terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

PARA MAIS TARDE RECORDAR...

Para memória futura, algumas das boas e sugestivas fotos da campanha presidencial. Acima, o contido vencedor numa das suas raras manifestações de maior exuberância sob o comando da mão de uma louletana. Abaixo, e por ordem de peso eleitoral relativo, os restantes quatro mais votados: Ventura a explorar o seu nacionalismo feito à pressa junto ao castelo de Guimarães, Cotrim e o escândalo de assédio sexual que abalou a sua candidatura e face ao qual se mostrou incapaz de agir com a tranquilidade dos inocentes, o Almirante a evidenciar a sua transversalidade perante um adepto portista (aposto que teria passado à segunda volta se a eleição tivesse sido postergada por mais duas semanas...) e Mendes a dar nota de uma de tantas ridicularias a que desnecessariamente se sujeitou sem qualquer benefício visível à saída da porta. Mais uma página virada...





ARAGÃO E A EXTREMADURA VÃO ANUNCIANDO A FUTURA ESPANHA POLÍTICA

 



(Embora aliviados pelos resultados das nossas Presidenciais, isso não significa que cedamos à ausência de reflexão sobre o que o atual momento político significa, especialmente quando o comparamos com o que se observa na Europa e no mundo. De facto, os 33% de Ventura são um elefante na sala que não pode ser ignorado, antevendo que as interações entre Parlamento, Governo e o novo Presidente da República serão largamente influenciadas por essa votação, abrindo um caminho de indeterminação que se vai confrontar com o desejo de estabilidade política. É neste contexto que vale a pena continuar com um olhar crítico e reflexivo sobre o que se passa em Espanha aqui ao lado, mesmo tendo em conta que o nacionalismo regionalista não tem equivalente em Portugal, que o PSOE e o PS são diferentes, que o PSD é (mais propriamente era) mais social-democrata que o PP e que Vox e Chega estão a convergir cada vez mais. E, nesse olhar crítico, os resultados das eleições regionais, neste último caso na região de Aragão, vão antecipando uma trajetória que parece cada vez inevitável que vá observar-se, com Sánchez a definhar internamente e a aguentar-se no plano internacional.)

O que as eleições regionais em Aragão e na Extremadura nos contaram foi que a antecipação desses atos eleitorais se explica essencialmente porque o PP pretendia ganhar força eleitoral face ao VOX e assim poder governar sem o fardo dos compromissos com a extrema-direita. Face a esse impulso acionado pelo PP, o PSOE aspirava tão só a resistir e a travar o seu declínio claro e o VOX obviamente perfilava-se no sentido de reforçar o seu peso na vida política espanhola. A restante esquerda aspirava a alguma recomposição, designadamente através da emergência e reconhecimento de forças políticas regionais mais radicais.

Os resultados das duas eleições foram inequívocos: i) o PP falhou no seu propósito; ii) o PSOE não conseguiu travar o seu declínio; (iii) o VOX saiu reforçado e (iv) sobretudo em Aragão emergiram reforçados regionalismos radicais, como é o caso da Chunta Aragonesista com 10% dos votos recolhidos.

Os resultados dão obviamente origem a múltiplas interpretações, mas a que começa a ganhar força e expressão é a de que o eleitorado espanhol prefere acordos preferenciais entre o PP e o VOX a aguentar durante muito mais tempo a coligação do PSOE com os nacionalismos regionalistas. Esta interpretação é largamente potenciada pela paradoxal situação interna a nível nacional – a economia vai bem, mas a debilidade do poder executivo do PSOE é cada vez mais flagrante, com as tragédias ferroviárias da alta velocidade e da circulação regular na Catalunha a colocarem o Governo nas cordas.

Por isso, a crónica anunciada de que o PP vai ensaiar acordos de governação com o VOX nestas regiões vai ser concretizada, comprometendo-o com o desgaste de governar, tentando com isso evitar que, no plano nacional, se veja forçado a seguir a mesma trajetória para desalojar o PSOE do poder.

Duas outras conclusões emergem também com clareza. Primeiro, antecipar eleições com o desígnio atrás referido não compensa, já que o PP vence, mas perde força eleitoral para o adversário do qual pretendia afastar-se. Segundo, aproximar-se do programa do VOX, mimetizando-o, também não compensa, já que engorda o VOX e o eleitor parece preferir o original à cópia.

A alternância democrática entre o PP e o PSOE, com alguns acordos de Estado, parece hoje longínqua. Há quem sublinhe que a polarização aguda entre as duas forças políticas não trouxe ganhos para nenhuma delas, especialmente para o PSOE.

Com todas as reservas já enunciadas sobre o potencial comparativo da situação política em Espanha e Portugal, é difícil mesmo assim não a fazer e retirar ilações para o caso português. Espero que as cabeças pensantes do PS e do PSD estejam atentas a estes sinais. Seguramente que Seguro também estará.

 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

SEGURÍSSIMOS COM O HOMEM COMUM?

Contrariamente ao que é habitual, as primeiras páginas dos jornais nacionais de hoje não primam pela imaginação. Invariavelmente, todas fazem sobressair o nome de Seguro – o eleito novo Presidente da República – recorrendo a um estilo previsível e discreto, aliás em completa consonância com o que é dito sobre a personalidade, o modo de estar e o discurso monocórdico do grande vencedor de ontem. A verdade é que o “patinho feio” conseguiu levar a sua intenção em frente ao concretizar uma hipótese de sucesso que poucos lhe concediam há poucos meses ou semanas. É certo que a sorte esteve do seu lado, quer porque a maioria da direita democrática escolheu um inconcebível candidato (Marques Mendes), quer porque a minoria dessa mesma direita decidiu apresentar-se autonomamente (Cotrim), quer porque o Almirante Gouveia e Melo surgiu para corroer mais uma parte desse eleitorado centrista moderado, quer porque o espaço socialista não encontrou forma de convencer um candidato alternativo, quer porque aquela divisão intestina conduziu a um adversário de segunda volta de pendor extremista e populista e com taxas de rejeição gigantescas. Mas não deixa de ser igualmente certo que Seguro teve o seu mérito, sobretudo em termos de opção por uma estratégia de campanha equilibrada, escassamente propositiva e alheia a todo o tipo de afrontamento e mediatização em excesso (o que alguns designaram por “fazer-se de morto”), afinal a fórmula adequada às expectativas do português médio para o pós-marcelismo, farto como estava em crescendo dos descocos intervencionistas do ainda Presidente. Duas coisas mais: a “beleza” da política também emerge nestas ocasiões em que os esquecidos e/ou maltratados voltam inesperadamente à boca de cena, mesmo que tal não ocorra necessariamente para fins de vingança (embora, no caso vertente, tenha sido feio o modo como Costa chutou despudoradamente Seguro para canto há mais de uma década); ninguém pode afiançar quão saboroso será o “melão” que agora vai ser aberto pela prática de Seguro em Belém, mas espero muito ele possa não ser complacente com a “paz podre” em que mergulhamos nos tempos de Costa e prosseguimos com a sua presente continuidade através do manifesto antirreformismo de Montenegro – alguém tem de chamar o País à razão!

VAMOS AO TRABALHO QUE SE FAZ TARDE

 


(Os portugueses demonstraram mais uma vez que não votam com os pés e, num assomo de empenho e coragem democráticos, votaram em condições adversas, tirando partido da sua vontade e de alguma trégua climática que o domingo nos proporcionou. Face aos surpreendentes resultados da primeira volta, sim foi nesse plano que aconteceram as grandes e ambivalentes surpresas eleitorais, com perdedores e ganhadores inesperados, poder-se-iam alimentar algumas dúvidas se António José Seguro conseguiria atrair todo o voto útil dos candidatos anti-Ventura que se perfilavam no horizonte das decisões deste domingo. As posições dúbias de Montenegro e institucionais do PSD mais adensaram essas dúvidas (não me refiro a idênticas posições de Melo e Núncio no CDS, pois não gosto de zombies moribundos). Embora Seguro não tenha capitalizado a 100% o pronunciamento anti-Ventura, a verdade é que num contexto trágico de intempéries que poderiam ter reforçado o ressentimento que alimenta Ventura e o Chega, a votação em Seguro excedeu as minhas estimativas. Desta vez, estou de acordo com Clara Ferreira Alves que manifestou ontem na SIC com clareza a ideia de que se tratava de uma vitória da decência. Sim, em tempos em que a obscenidade e a alarvidade políticas dominam as reações mais primárias, a personalidade de Seguro estava no sítio certo e à hora certa para capitalizar o sentimento de colocar em Belém alguém em quem se possa confiar e que não se serve da política para cultivar outros interesses. E, por mais que os media tenham explorado o sentido redondo de algumas das posições de Seguro, a verdade é que o seu discurso de vitória nas Caldas da Rainha, e saúdo a feliz ideia de sair dos hotéis da capital ou do Porto para celebrar as vitórias, é um discurso de um homem de Estado, já para além do estatuto de candidato. Mas os resultados de ontem merecem algumas reflexões adicionais.)

Os 33% de Ventura mostram que o personagem está ainda numa onda crescente de aspirar a voos mais largos e, como o antecipei, Montenegro seria o principal penalizado por uma votação de ressentimento que, embora não atinja o valor da AD mas últimas legislativas, lhe dá alvíssaras para caminhar na desejada liderança da direita e reforçar perspetivas de governação. Seguro levou o seu discurso de Estado ao ponto de considerar que os 33% de votantes de Ventura são para ser considerados com respeito, já que são votos democráticos expressos em eleições livres. O problema é que o comportamento dos que conseguiram essa percentagem de voto democrático está muito longe na prática de respeitar as regras mais básicas da democracia, colocando por isso problemas de diversa natureza à função a exercer pelo novo Presidente da República

A figura da exigência que Seguro destacou como a marca principal da sua Presidência vai exigir especiais finura e pertinência políticas, sobretudo no quadro em que a votação de Ventura vai por ele ser utilizada para forçar Montenegro a derivas de aproximação às posições do Chega. A preocupação daí resultante é perfeitamente justificada quando no seio da governação encontramos gente como Leitão Amaro ou Maria do Rosário Ramalho sempre dispostas a transformarem-se em cópias vulgares da direita mais tramontana.

Vamos assim entrar num rodopio de interações entre Parlamento, Governo e Presidência com Ventura no epicentro da agitação. Por muito que o PS não o desejasse, é neste contexto algo sinistro que terá de cumprir o seu caminho das pedras, até conseguir forjar uma alternativa de governo.

Sempre acreditei que as competências políticas têm, como não pode deixar de ser, uma natureza inata ou já adquirida no passado. Mas acredito cada vez mais que, tal como noutras profissões, mas aqui neste caso mais do que reforçadas, as competências políticas se constroem na função e exercendo a prática política. Espero não me enganar a propósito de António José Seguro, estimo mesmo que ele nos possa surpreender, pois parte para a função sem “rabos de palha” que o possam comprometer.

E o contexto em que vai iniciar a Presidência talvez seja o ideal para afirmar esse propósito de exigência, a marca de água que pretende imprimir ao seu mandato. Daí o meu título “Vamos ao trabalho que se faz tarde”. O esforço de reconstrução dos territórios mais atingidos, com relevo para a martirizada região Centro, é a melhor ilustração desse desafio, que não deve afastar a necessidade da preparação para novas formas de severidade climática que virão por aí. E, já agora, Seguro poderá ter no ex-autarca do Fundão Paulo Fernandes, indicado para liderar a estrutura de missão de reconstrução na região Centro, um excelente parceiro.

Com a noite eleitoral de ontem uma estranha sensação de alívio envolveu-me, sem ignorar os desafios que virão por aí. E, também simbolicamente, lá para as bandas da Luz, os 17 anos do predestinado para o golo Anísio Cabral conseguiram de novo em poucos segundos após a sua entrada o alívio do golo redentor, voando de novo entre os centrais.

Alívio total para um sono bem merecido.

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

DESEJA-SE UM PRESIDENTE SEGURO!

(António Antunes, “Cartoon do António”, https://expresso.pt

Hoje a reflexão transforma-se em ação, através de uma simples cruzinha no boletim de voto – eis acima, pelo traço de António, o que deve fazer se tenciona dar o seu apoio a André Ventura; e eis abaixo, pelo mesmo traço, o vaticínio implícito que há uns meses poucos admitiam como realista e que mais logo iremos ver confirmado pelos portugueses com a ajuda das tréguas com que o S. Pedro nos brindou: António José Seguro é o novo Presidente da República eleito.

(António Antunes, “Cartoon do António”, https://expresso.pt

E é ainda o mesmo e notável artista que nos traz a representação do grande derrotado destas eleições, o pequeno Marques Mendes que não percebeu as limitações – talvez até menos físicas do que de carreira profissional, o que quer que tal queira dizer no seu caso concreto – com que se defrontava para poder concretizar a sua imensa e tão meticulosamente trabalhada ambição presidencial. Um derrotado que bem poderá partilhar o seu revés e o seu desânimo com o gorado estratega político que tão fortuitamente se nos revelou após os tiros no pé de António Costa, primeiro, e Pedro Nuno Santos, depois – um primeiro-ministro sempre propenso ao autoelogio e tão bem-falante quanto ridiculamente gongórico (aquela sua declaração de pesar em relação às pessoas que morreram no contexto do temporal é lapidar: “o nosso sentimento e as nossas condolências para com as famílias daqueles que não evitaram a trágica consequência de perderem a vida”), novamente caricaturado num “Cartoon do António” em que é mostrado com Ventura como sua estranha sombra numa possível mas indesejável premonição dos meses que estão para vir.


(António Antunes, “Cartoon do António”, https://expresso.pt)

(António Antunes, “Cartoon do António”, https://expresso.pt)