quarta-feira, 20 de maio de 2026

ZAPATERO: APENAS MAIS UM?

Entre um achincalhante qualificativo de “comissionista internacional” caçado pela justiça, como refere o nada meigo e duvidosamente isento “El Mundo”, e acusações de corrupção, liderança de uma rede de tráfico de influências e cabeça de uma estrutura criminal estável e hierarquizada, José Luis Zapatero voltou às primeiras páginas de todos os jornais espanhóis pelas piores razões, embora de algum modo já expectáveis a partir das muitas informações que têm circulado sobre as suas atividades subsequentes ao período em que exerceu o cargo de presidente do governo (como foi o badalado caso do seu relacionamento próximo com a Venezuela de Maduro). Ainda em fase de presunção de inocência, Zapatero está de algum modo numa situação similar à do nosso José Sócrates, i.e., acusado mas não condenado, sustentando o seu permanente respeito pela legalidade e sendo encarado pela opinião pública do país como culpado indesmentível de ilicitudes múltiplas forjadas a partir de tipos variados de relacionamentos que o exercício político lhe abriu.

 

A pergunta que se impõe é sempre a mesma: porque não há limites para a ganância desta gente? E porque será que a dominante nos seus conflitos íntimos tende a ir no sentido de sobrepor essa ganância à ambição de poder e visibilidade, à vaidade pessoal e a um são reconhecimento coletivo? E porque será, mais prosaicamente, que eles não atentam nos exemplos falhados e frequentemente desgraçados dos vizinhos do lado? Quanto à resposta, tenho de me ficar pelas lições que extraí da História – dos imperadores de tantos impérios antigos aos ditadores dos tempos modernos –, pelas abordagens que inúmeros intelectuais nos legaram – sempre com a tal “banalidade do mal” a planar nas essências – e pelas perceções que me chegam da vida comum – há um primado do “eu” que cresce desmedidamente à medida que vamos incorporando o que nos rodeia com olhos de ver – para concluir pela incorrigibilidade da crise moral em que flutuamos sem que um qualquer contraponto exemplar de elites dignas desse nome nos ofereça um possível sustentáculo sólido de diferença.


(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

terça-feira, 19 de maio de 2026

O CDS EM EXISTÊNCIA ASSISTIDA

Nuno Melo vive o momento áureo da sua carreira (?): após um passado recente de hesitações de toda a espécie sob o disfarce de uma prolongada função de eurodeputado em que se arrastou pelas cadeiras de Bruxelas e Estrasburgo, acabou por se decidir a tomar conta de um CDS-PP em extinção e conseguiu, nesse quadro, encontrar forma de o conseguir ao tornar-se o emplastro de Luís Montenegro (LM), ajudando a ressuscitar uma AD requentada e já nada auspiciosa. Como a sorte sorri aos audazes, LM ganhou as eleições à tangente e fez dele ministro da Defesa Nacional (lugar que desempenha com notório agrado pessoal e dos seus acólitos, gafes para debaixo do tapete à parte).

 

No último fim de semana, o partido lá teve de fazer o seu congresso e, portanto, Melo desdobrou-se em entrevistas e declarações sob o signo que o “Público” tão bem descreveu como o seu dilema: “sobreviver na AD ou existir sozinho” (Paulo Baldaia, no “Expresso”, caraterizou o dito dilema como “entre ser o atrelado de duas rodas ou o partido da mota”). Entretanto, e enquanto “o pau vai e vem”, a habilidade de Melo levou-o a saber folgar as costas, quer explicando aos “laranjinhas” que um CDS a votos sozinho levaria a que o PSD pudesse perder o poder em favor do PS ou do Chega, quer manifestando ao seu pequeno e embevecido povo uma vontade férrea de que o partido seja maior no futuro, quer tirando da cartola que “o CDS é um viveiro de talentos” como modo de retorquir a quem lhe lembrava as muitas saídas de militantes que têm vindo a ocorrer.

 

No cômputo geral, e pondo de lado as crenças virtuais de que Melo se socorre para prolongar o seu estatuto liderante, a verdade é que o CDS já era. Por um lado, porque tem perdido os seus melhores e mais credíveis quadros (e não falo apenas de António Lobo Xavier ou António Pires de Lima, mas também de Adolfo Mesquita Nunes ou Filipe Lobo d’Ávila ou até do renascido ex-líder Francisco Rodrigues dos Santos, para não sublinhar ainda as ausências por Alcobaça de Cecília Meireles ou Assunção Cristas, entre várias outras de relevância enquanto compagnons de route do partido), estando cada vez mais circunscrito a um pequeno séquito de seguidores acéfalos do presidente (como se observa na empregabilidade dominante nas lides locais, como se viu claramente no Congresso, e como decorre dos quase 90% nele obtidos junto dos delegados). Por outro lado, porque está representado na Assembleia da República por um personagem reacionário até à última potência (Paulo Núncio), o que poderia não ser um mal por si só (pese a sua objetiva proximidade “chegana”) se não acumulasse com o facto de ser demonstradamente capaz de jurar o que for preciso para tentar fazer valer as suas (não) razões – e foi sem grande espanto que o vimos impor a sua ideia imaginariamente diferenciadora de avançar autonomamente em matéria de revisão constitucional... Por fim, porque a passagem do tempo e das vicissitudes de mudança que o acompanham não favorece um partideco sem ideias (vejam-se as improcedentes declarações do novo porta-voz João Almeida sobre os maiores problemas sentidos pelos portugueses no primeiro dia do Congresso) e, portanto, porque a única voz lúcida e razoável que passou por Alcobaça foi a de Diogo Feio quando veio propor aos seus companheiros de desdita que se deixassem de músicas celestiais e pensassem seriamente em algo de útil e estratégico, a saber, uma “Aliança Democrática Liberal” traduzida num bloco constituído por PSD, CDS e IL, assim se logrando forjar uma recomposição partidária gerida em lugar de uma situação em que todos acabem submetidos ao desfecho funesto que é inevitável para uns e que parece difícil de evitar para outros.

 

Não obstante, nada disto parece penetrar a couraça da indiferença de Nuno Melo, inebriado pelo sucesso da sua própria sombra. Embora também possa vir a valer uma outra verdade, a de uma realidade que é frequentemente mais dinâmica do que dela se espera – o que leva a que não me espantasse que alguma hoje imprevisível aceleração dos acontecimentos pudesse vir a impor-se em sentido contrário às expectativas daqueles que são os atuais membros de uma espécie de comissão liquidatária da democracia-cristã portuguesa...

A USURA DO TEMPO BANALIZA A EXTREMA-DIREITA

 

(A persistência da banalidade do mal na sociedade contemporânea segundo Clarice Lispector)

(Ainda na sequência do lio eleitoral em que o PP espanhol está mergulhado com a perda da maioria absoluta na Andaluzia, lio esse que se estende à política espanhola e à governabilidade do país, formulo complementarmente algumas reflexões sobre o significado político do descalabro generalizado que atinge o centro-esquerda praticamente por toda a Europa. O facto da extrema-direita que aguarda expectante a possibilidade de influenciar a governação em muitos países, realidade em meu entender já em curso, tem sido apontada por muitos analistas como exemplo de assinalável resistência democrática e também como oportunidade de preparação de alternativas de governação por parte do centro-esquerda. Se é verdade que na grande maioria dos países o acesso à governação por parte da direita radical tem sido, o que não significa, repito, inexistência de influência na governação, já a emergência de alternativas geradas pelo centro-esquerda tem sido um deserto completo. O que traduz razões profundas ainda não debeladas para o afastamento do poder, seja a grave perda de confiança que sofreu por parte do eleitorado mais desfavorecido, seja a ausência de rumos de esperança para os mais novos. Mas, em meu entender, a presença continuada e expectante da direita radical à porta da governação gera outros efeitos, bem menos positivos do que os sinais de resistência democrática ou do que a abertura de oportunidades de regeneração do centro-esquerda. Era sobre esses outros aspetos que gostaria de organizar o post de hoje, enquanto o Alfa Pendular cada vez mais irregular e incapaz de cumprir horários me vai levando a Lisboa para o lançamento de mais um trabalho de avaliação. Tem sido, de facto, esquecido, que onde alguns pressentem o estancamento da extrema-direita, existe um risco sério de habituação do eleitorado a essa presença expectante, o que a meu ver pode conduzir a uma espécie de normalização política da extrema-direita, ou se preferirem à banalização das suas propostas de desmantelamento das instituições democráticas. Este sim é um perigo real, tanto mais relevante quanto mais insistentes e graves forem os problemas de governabilidade gerados pela incapacidade de alternativa do centro-esquerda e pela ausência de maiorias estáveis lideradas pela direita moderada.)

Esta reflexão foi-me sugerida pela pena do jornalista galego Fernando Salgado que, a propósito das eleições andaluzas, escreve na VOZ DE GALICIA que Abascal, o líder truculento do VOX, deixou de assustar o eleitorado espanhol (com a exceção da Galiza em que o PP continua a dominar), não podendo considerar-se que a sua influência política esteja estagnada (ganhou mais um deputado regional face `eleição anterior). O não provocar medo ao eleitor mediano não é senão uma outra maneira de dizer que a presença do VOX está banalizada. Em que é se traduz essa banalização? Traduz-se na evidência de que, apesar da insistência na dissolução democrática, revanchista ou não, isso depende de cada situação concreta, passa a ser considerada um elemento do xadrez político-partidário. O que é a mesma coisa que admitir que as famigeradas linhas vermelhas tendem a dissipar-se e a ser inconsequentes.

É óbvio que este modelo global de interpretação não pode deixar de ser aprofundado à luz de cada situação concreta que as posições expectantes e à porta do poder da extrema-direita europeia apresenta. A título de exemplo, as estratégias do Chega (Portugal), VOX (Espanha), Rassemblement National de Bardella-Le Pen (França) ou AfD Alemanha) podem partilhar elementos comuns e uma carta internacional do desaforo democrático, mas não deixam de projetar elementos específicos no seu trajeto, pelo que poderemos estar perante níveis diferenciados de intensidade e de formas de banalização da sua presença. Mas existe um elemento determinante que é também comum – os problemas de governabilidade que os países apresentem.

Daqui retiro uma importante consequência para o centro-esquerda. Enquanto discute e prepara alternativas de governação, diga-se que não estou otimista quanto aos sinais de que isso esteja a acontecer, o centro-esquerda debate-se com uma interrogação fundamental: deve facilitar a vida, com acordos pontuais, à direita moderada que não quer governar com a direita radical ou, pelo contrário, ao negar esses acordos e essa condescendência, deve precipitar a concretização desse abraço entre as duas direitas, a moderada e a radical?

Tempos difíceis e decisão ainda mais complexa.

De qualquer modo, existe um trabalho de sapa que é compatível com qualquer uma das duas alternativas – combater a banalização do mal que a habituação à extrema-direita tende a provocar.

E a história mostra-nos com clareza quão importante é combater a banalização do mal.

 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

AS REGIÕES NAS TRÊS GRANDES POTÊNCIAS MUNDIAIS

(Construção própria a partir de https://data.worldbank.org) 

(Construção própria a partir de https://data.worldbank.org)

 

Por ocasião da visita de Trump a Xi, e tendo ouvido Henrique Raposo a explicar-nos na “SIC Notícias” a relação entre o nível de desenvolvimento e o descontentamento eleitoral no Reino Unido com base num gráfico (apresentado como uma descoberta deslumbrante!) contendo os diferenciais de PIB per capita regional no país, decidi-me a ir à procura dos equivalentes gráficos nos EUA e na China (ver acima). Assumindo sem questionar todas as restrições que se colocam à relevância do PIB por habitante na medida do desenvolvimento dos países e regiões (ademais quando se trata de sistemas económicos que não cabem na categoria de economias de mercado convencionais), o que se observa pode ser sintetizado em três notas sumárias: (i) a China situa-se a menos um terço do nível médio americano; (ii) os estados que integram os EUA, e abstraindo do outlier que constitui o Distrito de Columbia, espalham-se entre um máximo de 135,7% para Nova Iorque e um mínimo de 62,4% para o Mississippi; (iii) as regiões da China, por sua vez, apresentam um diferencial de registos que se estende entre um máximo de 75% para Beijing e um mínimo de 17,4% para Gansu, sendo dois os casos de valores máximos em torno de três quartos do nível médio americano – Beijing e Xangai, um único (Jiangsu) a ultrapassar os 50% desse nível médio e surgindo quatro regiões colocadas abaixo de 20% desse mesmo nível.

 

Para se ter uma ideia mais cabal do que os valores acima representam em termos relativos – tomando a nossa realidade europeia por referência –, vejam-se os dois gráficos abaixo, os quais procuram posicionar os estados americanos mais ricos e menos ricos por comparação a regiões europeias com níveis de PIB por habitante equivalentes e, subsequentemente, fazer o mesmo quanto às regiões chinesas mais e menos ricas. Algumas considerações a propósito, começando pela comparação com os EUA e pelas regiões mais ricas: Nova Iorque apresenta valores muito próximos dos da Região-Capital de Bruxelas e sucessivamente tal se verifica entre Massachusetts e a Holanda do Norte, Washington e a Grande Londres, Delaware e Budapeste, Califórnia e Utrecht, Dakota do Norte e Île-de-France ou Connecticut e a Região-Capital de Varsóvia; por seu lado, as regiões mais pobres dos EUA apresentam as seguintes situações europeias similares: Mississippi com Castela-Leão, West Virginia com Provence-Alpes-Côte-d’Azur, Arkansas com a Suécia Central Oriental, Alabama com as Ilhas Baleares, Kentucky com a Toscânia, Oklahoma com Flevoland, Idaho com a Inglaterra do Sudeste e a Carolina do Sul com a Catalunha. 

(Construção própria a partir de https://data.worldbank.org) 

Seguindo a mesma lógica, e no tocante às regiões chinesas, temos a mais rica (Beijing) ao nível da Catalunha, a segunda mais rica (Xangai) ao nível da Dinamarca do Norte e a terceira ao nível da Eslovénia Oriental, estando as mais pobres a níveis apenas comparáveis às igualmente mais pobres da Bulgária. De notar ainda que o valor médio da China se situa entre os das regiões gregas de Aegean do Norte e de Epirus, sendo tal valor significativamente inferior ao da NUT2 portuguesa mais desfavorecida (Península de Setúbal).


(Construção própria a partir de https://data.worldbank.org)

 

Em suma: tudo isto vale o que vale, que é simultaneamente muito em termos indicativos e que pode acabar por ser pouco em termos substantivos. Ficam os dados para informação e melhor análise dos nossos dedicados leitores.

O PP EM APUROS

 

(A política espanhola está cada vez mais paradoxal e imprevisível. O PP de Feijoo teve nas eleições regionais da Andaluzia uma vitória significativa, com 53 deputados regionais para 55 de maioria absoluta, e mesmo assim, apesar dessa vitória, o título “em apuros” justifica-se. Contrariando a grande maioria das sondagens publicadas, o discurso moderado de Juan Manuel Moreno Bonilla, que havia conquistado a maioria absoluta nas últimas eleições, não conseguiu reeditar essa maioria, ficando assim dependente do VOX para poder governar. O que anuncia consequências obscuras para a governação na região e no país, até porque o PSOE não vai poder adiar por muito mais tempo a realização de eleições legislativas. Nem a ida a jogo eleitoral da ex-Ministra das Finanças Maria Jesús Montero, nome forte do PSOE, conseguiu suster o declínio estrutural do partido na região, que perdeu inclusivamente mais dois deputados, de 30 para 28, quase metade dos 53 alcançados pelo PP. É difícil imaginar num cenário deste tipo a não formação de um acordo político entre o PP e a extrema-direita do VOX. No PP, Isabel Diaz Ayuso deverá ter exultado com este resultado e, ao contrário do que começava a projetar-se, o estancamento do VOX em Espanha não é real e aí está a Andaluzia, no passado socialista dos sete costados a contrariar essa tese e a justificar a cada vez mais insistente orientação do comentário político mais à direita em Espanha que o acordo de governo entre o PP e o VOX é inevitável. A queda acentuada do PSOE e a degradação da sua imagem através dos casos de corrupção que estão por agora em tribunal impedem a formação de qualquer aproximação à esquerda para impedir a nível nacional essa aproximação entre o PP e o VOX. Por outras palavras, o papão desse acordo de governo já não assusta ninguém e, mesmo que assuste, o problema é que não existe qualquer maioria política alternativa para a sustentar.)

Dos resultados de ontem na Andaluzia é essa a principal ideia que ressalta da consulta eleitoral. À esquerda do PSOE, a única novidade é o crescimento efetivo da formação política regionalista ADELANTE ANDALUCÍA, que roça os 10% e superou claramente a outra formação de esquerda regionalista POR ANDALUCÍA, sendo na prática a formação que com o seu crescimento arrebatou a maioria absoluta ao PP.

Em resumo, no país e na região andaluza, está criado um plano inclinado para abrir caminho a um acordo de governação entre o PP e o VOX, contrariando a imagem de moderação que, mais decididamente Moreno Bonilla e mais timidamente Feijoo têm querido traçar para Espanha. Será que o PP vai resistir a esse plano inclinado e procurar acordos pontuais de governação com formas políticas mais moderadas do que o VOX?

Quanto ao PSOE de Sánchez, a elasticidade de ser forte lá fora para manter a governação cá dentro tem os seus limites e prazo de validade. Antecipando eleições ou conservando teimosamente o poder até às últimas, nada parece poder evitar a chegada ao poder do PP. Se o vai fazer por via da moderação negociada ou se, pelo contrário, o fará abrindo o caminho ao radicalismo revanchista do VOX essa será a única interrogação. Não ignoremos que, num país claramente mais excessivo do que o nosso, quando falamos de revanchismo falamos de acontecimentos e práticas bem mais graves do que o ressuscitado reacionarismo estrutural do CDS pintado de antiwokismo ou de tiradas anti-movimento LGBT.