

(A americanada do Mundial 2026 lá terminou e a alocução
de Tom Cruise no início da final ficará para a história como uma das mais
refinadas manifestações de retórica da hipocrisia, sobretudo no contexto dos
EUA de hoje, que apontam para tudo menos seguramente para a ideia de harmonia
mundial inclusiva que Infantino e seus pares pretenderam transmitir. No plano
mais futebolístico, não me recordo de uma final em que se tenha registado um
amasso tão evidente como aquele que a equipa de Lafuente proporcionou, só
pecando por tão fraca capacidade de concretização de um domínio tão
avassalador. O futebol de bairro argentino tinha conseguido passar pelos pingos
da chuva nas eliminatórias anteriores, num misto de raiva e do talento de Messi
e durante o jogo de ontem fiquei com a convicção de que os jogadores argentinos
se sentiam protegidos por alguma mensagem divina, esperando que algum milagre se
produzisse nos últimos minutos do jogo e do prolongamento, admitindo até que
essa esperança se estendesse às grandes penalidades. Mas terminar o tempo de
jogo sem um remate à baliza da Espanha equivale a levar essa esperança divina aos
limites do incomportável. E, como sempre acontece, a rebeldia e matreirice do futebol de bairro tendem a morrer com as suas próprias manhas, algo que cruelmente se revelou com a expulsão
sem espinhas do Enzo Fernández, colocando nas cordas a vulnerável seleção
argentina.)
A classe coletiva, que ofusca os
inúmeros talentos individuais, da equipa da Espanha produziu um gigantesco
amasso da rebeldia argentina e só espanta que os argentinos tenham conseguido
conter no parco 1-0 as suas insuficiências, disfarçadas até à final. Do ponto
de vista comportamental, a seleção espanhola foi exemplar, resistindo a todas
as matreirices e provocações argentinas e no plano da estratégia de jogo, como
alguém luminosamente dizia, impedir que Messi tivesse a bola e fosse obrigado a
correr para alcançar essa possibilidade apagou qualquer oportunidade de êxito
aos argentinos, que se dispuseram a defender e esperar pela tal inspiração
divina.
Talvez se o golo espanhol tivesse
aparecido mais cedo o futebol de bairro tivesse ousado uma outra resposta, como
a que conseguiu oferecer nos últimos minutos, nos quais duas falhas defensivas
espanholas colocaram no ar a possibilidade de uma vez mais a seleção argentina
conseguir o impossível. E não esteve longe, diga-se.
Mas a força e organização coletivas
da Espanha ficam para a história como a principal marca e dá para pensar como
que é que uma desconjuntada seleção portuguesa conseguiu ser apenas eliminada também
por um parco 1-0 por esta equipa. A seleção espanhola demonstra uma cultura
organizacional e de jogo que se estende da seleção principal aos restantes
escalões etários que é um verdadeiro caso de estudo e um guia relevante para
qualquer projeto de ascensão futebolística que parta da formação e evolua para
outros voos.
É sempre bonito o futebol de bairro,
irreverente e rebelde, continuar a manifestar-se, mas o amasso de ontem traduz
os limites dessa irreverência e rebeldia, sobretudo quando a estrutura etária já
não ajuda e quando a transição geracional não está ainda assegurada, como o
está na seleção espanhola.
Sua Majestade e o sempre em pé Pedro
Sánchez bem podem agradecer à robustez coletiva da equipa e ao talento enorme
de muitos dos seus protagonistas mais esta prova de orgulho nacional. Trump
terá engolido em seco, não podendo felicitar o seu amigo Milei, mas afinal o
homem contenta-se com a possibilidade aparecer na fotografia dos campeões quaisquer
que eles sejam. Como ontem aconteceu.