sexta-feira, 5 de junho de 2026

DIVAGAÇÕES TENÍSTICAS

 

(Partilho com o meu colega de blogue alguma necessidade de desanuviar a escrita neste blogue e estou a fazê-lo gozando um fim de semana um pouco mais longo do que o habitual em Seixas, apreciando esta calma relativamente fresca que se vislumbra da minha varanda fronteira ao Coura e a Caminha. Vou, por isso, concentrar-me em algumas divagações tenísticas, não para vos falar das minhas proezas e falhanços de atleta de 77 anos, mas para tirar partido do Roland Garros que se aproxima do fim. E que torneio mais atípico tivemos pela frente, de que o melhor indicador é a composição das meias-finais de singulares masculinos e femininos: Zverev-Mensik (3-1) e Arnaldi (desistência)-Cobolli, nos homens e Mirra Andreeva-Kostyiuk (2-0) e Chwalisnska-Shnaider (2-0) nas mulheres. Os astros inclinam-se para que finalmente Zverev possa ganhar um título de Grand Slam, mas a atenção à armada italiana. Mas o Roland Garros deste ano tem sido atípico atendendo sobretudo aos casos de derrocada total de alguns dos principais favoritos, o que sugere que os melhores do circuito estão a jogar nos limites da resistência física e psicológica. Era essencialmente sobre esse aspeto que gostaria de concentrar as minhas divagações tenísticas.)

Os dois casos mais salientes de verdadeiros “crashs” foram as derrotas de Sinner, nº 1 mundial masculino face a um dos irmãos Cerundolo argentino e a de Sabalenka, nº 1 mundial feminino face a Shnaider. São crashs de natureza diferente, o de Sinner mais físico do que psicológico e o de Sabalenka exatamente o inverso.

Nunca tinha visto num espetáculo tenístico algo de semelhante à quebra física de Jannik Sinner, no que poderia designar de verdadeiro colapso físico, como se o corpo tivesse perdido a capacidade de resposta e a vontade de reagir. A derrocada de Sabalenka é talvez o melhor exemplo de alguém que tem o jogo dominado, que começa a pensar noutra e que à mínima adversidade tudo se desvanece e entra numa espiral descendente de perda sucessiva de pontos (6-0 na última partida) após ter perdido a segunda partida que pensara ter dominada. O estado de desespero em que a nº 1 mundial ficou depois da derrota, afirmando que naquele momento a única coisa que lhe apetecia era abandonar o ténis, é dos casos de colapso mais incrível que o ténis alguma vez terá presenciado. São casos diferentes, mas ambos revelam, em meu entender, que os melhores estão a jogar no limite das respetivas vidas e forças.

Pelo meio tivemos ainda uma partida excecional para recordar o que podemos entender como um choque de gerações. O jogo que opôs o talentoso brasileiro João Fonseca e o consagrado e entradote sérvio Novak Djokovic é um monumento para análise futura, retratando fielmente o que é a luta destruidora entre o jovem emergente e o incumbente prestes a retirar-se. Fonseca, nas declarações de celebração de vitória, mencionou com toda a honestidade que Djokovic estava a destruí-lo com o seu jogo, tamanha foi a impetuosidade que colocou no jogo e que foi por muito pouco que não se viu ultrapassado pela força física e mental do sérvio. Não sei se Djokovic voltará a pisar uma vez que seja aquele court central de Roland Garros, mas mesmo perdendo para o talento inesgotável do brasileiro podemos considerar essa derrota uma despedida triunfal, tamanha foi a qualidade que o sérvio imprimiu ao seu jogo.

Mas o melhor estava para vir com a chegada à final de Maja Chwalisnka depois de uma vinda triunfal do qualifying. A polaca esteve em Portugal há pouco mais de um ano num daqueles challengers que são o tormento do (a)s jogadores (as) classificadas entre o 300º e o 500º lugares do ranking mundial, até conseguirem uma oportunidade de brilharem num torneio com alguma expressão monetária. Se há quem diga que o ténis pode ser mais um produto da cabeça (mental) do que do corpo (físico), então Chwalinska é um verdadeiro caso de estudo. A tenista polaca não tem aquilo que possa chamar-se um ténis espetacular do tipo por exemplo que Sabalenka apresenta. Mas a consistência defensiva que ostenta, e sobretudo a capacidade de concentração praticamente em todos os pontos de uma partida, explicam a sua meteórica vinda do qualifying e a sua chegada à final.

Posso enganar-me, e oxalá me engane, mas acho que Chwalinska não vai ter talento suficiente para superar a impetuosa Andreeva , treinada pela nossa conhecida Conchita Martinez. Mas se o fizer, então o Roland Garros deste ano ficará nos anais da atipicidade da grande prova parisiense.

A tarde de sábado está conquistada.

 

 

HONRA E DESONRA

Pep Guardiola e Mohamed Salah protagonizaram, até agora, as grandes despedidas do futebol mundial, o primeiro abandonando o comando do Manchester City após dez épocas de sucessos indiscutíveis que fizeram dele, quiçá, o melhor treinador do mundo, o segundo deixando o Liverpool após nove épocas brilhantes e cheias de títulos coletivos e individuais. Fica o registo de dois monstros que marcaram a última década e que inscreveram o seu nome na galeria dos inesquecíveis do desporto-rei.
 
Mas tristezas não pagam dívidas e há que levantar a cabeça e olhar em frente. No presente momento, e enquanto se aguarda pelo Mundial, as transferências e as contratações começam a suceder-se, sendo a ida de Andoni Iraola (o treinador-revelação da época que termina) do Bornemouth para o Liverpool (que despediu Arne Slot) a mais marcante, apesar das escolhas de Xavi Alonso no Chelsea e de Enzo Maresca no City. Em termos de jogadores, o mais saliente acontece em Espanha, onde o Real Madrid já reforçou as suas laterais defensivas (o francês Ibrahima Konaté, ex-Liverpool, e o holandês Denzel Dumfries, ex-Inter de Milão) e o Barcelona já garantiu o extremo Anthony Gordon (ex-Newcastle). Mas é mais do que óbvio que a procissão ainda vai no adro e que os grandes tubarões (ingleses, italianos, franceses e alemães) ainda não aqueceram os seus motores.


O único tema que prende as atenções nacionais é o da decisão sobre o treinador do Benfica, aparentemente tornada definitiva com a chegada de Marco Silva do Fulham. A novela José Mourinho ocupa há semanas as preocupações do País e dos comentadores da Capital, mas trata-se nitidamente de um assunto cheio de tabus, traições, mentiras e combinações com graveto (mais à vista ou mais escondido). Neste quadro, e sabendo-se que o setubalense já acordou tudo com Florentino Pérez, o engraçado seria que este perdesse as eleições de Domingo contra o seu desafiador (Enrique Riquelme) e que, simultaneamente, os quinze milhões para os “encarnados” ficassem retidos no banco de Florentino enquanto Mourinho ficaria fora de Madrid como merecia face à atuação vergonhosa que teve face ao seu ainda empregador. Não é provável, mas seria uma prova da existência de um Deus que penalizasse a má-fé, a chico-espertice e a incompetência...

(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

CAETANO NO PORTO

 
(Agustin Sciammarella, http://elpais.com) 

Prossegue a paragem relativa que me impus nesta primeira semana de junho. Ainda assim, espaço para saudar aqui o concerto de Caetano Veloso no Porto (Pavilhão Rosa Mota) a que pude assistir antes da saída em curso. Caetano é Caetano e ponto final, mas o espetáculo não foi empolgante e não ficou verdadeiramente para a posteridade, exceto talvez naquilo que o artista nos terá querido dizer quando se referiu aos seus 84 anos em agosto e à dificuldade que haverá em que possa continuar a viajar para cá e a protagonizar shows – soou-me notoriamente a uma despedida não anunciada... O cansaço de Caetano evidenciou-se também na existência de um único encore, sendo que em qualquer caso – e com exceção do fraco som do pavilhão – aquela hora e meia não deixou de ser prazenteira e cheia de memórias de vário tipo, com a voz do baiano ainda situada a muito bom nível e a sua simpatia a deixar saudades que espero não passem de uma manifestação prematura.

terça-feira, 2 de junho de 2026

RIVALIDADES PRIMEIRO

Breve paragem para férias com mudança de ares e, necessariamente, com escassa vontade de alimentar o blogue. Insisto no jogo de Sábado em Budapeste e na vitória do Paris Saint-Germain sobre o Arsenal por grandes penalidades, mantendo o título pela primeira vez conquistado na época transata com a ajuda de quatro portuguesinhos que vieram somar-se a alguns mais na inversão da fracassada estratégia milionária do clube franco-catari. Assisti ao jogo rodeado de ingleses mas – por incrível que possa parecer! – apoiando os gauleses por oposição ao Arsenal londrino. Ver ingleses a aplaudir franceses foi algo de inesperado e até paradoxal à luz da História, mas o certo é que o futebol explica estes imprevistos – e, afinal, lá como cá, os nacionalismos que tanto prevalecem em diversos planos são notoriamente afastados pelas rivalidades locais ou pelos choques regionais e, em especial, por aqueles que passam por cidades-capitais sempre mais bem tratadas do que as outras. E até o incontroverso Sir Alex Ferguson veio a terreiro dizer de sua justiça, ou seja, arrasar os arsenalistas que só souberam defender...

 

O SÍNDROME CHINÊS DA UNIÃO

 

(A China e a pujança do seu modelo industrial e dos seus avanços nas indústrias elétricas estão de novo a colocar as autoridades europeias de cabeça à roda. Depois de Trump e a sua camarilha mais próxima terem trocado as voltas à chamada aliança atlântica, a União Europeia regressa às interrogações de como tratar a ameaça chinesa. Os números não enganam e o défice comercial da Europa com a China não para de aumentar, sabendo nós que a conquista do mercado interno europeu por uma corrente contínua de importações chinesas não pode deixar de ter consequências para o modelo económico europeu. Já não é apenas a evidência de que as importações de produtos manufaturados chineses correntes ocupam um lugar de destaque na norma de consumo das classes desfavorecidas e médias europeias. Dizia uma nossa empregada no passado que ia ao El Corte Inglês dos pobres quando comparava alguma coisa nos grandes armazéns de produtos chineses que pululam nas nossas cidades e vilas. Agora é a evidência declarada de que em termos de indústrias elétricas e de produtos intermédios a dependência face às importações chinesas é flagrante, a Alemanha de Merz que o diga. O Conselho Europeu reunirá nos dias 18 e 19 de junho com este tema na agenda, embora com a preocupação manifesta de nunca referir a palavra China nos textos e nas discussões a realizar, para não abrir uma guerra comercial com as autoridades chinesas. Até porque é cada vez mais evidente que a posição de animosidade dos diferentes estados-membros relativamente à ameaça chinesa é bastante heterogénea, bastando para isso ter em conta os mais recentes posicionamentos da França, da Alemanha e da Espanha.)

Entretanto, começam já a ser visíveis os efeitos da decisão europeia de em 2024 ter aumentado os direitos aduaneiros sobre a importação de carros elétricos provenientes da China, em alguns casos atingindo valores em torno dos 30%, o que já é um forte incentivo de deslocalização para solo europeu de fábricas chinesas para produzir os referidos veículos.

Por estes dias, na sequência destes efeitos, o setor automóvel da vizinha Galiza esfrega as mãos de contentamento pela decisão assumida por um gigante elétrico automóvel chinês, a SAIC MOTOR, de localizar na zona de Ferrol – As Pontes a sua primeira fábrica de automóveis elétricos na Europa. Esta decisão vem na sequência da diplomacia económica de Pedro Sánchez, bastante agressiva na China, com contactos com os grandes produtores de viaturas elétricas, à qual se seguiu iniciativa complementar do Presidente da Xunta de Galicia Alfonso Rueda. Apesar das acusações de traição económica que o presidente do PP Feijoo dirigiu a essa viagem de Sánchez, partidos, partidos, negócios à parte, terá pensado Rueda. Os industriais galegos nunca perderam de vista a ambição de transformar a Galiza numa região de fortíssima predominância da especialização automóvel e a nova fábrica da SAIC MOTOR vem mesmo a calhar para dar um impulso nessa direção, criando um momentum suscetível de atrair novas iniciativas. Não ignoramos a atenção que as autoridades galegas e os meios de comunicação regionais têm dedicado à dinâmica automóvel no Norte de Portugal. Se é verdade que algumas dessas vozes clamam por uma região transfronteiriça orientada para a especialização automóvel, outras persistem na ideia da ambição de colocar a Galiza no mapa industrial europeu por essa via.

Entretanto, o que parece evidente é que se estivermos atentos ao parque automóvel elétrico que vai preenchendo as nossas estradas é cada vez mais difícil acompanhar o número de marcas chinesas que se perfilam diante dos nossos olhos. Não será obviamente o mesmo se essa diversidade resulta apenas de mercado de importações ou se começará a refletir a deslocalização da produção chinesa para a Europa.

A história da inovação tecnológica mostra, por exemplo, que a ascensão industrial da Coreia do Sul resultou de uma estratégia própria de inovação concebida e implementada através da transferência de tecnologia possível pelo mercado de importações, designadamente na indústria automóvel e nas telecomunicações. O mesmo poderá consumar a União Europeia se tiver unhas e orientação para isso, transformando a transferência de tecnologia em inovação própria. Não devemos, porém, esquecer um facto importante: hoje, a dependência europeia face aos consumos intermédios chineses que a produção de um veículo elétrico exige é bem mais forte do que a indústria coreana à época enfrentava. O que não é uma questão de somenos. Mas não estou a ver outra via.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2026

ESTE ANO HÁ MUNDIAL!

(Bernardo Erlich, https://bernardoerlich.com

Vem aí um mês de futebol à fartazana! Assim o anuncia o nosso velho conhecido Bernardo Erlich, um argentino que andou anos a desenhar para o “El País” e agora nos revela aquilo que será um verdadeiro “ópio do povo” numa fase das nossas vidas coletivas em que não está fácil aguentar tanta agitação e tantos perigos no horizonte. Claro que, nesta altura do ano, o esmero do jogo não é o maior para o lado das melhores seleções, esgotadas como estão as suas vedetas na sequência de uma época muito longa e exigente (veja-se o que foi a final da Champions entre o PSG e o Arsenal, bem longe do que prometia e poderia ter sido). Acresce que, no caso português, a imposição de Cristiano Ronaldo (já sem velocidade e fisicamente debilitado) e a falta de mínimos do selecionador espanhol não auguram um futuro risonho aos lusitanos que Martinez leva para Miami (mas espero enganar-me). Quanto a prognósticos, claro que só no fim, embora anteveja uma Noruega forte, julgo que serão a França e a Espanha (talvez à frente da Argentina, do Brasil, da Alemanha, da Inglaterra e da Bélgica) as formações com mais hipóteses de darem luta pelo título.