domingo, 6 de setembro de 2026

O 39 JÁ NO PAPO OU OLHEM QUE NÃO?

 

Creiam-me: este desabafo não é clubisticamente inclinado, antes se pretende largamente objetivo e ilustrador, à sua maneira, de uma das razões pelas quais o País não sai da cepa torta (põe as fichas todas no mesmo adorado cavalo e fica cego, surdo e mudo perante o resto do que se lhe oferece).

 

É por demais doentia a fixação do comentariado nacional com tudo quanto respeita ao SLB. Sem celebrarem uma vitória em campeonato desde 2023, os ditos estão tão sedentos e famintos quanto obcecados com o facto e desculpam-se com a necessidade imperiosa de manterem grandes audiências e captações de publicidade para discutirem durante horas a fio tudo o que conseguem encontrar como motivo de interesse (?) e que tenha proveniência do Seixal e da Luz. A coisa alcançou níveis paranoicos neste Verão, sobretudo em torno da aquisição de um João Palhinha que a cada hora ia sendo apresentado como “a última Coca-Cola do deserto” e, portanto, como a garantia última de um título que não fugiria/fugirá em maio de 2027 (somado a uma vitória anunciada como quase certa na Liga Europa), tal como alegadamente deveria ter ocorrido com a tão festejada compra de Richard Ríos ao Palmeiras por 27 milhões de euros no defeso do ano passado (e agora recambiado para a Arábia Saudita, à falta de outro encaixe satisfatório) – um Palhinha ainda sem ritmo competitivo que imprevistamente foi levado a estrear-se na Segunda-Feira passada contra o Estoril por lesão de Barrenechea e um Palhinha que fez uma exibição razoável (até porque o jogador é bom e não sabe jogar mal) embora longe de excecional, mas um Palhinha que logo logrou a atribuição do troféu de MVP do encontro numa mui eficaz joint-venture entre a Benfica TV e a Sport TV (!).




Veja-se agora o caso deste início de campeonato com as duas vitórias fora por parte do Benfica (uma com um inabitual 7-0 ao Casa Pia e outra, ontem, com um 3-0 ao Marítimo). Pois nada melhor do que sublinhar tão estranho recorde com um “Benfica escreve história” (primeira vez que faz dez golos nos dois primeiros jogos fora) ou com um “Benfica arrasador” que só convence os convertidos irrecuperáveis porque destituídos de critério e, portanto, sem emenda no seu horizonte vital! No que me toca, aguardo por maio de 2027 para endereçar os parabéns àquele que vier a ser o campeão nacional...


sábado, 5 de setembro de 2026

QUE VENTOS FUTUROS SOPRARÃO DA SAXÓNIA?

 


(De todas as extremas-direitas europeias a que me inspira maior preocupação é a da AfD alemã. A razão é a sua maior consistência, acondicionada numa preparação de longo prazo, que começa a germinar a partir da integração dos territórios e gentes da ex-RDA na Alemanha, cujos resultados estão longe de corresponder à esperança da ocidentalização da anterior influência soviética e sobretudo às expectativas dos que viram o desmoronamento do muro como um novo princípio de vida. Estou em crer que a AfD já não o epifenómeno reversível e conjuntural que se esperava que fosse. Esta força política começa a estar enraizada na sociedade alemã e a consolidar apoios no eleitorado. Tudo indica que muito rapidamente vai deixar de ser um produto exclusivo dos territórios da ex-Alemanha de Leste, embora tenha neles a sua origem e o conjunto de condições políticas favoráveis que acompanharam o seu crescimento. Em meu entender, o seu crescimento e enraizamento no eleitorado vai emergir em alguns estados da Alemanha mais desenvolvida, como se a capitalização do descontentamento ultrapassasse as baias de uma integração económica inacabada e insuficiente para lograr o nivelamento das condições de vida entre os Lander de leste e o restante território mais desenvolvido. O impacto do crescimento da AfD vai ser disruptivo na situação política alemã e, por essa via, vai acabar por transmitir-se às instâncias comunitárias, com sérias repercussões na já de si problemática política de defesa europeia. Está por esclarecer qual vai ser o posicionamento da AfD em matéria de governação relativamente à Rússia de Putin. Na encruzilhada social, política e económica em que a Alemanha se encontra, as eleições do próximo domingo no estado da Saxónia emergem como um marco que irá seguramente condicionar o futuro e os sinais que as sondagens nos trazem são efetivamente preocupantes. Estamos a falar de um estado em que cidades como Leipzig e Dresden pontuam e isso basta em meu entender para ler com atenção que ventos irão soprar a partir das eleições de domingo.)

As sondagens disponíveis apontam para uma massa eleitoral previsível de cerca de 40% ou mais do eleitorado, pelo que a indeterminação de domingo próximo não estará na vitória da AfD, mas antes na possibilidade da maioria absoluta acontecer, o que conduziria pela primeira vez a AfD à governação regional. Certamente que isso implicaria uma nova trajetória a nível nacional, alterando disruptivamente o equilíbrio entre as principais forças políticas.

A Saxónia é hoje o estado mais envelhecido da Alemanha. O estilo da campanha política é essencialmente de tipo comunitário, com a realização de grandes festivais populares, tipicamente alemães, que a convivência dos candidatos a eleitos com os eleitores é muito forte e intenso, cultivando o que parece ser um estilo de política essencialmente destinado a combater o estado de isolamento, abandono e descrença que conduzir à presente situação.

Fonte: https://www.ft.com/content/bf518b6c-ca5c-49d3-b16a-4aa5bcf25ed9?syn-25a6b1a6=1
 

Mesmo na hipótese da AfD não conquistar a maioria absoluta e ficar à mercê da barragem que as restantes forças políticas irão provavelmente manter para afastar a extrema-direita da governação, o grande ajuntamento que essa barragem poderá significar não representará nada de substancial em termos de um rumo futuro para combater a depressão da Saxónia. Será uma amálgama de posições, determinada pelo espírito de barragem e não por opções de governação e desenvolvimento, o que dificilmente contribuirá para combater o descontentamento que convergiu nos referidos 40%.

Do que vai sendo conhecido da campanha da AfD na Saxónia parece emergir um outro conceito de ação política, menos baseada em drivers políticos disruptivos, mas antes focada no florescimento da ideia de festa eleitoral. Num cenário de envelhecimento tão pronunciado como o deste Estado, é bizarro que as deportações e a política anti-imigratória tenham tanta força, pelo que poderemos entender esse conceito como tentando esquecer esse ambiente de derrota, apesar das políticas natalistas promovidas pelos conservadores que sempre governaram a Saxónia. A miragem de que o problema demográfico pode ser resolvido por políticas natalistas vai exigir uma ideia de festa permanente. Mas quando a festa acaba, a realidade impõe-se.

 

 

OS MACACOS DO CAOS

Paul Krugman (PK), o Prémio Nobel da Economia mais português de todos quantos (ele que passa temporadas no Algarve, onde parece ser proprietário de uma residência, e anda frequentemente por Lisboa, onde consegue manter amizade com um seu colega de tempos universitários com os atributos de Jorge Braga de Macedo), continua de pena muito afiada (em quantidade e qualidade, sublinhe-se, também com uma agudeza crítica assinalável em relação ao trumpismo) e prossegue no “Substack” a senda dos longos anos que assinou no “New York Times”. Um dia destes trarei aqui alguns elementos mais substantivos dos seus contributos recentes mas hoje limito-me a um texto ali publicado e a que achei graça (“The Hits Keep Coming”) pelo facto de deixar manifesto quanto já não suporta as realmente insuportáveis diatribes de “Donald Trump e companhia” – o dito artigo explicita em subtítulo ao que vem (how much chaos can the economy take?) e desenvolve-se de modo sucinto em torno de “boas notícias” e “más notícias”.

 

A boa notícia apontada tem a ver como o facto de que “a economia dos EUA se mostrou notavelmente resiliente desde que os "macacos do caos" — vulgo Donald Trump e sua comandita — assumiram o controle do zoológico”, apesar de ter vindo a verificar-se a produção de “choque atrás de choque”(designadamente: guerra comercial, conflito com o Irão, quebra de relacionamento com os países aliados, degradação da capacidade e da competência do governo dos EUA, deportações em massa, subida das taxas de juros de longo prazo para níveis que não se viam há décadas). Quanto às más notícias, PK aponta o facto de os choques prosseguirem, o que determina que os investidores e as empresas percecionem que os choques provocados por Trump não são eventos isolados a que conseguem adaptar-se, com maior ou menor dificuldade, se os assumirem como um “novo normal” mas correspondem a “ameaças existenciais” (caso da indústria automóvel, dos stocks de armamento sofisticado ou do nível das taxas de juro) insuscetíveis de serem integrados em mínimos de previsibilidade e consequente resposta apropriada por parte de qualquer gestão empresarial. Ou seja, e citando: “Talvez a economia consiga lidar com o caos crescente. Mas o facto de ter conseguido andar para a frente até agora, mesmo com dificuldades, não garante que ela conseguirá lidar igualmente bem com os sucessivos golpes que continuam a surgir.”

 

E é aqui que reside, nem mais, a incerteza que dá corpo ao drama que carateriza o atual momento da (des)ordem internacional que Trump tão irresponsavelmente comanda.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

ENTRETENGA

 


Ouvindo as notícias destes dias e os comentários por elas suscitados não pude deixar de pensar numa pessoa próxima e entretanto desaparecida que inventou a palavra em título e a utilizava com frequência a propósito das minudências com que grande parte dos portugueses perdem o seu precioso tempo. No caso, a questão é esta: enquanto na Europa se debate com preocupação a “guerra híbrida” que a Rússia vem recrudescendo – a ponto de nos fazer recear por qualquer coisa mais efetiva e com consequências imprevisíveis –, os nossos políticos e analistas enchem o seu quotidiano com fait-divers absolutamente marginais e ridiculamente explorados.

 

O pretexto já vem do início do Verão com os diversos desenvolvimentos do chamado “caso Luís Neves” mas ganhou contornos inacreditáveis com as afirmações do ministro da Administração sobre a sua permanência no Governo (numa lógica tipo “daqui não saio, daqui ninguém me tira”). As reações políticas vão de mau a péssimo: o PSD, guiado pelas chocantes intervenções públicas de Hugo Soares e Sebastião Bugalho (eles acharão mesmo que alguém os leva a sério na sua imparável demagogia e até desonestidade argumentativa, até porque já não é Carnaval para que ninguém leve a mal?), faz de conta que impera a normalidade e insiste numa equidistância entre a oposição do PS e do Chega e em que o que importa é a sua excelente governação de cariz reformista; o Chega e André Ventura fazem o costume, i.e., aproveitam os deslizes do ministro para uma chicana politiqueira que acabou na apresentação ilícita de uma moção de censura ao Governo; o PS diz e faz o que pode, com as cautelas que caraterizam José Luís Carneiro a sobreporem-se a todo e qualquer rasgo maior que pudesse irromper (embora o taticismo em presença possa vir a ser remunerador, sobretudo em função das circunstâncias que se observam no entorno); a Iniciativa Liberal não sabe de que terra é, ora se apresentando como o arauto de iniciativas de toda a natureza (incluindo uma “iniciativa estrutural!) ora pedindo a demissão do ministro e pondo em causa o primeiro-ministro; o Presidente da República, esse, mantém o silêncio, tolera que falem em seu nome (mesmo que seja apenas para mostra de serviço ou autoafirmação, como nos casos de Adalberto Campos Fernandes e de Álvaro Beleza), vem depois declarar (sem autorizar imagem) que ninguém o pode fazer e parece hesitar quanto ao que lhe cabe numa situação tão insólita e degradante com a que está instalada. Por seu lado, o desempenho dos editores e comentadores não é de molde a justificar mais conversa, conquanto não passem quase sem exceção de um produto do que mexe e ralha em cada dia e hora e não do que interessa ao País e à nossa vida coletiva.





Entretenga, pois, mas com consequências previsíveis que vão muito para além do lazer e da fruição...