(Chegou-me hoje à caixa do correio eletrónico o Relatório de Atividades de 2025 do INESC TEC e o seu valioso conteúdo é um belo e fundamentado pretexto para uma breve reflexão sobre o que a trajetória desta instituição representa como indicador do que pode ser a evolução da ciência e tecnologia em Portugal. Acompanhei de perto no âmbito da minha vida académica e profissional a génese da criação das instituições de interface Universidade-empresa, fortemente alimentada por gente ligada à tecnologia que regressava ao país com doutoramentos de grande qualidade realizados em instituições americanas e europeias muito prestigiadas. A visão que traziam da ciência e tecnologia que por lá se fazia contrastava obviamente com o estado de letargia das instituições universitárias, com algumas exceções de que seguramente a Faculdade de Engenharia do Porto era um bom exemplo. A dinâmica dessas instituições de interface cedo se revelou uma lufada de ar fresco no sistema científico e tecnológico, com progressão não necessariamente homogénea, mas abanando definitivamente a instituição universitária e a investigação e desafiando a própria Universidade a conviver com essa nova realidade institucional. O que me parece espantoso no INESC TEC, fórmula institucional que resultou ela própria de inovação institucional e de autonomização de um projeto que começou com dimensão nacional, o INESC, é o modo de êxito com que se processou a evolução geracional na instituição. Hoje, quando leio o relatório de 2025 e me fixo nas fotografias que o acompanham já obviamente não reconheço praticamente ninguém da geração que fez a “revolução na ciência e tecnologia” (com exceção do Professor José Manuel Mendonça), embora muitos deles estejam ainda ativos como Professores Eméritos. Mas a maneira como a sucessão aconteceu é seguramente um caso de estudo numa instituição que já ultrapassou os 40 anos de vida e que continua a notabilizar-se com uma trajetória de progressão, que honra o próprio conceito de inovação.)
Os números que o referido relatório projeta na nossa atenção são de facto um espanto, mostrando-nos com evidência suficiente o que é efetivamente uma massa crítica de investigação e translação de conhecimento, em oposição clara aos movimentos de atomização e não consolidação institucional que resultam frequentemente da multiplicação de iniciativas em busca de financiamento quje por vezes se instala neste domínio.
Os números publicados são, de facto, impressionantes. Chegar praticamente a em 2025 aos 40 milhões de euros de financiamento, dos quais a maior fatia (15,5 milhões de euros de programas de cooperação com a indústria, quase 40%), representa um feito, que é em si um farol de orientação para a investigação e transferência de tecnologia. O financiamento via FCT foi apenas de 1,6 milhões de euros, os serviços e consultoria de investigação nacional e internacional de 3,9 milhões de euros e o financiamento europeu (beneficiário destacado do programa HORIZON) 11,6 milhões de euros. A ideia de massa crítica agiganta-se quando percebemos que a massa de recursos humanos é de 1.199, dos quais 272 têm ligações a Faculdades, que 401 dos investigadores em exercício têm doutoramento e que acolhe ainda 125 técnicos de I&D com doutoramento, a que se juntam mais 166 técnicos de I&D.
Com base na AMP, a rede INESC TEC transcende hoje essa localização, como a figura anterior o evidencia.
É importante assinalar que o INESC TEC se afirma cada vez mais como uma instituição de ciência e de tecnologia. As suas áreas científicas com investigação relevante publicada estão bem definidas: inteligência artificial, bioengenharia, comunicações, ciência e engenharia de computadores, fotónica, energia, robótica, engenharia e gestão de sistemas. Mas a dimensão da inovação está bem definida, aliás comprovada pelos resultados alcançados em termos de registo de patentes (56 famílias de patentes ativas): agroalimentar, comunicações, energia, saúde, indústria, mar. Nesta última dimensão, o INESC TEC tem sido uma das raras instituições nacionais consequentes em matéria de investimento na nossa tão proclamada vocação marítima. O recente lançamento do INESCTEC.OCEAN, Centro de Excelência em Investigação e Engenharia Oceânica, assinala bem a coerência desse empenho, capitalizando conhecimento que a instituição tem desenvolvido em áreas que cruzam a economia azul, como a robótica marinha e a energia, por exemplo.
A trajetória traçada pelo INESC TEC nestes 41 anos de atividade mostra com clareza como é possível desenvolver no contexto de uma instituição de referência uma articulação inteligente entre investigação científica, inovação e transferência de conhecimento e tecnologia. O que não significa que essa mesma instituição não seja dinâmica na cooperação no interior do próprio sistema de inovação regional Norte e também no próprio sistema nacional de inovação.
Penso que a Faculdade de Engenharia do Porto tem gerido bem a interação com uma instituição que teve nela a sua origem, o que não significa inexistência de tensões e a própria Universidade do Porto pode capitalizar o facto de ter no seu ecossistema uma instituição com esta pujança.
Instituições como o INESC TEC, mas também como o INEGI e o I3S, por exemplo, são em meu entender o farol para seguir e orientar a evolução do sistema científico e tecnológico nacional. Obviamente que nem todas as instituições existentes conseguirão atingir a excelência e a massa crítica aqui bem evidenciadas. Mas esta parece ser a orientação certa. E a dinâmica de autonomia que estas instituições tenderão a consolidar significará que serão as Universidades a ter de adaptar-se a esta realidade e não o contrário. Por isso, considero que a leitura deste relatório de atividades é uma excelente oportunidade para compreender os rumos futuros do sistema de ciência e tecnologia em Portugal. Oxalá assim suceda e que a nova Agência, que funde a FCT e a ANI, mesmo que criticada, possa compreender que esta é a orientação mais promissora.






