domingo, 22 de fevereiro de 2026

NETO E VALENTE COM A REIGIONALIZAÇÃO

Não pretendo neste breve comentário contribuir para qualquer espécie de branqueamento dos pasquins extremistas que por aí continuam a perorar aos seus convertidos e a tentar alargar o seu espaço de audição junto dos portugueses incautos e/ou descontentes. Pretendo, isso sim, expressar o meu lamento pelo facto de a tal projeto se associarem cidadãos com provas dadas e obrigações adquiridas em função da sua experiência de vida profissional e política, gente insuspeita de poder ser associada a causas antidemocráticas, como é o caso de Henrique Neto – um autêntico caso de estudo em termos de deriva cívico-política mas ainda não tendo alcançado um estado suscetível de ser considerado totalmente irrecuperável... – e de Ricardo Valente – um liberal que andou pela vereação da Câmara Municipal do Porto e dá umas aulas na FEP, um candidato pela lista vencida de Pinto da Costa ao FCP que se apresenta como assumidamente regionalista e  que – maldições do destino! – partilha a primeira página de “O Diabo” com uma chamada para a sua provocatória peça central intitulada “A Reigionalização – Bem dividido, dá para todos!”. Quando as elites dão despudoradamente o exemplo, nem o povo nem o Estado podem ser acusados de impreparação ou farsa.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

A UNIVERSIDADE NO SEU PIOR

 

(Vai por aí uma grande algazarra envolvendo a até agora imaculada Universidade Nova de Lisboa, apontada por muita gente como fazendo jus ao seu nome de “Nova”. Mas convém recordar que foi na Universidade Nova de Lisboa que Susana Peralta encontrou forte resistência pela presença mediática no debate público, como essa presença fosse uma mácula na sacrossanta pureza dos mandamentos universitários. Pois agora, não sei exatamente se com a mesma raiz e origem, a controvérsia estalou a propósito da decisão do Reitor recentemente eleito de invocar a lei para que a Nova School of Business and Economics seja proibida de ostentar na sua designação expressões em inglês, popularizada pela sigla NOVA BSE. Estou perplexo e sobretudo farto deste tipo de hipocrisias universitárias, que pululam entre os seus órgãos de gestão (é um eufemismo designar de gestão o que muitas equipas reitorais estão na prática a fazer, gerindo o imobilismo). Quem alguma vez tenha já visitado a NOVA BSE em Carcavelos apercebe-se facilmente, se tiver um mínimo de intuição e sobretudo de abertura à inovação organizacional, que aquela organização é sem dúvida uma Escola diferente no panorama universitário nacional. O modo como o campus está organizado para transformar a bela localização da Escola em termos de ativo poderoso de atração e animação do espaço num ecossistema que atraia as empresas à colaboração com a Nova BSE destaca-se no horizonte das escolas de economia e de gestão nacionais. Sim, a Nova BSE é uma Escola vocacionada para a internacionalização e para a atração de talento ao país e é isso que parece incomodar o imobilismo universitário que vai buscar proteção à ciência e à pretensa valorização da língua portuguesa para embirrar com o uso da língua inglesa no cartão de visita desta Escola. Já não há pachorra…).

A utilização do inglês como língua em que muitos cursos são ministrados, designadamente para acolher estudantes estrangeiros de licenciatura, mestrado e doutoramento, é hoje prática corrente em muitas universidades e até institutos politécnicos, mesmo nos mais atávicos em termos de internacionalização. Tudo isto radica no princípio estabilizado de que, mal ou bem não interessa agora discutir, o inglês se transformou na principal língua da investigação científica. A peregrina ideia de que a defesa da língua portuguesa passa por esse tipo de batalhas está condenada ao fracasso, sobretudo num contexto em que a defesa da língua portuguesa é tão esquecida e conspurcada na política cultural do país, que não tem de facto uma política consequente de apoio sistemático a quem cria, investiga ou escreve na língua portuguesa.

Tal como tenho acompanhado a evolução dos ecossistemas universitários em Portugal, existe uma fissura potencial entre as estratégias modernas e internacionalizadas de interfaces universidade-empresa do tipo INESCTEC ou INEGI e de Escolas como a NOVA BSE que nascem com uma outra cultura e um poderoso financiamento de empresas de grande dimensão e as universidades que continuam a reger-se pelas regras apertadas da administração pública e com práticas de proteção endógena (aos de dentro) que bradam aos céus. Esses ecossistemas não estão organizados e o seu modelo de governação continua a ser atirado para a indiferença da espera, apesar de alguns progressos nos últimos tempos como, por exemplo, a consolidação de contas (caso pelo menos da Universidade do Porto que conheço melhor). Mas a fissura está lá, até porque estamos perante o confronto terrível entre a agilidade da gestão e o imobilismo mais burocrático, e esse confronto é sobretudo penoso para os mais modernos e internacionalizados que, falando com os botões, interrogar-se-ão porque carga de água deverão continuar a aturar a ineficiência e a depender do sempre insuficiente financiamento público das instituições.

Se a Universidade Nova não for capaz de compreender que a Nova BSE é um ativo poderoso para a sua própria afirmação no mundo então o imobilismo virou estupidez pura e simples. Se a Universidade Nova está de facto interessada em valorizar a língua portuguesa, então que se apresente às autoridades do país com um programa regular e consequente de defesa da mesma, projetando-se pioneiramente nesse capítulo.

Por mais importância que o espaço territorial e de influência da língua portuguesa deva ser relevado, no âmbito científico e da economia dos negócios querer obrigar as universidades a movimentar-se apenas nesse círculo é condená-las a uma inferioridade consentida, que obviamente as universidades e as equipas de excelência, respeitadas entre os seus pares internacionais, rejeitarão sempre.

A minha perplexidade aumenta quando o ministério da tutela, de cujo Ministro Professor Fernando Alexandre tenho as melhores impressões, parece estar a ser contaminado com o atavismo de algumas das instituições universitárias. Fico assim espantado quando, depois da aspiração dos Institutos Superiores Politécnicos em ascender ao estatuto de Universidades Politécnicas ou Universidades Técnicas (dizem as más-línguas que nem os próprios Presidentes dos Politécnicos escapam à estigmatização da palavra “politécnico”) ser sistematicamente rebatida e diferida no tempo, surge agora associada ao Plano de Recuperação das intempéries a proposta de transformação dos Institutos Politécnicos do Porto e de Leiria em Universidades. Não haveria outro contexto para discutir serenamente as condições (de rigor e exigência) para que alguns Politécnicos pudessem aceder ao estatuto de Universidade, com a designação que a lei indicar? Não poderia o Instituto Politécnico de Leiria ser projetado como alavanca ao serviço daquela martirizada região sem o implicar à força num processo cuja discussão deveria ser serena e rigorosa?

Afastado das lides universitárias pelas razões óbvias da idade, é com alguma deceção que vejo o atavismo universitário a prosperar, enquanto o mundo pelas suas exigências e transformações esperaria da Universidade um outro contributo. Por quanto tempo, os “excelentes” e os mais dinâmicos aguentarão este atavismo que só estorva?

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

DESGRAÇA, DESGRAÇA FOI NA LUZ!

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Portugal está em estado de emergência, não tanto pela tempestade que se abateu sobre a sua Região Centro mas principalmente pela desgraça que irrompeu no Estádio da Luz quando o extremo argentino Prestianni do Benfica decidiu insultar o avançado brasileiro Vinicius Júnior do Real Madrid imediatamente após este ter marcado o único golo do encontro e festejado exuberantemente na linha final. Um estranho ato de racismo, alegadamente objeto de testemunho por Mbappé, e que logo obteve o beneplácito generalizado das bancadas da Luz para passar em seguida a ser encoberto pelos dirigentes do Benfica (que não compreenderam o peso da ofensa e do correspondente castigo a surgir por parte da UEFA). Mas pior do que esta incompetência de Rui Costa e seus pares – que teriam, obviamente, de ter vindo a lume para repudiar o incidente e minorar o seu alcance e não de se terem esgotado em comunicados acusatórios do ofendido e da testemunha –, é a forma como o assunto se tornou uma matéria que obsessivamente preenche as televisões e enormemente aflige os respetivos comentadores, tão desesperados e chorosos quanto incapazes de denunciarem comportamentos inaceitáveis de atletas, adeptos e dirigentes encarnados com a mesma verborreia fácil com que gastaram dias a criticar os apanha-bolas do Dragão. Portugal não sai do sítio por razões divisivas deste tipo, ferozmente alimentadas sem critério por centralistas de turno a quem é disponibilizado um tempo de antena injustificado e gasto com uma parcialidade que já não cabe nos difíceis dias de hoje. E – nem de propósito! – quando eu acabava de escrever este post, as notícias anunciavam que um jogo de futsal entre Sporting e Benfica era acompanhado por confrontos graves junto ao Pavilhão João Rocha e culminava em 124 detidos e vários feridos oriundos das claques de um e outro lado. E assim vamos à deriva e com pouca esperança...


Em tempo, pela manhã do dia seguinte:


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

QUASE NINGUÉM DEU VALOR AOS SOFRIDOS ESFORÇOS DE VENTURA!

(cartoons de Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt e excertos de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt

Estão definitivamente encerradas as eleições presidenciais, após a votação ocorrida nos concelhos em que as mesmas tiveram de ser adiadas devido ao temporal que se abateu sobre o nosso País. O saldo final nada trouxe de novo, exceto quanto à confirmação do arraso sofrido por André Ventura – de facto, este não logrou vencer um único dos concelhos que estavam em jogo, tendo-se inclusivamente verificado que Seguro virou o resultado da primeira volta em 77 concelhos que tinham dado a vitória a Ventura ou Mendes e que, assim tendo sido, apenas 2 dos 308 concelhos nacionais mantiveram uma opção populista (Elvas no Alto Alentejo e São Vicente na Madeira). Até na Madeira, onde a instalada tradição laranja tinha dado lugar a uma fuga generalizada para o Chega a 18 de janeiro, todos os municípios (exceto o acima referido) alteraram o seu sentido de voto em favor do ex-líder socialista. Em suma: sobram menos argumentos utilizáveis para que Ventura possa levar a água ao seu moinho, sendo embora certo que o dito tende a dispensar qualquer argumentação lógica e coerente.

O LOBO MAU, O LOBO FOFINHO E O PROMOTOR DO CAOS PERMANENTE

(A conferência de Munique, quando comparada com a edição do ano passado, trouxe a alguns europeus a ilusão de que a relação da União Europeia com os EUA poderia eventualmente regressar a um terreno de normalidade, como se tivéssemos acordado de um pesadelo. Essa ilusão foi criada comparando a desbragada e insultuosa intervenção de J.D. Vance no ano passado com a mais polida intervenção de Marco Rubio, cheia de referências históricas aos princípios e valores (até arrepia ouvir gente desta a falar de valores e princípios) que germinaram a partir da Europa. A melhor metáfora que encontro para descrever esta ilusão de alguns europeus é a do lobo mau (Vance) e do lobo fofinho (Rubio). Mas o lobo mau e o lobo fofinho são extensões apaniguadas do promotor do caos permanente que é Trump e é no âmbito desse triunvirato, a que se junta um conjunto de personagens sinistras que vagueiam pelos corredores da Casa Branca e pelas receções de Mar-a-Lago, que deveremos analisar a conferência de Munique. Valha a verdade que no dia seguinte o fofinho Rubio mostrou de novo as garras apoiando despudoradamente Orbán em Budapeste, sabendo que este é um seu aliado e disposto a tudo para conservar o poder e continuar por essa via a minar as instituições europeias e o que resta delas. Só gente muito incrédula e distraída poderia imaginar que é possível manter relações de normalidade, quando a administração Trump pratica internamente o oposto dos valores europeus e se conluia externamente com os que frontalmente procuram destruir o edifício europeu. Estes factos são mais importantes e perniciosos do que reconhecer que a estratégia de segurança nacional americana é outra e que a defesa da Europa deixou de ser considerada como um vetor inatacável dessa mesma estratégia…).

Podemos, assim, concluir metaforicamente, que o lobo mau e o lobo fofinho são meras representações do caos permanente que Trump e os seus seguidores trouxeram à cena internacional. Independentemente de poderem ser adversários políticos futuros, o que significaria que Trump se absteria de provocar ainda mais caos querendo prolongar o seu mandato contra todas as interpretações, a mensagem certa é que a Europa deve uma vez por todas arrepiar caminho e fazer-se à luta de querer ser ouvida e respeitada. Tontos seríamos todos se interpretássemos a vinda de Rubio à conferência de Munique como um sinal de recuo americano. A mensagem está lá, cruel e não dando lugar a dúvidas: o conceito de liberdade que nos querem impor é o quero posso e mando dos gigantes tecnológicos americanos, todos eles animais domésticos da corte de Trump e a colocação de passadeiras vermelhas às forças políticas de extrema-direita que Trump considera “good fellows” e que estão no terreno para minar as instituições europeias.

Ir à luta do querer ser ouvida e respeitada coloca especiais desafios às instituições europeias. O principal desafio no meu modesto entender é identificar as lutas certas. Imaginando que a competitividade poderá ser uma delas, não tenho ainda presa suficiente sobre o assunto para aferir se a iniciativa de António Costa tem capacidade de voo para transformar pelo menos parte do Relatório Draghi em ações consequentes, dificilmente tomadas por unanimidade. Mas se vier a ser considerada uma luta certa, então não valerá a pena diversificar excessivamente os pontos de fricção, internos (o amansamento dos nacionalismos que vão começar a emergir) e externos (política comercial externa mais estratégica e consistente).

Os fundamentos de bom senso deste entendimento são óbvios. Se o processo de decisão europeu é, por natureza e tradição, difícil e complexo, então será inteligente não diversificar os processos e concentrar a “luta” em processos que possam fazer a diferença, no sentido de criar uma dinâmica que se reforce a si própria pela demonstração de resultados.

 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

DE FEIJÓO A RUBIO

Repito-me, mas a verdade é que Alberto Feijóo começa a exagerar na sua pressa, tornando ainda maior o perigo de subserviente contemporização com Abascal. Porque uma Espanha de portas escancaradas à extrema-direita não é apenas uma má ideia, é um precedente descontroladamente permissivo de discursos e práticas que arriscarão mergulhar a Península Ibérica em radicalismos divisionistas que se pensavam enterrados em definitivo.

 

Ademais, tal não deixará de se traduzir em inevitáveis impactos na ação do populista de pacotilha que opera neste nosso tão azoratado retângulo e terá, obviamente também, salpiques desgovernados por essa Europa fora, agora que nela parecem começar a surgir alguns sinais de haver quem queira levantar a cabeça e enfrentar os imensos e tremendos desafios que décadas a fio de inércia e business as usual fizeram recrudescer e de que uma atualidade internacional imparavelmente inconsequente e desviante agora lhe apresenta a correspondente fatura.

 

Neste plano, vem mesmo a propósito trazer à colação uma nova ocorrência maléfica de ontem, o apoio claro e intolerável que Rubio foi a Budapeste conceder à campanha eleitoral de Orbán, um personagem de cujo caso a União tem de começar urgentemente a pensar com a necessária frontalidade e seriedade política. 

(Idígoras y Pachi, http://www.elmundo.es)