
Recorrendo a uma recente análise interativa publicada pelo “Financial Times” a partir de dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) – “Five ways demographics are transforming the world economy” –, apresento aqui hoje algumas evidências nem sempre óbvias sobre o peso da população mais idosa (idade superior a 65 anos) que permanece em atividade. Da figura acima resulta que, neste primeiro quarto do Século XXI, tal peso é ligeiramente crescente no mundo (em torno de pouco mais de 20%) mas que mostra claramente um maior dinamismo nas economias mais desenvolvidas (G7), que passam de um valor médio inferior a 11% para cerca de 17% com todos os países em acréscimo (people are working longer into their lives). Por outro lado, o Japão surge como um outlier nesta amostra, com um tal peso já bem acima dos 25%, enquanto os países europeus referenciados se mostram bem abaixo dos níveis atingidos pelos três não europeus (de notar, ainda, a evolução distinta revelada por França e Itália, em fraco crescimento, face a Alemanha e Reino Unido, em crescimento mais acentuado) – uma constatação que encontrará decerto uma relação com o caráter distintivo do chamado “modelo social europeu”.
Veja-se agora, por contraste, a figura seguinte em que são apresentados alguns dos países mais dinâmicos do chamado “Sul Global”. Duas notas principais merecem ser destacadas: metade dos 8 países considerados revela um indicador superior ao mundial, com dois casos de valor muito acima (Indonésia, que se aproxima dos 50%, e Coreia do Sul); metade dos 8 países considerados revela uma tendência decrescente (mais acentuada, embora relativamente moderada, na Índia e China). As escalas diversas não facilitam uma comparação imediata mas será ainda de salientar que a maioria dos países está próxima, acima ou muito acima dos valores médios mundiais, apenas a África do Sul e a Rússia se situando a níveis visivelmente inferiores a 10%.

Passemos agora a observar a nossa situação ou situações mais próximas dela, para o que selecionei alguns dos ex-PIIGS e outros parceiros europeus relativamente mais comparáveis (figura abaixo). A primeira resultante que salta à vista corresponde a uma forte queda daquele peso no caso português (de 18% a 9%), na contracorrente do que se verifica em praticamente todos os outros casos (com a Irlanda a destacar-se significativamente). Ainda assim, a contrapartida surge no facto de Portugal ainda ficar ordenado, em 2026, no terceiro lugar de entre os oito países da amostra, bem acima, nomeadamente, de Itália, Grécia e Espanha.
Evidência semelhante sobressai da figura imediatamente abaixo da anteriormente referida, agora selecionando alguns dos países da Europa Central e Oriental mais habitualmente comparados com o nosso. A grande diferença está no explosivo comportamento da Roménia (que ultrapassa largamente o de Portugal na dimensão da sua queda), ao passo que todos os restantes 6 manifestam incrementos moderados que os não levam ainda a estarem acima do nível em que se encontra Portugal (com exceção da Estónia, que foge a esta regra geral).
Por fim, uma comparação portuguesa com países europeus de dimensão populacional próxima, juntando-lhe ainda os dois bálticos sobrantes. Uma vez mais, Portugal escapa à regra ao ficar claro que a sua queda contrasta com a evolução ocorrida em todos os restantes, neste quadro surgindo com um posicionamento final que o coloca a meio da tabela formada pelos 8 países em apreço.

Haverá certamente mais “moral” a retirar de toda a história acima descrita, para além daquela – a de as pessoas estarem a tender trabalhar mais tempo ao longo das suas vidas – que determinou os autores do artigo referenciado. Sobretudo no que toca a Portugal, será incontornável registar quanto dissonantes se mostram os dados que nos dizem respeito – ou seja, e excetuando a ainda mais excecional situação revelada pela Roménia, Portugal evolui em notório desacerto em relação àquela tendência fundamental e generalizada, importando que a tal me proponha vir a dedicar alguns esforços no sentido do respetivo esclarecimento e explicação em termos cabais e concludentes se puder ser o caso.