segunda-feira, 13 de julho de 2026
O LIVRE NO SEU LABIRINTO
CAOS ORGANIZATIVO, INCOMPETÊNCIA PRIVADA OU QUEDA PARA O ABISMO POLÍTICO?
(Por mais que o ministro Fernando Alexandre se esforce para tirar a pata da poça, vão chegando a nível pessoal e da comunicação social em geral testemunhos de professores com atribuições na revisão de exames que anunciam o pior e que o descalabro organizativo em curso é algo de mais profundo do que um simples atraso na publicação das notas dos exames nacionais. A desorientação e o pânico instalados no sistema de revisão atormentam os professores e, pior do que isso, existe uma total ausência de interlocução para os professores reportarem anomalias que as solicitações por eles recebidas transportam. Ninguém consegue alimentar um pingo de confiança acerca do que pode resultar de tudo isto. Confrontando os ecos individuais que me vão chegando de diferentes quadrantes e o estado de avaliação de alarme que vai grassando pelos meios de comunicação, pressente-se que os primeiros antecipam algo de bem pior do que os segundos prefiguram, mas pode ser apenas uma imagem impressiva. Percebe-se também que o ministro da Reforma Administrativa Gonçalo Matias é o grande aliado de Fernando Alexandre na decisão de não recuar, dada a importância do processo de digitalização em todo o processo por ele conduzido. Imagino que por banda dos ministros mais políticos, a sensação será de pânico instalado, sobrevalorizando os custos sociais e políticos de todo este processo.)
A imagem do armazém algures em Lisboa em que as provas estão depositadas que as televisões reproduzem com insistência, com o Ministro e Secretário de Estado a deambularem por ali, esperando o milagre da organização, é penosa e vai acompanhar por certo a carreira política que o ministro queira futuramente realizar, no pressuposto de que não pretenda regressar às lides académicas. E mais desagradável do que tudo isto é a perceção de que os professores são piões indefesos nesta grande trapalhada, arruinando o processo necessário de reconquista do seu valor social e do seu reconhecimento por parte das famílias e alunos.
O caos é tão generalizado que é praticamente impossível garantir se se trata de deficiências organizativas de um ministério que nos últimos anos se centralizou ainda mais, ou se é pura incompetência privada à solta, mais propriamente deficiente avaliação da situação a resolver ou se a combinação é ainda mais explosiva com a teimosia do Ministro a imperar em todo o processo, forçando uma situação que não tinha devidamente controlada.
O diabo que escolha. Mas o que é flagrante é que o estado de transição em que o sistema educativo nacional se encontra, a exigir um paradigma de maior eficiência e qualidade depois do salto quantitativo que conseguiu dar, não é compatível com perturbações deste calibre. O ministro Gonçalo Matias pode invocar obviamente o interesse de não voltar para trás na sua senda da digitalização. Mas tem de compreender que a transição com êxito pela qual o sistema educativo está a passar está muito para lá do sucesso da digitalização, é bem mais complexa do que isso e não pode ser perturbada por passos demasiado ambiciosos que podem comprometer a eficiência e a melhoria de qualidade do sistema, é disso que o país necessita e não de agendas individuais.
Claro que esta questão é do domínio da coordenação política e isso pertence ao 1º Ministro e não a porta-vozes por mais ambiciosos que sejam. Creio que não ouvimos ainda uma palavra que seja de Montenegro, o que é um bom indicador do seu estilo de (não) governação.
sábado, 11 de julho de 2026
RUTTE COMO INFANTINO, TWO OF A KIND
quinta-feira, 9 de julho de 2026
A UNIÃO EUROPEIA NÃO COMPREENDE OS NÚMEROS DO SEU PRÓPRIO COMÉRCIO EXTERNO?
(O sempre perspicaz analista do Financial Times, Martin Sandbu, assina na newsletter Free Lunch do jornal uma curiosa reflexão sobre as ondas de pânico que, com epicentro na Alemanha e na Volkswagen, estão precipitadamente a formar-se na União em torno do relacionamento comercial com a China. O problema existe e os cerca de 100.000 trabalhadores da Volkswagen atingidos pelo despedimento potencial melhor do que ninguém darão razão a essa onda de preocupação. A análise de Sandbu tem o mérito de com evidência simples mostrar que a contaminação gerada pela situação daquela empresa alemã está longe de ter justificação plena, olhando para os números globais do comércio externo europeu. O problema existe, mas seguramente que a má compreensão dos dados do comércio externo que está na base das tais ondas de pânico não será seguramente boa conselheira para traçar os rumos de política mais consentâneos com a proatividade de mitigar a sua incidência.)
Os problemas que a Volkswagen enfrenta em termos de supressão de postos de trabalho foram associados à ameaça chinesa na sequência do aumento das importações provenientes da China registado nos tempos mais recentes, com relevo para a vertente dos veículos automóveis. Como a história económica nos ensina, ondas de pânico conduzem regra geral à generalização do protecionismo mais defensivo, tanto mais fácil quanto Trump vulgarizou essa prática com a volatilidade do seu humor em matéria de política comercial externa.
O que a análise fria de Sandbu nos mostra é que essa onda de crescimento das importações chinesas é registada num contexto em que as importações europeias globais tiveram um crescimento praticamente residual. Assim sendo, o que efetivamente aconteceu é que as importações chinesas se limitaram a substituir outras importações, provenientes seja dos EUA, do Reino Unido, Japão ou de outros países. Ou seja, não há uma invasão global de importações, o que acontece é que as importações chinesas (cerca de um milhão de veículos em 2025) traduziram uma perda de competitividade das importações de outros países no mercado europeu. Em termos geopolíticos, isso pode ser um problema, acaso as autoridades europeias entendam desejável que o seu mercado interno não seja dominado pelo poderio industrial e elétrico chinês. Mas do ponto de vista da ameaça à indústria europeia não tem grande significado, por muito impressivos que sejam os números do aumento de importações provenientes da China.
Mas ainda mais surpreendente é a evidência de que a União Europeia continua a ser uma exportadora líquida de veículos elétricos, por mais impressionados que estejamos com a presença física do vasto manancial de marcas de veículos elétricos chineses que se passeiam pelas nossas estradas. Certamente que o potencial competitivo, ardiloso como o sabemos, da produção chinesa de veículos elétricos é em si revelador, sobretudo do ponto de vista, esse seguramente mais ameaçador, de que os chineses dominam praticamente toda a fileira elétrica. Acresce que a faixa de preços a que a União exporta os seus veículos é claramente superior à faixa de preços a que as importações chinesas se materializam.
Face à realidade dos números, não parece saudável que os problemas registados no “motor alemão” (que já não é o que era, assinale-se) façam o pânico europeu galopar desorientadamente. O pânico, sobretudo o pânico injustificado e com deficiente compreensão dos números de suporte, nunca foi bom conselheiro de uma política industrial, mais propriamente de ressurgimento industrial. E não são números complexos. Antes pelo contrário, são bem simples e esclarecedores.







