segunda-feira, 8 de junho de 2026

O CONTRIBUTO DE PREVOST

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com) 

Robert Francis Prevost chegou ao Papado confrontado com uma situação assaz complexa: suceder a Jorge Mario Bergoglio, o notável Papa Francisco. Mas rapidamente deu indicações claras para que se percebesse que tínhamos homem – e como é atualmente mais essencial do que nunca que alguma moralidade seja ouvida no mundo!
 
A visita de Leão XIV a Espanha, que hoje termina, constituiu um bálsamo nessa perspetiva, sobretudo porque a palavra do Bispo de Roma – nem sempre consensual em certos planos... – voltou a mostrar a força de alastramento ímpar que se lhe tem de reconhecer, além da frontalidade e coragem que evidencia sem tibiezas. Ademais, em nome de um Bem que crescentemente rareia na boca e nos atos dos poderosos que comandam os destinos imediatos da Humanidade.
 
Um sinal de esperança, pois, confirmando a sabedoria da escolha deste Pontífice nascido em Chicago e moldado no Peru que já ganhou a credibilidade internacional que irá fazer dele uma fonte exemplar de tolerância, respeito e solidariedade no contexto do “mundo imundo” que desesperantemente se nos apresenta. 


(Riki Blanco, https://elpais.com)

domingo, 7 de junho de 2026

ENTRE MUROS E CERCAS...

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com) 

O mundo de hoje pode ser simplificado, a um certo nível de observação e análise, como um entrecruzamento de muros e cercas. Os muros que não apenas criam a ilusão aos mais desfavorecidos de que do outro lado há algo em termos de oportunidade para eles mas que também permitem aos poderosos afastar “o outro” que importuna e se pretende distante. As cercas que não apenas garantem o desejado isolamento em aquários luxuosos aos “donos do mundo” mas que também indiciam os “culpados” que residem em mansões inacessíveis e por elas escondidas.

 

Estamos, no fundo, perante simbólicas expressões de um dos traços mais constantes da sociedade mundial, a da continuada afirmação (mais ou menos visível, mais ou menos prepotente, mais ou menos imperialista) da desigualdade como um fenómeno iniludível – de facto, e a despeito de algum reequilíbrio aportado pela globalização do último quartel do século passado, a enormidade do fosso entre ricos e pobres permanece e as suas manifestações à escala global atingem foros impensáveis de exibicionismo absurdo e de chocante pauperização. 

(Riki Blanco, https://elpais.com)

sábado, 6 de junho de 2026

COITADO DO PRESIDENTE!

(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt

António José Seguro parece perfeitamente instalado na sua improvável função presidencial. E a verdade é que lá vai aparecendo nos sítios, abrindo os eventos que há para abrir, dizendo as banalidades dele esperadas, procurando que o Governo não tenha grandes motivos de insatisfação e até fazendo as férias politicamente corretas na Região Centro. Tudo dentro da normalidade, pois. Com duas restrições que muito me impressionam: por um lado, a apagada e vil tristeza que ostenta no rosto e na atitude (pudera!, porque convenhamos que o quotidiano que lhe oferece a função é mesmo uma seca, só suscetível de exploração positiva por parte de um narciso militante e único como Marcelo); por outro lado, a consciencialização que vai adquirindo de ser um “verbo de encher” na cena política, com o PSD e o Chega a tratarem o mais possível por lhe limitar a margem de manobra alegadamente transformadora ou, melhor dito, por resolverem entre si, e sem lhe passarem grande cartão, o que há para resolver. Neste quadro, o velho Tó Zé de outros tempos que ainda ia ensaiando alguns arremedos de atrevimento tende a anular-se sem rasto na quilometragem diária, nos dias cheios de burocracia maçadora e nos encontros sucessivos com portugueses bem menos interessantes e interessados do que ele intuía irem deparar-se-lhe. Gratos ao Presidente pelas suas boas intenções mas coitado dele!

sexta-feira, 5 de junho de 2026

DIVAGAÇÕES TENÍSTICAS

 

(Partilho com o meu colega de blogue alguma necessidade de desanuviar a escrita neste blogue e estou a fazê-lo gozando um fim de semana um pouco mais longo do que o habitual em Seixas, apreciando esta calma relativamente fresca que se vislumbra da minha varanda fronteira ao Coura e a Caminha. Vou, por isso, concentrar-me em algumas divagações tenísticas, não para vos falar das minhas proezas e falhanços de atleta de 77 anos, mas para tirar partido do Roland Garros que se aproxima do fim. E que torneio mais atípico tivemos pela frente, de que o melhor indicador é a composição das meias-finais de singulares masculinos e femininos: Zverev-Mensik (3-1) e Arnaldi (desistência)-Cobolli, nos homens e Mirra Andreeva-Kostyiuk (2-0) e Chwalisnska-Shnaider (2-0) nas mulheres. Os astros inclinam-se para que finalmente Zverev possa ganhar um título de Grand Slam, mas a atenção à armada italiana. Mas o Roland Garros deste ano tem sido atípico atendendo sobretudo aos casos de derrocada total de alguns dos principais favoritos, o que sugere que os melhores do circuito estão a jogar nos limites da resistência física e psicológica. Era essencialmente sobre esse aspeto que gostaria de concentrar as minhas divagações tenísticas.)

Os dois casos mais salientes de verdadeiros “crashs” foram as derrotas de Sinner, nº 1 mundial masculino face a um dos irmãos Cerundolo argentino e a de Sabalenka, nº 1 mundial feminino face a Shnaider. São crashs de natureza diferente, o de Sinner mais físico do que psicológico e o de Sabalenka exatamente o inverso.

Nunca tinha visto num espetáculo tenístico algo de semelhante à quebra física de Jannik Sinner, no que poderia designar de verdadeiro colapso físico, como se o corpo tivesse perdido a capacidade de resposta e a vontade de reagir. A derrocada de Sabalenka é talvez o melhor exemplo de alguém que tem o jogo dominado, que começa a pensar noutra e que à mínima adversidade tudo se desvanece e entra numa espiral descendente de perda sucessiva de pontos (6-0 na última partida) após ter perdido a segunda partida que pensara ter dominada. O estado de desespero em que a nº 1 mundial ficou depois da derrota, afirmando que naquele momento a única coisa que lhe apetecia era abandonar o ténis, é dos casos de colapso mais incrível que o ténis alguma vez terá presenciado. São casos diferentes, mas ambos revelam, em meu entender, que os melhores estão a jogar no limite das respetivas vidas e forças.

Pelo meio tivemos ainda uma partida excecional para recordar o que podemos entender como um choque de gerações. O jogo que opôs o talentoso brasileiro João Fonseca e o consagrado e entradote sérvio Novak Djokovic é um monumento para análise futura, retratando fielmente o que é a luta destruidora entre o jovem emergente e o incumbente prestes a retirar-se. Fonseca, nas declarações de celebração de vitória, mencionou com toda a honestidade que Djokovic estava a destruí-lo com o seu jogo, tamanha foi a impetuosidade que colocou no jogo e que foi por muito pouco que não se viu ultrapassado pela força física e mental do sérvio. Não sei se Djokovic voltará a pisar uma vez que seja aquele court central de Roland Garros, mas mesmo perdendo para o talento inesgotável do brasileiro podemos considerar essa derrota uma despedida triunfal, tamanha foi a qualidade que o sérvio imprimiu ao seu jogo.

Mas o melhor estava para vir com a chegada à final de Maja Chwalisnka depois de uma vinda triunfal do qualifying. A polaca esteve em Portugal há pouco mais de um ano num daqueles challengers que são o tormento do (a)s jogadores (as) classificadas entre o 300º e o 500º lugares do ranking mundial, até conseguirem uma oportunidade de brilharem num torneio com alguma expressão monetária. Se há quem diga que o ténis pode ser mais um produto da cabeça (mental) do que do corpo (físico), então Chwalinska é um verdadeiro caso de estudo. A tenista polaca não tem aquilo que possa chamar-se um ténis espetacular do tipo por exemplo que Sabalenka apresenta. Mas a consistência defensiva que ostenta, e sobretudo a capacidade de concentração praticamente em todos os pontos de uma partida, explicam a sua meteórica vinda do qualifying e a sua chegada à final.

Posso enganar-me, e oxalá me engane, mas acho que Chwalinska não vai ter talento suficiente para superar a impetuosa Andreeva , treinada pela nossa conhecida Conchita Martinez. Mas se o fizer, então o Roland Garros deste ano ficará nos anais da atipicidade da grande prova parisiense.

A tarde de sábado está conquistada.

 

 

HONRA E DESONRA

Pep Guardiola e Mohamed Salah protagonizaram, até agora, as grandes despedidas do futebol mundial, o primeiro abandonando o comando do Manchester City após dez épocas de sucessos indiscutíveis que fizeram dele, quiçá, o melhor treinador do mundo, o segundo deixando o Liverpool após nove épocas brilhantes e cheias de títulos coletivos e individuais. Fica o registo de dois monstros que marcaram a última década e que inscreveram o seu nome na galeria dos inesquecíveis do desporto-rei.
 
Mas tristezas não pagam dívidas e há que levantar a cabeça e olhar em frente. No presente momento, e enquanto se aguarda pelo Mundial, as transferências e as contratações começam a suceder-se, sendo a ida de Andoni Iraola (o treinador-revelação da época que termina) do Bornemouth para o Liverpool (que despediu Arne Slot) a mais marcante, apesar das escolhas de Xavi Alonso no Chelsea e de Enzo Maresca no City. Em termos de jogadores, o mais saliente acontece em Espanha, onde o Real Madrid já reforçou as suas laterais defensivas (o francês Ibrahima Konaté, ex-Liverpool, e o holandês Denzel Dumfries, ex-Inter de Milão) e o Barcelona já garantiu o extremo Anthony Gordon (ex-Newcastle). Mas é mais do que óbvio que a procissão ainda vai no adro e que os grandes tubarões (ingleses, italianos, franceses e alemães) ainda não aqueceram os seus motores.


O único tema que prende as atenções nacionais é o da decisão sobre o treinador do Benfica, aparentemente tornada definitiva com a chegada de Marco Silva do Fulham. A novela José Mourinho ocupa há semanas as preocupações do País e dos comentadores da Capital, mas trata-se nitidamente de um assunto cheio de tabus, traições, mentiras e combinações com graveto (mais à vista ou mais escondido). Neste quadro, e sabendo-se que o setubalense já acordou tudo com Florentino Pérez, o engraçado seria que este perdesse as eleições de Domingo contra o seu desafiador (Enrique Riquelme) e que, simultaneamente, os quinze milhões para os “encarnados” ficassem retidos no banco de Florentino enquanto Mourinho ficaria fora de Madrid como merecia face à atuação vergonhosa que teve face ao seu ainda empregador. Não é provável, mas seria uma prova da existência de um Deus que penalizasse a má-fé, a chico-espertice e a incompetência...

(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

CAETANO NO PORTO

 
(Agustin Sciammarella, http://elpais.com) 

Prossegue a paragem relativa que me impus nesta primeira semana de junho. Ainda assim, espaço para saudar aqui o concerto de Caetano Veloso no Porto (Pavilhão Rosa Mota) a que pude assistir antes da saída em curso. Caetano é Caetano e ponto final, mas o espetáculo não foi empolgante e não ficou verdadeiramente para a posteridade, exceto talvez naquilo que o artista nos terá querido dizer quando se referiu aos seus 84 anos em agosto e à dificuldade que haverá em que possa continuar a viajar para cá e a protagonizar shows – soou-me notoriamente a uma despedida não anunciada... O cansaço de Caetano evidenciou-se também na existência de um único encore, sendo que em qualquer caso – e com exceção do fraco som do pavilhão – aquela hora e meia não deixou de ser prazenteira e cheia de memórias de vário tipo, com a voz do baiano ainda situada a muito bom nível e a sua simpatia a deixar saudades que espero não passem de uma manifestação prematura.

terça-feira, 2 de junho de 2026

RIVALIDADES PRIMEIRO

Breve paragem para férias com mudança de ares e, necessariamente, com escassa vontade de alimentar o blogue. Insisto no jogo de Sábado em Budapeste e na vitória do Paris Saint-Germain sobre o Arsenal por grandes penalidades, mantendo o título pela primeira vez conquistado na época transata com a ajuda de quatro portuguesinhos que vieram somar-se a alguns mais na inversão da fracassada estratégia milionária do clube franco-catari. Assisti ao jogo rodeado de ingleses mas – por incrível que possa parecer! – apoiando os gauleses por oposição ao Arsenal londrino. Ver ingleses a aplaudir franceses foi algo de inesperado e até paradoxal à luz da História, mas o certo é que o futebol explica estes imprevistos – e, afinal, lá como cá, os nacionalismos que tanto prevalecem em diversos planos são notoriamente afastados pelas rivalidades locais ou pelos choques regionais e, em especial, por aqueles que passam por cidades-capitais sempre mais bem tratadas do que as outras. E até o incontroverso Sir Alex Ferguson veio a terreiro dizer de sua justiça, ou seja, arrasar os arsenalistas que só souberam defender...