Foi com alguma perplexidade que encarei a crónica que Clara Ferreira Alves dirigiu a Mário Centeno no “Expresso” passado (“A ignorância política de Centeno”). Achei-a desproporcionada, quiçá injusta, pelo excesso e pela violência das invetivas que ali eram produzidas – ilustro: “Mário Centeno não tem um único pensamento político naquela cabeça que faz contas”; “Devemos-lhe uma das soluções mais desastrosas da austeridade que o PS praticou, a austeridade do investimento”; “Centeno diz que o país é de esquerda. Para ele, é uma questão cultural e social. Não é. (...) A esquerda para Centeno é uma citação de Mário Viegas em que diz que na corrida entre o cavalo e o burro devemos escolher o burro. É absurdo.”
Soube, entretanto, do lançamento por Centeno de um livro (“Contas Certas – Crónica de uma mudança política em Portugal”), aliás a acontecer em segunda edição no Porto no próximo dia 14 (passe a publicidade). Não o li ainda, mas já percorri o índice e pude constatar a densidade quantitativa e qualitativa que se lhe pretendeu atribuir. E tenho vindo a acompanhar com interesse algumas análises e comentários, mais ou menos especulativos, sobre o que moveria a vida profissional/política presente deste ex-ministro das Finanças e ex-governador do Banco de Portugal (até o meu parceiro de blogue foi parte deste interrogativo conjunto de intervenientes públicos, mas também devem ser destacados os escritos de Ana Sá Lopes no “Público”).
Este regresso à atividade no espaço público por parte de Centeno pareceu-me totalmente legítima e lógica, independentemente da apreciação que se queira fazer dos seus autoelogios salvíficos, da confusão para que tende no confronto entre factos numericamente objetiváveis e realidades subjetivamente vividas (redundando, de algum modo, na já estafada questão do grau de satisfação de Portugal versus dos portugueses), do lado duvidoso ou polémico do criticismo que dele vai emergindo em relação ao desempenho do governo ou ao modo de estar do PS, de algumas simplificações ou revelações que talvez não fiquem a matar na pretendida respeitabilidade da sua fotografia.
Tudo isto explica que tenha vindo a seguir com interesse genuíno as suas crónicas semanais no “Público” e o seu espaço semanal (“O Trigo do Joio”) na “CNN Portugal”, além de diversas intervenções públicas que foram sendo divulgadas pela comunicação social ou pelos sites das entidades organizadoras, sempre considerando estar em face de um ator em situação privilegiada pela competência, pela experiência e pela possível e louvável ambição de se posicionar no sentido de trazer ensinamentos e novos contributos ao País depois de uma aposentação prematura (e com contornos que poderão não ter sido cabalmente compreendidos pela opinião pública nacional, entre invejas e argumentações populistas) que lhe foi proposta no Banco de Portugal (BdP) sob a égide do “grande pai branco” governativo. Foi ainda assim que coloquei as culpas nestes cartórios político-partidários pelo não cumprimento por parte de Centeno do que declarou em audiência parlamentar aquando da saída do BdP: “é evidente que vou ficar [no banco, como consultor]”, acrescentando “tenho uma carreira no banco [de 35 anos, sublinhou], que tem regras muito claras sobre o que trabalhadores que ocupam e fazem depois de saírem do conselho de administração”.
Afinal, e subitamente, veio a lume que Centeno iria ocupar um cargo presidencial (admito que pouco executivo) na área de Seguros e Pensões de um grupo financeiro espanhol. O espanto da maioria dos analistas é também o meu. Não, mais uma vez, porque Centeno não possa escolher o que quer fazer. Mas sim porque as responsabilidades que adquiriu perante os seus concidadãos, a sua envolvência política (mesmo que em sentido lato) e as indicações que foi dando exigiriam, a meu ver, uma gestão mais cuidada deste tipo de opção. E como parece óbvio que nenhuma questão de ordem financeira ou de realização profissional lhe subjazam, fica o resultado nu e cru de um contributo significativo e desnecessário para a alimentação do discurso populista (o ódio de alguns encarregados da AD’s, como o demagogo Hugo Soares ou o inefável Paulo Núncio, é mero detalhe a somar ao ruido) que pulula e cresce no País. Como disse alguém: “Depois queixem-se...”. Mas tal não será o caso de um Mário Centeno que atira sem grande critério a tudo o que mexe e de quem pessoalmente tinha melhor opinião em termos pessoais e políticos do que aquela que agora começo a formar – a atitude e o método divergem na sua essência, mas podemos realmente estar perante a fatalidade de termos dois estranhos e autoinsuflados “D. Sebastiões” a pretenderem, entre alaridos e sussurros (parece que Passos vai confessar-se em breve à D. Avilez), animar mais uns tantos números de “circo” que este desgraçado País bem dispensava...










