segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O QUE FAZER COM A EXTREMA-DIREITA ALEMÃ?

 


(A consistência das diferentes sondagens sobre as eleições regionais na Saxónia alemã anunciava o pior. As nuvens negras foram plenamente confirmadas. É um facto que a maioria absoluta não aconteceu, esteve por um triz, mas o resultado não admite outras interpretações que não a evidência de que se tratou de uma vitória retumbante da AfD. É cedo para compreender se os resultados de ontem irão ou não abrir um caminho de generalização a outros Estados e, se mais tarde ou mais cedo, os resultados nacionais vão refletir esta dinâmica de vitória da extrema-direita. Mas que vamos assistir à tentativa de forte capitalização desses resultados, isso não me suscita quaisquer dúvidas. Por agora, o tema relevante a discutir é o de saber que posicionamento tomar em relação à hipótese da AfD assumir a governação efetiva daquela região alemã. Tal como o expressei no meu último post, a hipótese de constituição de uma vasta coligação de resistência e barragem da chegada ao poder da AfD não me convence. Em primeiro lugar, porque a maioria absoluta está ali ao virar da esquina. Em segundo lugar, porque o espectro de forças políticas é demasiado vasto, não sendo possível vislumbrar um governo minimamente consequente, cuja ineficácia tenderia a lançar as bases da pretendida maioria absoluta por parte da AfD. Não me imaginaria, muito sinceramente, a escrever o que vou expressar de seguida. Mas, avaliando bem a situação politicamente criada, entendo que seria favorável admitir a hipótese de governação por parte da AfD, sujeitando essa mesma governação a um controlo rigoroso de medidas, vetando no parlamente regional as que anunciassem a perversão da democracia regional. É seguramente um risco, até porque a AfD em plena governação pode desenvolver estratégias de recuo face ao seu programa e convencer os eleitores de que não são um inferno político. Por outras palavras, permitir que a extrema-direita continue a não enfrentar o ónus da governação vai continuar a engrossar o seu capital eleitoral, por muito que isso custe e o que isso possa representar enquanto risco de adulteração por dentro das condições democráticas.)

O tema é incómodo e perverso nas suas últimas consequências. Mas foi o voto democrático, praticado na sequência de uma campanha eleitoral de festa e proximidade, que conduziu a AfD a estes resultados e, isso, por muito que nos custe, foi o que aconteceu. Estimo que os conservadores alemães de Merz, o SPD e o Die Link, antigos comunistas com raiz na RDA, possam ter a nível nacional pesos eleitorais algo superiores aos que revelaram ter no passado domingo na Saxónia. Se for assim, a chegada possível da AfD à governação nacional estará mais dificultada, a não ser que o estilo praticado na Saxónia se dissemine por outras regiões, atraindo novos eleitores.

Sinceramente, não vejo outro rumo que não sujeitar a Saxónia ao ónus da governação da extrema-direita. A opção não está isenta de riscos, tenho consciência disso. Mas considero que o risco de uma solução pantanosa, sem criação de uma alternativa de barragem consistente, é bastante mais elevado e conduzir a AfD a uma vitimização que será obviamente ouro para as suas pretensões futuras.

À medida que o puzzle eleitoral alemão se vai compondo, a ideia de que a reunificação alemã foi um êxito é cada vez mais um campo para evidência esfarrapada. Penso que a União Europeia demorou demasiado tempo a compreender essa realidade e agora corre o risco de ser ultrapassada pelos acontecimentos, com a política de segurança e defesa europeia no centro dessas preocupações.

 

SISMO NA ALEMANHA

(Pascal Gros, https://x.com/GrosPascal)

O que está há anos a ocorrer na Europa (e também noutras partes do mundo que agora não vêm ao caso) é algo de efeito equivalente ao daquela máxima que começa por dizer “de derrota em derrota...” e de que sempre tendemos a não ir até ao seu termo para dar espaço a que alguma réstia de esperança salvadora possa emergir, o que se tem saldado por sucessivos contentamentos com situações de “mal menor” que vão adiando a chegada de um mal verdadeiramente péssimo e definitivo. As eleições de ontem no estado alemão da Saxónia-Anhalt (ou Alta Saxónia) poderão ter resultado num desfecho desse tipo ao darem lugar a uma vitória esmagadora (a escassos três lugares da maioria absoluta) do partido de extrema-direita (AfD), uma vitória que é tão-só a primeira a acontecer na Alemanha desde os tempos de Hitler!




O candidato que liderava a lista do partido (Ulrich Siegmund) será agora, com toda a probabilidade, o novo governador regional, persistindo apenas a dúvida sobre se comandará em minoria (confortável, todavia) ou se logrará uma coligação com o partido recentemente criado por Sahra Wagenknecht (BSW), proveniente do “Die Linke” mas senhora de opções políticas e programáticas de pendor heterodoxo e dificilmente compatíveis com qualquer tradição de esquerda (por muito que seja tempo de questionar os inquestionáveis, como se consegue ser, simultaneamente, anticapitalista, pró-russo e anti-imigração?).

 

Acresce a natural euforia que se instalou nas hostes lideradas por Alice Weidel, que já veio a terreiro na procura de aproveitar o mood dos eleitores e de pedir a convocação de eleições legislativas antecipadas no país. No entanto, o estado ontem vencedor – podendo indiscutivelmente ser motivo de efeito-demonstração – é demasiado pequeno e específico para que se alargue a toda a Alemanha essa ideia de uma nacionalismo novamente dominante. Como quer que seja, o chanceler Merz não vai ter vida fácil nos tempos mais próximos, ele que parecia dotado do perfil certo para “aguentar os cavalos” e recolocar a economia e a sociedade alemãs nos carris mas que surge cada vez mais encarado como uma escolha falhada. E por falar em falha, já começam a ser muitos aqueles a quem não escapou o facto (indesmentível?) de que ontem se deu também o fim definitivo da respeitabilidade política de que longa e largamente gozou Angela Merkel junto da maioria dos seus concidadãos.

 

O sinal está dado, os acontecimentos subsequentes suceder-se-ão sem apelo nem agravo e as surpresas poderão igualmente aparecer, mas uma coisa é inequívoca: se nada for feito para inverter o atual estado da arte política na Europa, vamos seguramente penar forte e feio com o que aí poderá estar a germinar...



NUNO CARDOSO

O desfecho era previsível, depois de a informação inicial da doença ter sido súbita e inesperada. O falecimento prematuro do Nuno (Cardoso) ocorreu esta madrugada e não deixará ninguém indiferente, seja porque se tratava de uma pessoa de grande afabilidade e excelente trato seja porque foi uma figura pública relevante na Região Norte e na Cidade do Porto (onde chegou a ser Presidente da Câmara em substituição de Fernando Gomes). Reconheço no Nuno uma vontade (por vezes obsessiva e até insensata) de fazer coisas, mudar rotinas e realizar obra e tal foi visível até ao fim (designadamente no quadro de uma candidatura autárquica condenada à derrota e em que apresentou projetos criativos para o Porto, alguns felizmente recuperados pela inteligência prática de Pedro Duarte). Pessoalmente, tive com o Nuno relações de amizade próxima, proximidade que se mantém em termos familiares alargados, mas devo confessar que foi um certo afastamento que se verificou entre nós nas décadas mais recentes em razão de cada vez mais marcadas “diferenças de génio” geradoras de incidentes inevitáveis. Nada que impeça a tristeza com que hoje aqui me despeço do Nuno, enviando à Paula e aos seus filhos um sentido abraço de condolências.

domingo, 6 de setembro de 2026

O 39 JÁ NO PAPO OU OLHEM QUE NÃO?

 

Creiam-me: este desabafo não é clubisticamente inclinado, antes se pretende largamente objetivo e ilustrador, à sua maneira, de uma das razões pelas quais o País não sai da cepa torta (põe as fichas todas no mesmo adorado cavalo e fica cego, surdo e mudo perante o resto do que se lhe oferece).

 

É por demais doentia a fixação do comentariado nacional com tudo quanto respeita ao SLB. Sem celebrarem uma vitória em campeonato desde 2023, os ditos estão tão sedentos e famintos quanto obcecados com o facto e desculpam-se com a necessidade imperiosa de manterem grandes audiências e captações de publicidade para discutirem durante horas a fio tudo o que conseguem encontrar como motivo de interesse (?) e que tenha proveniência do Seixal e da Luz. A coisa alcançou níveis paranoicos neste Verão, sobretudo em torno da aquisição de um João Palhinha que a cada hora ia sendo apresentado como “a última Coca-Cola do deserto” e, portanto, como a garantia última de um título que não fugiria/fugirá em maio de 2027 (somado a uma vitória anunciada como quase certa na Liga Europa), tal como alegadamente deveria ter ocorrido com a tão festejada compra de Richard Ríos ao Palmeiras por 27 milhões de euros no defeso do ano passado (e agora recambiado para a Arábia Saudita, à falta de outro encaixe satisfatório) – um Palhinha ainda sem ritmo competitivo que imprevistamente foi levado a estrear-se na Segunda-Feira passada contra o Estoril por lesão de Barrenechea e um Palhinha que fez uma exibição razoável (até porque o jogador é bom e não sabe jogar mal) embora longe de excecional, mas um Palhinha que logo logrou a atribuição do troféu de MVP do encontro numa mui eficaz joint-venture entre a Benfica TV e a Sport TV (!).




Veja-se agora o caso deste início de campeonato com as duas vitórias fora por parte do Benfica (uma com um inabitual 7-0 ao Casa Pia e outra, ontem, com um 3-0 ao Marítimo). Pois nada melhor do que sublinhar tão estranho recorde com um “Benfica escreve história” (primeira vez que faz dez golos nos dois primeiros jogos fora) ou com um “Benfica arrasador” que só convence os convertidos irrecuperáveis porque destituídos de critério e, portanto, sem emenda no seu horizonte vital! No que me toca, aguardo por maio de 2027 para endereçar os parabéns àquele que vier a ser o campeão nacional...


sábado, 5 de setembro de 2026

QUE VENTOS FUTUROS SOPRARÃO DA SAXÓNIA?

 


(De todas as extremas-direitas europeias a que me inspira maior preocupação é a da AfD alemã. A razão é a sua maior consistência, acondicionada numa preparação de longo prazo, que começa a germinar a partir da integração dos territórios e gentes da ex-RDA na Alemanha, cujos resultados estão longe de corresponder à esperança da ocidentalização da anterior influência soviética e sobretudo às expectativas dos que viram o desmoronamento do muro como um novo princípio de vida. Estou em crer que a AfD já não o epifenómeno reversível e conjuntural que se esperava que fosse. Esta força política começa a estar enraizada na sociedade alemã e a consolidar apoios no eleitorado. Tudo indica que muito rapidamente vai deixar de ser um produto exclusivo dos territórios da ex-Alemanha de Leste, embora tenha neles a sua origem e o conjunto de condições políticas favoráveis que acompanharam o seu crescimento. Em meu entender, o seu crescimento e enraizamento no eleitorado vai emergir em alguns estados da Alemanha mais desenvolvida, como se a capitalização do descontentamento ultrapassasse as baias de uma integração económica inacabada e insuficiente para lograr o nivelamento das condições de vida entre os Lander de leste e o restante território mais desenvolvido. O impacto do crescimento da AfD vai ser disruptivo na situação política alemã e, por essa via, vai acabar por transmitir-se às instâncias comunitárias, com sérias repercussões na já de si problemática política de defesa europeia. Está por esclarecer qual vai ser o posicionamento da AfD em matéria de governação relativamente à Rússia de Putin. Na encruzilhada social, política e económica em que a Alemanha se encontra, as eleições do próximo domingo no estado da Saxónia emergem como um marco que irá seguramente condicionar o futuro e os sinais que as sondagens nos trazem são efetivamente preocupantes. Estamos a falar de um estado em que cidades como Leipzig e Dresden pontuam e isso basta em meu entender para ler com atenção que ventos irão soprar a partir das eleições de domingo.)

As sondagens disponíveis apontam para uma massa eleitoral previsível de cerca de 40% ou mais do eleitorado, pelo que a indeterminação de domingo próximo não estará na vitória da AfD, mas antes na possibilidade da maioria absoluta acontecer, o que conduziria pela primeira vez a AfD à governação regional. Certamente que isso implicaria uma nova trajetória a nível nacional, alterando disruptivamente o equilíbrio entre as principais forças políticas.

A Saxónia é hoje o estado mais envelhecido da Alemanha. O estilo da campanha política é essencialmente de tipo comunitário, com a realização de grandes festivais populares, tipicamente alemães, que a convivência dos candidatos a eleitos com os eleitores é muito forte e intenso, cultivando o que parece ser um estilo de política essencialmente destinado a combater o estado de isolamento, abandono e descrença que conduzir à presente situação.

Fonte: https://www.ft.com/content/bf518b6c-ca5c-49d3-b16a-4aa5bcf25ed9?syn-25a6b1a6=1
 

Mesmo na hipótese da AfD não conquistar a maioria absoluta e ficar à mercê da barragem que as restantes forças políticas irão provavelmente manter para afastar a extrema-direita da governação, o grande ajuntamento que essa barragem poderá significar não representará nada de substancial em termos de um rumo futuro para combater a depressão da Saxónia. Será uma amálgama de posições, determinada pelo espírito de barragem e não por opções de governação e desenvolvimento, o que dificilmente contribuirá para combater o descontentamento que convergiu nos referidos 40%.

Do que vai sendo conhecido da campanha da AfD na Saxónia parece emergir um outro conceito de ação política, menos baseada em drivers políticos disruptivos, mas antes focada no florescimento da ideia de festa eleitoral. Num cenário de envelhecimento tão pronunciado como o deste Estado, é bizarro que as deportações e a política anti-imigratória tenham tanta força, pelo que poderemos entender esse conceito como tentando esquecer esse ambiente de derrota, apesar das políticas natalistas promovidas pelos conservadores que sempre governaram a Saxónia. A miragem de que o problema demográfico pode ser resolvido por políticas natalistas vai exigir uma ideia de festa permanente. Mas quando a festa acaba, a realidade impõe-se.