terça-feira, 22 de setembro de 2026

LOUVOR À JUVENTUDE BERLINENSE?

 

O meu parceiro de blogue já aqui abordou ontem a questão das eleições regionais disputadas no passado Domingo em dois estados alemães e cujos grandes resultados acima reproduzo – na Pomerânia Ocidental, a AfD venceu a incumbente do SPD mas a CDU de Merz ficou ineditamente de fora do Parlamento (tal como a BSW de Sahra Wagenknech) e torna-se bastante previsível que Manuela Schwesig (que cresce em popularidade nacional) consiga manter-se no poder em coligação com o “Die Linke” e/ou os Verdes (a despeito das deslocadas exigências dos populistas no sentido de formarem governo); em Berlim, a coisa fiou mais fino e a vitória foi para a extrema-esquerda, com a extrema-direita a ficar-se pelo terceiro posto do ranking eleitoral partidário, o que determina um governo provavelmente liderado por uma política de origem turca (embora já nascida em Munique), Elif Eralp, que tanto poderá tentar coligar-se à esquerda (SPD e Verdes) como mais ao centro (juntando, em várias possíveis geografias negociais, a CDU) porque uma coligação exclusiva com os cristãos-democratas não parece aceitável por parte de uns e de outros.

 

Duas mulheres progressistas no poder, sustendo a ascenção radical e extremista, uma numa lógica de continuidade e outra num exercício que será certamente complexo e terá ainda a relevância de poder permitir demonstrar (ou não) que posições de esquerda mais heterodoxas e menos tradicionais conseguem caber no espetro democrático e contribuir para soluções nacionais e europeias de estabilidade e bem-estar – um desafio que, ao que parece, foi assimilado pela juventude berlinense que votou maciçamente nessa perspetiva (veja-se os interessantes dados da infografia mais abaixo). Digam o que disserem os sempre pessimistas e os arautos da desgraça – que eu por vezes também sou, reconheço! –, a verdade é que algo de esperançoso tem de existir no horizonte quando temos cerca de metade dos eleitores jovens a votarem numa força política contrária aos mais perversos sinais dos tempos, ademais se a tal adicionarmos os votos de pendor alternativo que provêm dos Verdes. A questão – determinante, diria – é a de observarmos em que medida tal esperança pouco mais contém do que uma expressão de protesto ou, ao invés, alarga oportunidades de exploração de novos caminhos (quais?) liderados por quem é portador do porta-estandarte e do desenho que marcarão as configurações do futuro.

 

Dito isto, não deixa de ser obviamente preocupante a quebra brutal dos partidos tradicionais (social-democratas, cristãos-democratas e liberais) e a desorientação cidadã e ausência de rumo político que tal manifestamente evidencia – porque assim se tem de registar que se trata de uma sociedade em que tais partidos apenas têm voz predominante junto das pessoas acima dos 70 anos! –, tudo contribuindo para que seja suscetível de ser estimada uma débâcle de contornos imprevisíveis nas eleições nacionais que se vão aproximando, a qual se irá acrescentar às direções em vias de concretização na França de Marine Le Pen e em vários outros estados europeus. Haverá esboços de soluções criativas e factíveis que possam surgir para ajudar a inverter de algum modo este deprimente destino?


A QUE OMBRO NOS VAMOS AGORA ENCOSTAR?

 


(O curto noticiário das oito da manhã na Antena 2 em viagem para o escritório em Matosinhos trouxe-me a notícia. Uma paragem cardiorrespiratória traiu Jorge Palma e mais um Grande nos deixa. É verdade que já recuperámos de outros Grandes que nos foram deixando e a nova geração da música popular portuguesa esforça-se por nos facilitar a recuperação dessas perdas. Mas o vazio que fica é grande. A Estrela do Mar empalideceu, o Encosta-te a Mim passará a ter um outro significado e quando perante a dimensão de um equívoco expressarmos o Deixa-me Rir tudo terá um diferente significado. O sempre informado André Cunha Leal que conduz agora o espaço das sete às dez da manhã na Antena 2, também ele surpreendido pela notícia, relembrou e bem os tempos em que Palma passou pelo conservatório depois de ter atuado em público pela primeira vez aos oito anos, bem como o seu fascínio pelos impressionistas franceses, especialmente Debussy e mostrou acertadamente como a versão de A Estrela do Mar para piano reflete essa inspiração.)

Não será fácil substituir a música de Palma e sobretudo o imaginário urbano que ele representava, a sua música e a sua própria e inconfundível figura. Sim, Palma é de facto uma figura incontornável de uma certa Lisboa boémia, embora nos últimos tempos o artista vivesse num tom bastante mais recatado.

Se percorrermos toda a sua vastíssima obra vamos deparar com a permanente desconstrução do facilitismo musical, por isso quase todas as suas canções surpreendem, espantam e depois entranham-se na nossa memória musical para todo o sempre. É sobretudo esse tom que ficará da sua obra, preenchendo o vazio do seu desaparecimento. E, de facto, a herança da cultura e da sensibilidade musicais, adquiridas com a formação e as suas próprias digressões pelas correntes musicais que mais o impressionaram, ajudam-nos a compreender que por vezes as nossas dicotomias, popular versus erudito, pop versus clássico, deixam de ter sentido quando alguém assume na sua plenitude a música.

O Jorge Palma certamente que vai descansar em paz com um Ombro amigo a acolher a sua eterna inspiração.

E como ele cantava em 1991, a gente vai continuar.

 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

SUPREMACIA!

 

Não pensava sinceramente regressar a este espaço com este mesmo tema. Mas a verdade é que os fanáticos do SLB são incorrigíveis e doentiamente obcecados, pelo que continuam a explorar o FC Porto-Benfica de ontem nos termos impróprios com que o fizeram durante a semana (veja-se a propósito o meu post pós-Milão, sem esquecer as respetivas sequências que culminaram com a “grande euforia” sob a qual o autocarro saiu da Luz ao som de expectativas gritadas de um campeonato já no respetivo papo) muitíssimo para além do que profissionalmente lhes seria exigível em termos mínimos de isenção (e o meu amigo Domingos Matos lá vai permitindo que a ditadura das audiências se imponha à verticalidade do canal de que é acionista!).

 

O jogo até foi interessante, os “encarnados” até mostraram que têm uma equipa razoável e um excelente treinador, Miguel Nogueira até se redimiu da exibição miserável do ano anterior e fez por não atrapalhar (vejam-se, a propósito, os quase unânimes comentários abaixo reproduzidos a partir dos especialistas de arbitragem dos três desportivos nacionais) e, no cômputo final, o resultado acabou por ser favorável aos “azuis-e-brancos” por razões que atribuo preferencialmente à atitude que lhes é imposta por Francesco Farioli naquele misto máximo de intensidade e coletivo inigualáveis (sem prejuízo de Diogo Costa, dos centrais polacos e de Gabri Veiga, Froholdt e Rosário, ontem bem apoiados na inspiração e vontade de Pepê, Alberto Costa, William Gomes, André Silva, Hwang In-Beom e Martim Fernandes).



Ao invés de uma apreciação mais ou menos objetiva e pacificadora, aí esteve ontem o “Porto ao Colo” da CMTV e hoje a confusão lançada no “Liga Now” (muita polémica, vários casos?), escalpelizando os lances ao milímetro e atacando asperamente Rui Costa por ter vindo queixar-se timidamente de dualidade de critérios por parte da arbitragem mas afirmando que não criticava a expulsão de Lenglet. Será um detalhe mas também releva chamar a atenção para Pedro Henriques (PH), aquele ex-árbitro de poupa no cimo da cabeça que comenta, entre outros, para o “Público” e “A Bola”: no primeiro escreveu em título “Boa arbitragem no Dragão sem erros relevantes, enquanto no segundo adiantou (em óbvia coerência) terem ficado “amarelos por mostrar a três dragões” (não referidos na crónica precedente); indo mesmo mais longe, PH considerou hoje (“A Bola”) que aos 34 minutos “faltou amarelo” – explicando que “Prestianni reclamou com o árbitro e foi advertido, depois de ter sofrido falta passível de cartão amarelo para Alberto Costa, que abriu braço esquerdo e acertou na cara do argentino”, logo um “comportamento ficou por sancionar” – quando considerara ontem (“Público”) que “Prestianni veio reclamar com o árbitro, em lance em que sofreu falta, mas onde não houve motivo para qualquer sanção disciplinar” porque “o jogador argentino apareceu com sangue na cara, mas na repetição desse lance vê-se que ele já tinha o sangue, ou seja, não foi nessa jogada”. Um homem de princípios analíticos rígidos, está bom de ver...



“Os cães ladram e a caravana passa”, diz o provérbio. Assim seja, espero eu, porque posso bem com o ódio cego que alguns lisboetas nos têm – mais difícil seria se alguma inversão de postura viesse a surgir aqui para os meus lados, pelo que até rezo para que persistamos firmes na nossa caminhada tão competentemente triunfal.

A ALEMANHA CADA VEZ MAIS POLARIZADA

 

                                                        (Vitória do Die Linke em Berlim)

                                                    (Vitória da AfD na Pomerânia Ocidental)
 

(Mais duas eleições regionais aconteceram ontem na Alemanha, mais propriamente na Pomerânia Ocidental, lá para as bandas do Báltico, e em Berlim. Alguns matizes de resultados tornam estas eleições um pouco diferentes do observado na Saxónia. Na Pomerânia, a extrema-direita voltou a ganhar, abaixo dos 40%, mas a verdade é que nessa região o SPD resistiu, com votação tangencialmente inferior à AfD e pode mesmo manter a governação da região, provavelmente em colaboração com os Verdes e Die Link (ex-comunistas). Em Berlim, foi o Die Linke, projetando a situação política para o outro extremo. Penso que a conclusão mais óbvia é podermos dizer que a polarização continuou a avançar, extremando-se o espectro político. Não é por acaso que, nas duas regiões, prosseguiu o afundamento da CDU de Merz, o que nos leva à interpretação cabalística de que provavelmente Angela Merkel, quando se afastou, terá intuído esta tendência. O que está a acontecer na Alemanha é muito comum aos Estados muito descentralizados e temos de convir que a autonomia dos Lander alemães é significativa. Nestes tempos de ebulição política, pode existir durante algum tempo uma forte desconformidade entre o panorama político regional e a configuração política que suporta o Governo central. É precisamente isso que acontece neste momento na Alemanha. A nível regional, a polarização avança, com o exemplo das três últimas eleições e Berlim a marcar o aparecimento em cena da esquerda mais à esquerda do Die Linke. A Saxónia já tinha agudizado esse espectro com o resultado da Aliança Sahra Wagenknecht (BSW), a extrema-esquerda populista e anti-imigração.)

Uma situação desta natureza tende a provocar uma longa erosão do espectro político que suporta o Governo central e isso está a acontecer com a continuada descida nas sondagens da CDU e da popularidade do Chanceler Merz. E não é difícil imaginar a situação problemática e precária em que se encontra a Alemanha no contexto atual das grandes decisões europeias, pois pode bem ser argumentado que Merz exprime em Bruxelas posições e argumentos com o elevado risco de não ter suporte interno. Se acrescentarmos a este pesado enquadramento, a situação económica da indústria alemã, designadamente o seu setor automóvel, não é difícil antever sérias contradições entre o que pode interessar á Alemanha e à União nesta encruzilhada. O facto de a Presidente da Comissão Europeia ser alemã completa o quadro de dificuldades salientes.

Existe, porém, uma dimensão analítica que não pode ser ignorada. As eleições regionais não são simultâneas e isso deve ser tido em conta. A razão principal para estar atento a essa característica deve-se ao facto das consequências geradas por um determinado padrão de resultados eleitorais regionais sobre o espectro político da governação central não ser linear e de antecipação simples e imediata. Pode bem acontecer que o padrão extremado de posições daí resultante, extrema-direita e extrema-esquerda, populista ou não, a avançarem abra caminho a um mesmo padrão de resultados em eleições gerais. Essa tendência pode ser pressentida através da sucessão de sondagens a nível nacional. Mas também pode acontecer que, à medida que os resultados regionais se sucedem e emergem novas dificuldades na formação e composição desses governos, o eleitorado nacional possa refletir sobre essas dificuldades e gerar um comportamento distinto. Será esta última hipótese que a CDU de Merz e a coligação política que suporta o governo desejarão que aconteça. Mas ainda que este segundo padrão possa emergir, a governação central não deixará de ser toldada e influenciada pelo que vai acontecendo a nível regional. O posicionamento de Merz em Bruxelas será provavelmente a dimensão em que essa influência mais se fará sentir, com sérios problemas gerados para o Conselho Europeu (António Costa, prepare-se!).

A moral da história que pode daqui inferir-se é a certeza de que as ameaças que pesam sobre a Europa e a União Europeia não são apenas externas. São-no também a nível interno. As tendências mais reacionárias nos EUA e o próprio Putin já compreenderam que existe um filão convidativo em colocar em relação as duas ameaças, as externas e as internas. Uma das causas mais salientes para explicar o campo favorável que pode formar-se nesse sentido é de simples explicação: as inseguranças e descontentamento que têm aberto o caminho ao populismo mais reacionário tendem, regra geral, a confortar-se com o apelo ao autoritarismo e não com as exigências do jogo democrático. Putin, melhor do que ninguém, terá compreendido esta fenda europeia.

 

domingo, 20 de setembro de 2026

O SENTIDO DA VIDA

 


(Dias de regressada canícula e agitação de tarefas pessoais além do normal explicam o afastamento do blogue de alguns dias, com relevo particular para o 50º aniversário do meu filho mais velho, que ele quis festejar na aprazível parte comum do condomínio de Seixas, cuja fruição me faz frequentemente refletir sobre o sentido da vida. Atingir o limiar de poder ter um filho com 50 anos e alegria e bem-estar para os festejar não é coisa pouca, e este setembro proporcionou-nos um sábado de excelência e onde os amigos e família mais próximos do aniversariante tiveram as condições ideais para socializar. O impacto desse acontecimento do foro pessoal impediu-me de partilhar com os leitores e amigos a notável e enriquecedora experiência que tive sexta-feira passada no INESC TEC participando num painel sobre inovação e sobre os rumos possíveis e desejáveis que a nova Agência de Inovação, a AI2, deverá prosseguir, discutindo essas ideias com o coletivo pensante daquela interface que tenho seguido com atenção e afeto, designadamente o processo do seu rejuvenescimento de personagens diretivas. Este vosso Amigo teve a honra e a bela oportunidade de trocar reflexões com um conjunto de interventores, moderados pelo Professor João Claro, atual presidente da Direção do INESC TEC, composto por dois empresários e investigadores de grande gabarito, António Murta e Manuel Parente e pelo Amigo de longa data Paulo Fernandes, ex-Presidente da Câmara Municipal do Fundão, a quem foi atribuída a espinhosa tarefa de dirigir a estrutura de Missão criada para intervir na reconstrução das áreas da região Centro, designadamente Leiria, devastadas pela intempérie sobejamente conhecida dos portugueses. Uma indisposição momentânea tirou-nos a possibilidade de contar com a colega da FEP Professora Aurora Teixeira.)

As regras propostas pelo INESC TEC para o funcionamento do referido painel, designadas pelo modelo da Chatham House Rule, permitem-nos que falemos posteriormente do debate ali realizado, sem, contudo, referir as autorias das ideias que gostaríamos de salientar. Mas posso dizer-vos que a qualidade do debate foi excelente e, do ponto de vista dos meus interesses, foi sobretudo reforçada pelo facto de nunca ter privado seja em público, seja em privado com os empresários e investidores António Murta e Manuel Parente, o que para mim foi uma oportunidade rara de contactar tão de perto com gente que tem a inovação entranhada no seu quotidiano e nas suas decisões de criação de valor.

Não me compete aqui, pelas razões atrás referidas, comentar com pormenor ideias concretas desenvolvidas pelos diferentes intervenientes, relembrando que em post anterior apresentei sumariamente o meu ponto de vista reflexivo de abertura para o debate.

Interessa-me sobretudo realçar que nas áreas da ciência e da tecnologia em saúde e da robótica marinha, uma das dimensões mais tecnológicas da economia do Mar, para a qual a economia portuguesa continua a precisar de um desígnio nacional, começamos a ter hoje um tecido empresarial de nova expressão bastante mais disruptivo do que o panorama geral de inovação incremental que dominou a economia portuguesa, sobretudo nos setores de atividade em que sabemos fazer coisas e onde pode falar -se de um saber-fazer coletivo industrial. Foi também possível compreender lateralmente o setor de topo dos moldes atravessa hoje uma forte ameaça chinesa, descrita numa evidência que considero arrepiante: os industriais nacionais compram hoje uma unidade de aço para a construção dos moldes que sabem fazer e bem a um preço que é praticamente idêntico ao do molde que podem importar da China, aliás com qualidade crescente e reconhecida.

Duas evidências revolucionárias cruzaram algures o debate: em Cantanhede, no BIOKANT, existe uma empresa portuguesa que pode muito proximamente concretizar a primeira vacina mundial contra as bactérias resistentes (sim também fiquei de cara ao lado e em pulgas); no Porto, existe uma outra empresa, a SWORD HEALTH que pode transformar-se proximamente a empresa mundial mais importante em matéria de processamento de dados de saúde para todo o mundo, podendo derrotar a Palantir UK.

Já noutros momentos este debate foi travado. Até que ponto alguns exemplos verdadeiramente disruptivos no rejuvenescimento da nossa capacidade produtiva serão suficientes para quebrar o primado do incremental e abrir um caminho novo de inovação na economia portuguesa?

Independentemente da massa crítica de projetos disruptivos, a sua simples existência mostra que eles são possíveis e alguns deles com ambição mundial, como o são claramente os dois exemplos anteriormente mencionados. Os livros mandam que sejam bem estudados e que sejam identificadas as condições de replicação e escalamento. Caso se conclua pela sua excecionalidade, não são menos importantes por isso. Nessas condições, quanto mais tempo permanecerem em mãos portuguesas melhor será. Mas algum dia atrairão o interesse dos grandes investidores internacionais, como consequência de terem sido projetados com essa ambição mundial. Nesse caso, o fundamental será encontrar sucessores e novos exemplos disruptivos.