quarta-feira, 22 de março de 2017

VALEU, SENHOR PRIMEIRO-MINISTRO!

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

Há momentos em que nada mais cabe do que a palavra firme e direta. As declarações de António Costa em resposta à alarvidade proferida por Dijsselbloem só podem ser acusadas de pecar por defeito e, ao contrário do que escrevem algumas “prima-donas” que enlameiam a nossa praça em busca de protagonismos pessoais diferenciadoramente fáceis, constituem um sinal muito louvável em defesa da dignidade nacional e da causa europeia. Valeu!

PRECONCEBIMENTOS

(José Manuel Esteban, http://www.larazon.es)

Quase todos os dias ouço referências na TSF a um nome que assim se me foi tornando familiar, até pela sua estranheza, o de Mésicles Helin. E se aos Sábados ele surge frequentemente na qualidade de sonoplasta em reportagens de diverso tipo ou enquanto produtor dos “Encontros com o Património”, nos dias úteis em que se acorda mais cedo ele aparece como um desafiador das reflexões de Margarida Cordo e Vítor Cotovio numa rubrica de três minutos designada “Pensamento Cruzado”.

No último programa que se me deparou falava-se de narcisismo, de algum modo a pretexto de Donald Trump. A psicóloga pronunciava-se deste modo: “É uma pessoa que tem de ser o centro das atenções, que não sabe lidar com o insucesso, que não tem crítica para avaliar os próprios comportamentos, que tende a atribuir aos outros a responsabilidade e eventualmente as consequências dos erros que comete e por ter muito pouca crítica para avaliar o seu comportamento e, por ter esta necessidade de ser o centro e de ser valorizada e de ser aplaudida, pode tornar-se... Apesar de que no contacto pode ser uma pessoa muito sedutora e pode ser uma pessoa muito agradável ao trato com outros, mas isto é completamente superficial, ou seja, o único benefício que pretende alcançar é a confirmação do seu ser e do seu estar com o outro, ter que ser especial, ter que ser especialmente valorizado, não ser capaz de aceitar as suas próprias derrotas nem sequer de as reconhecer e, portanto, alguém com quem o convívio próximo é muito difícil a não ser que os conviventes sejam pessoas que existem para de alguma forma reforçar a sua postura, reforçar o seu ser, reforçar o seu estar e reforçar no fundo esta coisa do narcisismo olhando para dentro de si mesmo sem medir as consequências da sua ação na interação com os outros.” Ao que, e por outro lado, o médico psiquiatra juntava: “Dando continuidade ao que a Margarida estava a dizer, e pegando na última parte que é aquela que falava daquilo que o narcísico espera dos outros – é que estejam sempre de acordo com ele e tolera de facto muito mal quando não estão de acordo com ele, porque as pessoas existem para o reforçar no seu narcisismo e muitas vezes, de uma forma mais profunda, para compensar a sua insegurança, que está camuflada por aquela capa mais arrogante, mais provocadora e que se traduz em coisas que nós vamos vendo e que fazem parte da personalidade narcísica, aquilo que se falava deste encanto, deste encanto superficial mas manipulador. Por outro lado, esta incapacidade verdadeira de empatia – é uma pessoa que pode representar a empatia mas não sentir empaticamente, mas pode ter a capacidade de representar e, como tal, representa risco. Porquê? Porque a pessoa pode fazer mal fingindo que está a fazer o bem. E, portanto, todas estas caraterísticas são caraterísticas que depois, associadas àquilo que é o poder, aquilo que é estar sentado nos seus interesses, aquilo que é uma amoralidade – um autor das nossas áreas, o Otto Kernberg falava destas questões das personalidades narcísicas e muitas vezes ia das personalidades narcísicas mais benignas, porque para a nossa autoestima faz sentido ter algum narcisismo mais benigno; o problema é quando começamos a caminhar para aquilo que é a malignidade e para esta falta de discernimento e de autocrítica e então aí passamos pelo narcisismo maligno e aproximamo-nos daquilo que são registos mais psicopáticos no limite, onde a culpa nem existe para aquilo que possam ser atitudes desadequadas e perigosas em termos éticos.”

Não sei muito bem porquê – embora tenha mais do que vagas suspeitas... – mas a realidade é que dei comigo a pensar com quanta dose e variedade de narcisismo tenho vindo a ser atropelado ao longo do meu último ano de vida. De facto, e mesmo já não sendo um jovem incauto, é com enorme surpresa pessoal que assim tem sido em tantos e tantos casos e planos (alguns doentiamente lamentáveis). Será porque pensava, com uma talvez intolerável inocência, que conhecia melhor os meus semelhantes ou será porque há lugares e posições de onde se veem coisas que de outro modo nos tendem a escapar?

terça-feira, 21 de março de 2017

A BESTA DO DIJSSELBLOEM




(Acossado por um resultado eleitoral que colocou os trabalhistas holandeses nas margens da irrelevância, o Presidente do Eurogrupo tenta obter a anuência do carroceiro Schäuble, insultando as economias do sul da Europa, o que é sintomático do grau de indigência a que o socialismo europeu chegou …)

O comportamento besta de Dijsselbloem, insultando gratuitamente os países devedores da Europa do sul, contrastava hoje de forma aterradora com aquele sorriso subserviente do ministro das Finanças Centeno que, implacáveis, as imagens de arquivo vão glosar até à exaustão nauseabunda.

A personalidade do ministro das Finanças holandês, estima-se que não por muito tempo, é a melhor ilustração para incauto e desprevenido do estado deprimente e do grau zero a que chegou a social-democracia europeia, até agora tolerada, mas que com este insulto gratuito, não desmentido e não merecendo, aparentemente, qualquer pedido de desculpas, não poderá ficar impune. Estou para ver a posição que os nossos deputados europeus vão assumir nesta matéria e se há alguma réstia de vergonha naquelas cabeças.

A direita tipo Observador clamará entusiástica que a afirmação do franjinhas holandês segunda a qual “quem pede tem deveres” revela coragem, cada vez mais alinhada com a filosofia dos credores europeus, pois os cavalos que se perfilam para as suas apostas anunciam resultados pouco retribuidores e mais vale alinhar com quem manda.

É nestes momentos que falta algum anarquismo radical pois esta esquerda aproxima-se perigosamente do que os castelhanos classificam com muita graça de jiripollas.

Dijsselbloem parece querer reinventar a guerra calvinista contra os indisciplinados do sul. O pior é que o ambiente que se vive nas instituições europeias permite estes desmandos. Triste estado a que isto chegou.

POR QUE RAZÕES CAI O PESO DAS REMUNERAÇÕES DO TRABALHO NO RENDIMENTO?




(Aguarda-se com alguma expectativa a publicação do World Economic Outlook do FMI em 10 de abril, no qual o terceiro capítulo analítico é dedicado a esta questão, o que não deixa de ser sintomático nos tempos que correm, por mais reservas que possamos estabelecer sobre as diferenças entre o FMI que analisa e o que decide…)

Entre os velhinhos “factos estilizados do crescimento económico” devidos ao economista Nicholas KALDOR e com que ensinávamos teoria do crescimento aos estudantes de economia, estava o facto estilizado de que as proporções das remunerações do trabalho e do capital no rendimento tendiam a oscilar em torno de um valor constante. Entre outros pressupostos que têm de ser recordados para compreender este facto, não desmentido em períodos longos passados, estava a ideia de que o salário real evoluiria à taxa de variação da produtividade do trabalho, por sua vez igual ao ritmo de variação do progresso técnico medido pela chamada produtividade global dos fatores.

Sabemos hoje que a moderna teoria do crescimento trabalha com outros factos estilizados para incorporar os temas do crescimento endógeno, das despesas de I&D e da inovação. Mas a constância indicativa das proporções das remunerações dos fatores no rendimento continua a representar uma espécie de referencial que diferencia o habitual e o anómalo. Como sabemos também, o tema da desigualdade da distribuição do rendimento não se esgota nesta dimensão funcional da repartição entre salários e lucros, incorporando também o tema da distribuição pessoal. Mas em tempos de grande sensibilidade ao tema da desigualdade, a evolução do peso das remunerações dos fatores no rendimento não pode deixar de atrair as atenções. E, pelos vistos, até uma instituição como o FMI se interessa pelo tema, dedicando-lhe um capítulo do seu World Economic Outlook. Não custa imaginar a visibilidade que o tema vai assumir com essa publicação, confirmando aliás ideias que temos vindo a convocar neste espaço.

Numa espécie de antecipação aguçadora do apetite intelectual pela futura leitura do World Economic Outlook, o FMI divulgou recentemente um gráfico no qual se realiza uma leitura conjuntura de duas variáveis: a tal preocupante descida do peso das remunerações do trabalho (salários mais benefícios sociais) no rendimento e a descida do preço relativo dos bens de investimento e de equipamento relativamente aos bens de consumo, interpretada como uma medida indireta do progresso técnico entretanto observado nesses países.

O que o gráfico nos mostra com clareza é que os países que viram o preço relativo dos bens de investimento descer com maior amplitude foram também aqueles em que o peso das remunerações do trabalho mais desceu. A notícia do FMI refere ainda que as economias com maior descida do preço relativo do investimento são aquelas em que o peso da maquinaria e do equipamento no investimento é mais alto, o que acontece nos EUA e na Alemanha. A associação entre as duas variáveis não implica a necessária existência de uma causalidade. Mas pode adiantar-se que, quanto mais acentuada for a descida do preço do investimento, mais provável é a ocorrência de substituição de trabalho por capital, não sendo entretanto indiferente o tipo de tarefas produtivas passíveis de maior automatização. E lá iremos dar à robotização entre outras dimensões.

Na interpretação do FMI, a descida do preço dos bens de investimento, tais como computadores e outras tecnologias de informação e comunicação, é interpretada como uma medida indireta ou aproximada do progresso técnico. Da teoria económica sabemos ainda que o preço relativo dos bens de investimento tende sempre a descer à medida que os processos de desenvolvimento tendem a aumentar o preço relativo dos serviços, dominantemente entendidos como algo de não transacionável. Mas em contexto de estagnação secular, com propensão para o investimento a baixar, o excesso de poupança, designadamente vinda da Ásia, tenderá a aprofundar a descida do preço relativo dos bens de investimento. O preço relativo do investimento de que fala a nota de alerta do FMI é calculado em relação aos bens de consumo, que não deixam também de sofrer a evolução do progresso técnico. Por isso, estou com alguma curiosidade em ler com mais pormenor o tal terceiro capítulo do World Economic Outlook para aferir melhor a consistência do argumento assumido pelos economistas da instituição. Mas que é uma associação sugestiva, não tenho dúvidas. Daí a haver uma causalidade sólida, veremos.

AO DESAFIO

(Luís Afonso – “Barba e Cabelo”, https://www.abola.pt)

(cartoons de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)


Passadas as horas necessárias à digestão da desgraça ocorrida ao final da tarde de Domingo ali para os lados das Antas, cá estou a dar o peito às balas. Apontando três pontos para reflexão: (i) festejos antecipados dão frequentemente mau resultado; (ii) a vontade não basta quando a organização e a liderança escasseiam; (iii) a exploração exaustiva das técnicas televisivas está a tornar o futebol um espetáculo irremediavelmente aleatório (não confundir com imprevisível). Afinal, e além de nenhum segundo o árbitro, quantos penáltis houve no jogo entre o FC Porto e o Vitória de Setúbal?

segunda-feira, 20 de março de 2017

CHUCK BERRY

(cartoon de Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

Não queria deixar passar em claro neste espaço a recente morte aos 90 anos de Chuck Berry, por muitos considerado o pai do rock ‘n’ roll ou, pelo menos, uma das figuras mais marcantes dos primeiros anos da história desse género musical. Sobre ele escreveu John Pareles, jornalista do “New York Times”: “enquanto Elvis Presley foi a primeira estrela pop e o primeiro ídolo dos adolescentes, Berry foi o seu mestre teórico e génio conceptual, o compositor que percebeu o que os jovens queriam antes de se conhecerem a si mesmos”; acrescentando ainda: “os fraseios da sua guitarra ligavam a cadência distendida da country com o registo mais direto do blues”. Feito o devido registo do facto, limito-me a subscrever (com salvaguarda das óbvias distâncias e diferenças) a síntese de Keith Richards: “Uma das minhas grandes luzes apagou-se”...