quarta-feira, 8 de abril de 2026

TUDO NA MESMA, COMO A LESMA!

Enquanto o mundo se mostra um barril de pólvora e uma fonte incessante de injustiça e indignação, com os seus vários senhores a aproveitarem a desordem que Trump veio favorecer para satisfação dos interesses mesquinhos e malévolos que os determinam, por cá prossegue a apagada e vil tristeza que uma contagiante mediocridade instalada (quase suscitando algum saudosismo face a passados talvez pouco condignos mas politicamente bem mais mexidos por via do brilhantismo, mesmo que pérfido, dos respetivos protagonistas, de Costa a Passos, de Guterres a Durão ou de Sócrates a Cavaco) apenas consegue muito infrutiferamente disfarçar. Na governação, domina o fingimento –exemplos há-os em todas as áreas, mas a autocontemplação da ministra da Saúde, o whatever reformador da ministra do Trabalho e a provedoria pró-americana do ministro dos Negócios Estrangeiros são casos que roçam a caricatura.

 

As declarações e os números que vão sendo divulgados também dão o seu inequívoco e lamentável contributo. Como acontece com a dupla formada pelo Primeiro-Ministro e pelo Presidente da República (que ainda agora faz o seu arranque em cena mas já aparenta ser uma charge de baixa qualidade dos Dupont&Dupond), a fobia da execução que tanto animou o segundo mandato de Marcelo ou as manifestações da crise que se aprofunda na habitação (onde já vamos em 180% de aumento dos preços das casas na última década).



A agravar uma situação que já se mostra feia por si só temos ainda as incompreensíveis simpatias táticas de Montenegro e seus muchachos pela força de extrema-direita que nos calhou em sorte, com o assumido patriota e nacionalista Leitão Amaro a não se fazer rogado em piscar o olho a Ventura, convencido de uma genialidade política que julga estar a exibir mas que mais não irá fazer do que levá-lo ao desempenho do papel de idiota útil que, a pretexto de uma revisão constitucional que ninguém contesta em termos de atualização e modernização, acabará por lhe caber enquanto elemento objetivo de apoio a que Ventura tente consagrar a “oportunidade histórica” de mudar o regime democrático vigente.


Para que não reste mesmo pedra sobre pedra, eis a Oposição socialista, fechada sobre si própria (o Congresso foi manifesto nesta perspetiva), apostando em ideias gastas e até preocupado com os pagamentos em atraso à Misericórdia do Porto. Carneiro é um bem-intencionado sem mundo e que, portanto, facilmente se entrega aos “emplastros” que se vão mostrando mais por perto, esquecendo que o essencial deveria estar numa autocrítica rigorosa do passado “costista”, numa renovação de quadros e caras e num debate sério de ideias que pudessem dar corpo a uma nova agenda do socialismo democrático em Portugal. O que não parece ser, de todo, a sua praia nem a sua principal escolha de navegação.

ALÍVIO, POR AGORA!

 

(Devo confessar que cedo por vezes ao vírus da indiferença generalizada que a indeterminação da cena internacional está a gerar em muita gente. Ontem, relativamente cedo, deitei-me sem verdadeiramente estar suspenso da infame ameaça de Trump de destruir toda uma civilização iraniana, criando o espectro da devastação generalizada da infraestrutura civil, abandonando assim o seu discurso pífio da mudança do regime teocrático. Hoje, pela manhã, a imprensa internacional comunica-me que Trump aceitou um cessar-fogo de duas semanas, com a contrapartida de supressão das restrições de circulação no estreito de Ormuz, para discutir, com mediação do Paquistão, quem diria, o plano de paz de 10 pontos apresentado pelo Irão e não o de 15 pontos inicialmente apresentado por Trump. É fácil perceber o absurdo de tudo isto. O presidente americano apresenta como grande vitória a reabertura de um estreito que tinha circulação livre garantida antes de ter sido perpetrado o ataque sobre o Irão, ou seja, clama vitória por algo que ele próprio provocou, em tom algo semelhante ao que tinha concretizado quando inviabilizou o tratado nuclear que Obama tinha garantido com o Irão, para depois clamar que destruíra o arsenal iraniano sem evidentes provas desse desaparecimento. É esta aleatoriedade do comportamento de Trump que está a provocar a tal indiferença generalizada sobre a devastação que pode acontecer na cena internacional e isso é que é verdadeiramente perigoso, a habituação à barbárie que pode acontecer a todo o momento, que já aconteceu em Gaza e que pode acontecer em Teerão. O problema é que a civilização mundial em nada seria penalizada com a saída de cena de Trump e do movimento MAGA em geral, ao passo que a devastação da civilização iraniana constituiria uma perda efetiva para a humanidade e não estou a falar obviamente de uma eventual queda do fanatismo teocrático, mas da cultura milenária subjacente aquele país, qualquer que seja a sua orientação religiosa.)

A participação de J.D. Vance nas manobras de adulteração do jogo democrático na Hungria de Orbán, como acontecerá seguramente em próximas iniciativas de aproximação da extrema-direita alemã da AfD, mostra que a administração americana atual não é de confiança. Não se convida para nossa casa quem pretende destruir o nosso modelo de vida e o valor democrático mais profundo das nossas instituições. Obviamente que há quem diga que a administração Trump não é os EUA. Assim é. Mas, enquanto a clique plutocrática de Trump estiver no poder, e essa situação pode malevolamente ser estendida no tempo, a verdade é que os EUA são por agora essa adulteração infame dos valores democráticos e é com isso que temos de lidar, por mais que as “florzinhas diplomáticas” que se pavoneiam no nosso governo queiram fazer-nos convencer do contrário, cultivando a sua sede de reiterada subserviência.

Diz-me o New York Times que os arsenais bélicos americanos estão a atingir níveis que muito dificilmente poderão ser completados nos próximos tempos, tamanho é o esforço orçamental que tal vai exigir. Assim, pelo menos o sugere o pedido colossal de autorização de despesa que chegou ao Congresso.

E abre-se aqui a interrogação de saber se todos os altos comandos militares americanos vão pactuar com o delírio bélico desta administração. Obviamente, quem está fascinado pelo poderio militar americano não olha a meios para garantir que os seus testes de poderio vão ser concretizados. Mas já tivemos mudanças de altas chefias militares em pleno período de ataque ao Irão, o que pode ter múltiplas interpretações sobretudo quando o secretário de Estado da Defesa é o “cowboy” e ex-apresentador de televisão Pete Hegseth, o tal que no domingo de Páscoa comparou a operação de resgate do soldado americano em território iraniano à ressurreição de Jesus Cristo. Sim, é com esta gente que o mundo de boa fé e de mente aberta tem de lidar.

 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

A INTELIGENTE SERENIDADE DE XI

Mais uma capa da “The Economist” que diz o essencial sem de mais necessitar. Aquele título – “Nunca interrompas o teu inimigo quando ele está a cometer um erro” –, acompanhado pela imagem passiva e algo trocista do presidente chinês e pela imagem de um Trump desfocado e tonitruante, é matéria do foro da perfeição comunicacional! Assim responde a prestigiada revista britânica a uma das grandes questões do momento internacional (quem sairá como principal vencedor da guerra em que os americanos se envolveram à boleia do poderoso lóbi judeu e do seu representante Netanyahu): a impávida e calculista China joga com o tempo a seu favor, assistindo à debilitação do seu adversário global, aproveitando as vantagens económicas e políticas da conjuntura, consolidando a sua estratégia de afirmação e preparando a sua própria cartada militar. Elementar, meus caros!

TACOS À MODA DE TRUMP

 

(Os mais sérios e pessimistas analistas americanos, e não só americanos, reafirmaram nas últimas horas o risco de confirmação das ameaças de Trump de um ataque em larga escala sobre o Irão, na sequência do ultimato para a reabertura do estreito de Ormuz, rejeitado pelo regime iraniano. O delírio bélico do presidente americano e dos seus colaboradores mais próximos coloca como real a possibilidade de serem cometidos crimes de guerra em larga escala, abandonando a narrativa de uma ajuda à rebelião popular no Irão substituindo-a pela completa identificação do regime teocrático com a sua população e submetendo esta a uma violência inaudita. Mas é difícil escrever sobre algo da qual nos escapa a informação, sendo à hora a que escrevo impossível perceber se iremos ter mais um adiamento do ultimato, se a confirmação do terror generalizado. Por isso, será mais sensato aguardar pelos desenvolvimentos do dia de hoje e procurar, entretanto, por outros elementos de evidência para tentar compreender o delírio trumpiano. Mais valeria seguramente Trump ter ficado pelo seu delírio tarifário do que estarmos hoje a lamentar o seu delírio bélico, fascinado pela potência da máquina de guerra americana, que transforma o mundo em algo de terrível pela banalização dos crimes de guerra cometidos, primeiro de Putin na Ucránia, depois de Israel em Gaza e na Cijordânia e agora dos EUA e de Isreal no Irão e no Líbano. A referência ao delírio aduaneiro de Trump justifica-se porque, finalmente, temos uma análise disponível de alguém que conhece melhor do que ninguém a estrutura atual do comércio mundial e que nos pode fornecer uma explicação sólida do comportamento errático de Trump nessa matéria, bem menos gravosa do que a do seu mais recente delírio bélico.)

 

Richard Baldwin (professor no IED em Lausanne) é o economista a que me refiro, aliás repetidas vezes invocado neste blogue (por exemplo, aqui, aqui e também aqui) para nos ajudar a compreender as disrupções da economia mundial. Baldwin é a VOZ nesta matéria, dispensando-nos, por isso, do ruído imenso em que sempre mergulhamos quando não nos munimos das pessoas e da investigação mais autorizadas para compreender os temas que procuramos entender.

Por outro lado, a expressão TACO’s (Trump Allways Chickens Out) (Trum recua sempre) à moda de Trump foi a expressão cunhada na imprensa internacional para descrever o comportamento errático que o presidente americano veio trazer à política comercial externa americana. O que podemos concluir é que o comportamento aduaneiro errático de Trump revelou-se incomparavelmente menos perturbador da economia mundial do que o seu delírio bélico.

Baldwin fornece-nos uma explicação muito convincente das razões que explicam que as perturbações da ordem aduaneira impostas por Trump não tenham provocado a desordem esperada.

A ideia central é a que anda à volta do racional para o bullying aduaneiro imposto por Trump. Baldwin mostra-nos que o que comanda a discricionariedade de Trump é o seu desejo de tentar responder ao ressentimento da classe média e operária americana na sequência das disrupções da economia mundial. É essa a razão que explica que os sucessivos recuos TACO do presidente americano não resultem de retaliações internacionais de vulto (a exceção é a da China que tinha força para tal), mas antes de exigências vindas do lado interno, devidas precisamente ao facto dos efeitos perversos provocados pelos direitos aduaneiros sobre o consumo e emprego de tais grupos sociais. O caso mais evidente é o recuo relativamente às importações do Canadá e do México (só o primeiro retaliou) que afetaram inapelavelmente a produção automóvel americana devido ao encarecimento de produtos intermédios (componentes por exemplo), colocando em perigo o emprego dos que Trump pretendia apoiar. O outro exemplo foi dado pelo esgotamento de stocks observado nas grandes cadeias de retalho americanas quando o transporte marítimo de mercadorias começou a ser finalmente impactado pelos direitos aduaneiros mais altos sobre as exportações chinesas para os EUA. Se juntarmos a estes dois exemplos, as inúmeras isenções feitas ao telefone pelo presidente americano, percebe-se como, mesmo antes de terem lugar as condenações judiciais em tribunal da política aduaneira de Trump, os direitos aduaneiros médios terem começado a baixar. Por outras palavras, por desconhecimento evidente da estrutura da economia mundial, o objetivo de beneficiar os grupos sociais do ressentimento que lhe deram a vitória eleitoral foi totalmente pervertido e obrigou o presidente americano a recuar no seu delírio aduaneiro.

Segundo Baldwin, os TACO à moda de Trump tiveram assim quatro origens: i) primeiro, a reação dos grupos do ressentimento bem explicada no caso do recuo perante o Canadá e o México; ii) segundo, a reação de mercado gerada pela perturbação do sistema financeiro; iii) o recuo imposto pela reação da China, com a perceção de que a China está melhor preparada para aguentar mais tempo uma guerra comercial do que os EUA, designadamente através de uma mais ágil diversificação das suas exportações; e iv) um problema de affordability, ou seja de condições de mais difícil acesso ao consumo.

Ou seja, em nenhuma destas situações, com a exceção da China, existe uma causa associada a retaliações internacionais. Foram essencialmente efeitos perversos internos, impostos pela estrutura do comércio internacional, que explicaram o comportamento errático de avanços e recuos. Deixou de ouvir falar-se em guerra aduaneira e, para mal da economia mundial, o delírio bélico substituiu o delírio aduaneiro. O que não é a mesma coisa, até porque provavelmente os efeitos perversos internos da guerra na sociedade americana terão um tempo mais longo de maturação.

 

domingo, 5 de abril de 2026

MODORRA TEMÁTICA

 

(O comportamento da barra azul escuro mostra que os rendimentos médios dos 27 estão mais próximos entre si e o da barra laranja mostra que a desigualdade no interior de cada paíes aumentou)

(É domingo de Páscoa e o compasso, velha tradição que se vai transformando em função do empenho e resistência de alguns leigos, hoje um conjunto de raparigas de sorriso aberto, já por cá passou na casa de Gaia, com o número de habitações de portão fechado cada vez mais elevado. Está um dia esplendoroso, de temperatura amena. Ontem, o jardim de Soares dos Reis estava com uma animação fora do comum, refletindo já claramente a interculturalidade de uma sociedade com mais imigração, mostrando que as palavras escritas por Pedro Góis, hoje no Público, estão certas. Sem a imigração as nossas sociedades seriam um corpo morto, sem vida e animação. Mas esta modorra climática coloca-me as pilhas em baixo, projeta-me num “far niente” do qual tenho dificuldade em sair e, neste caso, é o blogue que paga. Além disso, não é só a modorra climática que se instala, existe também uma modorra temática, tão desinteressante é a política interna e tão provocadora de azedume e impotência é a política internacional. Já há demasiados dias afastado do blogue, fui salvo nesta manhã de Páscoa pelo gongue de um artigo de Branko Milanovic, o senhor Desigualdade na economia aplicada, que me fez despertar desta letargia e colocar-me empenhado diante do ecrã vazio do portátil. O tema é a convergência de rendimentos na União Europeia a 27, tratando estes países entre 1993 e 2023 como se eles tivessem sempre feito parte da União, o que sabemos não é verdade, mas que não perturba as conclusões a que podemos chegar.)

Milanovic utiliza a excelente base de dados cuja fonte é dada pelos representativos inquéritos às famílias, devidamente harmonizados pelo Luxemburg Income Study no qual o autor sérvio trabalha. Para alguns países com insuficiência desse tipo de inquéritos, MIlanocic recorre à Poverty and Income Platform do banco Mundial. Os dados integram sempre o rendimento disponível depois de impostos e o rendimento per capita médio é obtido através da divisão do rendimento da família dividido pelo número de membros, sendo depois ajustado pelas diferenças pelas diferenças de níveis de preços, ou seja, à paridade de poder de compra, os chamados dólares internacionais à PPC.

Considerando o conjunto dos 27 países como um só (a União Europeia) é possível concluir que o coeficiente global de GINI para o conjunto da União desceu de 0,415 para 0,35 entre 1993 e 2023. Por outras palavras, a desigualdade inter-países na União diminuiu e eis aqui uma palavra de esperança para a política de coesão apresentar alguma coisa em seu favor, tão pressionada ela está como sabemos e que nos faz antever grandes dificuldades para a sua afirmação no próximo período de programação. As garras dos seus adversários estão afiadas e prontas para atacar, como sabemos.

O que tem acontecido, e Milanovic designa-o pelo conceito 2 de desigualdade, é que os rendimentos médios de cada um dos países tem vindo a aproximar-se. Ou, nas palavras do próprio Milanovic, o rendimento médio nos pa+ises mais pobres como a Roménia ou a Bulgária estão agora mais próximos do rendimento médio dos paíeses mais ricos como a Suécia ou os Países Baixos.

Mas o curioso é que se estivermos atentos à evolução da desigualdade no interior de cada um dos 27 é possível concluir que ela aumentou. Assim, se é verdade que a desigualdade entre a União Europeia e os EUA está a regredir, contrariando o discurso basofeiro de Trump e seus apaniguados e acontecendo com melhores condiçºões de vida e de proteção social, o que não despiciendo, isso acontece porque os rendimentos médios dos 27 estão a aproximar-se, embora em cada um dos desses 27 países a desigualdade tem aumentado. A menor desigualdade em realção aos EUA mantém-se, segundo Milanovic, mesmo que ajustando os dados americanos pelas diferenças de desenvolvimento e de preços entre os estados americanos.

Esta evidência pode explicar muita coisa, sobretudo a perceção dos europeus de que, embora mais iguais do ponto de vista do rendimento médio depois de impostos, a desigualdade interna tem aumentado. O contentamento europeu é apagado pelo descontentamento interno.

Quer isto significar que a glorificação das políticas de coesão tem os seus limites a partir destes dados. Se é um facto que a aproximação dos rendimentos médios dos 27 em parte se deve também às políticas de coesão, os números sugerem que as políticas macroeconómicas da União e dos países têm contribuído para agravar a desigualdade interna.

O que me parece um dado de grande relevância política e ao qual a chamada coesão europeia não pode ficar indiferente.