Luís Montenegro continua imparável na afirmação convicta de se ver como alguém que está a “fazer bem”, o que contrapõe a quem enche a boca com a necessidade nacional de muitas reformas por concretizar através da ideia de que ser reformista é fazer e fazer bem. E mais nada, ele que até passa dois institutos politécnicos a universidades técnicas, ele que põe o Tribunal de Contas em sentido com a ajuda de Matias como reformista-mor, ele que não se deixa ficar “refém de imobilismos” apesar de recusar ter um “fétiche com as leis laborais”.
Paradoxalmente, grande parte da “inteligência” que tem tendência a funcionar como força de apoio das propostas governativas mais à direita contradiz o discurso montenegrista e até já publica crónicas traduzidas numa manifesta crítica do líder do PSD que agora se apresenta a um terceiro mandato com uma moção que designou, sob clara inspiração “trumpista”, por “Portugal Maior”. O caso mais visível disso é o do historiador e colunista do “Observador” – hoje vamos ficar-nos exclusivamente por gentes ligadas a este órgão de comunicação social –, Rui Ramos (RR), um analista habitualmente muito conservador e dogmático em matérias de atualidade política, no seu mais recente texto “Fazer Portugal mais pequeno outra vez”. Escreve ele com um bem conseguido tom jocoso: “O maior partido português, neste momento, não sabe que fazer de Portugal, e parece convencido de que até é vantajoso não saber”.
O tema vai desembocar na política de alianças de Montenegro, inicialmente abordada sob a máxima taticamente assumida para resposta ao “Chega” (o já célebre “Não é não”) e por si mesmo denunciada na prática política destes meses de governação. Ora, o que RR nos vem dizer é o seguinte: “No começo da moção, e ao contrário do que se disse, Montenegro não acabou com as linhas vermelhas: alargou-as. Não se aplicam agora só ao Chega, mas também ao PS. O PSD não fará acordos gerais de governação com ninguém. Em vez disso, negociará com todos sobre cada assunto. Eis o problema. Porque o Chega e o PS têm visões opostas sobre quase todos os assuntos. Quem se propõe governar através de combinações ora com o Chega ora com o PS, está a dizer-nos que não tem um programa coerente, mas apenas a intenção de manter-se no meio, equidistante.” E mais adiante: “Faria mais sentido dizer que o eleitorado, não tendo dado maioria absoluta ao PSD, lhe indicou com que lado devia tentar negociar de preferência. Montenegro decidiu ignorar essa indicação. Porquê? Quando as linhas vermelhas se aplicavam só ao Chega, a rejeição do Chega podia explicar essa atitude. Agora, não. Agora, a opção por oscilar entre PS e Chega só pode significar que Montenegro, apesar das páginas ‘reformistas’ da sua moção, não quer comprometer-se com nada, à espera de eventuais eleições.” RR conclui assim, curto e grosso: “Este PSD, tal como o PS de 1976, pensa que no meio está a virtude. Estará, mas não quando a virtude é concebida como indefinição e deriva.”
Será que Montenegro e os seus conselheiros políticos e de marketing leem estas coisas, sobretudo vindas do seio do seu espaço político? Tudo indica que não, ou melhor, que apenas as leem como forma de resistência teimosa à realidade. Uma realidade cuja caraterização negativa cresce um pouco por todo o lado, talvez com a exclusiva exceção de alguns empresários “modernos” que se têm por ter visto a luz que os seus concidadãos insistem em não ver. Nuno Gonçalo Poças fala-nos do “marasmo a que a AD parece resignada” e o próprio colega de podcast de RR, João Miguel Tavares, que também se foi tornando um descrente frontal em relação a saídas airosas possíveis para esta governação, escreve hoje no “Público” mais uma crónica assassina, para o que basta assinalar o respetivo título: “Três razões para desconfiar das boas intenções deste Governo”. E até o comentador político mais ridículo da televisão portuguesa, João Marques de Almeida, vai mostrando alguma incomodidade face ao que Montenegro lhe apresenta e uma completa dificuldade em o cortejar como gostaria.
Mas há mais, pior se quisermos falar mais genericamente da sociedade portuguesa. RR explica-o desta forma: “Quem está no poder nunca enlouquece sozinho: o desvario é sempre geral”. E assim aponta para o lado esquerdo do espectro político, onde a incapacidade de adaptação aos novos desafios políticos e societais é chocante. Rui Pedro Antunes aponta o PS a esquecer alguns dos pontos mais importantes do seu legado histórico, Carlos Maria Bobone explicita que o referido desvario “tem também expressão numa esquerda que parece fazer da confusão a sua marca identitária” e o “Papa” José Manuel Fernandes (veja-se o seu “A esquerda, o ecopopulismo e a habitual sopa de letras”) aproveita para ir mais fundo ao sustentar a ideia de um cada vez mais monotemático discurso de boa parte das esquerdas, de uma “sopa de letras onde cabe tudo e é indiferente a ordem das palavras”, de um mundo descrito como fruto de sistemas de opressão e de uma situação em que “as roupagens ‘verdes’, ou ‘climáticas’, são apenas as novas roupagens de um radicalismo que, sobretudo depois da queda do Muro de Berlim, tem procurado desesperadamente novas causas e saltitado de tema em tema conforme as modas do momento”. Descontando os dogmatismos verrinosos do “publisher” e ideólogo importante do “Observador” – veja-se o seu parágrafo conclusivo: “Num tempo em que a direita tradicional e moderada está ameaçada pela subida eleitoral dos populismos identitários, esta amalgamação ecopopulista constitui porventura um desafio ainda maior para as esquerdas moderadas que, até por falta de outras causas, começam a deixar que o seu discurso também seja contaminado pelo mesmo tipo de radicalismos antiocidentais. Às vezes por puro oportunismo (onde o primeiro-ministro espanhol é campeão), outras por real convicção ou falta de outros horizontes, como é já notório em setores do nosso Partido Socialista. Depois não se queixem.” – , convenhamos que estão inscritas nas suas palavras tópicos que mereceriam mais atenção e elaboração à Esquerda (incluindo o PS).
Fernandes é um influencer que já teve piores dias e que hoje não deve ser desprezado, quer porque é informado quer porque procura informar-se. Importa, pois, conceder crédito (o que é diferente de qualquer tipo de concordância cega) ao que vai trazendo ao espaço público, apesar de se ter de lhe assacar certamente uma agenda própria e que serve interesses específicos. Percebamos como se distingue de outros, caso de Luís Rosa, que não olham a meios analíticos e outros para atingirem fins óbvios. Veja-se, por exemplo, o que este escreveu infamemente a pretexto de Sócrates e da “forma como alguns ‘amigos influentes’ de Sócrates [são visados Vital Moreira, Ferro Rodrigues, Paulo Pedroso e Jorge Sampaio] continuam a procurar ajudá-lo de forma mais ou menos encapotada": “Na realidade, Vital Moreira tem saudades do tempo em que o Presidente Jorge Sampaio, Chantageado pelo seu amigo Ferro Rodrigues, chamou a Belém o procurador-geral Souto Moura para questioná-lo sobre o caso Casa Pia e a investigação a Paulo Pedroso”.
Digam-me, por amor de Deus, que ainda é pensável afrontar com sucesso os desvarios deste País...




