segunda-feira, 2 de novembro de 2026

UM LIVRO EXCELENTE PARA COMPREENDER O MUNDO DE HOJE

 


(É de um livro pequeno que vos falo. Não tem mais do que 143 páginas, incluindo referências bibliográficas e é de autoria de Gerard Roland, Professor Emérito de economia e de ciência política na Universidade da Califórnia, Berkeley. Chama-se EMPIRES, NATION-STATES AND DEMOCRACIES e tem edição da prestigiada Princeton University Press, com data de 2026. Fui alertado para a relevância desta obra seja pelo conselho sempre pertinente de Bradford DeLong, seja também pelo substack que Gerard Roland publica há cerca de dois anos, no qual o autor tem-nos proporcionado uma sugestiva resenha e invocação dos anos da sua passagem por Berkeley até ter adquirido o estatuto de Professor Emérito, como é prática usual de muitas Universidades americanas que não condenam os seus expoentes de investigação ao exílio forçado depois da sua jubilação. A análise comparada da vida útil, futura e potencial de impérios, estados-nação e democracias coloca a obra no centro de cogitações contemporâneas. O interesse da questão é que, ao contrário do que seria imaginável, a discussão comparada das formas institucionais dos impérios, estados-nação e democracias não a projeta para uma temática do passado, mas antes para uma evidente atualidade. Por muito estranho que nos pareça, nunca como hoje, aquelas três formas se conflituam e daí o interesse da análise desenvolvida por Roland, obviamente inspirada em sólida evidência histórica. O interessante da questão está no facto de Roland nos transmitir uma perspetiva otimista de longo prazo sobre a referida conflitualidade. Embora admita que a ideia de ameaça temporária tem de ser contextualizada à luz de períodos que podem comprometer gerações inteiras, vale a pena mergulhar na sua ideia de que as ameaças que pairam sobre as democracias de hoje serão temporárias. Trata-se de um tónico para o pessimismo com que assistimos à degradação da cena mundial. Como precisamos desse tónico!)

Resumindo bastante os argumentos expressos na obra, Roland olha para os remanescentes grandes impérios da Rússia e da China como formas institucionais que tenderão, nos seus propósitos de expansionismo e de repressão, a enfrentar debilidades internas, expondo-os a ameaças externas e principalmente á fragmentação territorial. A mensagem histórica aqui presente é a de que se torna fundamental a duração do período em que um dado império consegue ocultar as suas debilidades internas. Quanto mais se prolongar essa ocultação menos intensa e provável será a emergência de alguém capaz de desafiar o poder instalado. Isto leva-nos a um paradoxo que Roland resume brilhantemente na ideia de que, sendo os impérios autocracias, eles podem parecer fortes até que de repente mostrem a sua fraqueza. A indeterminação da história faz com que não seja possível antecipar por quanto tempo será possível ocultar as debilidades internas, geradoras de apetites de conquista do poder, o qual pode até conduzir a uma nova forma de autocracia. Creio que este modelo se aplica como uma luva ao caso da Rússia e menos ao da China.

Quanto ao argumento de que os estados-nação têm também o seu futuro ameaçado, a tese pode parecer ainda mais peregrina se tivermos em conta a intensidade com que o nacionalismo se tem afirmado nos últimos tempos. Mas o argumento é compreensível, sobretudo se tivermos em conta que os impérios milenários não conseguiram resolver o desafio da homogeneidade étnica. Assim sendo, embora os estados-nação possam permanecer durante mais tempo do que os impérios, eles assentam numa ilusão – o objetivo da homogeneidade étnica que surge associado ao nacionalismo. O pensamento da extrema-direita está recheado de versões romantizadas de períodos em que as pessoas viviam em comunidades relativamente homogéneas do ponto de vista étnico. Isso não mais existiu e Roland apresenta uma tabela em que calcula a percentagem de população estrangeira a viver em economias avançadas, com valores como 30,4% na Austrália, 28,2% na Nova Zelândia, 25,5% na Áustria, 23% no Canadá e 31,1% na Suíça.

O argumento mais problemático e Roland tem a noção de que pode ser apontado como alguém excessivamente otimista é a sua convicção de que a crise vivida presentemente pela democracia é temporária, nunca esquecendo que esta ideia do temporário tem de ser bem compreendida, já que pode abranger gerações inteiras. A razão principal para que Roland insista nessa visão da crise da democracia como temporária advém não apenas dos problemas identificados na sobrevivência dos impérios e dos estados-nação, mas especialmente na ideia de que a democracia vive bem e se alimenta do desenvolvimento económico. Talvez seja aqui que resida essencialmente o referido otimismo, o que nos conduziria a toda uma outra discussão.

Mas esta obra merece reflexão adequada e sobretudo consegue-nos transmitir uma visão saudável do progressismo da história e não a visão reacionária da negação do desenvolvimento.

 

 

O ADEUS ANTECIPADO POR LAGARDE

(Nicolas Vadot, http://www.levif.be)

Christine Lagarde (CL) anunciou a sua saída da presidência do BCE para fevereiro de 2027 e logo diversas más-línguas procuraram encontrar uma correlação entre esse abandono e a respetiva proximidade em relação à data das presidenciais francesas, que parecem já ter uma vencedora anunciada na populista e insistente Marine Le Pen – veremos certamente em breve se há algum fogo por detrás desta fumaça. Entretanto, logo surgiram balanços depreciativos do mandato de CL, como foi o caso do economista Jon Aldekoa no portal do dito ECB – os gráficos são razoavelmente elucidativos nessa perspetiva, mas não devemos nunca esquecer que as comparações temporais nuas e cruas (isto é, sem o devido enquadramento conjuntural e histórico) padecem frequentemente de aceitabilidade objetiva; de todo o modo, reproduzo-os na medida em que são bastante bem esgalhados para contextualizarmos as lideranças de Duisenberg, Trichet, Draghi e Lagarde no tocante ao comportamento da inflação e ao poder de compra da moeda única, com clara vantagem revelada em favor do italiano que é considerado o “salvador do Euro” e desvantagem para a francesa que agora poderá estar a ponderar a hipótese de aspirar a outros voos, quiçá políticos. Fica também no ar a velha querela entre os defensores de técnicos e especialistas versus políticos nomeados de forma negociada nos postos decisionais das entidades de regulação, um tema cada vez mais candente e que voltará em breve a estar na ordem do dia em Frankfurt.


domingo, 1 de novembro de 2026

MONTENEGRO E A HABITAÇÃO

 
(Ulises Culebro, https://elpais.com) 

O problema da habitação cresce em generalização à escala mundial, mas atingiu uma escala de insuportabilidade em Portugal. A culpa (palavra maldita e de conteúdo tão frequentemente difuso) é de tantos que não releva enumerá-los por qualquer ordenação que seja: governantes pouco competentes ou simplesmente distraídos, autarcas sem visão do seu próprio entorno, elites transformadas em meros especuladores de mercado, senhorios e inquilinos de variada natureza gananciosa ou autocentrada, população em crescimento via imigração mal controlada e por aí fora num rol de referências que seria praticamente interminável. Ou seja: a dita culpa, ao contrário de outros dossiês, não é essencialmente atribuível ao governo de Luís Montenegro, pese embora o descoco da nova lei das rendas que aprovou em acordo com o Chega e que atirará mais achas para uma fogueira que delas já não necessitava. Mas há dois pontos em que o primeiro-ministro não pode escapar a uma chamada de atenção: a sua negação, em claro deslocamento de retina, perante a essência e a urgência da questão, por um lado, e a sua atitude policial e repressiva em nome de um cumprimento da lei datado e abstratamente definido à luz do presente, por outro – e, afinal, bastaria que o reconhecimento de que existe mesmo um problema fosse real e sincero, dirigindo-se aos jovens com mínimos compatíveis (em termos de pedagogia política e elegância edificante) com o tanto que enche a boca de por ele serem favorecidos como nunca antes ocorrera. E assim vamos, com pancada à solta pela madrugada dentro, na abertura deste mês de novembro que talvez nos possa trazer algumas boas novidades internacionais.


(Vasco Gargalo, https://www.sabado.pt)

sábado, 31 de outubro de 2026

O REACIONARISMO COM AS GARRAS DE FORA

 


(O meu colega de blogue já dedicou a este tema reflexão pertinente, mas a sua relevância no tempo que nos envolve, nesta tarde solarenga em Seixas, a anunciar o frio da noite que se avizinha, justifica que regresse ao tema. O tempo político que nos envolve é favorável a que o reacionarismo vá colocando as garras de fora, construindo uma narrativa que jornais e televisão vão comprando na justa medida, na qual tudo que mexe é classificado com a chancela do radicalismo que é necessário extirpar. Obviamente, que a onda generalizada de crescimento das forças políticas de direita vai criando campo propício à recuperação do espaço perdido com os anos da Revolução. Esse reacionarismo esteve sempre latente, simplesmente encolheu-se, travestiu-se de presença silenciosa em partidos democráticos, foi fazendo de conta que nada do que se passava era consigo, aguentando até à emergência de um campo mais favorável. O Chega foi o fenómeno que acomodou algumas destas pessoas, embora numa mistura de desencanto e ressentimento, que não se confunde exatamente com o reacionarismo de que estamos agora a falar. Para a criação deste campo favorável atrás mencionado muito contribuiu a crise de consciência da esquerda em Portugal. As esquerdas são várias e por isso vale a pena ir um pouco mais fundo para compreender as diferentes razões invocáveis.)

À esquerda do PS, o PCP vive uma crise de sobrevivência e, dentro do estilo cauteloso e nada propenso à mudança que o tem caracterizado, optou claramente por eleger a estabilização de eleitorado (lutando contra a demografia, com renovação apenas parcial de efetivos) e a sua sobrevivência como formação política com assento parlamentar. Daí que não arrisque uma vírgula em tentar compreender novos movimentos políticos mais inorgânicos e mais do que isso apercebe-se que as garras de fora do reacionarismo dão-lhe alguma esperança de ganhos de VOZ e de adesão eleitoral.

A esquerda mais radical vive uma crise de consciência política de outra natureza, com exemplo mais claro no Bloco de Esquerda, no qual a liderança de José Manuel Pureza identifica bem a transição em que está mergulhado. Ao vazio das causas mais fraturantes juntou-se uma espécie de ressaca do wokismo que foi longe de mais nas suas frentes de cancelamento. Não é para mim claro se os movimentos mais recentes em torno da crise da habitação têm rendido ao Bloco algum poder adicional de mobilização e aguardo evidência mais diversificada para o avaliar. Mas, de qualquer modo, a esquerda Bloco vive tempos de interrogação quanto ao seu novo papel na sociedade portuguesa, sendo antecipável que a habitação se transforme no seu ponto focal de tentativa de recuperação de espaço eleitoral.

Quanto ao PS, esperar-se-ia de uma força política que tem Mário Soares na sua memória recente um discurso mais incisivo de denúncia e de combate ao reacionarismo emergente. Mas o PS de José Luís Carneiro tem o seu foco na recuperação do capital eleitoral do passado, pelo que a sua política de punhos de renda e não me comprometas a recuperação de eleitores afasta-o de posicionamentos mais críticos sobre a direitização da sociedade.

Mas o pior de tudo acontece quando o PSD no governo vai cedendo a esse reacionarismo latente, abrindo caminho a que ele se manifeste através da própria política governativa. Por mais estranho que nos possa parecer, é o PSD que tem acolhido em grande medida a narrativa de que tudo é radicalismo em Portugal.

Todo este contexto que procurei sucintamente descrever cria um campo extremamente favorável ao ressurgimento do reacionarismo. Num país que necessita de mudanças disruptivas em muitos domínios da governação, este clima bafiento que se vai formando transforma-se num verdadeiro custo de contexto, acrescentando elementos a uma lista de custos de contexto que já é longa.

 

A TOLERÂNCIA DO POVO SERENO NÃO TERÁ LIMITES?

Este mês que finda trouxe-me variados pequenos sinais de esperança, quer lá fora quer cá dentro. A alguns dos primeiros já aqui me referi em posts anteriores, os segundos vêm hoje ao caso à boleia de dois notáveis artigos do “Público” e do inimaginável bolor que predomina no comentariado político da nação que assim foi exemplarmente caraterizado e confrontado no escrito de Francisco Teixeira da Mota (“O povo é sereno. O Governo também?”): “(...) não podemos deixar de registar terem surgido comentadores, não muito habituais no espaço público, que, no meu entender, fazem jus à descrição que Vicente Jorge Silva, em tempos, fez de Silva Resende, então putativo candidato à Câmara Municipal de Lisboa: ‘Nem nas arcas mais arqueológicas e bafientas do salazarismo seria possível desencantar [comentadores] ideologicamente mais grotescos e boçais…’ Maravilhosa liberdade de expressão que nos permite ouvir as mais descerebradas opiniões.”

 

De facto, tanto por estes dias me fez pensar e recordar os tempos do chamado PREC em que uma juventude envolvida e empenhada ensaiou participar nos destinos de um país que até aí só lhe trazia medos e falta de um futuro. Outros preferem olhar para essa época pelos mesmos olhos focados no mesmo tipo de “excessos” com que hoje encaram as tendas nas praças de Lisboa e Porto ou com que hoje jocosamente ridicularizam as inconsequentes “assembleias populares”, sendo que uns sempre estiveram na sua superior barricada de habitantes da Linha onde reside quem conta (ou devia contar) enquanto outros já foram parte integrante e responsável dos movimentos populares e juvenis que agora renegam e quase insultam; podia fazer aqui apelo a inúmeros exemplos desta gente que faz do reacionarismo e da “superioridade moral” um modo de ser e estar, a começar no raivoso e insuportável Paulo Núncio (que Pacheco Pereira tão elegantemente desconstrói!), a continuar na incansável e omnipresente Helena Matos ou no ignorante e telegráfico Camilo Lourenço e a terminar em dois dos mais mediáticos que ainda por aí continuam a doutrinar (acham eles que impercetivelmente do alto do seu visionarismo) o povo inculto de que lhes coube em sorte ser um pedaço (quiçá bem distinto) – Maria João Avilez e José Manuel Fernandes brindaram-nos também, por estes dias, com duas crónicas inenarráveis na perspetiva que sustento, ambos tão acerrimamente críticos do radicalismo (afinal não exibido nas ruas pelos manifestantes), da maioria dos seus colegas da comunicação social (Avilez tendo ainda o desplante de escrever o seguinte: “Quando falo de ‘media’ não é – nunca poderia ser – de toda a media. Há exceções, há gente muito séria e muito boa. Sucede que infelizmente não é a que tenho visto ultimamente.”) e dos políticos que “covardemente desconhecem o Estado de Direito” quanto defensores objetivos (à la “Chega”) das bastonadas policiais de que, no entanto, o ministro da tutela jurou só ter visto acontecer uma única (apenas e só, acrescento eu). Pessoalmente, e não querendo dar mostras de ser de intrigas, tenho a impressão de que alguma coisa vai correr mal neste indescritível processo dominado pelo mau gosto e pela má-fé.