(Ainda me faltam duas semanas intensas de trabalho para me entregar definitivamente à modorra estival por estas bandas de Seixas e Caminha, este fim de semana perturbado pelas irritantes festividades da Feira Medieval que continuam a atrair visitantes em massa e que suscitam a rejeição dos mais propensos ao sossego urbano, como eu, devo confessá-lo. Provavelmente com exceção do evento de Santa Maria da Feira, que nunca visitei e que, por isso, me abstenho naturalmente de criticar, as feiras medievais são hoje por estas paragens do Alto Minho um fenómeno estritamente comercial, que a mais agressiva iniciativa empresarial dos espanhóis tem capitalizado e ninguém os critica por isso. A ideia da reconstituição histórica já há muito tempo que se esfumou, submetida pelo crescimento de expositores e feirantes, incluindo comes e bebes, visível por exemplo no modo como a feira vai ocupando mais área na vila, incluindo do parque de estacionamento central. Ontem, deu apenas para comprar um saquinho de chá Rooibos que muito aprecio e que os comerciantes galegos expõem nas suas tendas cromáticas, nada de semelhante às de Marraquexe ou dos bazares de Istambul, mas ainda assim agradáveis ao olhar do visitante seduzido pela cor. Em preparação para a tal modorra estival, confirma-se um ano mais que valeria a pena escolher julho como mês de férias e não agosto, já que ele se apresenta regra geral como mais confiável climaticamente. Até a água do mar deu tréguas este mês aos ossos dos mais friorentos subindo a temperaturas que nos fazem pensar que isto está tudo bastante alterado. Mas trabalho é trabalho e não tem dado para essa escolha, até porque estranhamente desde há muitos anos que o mercado público dos concursos tem uma concentração absurda nos fins de julho e no mês de agosto, como se provocação se tratasse e quisesse impedir as consultoras de poder usufruir de férias normais e merecidas.
A modorra aproxima-se, mas o mundo não está definitivamente para aí virado. O tema que me tem mais impressionado é a esmagadora enormidade dos incêndios em Madrid e Ávila, seguindo-se aos de França, gerando uma magnitude de deslocação de pessoas que nos anuncia a gravidade do fenómeno e sobretudo a vulnerabilidade exposta de muitos territórios. Estranhamente, ao contrário do que teria imaginado, incêndios de tal magnitude não foram perturbados pela polarização política aberta que grassa naqueles países. Tudo se passa como se a gigantesca deslocação de pessoas recomendasse o recato político ao serviço da mais eficaz possível intervenção das autoridades da proteção civil, das forças de ordem e dos bombeiros e as forças políticas o tenham compreendido. O Rei terá tido essa perceção e, como era lhe era devido, apareceu a registar a relevância da ação conjunta que tem permitido combater focos de tão elevada magnitude, contrastando com o observado na calamidade de Valência. Por cá, por agora, a questão dos incêndios tem estado controlada embora com larga extensão de área ardida e não será nesse contexto, oxalá ele se mantenha, que o ministro da Administração Interna encontrará a redenção para as suas incompreensíveis argoladas.
No plano internacional, a opção de Trump em promover de novo o escalamento da guerra com o Irão transporta os EUA para a vertigem da ausência de saída consequente, anunciando em cada intervenção pública que o Irão estará definitivamente destruído, o que vai embatendo de frente com a capacidade iraniana de ir retaliando nos territórios do Golfo, onde existem bases e interesses americanos. Nunca no passado a avaliação dos americanos foi tão negativa como o é hoje a avaliação do significado da intervenção no Irão. Entretanto, num conceito estranhíssimo de equidade os sauditas foram autorizados a formas de enriquecimento de urânio incompreensíveis do ponto de vista da segurança a longo prazo do Golfo. O conceito de equidade aqui presente é tão estapafúrdio como a sugestão de que Infantino deveria ser o novo secretário-geral das Nações Unidas. Ou seja, Trump continua a querer governar o mundo como do seu quintal se tratasse e esse mesmo mundo ainda não sabe bem se há de rir, encolher de indiferença os ombros ou protestar.
E assim vai sendo preparada a modorra estival. O conceito de silly season ficou de repente obsoleto. O mundo, sim, esse virou silly.








