(Dias de regressada canícula e agitação de tarefas pessoais além do normal explicam o afastamento do blogue de alguns dias, com relevo particular para o 50º aniversário do meu filho mais velho, que ele quis festejar na aprazível parte comum do condomínio de Seixas, cuja fruição me faz frequentemente refletir sobre o sentido da vida. Atingir o limiar de poder ter um filho com 50 anos e alegria e bem-estar para os festejar não é coisa pouca, e este setembro proporcionou-nos um sábado de excelência e onde os amigos e família mais próximos do aniversariante tiveram as condições ideais para socializar. O impacto desse acontecimento do foro pessoal impediu-me de partilhar com os leitores e amigos a notável e enriquecedora experiência que tive sexta-feira passada no INESC TEC participando num painel sobre inovação e sobre os rumos possíveis e desejáveis que a nova Agência de Inovação, a AI2, deverá prosseguir, discutindo essas ideias com o coletivo pensante daquela interface que tenho seguido com atenção e afeto, designadamente o processo do seu rejuvenescimento de personagens diretivas. Este vosso Amigo teve a honra e a bela oportunidade de trocar reflexões com um conjunto de interventores, moderados pelo Professor João Claro, atual presidente da Direção do INESC TEC, composto por dois empresários e investigadores de grande gabarito, António Murta e Manuel Parente e pelo Amigo de longa data Paulo Fernandes, ex-Presidente da Câmara Municipal do Fundão, a quem foi atribuída a espinhosa tarefa de dirigir a estrutura de Missão criada para intervir na reconstrução das áreas da região Centro, designadamente Leiria, devastadas pela intempérie sobejamente conhecida dos portugueses. Uma indisposição momentânea tirou-nos a possibilidade de contar com a colega da FEP Professora Aurora Teixeira.)
As regras propostas pelo INESC TEC para o funcionamento do referido painel, designadas pelo modelo da Chatham House Rule, permitem-nos que falemos posteriormente do debate ali realizado, sem, contudo, referir as autorias das ideias que gostaríamos de salientar. Mas posso dizer-vos que a qualidade do debate foi excelente e, do ponto de vista dos meus interesses, foi sobretudo reforçada pelo facto de nunca ter privado seja em público, seja em privado com os empresários e investidores António Murta e Manuel Parente, o que para mim foi uma oportunidade rara de contactar tão de perto com gente que tem a inovação entranhada no seu quotidiano e nas suas decisões de criação de valor.
Não me compete aqui, pelas razões atrás referidas, comentar com pormenor ideias concretas desenvolvidas pelos diferentes intervenientes, relembrando que em post anterior apresentei sumariamente o meu ponto de vista reflexivo de abertura para o debate.
Interessa-me sobretudo realçar que nas áreas da ciência e da tecnologia em saúde e da robótica marinha, uma das dimensões mais tecnológicas da economia do Mar, para a qual a economia portuguesa continua a precisar de um desígnio nacional, começamos a ter hoje um tecido empresarial de nova expressão bastante mais disruptivo do que o panorama geral de inovação incremental que dominou a economia portuguesa, sobretudo nos setores de atividade em que sabemos fazer coisas e onde pode falar -se de um saber-fazer coletivo industrial. Foi também possível compreender lateralmente o setor de topo dos moldes atravessa hoje uma forte ameaça chinesa, descrita numa evidência que considero arrepiante: os industriais nacionais compram hoje uma unidade de aço para a construção dos moldes que sabem fazer e bem a um preço que é praticamente idêntico ao do molde que podem importar da China, aliás com qualidade crescente e reconhecida.
Duas evidências revolucionárias cruzaram algures o debate: em Cantanhede, no BIOKANT, existe uma empresa portuguesa que pode muito proximamente concretizar a primeira vacina mundial contra as bactérias resistentes (sim também fiquei de cara ao lado e em pulgas); no Porto, existe uma outra empresa, a SWORD HEALTH que pode transformar-se proximamente a empresa mundial mais importante em matéria de processamento de dados de saúde para todo o mundo, podendo derrotar a Palantir UK.
Já noutros momentos este debate foi travado. Até que ponto alguns exemplos verdadeiramente disruptivos no rejuvenescimento da nossa capacidade produtiva serão suficientes para quebrar o primado do incremental e abrir um caminho novo de inovação na economia portuguesa?
Independentemente da massa crítica de projetos disruptivos, a sua simples existência mostra que eles são possíveis e alguns deles com ambição mundial, como o são claramente os dois exemplos anteriormente mencionados. Os livros mandam que sejam bem estudados e que sejam identificadas as condições de replicação e escalamento. Caso se conclua pela sua excecionalidade, não são menos importantes por isso. Nessas condições, quanto mais tempo permanecerem em mãos portuguesas melhor será. Mas algum dia atrairão o interesse dos grandes investidores internacionais, como consequência de terem sido projetados com essa ambição mundial. Nesse caso, o fundamental será encontrar sucessores e novos exemplos disruptivos.











