quarta-feira, 30 de setembro de 2026

OS NOSSOS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS...

(excerto de Henrique Monteiro, https://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Deixemos em paz os “cristos” do costume – Luís Neves, Fernando Alexandre e Ana Paula Martins – e concentremo-nos noutras figuras visíveis do universo governativo e laranja.

 

O primeiro-ministro, sempre apoiado nas instruções do “cara-de-pau” que lhe orienta as Finanças (ainda estamos para ver se suficientemente bem...), prossegue o seu “louva-a-eu”, estou convencido de que convencido ele próprio de que afinal até tem jeito para dirigir o País (para onde é questão que não vale perguntar) – uso abaixo uma expressão de Filipe Santos Costa para melhor elucidar a autêntica revolução fiscal provocada pela sua decisão de baixar alguns escalões do IRS.

 

Manuel Castro Almeida, a quem reconheço o primado da sensatez, parece não querer destoar e vai de apelar à consciência dos portugueses em matéria de combustíveis.

 

Gonçalo Matias e Nuno Melo estão verdadeiramente inebriados com o poder que julgam ir ter por muitos e bons, com o primeiro a arvorar-se em “Kandinga” da política e o segundo em jovem empreendedor (nada menos do que instalador de uma fábrica de munições e subscritor de um empréstimo de 7,68 mil milhões de euros).

 

O líder parlamentar berra e ralha sempre que pode (que, qual "dono deste tudo", entende ser quase sempre) e acaba a mostrar que não tomou chá suficiente em pequeno.

 

O inenarrável vice-presidente Bugalho, que acumula com a função de porta-voz, leva bem a sério a sua pretensa capacidade estratégica e enche as televisões com o encanto da sua genial estratégia e enxota Passos para lugar menor no tocante aos caminhos do partido.

 

O presidente da maior câmara municipal do País não acerta uma e tanto chora pelo “drama social” de Lisboa como opta por apoios significativos ao Turismo, enquanto consegue confundir o falecido Jorge Palma com Sérgio Godinho.






E assim vamos resistindo – quem pode contestar a enorme resiliência dos portugueses? – à espera de melhores dias, embora sem que efetivos sinais de esperança assomem à janela do retângulo...

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O QUE PRETENDE CENTENO?

 


(Não tive ainda oportunidade de ler o Contas Certas de Mário Centeno. Limito-me, por isso, a ter em conta a entrevista ao Expresso e os diversos relatos que a comunicação social elaborou sobre o tema. Devo confessar que tenho bastante admiração sobre um dos Centenos, ou seja, sobre uma das personalidades em que a sua vida se transformou. Há o Centeno doutorado em Harvard, especialista na área da economia do trabalho, autor da mais robusta e consistente proposta de reorganização do mercado de trabalho português e da eliminação do seu principal vício que é o da segmentação. É este o Centeno que admiro, lamentando que não tenha tido a coragem de precipitar uma abordagem ao mercado de trabalho. Quanto aos dois outros Centenos, já tenho alguma dificuldade em apreciar essas figuras. O Centeno ministro das Finanças não me despertou grande entusiasmo, ainda que deva reconhecer o excelente trabalho de afirmação da sua experiência que o guindou aos cargos europeus. Chapéu para essa tenacidade. A terceira personalidade é a que menos me entusiasma e identifica-se com o Centeno candidato a primeiro-Ministro. Não sei que raio de autoavaliação de competências conduziu Centeno no tempo em que se abriu à possibilidade de substituir António Costa sem necessidade de novas eleições. E muito menos à reincidência em projetar-se no horizonte político, pairando sobre a liderança que muitos consideram de transição de José Luís Carneiro, mas à qual continuo a dar algum benefício da dúvida, embora me agradasse alguma agressividade adicional. Mas quem sou eu para desdenhar de uma personalidade que, pelos vistos, se cansou da sua veia de professor e investigador e que, tendo experimentado o stresse da pressão e da decisão políticas, terá gostado e encontra fundamentos para uma avaliação positiva para mais altos voos nessa trajetória?)

Dos elementos que mais me intrigaram na exposição pública mais recente de Mário Centeno foi a sua rábula de se ter oferecido a António Costa para exercer o papel de uma espécie de super-ministro, dedicado, segundo ele, a resolver o problema da saúde em Portugal, solução que ele considera exequível e ao alcance da sua mais que generosa autoavaliação de competências.

O que me intrigou é o facto de, mobilizando a memória pessoal e realizando uma pesquisa sumária, ter chegado à conclusão de não me ter confrontado com qualquer ideia prévia de Centeno sobre o problema estrutural da saúde em Portugal, que se vai agravando e que vai gerando um estado da arte em permanente transformação, da qual o elemento com efeito mais impactante é a continuada alteração da relação de forças entre os setores público e privado da saúde.

António Costa tê-lo-á deixado sem resposta, vá lá saber-se porquê e o ressentimento de Centeno sobre esse incidente parece ter deixado marcas, o que para mim constitui mais um indicador da generosidade com que Centeno se autoavalia em termos de capacidades para decisões política de rotura.

De falta de confiança é que não poderemos acusar Mário Centeno. Mas será que o Contas Certas poderá criar alguma dinâmica de debate que seja útil para a procura de alternativas democráticas para o centro-esquerda? Se assim for, estarei disposto a reconsiderar este meu azedume. O problema é que não estou certo de encontrar estímulo suficiente para explorar até que ponto Centeno pretende fazer das Contas Certas a sua imagem de marca. Devo confessar que estou cada vez mais seletivo na minha política de leituras, que tem funcionado mais por impulsos de momento do que por decisões de escolha racional e fundamentada. E, de facto, se para os jornalistas interessados nas diatribes políticas, Centeno possa ser uma personalidade sugestiva, os meus critérios de adesão são distintos e, cada vez mais, não me considero capaz de seguir e apoiar alguém que não suscita a empatia necessária.

 

POR TERRAS DO NORTE DE INGLATERRA

 

Razões de ordem pessoal/académica trouxeram-me até ao Noroeste da Inglaterra e já me permitiram circular por 3 dos 48 condados do país: “Greater Manchester”, “Merseyside” e “Cheshire”, com destaque para as cidades de Manchester e Liverpool (aliás bastante próximas, distando pouco mais de 50 quilómetros entre si) e para a charmosa cidade de Chester de raiz romana (e com o País de Gales ali à beira). De notar que a Grande Manchester é hoje a terceira zona mais populosa do Reino Unido, depois da Grande Londres e de West Midlands (onde Birmingham é a grande cidade de referência), com a área metropolitana como um todo a rondar valores superiores aos 3 milhões de habitantes (a população da urbe andará acima dos 500 mil habitantes), enquanto Meyerside apenas surge na sétima posição do ranking nacional com uma aglomeração em torno de 1,5 milhões (atrás de West Yorkshire, onde pontua Leeds, e de Kent e Essex) mas detendo a cidade de Liverpool propriamente dita uma população próxima (ou mesmo superior, segundo algumas estimativas) da de Manchester (as duas cidades disputam as posições de terceiro a sexto lugar na tabela inglesa com Leeds e Sheffield). Adiante, porque já basta de números.

 

Em Manchester (onde os cidadãos locais são designados por mancunians, uma adaptação do nome do forte romano que ali existia) está localizado o “National Football Museum”, que é merecedor de uma visita pelas curiosidades que retrata de forma atrativa e interativa. Além de alusões variadas aos grandes encontros, competições e jogadores da história recente, são especialmente interessantes as referências ao passado secular do desporto-rei no seu país de nascimento em 1863 (com o surgimento da “Football Association” e do seu “Minute Book”, merecendo particular destaque a Lei 10, que rezava assim: Neither tripping nor hacking shall be allowed, and no player shall use his hands to hold or push his adversary), o primeiro vencedor da primeira liga (o Preston North End em 1889) e o banimento do futebol feminino (que emergira durante e após a Primeira Guerra Mundial, quando imensos homens estavam na frente de combate) entre 1921 e 1971, por “totalmente inadequado para mulheres”. De notar, ainda, a presença de inúmeras referências com centralidade em matérias de desportivismo e de criticismo direto às ligações crescentes entre desporto e dinheiro (incluindo menções ao tempo em que era contra as regras da FA ser-se pago para jogar).


Circular por Manchester torna também obrigatórias passagens pelo velho e gigantesco “Old Trafford” (estádio do United, em vias de dar lugar a um outro ainda maior) e pelo recente Etihad (City), o primeiro já meu conhecido desde que lá festejei o golo do Costinha que em 2004 ajudou a levar o FC Porto à conquista da Champions. Deixo abaixo duas imagens de cada um para memória (sobretudo antes que os “azul-celeste” percam alguns dos seus muitos títulos) e do restante falarei noutra ocasião que se proporcione.


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

JESUS E FÉLIX: SETAS PARA CIMA!

(cartoon de Hamid Sahari, https://x.com/Hamidsahari20) 

Nunca iria aceitar que alguém vaticinasse que um dia ainda acabaria por reconhecer a justeza de Jorge Jesus ser o selecionador nacional de futebol nem que João Félix conseguiria ser com mérito o motor do meio-campo nacional. Mas aí está esse improvável dois em um a verificar-se, largamente motivado pela mediocridade de um Roberto Martínez que esteve ao comando da equipa portuguesa durante intermináveis seis anos e beneficiando do adicional contributo da mornice e escassa exigência do futebol da Arábia Saudita, assim transformando Jesus num “génio” que nunca verdadeiramente foi (apesar de ele, usando a sua proverbial rudeza de palavra, se ter nessa conta em virtude da autoconfiança ilimitada que soube construir e alimentar, disfarçando em simultâneo os seus insucessos mais gritantes, como a segunda passagem pelo Benfica e o brutal ajoelhamento a que se sujeitou no Dragão) e Félix num jogador capaz de finalmente correr em campo e nele exibir as qualidades técnicas que possui (depois de anos a penar na sequência da saída do Benfica para o Atlético de Madrid de Simeone e episódios subsequentes).

 

O jogo de ontem, na Noruega, foi de outro nível face ao que estávamos habituados com o espanhol, ainda que não tenha sido explorado todo o potencial dos nossos atletas (os convocados e outros) e do coletivo que podem formar. Além de Félix, salvaram-se com nota alta Diogo Costa e Ruben Dias e, ainda, Gonçalo Ramos (o avançado-centro que há muito devia estar a ocupar tal lugar), Pedro Neto e Vitinha, tendo estado longe dos mínimos João Cancelo e João Palhinha e, menos, Renato Veiga; Cristiano Ronaldo, por manifesta falta de ética desportiva no modo como se comportou no banco e abandonou o terreno imediatamente após o apito do árbitro, foi inqualificável e tornou-se o pior jogador português por indecente e má figura.


A expectativa razoável relativamente ao que se seguirá no próximo momento das seleções vai no sentido de que Jesus, após algum natural conservadorismo inicial, venha a chamar à seleção alguns novos valores (como Alberto Costa, Tiago Gabriel, Carlos Forbs, Geovany Quenda, Rodrigo Mora, João Simões, Mateus Mide, Daniel Banjaqui e outros), afastando “velhos” já em quebra e prolongando assim a nossa presença nos primeiros lugares do ranking futebolístico mundial. Inch’Allah...

A CAPTAÇÃO DO VOTO REPUBLICANO E DEMOCRATA

 


 (A distância física à sociedade americana, agravada pela memória que já se esbate no tempo de três viagens, duas à costa atlântica e uma à Califórnia e adjacências, não me permite ter uma ideia fidedigna do modo como o voto está a ser captado. Mas as eleições intercalares estão aí à porta e não será difícil imaginar que a dinâmica mais transparente e também a que se desenvolve por debaixo da mesa estarão ao rubro. Com o tempo e com a idade, fui ganhando uma carapaça bastante resistente ao vício de criar expectativas sobre a possibilidade de Trump e sua entourage serem castigados em sede de intercalares. Já me habituei aos tiros no pé de Democratas, eternamente pràsos nas suas contradições entre moderados e mais socialistas (comunistas nas parangonas do MAGA). O deserto de figuras democratas entre os seus apoiantes mais centristas e moderados é de espantar, eternamente abafados pelo maior mediatismo, e também qualidade de pensamento, dos democratas mais á esquerda. E, por outro lado, o propósito Republicano de ir mudando as regras do jogo antes dele se travar inspira todas as desconfianças possíveis, o despudor está instalado e fica-se com a sensação de que vale tudo até tirar olhos. Basta recordar as fragilidades da candidatura de Kamala Harris para ficarmos atentos a uma qualquer e possível quebra de expectativas. Aparentemente, os mais acérrimos apoiantes de Trump tudo lhe perdoam, mesmo que os seus bolsos comecem a dar sinais de não estar tão cheios como desejariam. Tudo se passa como se o velho Western tivesse regressado, mas sem valores de qualquer espécie. Com este desânimo pessoal instalado, uma análise do Economist despertou-me a atenção, porque invoca dados a que não estamos habituados nas sociedades europeias. Já lá vão os tempos de grandes movimentações territoriais das populações. Mas nos EUA a mobilidade territorial está enraizada e daí que os quadros eleitorais tenham de ser permanentemente reanalisados, porque existem fluxos assinaláveis de população entre os territoriais azuis (Democratas) e vermelhos (Republicanos), independentemente de saber se os deslocados mantêm ou não o seu comportamento de voto.)

O artigo do Economist é o que poderíamos designar de um bom artigo de demografia política. A tese que atravessa o artigo é de por estes tempos os territórios de Trump, pelo menos nas últimas eleições, têm crescido apenas por via da migração de pessoas, leia-se de migração interna entre Estados. Esta conclusão vejo-a como um pau de dois bicos e não consegue superar o meu desânimo pessoal em termos de espectativas quanto ao futuro político dos EUA. O que a conclusão do Economist sugere é que o crescimento natural da população nos territórios republicanos não está a assegurar crescimento á sua base de apoio. Mas o facto do seu crescimento se dever à migração entre Estados mostra algo de preocupante – a figura de Trump continua a não ser impedimento de mudança residência para os Estados em que o voto em Trump é dominante.

Com taxa de fertilidade total em queda por toda a sociedades americana, os territórios republicanos mantêm um valor superior ao dos territórios democratas (1,8 versus 1,4), mas morre-se mais entre os Republicanos: longevidade de 80,7 anos entre os Democratas e de apenas 77,4 anos entre os Republicanos. Por isso, a componente das migrações é essencial para explicar a dinâmica diferenciada dos dois tipos de territórios.

Como o gráfico acima o assinala, são os territórios Republicanos a depender mais da migração interna para explicar a sua dinâmica. Mas qual vai ser o comportamento eleitoral futuro dos recém-chegados? Chegam com o voto azul na cabeça ou deslocam-se porque se sentem identificados com o voto dominante em Trump? O que apenas sabemos é que a migração para os territórios republicanos proveio 20% de territórios em que o voto é dominantemente democrata e que 40% veio de territórios em que a percentagem dos Democratas foi algo entre os 4º e 60%.

O que é curioso, mas expectável, é que na migração interna são os territórios Republicanos a beneficiar, ao passo que na migração interna são os Democratas.

Como se compreende, independentemente das manobras obscuras que estarão a ocorrer por baixo das mesas da geografia eleitoral, estes dados do Economist são interessantes mas não chegam para transformar o ânimo das minhas baixas expectativas.

sábado, 26 de setembro de 2026

JORGE PALMA

(cartoon de Vasco Gargalo, https://www.instagram.com/vascogargalo)

 

Deixei passar uns dias (enlutados) sobre a notícia da morte de Jorge Palma (JP) mas não podia deixar de aqui manifestar o meu pesar e homenagear o artista. Não sei, nem ninguém saberá, se JP foi mesmo o maior músico português de todos os tempos, talvez seja até excessivamente ousado afirmá-lo. No entanto, julgo que possa ser entendido como dificilmente contrariável a consideração de que se tratará do criador que melhor conseguiu exprimir a portugalidade em toda a sua plenitude, ou seja, tanto em matéria de análise e intervenção social como no modo de estar e sentir da nossa gente em baladas de dimensões mais íntimas e complexas de variada natureza. Dou exemplos e cada um escolherá os de seu maior agrado: “Frágil”, “A Gente Vai Continuar”, “Dá-me Lume”, “Encosta-te a Mim”, “Estrela do Mar”, “Aquela Miúda”, “Deixa-me Rir”, “Bairro do Amor”, “Jeremias, o Fora-da-Lei“, “Terra dos Sonhos”, “Estroina” e “Vida”, para me ficar por uma singela dúzia de entre muitas canções inesquecíveis e imortais.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

PESSOAL E TRANSMISSÍVEL

Hoje vou ser rápido por razões inquestionavelmente meritórias: com efeito, não é todos os dias que, na vida de um homem, se chega ao dia em que a sua primeira neta alcança o estatuto de teenager. Mas a pura verdade está aí, diante dos meus olhos e alimentando em mim um sentimento misto de ternura e esperança que surge completado por um outro, mais intimista, de uma certa realização pessoal. Aceitem, pois, que me dispense de mais palavras e, por extensão óbvia de quaisquer tentações bloguistas, e me limite a daqui endereçar à Clara uns arrebatados votos de incomensurável felicidade com que espero seja contemplada ao longo de uma vida que se possa estenda longamente pelo século fora. Sem pieguices... porque aquela pitada de sorte que sorri aos audazes sempre exige a prevalência do esforço determinado e focado e de uma cuidada empatia para com os nossos semelhantes.