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(Seguramente uma boa alma fez-me chegar um convite de
participação numas Xornadas Académicas que a Universidade de Santiago de Compostela
e a Fundação Juana de Vega organizam conjuntamente no início do mês de março de
2026 para comemorar o 250º aniversário de publicação de A Riqueza das Nações de
Adam Smith (1776-2026). As Xornadas são concebidas segundo o tema “Da riqueza
das nações à riqueza das regiões – Adam Smith, integração europeia e
desenvolvimento regional. À minha participação foi atribuído o tema “O Eixo
Atlântico: desenvolvimento, coesão e cidades. Uma visão da construção europeia
do Norte de Portugal”, inserido numa sessão mais geral dedicada ao tema da
cooperação territorial e desenvolvimento económico aplicado. Não sei
sinceramente a quem devo a honra desta participação, reforçada pelo facto de
fazer companhia a palestrantes bem mais preparados do que eu, a ex-Comissária Professora
Elisa Ferreira e o Professor Francisco Carballo-Cruz da Universidade do Minho
que conheço bem das atividades da Associação Portuguesa de Desenvolvimento Regional
e co-editor da obra “30 Anos de Ciência Regional em Perspetiva”, 2020 (Almedina/APDR)
na qual tenho um artigo. O post de hoje desenvolve
algumas reflexões em curso no âmbito da minha preparação da intervenção para o
dia 9 de março em Santiago de Compostela, reflexões num misto de afetividade e
de interesse intelectual. De afetividade, porque as questões da Euro-Região
sempre cativaram a minha atenção de andarilho do planeamento, graças às quais
conheci Grandes Amigos galegos, alguns dos quais recordo já com saudade. De
interesse intelectual, porque a obra de Adam Smith é dos sistemas de pensamento
mais complexos e enigmáticos que conheço, vulgarizada a níveis exasperantes por
invocações descontextualizadas de conceitos como o de mão invisível.)
Reflexões introdutórias
Do convite à inspiração de Adam Smith
O convite que me foi dirigido, que muito agradeço e me honra, representa um
desafio particularmente estimulante: como desenvolver um tema que me é
profissionalmente muito caro – a génese da Euro-região Galiza-Norte de Portugal
e o papel do Eixo Atlântico e da sua lógica de cooperação na sua consolidação –
não deixando de assinalar o regresso à visão inspiradora de Adam Smith e dos
seus contributos seculares?
A ambivalência deste desafio – a dinâmica do Eixo Atlântico como matéria de
cooperação territorial e o tributo à obra de Adam Smith – dificilmente pode ser
plenamente resolvida no quadro de uma simples comunicação ou artigo. Esse
parece-me ser o alcance de umas Xornadas Académicas, cujo tema global é “Da
Riqueza das Nações à riqueza das Regiões”, e cujo subtítulo ajuda a concretizar
o seu alcance, “Adam Smith, integração europeia e desenvolvimento regional”.
Para reforço desta ideia, a minha ponencia é colocada numa secção das Xornadas
que tem por título “Cooperação Territorial e desenvolvimento económico
aplicado”. Interpreto esta opção como um convite a privilegiar o tema do Eixo
Atlântico, sem ignorar o tributo a Adam Smith. É para aí que aponta o meu modelo
de comunicação, sobretudo porque não queria perder a oportunidade de relembrar
a riqueza de interpretações da obra de Smith, como o revelam as duas últimas
décadas em que se multiplicaram quer as biografias, quer as interpretações de
uma obra multifacetada que se recusa a poder ser considerada como fechada nas
múltiplas sugestões e pistas de reflexão que implica.
Esta necessidade de manter como pano de fundo a obra de Adam Smith introduz
questões de grande complexidade.
Em primeiro lugar, investigação recente (Schliesser, 2027-2020) sustenta
que a Teoria dos Sentimentos Morais (TSM) e a Riqueza das Nações (RN) integram
um esforço de mais largo fôlego, mas inacabado, que Schliesser designa de
“filosofia antrópica”, na medida em que a obra de Smith está essencialmente
focada no comportamento humano. A TSM e a RN fazem assim parte de uma ambição
mais vasta, inacabada, de um sistema de filosofia antrópica, que abrange o
conjunto de requisitos políticos, económicos, legais, morais e psicológicos
considerados necessários para assegurar a harmonia da sociedade, não ignorando
os desenvolvimentos do direito e do governo (Schliesser, 2020, p15). A ambição
de Smith seria ainda mais vasta, de abranger o que poderíamos designar de sistema
de sistemas científicos, como o sugere a intenção de Smith incluir na revisão
da TSM as questões da linguagem, que ele considerava fundamental para explicar
o desenvolvimento intelectual da natureza humana.
Em segundo lugar, embora reconhecendo que a RN faz parte de um projeto bem
mais vasto do que interpretações restritivas da obra o sugerem, não podemos
ignorar que na RN existe a formulação de um modelo de desenvolvimento para o
capitalismo (Arrighi, 2007: 23). Esse modelo, que contrasta com o apresentado
por Marx no volume I do Capital, considera que a riqueza das nações depende da
especialização das tarefas produtivas (divisão do trabalho), por sua vez
determinada pela extensão (dimensão) do mercado. O processo de desenvolvimento
surge associado à expansão do mercado, independentemente dos produtores diretos
terem perdido o controlo sobre os meios de produção (condição estabelecida por
Marx): “a essência desta dinâmica é um processo de melhoria económica conduzido
pelos ganhos de produtividade favorecedores do aumento da divisão do trabalho,
em largura (widening) e em profundidade(deepening) apenas limitado pela
extensão do mercado. À medida que a melhoria económica aumenta os rendimentos e
a procura efetiva, a extensão do mercado aumenta, criando consequentemente mais
processos de divisão do trabalho e melhoria económica. Ao longo do tempo,
todavia, este círculo virtuoso pode terminar devido aos limites impostos pela
escala espacial e institucional do próprio processo. Atingido esse limite, o
processo atinge uma armadilha de nível de rendimento médio ou elevado”
(Arrighi, 2007: 25).
Parece assim existir segundo Giovanni Arrighi um modelo smithiano de
desenvolvimento baseado no mercado, não apenas baseado na relação virtuosa
entre divisão do trabalho e extensão do mercado, mas como o refere Schumpeter
completado com dimensões como as origens da propriedade privada da terra, o
domínio crescente sobre a natureza, a liberdade económica e a segurança
proporcionada pela lei. Subjacente a esta conceção, encontramos uma relevante
conceção do mercado como instrumento de governação, de concorrência e de
divisão do trabalho.
Em terceiro lugar, o conceito de divisão do trabalho é em Adam Smith
complexo porque na RN analisa-o em duas dimensões, o da divisão técnica do
trabalho concretizada no interior de cada unidade de produção (que tende a
gerar tarefas de baixo perfil e estupidificantes do trabalho) e o da divisão
social do trabalho, concretizada entre unidades de produção autónomas através
das trocas de mercado. É por isso que na RN Smith se refere ao carácter
vulgarizador e estupidificante da excessiva especialização apenas no fim da
obra quando analisa o papel do governo na promoção da educação. Deve-se a
Nathan Rosenberg uma das mais lúcidas interpretações das duas perspetivas da
divisão do trabalho em Adam Smith. A inovação tecnológica em Smith é função de
três fatores principais: a inventiva dos próprios trabalhadores, as atividades
dos produtores de bens de capital e o papel dos que Smith designava de
filósofos, uma espécie de topo da escala do conhecimento, que não é mais do que
a antecipação no século XVIII do papel da ciência e dos cientistas. A
importância relativa destes três fatores depende do estádio de aprofundamento
da divisão do trabalho. Obviamente que com o excesso da especialização o
contributo da inventiva dos trabalhadores tende a ser menor, exigindo em estádios
mais avançados o concurso dos dois outros fatores. Daqui pode inferir-se que
Smith atribui à divisão social do trabalho uma maior importância, embora possa
parecer contraditório que atribua à divisão técnica do trabalho uma enorme
importância no volume I da RN. Daí a importância da especialização no setor de
produção de bens de capital e da emergência de organizações e indivíduos
especializados na produção de conhecimento científico e na sua translação para
a atividade produtiva.
(em elaboração)
Para memória futura fica a (vasta) bibliografia de base que
me acompanha nesta odisseia de rever o Eixo Atlântico não esquecendo Adam
Smith.
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