quarta-feira, 22 de julho de 2026

A DIVERSIDADE E MESTIÇAGEM COMO FORÇA COLETIVA

 


(A vitória da força coletiva da Espanha, acomodando todos os talentos individuais que se afirmam e despontam nesta seleção, demonstrou também o contraponto com a inferioridade de outras equipas em que os egos e talentos individuais se sobrepuseram ao coletivo, Portugal incluído. Mas o regresso a casa de La Roja, enchendo as avenidas e praças de Madrid, mostrou também como, neste caso, o futebol suplantou a polarização política que varre a sociedade espanhola. Mas não se trata de um futebol qualquer. A diversidade e a mestiçagem estruturam a sociedade espanhola e, como bem o sublinhou o jornalista Fernando Salgado da VOZ DE GALÍCIA, liderada por um homem exemplar cujas características de “Católico, amante dos touros e espanhol sem complexos” somaram à diversidade atrás referida, não a diminuindo, antes a reforçando. A seleção espanhola é, assim, um exemplo vivo de como a diversidade suplanta sempre a sensaborona monotonia da homogeneidade, neste caso colocando essa diversidade e mestiçagem ao serviço de uma força coletiva exemplar. As rastras de Nico Williams com a sua elástica cabeçada dirigida ao artístico pé esquerdo de Ferran Torres, o catalanismo de Cubarsi, a excentricidade de Cucurella, a contemplação muçulmana de Lamine Yamal, a bandeira galega de Borja Iglesias e a canária de Pedri tudo isso conviveu na insuperável força coletiva daquele conjunto. Que bela metáfora do valor da diversidade e da mestiçagem nos deu a seleção espanhola. E como o jornalista galego rematou como sentença final, durante todo este período nem um pio se ouviu do truculento Abascal. Pudera …)

 

terça-feira, 21 de julho de 2026

ANDY IN CHARGE

Dia um de Andy Burnham (AB) como primeiro-ministro britânico. Um discurso breve de apenas sete minutos em que não detalhou prioridades mas apenas procurou evidenciar o simbolismo de um posicionamento que parece advogar de um líder menos politicamente formal (menos ideologicamente determinado) e mais driven por uma atenção preponderante ao quotidiano dos cidadãos (care of people).
 
Chris Smith (“Financial Times”) identificou nele cinco tópicos principais: uma primeira tarefa traduzida em fazer cessar a instabilidade política (turmoil, disse); de seguida, promete a mudança (as maiores dos últimos 40 anos, disse) e exemplifica com a reversão do esvaziamento do poder local (people feel powerless because decisions are made far away,numa referência já habitual aos left behind) e da privatização das utilities mas não abandona uma incursão na indesejável desindustrialização da sua Inglaterra do Norte; prossegue com a descentralização do poder como via para relançar as regiões em dificuldades com foco em áreas como a energia, os transportes, o ambiente ou as qualificações (prometendo políticas, entre de concorrência e fiscais, que contribuirão igualmente para aliviar o custo de vida) e a fazer assentar num plano a 10 anos que se comprometeu a apresentar a breve trecho; insiste no seu conceito de “Estado preventivo” (também porque preventative” public spending will truly end up cutting costs in the long runpara sublinhar as suas prioridades reformistas em matéria de bem-estar e segurança social em implícito detrimento da centralidade das regras orçamentais e da despesa em defesa; acaba com a ideia de uma instrução que produzirá desde o início (to end rough sleeping in our country) e com um apelo a um novo sentido de unidade nacional, de comunidade de propósitos e de positividade. Do novo Governo, também hoje designado, saliência para dois nomes: Ed Miliband nos Negócios Estrangeiros (um ex-líder do Labour quando bateu o seu irmão David em 2010) e Wes Streeting (que se demitiu da Saúde e chegou a ser apontado como sucessor de Starmer) na Defesa.
 
Em resumo: os mais incrédulos (e conhecedores?) terão encontrado nas palavras de AB algo entre a inocência da boa-vontade e a incontornável demagogia da política, eu li-as com alguma dose de esperança de que possa ter finalmente emergido um comando normal e competente para um país que se arrasta em contradições e manifestações de declínio (sobretudo depois da consciencialização do engano cada vez mais consensualmente reconhecido do Brexit – gráfico e imagem abaixo) e que não estará longe de ver chegar ao poder, caso não seja invertida a rota em curso (sondagens favoráveis ao Reform UK de Nigel Farage, apesar de uma ligeira quebra após a revelação de um escândalo que o obrigou a demissão parlamentar), a extrema-direita mais traiçoeira, mentirosa e corrupta da Europa.


(Jonathan McHugh, https://www.ft.com)

segunda-feira, 20 de julho de 2026

O FUTEBOL DE BAIRRO FOI ESMAGADO

 



(A americanada do Mundial 2026 lá terminou e a alocução de Tom Cruise no início da final ficará para a história como uma das mais refinadas manifestações de retórica da hipocrisia, sobretudo no contexto dos EUA de hoje, que apontam para tudo menos seguramente para a ideia de harmonia mundial inclusiva que Infantino e seus pares pretenderam transmitir. No plano mais futebolístico, não me recordo de uma final em que se tenha registado um amasso tão evidente como aquele que a equipa de Lafuente proporcionou, só pecando por tão fraca capacidade de concretização de um domínio tão avassalador. O futebol de bairro argentino tinha conseguido passar pelos pingos da chuva nas eliminatórias anteriores, num misto de raiva e do talento de Messi e durante o jogo de ontem fiquei com a convicção de que os jogadores argentinos se sentiam protegidos por alguma mensagem divina, esperando que algum milagre se produzisse nos últimos minutos do jogo e do prolongamento, admitindo até que essa esperança se estendesse às grandes penalidades. Mas terminar o tempo de jogo sem um remate à baliza da Espanha equivale a levar essa esperança divina aos limites do incomportável. E, como sempre acontece, a rebeldia e matreirice do futebol de bairro tendem a morrer com as suas próprias manhas, algo que cruelmente se revelou com a expulsão sem espinhas do Enzo Fernández, colocando nas cordas a vulnerável seleção argentina.)

A classe coletiva, que ofusca os inúmeros talentos individuais, da equipa da Espanha produziu um gigantesco amasso da rebeldia argentina e só espanta que os argentinos tenham conseguido conter no parco 1-0 as suas insuficiências, disfarçadas até à final. Do ponto de vista comportamental, a seleção espanhola foi exemplar, resistindo a todas as matreirices e provocações argentinas e no plano da estratégia de jogo, como alguém luminosamente dizia, impedir que Messi tivesse a bola e fosse obrigado a correr para alcançar essa possibilidade apagou qualquer oportunidade de êxito aos argentinos, que se dispuseram a defender e esperar pela tal inspiração divina.

Talvez se o golo espanhol tivesse aparecido mais cedo o futebol de bairro tivesse ousado uma outra resposta, como a que conseguiu oferecer nos últimos minutos, nos quais duas falhas defensivas espanholas colocaram no ar a possibilidade de uma vez mais a seleção argentina conseguir o impossível. E não esteve longe, diga-se.

Mas a força e organização coletivas da Espanha ficam para a história como a principal marca e dá para pensar como que é que uma desconjuntada seleção portuguesa conseguiu ser apenas eliminada também por um parco 1-0 por esta equipa. A seleção espanhola demonstra uma cultura organizacional e de jogo que se estende da seleção principal aos restantes escalões etários que é um verdadeiro caso de estudo e um guia relevante para qualquer projeto de ascensão futebolística que parta da formação e evolua para outros voos.

É sempre bonito o futebol de bairro, irreverente e rebelde, continuar a manifestar-se, mas o amasso de ontem traduz os limites dessa irreverência e rebeldia, sobretudo quando a estrutura etária já não ajuda e quando a transição geracional não está ainda assegurada, como o está na seleção espanhola.

Sua Majestade e o sempre em pé Pedro Sánchez bem podem agradecer à robustez coletiva da equipa e ao talento enorme de muitos dos seus protagonistas mais esta prova de orgulho nacional. Trump terá engolido em seco, não podendo felicitar o seu amigo Milei, mas afinal o homem contenta-se com a possibilidade aparecer na fotografia dos campeões quaisquer que eles sejam. Como ontem aconteceu.

 

O COLETIVO ESPANHOL VENCEU O ESTABLISHMENT

Finalizada a final, finalizou também a Copa do Mundo de Futebol. O jogo decisivo ocorreu no MetLife Stadium em New Jersey e foi morno, tático dirão alguns, embora relativamente emocionante. Os espanhóis dominaram largamente a posse de bola e o controlo de jogo, com os argentinos a só darem um ar da sua graça nos últimos dez minutos do prolongamento. Acima, alguns dos momentos da partida, entre o golo anulado a Nico Williams (por decisão pouco compreensível do árbitro esloveno Slavko Vinčić) e a expulsão de Enzo Fernández (tanto de bom jogador como de “caceteiro”) ou entre o golo de Ferran Torres e o indesculpável enervamento que assaltou Paredes e Molina no termo do encontro, com a imagem comovida de Messi a ficar para a história do desporto-rei.
 
A prova que se desenrolou ao longo de quase mês e meio foi um sucesso maior do que se esperaria, consideradas as cedências regulamentares e de múltipla ordem por parte da FIFA e atentas as ameaças iniciais decorrentes do “trumpismo”, mas teve em mim três impactos inesperados e que sempre teria negado como possíveis: (i) apoiar a “inimiga” Espanha num qualquer jogo, o que se tornou possível face ao “colinho” de Infantino em relação a Messi e, portanto, à Argentina (sobre os EUA nem vale a pena falar), também pelas atuações condescendentes dos árbitros em relação à “pancada” distribuída pelos azuis-celestes (veja-se o caso do jogo com a Inglaterra, p.e.); (ii) testemunhar o final de uma época do futebol mundial que foi marcada por uma duradoura rivalidade Messi-CR7 a sentir dever admitir que o argentino é claramente o mais completo jogador de entre os dois (mais talentoso e mais coletivo) e, assim, talvez o melhor de todos os tempos; (iii) aceitar de bom grado, após as prestações de Portugal neste torneio por obra e graça essencial de Roberto Martínez, a contratação de Jorge Jesus (um “ cromo” a explicar-se e envaidecer-se mas alguém que não deixa de ser um profissional esforçado) para ser o selecionador nacional que nos comandará nos quatro próximos anos.
 
Voltando a ontem, a FIFA lá distribuiu também os prémios individuais, poupando-se a grandes hesitações com a entrega dos três troféus a jogadores espanhóis – melhor jovem, o central Pau Cubarsí (justíssimo!); melhor guarda-redes, o bilbaíno Unai Simón (seguro mas sem ter tido ocasião de fazer grandes intervenções); melhor jogador, o médio Rodrigo Hernández ou Rodri (justo mas duvidoso face às exibições de Messi, o melhor em campo em cinco dos sete jogos que disputou) e sendo forçada a atribuir a “bota de ouro” a Kylian Mbappé pelos seus dez golos (alguns fantásticos!) em sete jogos.

Curiosamente, o site da FIFA apresenta algum trabalho suplementar neste registo – um top performers ranking em cinco categorias, duas para guarda-redes e três para jogadores de campo (ver abaixo) –, sendo especialmente curiosos os seguintes registos: o nosso Diogo Costa a surgir como o melhor guarda-redes entre os postes; Rodri a ser o eleito para melhor jogador de campo no plano defensivo mas a partilhar essa liderança com Mbappé enquanto atacante e com Michael Olise enquanto criativo; Messi em terceiro atacante e segundo criativo mas a perder saliência global por nem sequer constar nos 100 primeiros do domínio defensivo; saliências adicionais merecidas para os ingleses Jude Belingham e Anthony Gordon, o norueguês Erling Haaland, o francês Ousmane Dembélé, os belgas Jeremy Doku e Charles De Ketelaere e os espanhóis Lamine Yamal, Pau Cubarsí, Aymeric Laporte e Pedro Porro.

Usando a minha prerrogativa de autor deste post, o que me confere o direito de me pronunciar também, adianto abaixo as minhas fáceis escolhas: na baliza, e homenageando o único guarda-redes que não sofreu golos da nova campeã do mundo e o capitão da equipa-sensação do torneio (Cabo Verde), aponto Vozinha (Diogo Costa compreenderá certamente este seu afastamento competitivamente injustificável...); a defesa integra a robustez competitiva dos quatro espanhóis que apenas sofreram um golo em sete jogos; no meio do terreno, indico Rodri a encher o campo com Bellingham e Olise a ajudarem na construção de ataque; no ataque, apenas sobra espaço para os três mais destacados (Messi, Haaland e Mbappé), com um pedido de desculpas a outros notáveis que também foram senhores de autênticas maravilhas. O golo do torneio foi, para mim, o sétimo de Bellingham (contra a França), uma concretização mais elaborada do que as bombas de Mbappé, Haaland, Messi ou Julian Alvarez. Não esqueço também um outro facto digno do maior elogio: a claque norueguesa e o modo inédito como lograram apoiar os seus atletas através de um belíssimo exercício coletivo de remo que se estendeu àqueles de forma contagiante – sem dúvida, a coreografia mais interessante e mais apreciada de todas quantas vimos durante a prova (raparigas jeitosas de todas as formas, feitios e nacionalidades incluídas).
 


Termino, deixando abaixo uma referência ao testemunho passado entre Lionel Messi e Lamine Yamal, este o futuro mais do que previsível do desporto-rei. Separados por vinte anos de diferença (trinta-e-nove versus dezanove), e tendo sido vagamente contemporâneos na academia do Barça (onde Messi chegou a ser fotografado a dar banho à criança Lamine), eles são inequivocamente parte importante do que de melhor existe no futebol que ambos apresentam como poucos em termos inatos. A imagem do jovem filho de imigrantes (pai marroquino e mãe da Guiné Equatorial) – que nasceu em Esplugues de Llobregat, cresceu em Granollers e Mataró e se mudou para Barcelona aos sete anos de idade, onde foi rapidamente descoberto pelos “olheiros” do Barça no Club de Fútbol La Torreta para ser levado a juntar-se a La Masia de Can Planes (designação das instalações de treino das categorias de base do grande clube catalão) e ali fazer a sua formação cívica e futebolística – a saudar o seu pequeno irmãozinho é tão ternurenta quão deliciosa.


(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)