terça-feira, 6 de outubro de 2026

SÁNCHEZ DEFRONTA A CORRENTE

 
(Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

A Espanha vai a eleições em final de novembro, após mais uma antecipação de legislatura decidida por Pedro Sánchez. Este presidente do governo espanhol é – goste-se ou não e goste-se mais ou menos – um político na verdadeira aceção do termo. Porque Pedrito joga taticamente, porque Pedrito não foge e enfrenta, porque Pedrito arrisca... Dir-me-ão os mais críticos que ele é homem de golpadas e falta de escrúpulos (ouvi-o ontem na SIC-N ao histérico e dogmático dono de todas as verdades que é Miguel Morgado, alguém cuja forma de estar e se situar faz desacreditar o interesse que até existe nalgumas das suas análises e no saber de que dispõe em relação a certos temas), mas qual é o político que não é assim? O amolecido Feijóo ou a conflituosa Ayuso são diferentes? E, por cá, não abundam também os exemplos factuais e de posicionamento estrutural que o confirmam, da matreirice de Luís ao encantamento de serpentes de Passos, do oportunismo Costa ao estabilizacionismo-mor de Seguro ou do aparvalhamento de Moedas à amabilidade de Pedro Duarte? Quem pode jurar que não reside aí uma das essências que marcam a atividade política, com a advinda agravante decorrente dos tempos de escrutínio permanente que vivemos?

 

Reconheço sem rebuço que Sánchez exagerou em diversos momentos e dossiês. Mas não quero deixar de considerar que se trata de alguém que tende a ser único no contexto de uma Europa feita de políticos orientados para o estrito interesse nacional, partidário ou pessoal, sem talento estratégico e de muito limitada coragem (recordem-se as suas tomadas de posição sobre Gaza e Israel ou sobre a NATO e Trump). E, deve sublinhar-se, às vezes a sorte até premeia o engenho, o que explicará que Sánchez tenha novamente optado por arriscar e apostar na sua boa estrela, escolhendo com esmero a ocasião conjunturalmente mais propícia (ocasião que, como diz o povo, faz o ladrão) – no caso, a crise em torno do problema da habitação que vemos grassar em protestos violentos nas grandes cidades, a fase de desnorte que estão a atravessar as forças à sua esquerda e as organizações nacionalistas e a prestação macroeconómica do país  – e assim aceitando pôr em jogo a sua sobrevivência política numa espécie de plebiscito pessoal em que irá certamente combater até à última todas as lógicas de desgaste e artimanha com que em permanência o ferem. Probabilisticamente, o que vai sair de 29 de novembro resultará em que Feijóo e Abascal acabem no poder, mas vou gostar de assistir ao magistral desempenho político com que Sánchez vai procurar evitá-lo e também não tenho hoje grandes dúvidas quanto ao facto de que a alternativa que se desenha é bem mais perigosa e paralisante do que aquela que estava sobre a mesa da Moncloa.


(Idígoras y Pachi, http://www.elmundo.es)

MAS AFINAL QUAL É A POSIÇÃO DA ALEMANHA FACE À CHINA?

 

(Relativamente à situação económica e tecnológica da Europa como um todo a China deixou de ser o elefante na sala para se transformar, confundindo-se, com a própria morfologia da sala. É com a sua presença que temos de viver. Também compreendemos que, no seio da incomodidade instalada, a Alemanha está no vermelho, pois a ameaça chinesa não veio sozinha, juntou-se ao quebra-cabeças da dependência energética alemã face ao gás natural da Rússia e, assim, os governos da CDU e os parceiros de coligação depararam-se na prática com dois elefantes da sala, adulterando a convivência quotidiana. Se para a dependência energética a convergência dos interesses da União Europeia e da Alemanha conseguiu, apesar de todas as contradições ainda observáveis, tendeu a facilitar, não a resolvendo totalmente, a abordagem ao problema alemão, no caso da ameaça chinesa é conhecido que o governo alemão adiou o mais possível o alinhamento com os alertas desesperados de Ursula vom der Leyen quanto à insustentabilidade do défice comercial externo com a China. Não só a relevância do mercado chinês para algumas indústrias exportadoras alemãs era notória, como a integração tecnológica da economia alemã com o paradoxo da parceria-ameaça com a emergência tecnológica da China aconselhava essa posição de alguma calma nos ímpetos protecionistas. Mas no contexto político alemão atual, com a extrema-direita nacionalista a morder os calcanhares do governo de Merz, a sedução do protecionismo é praticamente impossível de conter. Isso explica que, finalmente, nos últimos dias, Merz tenha saído da toca e, numa carta conjunta com Macron dirigida à presidente da Comissão Europeia, tenha pedido com urgência medidas comerciais mais duras e novos instrumentos para fechar o mercado único europeu à invasão chinesa. Ou seja, sem papas na língua, o apelo ao protecionismo para conter, senão mitigar, a ameaça chinesa e o crescimento do já insustentável défice comecial.)

A carta de Merz e Macron resvala para o melodramático, invocando que em setores como a indústria farmacêutica, o aeroespacial, o automóvel, as máquinas ferramentas e as indústrias químicas estamos perante um choque de grandes proporções que atinge o coração do modelo industrial europeu, projetando a partir dos impactos dessas ameaças uma forte pressão sobre o estado social europeu. É um pouco espantoso que o problema só agora a caminhar para o fim de 2026 tenha sido objeto de consideração política ao mais alto nível, como se o diagnóstico não tivesse sido já feito há já algum tempo e novamente realçado pelo relatório Draghi, sobre o qual Merz e Macron não se pronunciaram efusivamente. Claro que o apelo continua a bater na tecla das práticas comerciais injustas e distorções da concorrência promovidas pela China para enquadrar o combate à ameaça chinesa, não focando devidamente o avanço tecnológico que a China já adquiriu em algumas dessas frentes, o que suscita a complexa decisão de escolha de domínios em que seja mais fácil recuperar essa inferioridade europeia. Não esquecer, entretanto, que pelo menos no que respeita a França, os défices orçamentais persistentes em que o país está mergulhado vão dificultar a resposta a esses problemas, ao mesmo tempo que se procura dar resposta à insatisfação social que grassa pela sociedade francesa apesar de se tratar de um dos estados sociais mais avançados (e rígidos também) da União. 


 

Resumindo, a preocupação do duplo MM, Merz e Macron, vem tarde e sobretudo emerge num momento muito complicado a nível interno dos dois países, que tenderá a dificultar, e muito, a sua entrega a soluções mais europeias.

O problema é a mudança de estádio de evolução da ameaça chinesa. Uma coisa era o alcance das importações chineses estar objetivamente a contribuir para a norma de consumo operária e de classe média mais baixa, oferecendo-lhes condições de consumo que as indústrias transformadoras nacionais alemã e francesa já não conseguiam proporcionar. Outra coisa bem diferente é quando essa ameaça chinesa se incorpora em toda a estratégia tecnológica desses países, oferecendo equipamentos acabados a mais baixo preço e podendo fornecer simultaneamente produtos intermédios a preços também competitivos para produzir internamente esses produtos. É um estádio de evolução totalmente distinto, com exigências de complexidade de política industrial, para a qual a União está longe de estar preparada, sobretudo depois dos seus diretórios mais liberais terem proibido praticamente a designação de política industrial durante largo tempo.

Amanhem-se e compreendam que proclamar a aflição de “aqui d´el rey” já não é suficiente.

 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

LEMBRA DISSO? E DISTO?

 
(Raúl Arias, https://elpais.com) 

O Brasil foi a votos. Para decidir, como bem escreveu o “El País”, entre um estadista desgastado e o filho de um ultra – uma escolha amaldiçoada à partida, pese embora a qualidade e a experiência política de Lula. Estou cada vez mais convencido de que o problema político brasileiro não reside na ideia de a chamada “Esquerda” (o que quer que isso seja lá para aqueles lados) não lograr renovar caras capazes de propostas audíveis pelos cidadãos mas antes nos erros acumulados e nunca verdadeiramente assumidos que foram cometidos pelo PT desde a vitória de Lula em 2002, por um lado, e pelo sinal dos tempos políticos – do individualismo ao horror ao social, do primado do bolso próprio à desvalorização do papel do Estado e da inerente tributação, do seguidismo fake e populista à recusa da reflexão e do pensamento  – que nos envolve loucamente e de modo quase invariável pelo mundo fora, por outro.

 

Como quer que seja, o resultado correspondeu ao pior cenário de entre aqueles que as sondagens adiantavam: uma vitória de Flávio Bolsonaro (47% versus 45% do seu principal adversário) que o coloca em boas condições de vitória na segunda que disputará, dentro de três semanas, contra Lula. A fragmentação do país tem contornos de continuidade mas com claro agravamento das piores tendências de divisionismo sul-norte, rico-pobre ou educado-não educado: Lula só venceu no Nordeste e em três estados do Norte (ou seja, em 12 de 27 estados, mormente nos menos importantes), conhecendo todavia quebras de algum significado e justificativas de um pessimismo em movimento; Flávio ganhou largo no Sul e no Centro-Oeste e, pior, também se destacou na região mais rica e populosa do país (incluindo os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais).



As evoluções temporais, designadamente no que toca a comparações com a eleição de 2022, também são elucidativas de uma deriva direitista de brutal extensão (que, como refiro atrás, também já vai atingindo os bastiões tradicionais do PT). E, por fim, as outras eleições ocorridas (Senado Federal, Câmara dos Deputados, Governadores Estaduais) ainda vieram agravar a situação, com as forças de Direita (e o PL dos Bolsonaro, em particular) a ganhar peso em todas aquelas instâncias, nalguns casos um peso que prenuncia riscos sérios de involução democrática.

 

Saberemos o desenlace a 25 de outubro. Lula está em manifestos maus lençóis e qualquer análise objetiva no-lo diz (com a acrescida ajuda da estatística que estipula que, até agora, nunca um vencedor da primeira volta perdeu a segunda), mas foi com agrado que o ouvi na sua declaração de balanço falando em prorrogação, na sua inclinação para o “mata-mata”, na denúncia que fará da corrupção de largo e perigoso espetro de toda uma família e seus acólitos e do legado da sua passagem pelo poder no tempo da pandemia, na sua confiança em Alckmin e outros companheiros de percurso e na sua convicção sobre o seu lugar histórico na luta contra a pobreza no Brasil. E como houve mais de 33 milhões de abstencionistas, além de quase 6 milhões de votos brancos e nulos, talvez que alguma esperança possa subsistir...



DO BRASIL A FRANÇA, OS MESMOS DILEMAS

 


(A incapacidade da esquerda brasileira para gerar um novo protagonista que não o velho e desgastado Lula da Silva e a onda de direita populista que varre as Américas colocaram Flávio Bolsonaro à frente para uma segunda volta decisiva, de mau augúrio para o progressismo no Brasil. Os tempos correm de feição à direita mais extrema e o centro-esquerda não atina com a postura adequada para combater esse fenómeno e tem sido um deserto de novos rostos pensantes e com algum carisma popular, com alguns tiros no pé pelo meio. Em França, num título extremamente sugestivo, o Nouvel Observateur fala da “La primaire de la dernière chance”, algo que poderíamos traduzir pelas primárias da última oportunidade. Porque em França, o panorama é resumidamente este. A direita de Le Pen e do Rassemblement Nacional caminham para uma vitória presidencial e é a esquerda mais radical e também populista de Jean-Luc Mélenchon que se perfila para uma possível segunda volta. No centro-esquerda, mais propriamente no Partido Socialista e forças próximas, joga-se a cena das primárias entre o atual secretário-geral Olivier Faure e o deputado europeu Raphaël Glucksmann, apostado na refundação da esquerda democrática, com o objetivo ambicioso de gerar uma dinâmica eleitoral capaz de retirar Mélenchon de uma segunda volta. As expectativas são claramente baixas e este centro-esquerda, sem considerar o possível elã das primárias, parte com cerca de 10 a 12% do eleitorado, o que dá a ideia da montanha que o centro-esquerda tem à sua frente.)

O drama francês é que as hipóteses de vitória de Mélenchon numa segunda volta são ínfimas e o próprio líder da França Insubmissa não esconde que se prepara para querer ser o porta-voz de uma oposição futura, com o libelo de luta contra o fascismo no poder, reduzindo o PS a escombros. Esta antecipação é um pouco grosseira e ignora uma questão fundamental. Le Pen não é uma líder estática, assim como Meloni não o foi em Itália. É expectável, por isso, que uma possível vitória nas Presidenciais leve a líder do RN a mudanças de postura e de posicionamentos que coloquem Mélenchon em desvio de rota, a posicionar-se perante um alvo que vai mudar muito provavelmente de dimensões a combater.

Pelo que se vai conhecendo do dealbar das primárias, o confronto Faure-Glucksmann precisaria de um qualquer Viagra político para entusiasmar as hostes e projetar-se para uma segunda volta de desespero. O que não está a acontecer. O que existe é uma certa nostalgia do passado das maiorias presidenciais de Mitterrand e Hollande, que assentaram de facto em grandes “rassemblements” do centro-esquerda e que os levaram ao poder. A refundação da esquerda democrática que Glucksmann acena para justificar a sua entrada em cena e gerar esperança no eleitorado não é mais do que uma ideia. No seio de um Estado Social que é dos mais avançados na Europa, a França debate-se com problemas de falsa abundância e sérias desigualdades, campo de invenção para essa refundação da esquerda democrática que tarda em concretizar-se face à onda instalada de direita nacionalista e populista.

O que há para construir no Brasil e em França não é seguramente o mesmo e o centro-esquerda tem que compreender isso mesmo. Como diria Fernando Henrique Cardoso é na avaliação concreta dessas situações concretas que as refundações deverão construir-se. Caso contrário, preparem-se para a hibernação, que o tempo do afastamento pode ser longo.

Entretanto, acossado por uma coligação sem futuro com as forças regionalistas e nacionalistas, Sánchez deitou a toalha ao chão e convocou eleições gerais para 29 de novembro. O último dos moicanos teve de ir a votos.