terça-feira, 28 de julho de 2026

DA SINGULARIDADE HUMANA

Tinha sabido da existência de Jorge Rocha e do seu livro “O Caminho de Adis Abeba – uma viagem pela singularidade humana” através do nosso comum amigo Nuno Ferrand de Almeida aquando do lançamento da obra na Galeria da Biodiversidade, tendo então podido constatar a quase natural mas enorme erudição e eloquência do autor (que é professor da Faculdade de Ciências do Porto e investigador do Biopolis). Neste início de férias, agarrei-me ao livro e absorvi-o de uma assentada – obviamente, tanto quanto o pode fazer um leigo na matéria em apreço, indiscutivelmente fascinante mas complexa na sua tentativa de fazer evidenciar o modo como “somos diferentes de uma maneira diferente”, mesmo em relação aos primatas que mais se nos aproximam, ou seja, quanto uma especial relação entre a biologia e a “cultura” leva a que nos distingamos em absoluto e a imensos níveis físicos e mentais num processo historicamente acumulado em que a linguagem desempenha um papel determinante – “aquilo em que os seres humanos são exímios é na eficácia com que recorrem aos outros para compensarem a sua ignorância e as suas debilidades”. Um trabalho notável que é também uma extraordinária fonte de divulgação do conhecimento.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

PASSADEIRA VERMELHA PARA VENTURA

 


(Tenho por vezes a sensação, e não será a canícula a explicá-la, de que o comportamento das duas forças políticas estruturantes da democracia portuguesa, PSD e PS, laboram frequentemente em erros políticos de palmatória, que tenho dificuldade em entender, não me considerando de todo um iluminado do comentário político. Seguramente que o meu afastamento deliberado do centro da prática política quotidiana desses partidos poderá explicar essa minha dificuldade de compreender alguns dos seus comportamentos. Passa-se algo de semelhante por estes dias quando assisto atónito e cada vez mais intrigado ao modo como, à sua maneira, desconchavada em ambos os casos, PSD e PS têm colocado uma passadeira vermelha ao aproveitamento político que Ventura e o Chega têm realizado da inconcebível prestação política e ética do ministro da Administração Interna e do seu legado na Polícia Judiciária. Da parte do PSD, a lógica é a da defesa da continuidade da governação, resistir a todo o custo, como se a permanência no poder permita alimentar todas as esperanças de colocar no esquecimento acontecimentos tão insólitos. Quanto ao PS de José Luís Carneiro estou perplexo quando ao foco colocado no desastre da pretensa gestão digital dos exames nacionais do ministro Fernando Alexandre e da sua equipa mais próxima, escondendo-se num mar de sombras quanto à denúncia necessária da insustentável prestação de Luís Neves. O favor de gala que estes dois comportamentos estão a proporcionar aos avanços de Ventura é de tal maneira incómodo e politicamente surreal que dou comigo, sobretudo em relação ao comportamento do PS, a alimentar-me com as mais amplas perspetivas cabalísticas e sobre as piores razões para explicar o ar manso com que o líder do PS se tem referido ao imbróglio protagonizado pelo ministro da Administração Interna.)

É conhecida a reação positiva que se gerou à esquerda sobre as corajosas tomadas de posição de Luís Neves sobre as alarmistas perceções que o Chega e uma certa direita mais conservadora alimentaram sobre as condições de segurança em Portugal e principalmente sobre a sua pressuposta (não demonstrada) articulação com a intensificação do fenómeno da imigração do país. Obviamente que considero que esse facto não é por si só justificativo de tanta mansidão e indiferença para com o desnorte do ministro da Administração Interna. O mesmo se diga pelo facto de estarmos no meio de uma época de incêndios, sendo por isso necessário poupar o ministro ao incómodo de encontrar justificações plausíveis para tanta irresponsabilidade. Se dermos por certa a inadequação de tais explicações, as interrogações adensam-se e esse é o caminho fácil para Ventura cavalgar todo o processo e emergir aos olhos da população preocupada com tanta interrogação como a única força política a acionar parlamentarmente a bomba de uma Comissão de Inquérito. Com as dúvidas que a prática recente do Ministério Público tem vindo a evidenciar, acompanhado em algumas iniciativas de pura justiça mediática pela Polícia Judiciária, ainda com Luís Neves ao leme, e tendo presente que há exemplos de Comissões de Inquérito espúrias e de verdadeiro desperdício democrático, não consigo descortinar outra forma de escrutínio político de tanta irresponsabilidade ética e política.

Sou assim levado a concluir não apenas sobre a incontornável necessidade do ministro da Administração Interna prestar esclarecimentos públicos e fundamentados sobre decisões ou ausências de decisão tão problemáticas, mas também, por mais paradoxal que isso possa parecer no meu pensamento, sobre a necessidade de José Luís Carneiro explicar com pormenor tão estranha posição.

Estancado até há bem pouco tempo no seu crescimento e às voltas com inúmeras contradições geradas por esse mesmo crescimento, o Chega tem neste processo uma grande oportunidade de preparar uma rentrée política não direi triunfal, mas suficiente para colocar numa inação expectante os dois partidos estruturantes da nossa democracia. Sem fazer nada por isso, limitando-se a cavalgar a inação de quem deveria liderar a proatividade política.

Nota complementar de pesar pessoal

Tomo conhecimento a partir do post do meu colega de blogue do desaparecimento de um colega que muito prezava e com o qual tive duas experiências de avaliação de políticas públicas de inovação inesquecíveis. O rigor de análise, a gentileza do trato e a permanente abertura de espírito a novas perspetivas sobre a inovação empresarial faziam do Vítor Corado Simões uma companhia para sempre recordar. 

A revelação da finitude da vida nos que nos são mais próximos começa a apoderar-se de nós à medida que o tempo inexorável vai correndo.

Até sempre Vítor. 

 

VÍTOR CORADO SIMÕES

Foi ontem surpreendido com a infeliz notícia do falecimento de Vítor Corado Simões (VCS). Tratava-se de um dos mais sóbrios e sérios professores de Economia do País, tendo a sua base no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) – onde se doutorou tardiamente, ao que se dizia por excesso de humildade e perfecionismo – mas tendo desempenhado funções relevantes em outras sedes académicas e não académicas (com destaque para o Instituto de Investimento Estrangeiro, onde ajudou claramente a marcar uma época, e para a consultoria de empresas e organizações internacionais). Era provavelmente o nome português mais conceituado em áreas de investigação como as do investimento e gestão internacionais, da inovação, da transferência e gestão de tecnologia e das alianças e aprendizagem organizacionais. Colaborou muito ativamente com a EIBA (European International Business Academy), entidade que significativamente ajudou a consolidar enquanto seu presidente e membro sempre disponível e dedicado, tendo deixado por concluir a história que vinha escrevendo da instituição em causa. Acima de tudo o que fica dito, VCS era alguém dotado de uma afabilidade inigualável, um homem de quem era impossível não se gostar. Até sempre, Vítor!

domingo, 26 de julho de 2026

EM PREPARAÇÃO PARA A MODORRA ESTIVAL

 


(Ainda me faltam duas semanas intensas de trabalho para me entregar definitivamente à modorra estival por estas bandas de Seixas e Caminha, este fim de semana perturbado pelas irritantes festividades da Feira Medieval que continuam a atrair visitantes em massa e que suscitam a rejeição dos mais propensos ao sossego urbano, como eu, devo confessá-lo. Provavelmente com exceção do evento de Santa Maria da Feira, que nunca visitei e que, por isso, me abstenho naturalmente de criticar, as feiras medievais são hoje por estas paragens do Alto Minho um fenómeno estritamente comercial, que a mais agressiva iniciativa empresarial dos espanhóis tem capitalizado e ninguém os critica por isso. A ideia da reconstituição histórica já há muito tempo que se esfumou, submetida pelo crescimento de expositores e feirantes, incluindo comes e bebes, visível por exemplo no modo como a feira vai ocupando mais área na vila, incluindo do parque de estacionamento central. Ontem, deu apenas para comprar um saquinho de chá Rooibos que muito aprecio e que os comerciantes galegos expõem nas suas tendas cromáticas, nada de semelhante às de Marraquexe ou dos bazares de Istambul, mas ainda assim agradáveis ao olhar do visitante seduzido pela cor. Em preparação para a tal modorra estival, confirma-se um ano mais que valeria a pena escolher julho como mês de férias e não agosto, já que ele se apresenta regra geral como mais confiável climaticamente. Até a água do mar deu tréguas este mês aos ossos dos mais friorentos subindo a temperaturas que nos fazem pensar que isto está tudo bastante alterado. Mas trabalho é trabalho e não tem dado para essa escolha, até porque estranhamente desde há muitos anos que o mercado público dos concursos tem uma concentração absurda nos fins de julho e no mês de agosto, como se provocação se tratasse e quisesse impedir as consultoras de poder usufruir de férias normais e merecidas.

A modorra aproxima-se, mas o mundo não está definitivamente para aí virado. O tema que me tem mais impressionado é a esmagadora enormidade dos incêndios em Madrid e Ávila, seguindo-se aos de França, gerando uma magnitude de deslocação de pessoas que nos anuncia a gravidade do fenómeno e sobretudo a vulnerabilidade exposta de muitos territórios. Estranhamente, ao contrário do que teria imaginado, incêndios de tal magnitude não foram perturbados pela polarização política aberta que grassa naqueles países. Tudo se passa como se a gigantesca deslocação de pessoas recomendasse o recato político ao serviço da mais eficaz possível intervenção das autoridades da proteção civil, das forças de ordem e dos bombeiros e as forças políticas o tenham compreendido. O Rei terá tido essa perceção e, como era lhe era devido, apareceu a registar a relevância da ação conjunta que tem permitido combater focos de tão elevada magnitude, contrastando com o observado na calamidade de Valência. Por cá, por agora, a questão dos incêndios tem estado controlada embora com larga extensão de área ardida e não será nesse contexto, oxalá ele se mantenha, que o ministro da Administração Interna encontrará a redenção para as suas incompreensíveis argoladas.

No plano internacional, a opção de Trump em promover de novo o escalamento da guerra com o Irão transporta os EUA para a vertigem da ausência de saída consequente, anunciando em cada intervenção pública que o Irão estará definitivamente destruído, o que vai embatendo de frente com a capacidade iraniana de ir retaliando nos territórios do Golfo, onde existem bases e interesses americanos. Nunca no passado a avaliação dos americanos foi tão negativa como o é hoje a avaliação do significado da intervenção no Irão. Entretanto, num conceito estranhíssimo de equidade os sauditas foram autorizados a formas de enriquecimento de urânio incompreensíveis do ponto de vista da segurança a longo prazo do Golfo. O conceito de equidade aqui presente é tão estapafúrdio como a sugestão de que Infantino deveria ser o novo secretário-geral das Nações Unidas. Ou seja, Trump continua a querer governar o mundo como do seu quintal se tratasse e esse mesmo mundo ainda não sabe bem se há de rir, encolher de indiferença os ombros ou protestar.

E assim vai sendo preparada a modorra estival. O conceito de silly season ficou de repente obsoleto. O mundo, sim, esse virou silly.

 

sábado, 25 de julho de 2026

VOU DE FÉRIAS!

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)

Isto está verdadeiramente irrespirável! Diariamente somos obrigados a ouvir novidades provenientes das loucuras animalescas que saem da boca de Donald Trump (que continua a ensaiar a hipótese de um terceiro mandato em 2028), das atrocidades dos israelitas no Líbano ou das inconsequências políticas dos mais variados líderes internacionais e europeus. E, porque nós por cá também somos gente, apanhamos de hora em hora informações, declarações e comentários sobre como o ministro da Educação é um génio da nossa academia e fez quase tudo bem no reformista processo dos exames nacionais (e com transparência corrigiu o que não o estava), como o ministro da Administração Interna é um servidor público que falará quando entender ser o tempo certo ou como o primeiro-ministro acha que o pior já passou e que o Governo está aí para as curvas mas, ainda assim, decidiu que só fará férias depois do Verão – com o PS, através do seu líder parlamentar Eurico Brilhante Dias, a ameaçar com uma Comissão Parlamentar de Inquérito ao caso dos exames para setembro (se até lá...) e Ventura a aproveitar-se convenientemente dos vazios da restante Oposição e a anunciar uma Comissão Parlamentar de Inquérito potestativa à gestão da Polícia Judiciária durante o mandato de Luís Neves. Pois antes que algo mais faça entornar em definitivo o copo já demasiado cheio da minha pobre cabeça, vou eu de férias na expectativa de ver se o ruído diminui e alguma normalidade pode regressar, onde e como quer que seja.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

THE AMERICAN EXPERIMENT

Uma proposta para férias a quem for assinante da Netflix: uma excelente série histórico-documental em cinco episódios sobre as origens e a atualidade da democracia americana: “The American Experiment”. Produzida por várias personalidades, entre as quais Tom Hanks, realizada por Brian Knappenberger e contando com participações como as de Kamala Harris, Al Gore, Mike Pence, Hillary Clinton, Ted Cruz e Nancy Pelosi – uma mescla de Democratas e Republicanos que comprova quanto os dois lados partidários, hoje aparentemente incapazes de qualquer concordância substantiva, podem conseguir associar-se na valorização do idealism and spirit behind one of the greatest underdog narratives in history –, a peça foi realizada com vista a celebrar os 250 anos de fundação dos EUA e contém elementos essenciais, e até inovadores, para uma melhor compreensão do complexo processo que levou aqueles treze territórios colonizados pelos britânicos à independência, à sua inédita auto-organização institucional e governativa e à sua sobrevivência ao longo de dois séculos e meio. Mas o dito documentário não deixa também de questionar o presente e as vicissitudes trumpianasque o marcam, o que surge bem sintetizado desde o final do primeiro episódio na canção folk interpretada por Laura Marling (“Devil’s Spoke”) que tem por apropriado refrão All of this can be broken.
 
A este propósito, o realizador é claríssimo em entrevistas que concedeu. Numa frase: the experiment is clearly ongoing. E acrescenta: “Herdamos algo incrível – e estamos na iminência de o perder”. Na série, explica-o a diversos títulos, designadamente  pela voz de Mike Pence, quer quando este relata os lastimáveis acontecimentos de 6 de janeiro e as pressões a que resistiu face a Trump para que não cumprisse o seu dever de validação da vitória de Biden em 2021, quer quando o mesmo recupera, vinte anos depois, a louvável certificação por Al Gore dos controversos resultados eleitorais que então lhe atribuíam uma derrota contestável. Voltando ao presente, Knappenberger refere que os desequilíbrios de poder que prevalecem seriam certamente interpretados como “surpreendentes para os fundadores”, designadamente no que toca às relações entre o Congresso e os apaniguados de Trump – no entanto, “o medo de perder tudo é realmente uma fonte da nossa força” (afirma o historiador conservador Yuval Levin) e, por isso, “atravessamos uma boa dose de momentos de crises verdadeiramente sérias”, ultrapassando-as através de um come together que também agora não irá permitir que o futuro fique em questão.
 
Junto uma síntese do conteúdo dos cinco episódios em causa:
· 1. Freedom: Early military actions of George Washington and colonial pushback against British taxes.
· 2. Tyranny, Like Hell, Is Not Easily Conquered: Drafting of the Declaration of Independence and early military struggles.
· 3. The United States Are Not United: Seeking foreign alliances during the Revolutionary War using Benjamin Franklin.
· 4. We the People: Post-war government formation and constitutional creation.
· 5. Washington's Warning: George Washington's presidency and the emergence of early political rivalries.
 
Termino sublinhando que o documentário é imperdível no que nos traz de memória, conhecimento e análise, mesmo se alguns críticos se lhe referem como tendo limitado restritivamente as dimensões autopunitivas à importante questão da escravatura e suas diversas facetas factuais e filosófico-concetuais. Uma quase verdade que não impede, porém, referências frontais à questão dos povos índios e, sobretudo, cuja perspetiva subjacente omite o objetivo primordial do projeto em causa e a virtuosa abrangência do seu cumprimento.