quarta-feira, 12 de agosto de 2026
O CEGUINHO E O MIÚDO-MARAVILHA
segunda-feira, 10 de agosto de 2026
O ETERNO E HOJE AGRAVADO PROBLEMA DO DOURO
(Nos últimos dias, têm-se sucedido notícias, artigos de opinião e reportagens sobre o momento atual da Região Demarcada do Douro, que não é brilhante, mas que não é novo. A convergência de notícias e artigos de opinião não é por acaso. Estamos na antecâmara de mais uma decisão anual do IVDP, ouvido que seja o Conselho Interprofissional da Região Demarcada, relativa aos montantes máximos de pipas que podem ser produzidas e submetidas a atribuição de benefício para as diferentes qualidades de uva, classificação herdada dos trabalhos do Engenheiro Agrónomo Álvaro Moreira da Fonseca em 1947. Sim, há quase oitenta anos e muitas coisas certamente se alteraram em termos climáticos desde essa data. A fixação desses limites para as diferentes classes de uvas é sempre traumática e gera tensão na Região. Tanto mais que é sabido que a Região enfrenta um acumulado de produção de vinho para a capacidade de absorção do mercado, estando por isso a braços com excedentes de grande magnitude e já não contando para esse cálculo com os stocks de vinho da Casa do Douro que continuam expectantes. Mas a tensão potencialmente traumática é ainda maior quando se sabe que a região enfrenta também um problema de sustentabilidade social, pois o preço a que são as pagas as uvas aos pequenos produtores não justificam sequer em alguns casos que as uvas sejam tratadas e colhidas. O drama é flagrante. A situação social poderia justificar uma maior generosidade nos limites de produção, mas essa generosidade seria totalmente suicidária, já que agravaria insoluvelmente os problemas de excedentes. Pelas notícias vindas a público, veja-se nesse sentido o artigo publicado ontem no Jornal Público, a Região está finalmente consciente da necessidade de práticas mais colaborativas para mitigar o problema, falando-se no artigo de várias medidas que estão a ser objeto de discussão entre a Casa do Douro que representa os produtores, a Associação das Empresas do Vinho do Porto que representa os exportadores e o regulador IVDP, incluindo a mais traumática do arranque financiado de vinha.)
O arranque de vinha teria apoios nacionais e comunitários, mas não deixa de ser caricato e paradoxal que, nos últimos anos, os apoios VITIS à plantação de nova vinha continuaram a ser atribuídos, no que classifico como uma das maiores hipocrisias da política agrícola em Portugal, só possível num Ministério da Agricultura desarticulado e sem noção do alcance dos instrumentos de política que gere, sabe-se lá como. Imagino que, a acontecer, o arranque de vinha teria de ser fundamentado por uma criteriosa aplicação da classificação das classes de uvas, com predomínio de observação em terras mais marginais e de classes mais baixas, já hoje não recebedoras de benefício. Mas também aqui a severidade da mudança climática na Região Demarcada obrigará a ter cautelas redobradas, porque a procura de solo mais apropriado à acidez necessária dos brancos leva os investidores a deslocar-se para altitudes mais elevadas, o que pode baralhar as decisões quanto ao arranque.
O arranque de vinha não é ação que se tome de ânimo leve e daí a importância de uma decisão colaborativa, envolvendo os diferentes interesses. Continuo a defender que a medida poderá justificar-se atendendo à gravidade dos montantes de excedentes hoje acumulados. Mas defendo há já muito tempo que a resolução do problema da asfixia dos pequenos produtores exige uma dimensão de intervenção social, que tem de ser dissociada das políticas de modernização do setor na Região Demarcada. Não é por isso apenas uma questão do Ministério da Agricultura.
Outra das medidas já em utilização em anos anteriores consiste na transformação de parte da produção excedentária em material de destilação para produção de aguardente vínica necessária à produção de Vinho do Porto. Também aqui a decisão colaborativa é fundamental, pois os produtores de Vinho do Porto têm políticas diferentes em relação à aguardente que mobilizam para a sua produção de vinho do Porto.
Mas, em meu entender, a medida entre as veiculadas pelo jornal Público que mais me interessou, sobretudo pela sua novidade e pelo facto de estar altamente relacionada com a paisagem cultural que o Douro constitui, à luz da qual o seu estatuto de património mundial UNESCO foi avaliado e decidido, é a possibilidade do turismo entrar como solução através de uma taxa que teria de pagar para defender a sustentabilidade dessa mesma paisagem cultural.
Vale a pena pensar um pouco mais profundamente nesta questão, até porque a densidade colaborativa desta medida é ainda mais elevada do que a das restantes atrás consideradas. Sabemos que alguns dos grandes produtores e exportadores de vinhos com Denominação de Origem Douro e Porto são hoje partes interessadas na exploração turística da Região, até porque os mais inventivos conseguiram estabelecer laços de complementaridade virtuosa entre a atividade turística e a promoção dos seus vinhos. Mas o que é indesmentível é que a atividade turística no Douro sem a sustentabilidade global da paisagem cultural Douro não será nada, até porque parte da base urbana deixa bastante a desejar em termos de qualidade. Por isso, o carácter cénico da paisagem cultural que tanto atrai o turismo que a visita é para ele vital. Ora, essa paisagem cultural exige sem sombra de dúvidas que os vinhos com denominação de origem Douro e Porto sejam sustentáveis enquanto atividade económica. Por isso, a ideia de uma taxa a pagar pelo visitante turístico e pelas empresas que se dedicam a essa atividade destinada a contribuir para o financiamento da sustentabilidade da paisagem cultural parece-me ser uma grande ideia, não a ideia miraculosa que tudo resolverá, mas uma peça relevante num cardápio coerente de medidas. Também aqui o eventual arranque de vinha não pode deixar de ter em conta o impacto cénico e paisagístico dessa difícil medida.
GOVERNANTES EM MODO DE SOBREVIVÊNCIA
A política à portuguesa chegou a um ponto tal que já faz com que um até agora moderado e conciliador senador da República, como é António Barreto, dê sinais públicos e notórios de ter atingido os seus limites de tolerância. Veja-se a sua última crónica do “Público” (“Coeso e empoderado”), que termina em girândola declarando sem cerimónias, a propósito do governo de Montenegro e seus casos, que “este género de covardia acéfala é típico de quem não acredita, mas quer sobreviver”.
O texto de Barreto debruça-se larga e criticamente sobre Luís Neves e tudo quanto sobre ele foi dado a conhecer nestas semanas. Mas não esquece também Fernando Alexandre, o ministro-revelação que se mostrou afinal um descontrolado aventureiro (“nesta aventura típica de um adolescente omnipotente”). Vale a pena deixar aqui o registo do que escreveu sobre este: “Outra história, mas fonte de apreensão semelhante, é a dos exames e suas correções. O declínio da democracia começa quase sempre pela derrota das instituições, pelo desprezo a que estas são votadas pelos políticos e pela opinião pública. A saga dos exames e das correções é mais um exemplo dessa degradação. Em nada se parece com os anteriores episódios policiais, a não ser na sua dimensão institucional. Governo, ministro, departamentos oficiais e Deloitte vão sair deste episódio impunes e imunes, vão continuar a exercer as suas funções e a fazer os seus negócios.” Acrescentando: “O distinto e reputado académico que desempenha as funções de ministro da Educação presidiu, com candura, a um dos maiores desastres da educação portuguesa, cujas causas se discutem pouco e mal, mas cujos aspetos técnicos fazem a crónica dos deputados e dos jornalistas. Não se discute Português nem Matemática. Não se debate a degradação qualitativa dos exames e seus conteúdos. Não se pensa no aviltamento dos programas. Não se discute a taxa de reprovação e de aproveitamento. Não se reflete na igualdade e no mérito no sistema de educação. Não se pensa no melhoramento das condições de acesso ao ensino superior. Mas discutem-se algoritmos, plataformas de correção, sistemas de controlo digital, métodos e modelos de verificação e outras delícias com grande capacidade de atração dos ignorantes. Entretanto, centenas de milhares de pessoas, pais e mães, familiares, alunos e estudantes, professores, diretores de escolas e outros viram as suas carreiras ameaçadas, recearam pela sua segurança, estragaram as férias, perderam a tranquilidade, baixaram o rendimento escolar, encontraram novas formas de ansiedade, cancelaram férias, adiaram início de aulas, protelaram provas e planos de vida.” E ainda, por fim: “Pretenderam fazer reformas globais e coerentes, sem projetos-piloto capazes, sem experiência, sem avaliação. Cometeram-se, com distinção e boas maneiras, todos os erros dos aprendizes de feiticeiro e dos loucos de laboratório. Garantiram procurar um sistema eficiente, igualitário e meritocrático, mas produziram um monstro de incompetência e insegurança. O sistema de exames e correção de que os portugueses beneficiam atualmente parece-se tanto com o inferno quanto o famoso e eterno SIRESP que falha, que exige mais dinheiro, que nunca falta ao encontro dos desastres e que, nos momentos mais dramáticos, era substituído por… telemóveis!” Convenhamos que é difícil ultrapassar o grau de depreciação e corrosão analítica com que Barreto se dirige a Alexandre (“produziram um monstro de incompetência e insegurança”, recordo) e, mesmo que os dados disponíveis indiquem que a bonança na Educação parece em vias de se aproximar, isso deveria dar lugar a que o principal responsável por tanta confusão tivesse a humildade democrática e pessoal de assumir a objetividade dos seus erros políticos e, portanto, de ponderar a sua permanência no exercício da função que ocupa.
domingo, 9 de agosto de 2026
OS DEMOCRATAS AMERICANOS DE NOVO NA ESTACA ZERO
(Todos os interessados na preservação das instituições democráticas e na necessidade de combater as “novas internacionais” que emergem dos EUA com agendas agressivas favoráveis às extremas-direitas europeias olham para as eleições intercalares de fins de 2026 nos EUA e para as próximas presidenciais como um momento-chave para inverter tais movimentos e suster a intromissão descarada que vem do outro lado do Atlântico. Simultaneamente, nunca tanta dedicação foi dedicada ao que os Democratas americanos estão a fazer para derrotar o movimento MAGA, Trump e os seus acólitos. É sobre esse momento muito particular que os Democratas estão a viver que gostaria de elaborar algumas reflexões, tanto mais que colei essa reflexão a um título que aparentemente estará em conflito com o que se vai sabendo do modo como os Democratas estão a preparar-se para as intercalares deste ano e encontrar um candidato sério para derrotar os Republicanos, cada vez mais reféns do errático Trump. Da reação Democrata aos desmandos da administração Trump sabe-se que aconteceu após um período de desorientação e silêncio que começou a preocupar o mundo democrático. Tudo parecia configurar uma preocupante inação enquanto força política, se bem que o ativismo de alguns elementos isolados nos alertasse para que a reação estava lá, embora não tivesse tomado forma suficiente para esperar um resultado de penalização dos Republicanos nas próximas intercalares. Entretanto, as sondagens favoráveis aos Democratas, embora não inversamente proporcionais ao tombo de popularidade e aprovação que Trump começava a revelar, começaram a desenhar cenários mais favoráveis.)
A vitória do muçulmano e progressista Zohran Mamdani nas eleições para Presidente da Câmara de Nova Iorque representou um marco no acordar das forças democratas mais progressistas, direi mesmo socialistas e pareceu iniciar uma nova tendência de adesão dos Democratas a programas políticos mais ajustados ao estado de desigualdade da sociedade americana e sobretudo à ameaça dos direitos humanos mais elementares que a administração Trump foi perpetrando sobre os grupos ais vulneráveis dessa mesma sociedade, com os imigrantes à cabeça.
Não é a primeira vez que na história dos Democratas a reação das suas tendências mais progressistas acontece, até com personalidades com impacto mediático como Bernie Sanders, Elizabeth Warren ou Alexandria Ocasio-Cortez. O problema é que as famílias Democratas mais conservadoras acabam, regra geral, por sobrepor-se a esse progressismo, impondo agendas mais moderadas e conservadoras, invocando o eterno argumento de que os americanos nunca validarão o socialismo nas urnas.
Acontecimentos recentes observados em torno de algumas primárias entre os Democratas voltam a colocar esse problema na ordem do dia, sendo por isso que a preparação para as próximas intercalares e presidenciais está regressada á estaca zero de outros tempos. A corrida vitoriosa do Dr. Abdul El-Sayed para o Senado em primárias do Michigan está em termos de impacto nas hostes Democratas como a vitória de Mamdani esteve para o ressurgimento do progressismo ativo no partido. O mesmo se diga relativamente à posição favorável em que se encontra a socialista Democrata Francesca Hong para o lugar de Governador do Wiscousin. A campanha que El-Sayed realizou com palavras de ordem como “o Michigan não está à venda” ou “o dinheiro fora da política para estar nos vossos bolsos” agitou as massas Democratas e pareceu evidenciar que pelo menos partes do partido estarão hoje mais recetivas a agendas mais progressistas, chamem-se-lhes socialistas ou não.
Mas a estaca zero está lá, não tenhamos ilusões. Os Democratas mais moderados e conservadores são mais endinheirados e por isso iremos assistir nos tempos mais próximos a gigantescas campanhas de comunicação destinadas a limitar o ressurgimento Democrata progressista apenas a algumas personalidades, com o fim de barrar a ousadia de nomear uma figura vinda desse ressurgimento para tentar derrotar os Republicanos e infligir-lhes uma derrota severa nas próximas intercalares.
Como já o referi, não existe uma correspondência perfeita entre a queda de aceitação de Trump como Presidente e a valorização da posição eleitoral dos Democratas. Por isso, uma guerra ideológica entre os Democratas sempre favorecerá a resistência Republicana, até porque o movimento MAGA jogará todas as armas possíveis na vampirização dos Democratas socialistas. Tudo servirá para atingir esse objetivo. O aproveitamento em torno dos acontecimentos de Ceuta mostrou esse desplante com clareza.








