terça-feira, 9 de junho de 2026

EM MATÉRIA DE IA ESTOU COM A MAFALDINHA

 


(A grande recetividade que a Encíclica Magnifica Humanitas tem vindo a receber mostra duas coisas, que devemos atribuir mais importância e atenção ao que o Papa Leão XIV tem a dizer ao mundo e que existe instalada uma profunda preocupação quanto à necessidade crucial de colocar a dimensão humana no centro do debate que muito tardiamente começou a ser travado em torno dos avanços e das possíveis derivas da inteligência artificial. Muita da reação que anda por aí faz-me concordar com a eterna Mafalda da banda desenhada, quando ela na sua irreverência confessa que está mais preocupada com o recuo da inteligência humana do que com o rumo da IA. Tenho para mim, e não tenho dúvida em aceitar que cheguei tarde ao mundo da IA e que por isso não sou ainda um utilizador confesso e generalizado da mesma. Por razões de preparação para a docência universitária de outros tempos, fui durante largo tempo um estudioso relativamente aprofundado das questões da inovação e da tecnologia, embora sempre admitindo que os engenheiros estão em vantagem em relação aos economistas para as entender, tal qual elas evoluem historicamente. Recorrendo a esses conhecimentos que fui adquirindo, sou levado a concluir que a IA não é mais do que mais um momento particular dessa longa evolução dos paradigmas da inovação tecnológica. Grande parte dos medos e fobias, alguns pouco inteligentes, que começam a formar-se em torno da IA e dos seus possíveis malefícios, encontrei-os, embora sob outras formas, noutros momentos da evolução tecnológica. A história do desta vez é que é tem tido expressões diversas ao longo do tempo, seja na ficção futurista, seja na reação por vezes violenta das sociedades. Era sobre esta questão, de saber se desta vez é diferente e de vez, ou se pelo contrário as sociedades avançadas acabarão por encontrar a interação certa com a nova tecnologia. O que não significa que não existam diferenças de contexto que importe assinalar.)

Na verdade, recorrendo às minhas principais referências bibliográficas sobre o modo como as principais revoluções tecnológicas foram recebidas pelas sociedades mais avançadas, não é difícil reconhecer a presença nesses debates de questões que estão de novo a ser colocadas pela disseminação da IA. É o caso da destruição de emprego provocada pelas sucessivas inovações, em que recorrentemente sempre existiu o dilema de focar a atenção no curto-prazo em que a destruição de emprego supera a criação de novos empregos ou no longo prazo em que a história económica mostra que a criação líquida de emprego foi sempre positiva. Mas é também o caso da alienação humana pela tecnologia, como foi por exemplo o caso das novas tecnologias de comunicação onde se receou que a interação humana fosse reduzida a mínimos, quando ela efetivamente aumentou, a ponto de assumir fórmulas doentias de “messaging” permanente, sem, contudo, as questões de a alienação terem desaparecido. Veja-se o caso da adição aos telemóveis dos mais novos aos mais velhos. É ainda o caso do aproveitamento oportunista das novas tecnologias, como hoje acontece com jovens universitários e do secundário em que o recurso fácil a soluções de IA está a conduzi-los a uma total iliteracia de compreensão, como os relatos de professores universitários que me são próximos não se cansam de documentar. E é ainda o caso das implicações da tecnologia na organização das empresas e de todas as instituições em geral, onde a história nos mostra que os vencedores foram sempre aqueles que compreenderam mais cedo as implicações organizacionais das novas tecnologias.

Se invocarmos esta recorrência no passado, talvez compreendamos que a tese do “desta vez é que vai ser diferente” talvez deva ser relativizada.

Mas sou sensível às diferenças abissais de contexto em que a ameaça de hoje se coloca. A principal diferença de contexto é ilustrada na capa da mais recente edição do Nouvel Observateur, onde os quatro profetas da desgraça ou do futuro mais risonho são apresentados. Qual é a diferença de contexto? A principal diferença está no contraponto existente entre a maior concentração de hoje na fronteira tecnológica, isto é, na frente da corrida e a maior desigualdade que se regista, seja nas sociedades mais avançadas, seja entre quem comanda a corrida e o restante pelotão.

É neste contexto que o apelo do Papa Leão XIV no sentido de colocar de novo o humano no centro da revolução tecnológica tem justificação plena, sendo importante pelo grau de consciencialização da ameaça que o seu pronunciamento pode proporcionar. Esse sim é o rumo que a regulação da IA deve assumir. Para lá disso, subsiste o problema de saber se a inteligência natural e humana será capaz, como o foi no passado, de saber utilizar as novas possibilidades da IA, ou se, pelo contrário, irá sucumbir à preguiça, ao facilitismo, entregando-se à sedução da tecnologia. Certamente que os empregos e as competências irão ser impactados, que os riscos da alienação humana estarão aí à mão de semear, que as mentes mais diabólicas e transviadas poderão encontrar na IA novas formas de submissão do humano. Tudo isso é verdade, mas como o foi também no passado com outras revoluções tecnológicas.

Se nos projetarmos nas experiências do passado, outros como nós estiveram também perante a interrogação: será que desta vez vai ser diferente? Os mais positivos vão admitir que a nossa adaptação não irá ser perfeita, mas fará avançar o mundo. Os mais pessimistas e cabalísticos verão certamente ameaças mais pesadas. Mas talvez a Mafaldinha tenha razão: o verdadeiro perigo estará na incapacitação da inteligência natural e na propensão para o abismo que as sociedades por vezes revelam. E, de facto, a propensão para o abismo assume hoje proporções inquietantes.

 

segunda-feira, 8 de junho de 2026

O CONTRIBUTO DE PREVOST

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com) 

Robert Francis Prevost chegou ao Papado confrontado com uma situação assaz complexa: suceder a Jorge Mario Bergoglio, o notável Papa Francisco. Mas rapidamente deu indicações claras para que se percebesse que tínhamos homem – e como é atualmente mais essencial do que nunca que alguma moralidade seja ouvida no mundo!
 
A visita de Leão XIV a Espanha, que hoje termina, constituiu um bálsamo nessa perspetiva, sobretudo porque a palavra do Bispo de Roma – nem sempre consensual em certos planos... – voltou a mostrar a força de alastramento ímpar que se lhe tem de reconhecer, além da frontalidade e coragem que evidencia sem tibiezas. Ademais, em nome de um Bem que crescentemente rareia na boca e nos atos dos poderosos que comandam os destinos imediatos da Humanidade.
 
Um sinal de esperança, pois, confirmando a sabedoria da escolha deste Pontífice nascido em Chicago e moldado no Peru que já ganhou a credibilidade internacional que irá fazer dele uma fonte exemplar de tolerância, respeito e solidariedade no contexto do “mundo imundo” que desesperantemente se nos apresenta. 


(Riki Blanco, https://elpais.com)

domingo, 7 de junho de 2026

ENTRE MUROS E CERCAS...

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com) 

O mundo de hoje pode ser simplificado, a um certo nível de observação e análise, como um entrecruzamento de muros e cercas. Os muros que não apenas criam a ilusão aos mais desfavorecidos de que do outro lado há algo em termos de oportunidade para eles mas que também permitem aos poderosos afastar “o outro” que importuna e se pretende distante. As cercas que não apenas garantem o desejado isolamento em aquários luxuosos aos “donos do mundo” mas que também indiciam os “culpados” que residem em mansões inacessíveis e por elas escondidas.

 

Estamos, no fundo, perante simbólicas expressões de um dos traços mais constantes da sociedade mundial, a da continuada afirmação (mais ou menos visível, mais ou menos prepotente, mais ou menos imperialista) da desigualdade como um fenómeno iniludível – de facto, e a despeito de algum reequilíbrio aportado pela globalização do último quartel do século passado, a enormidade do fosso entre ricos e pobres permanece e as suas manifestações à escala global atingem foros impensáveis de exibicionismo absurdo e de chocante pauperização. 

(Riki Blanco, https://elpais.com)

sábado, 6 de junho de 2026

COITADO DO PRESIDENTE!

(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt

António José Seguro parece perfeitamente instalado na sua improvável função presidencial. E a verdade é que lá vai aparecendo nos sítios, abrindo os eventos que há para abrir, dizendo as banalidades dele esperadas, procurando que o Governo não tenha grandes motivos de insatisfação e até fazendo as férias politicamente corretas na Região Centro. Tudo dentro da normalidade, pois. Com duas restrições que muito me impressionam: por um lado, a apagada e vil tristeza que ostenta no rosto e na atitude (pudera!, porque convenhamos que o quotidiano que lhe oferece a função é mesmo uma seca, só suscetível de exploração positiva por parte de um narciso militante e único como Marcelo); por outro lado, a consciencialização que vai adquirindo de ser um “verbo de encher” na cena política, com o PSD e o Chega a tratarem o mais possível por lhe limitar a margem de manobra alegadamente transformadora ou, melhor dito, por resolverem entre si, e sem lhe passarem grande cartão, o que há para resolver. Neste quadro, o velho Tó Zé de outros tempos que ainda ia ensaiando alguns arremedos de atrevimento tende a anular-se sem rasto na quilometragem diária, nos dias cheios de burocracia maçadora e nos encontros sucessivos com portugueses bem menos interessantes e interessados do que ele intuía irem deparar-se-lhe. Gratos ao Presidente pelas suas boas intenções mas coitado dele!

sexta-feira, 5 de junho de 2026

DIVAGAÇÕES TENÍSTICAS

 

(Partilho com o meu colega de blogue alguma necessidade de desanuviar a escrita neste blogue e estou a fazê-lo gozando um fim de semana um pouco mais longo do que o habitual em Seixas, apreciando esta calma relativamente fresca que se vislumbra da minha varanda fronteira ao Coura e a Caminha. Vou, por isso, concentrar-me em algumas divagações tenísticas, não para vos falar das minhas proezas e falhanços de atleta de 77 anos, mas para tirar partido do Roland Garros que se aproxima do fim. E que torneio mais atípico tivemos pela frente, de que o melhor indicador é a composição das meias-finais de singulares masculinos e femininos: Zverev-Mensik (3-1) e Arnaldi (desistência)-Cobolli, nos homens e Mirra Andreeva-Kostyiuk (2-0) e Chwalisnska-Shnaider (2-0) nas mulheres. Os astros inclinam-se para que finalmente Zverev possa ganhar um título de Grand Slam, mas a atenção à armada italiana. Mas o Roland Garros deste ano tem sido atípico atendendo sobretudo aos casos de derrocada total de alguns dos principais favoritos, o que sugere que os melhores do circuito estão a jogar nos limites da resistência física e psicológica. Era essencialmente sobre esse aspeto que gostaria de concentrar as minhas divagações tenísticas.)

Os dois casos mais salientes de verdadeiros “crashs” foram as derrotas de Sinner, nº 1 mundial masculino face a um dos irmãos Cerundolo argentino e a de Sabalenka, nº 1 mundial feminino face a Shnaider. São crashs de natureza diferente, o de Sinner mais físico do que psicológico e o de Sabalenka exatamente o inverso.

Nunca tinha visto num espetáculo tenístico algo de semelhante à quebra física de Jannik Sinner, no que poderia designar de verdadeiro colapso físico, como se o corpo tivesse perdido a capacidade de resposta e a vontade de reagir. A derrocada de Sabalenka é talvez o melhor exemplo de alguém que tem o jogo dominado, que começa a pensar noutra e que à mínima adversidade tudo se desvanece e entra numa espiral descendente de perda sucessiva de pontos (6-0 na última partida) após ter perdido a segunda partida que pensara ter dominada. O estado de desespero em que a nº 1 mundial ficou depois da derrota, afirmando que naquele momento a única coisa que lhe apetecia era abandonar o ténis, é dos casos de colapso mais incrível que o ténis alguma vez terá presenciado. São casos diferentes, mas ambos revelam, em meu entender, que os melhores estão a jogar no limite das respetivas vidas e forças.

Pelo meio tivemos ainda uma partida excecional para recordar o que podemos entender como um choque de gerações. O jogo que opôs o talentoso brasileiro João Fonseca e o consagrado e entradote sérvio Novak Djokovic é um monumento para análise futura, retratando fielmente o que é a luta destruidora entre o jovem emergente e o incumbente prestes a retirar-se. Fonseca, nas declarações de celebração de vitória, mencionou com toda a honestidade que Djokovic estava a destruí-lo com o seu jogo, tamanha foi a impetuosidade que colocou no jogo e que foi por muito pouco que não se viu ultrapassado pela força física e mental do sérvio. Não sei se Djokovic voltará a pisar uma vez que seja aquele court central de Roland Garros, mas mesmo perdendo para o talento inesgotável do brasileiro podemos considerar essa derrota uma despedida triunfal, tamanha foi a qualidade que o sérvio imprimiu ao seu jogo.

Mas o melhor estava para vir com a chegada à final de Maja Chwalisnka depois de uma vinda triunfal do qualifying. A polaca esteve em Portugal há pouco mais de um ano num daqueles challengers que são o tormento do (a)s jogadores (as) classificadas entre o 300º e o 500º lugares do ranking mundial, até conseguirem uma oportunidade de brilharem num torneio com alguma expressão monetária. Se há quem diga que o ténis pode ser mais um produto da cabeça (mental) do que do corpo (físico), então Chwalinska é um verdadeiro caso de estudo. A tenista polaca não tem aquilo que possa chamar-se um ténis espetacular do tipo por exemplo que Sabalenka apresenta. Mas a consistência defensiva que ostenta, e sobretudo a capacidade de concentração praticamente em todos os pontos de uma partida, explicam a sua meteórica vinda do qualifying e a sua chegada à final.

Posso enganar-me, e oxalá me engane, mas acho que Chwalinska não vai ter talento suficiente para superar a impetuosa Andreeva , treinada pela nossa conhecida Conchita Martinez. Mas se o fizer, então o Roland Garros deste ano ficará nos anais da atipicidade da grande prova parisiense.

A tarde de sábado está conquistada.