quarta-feira, 26 de agosto de 2026

DESDOLARIZAÇÃO DA ECONOMIA MUNDIAL: SERÁ DESTA VEZ DIFERENTE?

 


(Não é a primeira vez nos tempos mais recentes que o ceticismo sobre a capacidade de a moeda americana manter o seu estatuto incontornável de referencial das trocas internacionais se formou, seja a ocidente, seja noutras paragens da economia mundial. Mas desses surtos de ceticismo registados no passado sobre o dólar a verdade é que foram todos superados. Sabemos também que a história monetária internacional nos mostra que no passado existiram outras moedas que assumiram esse papel, com momentos de auge e outros de declínio, até darem lugar a outra moeda. Nessa perspetiva, a história diz-nos que provavelmente o dólar deixará um dia de continuar a assumir esse papel dominante. Mas não sabemos quando e como isso acontecerá, pelo que a evidência histórica não faz desaparecer a incerteza sobre esse problema. Sabemos ainda que o ceticismo de hoje está essencialmente ligado ao elevadíssimo nível da dívida pública dos EUA e ao ritmo a que o mesmo está a crescer. Ainda há dias, dediquei um post a esta matéria, invocando mais um fator de agravamento desse ceticismo – o elevado preço a que a administração americana se está a financiar a longo prazo. Este blogue é elaborado sob um compromisso rigoroso de não vender gato por lebre aos seus leitores. Em questões económicas, esse princípio concretiza-se num outro que consiste em trazer para a reflexão argumentos de gente de peso, concordemos ou não com as suas posições. Os autores deste blogue argumentam em torno de posições de gente com reconhecimento firmado entre pares e na informação económica especializada e não com base em argumentos de arrivistas ou de oportunistas que aproveitam todos os momentos possíveis para uns minutos de glória e notoriedade. Obviamente que esse compromisso não nos defende em absoluto de erros possíveis. A conflitualidade em economia existe e não vale a pena escamotear essa possibilidade. E até os mais reconhecidos entre pares. A economia não é uma ciência da previsão. É mais uma ciência que procura explicar evidência registada, esperando que dessa explicação possa resultar aprendizagem e melhores condições de previsão. Respeitando esse princípio, trazemos hoje à reflexão sobre o tema de uma eventual desdolarização da economia mundial o pensamento de um economista da Universidade de Berkeley, Barry Eichengreen, já por repetidas vezes invocado neste bloque.)

Eichengreen considera que é muito provável estarmos perante uma mudança estrutural (palavra bastante desacreditada pela direita económica mais ideológica) no ceticismo suscitado quando à capacidade de o dólar poder manter o seu estatuto de referente da economia mundial. Apresenta para isso dois argumentos, cada o qual mais relevante, que passaremos a sistematizar do modo mais breve e menos enfadonho possível.

Uma das razões principais pelas quais o dólar tem mantido a confiança dos investidores internacionais que assim financiam os défices da economia americana (externos e fiscais) assenta no respeito pelos princípios do primado da lei, da separação de poderes, da independência do banco central e do controlo da corrupção. Se percorrermos cada um destes princípios através do modo como estão presentemente a ser aplicados nos EUA, compreende-se facilmente a desconfiança alimentada por bancos centrais estrangeiros que detêm reservas de dólares e de investidores que pretendem investir em títulos dolarizados.

Em segundo lugar, há um outro princípio que a história monetária internacional nos ensina e que consiste na evidência de que a confiança numa moeda internacional como referente das trocas mundiais está normalmente associada a alianças e a cooperação estável com a nação emissora dessa moeda. Ora, também aqui, a administração Trump tem feito tudo o que está ao seu alcance para quebrar este princípio, destruindo alianças estáveis e longas.

Obviamente que Eichengreen não nos diz que o não cumprimento destas duas condições associadas seja suficiente para, por si só, conduzir imediatamente à desdolarização da economia mundial. Entre outras coisas, em meu entender, porque não está hoje claramente formada a hipótese de uma moeda alternativa. Se a capacidade do dólar for enfraquecida pelos dislates da própria administração Trump e dada a cada mais provável multipolarização da economia mundial então a génese de uma forte concorrência entre o euro e a moeda chinesa adiará por tempo indeterminado a cessação do poderio do dólar.

Mas que os dois argumentos baseados na história monetária apresentados por Eichengreen são robustos disso não tenho dúvida. Quer isto dizer que o ceticismo atual sobre o dólar referente está melhor explicado. Mas talvez apenas isso.

 

OS FELLOW AMERICANS SÃO UM IMENSO MOSAICO

 

Fascinante e imperdível a peça do “New York Times” cujo título e mapa [interativo no site] acima reproduzo (“How a Nation of Immigrants Traces Its Roots”, com assinatura de Albert Sun, Jeff Adelson e Larry Buchanan) e a que acedi por indicação da excelente colunista do “Financial Times” Rana Foroohar. Como afirmam os autores, esse é o “mapa da ancestralidade americana, que mostra como as pessoas descreveram as suas origens ao Census Bureau [U.S. Census Bureau 2019-2024 American Community Survey]” – e a verdade é que “há quase 200 identidades distintas representadas”, o que os leva a sugerir que se as combinarmos (como fazem 340 milhões de cidadãos americanos) resultará “uma infinidade repleta de histórias, entrelaçadas e sobrepostas”. Acrescentam ainda: “Muito do que vemos é uma história da imigração. Ao longo de 250 anos, o país absorveu mais de 100 milhões de pessoas. Podemos traçar as pressões que as empurraram e puxaram até aqui – e as políticas que acolheram certos grupos enquanto mantiveram outros de fora”. Em suma, numa imagem feliz: “Melting pot, tapeçaria, mosaico, caleidoscópio, tigela de salada. Cada cliché é verdadeiro.”
 
Limitar-me-ei aqui a algumas referências sugestivas e suscetíveis de levar o leitor a procurar o texto original. Começo pelas origens (primeiro mapa abaixo) e volto a citar: “Nos finais do Século XVIII, a área que se tornaria nos atuais Estados Unidos já era diversa. Pelo menos 1,5 milhões de nativos, possivelmente muitos mais, viviam ao longo do território. A eles se juntaram cerca de três milhões de europeus e de africanos escravizados vivendo em colónias inglesas e em territórios franceses e espanhóis.” Andando no tempo, um apontamento sobre o Século XIX , quando “vários massacres na Europa Oriental e as consequências da reunificação italiana provocaram um surto migratório para os Estados Unidos”, determinando a chegada de 24 milhões de imigrantes entre 1880 e 1920 com destino a uma grande diversidade de paragens (exceto ao Sul, onde a elite terratenente já dispunha de acesso a mão-de-obra barata – antigos escravos e arrendatários pobres). Depois, e enquanto as cidades iam crescendo, o peso da imigração ganharia enorme expressão e atingiria valores muito significativos (em torno de três quartos) em cidades como Boston, Chicago, Cleveland, Detroit e Nova Iorque. E por aí adiante ao longo de mais de um século e até aos dias de hoje – os gráficos mais abaixo elucidam sinteticamente sobre as origens largamente europeias dos 14 milhões de imigrantes registados em 2010 e sobre a respetiva deriva americana e asiática que posteriormente veio a conduzir aos seus 82% (contra 10% europeus) dos atuais 50 milhões; em todo o caso, importará ainda chamar a atenção para o dado interessante de a presente percentagem de imigrantes no total da população ser idêntica (15%) à do início do século passado – a despeito dos fantasmas trumpistas e similares...


A proporção de cidadãos americanos nascidos no exterior do país é, deste modo, a maior de sempre e faz com que as restritivas e autoritárias políticas de imigração da Administração Trump sejam pouco defensáveis à luz das condições demográficas prevalecentes (e, de alguma maneira, semelhantes às de há um século). Não obstante, algumas dificuldades pressentidas nas respostas ao censo determinam que uma visível e difusa mistura (ou sobreposição) de antecedentes populacionais vá de par com situações de passado desconhecido (caso, por exemplo, da frequente incapacidade dos descendentes de escravos para se ligarem a raízes muito específicas de localização).


A concluir, deixo-vos com os mapas correspondentes a algumas das grandes cidades americanas, para o que remeto para a infografia acima. A diferenciação de padrões observável é profundamente notória e constitui mais uma prova concludente da incomparável e inabalável multiculturalidade dos Estados Unidos da América que alguns movimentos políticos e doutrinários pretendem interpelar e, desejavelmente, destruir. Citando: “Cada cidade tem o seu próprio padrão distinto, visualizado num patchwork de dourado, verde e azul em Los Angeles, nos vermelhos fortes, azuis e amarelos de Chicago, numa Minneapolis púrpura, numa Honolulu verde” – e assim sucessivamente para Nova Orleães, Washington DC, Atlanta ou Detroit, sempre com referenciação a cores indicativas das origens de maior presença local. Interessante demais e autêntico serviço público à escala global...

terça-feira, 25 de agosto de 2026

UCRÂNIA ANO 35

(Nicola Jennings, https://www.theguardian.com) 

Ontem foi o dia do 35º aniversário da independência da Ucrânia, com um terço desse período a ter sido marcado por uma situação bélica mais ou menos generalizada (a questão da Crimeia começou em 2014). Os líderes europeus lá voltaram a Kiev pela enésima vez, assinalando a estreia de Andy Burnham numa comitiva política da “Coligação de Vontades” encabeçada por um António Costa que já vai em cinco visitas e que não cessa de dirigir a mesma e inútil mensagem à Rússia (“está na altura de parar esta guerra, de parar de matar pessoas, de parar de destruir infraestruturas, de parar de atacar objetivos civis e dar uma oportunidade para que se possa negociar a paz”).

Isto enquanto Ursula von der Leyen declarava em Bruxelas que “hoje, aprovámos €6,1 mil milhões para os sistemas de defesa aérea e antimíssil, mísseis, munições e radares de que a Ucrânia necessita urgentemente”, um financiamento que faz parte do empréstimo de apoio à Ucrânia de €90 mil milhões e que nos conduz a uma interrogação fundamental sobre os inevitáveis limites da dimensão do “saco” europeu visando esta finalidade, nomeadamente quando a União se defronta com uma série imensa de outras prioridades igualmente identitárias ou vitais (da competição internacional aos desafios tecnológicos, da coesão interna a múltiplas questões de affordability) – um catch 22 que não parece resolúvel, ademais com o ambiente político reinante (i.e., marcado pelo peso imobilizador da extrema-direita nacionalista) e com a mediocridade de decisores sem rasgo e capturados pelo business as usual.

 

Zelensky faz meritoriamente a sua parte e é até largamente exímio na forma e no conteúdo dos seus pedidos/ultimatos junto dos europeus e outros aliados (e, mais pontualmente, no enfrentamento da volubilidade dos americanos), também porque a necessidade aguça o engenho – o buraco do seu orçamento de defesa está nos 27 mil milhões de dólares – e porque os sinais de crise política interna (entre demissões por corrupção e o caso da rotura entre o ex-ministro da Defesa Miykhailo Fedorov e o comandante do exército do país) se multiplicam, sempre com a hipótese de realização de eleições presidenciais (devidas desde 2024 mas adiadas por força da lei marcial vigente em associação à presença de uma situação de guerra) a pairar – aqui, as opiniões populares parecem ir no sentido de favorecer a posição de Zelensky contra a de Fedorov. 

 

Em síntese, uma reiterada e desconfortável sensação de intermezzo, faltando porém saber-se o essencial: será que estão minimamente controlados os danos que uma incerteza quase radical nos faz adivinhar e será que temos algum tipo de perspetiva sobre para onde estamos a encaminhar-nos? Ou vamos confiar, de consciência tranquila pois claro, num sempre irritante e pouco persuasivo “seja o que Deus quiser”...

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

CURIOSIDADES EM TORNO DE UM REGRESSO

Começou o futebol europeu a doer (centro-me essencialmente nas “Big 5 Leagues”) no último fim de semana – início da “Premier League” inglesa, da “Serie A” italiana e da “Ligue 1” francesa, além de uma verdadeira abertura da “La Liga” espanhola (devido a Real Madrid e Barcelona também só terem arrancado neste Sábado), sendo que apenas a “Bundesliga” arranca na semana próxima –, com jogos já disputados em alto ritmo e superior nível de qualidade (destaco o Manchester City-Bournemouth e o Newcastle-Liverpool, o Atlético de Madrid-Villarreal e o Stade Rennais-PSG).

 

Dado que há muito me interrogo sobre o historial destas ligas, assumo ser hoje o momento adequado para algumas incursões de estrita curiosidade nessa matéria. Deixo aos leitores cinco infografias atualizadas sobre os grandes números de cada um desses campeonatos, deixando-lhes o espaço que entenderem para os tratarem de acordo com os seus próprios critérios e limitando-me a alguns sublinhados genéricos que me pareceram mais pertinentes.

 

Abro com a “Premier League” (“First Division” até 1991/92), em disputa desde 1888/89 (com interrupções mas Grandes Guerras Mundiais), onde a supremacia é irmãmente dividida entre o Liverpool e o Manchester United (com o Arsenal no terceiro lugar do pódio) e nada menos de 24 formações já foram campeãs (incluindo, entre os pequenos, o Leicester City em 2015/16 e o Preston North End, atualmente no “Championship”, nos dois primeiros anos de torneio em finais do Seculo XIX).

 

Prossigo com “La Liga” (desde 1929), onde a hegemonia é merengue (Real Madrid com 36 títulos) e os catalães do Barça são o grande challenger (29 conquistas) e um total de 6 equipas já venceram o troféu (Bétis, Sevilha e Corunha somente uma vez e Real Sociedade por duas vezes, com Atlético de Madrid, Atlético de Bilbau e Valência a serem os segundos melhores por esta ordem).


Em seguida, veja-se a “Bundesliga” (lançada em 1963/64) e a sua antecessora, com os registos iniciais a datarem de 1903 e a serem fortemente influenciados pelas vicissitudes político-militares do Século XX (note-se, por exemplo, que o Rapid de Viena foi campeão alemão em 1941 e que o primeiro vencedor foi o Lokomotiv de Leipzig), onde o destaque absoluto é do Bayern de Munique (35 vitórias contra 9 do segundo mais titulado e atualmente muito afastado das grandes lides, o FC Nurenberga, e 13 dos últimos 14 títulos disputados, quebra apenas ocorrida devido à conquista do Bayer Leverkusen de Xavi Alonso em 2014) – outras equipas a registar são o Borussia de Dortmund em terceiro lugar histórico (8 vitórias) e o Schalke 04, o Hamburgo, o Estugarda, o Borussia de Mönchengladbach, o Werder Bremen e o FC Kaiserslautern com mais de três e por ordem decrescente de sucesso.

 

A “Serie A” é toda uma outra e rica história que vem de 1898, onde pontua a “Vecchia Signora” (Juventus de Turim) com os seus 35 títulos, muito à frente dos rivais milaneses (Inter e AC Milan, por esta ordem) e, obviamente, dos restantes treze que já levantaram o troféu e nos quais se contam equipas hoje relativamente modestas no contexto (Génova, Bolonha e Torino) e uma que anda pela “Serie C” (Pro Vercelli), todas em posição mais saliente do que o Nápoles, a Roma, a Fiorentina e a Lázio).




Termino com a “Ligue 1”, onde já se registaram 19 vencedores (se considerarmos o período pré-histórico iniciado em 1894 seriam 28) com o recente domínio avassalador do PSG (doze dos últimos catorze títulos disputados, já sob o controlo de um grupo do Catar) a já ter ido a ponto de o tornar o clube historicamente mais vezes ganhador (apesar de apenas ter sido criado em 1970); o “velho” Saint-Étienne (por onde andou Michel Platini e que está agora na divisão secundária) e o Olympique de Marselha estão taco-a-taco no lugar de segundos (dez ligas, embora os marselheses dele tenham sido despojados em 1992/93 por corrupção), o Monaco e o Nantes são terceiros (oito ligas), seguindo-se-lhes o Olympique Lyonnais (curiosamente com a sequência recorde de sete vitórias entre 2002 e 2008, aliás as únicas conseguidas pelo clube) e o Girondins de Bordéus e o Reims à frente do Lille (que ostenta também o prestígio de um dos seus fundadores, o Olympique Lillois, ter sido o primeiro campeão) e do Nice.

 


Não haverá propriamente conclusões a retirar de todo este panorama, mais pleno de informações curiosas do que de qualquer tipo de lições que não sejam as enormes diferenças existentes entre as várias realidades sob cotejo. Talvez que a mais óbvia moral a retirar de todos os elementos apresentados seja a de ali residir um dos fundamentos da força do futebol inglês de clubes – muito mais concorrencial do que os restantes quatro considerados – e, em alguma medida, do interesse competitivo (embora com perdas qualitativas associadas a uma menor capacidade financeira) da “Serie A” italiana. A liga espanhola situa-se numa posição intermédia, por força da expressão incomparável da realidade Real-Barça (com o Atlético a cheirar um espaço de entrada), enquanto os campeonatos alemão e francês começam a ser mais marcados pela disputa dos lugares seguintes ao vencedor e às qualificações para a Champions. Realidades estas, todas elas, que os sinais existentes tendem a apontar como em vias de prolongamento na época que se inicia – as perguntas de mais difícil resposta vêm de Inglaterra e Itália, onde a hierarquia de maio de 2027 surge como altamente imprevisível.

O ABSURDO DA FOME É DOMINANTEMENTE AFRICANO

 


(Andava muita gente convencida que isto das mudanças climáticas poderia estar a beneficiar o centro e o norte atlântico e julho e a primeira metade de agosto pareciam confirmar essa previsão. Mas todo o litoral centro e norte está a braços com borrascas e chuva que bastem, com forte prejuízo para os que decidiram vir até Caminha nesta semana de 24 de agosto, que assim terão de desafiar a sua imaginação mais criativa para justificar viagem e investimento que fizeram. Os que já cá estão há mais tempo, como eu, encolhem os ombros, afinal o hábito vem de longe e transformam-se em ruminantes do tempo e da reflexão. É nesse contexto que surge a reflexão de hoje. Em tempos de avanço tecnológico como os que vivemos é um absurdo estranho e incompreensível trazer a FOME para o centro da reflexão. Mas se pensarmos bem, esse absurdo não é de hoje, foi recorrente no passado. A escassez ou a inexistência de alimentos para alguns sempre foi inexplicável considerando o potencial tecnológico e de produtividade. É verdade que se conseguiram progressos assinaláveis na redução da pobreza absoluta, graças especialmente aos avanços na China, mas essa redução não logrou erradicar o espectro da fome. Essa mancha negra está hoje essencialmente centrada no continente com maior potencial demográfico do mundo, o que constitui em si próprio um sinal cruel dos nossos tempos. O continente que melhor poderia tirar partido do potencial demográfico que apresenta, quando o mundo dominantemente envelhece, é também aquele em que os problemas da subnutrição e da fome mais estão localizados. Além dessa mancha global, as imagens que nos chegam de Gaza prolongam essa dura realidade a uma população que está a mercê da mais cruel violência israelita. Sim, pelo que está a perpetrar em Gaza e na Cijordânia, Israel está por sua conta e responsabilidade a esvair a memória do Holocausto que ficará para o mundo nos tempos vindouros.)

O estado da saúde alimentar e nutrição no mundo recentemente publicado por instituições internacionais a FAO das Nações Unidas, o Programa Alimentar Mundial e o IFAD (International Fund for Agricultural Development) alerta-nos para a existência no mundo de 7,8% de incidência de fenómenos de subnutrição na população mundial e para 644,6 milhões de pessoas nessa situação. Se no plano global a incidência da subnutrição está praticamente constante, com ligeiríssimas descidas nos últimos 15 anos com aumento do número de pessoas em situação de subnutrição, o que poderia alimentar algum ligeiro otimismo sobre a possibilidade de fazer baixar esses números com uma melhor utilização e distribuição do potencial tecnológico existente, quando olhamos para a distribuição espacial do fenómeno esse otimismo desaparece. A África emerge com números devastadores – 20% de taxa de incidência de fenómenos de subnutrição e mais de 50% das pessoas nessa situação, estimadas em 309,2 milhões de indivíduos.

São números avassaladores, que o são tanto mais quanto se sabe que o crescimento económico não está ausente nas duas últimas décadas do continente africano e que aquele continente apresenta, no contexto de envelhecimento mundial galopante, um potencial demográfico indesmentível.

O paradoxo a que aludia parece estar a transformar-se num problema dominantemente africano, com especial relevância na África subsaariana.

Quando a Europa se choca e até enraivece com o fenómeno das migrações e com a cor da pele dos que conseguem desesperados chegar a um destino alternativo, como em Ceuta, talvez fosse conveniente recordar estes valores sobre a subnutrição e sobre a fome e sobretudo interrogar-se sobre o que fizeram e o que podem fazer no futuro para o mitigar.