segunda-feira, 18 de maio de 2026
O PP EM APUROS
(A política espanhola está cada vez mais paradoxal e imprevisível. O PP de Feijoo teve nas eleições regionais da Andaluzia uma vitória significativa, com 53 deputados regionais para 55 de maioria absoluta, e mesmo assim, apesar dessa vitória, o título “em apuros” justifica-se. Contrariando a grande maioria das sondagens publicadas, o discurso moderado de Juan Manuel Moreno Bonilla, que havia conquistado a maioria absoluta nas últimas eleições, não conseguiu reeditar essa maioria, ficando assim dependente do VOX para poder governar. O que anuncia consequências obscuras para a governação na região e no país, até porque o PSOE não vai poder adiar por muito mais tempo a realização de eleições legislativas. Nem a ida a jogo eleitoral da ex-Ministra das Finanças Maria Jesús Montero, nome forte do PSOE, conseguiu suster o declínio estrutural do partido na região, que perdeu inclusivamente mais dois deputados, de 30 para 28, quase metade dos 53 alcançados pelo PP. É difícil imaginar num cenário deste tipo a não formação de um acordo político entre o PP e a extrema-direita do VOX. No PP, Isabel Diaz Ayuso deverá ter exultado com este resultado e, ao contrário do que começava a projetar-se, o estancamento do VOX em Espanha não é real e aí está a Andaluzia, no passado socialista dos sete costados a contrariar essa tese e a justificar a cada vez mais insistente orientação do comentário político mais à direita em Espanha que o acordo de governo entre o PP e o VOX é inevitável. A queda acentuada do PSOE e a degradação da sua imagem através dos casos de corrupção que estão por agora em tribunal impedem a formação de qualquer aproximação à esquerda para impedir a nível nacional essa aproximação entre o PP e o VOX. Por outras palavras, o papão desse acordo de governo já não assusta ninguém e, mesmo que assuste, o problema é que não existe qualquer maioria política alternativa para a sustentar.)
Dos resultados de ontem na Andaluzia é essa a principal ideia que ressalta da consulta eleitoral. À esquerda do PSOE, a única novidade é o crescimento efetivo da formação política regionalista ADELANTE ANDALUCÍA, que roça os 10% e superou claramente a outra formação de esquerda regionalista POR ANDALUCÍA, sendo na prática a formação que com o seu crescimento arrebatou a maioria absoluta ao PP.
Em resumo, no país e na região andaluza, está criado um plano inclinado para abrir caminho a um acordo de governação entre o PP e o VOX, contrariando a imagem de moderação que, mais decididamente Moreno Bonilla e mais timidamente Feijoo têm querido traçar para Espanha. Será que o PP vai resistir a esse plano inclinado e procurar acordos pontuais de governação com formas políticas mais moderadas do que o VOX?
Quanto ao PSOE de Sánchez, a elasticidade de ser forte lá fora para manter a governação cá dentro tem os seus limites e prazo de validade. Antecipando eleições ou conservando teimosamente o poder até às últimas, nada parece poder evitar a chegada ao poder do PP. Se o vai fazer por via da moderação negociada ou se, pelo contrário, o fará abrindo o caminho ao radicalismo revanchista do VOX essa será a única interrogação. Não ignoremos que, num país claramente mais excessivo do que o nosso, quando falamos de revanchismo falamos de acontecimentos e práticas bem mais graves do que o ressuscitado reacionarismo estrutural do CDS pintado de antiwokismo ou de tiradas anti-movimento LGBT.
domingo, 17 de maio de 2026
O DEBATE SOBRE O PRETENSO OU REAL DECLÍNIO ECONÓMICO EUROPEU
(O economista americano Paul Krugman está de férias algures na Europa, provavelmente para aliviar o espírito das asneiras alarves de Trump, mas não tem deixado por isso de alimentar o seu “substack” que substituiu, como é sabido, a sua crónica regular no New York Times. O talento de Krugman para suscitar o debate é por demais conhecido, característica olhada de soslaio pelos economistas de mainstream que detestam fazer ondas e incomodar as ideias estabelecidas. Num destes últimos substacks, mesmo a partir da Europa, Krugman trouxe para o debate público a ideia de que o declínio económico da Europa merecia alguma análise crítica, sobretudo do ponto de vista das condições utilizadas para medir o crescimento da produtividade, indicador invocado para justificar a tal ideia do declínio europeu sustentado. Embora este debate seja algo complexo para leitores sem formação económica, dimensão que os economistas americanos assinalam regularmente com a indicação de aviso prévio “very wonkish”, ele é interessante e justifica o seu registo neste blogue. Não estão em causa as claríssimas diferenças de modelo social e de condições de vida entre os europeus, pelo menos os dos países mais desenvolvidos do Norte e os americanos. Essa questão é conhecida e não vale a pena chover no molhado. O debate é outro e constitui matéria relevante pois tem influência na condução da política europeia. O tema do declínio económico europeu veio de novo a terreiro quando Mario Draghi publicou com pompa e circunstância o seu relatório (Relatório Draghi), no qual alertava para o forte constrangimento de produtividade que a Europa enfrentava, seja na sua versão de produtividade aparente do trabalho (PIB por pessoa empregada ou PIB por hora trabalhada), seja na de produtividade total dos fatores, que costuma ser um pouco artificialmente apontada como uma medida da eficiência global com que a economia funciona. Os números que servem de base a esse raciocínio utilizam recorrentemente a medida do PIB em termos reais, isto é, expurgada da inflação, dividindo esse valor seja pelo emprego, seja pelas horas efetivamente trabalhadas. Ora, é sobre este cálculo que Krugman constrói o seu argumento que tentarei explicitar o mais sucintamente possível neste post.)
A medida da produtividade aparente do trabalho (por pessoa empregada ou por hora trabalhada, prefiro normalmente esta última, já que permite integrar na análise a jornada de trabalho) utiliza no numerador como anteriormente referi o PIB em termos reais, ou seja, calculado aos preços de um determinado ano. No caso dos valores utilizados por Krugman, que são os do Banco Mundial, o ano base é o ano de 2021. Conforme o gráfico de autoria do economista americano que abre este post evidencia, a produtividade europeia face à americana apresenta um declínio sustentado, descrito pela curva a preto do referido gráfico. Parece ser este então a base de todo o discurso sobre o declínio económico europeu.
Mas o economista americano está cheio de razão quando critica este modo de cálculo da produtividade aparente do trabalho para comparar a situação europeia e a americana. Como rácio que é, o numerador, o PIB, é influenciado pela composição desse produto e pelo nível geral de preços das duas economias em confronto. Assim, em vez de se construir uma série com a evolução dos PIB a preços constantes de um dado ano e dividi-lo pelo total de horas trabalhadas, o processo de cálculo correto é comparar o PIB e consequentemente a produtividade em cada ano à paridade de poder de compra e construir a sucessão desses valores. Como também é visível no mesmo gráfico que abre este post, a curva azul mostra que não há declínio da produtividade europeia face à americana, quando medida à paridade de poder de compra. Ela é menor do que a americana, mas o gap não se tem acentuado como o observado quando calculamos a produtividade do trabalho a preços constantes. A diferença é fundamental: calcular a preços constantes equivale a calcular aos preços de um determinado ano; comparar à PPC significa que se neutraliza em todos os anos a diferença de composição dos PIB e os níveis gerais de preços das duas economias.
O que é importante no argumento de Krugman, mas também a parte mais complexa do seu argumento, é a referência ao facto de se tratar de um falso paradoxo. É falso porque o que efetivamente acontece é que a Europa e os EUA produzem diferentes conjuntos de bens (os cabazes de PIB são distintos) e isso não é apanhado pela medida convencional da produtividade a preços constantes de um dado ano. A efetiva explicação do falso paradoxo implica que tenhamos em conta que a economia americana é de facto incontestavelmente superior na produção de bens tecnologicamente sofisticados (o big tech ou high tech). E, como é conhecido, os bens high tech têm apresentado um crescimento da produtividade do trabalho superior aos restantes conjuntos de bens. É, assim sem surpresa que o crescimento da produtividade na Califórnia e no Texas (influência do Sillicon Valley e de Austin) é muito superior à verificada noutros estados americanos, aliás em montante bem superior à da diferença entre os EUA e a Europa mais desenvolvida.
É de facto a relevância do big tech americano que explica a diferente composição da produtividade nos dois países, mas quando expurgamos da análise o efeito dos preços relativos e do nível geral dos preços, existe de facto um desvio de produtividade ligeiramente inferior a 10%, mas a tese do declínio económico sustentado não se verifica (não tem evidência correspondente).
Mas, como pergunta Krugman, qual é então a verdadeira razão para os europeus se preocuparem e ajustarem nesse sentido as políticas de inovação?
A preocupação está no facto da Europa não ter nos últimos tempos muito que dizer na duopolização do big tech entre os EUA e a China. Esse sim, é o verdadeiro problema. Claro que poderemos afirmar que uma política europeia inteligente de abertura e difusão do progresso técnico produzido pelos dois colossos pode mitigar o problema. Mas não o resolve. Enquanto o big tech não tiver uma irradiação tripolar, com os países do Norte da Europa a disputarem liderança e os restantes países a prosseguir políticas hábeis de nichos de inovação (um papel para Portugal?) a preocupação subsistirá, até pela razão simples, mas imperiosa de controlar o avanço do progresso técnico à luz dos valores europeus.
Creio, por isso, que Krugman tem razão neste debate, por mais estranho que seja a um não economista de formação sólida ver a queda da produtividade aparente do trabalho a preços constantes e concluir que, à paridade de poder de compra, a diferença de produtividade da Europa face à dos EUA se tem mantido.
Nota final:
Como exemplo da argumentação contrariada por Krugman, veja-se por exemplo o sempre perspicaz Noah Smith.
sábado, 16 de maio de 2026
REVISTAS NA PRAÇA
(Por mais tolerância desportiva que possa praticar, e creio de facto estar entre os tolerantes não fanáticos, a verdade é que as atmosferas metropolitanas do Porto neste fim-de-semana não se recomendavam a alguém que, apesar dessa tolerância, não consegue partilhar as festividades de comemoração do título, justo, disso não tenho dúvidas. Diga-se, de passagem, que se residisse em Lisboa, também não seria dos que rumaria ao Marquês para comemorar um título que, fruto de incompetência declarada, foge há já algum tempo à família encarnada. As massas têm em momentos de comemoração alguma coisa que me inibem e me afasta da partilha de emoções. Por isso, por razões de conveniência e também de prazer no destino, a solução óbvia era zarpar para Seixas. Mas mesmo nesse retiro estratégico, foi difícil assistir à derrota na praia do Hearts de Edimburgo que disputava no Celtic Park de Glasgow a possibilidade de um título quase inédito. A força daquela multidão dos Católicos de Glasgow abateu a resistência dos bravos de Edimburgo (um quase desconhecido português, Cláudio Braga de seu nome, foi nomeado o futebolista do ano na Escócia) que precisava apenas de um empate e que sucumbiu face à impetuosidade do futebol do Celtic. Morrer na praia é uma constante do desporto e é possibilidade que no fundo arrasta multidões como a que encheu o Celtic Park. Mas chega de amarguras futebolísticas e regressemos ao retiro de Seixas, em torno de uma reflexão despretensiosa de algum tempo passado na praça de Caminha, com um entertainer local a adoçar os efeitos do vento irritante que se sobrepunha por vezes às carícias do sol envergonhado que banhava a praça. O Central já era, nota-se a ausência daquela esplanada, os restantes cafés com esplanada agradeceram e diria que a ambiência não é a mesma. Mas não sou de modo algum um nostálgico do passado urbano. Os espaços urbanos reinventam-se, a vida continua e estou certo que, daqui a algum tempo, poucos já se recordarão da ambiência gerada pelo Central, pelo menos depois que a curiosidade quanto à renovação do edifício que gerou o encerramento termine. Não é de enjeitar a hipótese de aparecer por ali uma renovação tipo mamarracho e isso poder acentuar a nostalgia dos que pensam que o espaço urbano é imutável. Mas não é.)
Na falta do New York Times, edição internacional (a distribuição está cada vez mais errática e nem a qualidade de oferta da Gomes pode compensar essa aleatoriedade), a crónica chama-se Revistas na Praça, porque há que inventar leituras, os jornais nacionais já estavam lidos, e, por isso, a BBC Music (edição de maio de 2026) e o Nouvel Observateur (edição de 7 de maio de 2026) preencheram o espaço vazio.
As impressões para reflexão despretensiosa são inúmeras e diversificadas.
A BBC Music que, juntamente com a francesa DIAPASON, são talvez as duas revistas mais relevantes da música clássica, pelo menos as mais apelativas, é um alfobre permanente de ideias, além de que, para uma alma sem formação musical quando ela deveria ter sido ministrada, representa uma rara oportunidade de aumentar a probabilidade de êxito de compras seletivas, que têm de ser cada vez mais seletivas dado o andamento dos preços.
Nesta edição de maio, além de ser possível aceder aos ganhadores dos prémios BBC para a música clássica, o que é um passaporte eficaz para compras que não inspirem reservas, trouxe-me essencialmente três reflexões. Primeiro, é impressionante a dinâmica cultural de algumas cidades europeias em torno da música clássica, sobretudo em torno da realidade magnífica dos festivais de verão. Fiquei a pensar que esta realidade dos eventos musicais com expressão atrativa deveria ser do conhecimento dos autarcas e programadores culturais, mesmo dos menos propensos ao cosmopolitismo. Saber o que se faz por esse mundo fora em matéria de vivência lúdica da música é um bom caminho para evitar a pacóvia ideia de que tudo por cá é diferente. Segundo, à medida que se vão conhecendo as novidades, é impossível ficar indiferente à dinâmica incessante de aparecimento de novos intérpretes asiáticos de extrema qualidade e excelência. Fruto da demografia (muitos a aprender música tenderão mais tarde ou mais cedo a notabilizar-se) e da excelência da concentração que os jovens asiáticos manifestam em tudo que é atividade de aprendizagem), temos aqui um exemplo manifesto do gap que existe entre o ocidente e o oriente – eles interpretam melhor o nosso património cultural, neste caso musical, do que nós dominamos a cultura asiática. Terceiro, tive a confirmação de que as Forgotten Melodies (Sony Classical) do novo prodígio russo Alexander Malofeev tinha sido uma boa compra da minha parte. O disco foi considerado pela BBC Music como sendo a gravação do mês. Quando ouvi o disco pela primeira vez, não pude deixar de me interrogar sobre a “nostalgia russa” que irradia das obras de quatro compositores russos que emigraram e morreram longe da pátria (Glinka, Glazunov, Rachmaninov e Medtner), residindo o próprio jovem Malofeev em Berlim.
Quanto ao Nouvel Observateur de 7 de maio, vale a pena ler com atenção uma vasta investigação sobre 50 jovens que em diferentes domínios podem ser considerados como os possíveis fazedores do futuro da França. Interroguei-me se não seria vital multiplicarmos este exercício em Portugal, indo à procura de 50 personalidades jovens a que poderemos associar o futuro do país. A impressão foi tão intensa que fiquei com vontade de iniciar neste blogue uma nova frente, orientada para o destaque dos que mais novos poderão fazer a diferença. Mas foi uma ideia fugaz e não estou lá para muitos compromissos. A verdade é que me ocorreu a possibilidade de já estar desligado da dinâmica do movimento e mudança que pode fazer a diferença, sendo por isso fortemente influenciado pelo filtro dos media. Imaginei-me a iniciar essa descoberta e, influência da BBC Music, apliquei o critério à música. Nos três nomes que me ocorreram espontaneamente, Martim Sousa Tavares, maestro e divulgador, João Barradas, acordeonista e compositor e Joana Gama pianista, só provavelmente os dois primeiros correspondam em termos de idade ao conceito, já que a Joana Gama de cuja obra gosto muito já vai nos 43 anos.
Cheguei à conclusão de que se exercitarmos esta metodologia, ficaremos a perceber se estamos conectados com a mudança ou se, pelo contrário, já temos dificuldade em identificá-la.
Experimentem e não sejam demasiado cáusticos convosco próprios.



