(As discussões sobre a dívida pública americana são recorrentes e até, por vezes, fastidiosas. É que nos últimos tempos as administrações americanas podem dar-se ao luxo de permanecer duradouramente em posição deficitária, pois existiram sempre investidores internacionais, designadamente asiáticos, dispostos a financiar esses défices, adquirindo títulos americanos. A esta possibilidade permanente não é estranho, como se compreende, o papel do dólar como moeda de referência e de reserva internacional. Assim sendo, se o tema é recorrente e enfadonho, que razões terá este Vosso Amigo para o trazer de novo a este espaço de reflexão? Não vou arriscar invocar a velha máxima de que “desta vez tudo será diferente”, mas a verdade é que as condições em que os americanos estão a financiar a sua dívida se alteraram profundamente nos tempos mais recentes. O que mudou então para o tema deixar de ser enfadonho? O que está a acontecer é que os custos aos quais a administração americana se financia estão a subir vertiginosamente. Um simples número permite dar conta desta importante alteração: se em 2021 o Tesouro americano emitia títulos de longo prazo a 30 anos à taxa de 1,7%, essa taxa subiu nos últimos dias para 5,3%, o que significa que a administração americana já não se financiava a um custo tão elevado desde 2007, quando se iniciou a Grande Recessão.)
Enunciada a importante diferença, podem questionar-me com a velha expressão “so what?” Não se tratará de uma simples questão de mercado que tenderá como muitas outras a autorregular-se? A questão não é tão simples como isso, pois no contexto internacional de hoje e no contexto de guerra que a administração Trump fez ele própria eclodir (caso do Irão) ou tardou em travar (Ucrânia), os americanos necessitam imperiosamente de aumentar despesa pública ou, pelo menos, a realocar profundamente os seus padrões de escolha pública.
O que parece estar a acontecer é uma espécie de tempestade perfeita fortemente penalizadora das condições em que a administração americana pode financiar-se.
Por um lado, temos uma convergência algo estranha de procura de financiamento de longo prazo com origem na própria administração Trump e nas grandes empresas tecnológicas que, desvairadas com as perspetivas lucrativas anunciadas para a inteligência artificial buscam desesperadamente financiamento para os seus investimentos disruptivos. Um especialista destas matérias, Mohamed A. El-Erian, estima que os gigantes tecnológicos depois de terem vendido em 2026 cerca de 500 mil milhões de títulos, necessitarão ainda de cerca de 300 mil milhões de dólares para concretizar os seus planos de investimento. Por outro lado, os compradores habituais da dívida americana, os asiáticos, estão numa de procura de outras oportunidades de colocação de poupanças excedentárias, que dá origem a uma mudança de detentores desses mesmos títulos, que passam de mãos mais estáveis para investidores mais voláteis. A estas manifestações, teremos de acrescentar o aumento dos prémios de risco, impulsionado pelas condições de incerteza bélica e pelos riscos inflacionistas que estão vivos, apesar dos agentes económicos não terem perdido a sua confiança no FED USA e nos seus propósitos de respeitar a meta dos 2% de aumento dos preços.
Obviamente, que as condições altistas de subida dos custos do financiamento a longo prazo não esgotam as suas consequências no mercado americano. Daí que a matéria se tenha transformado em problema do G7.
Não é ainda claro o que as autoridades americanas poderão fazer para controlar esta pressão altista do financiamento de longo prazo. Fala-se que poderá intervir com condições apetecíveis de recompra dos títulos a longo prazo, de maneira a tentar rebaixar os rendimentos dos mesmos. Mas uma coisa é certa. A economia americana vive mais um indicador de preocupação, o que adensa a cor negra do cenário económico com que as intercalares de 2026 irão ser realizadas.










