domingo, 1 de março de 2026

KHAMENEI SUCUMBE AO IMPERIALISMO AMERICANO

(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es) 

Subitamente, mas não inesperadamente, o mundo ficou ainda mais perigoso do que já estava (e já não estava nada de somenos). O ataque ordenado por Trump e Netanyahu ao Irão foi de uma precisão cirúrgica e eliminou muitas altas personalidades do regime islâmico radical que controla o país com mão-de-ferro desde 1979, incluindo o Líder Supremo (Ayatollah Ali Khamenei).

 

A situação internacional complicou-se e ganhou em incerteza fundamental, seja militarmente (os riscos são brutais se o Irão que conhecíamos não for o “tigre de papel” que acabou por se mostrar ser o Iraque de Saddam Hussein) ou nos planos da ordem geopolítica (com a Rússia a ficar numa posição altamente melindrosa a vários títulos, sendo que um caminho de crescente desespero não é bom conselheiro) ou da ordem geoeconómica (com a China a ser a principal potência indiretamente atingida, sendo que os estrategas americanos, que operam ativamente nos bastidores, têm esse objetivo por foco prioritário).

 

Acresce, para tornar a situação potencialmente explosiva como nunca, a situação interna do Irão, onde o descontentamento era largamente reprimido pelo regime mas grassava de modo visível e com um sentido comum e onde agora se corre o risco de movimentações sociais menos estruturadas na perspetiva de uma capacidade para forjarem em tempo útil as lideranças e as articulações programáticas necessárias a uma transição desejavelmente democrática e pacífica. Neste quadro, Trump talvez não desdenhe a hipótese de recorrer a uma entrega fantoche do poder, na pessoa do filho do Xá (que tem feito aparições sinalizadoras da sua existência e disponibilidade) – uma solução que tudo indica só contribuirá para mais uma evolução incendiária na Região, quiçá para desembocar num novo e muito relevante “Estado falhado”. Dito isto, convém lembrar que vivemos uma fase em que nada parece adquirido e em que quase tudo pode ser deitado a perder.

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

sábado, 28 de fevereiro de 2026

IRRESPONSÁVEL A UGT?

Um dos temas que recorrentemente mais se tem mostrado divisivo no espaço público português é o da legislação laboral. Verdadeiramente, e depois de tanta conversa balofa mais ou menos interesseira e ideologicamente dominada, acho mesmo que já ninguém sabe ao certo o peso da mesma na competitividade nacional. Conhecemos, isso sim, os factos e as fases sucessivas atravessadas pela economia portuguesa ao longo das últimas décadas e, nesse quadro, podemos aquilatar razoavelmente da justeza dos equilíbrios que as autoridades governativas e os parceiros sociais vão ensaiando. E sabemos hoje também que já ninguém ousa defender – por indecente e má figura – a ideia de um tecido económico a evoluir num sentido desejável com base em salários competitivos por muito baixos em termos comparados no seio da nossa zona de inserção natural geoeconómica.

 

Vem tudo isto a propósito do pacote de revisão laboral que, à socapa e sem tal ter sido dado a conhecer e sustentado no programa eleitoral da AD, o Governo e a ministra Maria do Rosário Palma Ramalho procuraram impor às organizações sindicais. A reação destas, e designadamente da UGT, foi algo inesperada e a ela se associaram vozes de apoio e de teor incómodo para Montenegro e Ramalho, obrigando-os a meter o rabo entre as pernas e a preparar um recuo em toda a linha cuja dimensão e alcance ainda estão por apurar. Em sua defesa, e procurando salvaguardar algumas “conquistas” que já davam por adquiridas, os patrões e a CIP em especial não têm cessado de explicitar quanta desilusão sentem pela atitude mais dura adotada pela UGT, o que a entrevista de Armindo Monteiro (AM) ao “Expresso” evidenciou descaradamente – chego a ter alguma admiração pelo modo como estes associativos empresariais são capazes de afirmar a mesma coisa e o seu contrário consoante o público com que estão confrontados, eles que são alegadamente os arautos de uma sociedade mais competitiva mas também menos assente em desequilíbrios insustentáveis como são os nossos níveis salariais e algumas flexibilidades instabilizadoras estabelecidas na lei do trabalho.

 

A meu ver, não apenas a escassa margem de manobra do Governo em termos de apoio parlamentar como também a bem presente memória dos anos da Troika – a despeito da aparente contrapartida negativa que foi a “Agenda para o Trabalho Digno”, o que AM qualifica de maior campanha de marketing deste país” e que constituiu mais um dos muitos contributos de António Costa para a paralisação em que mergulhamos durante a sua vigência (até a concertação social embarcou neste logro!) – teriam aconselhado a que o Governo não escolhesse esta área complexa e conflitual para trazer à tona os arremedos reformistas que a sua tática de gestão política casuística largamente impede de terem tradução substantiva. Assim não tendo sido, muito por força da manifesta incompreensão relativamente ao “Chega” e ao modo como com ele lidar que grassa no seio dos estrategas (a palavra é obviamente lisonjeira!) da AD, a situação é de impasse e os caminhos airosos de saída não parecem fáceis de encontrar, ademais com Passos a andar a falar incontidamente por aí – um assunto a revisitar.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

PARA ENCERRAR OS ASSUNTOS DA BOLA...

(cartoon de Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt)

 

Continuo no tema por razões atendíveis. Primeiro: afinal, e ao invés do que aqui prognostiquei convictamente, não tinha sido assim tão impossível o Benfica ter eliminado o Real Madrid no Bernabéu; porque na realidade a equipa espanhola mostra fragilidades como há muito tempo não ocorria, o “Record” de hoje refere acertadamente que “era possível”... – e vou mesmo mais longe, afirmando que no sorteio de amanhã o Sporting deve rezar para que lhe saia o Real e não aquele Bodø Glimt que passeou em Milão e de que aqui falei ontem. Segundo e mais relevante: a questão do racismo corresponde a uma causa inquestionavelmente justa e insuscetível de transigências, mesmo que o protagonista seja um jovem de 20 anos deslocado do seu ambiente – daí que insista na ideia de que o Benfica não tem uma administração à altura de enfrentar problemas bicudos com a firmeza e inteligência que teriam sido requeridas, assim como daqui inste todos os verdadeiros adeptos futebolísticos a porem a mão na inconsciência que os faz macaquearem gratuita e criminosamente a diferença de alguns dos seus semelhantes e a desse modo ainda virem comprometer os seus clubes de eleição com atuações profundamente inapropriadas nas bancadas dos respetivos estádios; Prestianni vai ser castigado com dureza, o Benfica também pagará pelos factos (além da perda de prestígio internacional a que já não escapa), o irresponsável Rui Costa prosseguirá as suas roedelas de unhas enquanto assiste ao desenrolar dos jogos encarnados e creio poder vaticinar que a pedagogia que uma cultura de decência e racionalidade imporia perante os acontecimentos da Luz não vai impor-se nos campos deste nosso desgovernado País. Assunto encerrado, pelo menos por ora.

UM GOLPE QUE JÁ ERA CONHECIDO E UM OUTRO QUE CONTINUA OBSCURO

 


(A vizinha Espanha está irreversivelmente polarizada e, por isso, qualquer coelho da cartola que o Governo de Pedro Sánchez decida colocar cá fora tem sempre uma dupla e oposta interpretação – a direita considera que é um lança fumo para confundir os espanhóis e a esquerda uma medida contra a força da extrema-direita que aspira a sequestrar a democracia e o PP. Assim aconteceu com a decisão governamental de desclassificar todos os documentos relativos ao golpe militar de 23 de fevereiro de 1981 que visava derrubar o governo de Adolfo Suaréz. Embora 45 anos seja uma eternidade e a memória já não seja a de outros tempos, a verdade é que me recordo com nitidez das imagens do Ex-Tenente Coronel Antonio Tejero irrompendo aos tiros pelo Congresso dos Deputados, o Parlamento espanhol. O destino guia-se por linhas muito enviesadas e no dia em que a desclassificação de documentos foi concretizada morreu o dito ex-Tenente Coronel Tejero, figura da frente do fracassado golpe, desfecho que mereceu então à sua mulher o curioso desabafo de “Está tudo perdido? É verdade? Que partida de maricões!”, bem ao jeito de alguém fortemente identificado com o franquismo. Pelo que tenho lido de excertos da documentação através de jornais espanhóis, concluo com uma certeza do que já era conhecido e a confirmação de dúvidas que já existiam. Explicar-me-ei.)

Na documentação a que agora se tem acesso, é indiscutível que surge anulada qualquer suspeição sobre o eventual papel dúbio que o antigo Rei Juan Carlos I terá desempenhado no processo. Antes de se ter dedicado às caçadas de elefantes e ao enlevo de mulheres sedutoras e se ter envolvido com o universo dos petrodólares, parece indiscutível que o monarca se afirmou nos acontecimentos com uma defesa intransigente do sistema democrático, valha-nos isso para pelo menos ter uma referência na história antes da queda para o abismo. Todos os documentos agora desclassificados não identificam em momento algum contactos de Juan Carlos I com os golpistas, antes pelo contrário mostram uma série de comunicações do monarca para que o processo terminasse imediatamente, com relevo para as ordens dirigidas ao Tenente-General Jaime Milans del Bosch, Capitão-Geral da Terceira Região Militar, com sede em Valência, ao qual Tejero reportava. Afinal, nada que não corresponda à imagem que foi criada sobre o papel de rejeição do golpe que era atribuído a Juan Carlos I. Para quem imaginou poder haver indícios de que tal ideia positiva corresponderia a uma narrativa romanceada do papel do então Rei, preparada pela Casa Real, sai defraudado.

O que permanece interrogado é o papel que desempenhou no processo um outro militar, o General Alfonso Armada, condenado também como Tejero e Milans del Bosch. Vários documentos agora desclassificados confirmam a referência a uma “solução Armada”, inicialmente invocada por Milans del Bosch para convencer o Rei de que o afastamento de Suaréz seria a solução mais adequada. Segundo o que agora foi divulgado, essa solução visava aproveitar a crise golpista para propor um Governo de Concentração Nacional, presidido pelo próprio General e formado por políticos de todo o arco parlamentar. Ora, a identificação das condições que terão ajudado a construir essa ideia, que cheira a tentativa do franquismo de recuperar o comando político, continua obscura e a desclassificação dos documentos do 23 de fevereiro em nada ajuda a esclarecer. Estou assim de acordo com o editorial do El Rugido del León do El Español, que sintetiza tudo numa simples frase: “Sabemos tudo sobre o golpe frustrado que aconteceu, mas continuamos a não saber nada sobre o golpe que não chegou a materializar-se.”

 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O QUE VALERÁ ESTE GOVERNO DEPOIS DAS TEMPESTADES?

 


(A imaginação de escrita não está fértil e o contexto nacional e internacional não ajuda. No plano internacional, quatro anos de guerra na Ucrânia pontificados pela cínica frieza russa, pela basófia transacional de Trump e pelas inconsistências europeias, não basta clamar pela brava resiliência de quem é agredido, mas ajudar é preciso com euros e armas, deitam abaixo qualquer um. Para mais, sermos presenteados com a cena trágico-cómica de um narcisista compulsivo a fazer durante duas horas o discurso do Estado da Nação americana, cheio de contradições e deturpando evidências, desafia o espírito positivo de qualquer um. De facto, comparando com quatro indicadores simples a economia americana de janeiro de 2025 com a situação atual, taxa de desemprego, empregos criados relativamente ao ano anterior, inflação central e perspetivas do mercado de trabalho, não se compreende onde está o desempenho económico excecional com que Trump se apresentou, espelho meu, espelho meu, quem é o tipo mais mentiroso do que eu? No plano nacional, a grande interrogação parece ser a de será este Governo capaz de governar de outro modo que não seja a efemeridade dos “power points”, que se apresentam e arquivam e que não dão origem a qualquer monitorização crescente? Não posso deixar de recordar que, nos piores momentos do segundo governo de António Costa, a política praticada enfermava do mesmo mal. O peso da comunicação na política e na governação tornou-se insuportável, a efemeridade do momento comunicacional sobrepõe-se a qualquer esforço sério de implementar soluções. E daí que seja legítimo perguntar o que valerá o governo de Montenegro após as tempestades?).

A história económica diz-nos que processos de reconstrução infraestrutural e económica dão, regra geral, origem a períodos de relação virtuosa entre investimento e crescimento. Mas, no estádio de desenvolvimento e de mudança estrutural em que o país se encontra, a variável da construção, sobretudo num contexto em que o período final da implementação do PRR exerce uma pressão brutal sobre a construção e sobre a capacidade empresarial existente, pode através do complemento do PTRR não proporcionar o adicional de crescimento necessário para completar, prolongando, o efeito do PRR tal como foi concebido.

Muitas das empresas que podem beneficiar de apoios para repor a capacidade produtiva existente antes das intempéries pode concretizar os investimentos necessários e deparar-se com uma situação internacional cheia de incertezas, não sendo ainda totalmente claro o modo como a economia portuguesa se posicionará face à reestruturação das cadeias de valor globais. A aleatoriedade da política aduaneira da administração Trump nem sequer permite com seriedade estimar o impacto das sobrecargas aduaneiras sobre as exportações portuguesas para o mercado americano. Os empresários portugueses costumam ser hábeis na procura de mercados alternativos, mas não se trata de operações instantâneas de diversão de exportações, isso leva tempo e procurar parcerias de distribuição em novos mercados não se concretiza no tempo de um clique.

Creio que a adição da governação pela comunicação de show-off torna difícil a expressão de um discurso mobilizador entusiasmante e suscetível de colocar o país num registo de recuperação e de refazer as coisas destruídas. É isso que me parece estar a acontecer. Não abundam as ideias simples, mas fortes para agigantar um esforço coletivo. Não é facilmente que se readquire o domínio do timing político e do efetivo discurso de mudança face ao poder das assessorias de comunicação, quando estas últimas estão instaladas e comandam a agenda.

A interrogação tem, pois, sentido. O que valerá esta governação após as intempéries?

Salvo algumas críticas muito seletivas e globalmente pouco expressivas, a indicação do antigo Diretor da Polícia Judiciária para Ministro da Administração Interna deu algum fôlego a Montenegro. Das dúvidas suscitadas, a que me parece que vale a pena monitorizar futuramente é a questão de saber se o novo Ministro mantém no seu discurso aquilo que frequentemente afirmava em público, dizendo que era necessário distinguir entre perceção de insegurança e informação objetiva sobre a mesma. Estou curioso em antecipar como é que Luís Neves conviverá no Conselho de Ministros com Leitão Amaro em matéria de segurança. A questão suscitada por pessoas como Passos Coelho entendendo como má prática a passagem da Polícia Judiciária para o Governo assenta na comparação com a situação de um regulador que assume funções ministeriais, o que me parece um pouco fantasiosa.

Mas retirando o novo fôlego para a Administração Interna e a prestação positiva que a Ministra do Ambiente teve na crise das cheias, a sensação é que alguns Ministro passaram a zombies errantes, passeando-se pelas intempéries com contradições de discurso entre si e deixando antever a inexistência de coordenação política.

Neste contexto, a questão das alianças para aprovar legislação que necessite de validação parlamentar até corre o risco de nem ser o problema fundamental. Porque para haver alianças é necessário saber o que se quer. Se a legislação laboral é o mote para o que vem aí, seguramente que Seguro não terá vida fácil em Belém.