presidente da República, 1º Ministro feito Ministro da Administração, Ministra do Ambiente, APA e Proteção Civil, pelo menos ao nível dos que revelaram maior notoriedade perante as câmaras. Toda a gente percebeu que Ana Abrunhosa, Presidente da Câmara Municipal de Coimbra com uma das vitórias mais relevantes das últimas autárquicas, caiu no goto das televisões e, diga-se de passagem, com toda a justiça, pois experiência, sensatez e capacidade empática de comunicação é coisa rara. Daí que Presidente da República (que tão maltratou Abrunhosa enquanto Ministra a propósito do PRR e da execução dos Fundos Europeus) e 1º Ministro vissem em Coimbra um grande furo para fazer esquecer a primeira semana de intempérie. Neste contexto, bem podia a execrável Tânia Laranjo no Correio da Manhã farejar mais desgraças que o centro das atenções estava em Coimbra. Ponto. Vejam se por acaso se a cena foi repetida em Alcácer do Sal. Não e não terá sido por acaso. Como é óbvio poderíamos aqui falar do gigantesco esforço de reconstrução de que o País vai necessitar para mitigar a enorme vulnerabilidade de grande parte da dotação de capital físico instalado no território, exposta cruelmente pela severidade continuada do vento e da chuva persistente. Essa matéria fica para outra oportunidade. A reflexão que gostaria hoje de vos propor prende-se com algo que me gerou alguma perplexidade. Muito boa gente utilizou as intempéries e a pelo menos aparente descoordenação sobretudo visível na primeira semana com a Kristin a varrer a martirizada região Centro para dissertar sobre a organização territorial do Estado e muitos deixaram mesmo que lhes saíssem alguns votos pios sobre a regionalização. Deu-me um certo gozo que a elite da capital representada por Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal se mostrasse impressionada pela qualidade dos autarcas, como esta gente é distraída, admitindo até o seu eventual interesse por uma solução de regionalização. De lágrimas de crocodilo estou eu cheio e não acredito que regressando o sol e os rios a regressar às suas margens estes votos pios cheguem ao céu…)
Não é para me sentir do contra e embirrar com tudo e mais alguma coisa que vos deixo uma opinião talvez controversa, mas que traduz bem o estado da arte da minha reflexão sobre as insuficiências do nosso modelo de organização territorial do Estado, tal como ele hoje se apresenta. Em meu entender, os estados de intempéries e de crises graves da proteção física das populações são o pior contexto possível para se esgrimir argumentos a favor ou contra a regionalização.
Em primeiro lugar, devo-o dizer com toda a frontalidade, que a descoordenação que por vezes é sentida quer na tragédia dos incêndios, quer nestes acontecimentos extremos das últimas semanas, não se explica pela ausência ou pelo contrafactual de existir hipoteticamente regionalização. Vejamos o exemplo dos últimos dias. À evidência óbvia e clara de descoordenação na primeira semana (depressão Kristin) sucedeu, por exemplo, esta semana a bem coordenada intervenção sobre a cheia do Mondego, com a relação APA, Governo, Câmara Municipal e Proteção Civil a funcionar na perfeição e não foram seguramente os belos olhos da Ana Abrunhosa a assegurar o êxito da coordenação. Inêxito e êxito a serem observados exatamente com a mesma estrutura de organização territorial.
De facto, o modelo de organização dos serviços da Proteção Civil (e os especialistas pululam nos ecrãs de televisão) devia ser um caso de estudo, sobretudo do ponto de vista das alterações que tem vivido. É nesse quadro que deve ser reequacionada a eficácia das suas estruturas regionais e locais e sobretudo o modo como se articulam com o comando nacional e como o processo de decisão é assumido.
Convirá termos bem presente que a efetiva introdução do nível regional na organização territorial do Estado, e não o arremedo de situação que a nova configuração das CCDR representa, suscita novos problemas de organização e grandes desafios ao processo de tomada de decisão. Estranhamente deixamos de falar no célebre princípio da subsidiariedade que a União Europeia nos trouxe, ela própria hipotecando o princípio para gerir os egos institucionais de alguns dos Estados-membros. Qualquer processo de reorganização do modelo territorial do Estado deve colocar no centro da reflexão o problema dos custos de coordenação e de transição que o processo de decisão em qualquer modelo de organização territorial.
Por tudo isto, na resposta necessária às intempéries e aos seus efeitos devastadores é o modelo de tomada de decisão colaborativa que deve ser reanalisado e sobretudo afinado para não se inventar em função do desconhecido.
E, se quiserem discutir com elevação e sentido de oportunidade o modelo regional, escolham outro contexto, designadamente no âmbito dos temas da previsão, manutenção e ordenamento, tendo como contexto novo, a severidade climática e a multiplicação dos seus extremos. Não será tão mediático, nem serão necessários uniformes tão coloridos. Mas é nesses contextos e sem tabus que o assunto deve ser rediscutido.
E não esqueçamos uma evidência assustadora. A gestão da pandemia em Espanha, com comunidades regionais fortes, foi um autêntico desastre. Estamos capazes de discutir estas evidências com abertura de espírito? Se a resposta positiva contem comigo. Caso contrário, como costuma dizer-se, já dei para esse peditório. E, obviamente, nunca deixarei de ser um adversário persistente do centralismo.
(Correções de pequena monta introduzidos em 14.02.2026 às 11.50)









