(Vai por aí uma grande algazarra envolvendo a até agora imaculada
Universidade Nova de Lisboa, apontada por muita gente como fazendo jus ao seu
nome de “Nova”. Mas convém recordar que foi na Universidade Nova de Lisboa que
Susana Peralta encontrou forte resistência pela presença mediática no debate
público, como essa presença fosse uma mácula na sacrossanta pureza dos
mandamentos universitários. Pois agora, não sei exatamente se com a mesma raiz
e origem, a controvérsia estalou a propósito da decisão do Reitor recentemente
eleito de invocar a lei para que a Nova School of Business and Economics seja
proibida de ostentar na sua designação expressões em inglês, popularizada pela
sigla NOVA BSE. Estou perplexo e sobretudo farto deste tipo de hipocrisias
universitárias, que pululam entre os seus órgãos de gestão (é um eufemismo designar
de gestão o que muitas equipas reitorais estão na prática a fazer, gerindo o
imobilismo). Quem alguma vez tenha já visitado a NOVA BSE em
Carcavelos apercebe-se facilmente, se tiver um mínimo de intuição e sobretudo
de abertura à inovação organizacional, que aquela organização é sem dúvida uma
Escola diferente no panorama universitário nacional. O modo como o campus está organizado
para transformar a bela localização da Escola em termos de ativo poderoso de
atração e animação do espaço num ecossistema que atraia as empresas à colaboração
com a Nova BSE destaca-se no horizonte das escolas de economia e de gestão
nacionais. Sim, a Nova BSE é uma Escola vocacionada para a internacionalização
e para a atração de talento ao país e é isso que parece incomodar o imobilismo
universitário que vai buscar proteção à ciência e à pretensa valorização da
língua portuguesa para embirrar com o uso da língua inglesa no cartão de visita
desta Escola. Já não há pachorra…).
A utilização do inglês como língua
em que muitos cursos são ministrados, designadamente para acolher estudantes estrangeiros
de licenciatura, mestrado e doutoramento, é hoje prática corrente em muitas
universidades e até institutos politécnicos, mesmo nos mais atávicos em termos
de internacionalização. Tudo isto radica no princípio estabilizado de que, mal
ou bem não interessa agora discutir, o inglês se transformou na principal língua
da investigação científica. A peregrina ideia de que a defesa da língua
portuguesa passa por esse tipo de batalhas está condenada ao fracasso,
sobretudo num contexto em que a defesa da língua portuguesa é tão esquecida e
conspurcada na política cultural do país, que não tem de facto uma política
consequente de apoio sistemático a quem cria, investiga ou escreve na língua
portuguesa.
Tal como tenho acompanhado a
evolução dos ecossistemas universitários em Portugal, existe uma fissura
potencial entre as estratégias modernas e internacionalizadas de interfaces
universidade-empresa do tipo INESCTEC ou INEGI e de Escolas como a NOVA BSE que
nascem com uma outra cultura e um poderoso financiamento de empresas de grande
dimensão e as universidades que continuam a reger-se pelas regras apertadas da
administração pública e com práticas de proteção endógena (aos de dentro) que
bradam aos céus. Esses ecossistemas não estão organizados e o seu modelo de
governação continua a ser atirado para a indiferença da espera, apesar de
alguns progressos nos últimos tempos como, por exemplo, a consolidação de
contas (caso pelo menos da Universidade do Porto que conheço melhor). Mas a
fissura está lá, até porque estamos perante o confronto terrível entre a
agilidade da gestão e o imobilismo mais burocrático, e esse confronto é
sobretudo penoso para os mais modernos e internacionalizados que, falando com
os botões, interrogar-se-ão porque carga de água deverão continuar a aturar a
ineficiência e a depender do sempre insuficiente financiamento público das
instituições.
Se a Universidade Nova não for capaz
de compreender que a Nova BSE é um ativo poderoso para a sua própria afirmação
no mundo então o imobilismo virou estupidez pura e simples. Se a Universidade
Nova está de facto interessada em valorizar a língua portuguesa, então que se
apresente às autoridades do país com um programa regular e consequente de
defesa da mesma, projetando-se pioneiramente nesse capítulo.
Por mais importância que o espaço
territorial e de influência da língua portuguesa deva ser relevado, no âmbito
científico e da economia dos negócios querer obrigar as universidades a movimentar-se
apenas nesse círculo é condená-las a uma inferioridade consentida, que
obviamente as universidades e as equipas de excelência, respeitadas entre os
seus pares internacionais, rejeitarão sempre.
A minha perplexidade aumenta quando
o ministério da tutela, de cujo Ministro Professor Fernando Alexandre tenho as
melhores impressões, parece estar a ser contaminado com o atavismo de algumas
das instituições universitárias. Fico assim espantado quando, depois da
aspiração dos Institutos Superiores Politécnicos em ascender ao estatuto de
Universidades Politécnicas ou Universidades Técnicas (dizem as más-línguas que
nem os próprios Presidentes dos Politécnicos escapam à estigmatização da palavra
“politécnico”) ser sistematicamente rebatida e diferida no tempo, surge agora
associada ao Plano de Recuperação das intempéries a proposta de transformação
dos Institutos Politécnicos do Porto e de Leiria em Universidades. Não haveria
outro contexto para discutir serenamente as condições (de rigor e exigência)
para que alguns Politécnicos pudessem aceder ao estatuto de Universidade, com a
designação que a lei indicar? Não poderia o Instituto Politécnico de Leiria ser
projetado como alavanca ao serviço daquela martirizada região sem o implicar à
força num processo cuja discussão deveria ser serena e rigorosa?
Afastado das lides universitárias
pelas razões óbvias da idade, é com alguma deceção que vejo o atavismo
universitário a prosperar, enquanto o mundo pelas suas exigências e
transformações esperaria da Universidade um outro contributo. Por quanto tempo,
os “excelentes” e os mais dinâmicos aguentarão este atavismo que só estorva?