(Faz-nos hoje falta o pensamento do historiador e escritor britânico Tony Judt para, se fosse vivo, nos ajudar a compreender o que vai sendo anunciado pela Alemanha e o que aí se anuncia em termos de posicionamento europeu e mundial. A história do século XX que Judt tão minuciosamente analisou mostra-nos com clareza como os acontecimentos em que a Alemanha esteve envolvida foram cruciais para compreender a dinâmica evolutiva da história. Do seu envolvimento derrotado na 1ª Guerra Mundial, seguindo-se depois a disparatada exigência com que as indemnizações de guerra foram impostas aos alemães, que Keynes premonitoriamente denunciou, até ao período entre as duas guerras, ascensão, apogeu e derrota do nazismo na 2ª Guerra Mundial, fica uma sequência de acontecimentos que paira sobre a cabeça dos líderes alemães, não propriamente como uma ameaça, mas como fonte de suspeições, desconfiança e má consciência. Neste momento do desenvolvimento europeu, já é questionável o estatuto de motor de crescimento que foi atribuído à Alemanha, algumas vezes oculto na referência ao eixo franco-alemão. Não é que o modelo económico alemão esteja totalmente desacreditado, não é isso. O que se passa é que esse modelo enfrenta constrangimentos e fragilidades dos quais a União Europeia tardou a dar conta, pelo que estaremos mais perante um motor que já não funciona com a perfeição que lhe era atribuída. Mas não é no plano económico que gostaria de me concentrar hoje. Pelo que se vai percebendo do que está a ser decidido pela coligação no poder e pela presença mediática das declarações do Chanceler Merz vislumbram-se alterações de peso na política alemã, sobretudo no que respeita à relação entre as opções a tomar no campo da segurança e defesa e o próprio modelo social alemão ou Estado de bem-estar conforme lhe queiramos chamar. Mais do que a superação dos constrangimentos do modelo económico alemão, são estas questões de segurança, defesa e modelo social que interessa discutir, pois a evolução alemã pode representar uma viragem expressiva no modo como essas questões são debatidas na Europa.)
Conforme é compreensível a partir de uma leitura atenta da história, o rearmamento alemão sempre foi encarado internamente com a maior das cautelas. É como se essa orientação suscitasse velhos fantasmas, dos quais os governos alemães do pós- segunda guerra mundial procuraram convictamente afastar-se, no sentido de reganhar a confiança dos restantes parceiros europeus. Entretanto, com a integração da Alemanha de Leste, soviética de origem e orientação, os governos alemães tiveram vasta matéria para gerir internamente. Mas o contexto atual, primeiro com a ameaça concreta russa que apanhou Merkel desprevenida e depois com a posição da administração Trump em relação à Europa, dificilmente poderiam ser entendidos com condescendência. Recordemos que a primeira vez em que os americanos abriram as hostilidades foi num evento, a conferência de Munique, por isso no coração da Alemanha rica, através da inenarrável posição de J.D. Vance que veio denunciar a alegada restrição da liberdade da extrema-direita da AfD poder fazer as tropelias desejadas. Merz veio recentemente relativizar a decisão de Trump retirar cerca de 4.000 militares americanos de território alemão, já que se trataria de destacamentos de implantação provisória, logo predestinados a um regresso às suas bases nos EUA. A retirada destas tropas não é assim o elemento essencial da equação. O fundamental é a manifesta má vontade americana para continuar de parceria com a Europa e isso parece indiscutível quando se apoiam forças políticas interessadas em minar por dentro a democracia alemã e europeia em geral.
Com este contexto, toda a má consciência existente sobre o rearmamento alemão teria de se esbater e o pragmatismo alemão orientar-se para investimentos disruptivos relativamente ao passado em matéria de segurança e defesa. Assim parece estar a acontecer e os alemães, embora na retórica política continuem a clamar ela necessidade de manter a aliança atlântica com os EUA e a preservação da NATO, estão a programar investimento como se essa aliança se transformasse em relíquia. Até aí tudo seria expectável, o mesmo podendo ser dito quanto à União Europeia em geral. Esperar por uma mudança política nos EUA pode representar uma ingenuidade perigosa.
Mas a questão é bem mais vasta e complexa do que este ganho de realismo, alemão e mais tarde ou mais cedo, europeu em geral. O mais importante disto tudo é que o governo alemão de Merz parece decidido em colocar na equação a própria transformação do modelo social alemão, estando disposto a “economizar” no estado de bem-estar para acomodar os investimentos em defesa e continuar a criar condições favoráveis ao crescimento económico. Estamos assim reconduzidos a uma velha questão que os manuais de introdução à economia de Paul Samuelson popularizaram – o trade-off entre canhões (defesa) e manteiga (estado de bem-estar e social). Há gente por aí mais ousada que já fala de” canhões versus pensões”, onde é fácil perceber o oportunismo dos que nunca desistiram de querer desmantelar os sistemas de pensões do estado social, privatizando-os à luz de muito discutíveis argumentos de insustentabilidade do sistema.
Vai ser fundamental acompanhar que tipo de réplicas esta transformação de modelo irá gerar em países como a França em que a rigidez desse Estado social é muito mais acentuada. Veremos também como o modelo social escandinavo reage também a esta pressão. É neste contexto que teremos de entender o combustível incendiário colocado neste debate quando Ventura e o Chega se propõem defender a descida da idade da reforma ou a supressão da esperança de vida à nascença como critério de regulação. O objetivo é claro – aumentar a confusão e gerar o caos, puro e simples.
À medida que o tempo se consolida mais se percebe a ameaça estrutural que paira sobre a Europa e o seu modelo social. Não é difícil antecipar que todos estes acontecimentos exógenos convergem no sentido de abalar esse edifício, a ponto de não ser imaginação excessiva falar de convergência orientada de acontecimentos exógenos. E como a história do sub (desenvolvimento) nos ensina este tipo de ameaças exógenas encontra sempre internamente os agentes acolhedores, que neste caso são os interessados na privatização alargada dos sistemas de proteção social.
Será que a esquerda democrática compreenderá finalmente onde está a verdadeira ameaça e deixará de contemplar as minudências do seu umbigo?






