segunda-feira, 31 de agosto de 2026

COM E SEM PALHINHA

(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt) 


Já fiz uma assinatura da “Benfica TV” para ver hoje a estreia de João Palhinha (JP) na Luz – e não podia ser de outra maneira, considerada a forma minuciosa e entusiástica como tem sido tratada a novela em torno do ex-jogador do Sporting que afinal era benfiquista desde pequenino, um excesso inacreditável que ultrapassou todas as doses admissíveis de tolerância e nos diferentes canais televisivos e nos jornais desportivos da Capital ao longo do último mês. Um exemplo “glorioso” do Portugal que nos vem calhando em sorte...


(cartoon de Carlos Laranjeira, https://cnnportugal.iol.pt)


Entretanto, e como a ventania não parece suscetível de amainar a não ser que JP não venha a estar à altura do brilhantismo inexcedível que lhe é atribuído e/ou que o Benfica vá perdendo mais uns pontos com o proclamado génio em campo, passou quase despercebido o extraordinário Domingo azul-e-branco de ontem em que André Villas-Boas veio finalmente a jogo depois de ter sabido esperar pelo momento certo para encetar um caminho que ia preparando silenciosamente – nada menos do que três reforços de qualidade aparentemente garantida (Santiago Giménez, Gabriel Mec e João Souza) e a venda lucrativa (mais do dobro do preço de aquisição) de um Deniz Gül que já começava a desesperar a bancada do Dragão. Quem sabe, sabe!


domingo, 30 de agosto de 2026

FIM DE FÉRIAS

 


(Esta imagem da marginal fluvial de Seixas ao fim da tarde representa simbolicamente o fim de férias, representando bem a transição de uma semana de chuva frequente para uma outra que se anuncia de regresso a tempos de canícula. A marginal de Seixas é um bom exemplo da sobriedade cuidada de infraestruturas que deveria inspirar a maioria dos municípios portugueses, que vão entrar proximamente em tempos de conservação e manutenção como prioridade fundamental, agora que se anunciam outros tempos para o financiamento europeu. O tempo dos disparates infraestruturais vai enfrentar condições desfavoráveis, porque vão escassear os fundos e as oportunidades para os cometer e isso é por si só uma boa notícia, sobretudo se o investimento em habitação substituir essas loucuras infraestruturais, que não é o caso desta marginal de Seixas do rio Minho. Mas o fim de férias é também para mim a oportunidade recorrente de, em termos pessoais, avaliar se o reinício do trabalho será para valer ou se, pelo contrário, é desta vez que vai consumar-se ou não regresso à continuidade na vida ativa. Assim, dou comigo frequentemente a pensar que um dia que decida interromper definitivamente a minha experiência de trabalho isso equivalerá na prática a deixar de ter essa sensação de fim de férias. Porque, não trabalhando, posso perguntar-me que raio de significado terão as férias, sobretudo se as passar no contexto da segunda residência?)

Associo, regra geral, a ideia de férias à de modorra e estas não fugiram a essa regra. Modorra tanto mais apreciada quanto mais intenso em termos de trabalho e de preocupações profissionais tiver sido o ano.

E devo confessar que já não sou o devorador de livros de outras épocas. Nestas quase quatro semanas que terminam amanhã, o livro mais interessante em que tive oportunidade de mergulhar li-o em espanhol, por vezes com a ajuda do Google tradutor. Sou um grande admirador de Fernando Aramburu, sobretudo porque, em meu modesto entender, não há escritor que consiga criar algo de relevante com a questão basca como pano de fundo com tanto equilíbrio e firme delicadeza como o escritor basco radicado na Alemanha.


MAITÉ é a obra a que me refiro e desta vez tem como contexto o momento da sociedade basca em que a ETA raptou o concejal Carrero Blanco e o matou com dois tiros na cabeça, sem o eliminar imediatamente, mas deixando-o entre a vida e a morte, vindo depois a falecer. A ação passa-se em San Sebastian e a trama desenvolve-se sobretudo entre duas irmãs (Maité e Elene, esta regressada com algum mistério dos Estados Unidos da América (Providence) para revisitar a cidade e a família e a Ama (Mãe), viúva e doente, mas recusando-se a ser “depositada” num lar. O equilíbrio delicado com que Aramburu deixa o rapto e assassínio realizado pela ETA dominar o contexto em que a história entre as duas irmãs se desenvolve e o mistério de Elene vai sendo aflorado é um exercício notável de rigor e sensibilidade.

Pergunto-me se alguma vez Fernando Aramburu teria conseguido atingir o equilíbrio das suas narrativas acaso não estivesse radicado na Alemanha, mobilizando a sua memória afetiva para as construir.

Defendo sem inseguranças de qualquer espécie que há fenómenos que só podem ser recriados com a distância, não do tempo, mas da distância física simplesmente alimentada por uma memória obediente. A questão basca talvez seja uma delas e isso não significa de modo algum pactuar com a brutalidade do terrorismo.

 

 

E PORQUE HAVERIA A ISLÂNDIA DE QUERER ADERIR À UE?

Parecem suficientemente claras as indicações existentes sobre os resultados do referendo de ontem na Islândia sobre a vontade ou não dos cidadãos locais de que se reabrisse o processo de negociações com vista a uma adesão do país à União Europeia (o pedido para tal aconteceu em 2009 na sequência da crise financeira global e do colapso do sistema bancário islandês, mas foi suspenso em 2013 por parte de um governo eurocético): Não! E porque haveria de ser “Sim” a resposta maioritária que não por supostas razões de melhoria das condições de combate à insegurança geopolítica associada às “incursões discursivas” de Trump acerca da Gronelândia? Com efeito, e em sentido inverso, os defensores do “Não” agitavam um temor que se terá mostrado bem mais palpável: o dos riscos que impenderiam sobre os seus importantes e lucrativos setores pesqueiro e marinho (representando cerca de 40% das exportações do país) se viessem a ficar sujeitos aos controlos (quotas e outros) provenientes da Política Comum de Pescas.



A primeira-ministra de centro-esquerda (Kristrún Frostadóttir) foi hábil na sua tentativa de aproveitar as ameaças americanas contra a Gronelândia e as tensões internacionais vigentes para encontrar um momentum aparentemente propício à sua “dama europeia”, incrementando assim as suas já fortes ligações ao bloco (como parte integrante do Mercado Único e da Zona Schengen, além da presença na NATO). Posicionamento que Bruxelas acolheu com a maior simpatia por permitir um contraponto ao excessivo deslocamento para Leste (e para sociedades bem mais pobres do que a média europeia) do atual processo de alargamento e, neste quadro, de reforço da imagem da União e de compensação das suas visíveis fragilidades geoestratégicas. Assim não ocorreu, embora por escassa margem (os últimos números apontam para um diferencial de 12600 votos).

 

A Islândia vai assim prosseguir o seu caminho de estrita independência nacional, o qual lhe parece garantir mais vantagens (mesmo com as elevadas taxas de juro instaladas e ainda justificadas pela amplitude da crise financeira do passado recente) do que o que decorreria de um alinhamento feito de negociações incómodas e de incertezas seguramente maiores. 

sábado, 29 de agosto de 2026

ALVÍSSARAS QUE O PRR ACABOU!

Tenho grande simpatia pelo ministro Manuel Castro Almeida (MCA). Por muitas e boas razões, a maioria das quais não necessariamente políticas: porque ajudou a construir a Casa excecional que foi (é?) a CCDR-N, porque fez amizades de diversa ordem nesse quadro estruturado por Luís Valente de Oliveira (entre as quais a da minha mulher), porque foi um bom presidente de Câmara em São João da Madeira, porque teve como chefe de gabinete uma das pessoas de princípios sólidos e inatacável seriedade que conheci nestas últimas décadas (o hoje também meu amigo José Carlos Gomes), porque é senhor de uma lealdade pessoal e política à prova de bala (um mérito em que às vezes também exagera por falta de algum sentido crítico), porque tem exercido com empenho e dedicação a terrível função que Montenegro lhe destinou (nada menos do que a Economia e a Coesão Territorial).

Feita a indispensável declaração de interesses, importa agora abordar a adversativa que se impõe: MCA prestou-se ontem a um serviço governamental desnecessário e, portanto, pouco dignificante ao vir declarar publicamente, em pomposa última hora noticiosa, não apenas que o PRR nacional está plenamente executado (o que não é o caso – exceto para cumprimento das exigências burocráticas do gabinete de Ursula – face à multiplicidade de ajustamentos que sofreu e que desvirtuaram o seu rumo inicial e face à quantidade de verbas ainda precisas para encerramento de vários projetos inicialmente dados como estratégicos, já para não referir as habilidades que se tiveram de arranjar) como ainda que “estão totalmente concluídas as 44 reformas” (nada menos!). É certo que possa ter sido algo titânico o esforço de MCA para que não houvesse dinheiros europeus a serem devolvidos a Bruxelas, tarefa meritória embora limitada do ponto de vista do nosso futuro coletivo, mas a verdade pura e dura é que se desconhecem as reformas que realmente aconteceram por via dessa componente do Next Generation EU que nos coube em sorte e que António Costa apelidou de “bazuca” – terá sido a digitalização dos exames com que Fernando Alexandre se descredibilizou ou o magnífico Whatsapp do Governo que não chegou a funcionar? Ou também contam para o efeito as residências estudantis por terminar, as casas camarárias por entregar e a ferrovia por relançar, além da compra encarecida das fragatas da Marinha ou da aposta falhada no hidrogénio verde, entre outras e variadas transformações imaginadas que preenchem “a lógica e o espírito da ação deste Governo” num guião difícil de compreender (como afirma Barreto na sua crónica de hoje)?

 

Enfim, e como já ocorrera quando foi levado a pronunciar-se sobre a regionalização (matéria em que tem responsabilidades historicamente adquiridas) e o fez com ligeireza e politiquice barata, MCA sabe que quem o conhece também sabe que o seu desempenho será tanto mais útil ao País quanto mais a sua capacidade de trabalho e organização de equipas o levar a equacionar os reais problemas nacionais e a definir-lhes meios de resolução em que somente seja delimitadamente considerado o papel proclamatório do marketing político – até porque, como ontem afirmou de modo perentório e muito claro, “Bruxelas vai fechar a torneira dos fundos”...

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

DOLLY PARTON E A AMÉRICA QUE SE FOI

 


(Dolly Parton, ícon da música country deixou-nos aos 80 anos, na mítica cidade de Nashville. O reduzido eco do seu desaparecimento em Portugal é proporcional à reduzida divulgação da sua música, da sua atividade como intérprete e sobretudo da sua composição. Se nos recordarmos que a canção “I Will Always Love You”, imortalizada por Whitney Houston no Bodyguard, é de autoria de Parton talvez tivéssemos em Portugal uma outra perspetiva do que Dolly Parton representou para a América profunda. Há uma afirmação de Parton numa entrevista do passado ao New York Times que me diz muito e que representa bem o símbolo associado à intérprete americana: “Felizmente que as pessoas sabem que por baixo do meu cabelo existe um cérebro, que por debaixo dos meus seios há um coração e que por detrás de todos os restantes adereços sabem que existe algum talento”. Não conheço qualquer outra representação de si próprio no mundo do espetáculo tão verdadeira e profunda como esta afirmação de 1975.)

O tópico que gostaria de associar ao desaparecimento de Dolly Parton é a sua profunda relação com uma certa América que venerávamos e que está hoje estilhaçada pela desigualdade e pelo infame aproveitamento político que Trump e os MAGA deste mundo fazem do descontentamento, da quebra dos elevadores sociais, do isolamento e dos deserdados da sociedade americana. Muitos desses problemas e injustiças sociais apareciam tratados nas canções de Parton, mas ao contrário do que hoje se observa não eram fator de polarização ou desunião. Parton era uma espécie de símbolo em que praticamente a generalidade dos americanos se revia tal era a combinação de autenticidade, simplicidade e profundidade que se operava na sua personalidade, voz e intuição artística.

Por isso, a morte de Dolly Parton é um símbolo fiel de uma América que já se foi, bem antes de Linda Ronstadt e Emmylou Harris disputarem com ela a cena do country. A nostalgia que o desaparecimento dessa América suscita está perfeitamente representado na grande maioria das suas canções e por isso a registamos neste blogue.