quinta-feira, 17 de setembro de 2026

SUECOS NÃO ALIMENTAM A CORRENTE POPULISTA!

 

Está finalmente encerrado o escrutínio eleitoral na Suécia. Os resultados que mais contam, traduzidos no número de lugares parlamentares conquistados, parecem mostrar uma tendência de mudança de maioria em favor da Esquerda – apesar da pequena quebra dos Social Democratas (perda de 7 lugares), tal é mais do que compensado pela subida dos dois partidos à sua esquerda (ganho de 13 lugares) e do voto adicional de um partido liberal (Centro) que não quisera alinhar-se com a coligação de Direita – e por uma perda relevante (8 lugares) da expressão dos radicais populistas (Democratas Suecos).

 

A divisão da sociedade sueca, quiçá mais geográfica do que sociológico-política, também resulta claríssima: o bloco de Direita (incluindo a extrema-direita, que até ao presente apenas fora apoiante do governo de coligação formado entre os restantes partidos da área) passa a somar 173 lugares no Parlamento contra os 176 do bloco de Esquerda (que antes dispunha de 169) – um diferencial de votos em redor de escassos 26 mil. Mas a verdade é que neste estão considerados os assentos do partido Centro (liberal) que se afirmara em oposição ao atual governo mas se vem distanciando de acordos com as formações mais à esquerda. Assim, e se atentarmos nos 25 lugares de que este partido dispõe, podemos estar seguros de que será hercúlea a tarefa de formar um governo minimamente estável por parte de Magdalena Andersson; a experiência e a capacidade (e dureza) negocial desta constitui um elemento de confiança no sentido do seu sucesso, mas não é de excluir que Ulf Kristersson (atual primeiro-ministro e líder dos Moderados, agora reforçado pela sua liderança à direita) possa vir a conseguir trazer o kingmaker Centro para o seu lado. Uma incógnita de que só as próximas semanas revelarão o real desfecho.


(cartoons de Bracka, https://x.com/HBer76 e Emanu, https://www.etc.se)
 

Termino sublinhando que o melhor do que ocorreu na Suécia esteve na redução das expectativas do poder de Jimmie Åkesson (Democratas Suecos), ao que parece muito por via da dinâmica das grandes cidades (o bloco dito de Esquerda obteve 60,3% dos votos em Estocolmo, 57,6% em Gotemburgo, 61,4% em Malmo e 59,1% em Uppsala) e da recusa da agenda populista que dá sinais de emergir entre os jovens. Um sinal muito positivo que importa assinalar em tempos de trevas como aqueles que atravessamos.




QUE ESTADO DA UNIÃO?

 


(Estou certo de que o discurso de Ursula von der Leyen no Parlamento Europeu sobre o Estado da União irá suscitar reações muito desencontradas. Depois de ler o documento de cerca de 20 páginas, ontem publicado pela Comissão Europeia, fico com a sensação de que a Presidente da Comissão quis mostrar que as coisas estão a mexer, embora sem que possamos embandeirar em arco e concluir que, desta vez, a União irá além das palavras e das promessas. Um bom indicador dessa avaliação foi o comentário do “ratão” António Vitorino na SIC Notícias de ontem à noite. De acordo com o conhecido protagonismo da personalidade, o fundamental vão ser as movimentações nos corredores que o anúncio feito por von der Leyen irá gerar e essas sim deverão ser avaliadas com todo o rigor. Penso que de qualquer modo o discurso e o programa de ação que o organizou estão longe de poder ser entendidos como mais um sinal do imobilismo da União. O futuro dirá se o universo das ideias avançado na proclamação da Presidente irá ou transformar-se em atos relevantes, podendo ainda dizer-se que talvez se esperasse um pronunciamento mais explícito sobre o pedido realizado pela Ucrânia de muitos milhares milhões de euros para superar o défice orçamental que o esforço de guerra está a implicar para o já tão martirizado país. Em resumo, de imobilismo é seguro que não se trata, mas daí a antecipar que a União entrou definitivamente em transformação decisiva talvez seja prematura chegar a essa conclusão.)

Num tom geral que é apanágio da Presidente da Comissão, que consiste em não deixar de fora nenhuma das agendas de preocupação da União, independentemente da concreticidade que essa abrangência temática representa, há temas no discurso cuja controvérsia futura possível é mais saliente.

Talvez o mais saliente seja a ideia alvitrada por von der Leyen de que a ameaça à segurança que paira sobre a União irá exigir no contexto incerto da NATO a criação de uma espécie de NATO dentro da NATO, abrangendo os principais países da União e países como o Reino Unido, a Noruega e o Canadá. A ideia não +e totalmente dissociável de outra das ideias do discurso, cuja materialização jurídica à luz dos tratados constitutivos da União é mais complexa e que consiste no anúncio da proposta do Canadá poder ser um “país associado” da União. As palavras proferidas pela Presidente da Comissão foram as seguintes: “Acredito que é tempo da Europa ter o seu próprio artigo 4 – ou um Protocola de Segurança de Emergência. Quando impulsionado por um Estado-membro, todos os Estados-Membros a ele responderão. Para coordenar uma resposta europeia. Impedir o escalamento futuro da situação. E mitigar o impacto. E acredito que devemos ir mais além. Durante longo tempo, discutimos em formato de reunião de líderes a segurança do nosso continente. Com parceiros como o Canadá, a Noruega, a Ucrânia, o Reino Unido e outros países envolvidos. Isto é hoje ainda mais urgente, dada a natureza e a extensão dos riscos em jogo. É essa a razão pela qual concretizaremos as nossas ideias para transformar em realidade o Conselho de Segurança da Europa. A urgência é clara.”

Independentemente das vicissitudes que a concretização desta ideia irá suscitar, de imobilismo é que não podemos acusar o discurso do Estado da União. A operacionalização dos laços efetivos de cooperação com países não membros como o Reino Unido, o Canadá, a Noruega e a Ucrânia dará seguramente origem a um caminho crítico, sobretudo no quadro das limitações da política externa europeia. Mas estas ideias anunciam um rumo e devo confessá-lo não imagino outro possível e viável.

O discurso é longo e por isso deixarei em aberto, para análise futura, alguns dos seus temas. As questões suscitadas em torno do estado da arte da inteligência artificial refletem, em grande medida, a fragilidade em que a União está nesta matéria, sem grandes possibilidades de intervir na corrida EUA-China e no desencontro inequívoco de posições que se desenha em torno das ideias de abrandamento ou de aprofundamento da IA.

Mas existem outros temas no discurso que merecerão atenção minuciosa futura, destacando nesse campo os temas da água como elemento de defesa e segurança e a resposta aos acontecimentos da severidade climática, designadamente a devastação em torno do aquecimento global, com incêndios e degelo à mistura.

Só o tempo dirá se, com distância temporal suficiente de 2026, concluiremos ter sido um marco transformador que este discurso anunciou. O problema é que a pressão do contexto se traduz numa enorme aceleração do tempo e não temos tempo para ganhar distância e aguardar. Vamos mesmo ter de ser observadores participantes e isso aplica-se também a um país como o nosso.

 

NÃO HÁ DUAS SEM TRÊS...

(excerto de Henrique Monteiro, https://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Não há duas sem três... e cá estou eu a voltar ao tema da Educação. Primeiro para me penitenciar de parte do que aqui referi ontem, já que afinal houve quem rapidamente se tivesse preocupado com a ligeireza científica de Fernando Alexandre a propósito de uma alegada zona de indiferença sobre a qualidade do ensino para um número de alunos por turma até 30 – caso, designadamente, da jornalista Andreia Sanches que assina hoje no “Público” uma peça esclarecedora sobre o assunto.

 

Segundo, porque neste mesmo jornal surge ainda outra profissional (Patrícia Carvalho) a elucidar-nos sobre a ligeireza com que se  vem falando de “escolas pressionadas” quando a realidade dos números mostra que no ensino básico e secundário existem hoje menos alunos do que há uma década (embora bastante mais estudantes de nacionalidade estrangeira).

 

Tudo claramente confirmando quão diferenciador seria que abandonássemos questiúnculas politiqueiras ou vaidades malsãs e nos deixássemos ademais de pôr nas nossas tamancas, mais ou menos sectárias ou assentes em ideias (mal) feitas, para optarmos em definitivo por uma preparação competente e estruturada de uma abordagem séria dos problemas que verdadeiramente relevam para o futuro do País (com ou sem paixões à mistura), quadro em que a Educação ocupa um lugar preponderante e mesmo tendencialmente vital.



quarta-feira, 16 de setembro de 2026

UMA COISA É DESENRASCAR, OUTRA É INVENTAR!

Não estava à espera de aqui regressar com uma insistência tão imediata no tema da Educação. Mas a verdade é que a maldição que se abateu sobre Fernando Alexandre prossegue a bom ritmo, embora tenhamos de sublinhar que muito por força do seu modo de intervir – autodesculpabilizante quando não autoelogioso, inquisitorial quando  não acusatório – no espaço público.

 

Não me justifico pela repetição com base em excertos das primeiras páginas do Público e do CM de hoje (acima), uma relativamente objetiva e outra quiçá verdadeira mas visando o escândalo a partir de casos individuais. Refiro-me aos últimos ditos do ministro, primeiro adiantando que a “evidência científica diz que até aos 30 alunos a qualidade do ensino não sai prejudicada” – concedo que havia que encontrar uma solução expedita para Lisboa mas estranho que os múltiplos arautos do “eduquês” não tenham vindo a terreiro insurgir-se imediatamente contra a falsidade de tal afirmação (só o DN foi ouvir especialistas e chamou a título os célebres “invisíveis” das turmas) – e depois remetendo para os números da imigração (leia-se, para a culpa do governo do PS) e as “matrículas tardias” (assuma-se que se tratará de culpa das escolas) e salientando que os problemas das vagas são anualmente recorrentes.




Há, pois, um padrão que se vai tornando uma imagem de marca de Fernando Alexandre: o de que a verdade dos factos e da ciência está do lado do brilhantismo que se atribui, ele que está ungido por uma poção reformista única que não se compadece com os libelos difamatórios de que é alvo por parte dos agentes do setor e das famílias, bem como de partidos oposicionistas não patrióticos. Sobram cada vez mais as razões para que se sustente como incontestável a necessidade de uma reflexão muito participada sobre as reformas necessárias na Educação.

O RECUO DA DEMOCRACIA

 

(A recente publicação do Estado Global da Democracia2026, com um sub-título particularmente sugestivo – Democracia numa Era de Conflito, veio confirmar o que, quotidianamente e já com lastro de passado recente, se pressente estar a minar as sociedades ocidentais e não só. O sempre atento e Amigo Sampaio da Nóvoa projetou o documento para a sociedade portuguesa, e Portugal alinha também pelo diapasão do recuo da democracia, salientando com alguma expressividade que Portugal vive do ponto de vista da democraticidade o seu pior momento após a explosão democrática de abril de 1974. O índice que subjaz à classificação dos países do ponto de vista da democraticidade assenta em quatro categorias - representação, direitos, Estado de Direito e participação – e o recuo de Portugal observa-se em todas essas categorias, com evidência muito particular para a dimensão da participação. Sampaio da Nóvoa foca-se sobretudo na debilidade, na fragilidade da nossa vida cívica e nos baixos níveis de responsabilidade cívica e “da nossa capacidade de nos envolvermos, como cidadãos, nas nossas decisões, de pensarmos e decidirmos coletivamente”, sublinhando o que na sua interpretação é a área que mais nos deve preocupar.)

A fragilidade das condições de participação e responsabilidade cívica da sociedade portuguesa são conhecidas, facto que a construção democrática das duas décadas posteriores ao 25 de abril de 1974, em torno sobretudo da grande aventura do poder local, interrompeu, mas sem, contudo, lograr alcançar um nível de sustentação apreciável. Mobilizando a influência do pensamento de um dos patronos deste blogue, Albert O. Hirschman, sou levado a pensar que a sociedade portuguesa, particularmente as suas correntes de militância social e cívica mais salientes, vive um período de deceção coletiva, que regra geral acontece após períodos de intensa intervenção coletiva. Pressente-se em alguns meios um clima de descrença, sem ignorar que persistem, resistentes, bolsas de militância social e cívica em muitas associações (não esqueçamos o voluntariado nacional), que vão aguentando com estoicismo algumas experiências locais, procurando em cada período de programação dos Fundos Europeus o apoio que lhes permita prolongar a sua existência. Essa descrença terá inúmeras origens, mas a persistência combinada de problemas sociais estruturais profundos, como a pobreza, e a permanente emergência de novas dimensões desses problemas exige nervos de aço e uma persistência tal que nem sempre as condições frágeis de funcionamento diário dessas associações e entidades locais favorecem.

Se bem compreendo a preocupação de António Nóvoa, salientando as questões da participação, existem, no entanto, duas categorias do índice de democracia global que nos devem merecer futuramente uma atenção mais sistemática e que se prendem com a defesa dos direitos dos cidadãos e a preservação do Estado de Direito (rule of law). Ambas as categorias se cruzam com o papel e estado da arte da justiça não apenas em Portugal, mas também por esse mundo fora. A começar pelos EUA, onde a captura parcial do Supremo Tribunal de Justiça por Trump e pelo movimento MAGA tem suscitado as nuvens mais negras sobre a independência da justiça. Quando esta começa a guiar-se por ideias políticas claras, com forte alinhamento com o poder instalado, inúmeras derivas emergem e não apenas do chamado justicialismo político. A defesa dos direitos mais elementares dos cidadãos e a preservação do Estado de Direito começam a ser colocados em causa e a democracia fragiliza-se.

 

Tenho seguido de perto a evolução da justiça em Espanha e as preocupações adensam-se ainda mais. Recentemente, o Supremo Tribunal espanhol interveio nas implicações eleitorais da chamada Ley de Nietos, lançando dúvidas sobre a capacidade eleitoral de descendentes de emigrantes espanhóis implantados no estrangeiro, cerceando-lhes capacidade eleitoral, aparentemente sem fundamentação clara e abrangendo cerca de 300.000 pessoas nessas condições. Argumentos como o que é mencionado pelo redator da decisão do Supremo Tribunal de que a extensão da capacidade eleitoral a esses beneficiários da Ley de Nietos pode alterar os resultados da consulta popular constituem a mais despudorada intervenção dos juízos num processo político que está ao rubro como nunca – a necessidade de derrotar Sánchez nas urnas. A contundência crítica do jornalista Fernando Salgado é exemplar: “Talvez os juízes estimem que o alargamento do censo eleitoral aos netos dos vermelhos, mações e republicanos exilados no estrangeiro pudesse reanimar o sanchismo. E daí a sua medida preventiva. Desproporcionada e lesiva da democracia”.

Não existe ainda evidencia marcante de que este envolvimento dos juízes espanhóis na luta política seja tão marcante em Portugal. Ainda bem que não o é. Mas alguns comportamentos do Ministério Público, transformados em agendas sem escrutínio democrático, alertam-nos para que a projeção em Portugal do Estado Global da Democracia deverá suscitar novos enfoques, além da já conhecida fragilidade nacional em termos de participação e responsabilidade cívicas.