
(Mesmo
com 83 anos de idade e hoje com nova produção teórica praticamente nula, qualquer
entrevista ou tomada de posição de Joseph Stiglitz, prémio Nobel de Economia em
2001, é um acontecimento relevante. Stiglitz é como, por exemplo, Paul Krugman,
um dos economistas que, embora mantendo-se fiel ao formalismo económico
matemático, cedo se manifestou contra a utilização política do mainstream da
teoria económica, construindo visões alternativas e mais progressistas para a
política económica. Os seus trabalhos sobre a informação imperfeita e as suas
consequências para a leitura consequente dos mercados sempre acrescentaram à
teoria macroeconómica uma densidade de realismo que o conduziu justamente ao
Nobel. A sua fidelidade ao formalismo económico matemático valeu-lhe algumas
inimizades e pronunciamentos críticos entre os macroeconomistas mais ativistas,
mas em meu entender a sua obra mostra-nos que, mesmo o quadro desse formalismo
matemático, pode ser-se conscientemente diferente. A entrevista telefónica que o El País publicou com o
economista americano suscitou.me reflexões que vale a pena trazer para este
blogue que, entre os seus objetivos, tem também o de conceder notoriedade a uma
outra maneira de fazer macroeconomia, procurando contribuir para a incipiência
do debate público com origem na academia, panorama que contrasta fortemente com,
por exemplo, a sempre aninada academia americana.).
Obviamente que na entrevista do El País Stiglitz zurze
com veemência a ameaça antidemocrática de Trump, mostrando que por detrás do “cow-boy”
Trump não existe nenhuma teoria económica válida a suportá-la, mesmo que o
secretário de Estado Bessent se esforce, por vezes por tentar mostrar o
contrário. Assim foi com o caso dos direitos aduaneiros arbitrários que Trump
impôs a seu belo prazer, mas rapidamente se compreendeu que essa fundamentação
económica tinha pés de barro e era inconsequente, além de contrariada pela
evidência empírica conhecida. Mas essa não é a matéria mais interessante da
entrevista. A matéria mais relevante é fornecida pela reflexão que o economista
americano elabora sobre a desigualdade na economia americana, mas que pode sem
grande dificuldade se estendida a outras economias avançadas.
Se excetuarmos o chamado período de ouro do capitalismo
ocidental, os anos 50 e 60, período que o chamado Estado de Bem-estar ganhou
forma e conteúdo, o capitalismo sempre dependeu do fenómeno desigualdade para
se poder reproduzir. Obviamente que os níveis de desigualdade nunca foram
constantes, foram evoluindo, e as distribuições do rendimento foram assumindo
configurações diferentes, seja no topo, na base e até no miolo das distribuições
com a chamada classe média ela própria também a evoluir.
Para vos documentar a complexidade das alterações que
foram sendo observadas pelo menos nestes três grupos de percentis da distribuição
do rendimento vários posts seriam necessários. Por isso, prefiro concentrar-me
nas observações pertinentes que Stiglitz realiza sobre o topo da distribuição.
Diz Stiglitz que, ao contrário do que era registado na idade de ouro do capitalismo,
na qual a responsabilidade social dos magnatas, americanos mas não só, direi eu,
era significativa com exemplos claros dos seus investimentos a favor do bem
público, o individualismo egoísta dos hiper-milionários de hoje, Musk, Bezos ou
Ellison, é algo de alucinante e sem qualquer confronto possível com o passado. Isso
significa que não só a desigualdade mundial atinge valores extremos, Stiglitz menciona
que 50% da população mundial só recebeu 1% de toda a riqueza criada nos últimos
25 anos, como o comportamento dos que pontificam no topo das distribuições não
acrescentam nada com o seu o egoísmo alucinante ao bem público. Uma análise
rigorosa das fontes de rendimento principais do topo da distribuição resulta de
atividades em que o investimento público inicial em matéria de investigação foi
essencial para que os negócios futuros alcançassem massa crítica para gerar
retorno elevado.
O comportamento de Trump é hoje indissociável da sua cumplicidade
transacional com estes multimilionários e não admira que todos estejam
preparados para embarcar rumo à longevidade, entendida como estádio supremo da
reprodução da desigualdade.