Enquanto o mundo se mostra um barril de pólvora e uma fonte incessante de injustiça e indignação, com os seus vários senhores a aproveitarem a desordem que Trump veio favorecer para satisfação dos interesses mesquinhos e malévolos que os determinam, por cá prossegue a apagada e vil tristeza que uma contagiante mediocridade instalada (quase suscitando algum saudosismo face a passados talvez pouco condignos mas politicamente bem mais mexidos por via do brilhantismo, mesmo que pérfido, dos respetivos protagonistas, de Costa a Passos, de Guterres a Durão ou de Sócrates a Cavaco) apenas consegue muito infrutiferamente disfarçar. Na governação, domina o fingimento –exemplos há-os em todas as áreas, mas a autocontemplação da ministra da Saúde, o whatever reformador da ministra do Trabalho e a provedoria pró-americana do ministro dos Negócios Estrangeiros são casos que roçam a caricatura.
As declarações e os números que vão sendo divulgados também dão o seu inequívoco e lamentável contributo. Como acontece com a dupla formada pelo Primeiro-Ministro e pelo Presidente da República (que ainda agora faz o seu arranque em cena mas já aparenta ser uma charge de baixa qualidade dos Dupont&Dupond), a fobia da execução que tanto animou o segundo mandato de Marcelo ou as manifestações da crise que se aprofunda na habitação (onde já vamos em 180% de aumento dos preços das casas na última década).
A agravar uma situação que já se mostra feia por si só temos ainda as incompreensíveis simpatias táticas de Montenegro e seus muchachos pela força de extrema-direita que nos calhou em sorte, com o assumido patriota e nacionalista Leitão Amaro a não se fazer rogado em piscar o olho a Ventura, convencido de uma genialidade política que julga estar a exibir mas que mais não irá fazer do que levá-lo ao desempenho do papel de idiota útil que, a pretexto de uma revisão constitucional que ninguém contesta em termos de atualização e modernização, acabará por lhe caber enquanto elemento objetivo de apoio a que Ventura tente consagrar a “oportunidade histórica” de mudar o regime democrático vigente.
Para que não reste mesmo pedra sobre pedra, eis a Oposição socialista, fechada sobre si própria (o Congresso foi manifesto nesta perspetiva), apostando em ideias gastas e até preocupado com os pagamentos em atraso à Misericórdia do Porto. Carneiro é um bem-intencionado sem mundo e que, portanto, facilmente se entrega aos “emplastros” que se vão mostrando mais por perto, esquecendo que o essencial deveria estar numa autocrítica rigorosa do passado “costista”, numa renovação de quadros e caras e num debate sério de ideias que pudessem dar corpo a uma nova agenda do socialismo democrático em Portugal. O que não parece ser, de todo, a sua praia nem a sua principal escolha de navegação.









