terça-feira, 7 de julho de 2026

ASI NO, ADIÓS MUCHACHOS!

 
(Hamid Sahari, https://x.com/Hamidsahari20) 

Quem diria que as minhas incursões de análise futebolística internacional acabariam com um louvor a Messi e uma reprovação de Cristiano Ronaldo? Pois a verdade é que o comportamento que CR7 vem evidenciando de há anos, tendo atingido o cúmulo neste Mundial, só pode ser classificado como miserável. Como miserável é a subserviência covarde dos responsáveis principais, o selecionador Roberto Martinez – cuja incompetência e manha foram objeto de grotesca exibição nestes seus quase quatro anos de contrato –, o presidente da Federação Pedro Proença – um “sempre em pé” que nunca foi sequer capaz de tentar pôr alguma “ordem na casa” – e, ao que vimos ontem nas suas declarações de final do jogo, o primeiro-ministro – que preferiu as trivialidades de um duvidoso “politicamente correto” ao balanço crítico que se lhe deveria ter imposto não fora o seu saloio “esforço” de se deslocar três vezes aos Estados Unidos (ao que se julga no avião do Estado Português) com a equipa ainda longe das grandes decisões apenas pela forte consciência que tem das suas obrigações associadas à sua alegada e irredutível afiliação ao povo de que emana e que representa. Cada vez mais me convenço quão decisivo é “tomar chá em pequeno”...


A mesma lógica de considerações vale para CR7, um pobre diabo com enorme vocação para o futebol e para o trabalho físico que subiu a pulso as escadas do merecimento profissional e da notoriedade mundial mas não alcançou o entendimento de que tal mais não lhe asseguraria do que brutais condições materiais e de vida e não qualquer direito a vedetismos despropositados e a interferências indevidas. As suas declarações no final do jogo de ontem foram, nessa linha, de uma infelicidade atroz.


Ninguém no mundo que seja minimamente lúcido em matéria de futebol, para não dizer de conhecimento dos limites naturais do ser humano, poderá contrariar as afirmações de Ibrahimovic a propósito da relação entre o escalonamento da equipa portuguesa neste Mundial e as suas ambiciosas pretensões, designadamente no tocante a uma liderança do ataque nacional conduzida por um jogador de 41 anos (e com Gonçalo Ramos no banco e a marcar quase sempre quando teve alguns minutos). E volto ao início, recorrendo ao venenoso Mourinho quando há uns anos se referiu à comparação e rivalidade então no auge entre Messi e Cristiano.


Terminado o embuste que nos quiseram vender, vamos brevemente ao jogo de ontem. Desde logo, a constituição da equipa: mais do que previsível face aos tiques conservadores de Martinez, estranhei ainda assim que Cancelo e Bruno Fernandes se tivessem mantido e que tenha sido João Félix o eleito para o lugar de Rafael Leão. Mas adiante, até porque vimos Félix a fazer finalmente um jogo positivo e empenhado. Na segunda parte, o posicionamento e a atitude da equipa logo deixaram antecipar o pior de uma lógica ainda mais defensiva e de entrega da bola aos espanhóis; acrescem as substituições, que foram desastrosas: Nuno Mendes por Nelson Semedo foi obrigatório face à lesão do primeiro (um momento de azar para um dos poucos que se exibia a nível adequado), mas as de Cancelo por Dalot e Neto por Conceição foram inócuas (quando havia a hipótese não queimar uma substituição, explorando a mobilidade e eficácia de Ramos sem mexer na “estátua”, e de utilizar o efeito-surpresa de Trincão ou Gonçalo Guedes em vez do pequeno Francisco) e as entradas de Rafael Leão e Bernardo SIlva aceitam-se, ou só talvez no segundo caso (porque também se podia ter equacionado Rúben Neves ou até o inventado e já usado Samu Costa), mas nunca por troca com Félix e Vitinha (os que melhor se apresentavam no miolo). Mau demais, portanto, perante uma seleção espanhola que está bem longe da categoria de algumas das suas mais brilhantes antecessoras!


Por fim, uma nota sintética de balanço geral. Para sublinhar que o melhor jogador da seleção nacional foi Diogo Costa – o que também serve para demonstrar quanto a mesma não cumpriu os mínimos –, o salvador que fez com que a equipa sobrevivesse largamente à sua incapacidade em três dos cinco jogos realizados (Colômbia, Croácia e Espanha). Indiscutíveis nesta seleção são ainda Nuno Mendes e Pedro Neto (já Rafael Leão precisa de abordar a questão da concentração em campo para o ser igualmente) e, se CR7 deixasse, sê-lo-ia naturalmente Gonçalo Ramos (recentemente adquirido pelo AC Milan por mais de 70 milhões de euros). Depois, será justo referir que Rúben Dias ainda é o nosso melhor central (sem prejuízo de momentos em que parece desligar) e que Renato Veiga se consolidou como o segundo na hierarquia dessa tipologia de defesas (Tiago Gabriel, hoje no Lecce de Itália, será proximamente uma hipótese a considerar com seriedade), e será honesto confessar que nem Vitinha, nem João Neves, nem Bruno Fernandes, nem Bernardo Silva fizeram jus ao prestígio de que granjeiam – embora todos, e especialmente os dois primeiros, sejam peças fundamentais ou não desprezíveis na seleção portuguesa dos próximos anos – assim como apontar que Cancelo mantém caraterísticas de prestação cíclica (é capaz do melhor e do pior e a frescura física já vai falhando) que justificam que se olhe para o lateral-direito do FC Porto Alberto Costa.
 
Enfim, toda uma renovação suave a implementar com urgência pelo novo selecionador – curiosíssimo como a incompetência de Martinez tornou Jorge Jesus (diz-se que já anda a aprender português!) uma escolha quase indiscutível –, sendo que a sua principal motivação terá de estar na preparação e definitiva adoção de um estilo de jogo coerentemente ofensivo e consistente com os recursos à disposição.


segunda-feira, 6 de julho de 2026

CINCO EVIDÊNCIAS INDIVIDUAIS DO MUNDIAL

(Agustin Sciammarella, http://elpais.com) 

Recupero abaixo os cinco gráficos que o excelente profissional Kiko Llaneras nos apresenta no “El País”, com reporte à primeira fase do Mundial de Futebol que passará à posteridade como o da afirmação da dignidade de um país de língua oficial portuguesa (acima, uma caricatura do seu capitão de equipa Vozinha). Cada um desses gráficos elege um tópico de análise e procura encontrar os jogadores que mais se destacaram de acordo com os dados disponíveis a respeito dele. Os cinco nomes a registar são, então, os de Mbappé, Messi, Olise, Pedri e Hakimi.

 

O primeiro tópico corresponde à produção atacante e o gráfico cruza as contribuições de cada jogador (golos e assistências), no eixo das ordenadas, com o que seria expectável em função das ocasiões criadas (golos e assistências esperados), no eixo das abcissas. O destaque centra-se claramente no francês Mbappé, sem prejuízo dos números observados em vários outros atletas de nomeada (dos mais repentinos, entre o francês Dembélé, o suíço Manzambi e o inglês Kane, aos mais construtores, entre o norueguês Haaland, o senegalês Sarr, o brasileiro Vinicius Junior e o espanhol Oyarzabal, com Messi e Olise a evidenciarem um bom mix das duas dimensões).

(Kiko Llaneras, https://elpais.com) 

O segundo tópico tem a ver com eficiência e relaciona os golos e assistências com os quilómetros percorridos em cada jogo. Aqui o destaque é lapidar ao distinguir Messi de todos os outros (os seus menos de 7 quilómetros em média por jogo ilustram quanto ele “arrasa sem correr”, fruto daquele pé esquerdo único que o consagrou). Veja-se, curiosamente, que Cristiano Ronaldo também é poupado nos seus esforços em campo ((embora menos do que Messi) mas não logra ficar sequer perto dos resultados do seu rival de sempre. Em sentido contrário, o francês Olise surge como um dos que mais corre (11 quilómetros, em média) com proveito significativo em termos de concretização.

(Kiko Llaneras, https://elpais.com)

O terceiro tópico centra-se nas assistências e nos passes em profundidade, colocando novamente Olise em saliência muito nítida nas duas dimensões em questão e assim tornado o melhor passador do torneio; muito diferenciadamente, o equatoriano Caicedo e o belga Trossard revelam-se bons passadores à distância mas pouco fortes em assistências, enquanto o brasileiro Bruno Guimarães e o alemão Wirtz mostram bons números em assistências mas mais escassa visão em profundidade.

(Kiko Llaneras, https://elpais.com)

O quarto tópico privilegia a dinâmica em jogo, combinando a criação (ameaça gerada por passes ou conduções de bola) com os “roubos forçados”. Neste quadro, é o espanhol Pedri, no gráfico anterior apresentado como um dos detentores de mais percurso quilométrico em campo, que emerge largamente distanciado de todos os restantes referenciados (uns mais especializados na criação, como o espanhol Baena, o nosso canadiano Eustáquio, o alemão Wirtz e o francês Olise e outros mais vocacionados para a destruição, como o equatoriano Yeboah, o brasileiro Bruno Guimarães ou o alemão Kimmich).

(Kiko Llaneras, https://elpais.com)

O quinto e último tópico avalia a capacidade atacante dos defesas, relacionando a profundidade das suas progressões com os golos e assistências esperados. Aqui é o marroquino Hakimi que se mostra significativamente à frente (sem prejuízo dos registos interessantes em termos de progressões do espanhol Cucurella, do nosso Nuno Mendes e do belga De Cuyper, este o mais próximo de Hakimi em matéria de equilíbrios observados, enquanto o argelino Ait-Nouri progride muito mas não gera expectativas de resultados).

(Kiko Llaneras, https://elpais.com)

Entretanto, o campeonato prossegue em bom ritmo a caminho dos Quartos-de-Final – grande qualidade da maioria das equipas e executantes, partidas bem disputadas técnica e taticamente e largamente emocionantes, arbitragens merecedoras de aplauso, estádios cheios e públicos entusiastas (a originalidade das coreografias norueguesas tem marcado pontos) mas de alardes genericamente moderados. O pior de tudo têm sido as paragens para hidratação (embora algumas possam ser compreensíveis face às ondas de calor em presença), as manobras de diversão do inclassificável selecionador português e algumas eliminações injustas, aqui com destaque maior para os nossos irmãos cabo-verdianos e também significativo para o Japão (diante do Brasil), o Senegal (diante da Bélgica) e o Congo (diante da Inglaterra). Quanto ao vencedor, teremos de esperar pelo final dos jogos que ainda faltam mas a minha aposta de hoje prevalece a mesma do início: uma final de desfecho imprevisível entre a França e a Noruega, com favoritismo para a primeira.

TRUMP, COMUNISTAS E CRIANCINHAS

 

(Fotografia reproduzida por Krugman no seu substack. 1976, missão no Banco de Portugal: Miguel Beleza, Jeff Frankel, Andy Abel e Paul Krugman. O espírito da época está bem presente no vestuário dos quatro promissores jovens economistas)

(Adiada por uma daquelas tempestades americanas que só a imbecilidade do movimento MAGA consegue replicar, a intervenção de Trump na comemoração do 250º aniversário dos EUA revelou bem como o futuro americano é sombrio. Só faltou invocar a ideia de que as criancinhas americanas se acautelem, pois os comunistas estão por aí esfomeados, relembrando as trevas do macartismo que varreu a América no passado. Uma leitura política mais atenta da reemergência anacrónica do anticomunismo mais primário no discurso de Trump mostra que tal deriva é típica de quem está na mó de baixo, mas que visa preparar o ataque à ala mais à esquerda dos Democratas, recentemente vitoriosa em algumas disputas locais, laborando na mais ampla confusão do modo mais deliberado possível. Invocando a comemoração do 200º aniversário, Paul Krugman recorda nessa data a sua estadia em Lisboa, inserido numa equipa de jovens economistas do MIT que trabalharam então no Banco de Portugal, dois anos depois do 25 de abril de 1974. Cito os dois últimos parágrafos dessa crónica recente, pois ela evidencia bem o que pensa um democrata liberal de toda esta deriva negra que paira sobre a nação americana, sem que se vislumbre uma hipótese segura de devolver Trump, o MAGA e toda a série de lunáticos que abriga as suas ideias à irrelevância.)

“(…) Nas vésperas da comemoração do 250º aniversário dos EUA, tivemos a confirmação da corrupção presidencial a uma escaça que Nixou nunca poderia ter imaginado possível. É má em si propria. Mas o que é pior +e que ninguém acredita que haverá consequências para Trump, os seus mais próximos e os seus capangas. Em 1974, os Republicanos juntaram-se aos Democratas para assegurar que Nixon seria responsabilizado. Hoje, investiram no alargamento do poder de Trump e no seu culto de personalidade, apesar de saberem perfeitamente quem ele é e o que está a fazer.

Não vou perder a Esperança. A América não está irreversivelmente perdida. Mas hoje, mais do que há 50 anos, somos uma nação em busca desesperadamente de redenção”.

Tudo isto é perturbador e é-o tanto mais quanto a democracia parece incapaz de dar origem a caminhos diversos, gerando movimentos que suplantem a onda do populismo mais extremistas, depois de ter sido à luz desse enquadramento que as derivas se instalaram no poder.

 

sábado, 4 de julho de 2026

A DEMOCRACIA EM RISCO AOS 250 ANOS

Efeméride marcante a que recorda os 250 anos dos Estados Unidos da América e os variados e complementares contributos dos seus “pais fundadores” (sugiro, a propósito, a visualização de uma excelente série documental disponível na Netflix, “The American Experiment”). A primeira página do “Público” explicita de forma feliz o presente e movediço estado de coisas observável na terra-mãe da democracia – em três registos: a meia-idade da dita democracia, a sua crise proveniente de causa congénita centrada num ataque crescente e implacável aos princípios aspiracionais e a patológica perversão que lhe é acrescentada pela gestão autocrática, irresponsável e egocêntrica de Trump. Dia para apelar à consciência de cada um perante as evidências indesmentíveis de configurações que se afiguram portadoras de um considerável risco de reemergência generalizada de circunstâncias de decadência e derrocada em que a História é farta. 


(Nicolas Vadot, http://www.levif.be)

sexta-feira, 3 de julho de 2026

NO FIO DA NAVALHA DAS METÁFORAS

 


(Continuo em busca das metáforas que o Mundial nos está a oferecer. A loucura do jogo com a Croácia, já madrugada adentro, representa em meu entender uma interpretação representativa do destino português neste estádio de perturbação mundial em que vivemos. Num estádio, embora pequeno, maioritariamente luso, dada a importância da comunidade portuguesa em Toronto (ainda me lembro dos jardins fronteiros de algumas casas de portugueses com cultivo de vegetais, tomates e outros, a afirmar uma presença singular), o desenrolar das incidências do jogo retrata bem o que somos e o que temos sido por estes tempos mais próximos. A primeira parte finalmente bem jogada, com circulação de bola mais rápida do que o habitual, mas com uma capacidade nula de finalização, foi o espelho de muita da inconsequência nacional, deambulamos muito, sobretudo para o lado e para trás, mas o foco objetivo na concretização escapa-nos e invocamos depois a má sorte. Na segunda parte, perante uma Croácia que confirmou que sabe jogar e bem, pese embora a cruel necessidade de renovação etária, sofremos um amasso dos antigos. As crateras abertas nas inúmeras transições defensivas em que nos entregámos abertamente às investidas do adversário foram antecipando o pior, não fora a qualidade de um insuperável Diogo Costa (por quanto tempo o FCP vai aguentar esta preciosidade?). O empate surgiu inevitavelmente e poderia ter sido bem pior, pois estivemos no limirar do abismo de sofrer uma das mais poderosas humilhações desportivas. Quando os treinadores mais conservadores e empatas como Martinez se entrega a mudanças disruptivas receio sempre o pior. O selecionador ousou abdicar praticamente da consistência do nosso meio-campo, Ronaldo perdeu por poucos centímetros de um ombro demasiado adiantado a possibilidade de consumar uma das mais belas receções de bola na sua carreira, mas eis que há sempre um português pronto a desafiar o destino e Gonçalo Ramos, nos seus primeiros minutos de mundial, expliquem-me esta evidência, sai do banco e num cruzamento teleguiado de Rafael Leão eleva-se, suplantando os centrais e com uma inteligente cabeçada coloca Portugal a ganhar.)

Gonçalo Ramos assumiu neste caso aquele papel do português único que é capaz de, nas condições mais adversas e improváveis, concretizar coisas, suscitando aquele nosso velho dilema de saber como é que não é possível replicar estas situações. E, no caso dele, já não é a primeira vez.

Consumada a reviravolta, trancas à porta e trata-se agora de compensar as audácias da mudança radical imposta com a substituição de quatro jogadores e recuperar com Ruben Neves a consistência do meio-campo de que tínhamos abdicado voluntariamente. A partir daí, o fado da não contenção repetiu-se como tantas outras vezes sucedeu no passado, criando no espectador atento a sensação de que o golo croata estava próximo, naquela estranha sensação da incapacidade coletiva que nada pode compensar. E assim aconteceu. Mas a tecnologia apurada dos sensores protegeu a nossa incapacidade coletiva, sendo demonstrável que o centro-avançado croata Matanovic tocou de raspão na bola colocando em fora de jogo o colega que abriu caminho ao golo de Gvardiol. Jogo loco e repleto de metáforas.

E, por fim, vários jogadores portugueses invocaram a alma e recordação de Diogo Jota para justificar a força daquela vitória. Teria de ser, obrigatoriamente e em termos esperados.

O que eu não sei é se a qualidade da Espanha estará para aí virada.