quinta-feira, 7 de maio de 2026

O QUE SE ANUNCIA NA ALEMANHA

 


(Faz-nos hoje falta o pensamento do historiador e escritor britânico Tony Judt para, se fosse vivo, nos ajudar a compreender o que vai sendo anunciado pela Alemanha e o que aí se anuncia em termos de posicionamento europeu e mundial. A história do século XX que Judt tão minuciosamente analisou mostra-nos com clareza como os acontecimentos em que a Alemanha esteve envolvida foram cruciais para compreender a dinâmica evolutiva da história. Do seu envolvimento derrotado na 1ª Guerra Mundial, seguindo-se depois a disparatada exigência com que as indemnizações de guerra foram impostas aos alemães, que Keynes premonitoriamente denunciou, até ao período entre as duas guerras, ascensão, apogeu e derrota do nazismo na 2ª Guerra Mundial, fica uma sequência de acontecimentos que paira sobre a cabeça dos líderes alemães, não propriamente como uma ameaça, mas como fonte de suspeições, desconfiança e má consciência. Neste momento do desenvolvimento europeu, já é questionável o estatuto de motor de crescimento que foi atribuído à Alemanha, algumas vezes oculto na referência ao eixo franco-alemão. Não é que o modelo económico alemão esteja totalmente desacreditado, não é isso. O que se passa é que esse modelo enfrenta constrangimentos e fragilidades dos quais a União Europeia tardou a dar conta, pelo que estaremos mais perante um motor que já não funciona com a perfeição que lhe era atribuída. Mas não é no plano económico que gostaria de me concentrar hoje. Pelo que se vai percebendo do que está a ser decidido pela coligação no poder e pela presença mediática das declarações do Chanceler Merz vislumbram-se alterações de peso na política alemã, sobretudo no que respeita à relação entre as opções a tomar no campo da segurança e defesa e o próprio modelo social alemão ou Estado de bem-estar conforme lhe queiramos chamar. Mais do que a superação dos constrangimentos do modelo económico alemão, são estas questões de segurança, defesa e modelo social que interessa discutir, pois a evolução alemã pode representar uma viragem expressiva no modo como essas questões são debatidas na Europa.)

Conforme é compreensível a partir de uma leitura atenta da história, o rearmamento alemão sempre foi encarado internamente com a maior das cautelas. É como se essa orientação suscitasse velhos fantasmas, dos quais os governos alemães do pós- segunda guerra mundial procuraram convictamente afastar-se, no sentido de reganhar a confiança dos restantes parceiros europeus. Entretanto, com a integração da Alemanha de Leste, soviética de origem e orientação, os governos alemães tiveram vasta matéria para gerir internamente. Mas o contexto atual, primeiro com a ameaça concreta russa que apanhou Merkel desprevenida e depois com a posição da administração Trump em relação à Europa, dificilmente poderiam ser entendidos com condescendência. Recordemos que a primeira vez em que os americanos abriram as hostilidades foi num evento, a conferência de Munique, por isso no coração da Alemanha rica, através da inenarrável posição de J.D. Vance que veio denunciar a alegada restrição da liberdade da extrema-direita da AfD poder fazer as tropelias desejadas. Merz veio recentemente relativizar a decisão de Trump retirar cerca de 4.000 militares americanos de território alemão, já que se trataria de destacamentos de implantação provisória, logo predestinados a um regresso às suas bases nos EUA. A retirada destas tropas não é assim o elemento essencial da equação. O fundamental é a manifesta má vontade americana para continuar de parceria com a Europa e isso parece indiscutível quando se apoiam forças políticas interessadas em minar por dentro a democracia alemã e europeia em geral.

Com este contexto, toda a má consciência existente sobre o rearmamento alemão teria de se esbater e o pragmatismo alemão orientar-se para investimentos disruptivos relativamente ao passado em matéria de segurança e defesa. Assim parece estar a acontecer e os alemães, embora na retórica política continuem a clamar ela necessidade de manter a aliança atlântica com os EUA e a preservação da NATO, estão a programar investimento como se essa aliança se transformasse em relíquia. Até aí tudo seria expectável, o mesmo podendo ser dito quanto à União Europeia em geral. Esperar por uma mudança política nos EUA pode representar uma ingenuidade perigosa.

Mas a questão é bem mais vasta e complexa do que este ganho de realismo, alemão e mais tarde ou mais cedo, europeu em geral. O mais importante disto tudo é que o governo alemão de Merz parece decidido em colocar na equação a própria transformação do modelo social alemão, estando disposto a “economizar” no estado de bem-estar para acomodar os investimentos em defesa e continuar a criar condições favoráveis ao crescimento económico. Estamos assim reconduzidos a uma velha questão que os manuais de introdução à economia de Paul Samuelson popularizaram – o trade-off entre canhões (defesa) e manteiga (estado de bem-estar e social). Há gente por aí mais ousada que já fala de” canhões versus pensões”, onde é fácil perceber o oportunismo dos que nunca desistiram de querer desmantelar os sistemas de pensões do estado social, privatizando-os à luz de muito discutíveis argumentos de insustentabilidade do sistema.

Vai ser fundamental acompanhar que tipo de réplicas esta transformação de modelo irá gerar em países como a França em que a rigidez desse Estado social é muito mais acentuada. Veremos também como o modelo social escandinavo reage também a esta pressão. É neste contexto que teremos de entender o combustível incendiário colocado neste debate quando Ventura e o Chega se propõem defender a descida da idade da reforma ou a supressão da esperança de vida à nascença como critério de regulação. O objetivo é claro – aumentar a confusão e gerar o caos, puro e simples.

À medida que o tempo se consolida mais se percebe a ameaça estrutural que paira sobre a Europa e o seu modelo social. Não é difícil antecipar que todos estes acontecimentos exógenos convergem no sentido de abalar esse edifício, a ponto de não ser imaginação excessiva falar de convergência orientada de acontecimentos exógenos. E como a história do sub (desenvolvimento) nos ensina este tipo de ameaças exógenas encontra sempre internamente os agentes acolhedores, que neste caso são os interessados na privatização alargada dos sistemas de proteção social.

Será que a esquerda democrática compreenderá finalmente onde está a verdadeira ameaça e deixará de contemplar as minudências do seu umbigo?

 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

DO ABOMINÁVEL AO DEPLORÁVEL!

Escabrosa a notícia por estes dias divulgada de evidências de tortura – com adicionais e variados requintes de malvadez! – nas esquadras do Rato e do Bairro Alto em Lisboa, pela mão de agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP), incluindo dois chefes. Uma notícia que se segue a outras, menos mediatizadas, com especial destaque para a “Operação Safra Justa” (tráfico de imigrantes) ou para o bárbaro assassinato de um cidadão ucraniano nas instalações do SEF do Aeroporto Humberto Delgado (situação de ofensa grave e qualificada à integridade física que vários testemunhos declararam como alegadamente recorrente). Algo vai muito mal nas forças de Segurança, seja nos critérios de recrutamento, na formação prestada, na atenção e no exercício da hierarquia ou um pouco em cada uma das hipóteses aventadas. Como reagir a isto senão perguntando com firmeza e revolta: como é possível sabermos que coisas desta selvagem e desumana natureza acontecem em plena Capital no Portugal de 2026?

 

Pois a verdade é que o líder da extrema-direita nacional, André Ventura, veio de imediato aproveitar-se dos factos denunciados para demagogicamente se atirar ao ministro da Administração Interna, acusando-o de “fazer gala destas ações contra a polícia em vez de ser o representante da defesa das forças do Estado e de segurança”, por um lado, de “dar a entender que todo o comportamento da polícia é desviante, que os agentes, homens e mulheres na sua maioria, são criminosos ou tendencialmente criminosos, e tiramos-lhes a autoridade”, por outro, e de “desvalorizar a polícia” e de contribuir “para o aumento do sentimento anti polícia que existe em Portugal”, por fim. Acrescentando ainda que tal atitude de Luís Neves corresponde a, “em vez de valorizar a insegurança que se vive todos os dias nas nossas ruas, nas nossas cidades e nas nossas vilas”, “escolher a narrativa dos polícias mal comportados, contra os polícias que devem ter a autoridade de agir, capacidade de agir e ferramentas legais para agir”. Que vergonha eu tenho de pertencer a um povo que se deixa conduzir por discursos oportunistas que exploram argumentos desculpabilizantes dos factos relatados em nome de sórdidas ambições de poder. 

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

A IRREVERSIBILIDADE DA BELA E SUSTENTADA AVENTURA DO INESC TEC

 


(Chegou-me hoje à caixa do correio eletrónico o Relatório de Atividades de 2025 do INESC TEC e o seu valioso conteúdo é um belo e fundamentado pretexto para uma breve reflexão sobre o que a trajetória desta instituição representa como indicador do que pode ser a evolução da ciência e tecnologia em Portugal. Acompanhei de perto no âmbito da minha vida académica e profissional a génese da criação das instituições de interface Universidade-empresa, fortemente alimentada por gente ligada à tecnologia que regressava ao país com doutoramentos de grande qualidade realizados em instituições americanas e europeias muito prestigiadas. A visão que traziam da ciência e tecnologia que por lá se fazia contrastava obviamente com o estado de letargia das instituições universitárias, com algumas exceções de que seguramente a Faculdade de Engenharia do Porto era um bom exemplo. A dinâmica dessas instituições de interface cedo se revelou uma lufada de ar fresco no sistema científico e tecnológico, com progressão não necessariamente homogénea, mas abanando definitivamente a instituição universitária e a investigação e desafiando a própria Universidade a conviver com essa nova realidade institucional. O que me parece espantoso no INESC TEC, fórmula institucional que resultou ela própria de inovação institucional e de autonomização de um projeto que começou com dimensão nacional, o INESC, é o modo de êxito com que se processou a evolução geracional na instituição. Hoje, quando leio o relatório de 2025 e me fixo nas fotografias que o acompanham já obviamente não reconheço praticamente ninguém da geração que fez a “revolução na ciência e tecnologia” (com exceção do Professor José Manuel Mendonça), embora muitos deles estejam ainda ativos como Professores Eméritos. Mas a maneira como a sucessão aconteceu é seguramente um caso de estudo numa instituição que já ultrapassou os 40 anos de vida e que continua a notabilizar-se com uma trajetória de progressão, que honra o próprio conceito de inovação.)

Os números que o referido relatório projeta na nossa atenção são de facto um espanto, mostrando-nos com evidência suficiente o que é efetivamente uma massa crítica de investigação e translação de conhecimento, em oposição clara aos movimentos de atomização e não consolidação institucional que resultam frequentemente da multiplicação de iniciativas em busca de financiamento quje por vezes se instala neste domínio.

Os números publicados são, de facto, impressionantes. Chegar praticamente a em 2025 aos 40 milhões de euros de financiamento, dos quais a maior fatia (15,5 milhões de euros de programas de cooperação com a indústria, quase 40%), representa um feito, que é em si um farol de orientação para a investigação e transferência de tecnologia. O financiamento via FCT foi apenas de 1,6 milhões de euros, os serviços e consultoria de investigação nacional e internacional de 3,9 milhões de euros e o financiamento europeu (beneficiário destacado do programa HORIZON) 11,6 milhões de euros. A ideia de massa crítica agiganta-se quando percebemos que a massa de recursos humanos é de 1.199, dos quais 272 têm ligações a Faculdades, que 401 dos investigadores em exercício têm doutoramento e que acolhe ainda 125 técnicos de I&D com doutoramento, a que se juntam mais 166 técnicos de I&D.


Com base na AMP, a rede INESC TEC transcende hoje essa localização, como a figura anterior o evidencia.

É importante assinalar que o INESC TEC se afirma cada vez mais como uma instituição de ciência e de tecnologia. As suas áreas científicas com investigação relevante publicada estão bem definidas: inteligência artificial, bioengenharia, comunicações, ciência e engenharia de computadores, fotónica, energia, robótica, engenharia e gestão de sistemas. Mas a dimensão da inovação está bem definida, aliás comprovada pelos resultados alcançados em termos de registo de patentes (56 famílias de patentes ativas): agroalimentar, comunicações, energia, saúde, indústria, mar. Nesta última dimensão, o INESC TEC tem sido uma das raras instituições nacionais consequentes em matéria de investimento na nossa tão proclamada vocação marítima. O recente lançamento do INESCTEC.OCEAN, Centro de Excelência em Investigação e Engenharia Oceânica, assinala bem a coerência desse empenho, capitalizando conhecimento que a instituição tem desenvolvido em áreas que cruzam a economia azul, como a robótica marinha e a energia, por exemplo.

A trajetória traçada pelo INESC TEC nestes 41 anos de atividade mostra com clareza como é possível desenvolver no contexto de uma instituição de referência uma articulação inteligente entre investigação científica, inovação e transferência de conhecimento e tecnologia. O que não significa que essa mesma instituição não seja dinâmica na cooperação no interior do próprio sistema de inovação regional Norte e também no próprio sistema nacional de inovação.

Penso que a Faculdade de Engenharia do Porto tem gerido bem a interação com uma instituição que teve nela a sua origem, o que não significa inexistência de tensões e a própria Universidade do Porto pode capitalizar o facto de ter no seu ecossistema uma instituição com esta pujança.

Instituições como o INESC TEC, mas também como o INEGI e o I3S, por exemplo, são em meu entender o farol para seguir e orientar a evolução do sistema científico e tecnológico nacional. Obviamente que nem todas as instituições existentes conseguirão atingir a excelência e a massa crítica aqui bem evidenciadas. Mas esta parece ser a orientação certa. E a dinâmica de autonomia que estas instituições tenderão a consolidar significará que serão as Universidades a ter de adaptar-se a esta realidade e não o contrário. Por isso, considero que a leitura deste relatório de atividades é uma excelente oportunidade para compreender os rumos futuros do sistema de ciência e tecnologia em Portugal. Oxalá assim suceda e que a nova Agência, que funde a FCT e a ANI, mesmo que criticada, possa compreender que esta é a orientação mais promissora.

 

terça-feira, 5 de maio de 2026

É O QUE TEMOS!

 
(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

Marcelo era beijoqueiro e selfista, mas tinha momentos fora da caixa que surpreendiam pela positiva apesar do seu conservadorismo essencial. Seguro começa a definir-se: previsível, hesitante e politicamente correto (para não dizer pouco corajoso) – na campanha, teve a única ousadia de afirmar que vetaria aquele pacote laboral, o que hoje certamente lamenta pelo transtorno que tal está a dar ao seu pretendido bom entendimento com o primeiro-ministro; enquanto este enredo em torno da lei do trabalho não encontra uma saída airosa para as diversas partes envolvidas, o Presidente decidiu promulgar o decreto que altera a Lei da Nacionalidade que fora aprovado no Parlamento por PSD, CDS-PP, Chega e IL.

 

Para não se ficar pelo ato – profundamente contrário a uma desejável lógica integradora dos cidadãos imigrantes que crescentemente nos procuram e por cá pretendem fazer vida (p.e., os cidadãos estrangeiros passam a precisar de dez anos de residência legal em Portugal para obter a nacionalidade ou enquanto até agora uma criança nascida em Portugal podia ser considerada portuguesa de origem se um dos pais residisse no país há pelo menos um ano, mesmo sem título de residência formal, a partir de agora passa a ser necessário que um dos progenitores resida legalmente em Portugal há pelo menos cinco anos), gente que é ademais a exclusiva base possível em que assentará alguma potencial dinâmica demográfica do País e a resolução de muitas dimensões de empregabilidade determinante na atual fase da nossa sociedade  –, Seguro lá deixou registadas algumas reservas e precauções apaziguadoras da sua má consciência (como a ideia de que “uma lei de valor reforçado com a importância da Lei da Nacionalidade deveria também assentar num maior consenso em torno das suas linhas essenciais distanciando-se de eventuais "marcas ideológicas do momento") e cujo conteúdo restritivo bem o poderia ter conduzido a optar por um outro caminho.

 

Habituemo-nos, pois. É o que temos e será o que teremos por mais uns largos anos. Com o “Chega” a controlar a agenda política e a manietar o nosso tão garboso Montenegro e respetivos apaniguados, o discurso da pequenez e do moralismo ocupará o centro do nosso espaço público tendendo a imperar em nome de uma aparência de estabilidade cujo caráter enganoso só emergirá, eventualmente, perante novos – e indesejáveis mas prováveis – choques exógenos de diversa ordem e alargado espetro.


(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)