sexta-feira, 19 de junho de 2026

UMA PERSPETIVA DE LONGO PRAZO DO ACORDO EUA-IRÃO

 


(Por agora, não é ainda possível aferir se o acordo anunciado por Donald Trump tem condições para ser duradouro e assegurar que, com a sua efetivação, o Golfo e o Médio Oriente em geral possam regressar a uma situação, senão similar, pelo menos próxima daquela que a Região vivia antes de Israel ter seduzido a administração Trump para desencadear um ataque ao Irão. Tenho a intuição de que Netanyahu ea extrema-direita israelita tudo farão para dinamitar o acordo e prosseguir o seu projeto de extensão territorial, subjugando adversários, não importa com que custos humanos. Entretanto, os críticos mais assanhados da administração Trump embarcam nos diagnósticos mais negros sobre a incrível proeza de deixar a Região num caldo de instabilidade marcadamente mais significativo do que existia antes do ataque. Mesmo um analista liberal moderado como Noah Smith não hesita em realizar uma comparação arrojada entre esta saída de sendeiro de Trump com aquilo que a devastação que o Katrina provou em Nova Orleães na governação de Georges W. Bush e na sua incapacidade de, a partir desse evento, manter o apoio do país à sua administração. É uma comparação arrojada, mas tem algum sentido. É verdade que a aprovação da governação de Trump estava já em níveis bastante baixos antes das hostilidades terem começado. É verdade também que, além dessa hostilidade contra o Irão ter saído furada pelas incongruências erráticas do posicionamento americano, outras matérias têm feito aumentar o grau de desaprovação da governação de Trump. Basta pensar na condescendente avaliação dos efeitos da inflação sobre as famílias americanas, nas guerras aduaneiras e comerciais sem garantir os efeitos anunciados, na corrupção aberta que tem sido desvendada, na violência inaudita do ICE contra imigrantes e nos despudorados abusos de poder que todos os dias são revelados para compreender que a saída de sendeiro da guerra com o Irão poderá ser um mal menor na desaprovação crescente que a governação de Trump está a suscitar. Mas o acordo conseguido, independentemente da sua estabilidade, merece uma perspetiva de longo prazo e essa coloca aquela zona do mundo num cenário bem mais gravoso do que o existente, seja após o acordo nuclear conseguido por Obama, seja no período imediatamente anterior às hostilidades e já com o Trump 2.0 no poder.)

Ian Bremmer e Firas Maksad oferecem-nos na Foreign Affairs mais recente uma excelente leitura dessa perspetiva mais a longo prazo do que o agora anunciado acordo pode significar, usando para isso a metáfora de uma sombra de longo prazo a pairar sobre a Região e também sobre a influência americana no mundo.

Entre as dimensões de análise mais sugestivas que são propostas à nossa reflexão, há uma que me despertou particular atenção. Bremmer e Maksad sustentam que a divisão de perspetivas no Golfo está hoje perfeitamente instalada, com consequências muito penalizadoras para a estabilidade da Região e para o que isso representa como fator de agravamento da estabilidade internacional, não importa se em evolução para um regresso bondoso à globalização de outros tempos, se para uma globalização fraturada e com disrupções salientes em termos de geopolítica. O argumento apresentado tem razão de ser. Segundo os autores, os parceiros dos EUA na Região estão a organizar-se de modo diferente, mais propriamente em coligações opostas, que substituem assim a ideia anteriormente vigente de que a presença americana na Região lhe assegurava condições de estabilidade aceites e desejadas por todos. Ambos os lados, compreenderam rapidamente que, face ao comportamento errático da administração americana, seria mais sensato iniciar um processo de maior autonomização na defesa da Região. Mais próxima dos EUA permanece a chamada coligação de Abraão, organizada sobretudo em função da influência de Israel e dos Emiratos Árabes Unidos, mas em que se juntaram o Bahrain e mais longinquamente Marrocos quando se concretizou a aproximação a Israel. Do outro lado, emergiu a chamada coligação islâmica, de matriz sunita, envolvendo a Arábia Saudita, a Turquia, o Paquistão e o Egito.

Ora o que aconteceu é que a reação inesperada do Irão ao ataque perpetrado pelos EUA e Israel, atingindo com os seus mísseis e drones países do Golfo, ao contrário do que seria imaginável, não aproximou aqueles dois grupos, antes os afastou ainda mais. Esse afastamento tem um significado claro: a influência americana na zona, não só em termos de segurança, mas de alinhamento noutras matérias de geopolítica passa a estar enfraquecida. Esse enfraquecimento é qualquer coisa que os bajuladores de Trump não vão conseguir ocultar, o que significa que também na frente internacional a desaprovação da governação de Trump tem agora mais um elemento a marcar a sua progressão. Daria matéria para outro artigo discutir o modo como a China está a tirar partido desta nova situação. Mas, ao contrário do modo como a influência dos EUA era anteriormente assegurada, através de uma liderança mais musculada, dispendiosa e com maior presença física naquela parte do globo, a influência chinesa tem sido concretizada de modo menos pesado e não necessitando de um envolvimento bélico na Região. Afinal, para quem esteja atento à estratégia chinesa, com exceção da presença mais musculada e ameaçadora que concretiza em Taiwan, a influência no Médio Oriente e no Golfo concretiza-se de modo mais soft, o que não significa menos ativa e geradora de efeitos.

O que é ainda mais curioso é que entre os blocos atrás assinalados, o dos acordos de Abraão e o sunita, persiste a ideia de que o Irão continua a ser uma forte ameaça. Haverá diferenças de posicionamento face a essa ameaça, não sendo de afastar a hipótese de que o bloco sunita com a Arábia Saudita e o Paquistão em crescente cooperação possa gerir essa ameaça de modo mais flexível, ao contrário da aproximação entre Israel e os Emiratos Árabes Unidos tenderão sempre a considerar as vias mais bélicas de contrariar essa ameaça.

Mas o que é irredutivelmente agora mais explícito é que o reforço destes dois grupos é uma consequência do insucesso das hostilidades contra o Irão. As reservas contra a opção nuclear do Irão, as preocupações contra os seus arsenais de mísseis balísticos, o carácter repressivo e sanguinário do regime teocrático continua lá e não sabemos ainda antecipar quais os efeitos gerados pela eventual libertação de fundos cativos para a sustentação do regime. E relativamente ao estreito de Ormuz a posição estratégica do Irão sai também reforçada. Bastariam estes resultados para avaliar como um passo em falso a precipitada guerra contra o Irão. Mas, em meu entender, Bremmer e Maksad têm razão quando acrescentam a este rol de insucessos uma nova perspetiva de longo prazo sobre o Médio Oriente e sobre o Golfo. O potencial bélico-militar dos EUA está intacto, mesmo que com necessidade de fundos internos para renovação de stocks. O problema é que a incompetência da política arruinou a influência desse arsenal na Região.

Por isso, no seu destempero sem emenda, Trump até é racional na sua saída de sendeiro, depois de se apresentar como um leão enfurecido. Talvez por efeito do shampô e dos colorantes utilizados, a juba do leão já não assusta muita gente. Os países do Golfo terão compreendido isto melhor do que ninguém.

 

quinta-feira, 18 de junho de 2026

DEZ HOMENS E UMA ESTÁTUA

A estreia da Seleção Nacional no Mundial de Futebol, empatando em Houston com a República Democrática do Congo e – pior! – realizando uma exibição confrangedora, apenas foi ultrapassada em péssimo pelas prestações inconcebíveis de Roberto Martinez e Cristiano Ronaldo (até nas declarações foram arrogantes, o primeiro dizendo que “falar em ganhar o Mundial não ajuda a ganhar jogos” (!!!) e o segundo dizendo que “o futebol é isto” sem olhar por si abaixo para assumir alguma culpa própria no acontecido). Esse é hoje o tema dominante das conversas de rua e dos comentários televisivos, já que a perplexidade tomou conta dos portugueses, tão afirmativos eles se mostravam de que a qualidade ímpar dos nossos os ia levar à vitória (como diz o hino) e tão depressivos logo ficaram após o jogo inaugural – o velho “oito e oitenta” em que somos mestres e que, insisto, tanto nos prejudica!
 
Voltando ao assunto, o que há que registar de mais lamentável é a completa ausência de autoridade da parte dos responsáveis federativos, começando pelo selecionador e acabando em Pedro Proença. Atirar areia para os olhos dos portugueses (e se há coisa de que não gostam é de que façam deles parvos!) como faz aquele ou silenciar o que está mal com declarações asseticamente triunfalistas (“Vai dar Portugal!) como faz o último, evitando incorporar nas suas decisões o que todo o mundo está a ver – veja-se abaixo o magistral título do “The Independent” a propósito do jogo, sublinhando ter-se tratado de “dez homens e uma estátua” e do sacrifício das ambições nacionais perante o ego de Ronaldo –, eis o que importa denunciar de modo inequívoco. Até para libertar os restantes jogadores, que foram generalizadamente mais humildes ao admitirem que não estiveram bem, das correntes com que CR7 e o seu patrono Jorge Mendes os coagem (em termos de presença pública ou de presença no campo).
 
Depois, e só depois, há outras coisas, como sejam um Bernardo Silva escalado para extremo-direito, um Vitinha a médio defensivo ou a ausência de um desequilibrador de apoio ao avançado-centro (que devia ser Gonçalo Ramos, como se infere do que mais atrás ficou dito). E mais ainda: uma convocatória com vários elementos inexplicáveis, como sejam a insuficiência óbvia dos quatro centrais convocados (ademais alguns em má forma física, como Rúben Dias ou Gonçalo Ramos), aquela ideia peregrina de que não se podem chamar jogadores que não estejam habituados a fazer parte do grupo (impedindo-se assim a presença do defesa-central, Tiago Gabriel do Lecce, ou do defesa-direito, Alberto Costa do FC Porto, que mais se destacaram ao longo da época) ou a secundarização das caraterísticas diferenciadoras de atletas como Ricardo Horta, Rodrigo Mora ou Mateus Fernandes (comparativamente a Rúben Neves, João Félix, Samuel Costa ou Gonçalo Guedes, todos estes menos submetidos a uma continuada pressão competitiva por força de atuarem na Arábia Saudita uns ou em clubes menores de Espanha outros).


Aqui chegados, o que mais importa proclamar é que não vale a pena chorar mais sobre o leite derramado. E se a vedeta CR7 – cada vez mais irreconhecivelmente assumida à medida que envelhece – não vai ceder o seu lugar assim à pressa e ninguém o vai forçar a aceitar o facto visível da sua crescente insignificância (talvez nem mesmo a D. Dolores!), espera-se que pelo menos que os restantes 25 que estão em Palm Beach possam ser dignos das carreiras internacionais que ostentam e, apesar de Martinez e Ronaldo, demonstrem em campo contra o Uzbequistão a classe que se lhes reconhece. Não porque vamos vencer a Copa mas porque temos uma imagem que temos de honrar pelos mínimos – e até pode suceder, porque Deus é grande e os brasileiros são nossos irmãos, que venha a ser o tal egocêntrico a surgir como concretizador de um golinho que o aproxime dos 1000 que tão obsessivamente persegue.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

O “ACORDO”


(Rebecca Hendin, https://www.theguardian.com) 

O “acordo de paz” entre os EUA e o Irão é afinal um memorando de intenções, ademais suscetível de interpretações subjetivas ao sabor de interesses próprios. Acresce que as declarações ziguezagueantes, ensandecidas e infantis de Trump se somam ao sentimento de emancipação que se observa em Netanyahu depois de ter ludibriado o presidente norte-americano nas conversas que conduziram a que capitaneasse uma guerra estúpida contra Teerão. Não obstante, a comunicação social e os responsáveis políticos de todo o mundo preferem manter o seu foco na enganosa assinatura de uns papéis de teor indefinido que poderá ocorrer na Sexta-Feira num luxuoso complexo hoteleiro localizado na Suíça (mais concretamente na estância alpina de Bürgenstock, perto de Lucerna) que é propriedade do fundo soberano do Qatar liderado pelo respetivo Emir.
 
Porque a verdade é que, no final das contas, o regime ditatorial do Irão permanecerá ao contrário dos apelos de Trump à revolta do povo, o enriquecimento do urânio e o perigo nuclear ficarão menos amarrados do que o que estavam com o acordo assinado por Obama em 2018 que Trump denunciou por mero espírito de contradição face aos seus antecessores, o estreito de Ormuz abrirá, na melhor das hipóteses, como já acontecia antes dos bombardeamentos americanos, haverá restrição das sanções e desbloqueamento de ativos, serão libertados fundos para investimentos no Irão e Israel não cessará as suas desumanas agressões ao Líbano.
 
Num plano mais estrutural, o papel geopolítico da China resultará objetivamente reforçado – o que também não é indiferente aos desejos de Putin – e passos adicionais foram dados no sentido da impensável morte de uma “civilização” que nos habituáramos a encarar, apesar dos múltiplos momentos embaraçantes registados ao longo de décadas, como um garante da liberdade e de uma convivência tendencialmente justa e pacífica entre as nações do mundo – uma façanha empreendida pela dupla Trump/Vance com o inestimável contributo ativo de uns quantos radicais e de uma profundamente lastimável capitulação histórica do Partido Republicano.


(Ilias Makris, https://www.ekathimerini.com)

(Nicola Jennings, https://www.theguardian.com)

terça-feira, 16 de junho de 2026

VIVA CABO VERDE!

 

O empate obtido na tarde de ontem por Cabo Verde no seu jogo contra a campeã europeia Espanha é mais um daqueles momentos que faz do futebol um fenómeno especial. Na mesma linha de David contra Golias, tínhamos há pouco visto o Torreense a vencer o Sporting, mas aqui tivemos o elemento acrescido de tal ter constituído uma oportunidade nunca vista de reforçar a autoestima de um país de língua oficial portuguesa que é tão economicamente pobre quanto culturalmente rico. Claro que a Espanha esteve desinspirada na sua dominação em toda a linha que a levava a ocupar quase sempre o meio-campo de um adversário que defendia como podia mas com uma raça inexcedível – e se todos os atletas foram enormes, há que fazer particular justiça ao brilho exibido pelo guarda-redes Vozinha (nascido no Mindelo como Josimar José Évora Dias, 40 anos feitos a 3 do corrente, suplente na baliza do Chaves). Aqui fica, também nos muito críticos títulos dos jornais desportivos espanhóis, uma singela homenagem à prestação dos cabo-verdianos em Atlanta, uma expressão bem conseguida dos valores humanos e do inalienável patriotismo do seu povo. Viva Cabo Verde!

BALANÇO DA EDUCAÇÃO 2026

 


(Noblesse de família exige e a apresentação no Pavilhão de Portugal do relatório do Balanço da Educação 2026 elaborado pelo EDULOG da Fundação Engenheiro Belmiro de Azevedo, que teve o meu filho Hugo Figueiredo da Universidade de Aveiro como um dos coordenadores do estudo e apresentador do mesmo justificaram plenamente a ida a Lisboa e ao Parque das Nações, com o prazer adicional da presença da neta Margarida que, apesar de a braços com os exames nacionais do 9º ano não quis deixar de ver o Pai em ação. Tal como o Engenheiro Paulo Azevedo, presidente da Fundação, tinha prometido no evento do ano passado, este ano foi possível através de uma intervenção impecável em termos de rigor e sobriedade de registo de apresentação da sua parte, que é a sua marca pessoal distintiva, conhecer mais em profundidade o notável trabalho que a Fundação Engenheiro Belmiro de Azevedo está a realizar na área da educação. Esta área de atividade que representa cerca de 80% do financiamento operado pela Fundação, os restantes 20% giram em torno da biodiversidade e da integração dos problemas da velhice, apresenta um notável nível de consistência na abordagem aos problemas da educação e da aprendizagem ao longo da vida. E, face à consistência dessa abordagem, compreende-se que a Fundação queira, através do EDULOG, assumir o estatuto de “think-tank” na área da educação, publicando pela segunda vez um relatório de balanço que promova o debate aberto e rigoroso em termos de evidência convocada. É uma prática que deveria ser replicada noutros setores de política pública, que considero essencial e determinante para elevar o nível do debate público, segundo um misto de “accountability” de apresentação de resultados e de envolvimento de atores especializados em cada domínio. Com este entendimento, o contributo da Fundação Engenheiro Belmiro de Azevedo para esse desiderato é de louvar e de replicar quanto possível noutros domínios de política pública. Esse contributo completa e não substitui o contributo dos diferentes exercícios de avaliação de políticas públicas que, designadamente no âmbito dos Fundos Europeus, estão a ser concretizados.)


O relatório do Balanço da Educação 2026 é bastante abrangente, suscitando por isso múltiplas oportunidades de reflexão pública e também de desenvolvimento de investigação que eu espero que a equipa autora possa aprofundar em trabalhos posteriores, designadamente sob a forma de investigação científica publicada.

A sessão de ontem foi organizada em duas partes, com intervenção inicial do coordenador Hugo Figueiredo seguida de painéis de debate, na prática um modelo que funcionou bem e que antecedeu a intervenção final da Secretária de Estado Cláudia Sarrico, de pendor mais formal e institucional, o que teve o inconveniente de arrefecer o clima de debate anteriormente criado.

Cada uma das partes foi subordinada a uma questão central: na primeira parte, a questão central foi a rapidíssima evolução da massa e do peso de alunos estrangeiros no sistema educativo, com os desafios específicos que essa rápida evolução coloca ao sistema, designadamente num contexto em que a renovação do corpo de professores é crucial; na segunda parte, a reflexão orientou-se para o ensino superior e para a quebra verificada em 2025/26 do número de candidaturas em primeira opção, para a qual o relatório propõe uma explicação multifatorial cautelosa, mas rigorosa, mostrando que a situação combina efeitos demográficos, alterações na conclusão do ensinos secundário e profissional e mudanças na decisão dos jovens e famílias relativamente á entrada no ensino superior, ponderando entre outros aspetos os custos complementares (alojamento à cabeça) inerentes à frequência do ensino superior. Tal como o relatório bem o assinala, essa queda observada acontece com a persistência de ainda elevados retornos salariais para os diplomas superiores, com relevo principal para os mestrados, cuja probabilidade de ocorrência é mais evidente em jovens com pais mais escolarizados.

O relatório adota uma perspetiva de aprofundar a heterogeneidade crescente nos dois subsistemas, secundário científico humanístico e profissional e superior, numa lógica bem documentada de vários sistemas dentro do sistema, incluindo a diversidade dos padrões territoriais, para as quais o relatório fornece análises muito rigorosas.

No que respeita ao secundário profissional, algo que é extensivo aos CTeSP já do foro do superior profissional, o relatório tem vindo a aprofundar o conhecimento sobre a realidade dos efeitos do ensino profissional cuja importância é melhor compreendida no âmbito de territórios específicos, tanto para os cursos profissionais como para os CTeSP. Embora não existam ainda dados sobre o retorno salarial dos diplomados do ensino profissional e dos CTeSP, o relatório acrescenta em relação às análises do ano anterior novos elementos que vão viabilizando uma visão mais fundamentada sobre os efeitos desta dimensão da oferta formativa.

Embora essa questão não tenha sido ontem debatida, o relatório levanta em relação ao ensino profissional uma questão de reflexão bem importante: se mobilizarmos os dados da literacia de competências de adultos que a OCDE tem vindo a aprofundar, o sistema português parece evidenciar uma lógica de priorização das questões da certificação e piores resultados em termos de desempenho, o que é um tema a ter em conta se pretendermos que o sistema profissional se consolide.

O primeiro painel discutiu e bem a questão da transição do secundário profissional para o superior, ainda incipiente, concluindo que isso não deve ser fonte de dramatismo, sobretudo se esses jovens compreenderem que o fundamental é a perceção de que a aprendizagem ao longo da vida é algo de inevitável. As opções de não entrada no ensino superior são uma opção legítima de jovens e famílias, sobretudo se a empregabilidade e retorno salarial dos diplomados profissionais for entendida como satisfatórios. Mas nesse caso, o regresso a alguma forma de formação tenderá a impor-se no futuro e esse é que é o aspeto fundamental.

Finalmente, uma outra questão que foi debatida, mas que talvez merecesse maior atenção dos dois painéis, mas que é bem colocada no relatório, é o poderoso filtro (social) que a Matemática A representa do ponto de vista das trajetórias virtuosas dos alunos. Mas esse é um dos temas que espero que os coordenadores do estudo, Hugo Figueiredo e Carla Sá, possam nas suas tarefas mais académicas desenvolver.

Enfim, uma excelente tarde e a demonstração que a lógica de serviço público pode ser substancialmente reforçada com o contributo do setor fundacional.