quinta-feira, 14 de maio de 2026

A SORTE DE MOURINHO, O AZAR DE RUI E A AJUDA DE PÉREZ

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt

Não há “trumpices” de qualquer espécie nem ataques russos a Kiev ou israelitas ao Líbano, nem sequer qualquer incidência da lei laboral para consumo interno, que nos desviem do tema do momento que obsessivamente se debate em Portugal: a continuação ou não de José Mourinho como treinador do Benfica, ademais após o empate em casa com o Braga que poderá ter afastado o clube da Champions pela primeira vez em dezoito anos. As argumentações que vou ouvindo – necessariamente a espaços – oscilam entre a indignação contra a paralisia de Rui Costa e seus influencers, o fracasso e as inconsistências de Mourinho, a atratividade imbatível do Real Madrid ou a genialidade negocial de Jorge Mendes, com especial destaque para as culpas de um presidente indeciso e totalmente não carismático.

 

A questão não merece, objetivamente, mais do que alguns minutos de análise e resume-se assim: (i) Mourinho e o Benfica assinaram um contrato em que qualquer das partes podia a ele renunciar mediante indemnização pecuniária, sendo que esta cláusula foi introduzida para que o treinador não ficasse amarrado a um eventual presidente diferente de Rui Costa que pudesse resultar das eleições no clube; (ii) Rui Costa venceu as eleições mas nem ele nem Mourinho trataram de eliminar os efeitos da dita cláusula, sendo possíveis muitos argumentos motivacionais (incluindo a inércia, a chico-espertice e o mau diagnóstico) de parte a parte para que tal assim tenha sido; (iii) em início de março, Mourinho propôs-se publicamente para prolongar o contrato com o Benfica sem condições de qualquer espécie; (iv) Rui Costa ia dizendo que o treinador já tinha contrato por mais um ano; (v) a dada altura, vieram ao de cima os graves incidentes em curso no Real Madrid e a sua perda de qualquer hipótese de conquista de um título nessa época, o que conduziu a especulações (mais ou menos confirmáveis) quanto à presença de Mourinho na short list de treinadores do colosso espanhol na época que aí vem; (vi) o atual treinador do Benfica oscilava – qual barata tonta! – entre o “milagre” como única forma de conduzir o clube a um lugar de Liga dos Campeões, os desvios arbitrais em favor dos adversários (especialmente do Sporting) e o aproveitamento do ato milagroso que levava o Benfica a poder chegar a segundo em caso de vitória em casa contra o Braga, ao mesmo tempo que adiava tomadas de posição sobre o seu futuro profissional com o pretexto de uma concentração total no desempenho da equipa que dirige até final do campeonato. 

(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Neste quadro, o que parece cada vez mais claro é que a aposta de Rui Costa num Mourinho sem soluções alternativas interessantes e claras terá claudicado perante as contingências inesperadas da situação observada em Madrid e que a debilidade cognitiva que Florentino Pérez vai revelando ao mesmo tempo que se agarra à sua cadeira presidencial e a uma figura que lhe dará garantias de fidelidade pessoal e pulso forte ao comando do balneário madrileno. E se assim for, o português sairá por cima perante a hesitante (ou descrente?) administração do Benfica presidida por Rui Costa, embora correndo o risco de uma vitória de curto prazo que poderá acontecer com reversões a médio e longo prazo por força de uma não descartável derrota de Florentino nas eleições que decidiu antecipar. Confusos? Não estejam. Mourinho é uma carta gasta no plano desportivo de topo e dificilmente vingará no Real, pese embora o facto de poder ser mais realista que obtenha algum sucesso com aqueles milhões ao dispor do que consiga alguma inversão da impotência que ressaltou nesta sua passagem pelo Benfica. Aos “encarnados”, por seu lado, não faltarão ofertas de técnicos de todas as formas e feitios – será curioso observar se prevalecerá algum grau de “sede ao pote” no modo como Rúben ou Marco reagirão a eventuais abordagens ou se a dominante será o “coelho da cartola” com que a administração da SAD benfiquista procurará responder à “mó de baixo” em que se encontra... – nem faltarão contratações milionárias ou caras (como Sudakov, Barrenechea, Rafa, Bruma, Manu Silva ou Sidny Cabral) para animar a malta e pôr o País a sorrir de esperança no Verão que se aproxima.

A “TRAGÉDIA” DOS PREÇOS RELATIVOS DA SAÚDE

 

                                                                            (Financial Times)

(A relação entre o progresso tecnológico e o comportamento dos preços relativos dos bens e serviços que adensam as preocupações dos cidadãos quanto à inflação é uma matéria que diz mais respeito à composição estrutural dos aspetos de longo prazo da evolução dos preços do que às suas oscilações conjunturais. Se nos projetarmos na economia americana, questão fundamental para as eleições intercalares que estão ai á porta, observamos por exemplo que nos meses mais recentes de março e abril, a taxa anualizada da inflação central (sem alimentação e energia) rondava já os 4,8%, com o índice global de preços ao consumo a rondar já os 7,2%. Obviamente que esta aceleração inflacionária da economia americana tem origem interna na inconsistência da política económica da administração Trump e a nível externo nas perturbações agudizadas pela guerra com o Irão e bloqueio do estreito de Ormuz. É, por isso, uma dimensão conjuntural clara que parece não validar a heterodoxia manhosa de Trump em termos económicos. Mas isto não significa que não seja relevante estar atento ao comportamento de mais longo prazo dos preços relativos, o qual, diz-nos a teoria económica, resulta da relação complexa progresso tecnológico-produtividade-condições de mercado. É neste sentido interessante analisar o gráfico elaborado pelo Financial Times, reportado também à economia americana, que nos documenta desde 1970 a evolução dos preços de algumas categorias de produtos, que não é mais do que uma outra forma de documentar a chamada evolução dos preços relativos. O jornalista do FT chama a atenção sobretudo para a comparação entre a evolução do preço do vestuário e dos cuidados de saúde, que não pode ser mais contrastante do que o observado, tal como resulta de uma leitura rápida do gráfico. É sobre esta matéria que gostaria de compor a crónica de hoje.)

A primeira e talvez decisiva explicação para o diferente padrão evolutivo que o gráfico revela consiste em invocar a velha e tradicional divisão entre bens transacionáveis no mercado internacional (o vestuário) e bens não transacionáveis (serviços), neste caso representados pelos cuidados de saúde. A teoria ensina-nos que, relativamente aos transacionáveis, a evolução do progresso tecnológico e da produtividade que lhe anda associada tende a rebaixar esse preço relativo. Como é óbvio, para o vestuário ao qual possamos associar algum poder de mercado dos seus produtores (caso das grandes marcas) esse rebaixamento pode não acontecer pois o poder de mercado dos produtores pode determinar taxas de mark-up (margens) elevadas que contrariem a tendência para descida do preço relativo respetivo. No caso da saúde, fundamentalmente um serviço impera a lei de que o preço relativo dos serviços aumenta com o nível de desenvolvimento económico.

No entanto, se olharmos com atenção para o gráfico, observamos que a habitação, também ela um não transacionável, não aumenta desde 1970 o seu preço de forma tão significativa como o registado nos cuidados de saúde. Podemos aqui invocar questões de baixa eficiência nos serviços para explicar o gap desfavorável à saúde e os próprios desafios decorrentes da complexificação das patologias implicada pelo envelhecimento da população. Arriscaria, no entanto, uma explicação complementar. De uma forma indireta, os custos dos cuidados de saúde são também influenciados pelos custos dos equipamentos de saúde cada vez mais sofisticados e pelo preço dos medicamentos que vão sendo lançados em mercados, na sequência de investigação científica, para responder à complexidade crescente das patologias e morbilidades. Ora, no que respeita, à inovação em equipamentos médicos, a evidência empírica mostra que o progresso tecnológico não se traduz pelo menos nos períodos iniciais de lançamento dos equipamentos em descida do preço relativo, antes pelo contrário, em subida do mesmo. A explicação para isso pode ser encontrada nos gigantescos custos de investimento em I&D que suporta o lançamento dos novos equipamentos e dos medicamentos mais revolucionários. A reintegração desses custos opera em períodos muito longos, pelo que a evolução dos preços relativos dos cuidados de saúde não pode ficar à margem do elevado montante de custos fixos suscitados por uma inovação, sendo por isso agravados.

Isto não significa que o progresso técnico em saúde não traga, em casos mais específicos, uma influência magnânima em matéria de preços. Por exemplo, a produção em massa de vacinas e a elevadíssima comparticipação pública no financiamento da sua produção permitiu a sua difusão em massa.

Mas, mais frequentemente, o progresso tecnológico em saúde traz consigo a subida dos preços relativos dessas categorias de bens. O que pode ser considerado uma “tragédia” para os orçamentos públicos e para o preço efetivo com que os cuidados de saúde podem ser acedidos por quem deles mais necessita.

 

 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

OS QUATRO INDICADORES DE KRUGMAN

Com a devida vénia, venho hoje aqui reproduzir os sugestivos gráficos com que Paul Krugman ilustra how miserable we are, reportando-se ao povo americano e às evidências da sua má situação comparada em áreas de forte impacto social – porque, como escreve o economista em subtítulo de uma sua recente crónica do “Substack” (“What happens when americans realize how miserable we are?”), life is about more than GDP.

 

São quatro os ditos gráficos:

(i) a esperança média de vida, a crescer mas de modo claramente desproporcionado em relação a outros países desenvolvidos (no caso, a França);

(ii) a mortalidade infantil, necessariamente baixa em termos absolutos mas com a China a apresentar já um valor mais baixo;

(iii) a mortalidade em acidentes de viação, em quebra lenta por contraste com a situação observada em França e – pasme-se! – em Portugal;

(iv) o número de homicídios, tradutor daquele que é o maior “cancro” da sociedade norte-americana (a facilidade, ímpar no mundo, de disponibilização generalizada de armas) e, portanto, de dimensão incomparável face à dos países europeus mais ricos. 

 

É realmente espantoso consciencializarmos o estado de relativa “selvajaria” que carateriza o “modelo americano” por referência ao nosso tão criticado “modelo social europeu”, e isso muito para além da ostensividade do mercado e suas leis. Direi apenas que nos deveríamos impor a obrigação periódica de olharmos para as realidades que se apresentam como dominantes mas que visivelmente falham (ou, pelo menos, desempenham pior) em matérias essenciais à vida dos cidadãos. 



AYUSO VERSUS SHEINBAUM

 



(A política espanhola é uma fonte inesgotável de inspiração e pretexto para blogar, só não tenho nela insistido para lá dos limites do razoável porque o número de leitores destes escritos desce com algum significado quando esse é o tema. Mas desta vez não resisto, pois, a líder do PP na Comunidade de Madrid é toda uma inspiração para o comentário político. Conhecemos a peça. Empenhada em mostrar ao povo espanhol, pelo menos ao madrileno, agora que no futebol anda pela rua da amargura, que é possível bater com mais força em Pedro Sánchez do que o timorato Feijoo, Isabel Diaz Ayuso tem uma cultura vasta e esmerada de tropelias para incomodar Sánchez, o qual agradece pois é nessas águas que gosta de navegar. Por vezes, é difícil discernir se Ayuso o faz porque Sánchez a tira do juízo, se, pelo contrário, é o horizonte da liderança futura do PP que estará a comandar o seu comportamento. Imagina-se que, nos seus círculos mais íntimos, Ayuso deve achar que Feijoo é um “jiripollas” sem remédio. A verdade é que os analistas políticos mais à direita em Espanha, embora reprovem algumas escorregadelas de Ayuso, têm um certo fascínio pela personagem, que espero sinceramente seja mais influenciado pela sua animosidade política sem fim do que pelo seu “palminho de cara”. A líder da Comunidade de Madrid resolveu desta vez entrar pela diplomacia de confronto adentro, porta que já tinha entreaberto com a sua receção entusiástica ao inenarrável Milei, presidente da Argentina. Pois, agora, inventou uma viagem, presumo que paga pela Comunidade de Madrid, para homenagear no México, sim no México, o conquistador Hernán Cortés, isto depois do rei Filipe VI ter conseguido alguma abertura e aproximação diplomática com a Presidente mexicana Claudia Sheinbaum Pardo.)

As notícias documentaram assim a intrépida visita de Ayuso:

A presidente do governo regional de Madrid, Isabel Díaz Ayuso (Partido Popular, centrodireita), inicia no domingo, 3 de maio, uma viagem institucional de dez dias ao México. A visita ocorre após declarações públicas em que classificou o país como um “narcoestado” e descreveu a Presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, como uma “ditadora de ultraesquerda”.

Já sabíamos que Ayuso se considera a mais irredutível defensora do espanholismo e por isso homenagear in loco Cortés vende bem nesses meios de ultra-defensores desses valores, mas esta visita não é mais do que um exemplo gritante de diplomacia incendiária, poderíamos dizer inspirada pelo espírito de Trump e das suas tropas mais próximas. Isabel a Católica e Hernán Cortés devem ter revirado as suas ossadas nas respetivas tumbas, felizes por esta prova de reconhecimento e terão imaginado louvores sem fim para agradecer a esta política tão impetuosa.

Tal como o pretendia, a visita de Ayuso gerou um enorme rebuliço a nível local, a ponto da Arquidiocese se ter distanciado da iniciativa, demarcando-se da homenagem ao conquistador na catedral que ele próprio construíra. A visita correu mal e a própria Ayuso viu-se forçada a encurtar a missão e regressar a Espanha face à reação agressiva que a sua iniciativa suscitou. Algo que uma agente da diplomacia incendiária deveria ter calculado que pudesse acontecer.

Da Presidente Sheimbaum fica sobretudo esta frase: “Aos que revivem a Conquista como salvação dizemos que estão condenados à derrota”.

Normalmente quando a diplomacia incendiária corre mal, o passo seguinte é a vitimização. Assim solenemente aconteceu. Já em Madrid, Ayuso afirmou ter passado uma semana terrível de acosso e perseguição, culpando a Presidente Sheinbaum e Pedro Sánchez (obviamente) pelo ambiente hostil criado em seu redor. As autoridades oficiais espanholas não receberam nenhum pedido de proteção por parte de Ayuso e da sua equipa, o que adensa a atitude de vitimização para ocultar o inêxito da iniciativa, mesmo junto da direita mexicana e a dúvida sobre o local em que a comitiva de Ayuso terá sido acolhida desde que suspendeu a agenda até regressar a Madrid.

Este imbróglio mostra com clareza e perfeição como o nacionalismo de pacotilha da direita radical se anula nas suas próprias contradições, não hesitando em ir de frente contra a política externa do país e passando por cima dos esforços de aproximação diplomática urdidos por Filipe VI.

Ayuso e a sua corte são decididamente candidatos a integrar a Grande Internacional do desaforo antidemocrático que a administração Trump tem vindo a semear nos países da União Europeia.