sábado, 13 de junho de 2026

CANÍCULA E NÃO SÓ …

 


(Canícula incomodativa quanto baste, muito trabalho acumulado e principalmente um contexto interno e externo pouco estimulante para a reflexão explicam esta ausência de alguns dias da escrita no blogue. É com a clara perceção que esses fatores de afastamento não estão plenamente superados que regresso, por hoje, à obrigação do diálogo com uma página em branco, provavelmente seguido de alguma interrupção adicional já que amanhã estarei em viagem para Lisboa. A situação interna é entediante, esta é a palavra mais meiga que encontro para descrever, marcada sobretudo pelo já insuportável modelo de despedida da seleção nacional de futebol, rumo a um Campeonato do Mundo atípico e quase exclusivamente virado para o negócio, vejam-se, por exemplo, os preços de alguns bilhetes para jogos nos EUA. Não me recordo de campeonato que me tenha despertado tão pouco interesse e excitação, o que contrasta violentamente com a agitação vivida em torno dos cromos Panini desse mesmo mundial, como o posso confirmar através da azáfama negocial com que os meus netos de Lisboa e do Porto exercem a sua atividade de troca para avançar no preenchimento das respetivas cadernetas. Na despedida da seleção, só faltou a presença do clero para associar à Seleção uma espécie de novo unanimismo nacional que, felizmente, irá provavelmente romper ao primeiro insucesso exibicional ou de resultado que a Seleção enfrente nos três jogos de classificação. Imagino que seja difícil encontrar noutro país qualquer este tipo de encenações para a partida das seleções rumo às Américas.)

Estou para aqui a destilar sarcasmo quanto ao modo como o futebol e a Seleção são convocados para operar o unanimismo nacional e é provável que sucumba como muita gente ao entusiamo televisivo de algum jogo mais atrativo como espetáculo. Entretanto, ou comigo a matutar que a grande generalidade dos elementos mais representativos da Seleção tem hoje uma experiência de grandes conquistas internacionais nos seus clubes, já ganharam praticamente tudo, pelo que a sua motivação para estes exorcismos nacionais de glória nos grandes combates deve representar um caso de estudo. Isto contrasta fortemente com outras seleções do passado, menos internacionalizadas e com os atletas limitados aos êxitos nacionais, as quais viam nos Europeus e nos Mundiais uma porta para a celebridade com reflexos na cotação contratual.

E da situação interna pouco mais haverá que valha a pena transformar em matéria de reflexão, a não ser a notícia, surgida e divulgada sem grande convicção e sem a relevância que lhe deveria ser concedida, de que José Luís Carneiro está a tentar que na prática interna do PS o registo de interesses constitua um fator de moralização da vida política. É matéria a que atribuo grande importância e seria um avanço que o PS pudesse liderar essa moralização, que não significa de todo que a questão dos “interesses” faz parte da política. Deste assunto não há quem dele melhor fale ou o conheça melhor como José Pacheco Pereira, que tem sido infatigável no alertar para a generalização das práticas de comercialização partidária dos pequenos (por vezes são mesmo pequenos) ou dos grandes favores e que alguns casos badalados de alegações de corrupção ilustram na perfeição.

No plano internacional, o acompanhamento e entendimento do que vai acontecendo efetivamente em torno das guerras na Ucrânia e no Golfo está a transformar-se num daqueles exercícios reflexivos cuja estratégia de abordagem muda sistematicamente em função das circunstâncias de cada dia, tamanha é a variabilidade dos “teatros de operações” e principalmente dos principais decisores políticos com intervenção nesses processos, a começar pelo cada vez mais errático comportamento de Trump, cada vez mais interessado em sair de cena o menos beliscado possível e com tarefas também cada vez mais dificultadas de encontrar manobras de diversão para cobrir a sua retirada.

Dizia alguém no comentário político, creio que terá sido o Professor Azeredo Lopes a mencioná-lo, que é impressionante como um regime teocrático, sanguinário no seu autoritarismo e repressão dos costumes, acaba por conseguir obter da opinião pública internacional menos comprometida com Israel não uma aprovação das suas práticas odiosas, mas pelo menos alguma compreensão em torno da tarefa de lidar com uma abordagem tão errática do agressor.

Atolado nas contradições na sua intervenção sobre o Irão e nas suas contradições em matéria de apoio à Ucrânia e na denúncia das arbitrariedades bélicas de Putin, a administração Trump tarda em focar-se de novo nos desequilíbrios globais instalados na estrutura do comércio global mundial. A depreciação sucessiva das moedas asiáticas, com relevo para a da moeda chinesa (Renmimbi), iniciada após a crise imobiliária de 2021, completada pela abundante subsidiação à produção, não tem parado de agravar o desequilíbrio estrutural global a favor das exportações chinesas. Para mais, através de uma prática inteligente de comércio com países asiáticos vizinhos, exportando para esses países produtos intermédios necessários à montagem de produtos finais para exportação, a partir desses países, para os EUA, as autoridades chinesas têm mitigado consideravelmente os efeitos negativos da guerra aduaneira promovida por Trump sobre as importações provenientes da China.

Não é difícil concluir que a permanência da instabilidade bélica, promovida por Trump no Golfo e não por ele suficientemente contrariada na Ucrânia, alimenta o pior contexto possível para uma abordagem direta e efetiva aos desequilíbrios estruturais do comércio global mundial. A história económica diz-nos, com sabedoria, que quando a negociação e a diplomacia económicas não conseguem pelo menos conter os desequilíbrios globais, a propensão para a guerra intensifica-se.


E para adensar o ambiente, Adam Tooze relembra-nos que não é apenas o estreito de Ormuz e os constrangimentos bélicos que sobre ele pesam que nos deve preocupar. É impressionante também a importância global do comércio global que passa pelo estreito de Taiwan. Em 2022, 20% do comércio marítimo mundial passou por aquelas paragens.

Se isto não é um barril de pólvora …

 

PALMAS, RAMALHO!

Luís Montenegro descobriu em Portugal uma personagem rara e fê-la ministra. Maria do Rosário Palma Ramalho (MRPR) é realmente uma força da natureza: inventiva, para não dizer pouco verdadeira, conservadora, para não dizer reacionária, combativa, para não dizer provocadora, e mediadora, para não dizer parcial. A sua prestação no dossiê da legislação laboral tem-se revelado desastrada na forma e na substância, o que a tem levado recentemente a voltar-se para a Prestação Social Única como sua salvação em nome de uma “evidência de subsidiodependência” que a realidade desmente de modo inequívoco. No geral, MRPR protagoniza a estratégia do PSD que hoje temos, uma formação denominada social-democrata mas que cede em crescendo à extrema-direita na ilusória tentativa de navegar à vista para ir sobrevivendo e conquistando o eleitorado do Chega. Ou muito me engano ou isto não vai acabar bem – só falta apurar se para ela e eles ou se para nós todos... 

sexta-feira, 12 de junho de 2026

ÀS ARMAS!

Hoje fico-me por uma curiosidade retumbante, epopeica mesmo. Trata-se de uma investigação feita pela “The Economist” aos hinos dos 48 países que estão na fase final do Mundial de Futebol. E no plano das palavras que deles constam, o resultado (não totalmente imprevisto) aponta o hino português como o mais belicoso de todos. Cito: “Contém onze referências a violência por cem palavras, comparado com uma média do torneio que não chega a duas. Chama os cidadãos ‘às armas’ doze vezes. Por esta medida, Portugal tem o mais combativo hino do Campeonato Mundial.” Outros dados interessantes podem ser encontrados no artigo (“The most hated countries at the FIFA World Cup”), o que decidi não desvendar neste post, pelo que me limito a terminá-lo com o fecho original: “Os fãs de futebol raramente prestam muita atenção à lírica que ecoa em volta de um estádio antes de um jogo. Mas estes hinos são épicos excitantes de conquista, libertação, sacrifício e morte. Afortunadamente, os difíceis desafios futebolísticos deste Verão assentarão em golos e não em armas.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

COMEÇA O MUNDIAL, TRUMP É O CAMPEÃO ANTECIPADO!


As próximas cinco semanas serão dominadas pela disputa localmente tripartida (Canadá, EUA e México) do Mundial de Futebol que começa hoje com um México-África do Sul. As principais atenções estão viradas para Trump, esperando-se que ele não estrague mais a festa do que o que já tem vindo a ocorrer com as inspeções e recusas de entrada de algumas seleções e outros participantes no seu país. Por muito que Infantino tenha feito e venha a fazer tudo para que o presidente norte-americano se sinta devidamente bajulado, não é nunca certo o que pode vir daquelas bandas narcísicas e tresloucadas. Veremos...
 
Quanto ao plano desportivo, as previsões e apostas são para quase todos os gostos, mas opto por aqui reproduzir (ver abaixo) as estimativas hoje publicadas pelo “El País” através do modelo estatístico construído por um dos seus grandes profissionais na matéria (Kiko Llaneras, desta vez com Borja Andrino) – só Espanha, França e Argentina surgem com probabilidade de vitória acima de 10%, estando Portugal numa honrosa sexta posição que não deixa de parecer lisonjeira à luz do que já vimos de seleção nos jogos de preparação totalmente desperdiçados pelos incompreensíveis critérios de Roberto Martínez. Outra dúvida que assalta a maioria dos especialistas provém do impacto negativo (em termos de qualidade e desgaste físico) que poderá decorrer de um número recorde e excessivo de equipas nacionais, para além dos efeitos da impreparada introdução de várias regras novas que pretendem obviar ao antijogo e de mais alterações ao VAR.
 
Na parte que me toca, o aspeto que mais me motiva neste momento de arranque é o da certeza de que assistiremos agora ao fim da presença em campo de jogo da velha dupla Cristiano Ronaldo/Lionel Messi. Foi bom enquanto durou com a devida razão de ser que a classe e a condição física permitiam, mas o arrastamento de vedetas em declínio custa a ver e “irrita o mais pintado”.



quarta-feira, 10 de junho de 2026

NÓS, LUSITANOS DOS SETE COSTADOS!

Vem hoje no “Público” e vale o que vale (até pela formulação pouco explícita da questão), mas a verdade é que a sondagem encomendada pelo ECFR diz algo sobre os nossos “brandos costumes” ou, se se quiser, sobre o “pobres mas honrados” com que tendemos a posicionar-nos/apresentar-nos. Assim, e numa matéria tão decisiva de implicações na vida corrente da maioria dos portugueses como é a de aceitar cortes na despesa pública (leia-se, embora não só, nas prestações sociais) em prol de investimento na defesa, 47% dos inquiridos afirmaram-se totalmente ou tendencialmente dispostos a apoiar (contra, p.e., os 32% de espanhóis ou os 22% de italianos ou mesmo os 43% de franceses, os 38% de suecos, os 37% de dinamarqueses ou os 30% de alemães). Solidários? Incorrigíveis? Ou uma simples e reducionista derivação lusitana do “estágio supremo da alienação” de que nos falava Karl Marx?

terça-feira, 9 de junho de 2026

EM MATÉRIA DE IA ESTOU COM A MAFALDINHA

 


(A grande recetividade que a Encíclica Magnifica Humanitas tem vindo a receber mostra duas coisas, que devemos atribuir mais importância e atenção ao que o Papa Leão XIV tem a dizer ao mundo e que existe instalada uma profunda preocupação quanto à necessidade crucial de colocar a dimensão humana no centro do debate que muito tardiamente começou a ser travado em torno dos avanços e das possíveis derivas da inteligência artificial. Muita da reação que anda por aí faz-me concordar com a eterna Mafalda da banda desenhada, quando ela na sua irreverência confessa que está mais preocupada com o recuo da inteligência humana do que com o rumo da IA. Tenho para mim, e não tenho dúvida em aceitar que cheguei tarde ao mundo da IA e que por isso não sou ainda um utilizador confesso e generalizado da mesma. Por razões de preparação para a docência universitária de outros tempos, fui durante largo tempo um estudioso relativamente aprofundado das questões da inovação e da tecnologia, embora sempre admitindo que os engenheiros estão em vantagem em relação aos economistas para as entender, tal qual elas evoluem historicamente. Recorrendo a esses conhecimentos que fui adquirindo, sou levado a concluir que a IA não é mais do que mais um momento particular dessa longa evolução dos paradigmas da inovação tecnológica. Grande parte dos medos e fobias, alguns pouco inteligentes, que começam a formar-se em torno da IA e dos seus possíveis malefícios, encontrei-os, embora sob outras formas, noutros momentos da evolução tecnológica. A história do desta vez é que é tem tido expressões diversas ao longo do tempo, seja na ficção futurista, seja na reação por vezes violenta das sociedades. Era sobre esta questão, de saber se desta vez é diferente e de vez, ou se pelo contrário as sociedades avançadas acabarão por encontrar a interação certa com a nova tecnologia. O que não significa que não existam diferenças de contexto que importe assinalar.)

Na verdade, recorrendo às minhas principais referências bibliográficas sobre o modo como as principais revoluções tecnológicas foram recebidas pelas sociedades mais avançadas, não é difícil reconhecer a presença nesses debates de questões que estão de novo a ser colocadas pela disseminação da IA. É o caso da destruição de emprego provocada pelas sucessivas inovações, em que recorrentemente sempre existiu o dilema de focar a atenção no curto-prazo em que a destruição de emprego supera a criação de novos empregos ou no longo prazo em que a história económica mostra que a criação líquida de emprego foi sempre positiva. Mas é também o caso da alienação humana pela tecnologia, como foi por exemplo o caso das novas tecnologias de comunicação onde se receou que a interação humana fosse reduzida a mínimos, quando ela efetivamente aumentou, a ponto de assumir fórmulas doentias de “messaging” permanente, sem, contudo, as questões de a alienação terem desaparecido. Veja-se o caso da adição aos telemóveis dos mais novos aos mais velhos. É ainda o caso do aproveitamento oportunista das novas tecnologias, como hoje acontece com jovens universitários e do secundário em que o recurso fácil a soluções de IA está a conduzi-los a uma total iliteracia de compreensão, como os relatos de professores universitários que me são próximos não se cansam de documentar. E é ainda o caso das implicações da tecnologia na organização das empresas e de todas as instituições em geral, onde a história nos mostra que os vencedores foram sempre aqueles que compreenderam mais cedo as implicações organizacionais das novas tecnologias.

Se invocarmos esta recorrência no passado, talvez compreendamos que a tese do “desta vez é que vai ser diferente” talvez deva ser relativizada.

Mas sou sensível às diferenças abissais de contexto em que a ameaça de hoje se coloca. A principal diferença de contexto é ilustrada na capa da mais recente edição do Nouvel Observateur, onde os quatro profetas da desgraça ou do futuro mais risonho são apresentados. Qual é a diferença de contexto? A principal diferença está no contraponto existente entre a maior concentração de hoje na fronteira tecnológica, isto é, na frente da corrida e a maior desigualdade que se regista, seja nas sociedades mais avançadas, seja entre quem comanda a corrida e o restante pelotão.

É neste contexto que o apelo do Papa Leão XIV no sentido de colocar de novo o humano no centro da revolução tecnológica tem justificação plena, sendo importante pelo grau de consciencialização da ameaça que o seu pronunciamento pode proporcionar. Esse sim é o rumo que a regulação da IA deve assumir. Para lá disso, subsiste o problema de saber se a inteligência natural e humana será capaz, como o foi no passado, de saber utilizar as novas possibilidades da IA, ou se, pelo contrário, irá sucumbir à preguiça, ao facilitismo, entregando-se à sedução da tecnologia. Certamente que os empregos e as competências irão ser impactados, que os riscos da alienação humana estarão aí à mão de semear, que as mentes mais diabólicas e transviadas poderão encontrar na IA novas formas de submissão do humano. Tudo isso é verdade, mas como o foi também no passado com outras revoluções tecnológicas.

Se nos projetarmos nas experiências do passado, outros como nós estiveram também perante a interrogação: será que desta vez vai ser diferente? Os mais positivos vão admitir que a nossa adaptação não irá ser perfeita, mas fará avançar o mundo. Os mais pessimistas e cabalísticos verão certamente ameaças mais pesadas. Mas talvez a Mafaldinha tenha razão: o verdadeiro perigo estará na incapacitação da inteligência natural e na propensão para o abismo que as sociedades por vezes revelam. E, de facto, a propensão para o abismo assume hoje proporções inquietantes.