segunda-feira, 4 de maio de 2026

PARADIGMAS ENERGÉTICOS

 


(Nos bons tempos que já lá vão em que lecionava economia da inovação e do conhecimento na FEP, matéria que então dominava as atenções dos estudiosos do crescimento económico e da explicação dos seus ritmos a longo prazo, havia uma matéria que prendia a minha atenção e criatividade pedagógica. Tratava-se de estudar a sucessão dos paradigmas tecnológicos e estudar as condições através das quais um determinado paradigma tecnológico se sobrepunha aos demais, dominando a cena da inovação. A dita matéria suscitava-me interesse porque era das poucas em torno das quais era possível despertar a atenção e criatividade dos alunos, a larga massa dos quais já nessa altura manifestava alguma propensão para a indiferença, não sendo fácil despertar a sua curiosidade. O valioso e diversificado material empírico já então disponível para concretizar, por exemplo, os termos da superioridade que os motores de combustão vieram a apresentar facilitava muito o trabalho pedagógico. Uma das ideias fundamentais que resultava dessa valiosa bibliografia era a de que a substituição de um paradigma tecnológico por outro mais pujante nos seus índices de inovação nunca acontecia abruptamente e com a morte súbita do velho paradigma substituído pelo novo. A luta acesa pelo mercado de inovação inscrevia-se numa duração temporal que poderia ser longa, com avanços e recuos, até que a superioridade no mercado de uma dada tecnologia era por ele assumida. Uma outra ideia chave era a de que, sendo embora um elemento fortemente influenciador, a superioridade científica e tecnológica de uma dada tecnologia poderia não bastar para afirmar a sua superioridade face às restantes, designadamente no que respeita às tecnologias incumbentes. Outra coisa bem interessante, que deixarei de fora neste post, é a luta entre diferentes tecnologias emergentes que lutam entre si para se afirmarem na superiorização face à velha tecnologia. Toda essa literatura ensina-nos que essa superiorização depende também de um conjunto de condições complementares, por exemplo a formação de qualificações intermédias e superiores para suportar a superioridade dessa tecnologia, a existência de mão de obra e de quadros especializados, a existência de serviços técnicos especializados de suporte, o modo como a I&D pública e empresarial se organiza e a própria influência das políticas públicas que tanto podem dar uma mãozinha à nova tecnologia ou defender a tecnologia incumbente.)

Este fim de semana veio-me à cabeça todo esse vasto espólio da economia da inovação para tentar compreender a sucessão complexa entre paradigmas energéticos, que se alonga já há algum tempo e sobre a qual estamos, em meu modesto entender e à luz da economia da inovação, longe de assistirmos à superiorização que muita gente espera que venha a acontecer para o campo das renováveis.

No caso dos paradigmas energéticos existem especificidades que implicam a utilização com cautela de todo o vasto espólio teórico a que anteriormente me referia. O que está em causa é a oposição entre o que por vezes dá a entender ser um paradigma em agonia, o dos combustíveis fósseis, mas que por vezes parece ressurgir das cinzas, face às alternativas das renováveis e da energia nuclear.

Em primeiro lugar, a “luta” entre estes paradigmas tem sido fortemente influenciada não por grandes e disruptivas inovações no plano estritamente tecnológico, mas antes pela pressão de condicionantes externos – em primeiro lugar a transição climática e, mais recentemente, com os acontecimentos bélicos, invasão da Ucrânia pela Rússia e ataque dos EUA-Israel ao Irão e bloqueios sobre o estreito de Ormuz - que introduzem, por si só, mudanças disruptivas no fornecimento de petróleo e derivados e de gás natural. Por outro lado, a chegada ao poder de Trump e da sua camarilha alterou de novo as regras de jogo dos estímulos da política pública, desmontando a opção da administração Biden pelas renováveis e favorecendo despudoradamente os interesses fósseis. Mas a administração Trump está hoje em apuros para acabar com uma crise energética que ela própria suscitou. Ao contrário do que seria imaginável, as grandes petrolíferas americanas da ExxomMobil e da Chevron têm-se recusado a aceitar os pedidos da Casa Branca para aumentar a produção de petróleo.

Neste contexto complexo para a clarificação de um paradigma sobre outro, o paradigma elétrico tem avançado, sobretudo na China, que domina praticamente todas as indústrias elétricas e tomou a dianteira na mobilidade elétrica. Mas a opção pelas renováveis, solar e eólica, em terra e marítima, embora em franca progressão, curiosamente até em estados Republicanos nos EUA como o Texas, continua a enfrentar argumentos de relativização do seu potencial de crescimento, como a intensidade do vento e das horas de exposição solar. Do ponto de vista do contributo das condições complementares, neste caso das atividades de investigação e desenvolvimento, podemos dizer que as renováveis têm sido fortemente apoiadas por I&D de grande valia, por exemplo em matéria de baterias e de modelos de otimização e mitigação dos efeitos decorrentes da instabilidade de produção (eólica, sobretudo) e da sua introdução em redes de distribuição que devem apresentar estabilidade, sob pena de riscos de segurança. O apagão ibérico que deixou em nós profunda preocupação poderia ter sido um excelente momento para discutir com alguma frieza e racionalidade as vantagens e inconvenientes das renováveis, mas a delicadeza política, mais em Espanha do que em Portugal, de identificação com clareza das causas do apagão tenderá a não concretizar a valia desse momento.

Mas em matéria de luta entre paradigmas, não daria por totalmente adquirida a ideia de que a opção nuclear esteja fora do combate, embora não a defenda. Essa impressão foi avivada pela leitura da entrevista de Pedro Sampaio Nunes ao suplemento P2 do Público do passado domingo, que tem a virtude de nos trazer um adepto da opção de construção de quatro centrais nucleares em Portugal, com clareza de ideias e que não esquiva ao debate. A personagem foi Diretor da Comissão Europeia para as Novas Tecnologias da Energia e secretário de Estado da Ciência e Inovação no efémero governo de Santana Lopes. A entrevista é muito informativa sobre o estado da investigação em matéria de evolução da energia nuclear e também, indiretamente, para compreender como é que esta perspetiva avalia a inelasticidade supostamente existente de aumentar muito mais a produção de renováveis.

Regressando ao meu tema de início, embora devamos reconhecer que os fenómenos exógenos da guerra tendem a introduzir nesta questão um contexto muito particular, a sucessão dos paradigmas energéticos ilustra bem a importância de um correto entendimento do modo como um dado paradigma tecnológico se superioriza a um outro. Não se trata de uma questão de superioridade tecnológica tout court. É algo mais complexo e com uma duração que, no caso da transição energética, talvez transcenda temporalmente a minha geração. A não ser que algo de imprevisível possa acontecer. Essa é a grande verdade – a inovação não se consegue antecipar plenamente, podemos, isso sim, é hoje compreendê-la depois dela se manifestar e ter conquistado o mercado.

 

 

domingo, 3 de maio de 2026

PERTURBAÇÕES DE CONTINUIDADE

(Afazeres familiares, crise de inventiva na escrita, cansaço acumulado e mal gerido, tudo enfim que possa ser invocado para justificar a fraca vontade de alternativa à página (ecrã) em branco. Neste domingo húmido que convida ao recolhimento, o tema da perturbação no mundo emerge como a tábua de salvação para evitar uma ausência ainda mais prolongada deste blogue. Temos de convir que a degenerescência democrática no mundo é algo que preexistia à data da eleição de Trump para o seu regresso à Casa Branca. Podemos ainda assim concluir que a sua primeira passagem pelo poder anunciou o clima. Mas o que não gera a menor dúvida é que o seu regresso ao poder trouxe a todos os intérpretes da degenerescência democrática um poderoso tónico e um estímulo efetivo à formação de uma Grande Internacional do despudor antidemocrático. Porque o que está a acontecer perante o olhar atónito dos que acreditavam, como eu, nos checks and balances da organização política americana é a descarada construção de jogadas de secretaria, seja através da composição do Supremo Tribunal, seja com a reorganização à medida dos círculos eleitorais para beneficiar candidatos republicanos mais próximos de Trump. Além disso, as decisões arbitrárias sucedem-se como a de incriminação do ex-Diretor do FBI James Comey, apenas pelo facto dele ter aberto uma investigação acerca da alegada influência russa nas eleições americanas. Ou a suspensão em bloco do Conselho Superior de Ciência americano presumidamente para impedir a emissão de um parecer contrário aos interesses de Trump. Parece inequívoco que esta cavalgada antidemocrática em curso na economia mais poderosa do mundo constitui um importante estímulo a todas as forças de extrema-direita antidemocrática. Se isto é possível onde se presumia a existência de checks and balances à prova de bala, expressão apropriada dada a alucinada e voraz propensão para as armas na sociedade americana, porque não, interrogam-se tais forças, ir pelo mesmo caminho nos países em que a democracia social avançou?)

Neste cenário inclinado, a preocupação adensa-se quando alguns analistas reclamam que o discurso do Rei Carlos III no Congresso americano representou a mais inteligente forma de oposição a Trump dos últimos tempos, num discurso elegante, carregado de rigor histórico e um conjunto de verdades que terão deixado a administração americana, com relevo para J.D. Vance, maldisposta com evidência tão contundente. Se assim é, e admito-o que tenha sido, o que disso ressalta para a perceção do que vale a oposição a Trump conduz-nos ao mais puro desânimo.

Estamos assim a entrar num plano inclinado de impunidade transformada em perturbação de continuidade, suspensos do grotesco como forma suprema de exercício da política. Enquanto isso, o esforço para apreender um mínimo de racionalidade e coerência em duas intervenções seguidas de Trump conduz-nos também à mais completa frustração. Entender o que se passa no “afinal quem bloqueia quem no estreito de Ormuz é tarefa também gigantesca para um vulgar cidadão que procura coerência nas coisas que desconstroem a economia mundial.

A dúvida instala-se e com razão: será que a política grotesca e gratuita tenderá a provocar reação a esse estado de coisas e abrir caminho a saídas mais airosas, bloqueando a sua disseminação pelos eleitorados europeus ou os encolher de ombros vão multiplicar-se, banalizando a perversidade?

Queria estar mais otimista. Afinal, o sol sempre se ergueu, condenando o domingo húmido ao fracasso. Mas a habituação humana à perturbação de continuidade poderá predominar em sociedades cada vez mais polarizadas que, através do exotismo e do consumo de luxo, encontrarão sempre condições para ignorar os efeitos da perversidade sobre o outro lado das sociedades.

 

CAMPEÕES IMPLACÁVEIS!

Agora é definitivo: o FC Porto alcançou o seu 31º título nacional de futebol, nada menos do que o 26º em 52 anos de Democracia. O jogo de ontem no Dragão, contra um Alverca competente e decidido a não facilitar a festa, foi morno e gerido e apenas serviu para cumprir calendário e carimbar os 3 pontos. Quase 50 mil celebraram no estádio, com muitos mais à volta do mesmo assistindo num ecrã gigante ao desenrolar da partida – depois, todos estiveram numa homenagem individualizada ao grupo de trabalho (jogadores, técnicos, staff e dirigentes) que ocorreu no coreto contíguo ao Dragão até altas horas da madrugada.

 

Dito isto, que é o que fica para a posteridade, quero assinalar dois aspetos que entendo potencialmente sintomáticos de alguma mudança em curso: primeiro, o registo de que todos os canais televisivos de notícias e todos os diários (desportivos ou não) informaram devidamente, e com o devido detalhe e a devida chamada de atenção, a conquista do título portista, a maioria assinalando mesmo a justiça assim concretizada – como se impõe mas não foi regra durante anos a fio; segundo, a transformação de Frederico Varandas no “palhaço do circo”, um palhaço rico bem entendido e sobretudo senhor de uma arrogância ridícula, de uma má-criação provocadora e de uma aflitiva falta de consistência – eles têm medo, eles não jogam nada, nada se passa a Norte foram algumas das pérolas dos mindgames primários com que tentou lançar a confusão no seio da famiglia portista (conseguindo que estas bandas já façam dos “lagartos” o seu inimigo principal, a ponto de tolerarem de bom grado as prestações dos “lampiões”) e obter para o Sporting o tricampeonato que prometera aos seus associados, acabando com o rabo entre as pernas a elogiar a inteligência de Farioli (sem deixar de apontar o dedo ao modo de estar de André Villas-Boas) e a deixar a Rui Borges (por ele convocado para um prolongamento contratual) quanto foi imprudente na gestão do plantel, ao contrário do que ele próprio – o inteligente na matéria! – teria feito (citando: “O que lhe disse é que, felizmente, eu não sou treinador. O que é que eu faria? Teria feito [gestão]. Analisando o calendário que havia de Arsenal, Benfica, FC Porto, estamos a falar de três jogos de exigência única em sete dias. Mas vou condenar o meu treinador e os meus jogadores por terem acreditado que poderiam passar às meias-finais da Champions? Eu não o teria feito. Assumo isso. Mas vou condenar?”).


(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)
 

Já sustentei neste espaço que a contratação de Francesco Farioli foi o principal elemento diferenciador do FC Porto 2025/26 – incluindo naturalmente a equipa de trabalho que formou e onde pontuaram nomes como os de Dave Vos, Felipe Sánchez, Lino Godinho, Lucho González, André Castro e Callum Walsh, entre outros – e que esse é um mérito que cabe inteiramente ao presidente André Villas-Boas. Quero hoje, ao jeito de balanço pessoal, acrescentar a este trunfo alguns outros também decisivos: (i) começo pelos constantes e, a meu ver, mais inquestionáveis – refiro-me à gigantesca qualidade de Diogo Costa, à autoridade defensiva de Jan Bednarek e ao sentido tático e energia inesgotável de Viktor Froholdt; (ii) seguem-se os que foram marcantes de modo mais pontual mas muito determinante – seleciono a rara versatilidade todo-o-terreno de Pablo Rosário, o crescimento de Alberto Costa como lateral moderno, as bolas paradas, com pinceladas de classe em campo, de Gabri Veiga e a fineza defensiva de um esteio como Jakub Kiwior; (iii) depois vêm os que já cá estavam e foram recuperados e aproveitados de modo brilhante – destaco o poder de drible e a entrega de William Gomes, a utilidade do ressuscitado Pepê, a segurança de Alan Varela e a sempre promissora presença de um Rodrigo Mora algo desfasado das exigências físicas do plano de jogo de Farioli; (iv) por fim, os que não estiveram sempre mas acabaram por ser fundamentais – sublinho os 13 golos de Samu e o golo de Luuk De Jong em Alvalade (um momento que pode ter sido o de arranque para uma primeira volta imaculada), com a lesão destes dois avançados a deixar a equipa quase sem poder de fogo à frente para a segunda parte da época, e as cirúrgicas contratações de Inverno que trouxeram o agitador da segunda volta (o jovem polaco Oskar Pietuszewski, que marcou um golo muito importante ao Benfica) e o “carregador de piano” que marcou golos cruciais (o costa-marfinense Seko Fofana com os três golos que concretizou contra o Sporting no Dragão, em Braga e nos descontos contra o Famalicão – a que se seguiria o instante mais traumático vivido no estádio nesta season). Termino, não sem escrever outros nomes que tiveram participações mais episódicas mas também contributos a registar: Zaidu, Borja Sainz, Martim Fernandes e Thiago Silva, em especial, mas ainda Deniz Gül, Francisco Moura e Terem Moffi, além do guarda-redes suplente Cláudio Ramos.



E tudo está bem quando acaba bem, sobretudo para as nossas cores. Agora, e antes do Mundial (que vaticino como um previsível flop), cabe aos da Segunda Circular mostrarem o que valem na sua disputa a dois pela presença na Champions do próximo ano.

sábado, 2 de maio de 2026

UM GOVERNADOR QUE INVESTE!

Hoje não é dia para temas muito profundos nem para denúncias de grande alcance. Fico-me por um regresso ao Álvaro que hoje comanda o Banco de Portugal, depois dos recentes mandatos de Carlos Costa e Mário Centeno e de hipóteses de escolhas como a de Ricardo Reis ou Vítor Gaspar. Em outras das vidas do senhor em causa já tivera a oportunidade de aqui explorar algumas das suas idiossincrasias, às quais não voltarei. Até porque o meu convencimento é o de que se trata de um homem de bem que mais não pretende do que tentar dar-se a notar e aproveitar os caminhos que a mediocridade dos decisores assim lhe proporcionam. O caso, que os nossos tolerantes comentadores imediatamente relevaram – porque “tudo está bem quando acaba bem” e o dito até ofereceu a instituições de bem-fazer as mais-valias que obtivera com os seus investimentos bolsistas incompatíveis com o código de conduta do BCE –, é bem demonstrativo do misto de ingenuidade e incompetência funcional que carateriza Álvaro: coitado, ele não sabia que o amável convite que Montenegro e Sarmento lhe fizeram o impedia de realizar transações privadas nos mercados, embora soubesse que o não podia fazer em relação a entidades do setor financeiro; e como somar dois e dois é coisa que tem os seus quês, Álvaro comprou Galp e Jerónimo Martins, mas também Nestlé e Navigator, evidenciando um sentido de avaliação e oportunidade na manipulação do jogo bolsista que não só acrescidamente o qualifica como qualifica também os agentes políticos que com tanta propriedade o selecionaram para um desempenho enquanto governador. Sendo ainda de referir que o que dele mais sobressaiu nestes meses de exercício, para além dos momentos habituais de apresentação de previsões macroeconómicas elaboradas pelos serviços competentes do Banco, foi a polémica que abriu junto do setor da restauração contrapondo às queixas quanto à respetiva situação por parte dos representantes dos empresários a ideia de não se tratar senão de uma “propalada crise”. Em suma: tudo a alinhar-se, comme il faut, na imensa pequenez da mais vulgar banalidade...