
(A imaginação de escrita não está fértil e o contexto
nacional e internacional não ajuda. No plano internacional, quatro anos de
guerra na Ucrânia pontificados pela cínica frieza russa, pela basófia transacional
de Trump e pelas inconsistências europeias, não basta clamar pela brava resiliência
de quem é agredido, mas ajudar é preciso com euros e armas, deitam abaixo qualquer
um. Para mais, sermos presenteados com a cena trágico-cómica de um narcisista compulsivo
a fazer durante duas horas o discurso do Estado da Nação americana, cheio de
contradições e deturpando evidências, desafia o espírito positivo de qualquer
um. De facto, comparando com quatro indicadores simples a economia americana de
janeiro de 2025 com a situação atual, taxa de desemprego, empregos criados
relativamente ao ano anterior, inflação central e perspetivas do mercado de
trabalho, não se compreende onde está o desempenho económico excecional com que
Trump se apresentou, espelho meu, espelho meu, quem é o tipo mais mentiroso do
que eu? No plano nacional, a grande interrogação parece ser a de
será este Governo capaz de governar de outro modo que não seja a efemeridade
dos “power points”, que se apresentam e arquivam e que não dão origem a qualquer
monitorização crescente? Não posso deixar de recordar que, nos piores momentos
do segundo governo de António Costa, a política praticada enfermava do mesmo
mal. O peso da comunicação na política e na governação tornou-se insuportável,
a efemeridade do momento comunicacional sobrepõe-se a qualquer esforço sério de
implementar soluções. E daí que seja legítimo perguntar o que valerá o governo
de Montenegro após as tempestades?).
A história económica diz-nos que
processos de reconstrução infraestrutural e económica dão, regra geral, origem
a períodos de relação virtuosa entre investimento e crescimento. Mas, no
estádio de desenvolvimento e de mudança estrutural em que o país se encontra, a
variável da construção, sobretudo num contexto em que o período final da
implementação do PRR exerce uma pressão brutal sobre a construção e sobre a
capacidade empresarial existente, pode através do complemento do PTRR não proporcionar
o adicional de crescimento necessário para completar, prolongando, o efeito do
PRR tal como foi concebido.
Muitas das empresas que podem
beneficiar de apoios para repor a capacidade produtiva existente antes das
intempéries pode concretizar os investimentos necessários e deparar-se com uma
situação internacional cheia de incertezas, não sendo ainda totalmente claro o
modo como a economia portuguesa se posicionará face à reestruturação das
cadeias de valor globais. A aleatoriedade da política aduaneira da
administração Trump nem sequer permite com seriedade estimar o impacto das
sobrecargas aduaneiras sobre as exportações portuguesas para o mercado
americano. Os empresários portugueses costumam ser hábeis na procura de
mercados alternativos, mas não se trata de operações instantâneas de diversão
de exportações, isso leva tempo e procurar parcerias de distribuição em novos
mercados não se concretiza no tempo de um clique.
Creio que a adição da governação
pela comunicação de show-off torna difícil a expressão de um discurso
mobilizador entusiasmante e suscetível de colocar o país num registo de
recuperação e de refazer as coisas destruídas. É isso que me parece estar a
acontecer. Não abundam as ideias simples, mas fortes para agigantar um esforço
coletivo. Não é facilmente que se readquire o domínio do timing político
e do efetivo discurso de mudança face ao poder das assessorias de comunicação,
quando estas últimas estão instaladas e comandam a agenda.
A interrogação tem, pois, sentido. O
que valerá esta governação após as intempéries?
Salvo algumas críticas muito
seletivas e globalmente pouco expressivas, a indicação do antigo Diretor da
Polícia Judiciária para Ministro da Administração Interna deu algum fôlego a
Montenegro. Das dúvidas suscitadas, a que me parece que vale a pena monitorizar
futuramente é a questão de saber se o novo Ministro mantém no seu discurso aquilo
que frequentemente afirmava em público, dizendo que era necessário distinguir
entre perceção de insegurança e informação objetiva sobre a mesma. Estou curioso
em antecipar como é que Luís Neves conviverá no Conselho de Ministros com
Leitão Amaro em matéria de segurança. A questão suscitada por pessoas como
Passos Coelho entendendo como má prática a passagem da Polícia Judiciária para
o Governo assenta na comparação com a situação de um regulador que assume
funções ministeriais, o que me parece um pouco fantasiosa.
Mas retirando o novo fôlego para a
Administração Interna e a prestação positiva que a Ministra do Ambiente teve na
crise das cheias, a sensação é que alguns Ministro passaram a zombies errantes,
passeando-se pelas intempéries com contradições de discurso entre si e deixando
antever a inexistência de coordenação política.
Neste contexto, a questão das
alianças para aprovar legislação que necessite de validação parlamentar até
corre o risco de nem ser o problema fundamental. Porque para haver alianças é
necessário saber o que se quer. Se a legislação laboral é o mote para o que vem
aí, seguramente que Seguro não terá vida fácil em Belém.