quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

PARA ENCERRAR OS ASSUNTOS DA BOLA...

(cartoon de Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt)

 

Continuo no tema por razões atendíveis. Primeiro: afinal, e ao invés do que aqui prognostiquei convictamente, não tinha sido assim tão impossível o Benfica ter eliminado o Real Madrid no Bernabéu; porque na realidade a equipa espanhola mostra fragilidades como há muito tempo não ocorria, o “Record” de hoje refere acertadamente que “era possível”... – e vou mesmo mais longe, afirmando que no sorteio de amanhã o Sporting deve rezar para que lhe saia o Real e não aquele Bodø Glimt que passeou em Milão e de que aqui falei ontem. Segundo e mais relevante: a questão do racismo corresponde a uma causa inquestionavelmente justa e insuscetível de transigências, mesmo que o protagonista seja um jovem de 20 anos deslocado do seu ambiente – daí que insista na ideia de que o Benfica não tem uma administração à altura de enfrentar problemas bicudos com a firmeza e inteligência que teriam sido requeridas, assim como daqui inste todos os verdadeiros adeptos futebolísticos a porem a mão na inconsciência que os faz macaquearem gratuita e criminosamente a diferença de alguns dos seus semelhantes e a desse modo ainda virem comprometer os seus clubes de eleição com atuações profundamente inapropriadas nas bancadas dos respetivos estádios; Prestianni vai ser castigado com dureza, o Benfica também pagará pelos factos (além da perda de prestígio internacional a que já não escapa), o irresponsável Rui Costa prosseguirá as suas roedelas de unhas enquanto assiste ao desenrolar dos jogos encarnados e creio poder vaticinar que a pedagogia que uma cultura de decência e racionalidade imporia perante os acontecimentos da Luz não vai impor-se nos campos deste nosso desgovernado País. Assunto encerrado, pelo menos por ora.

UM GOLPE QUE JÁ ERA CONHECIDO E UM OUTRO QUE CONTINUA OBSCURO

 


(A vizinha Espanha está irreversivelmente polarizada e, por isso, qualquer coelho da cartola que o Governo de Pedro Sánchez decida colocar cá fora tem sempre uma dupla e oposta interpretação – a direita considera que é um lança fumo para confundir os espanhóis e a esquerda uma medida contra a força da extrema-direita que aspira a sequestrar a democracia e o PP. Assim aconteceu com a decisão governamental de desclassificar todos os documentos relativos ao golpe militar de 23 de fevereiro de 1981 que visava derrubar o governo de Adolfo Suaréz. Embora 45 anos seja uma eternidade e a memória já não seja a de outros tempos, a verdade é que me recordo com nitidez das imagens do Ex-Tenente Coronel Antonio Tejero irrompendo aos tiros pelo Congresso dos Deputados, o Parlamento espanhol. O destino guia-se por linhas muito enviesadas e no dia em que a desclassificação de documentos foi concretizada morreu o dito ex-Tenente Coronel Tejero, figura da frente do fracassado golpe, desfecho que mereceu então à sua mulher o curioso desabafo de “Está tudo perdido? É verdade? Que partida de maricões!”, bem ao jeito de alguém fortemente identificado com o franquismo. Pelo que tenho lido de excertos da documentação através de jornais espanhóis, concluo com uma certeza do que já era conhecido e a confirmação de dúvidas que já existiam. Explicar-me-ei.)

Na documentação a que agora se tem acesso, é indiscutível que surge anulada qualquer suspeição sobre o eventual papel dúbio que o antigo Rei Juan Carlos I terá desempenhado no processo. Antes de se ter dedicado às caçadas de elefantes e ao enlevo de mulheres sedutoras e se ter envolvido com o universo dos petrodólares, parece indiscutível que o monarca se afirmou nos acontecimentos com uma defesa intransigente do sistema democrático, valha-nos isso para pelo menos ter uma referência na história antes da queda para o abismo. Todos os documentos agora desclassificados não identificam em momento algum contactos de Juan Carlos I com os golpistas, antes pelo contrário mostram uma série de comunicações do monarca para que o processo terminasse imediatamente, com relevo para as ordens dirigidas ao Tenente-General Jaime Milans del Bosch, Capitão-Geral da Terceira Região Militar, com sede em Valência, ao qual Tejero reportava. Afinal, nada que não corresponda à imagem que foi criada sobre o papel de rejeição do golpe que era atribuído a Juan Carlos I. Para quem imaginou poder haver indícios de que tal ideia positiva corresponderia a uma narrativa romanceada do papel do então Rei, preparada pela Casa Real, sai defraudado.

O que permanece interrogado é o papel que desempenhou no processo um outro militar, o General Alfonso Armada, condenado também como Tejero e Milans del Bosch. Vários documentos agora desclassificados confirmam a referência a uma “solução Armada”, inicialmente invocada por Milans del Bosch para convencer o Rei de que o afastamento de Suaréz seria a solução mais adequada. Segundo o que agora foi divulgado, essa solução visava aproveitar a crise golpista para propor um Governo de Concentração Nacional, presidido pelo próprio General e formado por políticos de todo o arco parlamentar. Ora, a identificação das condições que terão ajudado a construir essa ideia, que cheira a tentativa do franquismo de recuperar o comando político, continua obscura e a desclassificação dos documentos do 23 de fevereiro em nada ajuda a esclarecer. Estou assim de acordo com o editorial do El Rugido del León do El Español, que sintetiza tudo numa simples frase: “Sabemos tudo sobre o golpe frustrado que aconteceu, mas continuamos a não saber nada sobre o golpe que não chegou a materializar-se.”

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O QUE VALERÁ ESTE GOVERNO DEPOIS DAS TEMPESTADES?

 


(A imaginação de escrita não está fértil e o contexto nacional e internacional não ajuda. No plano internacional, quatro anos de guerra na Ucrânia pontificados pela cínica frieza russa, pela basófia transacional de Trump e pelas inconsistências europeias, não basta clamar pela brava resiliência de quem é agredido, mas ajudar é preciso com euros e armas, deitam abaixo qualquer um. Para mais, sermos presenteados com a cena trágico-cómica de um narcisista compulsivo a fazer durante duas horas o discurso do Estado da Nação americana, cheio de contradições e deturpando evidências, desafia o espírito positivo de qualquer um. De facto, comparando com quatro indicadores simples a economia americana de janeiro de 2025 com a situação atual, taxa de desemprego, empregos criados relativamente ao ano anterior, inflação central e perspetivas do mercado de trabalho, não se compreende onde está o desempenho económico excecional com que Trump se apresentou, espelho meu, espelho meu, quem é o tipo mais mentiroso do que eu? No plano nacional, a grande interrogação parece ser a de será este Governo capaz de governar de outro modo que não seja a efemeridade dos “power points”, que se apresentam e arquivam e que não dão origem a qualquer monitorização crescente? Não posso deixar de recordar que, nos piores momentos do segundo governo de António Costa, a política praticada enfermava do mesmo mal. O peso da comunicação na política e na governação tornou-se insuportável, a efemeridade do momento comunicacional sobrepõe-se a qualquer esforço sério de implementar soluções. E daí que seja legítimo perguntar o que valerá o governo de Montenegro após as tempestades?).

A história económica diz-nos que processos de reconstrução infraestrutural e económica dão, regra geral, origem a períodos de relação virtuosa entre investimento e crescimento. Mas, no estádio de desenvolvimento e de mudança estrutural em que o país se encontra, a variável da construção, sobretudo num contexto em que o período final da implementação do PRR exerce uma pressão brutal sobre a construção e sobre a capacidade empresarial existente, pode através do complemento do PTRR não proporcionar o adicional de crescimento necessário para completar, prolongando, o efeito do PRR tal como foi concebido.

Muitas das empresas que podem beneficiar de apoios para repor a capacidade produtiva existente antes das intempéries pode concretizar os investimentos necessários e deparar-se com uma situação internacional cheia de incertezas, não sendo ainda totalmente claro o modo como a economia portuguesa se posicionará face à reestruturação das cadeias de valor globais. A aleatoriedade da política aduaneira da administração Trump nem sequer permite com seriedade estimar o impacto das sobrecargas aduaneiras sobre as exportações portuguesas para o mercado americano. Os empresários portugueses costumam ser hábeis na procura de mercados alternativos, mas não se trata de operações instantâneas de diversão de exportações, isso leva tempo e procurar parcerias de distribuição em novos mercados não se concretiza no tempo de um clique.

Creio que a adição da governação pela comunicação de show-off torna difícil a expressão de um discurso mobilizador entusiasmante e suscetível de colocar o país num registo de recuperação e de refazer as coisas destruídas. É isso que me parece estar a acontecer. Não abundam as ideias simples, mas fortes para agigantar um esforço coletivo. Não é facilmente que se readquire o domínio do timing político e do efetivo discurso de mudança face ao poder das assessorias de comunicação, quando estas últimas estão instaladas e comandam a agenda.

A interrogação tem, pois, sentido. O que valerá esta governação após as intempéries?

Salvo algumas críticas muito seletivas e globalmente pouco expressivas, a indicação do antigo Diretor da Polícia Judiciária para Ministro da Administração Interna deu algum fôlego a Montenegro. Das dúvidas suscitadas, a que me parece que vale a pena monitorizar futuramente é a questão de saber se o novo Ministro mantém no seu discurso aquilo que frequentemente afirmava em público, dizendo que era necessário distinguir entre perceção de insegurança e informação objetiva sobre a mesma. Estou curioso em antecipar como é que Luís Neves conviverá no Conselho de Ministros com Leitão Amaro em matéria de segurança. A questão suscitada por pessoas como Passos Coelho entendendo como má prática a passagem da Polícia Judiciária para o Governo assenta na comparação com a situação de um regulador que assume funções ministeriais, o que me parece um pouco fantasiosa.

Mas retirando o novo fôlego para a Administração Interna e a prestação positiva que a Ministra do Ambiente teve na crise das cheias, a sensação é que alguns Ministro passaram a zombies errantes, passeando-se pelas intempéries com contradições de discurso entre si e deixando antever a inexistência de coordenação política.

Neste contexto, a questão das alianças para aprovar legislação que necessite de validação parlamentar até corre o risco de nem ser o problema fundamental. Porque para haver alianças é necessário saber o que se quer. Se a legislação laboral é o mote para o que vem aí, seguramente que Seguro não terá vida fácil em Belém.

 

OUTROS FUTEBÓIS

 

Hoje venho aqui falar de outros futebóis. No caso, de um modesto clube norueguês, nascido numa pequena cidade a norte do país (Bodø), detentor de um estádio (Aspmyra) com pouco mais de 8000 espetadores de lotação, treinado pelo mesmo treinador de origem nacional (Kjetil Knutsen) há mais de oito anos, cuja principal estrela é um jovem local de 26 anos (Jens Petter Hauge) avaliado pelos especialistas em 4 milhões de euros e que alinha com nove noruegueses no “onze” inicial.

 

Pois foram estes rapazes que ontem afastaram o milionário Inter de Milão da Champions, vencendo gloriosamente por 2-1 em São Siro depois de já terem vendido por 3-1 em casa. Assisti aos dois jogos pela televisão porque assim a sintonizei para observar o que suspeitava e desejava que pudesse vir a ser mais uma boa surpresa do desporto-rei no seu melhor, embora deva também confessar que fiquei com um fraquinho pelo Glimt desde que acompanhei o meu FC Porto à simpática cidade de Bodø em setembro de 2024 (derrota não muito convincente por 3-2) e então compreendi o “segredo” do coletivo e da boa gestão ali discretamente instalada (incluindo uma cirúrgica negociação do retorno de atletas saídos para clubes europeus – como o AC MIlan, o Eintracht, o Lens, o Feyenoord ou o Brondby – e regressados a custo zero ou próximo disso).

 

A imprensa italiana de hoje refere o desastre, a desilusão e 20 milhões a voarem mas acaba por admitir que não houve razões de desculpa por parte dos milaneses – e a realidade foi a de um autêntico baile de tática e classe! –, salientando também o alarme instalado no calcio por via das prestações italianas (a Juve vai hoje a Istambul à procura de uma remontada de três golos contra o Galatasaray e a Atalanta tenta hoje em Bergamo recuperar uma vantagem de dois golos ao Dortmund), enquanto a análise dos noruegueses é simplesmente mais objetiva e apenas considera que algo de bizarro ocorreu fora do quadro mais previsível. Não creio que o Fotballklubben Bodø/Glimt seja capaz de ir muito mais longe nesta sua caminhada europeia mas não deixa de ser um facto que, no início, também poucos valorizaram a novidade que veio a ser o Ajax de Rinus Michels.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

QUATRO ANOS E A HIPÓTESE DE UMA BOA NOTÍCIA!


(Stephen Lillie, https://www.theguardian.com) 

Passam hoje quatro anos sobre o início da “operação militar especial” da Rússia de Putin na Ucrânia. Como sempre acontece quando olhamos a vida para trás, quatro anos que tanto correram desenfreadamente como, em simultâneo, tanto foram marcados por uma desesperante lentidão numa perspetiva de enfrentamento do abuso e da injustiça (que não cessaram de recrudescer e de ultrapassar sucessivos níveis máximos de suportabilidade). A entrada em cena, a meio do processo, de Donald Trump mais não serviu do que para lançar a confusão nas hostes capitaneadas por um Zelensky indómito e corajoso – e que persiste na sua crença numa causa que parecia impossível –, com a União Europeia a manter o seu apoio incondicional à resistência da Ucrânia a despeito de algumas hesitações e das tentativas de obstrução por parte dos divisionistas internos ao serviço de Putin.

 

Neste quadro a boa notícia possível será, como já aqui foi assinalado, o facto do “regresso de umas férias da História” que a Europa não para de sinalizar através dos seus principais líderes em funções (por muitos encarados como fracos mas bem mais firmes e consistentes do que os que tanta distração e autocentramento evidenciaram nas duas ou três últimas décadas (ou seja, após Delors, Kohl, Mitterrand e Thatcher) – os defeitos de Ursula são demasiados mas disputam bem, pela positiva, a complacência subserviente de Santer, Prodi, Barroso e Juncker; a decência de Merz tem pouco a ver com o oportunismo de Schröder, o falso sentido estratégico de Merkel ou a inexistência de Scholz; a voluntariosa vaidade de Macron contrasta marcadamente com a incapacidade fundamental de Chirac, Sarkozy e Hollande; a atitude bem-intencionada de Starmer surge como uma bênção concedida aos britânicos depois da terrível sucessão de oito incapazes, incompetentes ou doidos (Major, Blair, Brown, Cameron, May, Boris, Truss e Sunak). O chanceler Merz deixou-o muito claro no seu discurso inaugural da Conferência de Segurança de Munique – e se assim for realmente, Deus lhe(s) dê vida e saúde...