(É sabido que quando associamos inflação a períodos mais longos é fácil concluir que o seu comportamento não é constante. Existem períodos em que o seu comportamento é fator de perturbação não só para a política monetária, dado que um dos objetivos centrais da grande maioria dos bancos centrais é o seu controlo, mas também para a política económica em geral, na medida em que inflação ascendente e descontrolada é fator de degradação das condições de “affordability” de muitos grupos sociais, sobretudo daqueles que não conseguem repercutir para a frente os aumentos dos preços. Não é também difícil compreender que é num desses períodos em que nos encontramos. Obviamente que existem muitos índices possíveis para descrever o comportamento da inflação. Mas como costumo dizer todo o índice de preços é uma abstração, os consumidores e as famílias não comem índices, mas antes produtos concretos que integram a composição desses mesmos índices. Cada família é um caso concreto e, por isso, existem por vees discrepâncias entre a perceção das famílias e o andamento real transmitido pelos diferentes índices de preços. Cabe aqui recordar que um economista português, nascido em Leça da Palmeira, Matosinhos, Ricardo Reis, é coautor de um dos artigos marco sobre esta matéria, datado de 2003. Em colaboração com Gregory Mankiw (Harvard), o artigo versava sobre que índice de preços deveriam os bancos centrais monitorizar para concretizar o seu objetivo de controlar a inflação e a manter em torno do nível de referência dos 2%. Os dois economistas chegaram mesmo a uma proposta de índice concreto que ajudou a transformar o seu artigo para o Journal of the European Economic Association como um verdadeiro marco desta matéria. É também claro que se trata de referências que passam ao lado do cada vez mais errático Trump e dos seus colaboradores mais próximos que obedecem cada vez mais à regra da boa interação com um autocrata e que consiste em não lhe veicular notícias e matérias desagradáveis, mas apenas coisas que ele gosta de ouvir. Pode assim dizer-se que se Trump fosse o destinatário-tipo do conhecimento teórico e empírico produzido pelos macroeconomistas, mais valia mudarem de profissão, pois ninguém os ouviria.)
É um facto hoje inquestionável que o estado de Trump em relação à inflação (aliás como em outras matérias) é hoje de negação aberta relativamente ao que a evidência empírica da informação americana lhe oferece diariamente. Para ele a inflação está em baixa, diria controlada numa via descendente, e parece não haver ninguém que o demova dessa postura de negação. A negação já se transformou em desplante quando ele procurou explicar aos americanos que o seu absurdo acordo com Putin, que envolveu por tabela o pobre do Zelensky, obrigado por essa via a comprometer-se a não atingir as infraestruturas energéticas russas, iria resolver-lhes os problemas diários suscitados pelo aumento sistemático do preço do diesel.
A publicação dos dados do índice de preços ao consumo nos EUA começou por tornar evidente a negação absurda em que Trump está mergulhado a pensar nas intercalares de novembro próximo. Poucos dias depois, a publicação do índice de preços na produção erradicou qualquer dúvida que houvesse sobre essa matéria, especialmente porque este índice é geralmente apontado como um índice que permite antecipar o comportamento futuro dos preços ao consumo, já que descreve o andamento de todos os preços em geral.
O que me parece, entretanto, impressionante é que apenas 55% dos potenciais votantes inquiridos pela amostra da FOX NEWS considere que a inflação não está de modo algum controlada e que nessa apreciação estão incluídos apenas 30% de votantes republicanos (sigo aqui o substack de Paul Krugman). Dito de maneira mais crua, aquilo que face à evidência disponível nos parece uma negação absoluta, pelos vistos é-o para pouco mais de metade dos votantes inquiridos. O que me deixa em estado de rebuliço total. Como dizia anteriormente, todos os índices de preços são abstrações compósitas e cada família tem lo seu cabaz de referência que pode não coincidir com dos índices mais divulgados. Mas a evidência diária na sociedade americana é tão abrangente que dá que pensar a transmissibilidade do estado de negação em que Trump se coloca e que pretende, no fim de contas, transmitir à sociedade americana, anestesiando-a para passar incólume a barreira das intercalares e as suas consequências no Congresso e no Senado. Trata-se de um caso único de estudo e matéria decisiva para se elaborar um manual sobre a disseminação do negacionismo.
Por estas e por outras coisas, as intercalares antecipam-se por agora ainda como um mistério a pairar sobre todas as evidências.





