(A jornalista, atualmente a publicar na The Atlantic, e ensaísta Anne Applebaum é, sem dúvida, uma das vozes mais autorizadas em matéria de reflexão sobre as origens e os avanços do chamado iliberalismo, ou democracias iliberais, embora prefira chamar o boi pelos nomes, é de autoritarismo que se trata, ainda que polvilhado de ida às urnas. Em 13 de agosto de 2020 e na qualidade de apresentação de um grande livro para férias, apresentei aqui o seu incontornável TWILIGHT OF DEMOCRACY – The seductive lure of autoritarianism (Random House), que nos permitia acompanhar a génese do fenómeno e compreender como o mundo ocidental e sobretudo a União Europeia foi ingénua ou talvez incompetente em condescender com o que estava a passar-se. Embora a sua investigação também respeitasse à Polónia, a sua análise do modo como o partido de Orbán cimentou o edifício do autoritarismo na Hungria é hoje uma peça incontornável para compreender o apogeu e a queda do autocrata húngaro, disfarçado de nacionalista e defensor das tradições húngaras mais profundas. Por isso, quando li o seu artigo na Atlantic sobre a não inevitabilidade do iliberalismo, felizmente publicado em castelhano na VOZ deGALICIA, dei comigo a pensar quanto a ensaísta terá apreciado os resultados do passado domingo que apearam Orbán do poder e dando força á sua tese de que o autoritarismo iliberal também cai, mesmo depois de ter paciente e despudoradamente tecido uma teia para evitar essa queda.
Applebaum explica a génese da vitória de Péter Magyar com base na construção do movimento social amplo que o novo líder húngaro construiu para lá de Budapeste, indo ao encontro da sociedade húngara mais profunda, de base ainda rural, que sempre apoiou Orbán. Foi esse movimento social e a persistência do trabalho no terreno de Magyar que permitiu desmontar o controlo implantado do poder judicial, da burocracia administrativa, das universidades e das empresas oligárquicas que dominavam a economia húngara. Tudo isto aconteceu com o partido de Magyar afastado dos media controlado pelo Fidesz de Orbán e apesar das visitas a Budapeste de toda a corja de iliberais deste mundo, Trump, J.D. Vance, Netanyahu, Marine Le Pen, Alice Weidel da AfD alemã e dos apoios vindos da Argentina, Polónia, Eslováquia e Brasil (bolsonaristas).
É importante assinalar a referência que a sempre bem documentada Applebaum faz da ação desenvolvida por um dos raros exemplos de imprensa não controlada na Hungria que divulgou registos áudios de conversas de Orbán e do seu Ministro dos Assuntos Exteriores com Putin e Lavrov, nos quais a subserviência de Orbán ficou claramente demonstrada a falsidade da imagem de Orbán como primeiro-ministro soberanista e defensor dos interesses nacionais húngaros. Segundo Applebaum, esta contradição ecoou sobretudo entre os eleitores mais jovens e existem testemunhos de gente que assistiu às manifestações de jovens húngaros que anotaram a presença dos mesmos cânticos que os húngaros assumiram quando a Hungria foi invadida pela Rússia em 1956.
Applebaum sabe do que fala e por isso este artigo tem um peso diferente. É importante reconhecer, de facto, que a inevitabilidade do autoritarismo iliberal deve ser desmontada. Mas talvez seja importante noutras situações não esperar 16 anos pela inversão dos acontecimentos. E será sobretudo importante compreender sinais emergentes e combater as causas. E há tanta matéria por essa Europa fora, e para nosso mal também nos EUA, para aplicar esse princípio.








