sábado, 7 de março de 2026

BOA SORTE, SENHORES PRESIDENTES

 

(Os portugueses têm um especial fascínio para os elogios póstumos. Como estimava que acontecesse, tenho lido textos excelentes sobre a obra e a personalidade de António Lobo Antunes, alguns dos quais acrescentando interessantes interpretações da obra e do escritor, que estimulam não tenho disso dúvidas a releitura de alguns dos seus romances e crónicas. Gostaria algum dia de tentar estudar este fascínio dos portugueses pelo elogio post-mortem, que interpreto provisoriamente como problemas de consciência pelo facto de não termos dado a devida atenção aos visados em vida. Mas isso é tema para outras reflexões. Entretanto, a atração pela prosa de ALB, espero que a póstuma edição de alguma da sua poesia não publicada não nos desiluda, pois, o próprio confessava o seu profundo desgosto pelo não domínio desse tipo de criação literária, foi apagando por estes dias a inconcebível guerra em que o delírio trumpiano está a oferecer ao mundo civilizado. E também a sucessão na Presidência da República. Sobre a mais do que escandalosa ausência de narrativa fundamentadora para a guerra no Irão, onde estamos a assistir ao esbracejar desesperado de um colosso em agonia, haverá seguramente nos próximos dias oportunidade para voltar ao assunto. Daí que hoje me concentre na sucessão da Presidência da República, desejando boa sorte aos dois Presidentes, o que sai de funções e o que ocupará a partir da próxima segunda-feira o Palácio de Belém. Ambos precisarão dessa boa sorte, é certo por razões diferentes.

Sou dos que, comungando da não perfeição dos humanos, acho que a Presidência de Marcelo cumpriu uma importante função, que foi a de devolver aos portugueses a confiança na Presidência da República, através de uma relação de proximidade e de insistência vocal que foi obviamente em muitos momentos exagerando, destruindo o efeito da gravitas que deve pairar sempre sobre a intervenção dos políticos, qualquer que seja o âmbito da sua intervenção. Marcelo terá querido em termos práticos competir com a efemeridade preocupante das redes sociais, falando sobre tudo e a todo o momento, como de um culto diário se tratasse. Teve obviamente derrotas com significado. Não conseguiu evitar e sobrepor-se ao avanço do Chega no eleitorado, mas o fenómeno é de tal maneira global que nem um Super-Homem poderia aspirar a fazê-lo. E cultivou a ideia politicamente errada de que sem Orçamento Geral do Estado aprovado o caminho inevitável é o da antecipação de eleições. No plano pessoal, os portugueses compreenderam que o rocambolesco caso do seu filho residente no Brasil foi uma machadada que pegou forte e o afetou profundamente.

Mas o clima global que imprimiu à Presidência é suficiente para passar por cima da baboseira da última selfie com o Governo de Montenegro e sobretudo a vacuidade, já analisada pelo meu colega de blogue, do “éramos felizes e sabíamos” da relação institucional com Montenegro.

Merece por isso os meus votos de boa sorte. Explico-me.

A promessa estabelecida por Marcelo de que não terá futuramente nenhuma intervenção política após a sua saída de funções é qualquer coisa de semelhante à experiência de um inveterado boémio que decide dedicar-se à vida monástica e de isolamento. Resistirá ele aos impulsos do comentador sibilino e do político sagaz? Hipocondríaco como é, a grande interrogação é como resistirá ele ao isolamento do envelhecimento inexorável, dando aqui de barato que o atravessará sozinho ou acompanhado. Certamente que Marcelo terá lido algumas das linhas terríveis que ALB escreveu em algumas das suas crónicas sobre o que é isolamento da velhice. Por isso, em jeito de agradecimento pelo que nos foi dando, ainda que contraditório, na Presidência, aqui ficam os meus votos de boa sorte para a passagem à monástica não intervenção política, seja dando conferências sobre temas jurídico-constitucionais, relembrando memórias com o seu Amigo António Guterres, dando aulas circunstanciais na Califórnia, ou simplesmente conversando com os seus Amigos mais próximos. Boa sorte e da grande.

Mas o novo Presidente António José Seguro, apesar do retumbante êxito político da sua vitória, precisa também que lhe desejemos boa sorte e também da grande. Encontrar a gravitas certa perante uma comunicação social que usou e abusou da predisposição quase inata de Marcelo para falar a todo o momento não será tarefa fácil, em medida proporcional às dificuldades esperadas que o governo de Montenegro irá enfrentar nos próximos tempos. Quanto mais escolhos se colocarem na frente do Governo mais Seguro será chamado a pronunciar-se. Encontrar o registo certo vai ser tarefa prolongada no tempo, até que os jornalistas se habituem a um novo registo e compreendam, eles também, o que é a gravitas.

Do mesmo modo, a procura de um equilíbrio entre a compreensão do que significa governar face a um estilo de oposição como a do Chega e a crítica da opção por temas que não são reclamados como centrais pela sociedade portuguesa, exceto da parte de alguns empresários assanhados como o Presidente da CIP, é tarefa que, em meu entender, definirá o que vai ser António José Seguro em termos de estadista. O contexto internacional é daqueles que não permite qualquer Presidente a fingir-se de morto.

Sempre entendi que na política, salvo raríssimos casos de predestinados, as competências se ganham exercendo-as, na aprendizagem que a prática política permite construir, sobretudo para aqueles que têm a capacidade de aprender fazendo. Por isso, e pelo que lhe devemos com a vitória presidencial, boa sorte também para o novo Presidente. A legislação laboral está aí ao virar da esquina e quanta aprendizagem pode ser alcançada na sua discussão com as forças políticas e parceiros sociais.

Por tudo isso, muito sinceramente, boa sorte Senhores Presidentes.

 

PASSISMO OU PASSADISMO, NÃO IRÁ DAR AO MESMO?

(Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt) 

Já quase nada é suportável no nosso espaço público. E não é apenas o mais importante – a sucessão de incontáveis tropelias, algumas assaz preocupantes e perigosas, que o mundo vai vivendo em termos exponenciais – mas é também o que nos vai sendo desvendado a nível doméstico. Ontem, desabafei aqui quanto ao descocado encontro Marcelo-Montenegro que marcou a saída de cena do Presidente. Hoje, trago-vos o tema da semana, desde que Passos esteve na AEP – eu estive lá (não quererão entrevistar-me?) mas apenas para ouvir Miguel Cadilhe sobre uma reforma do Estado contra o centralismo, o que Passos rejeitou ser o seu caminho de eleição, e Carlos Alves sobre uma necessária reforma fiscal – e ali instou o seu ex-líder de bancada parlamentar a fazer reformas (não disse quais nem explicou como, apenas importa que percebamos que isto assim não pode continuar); pois Passos não mais cessou de abrir e encerrar conferências, fazendo os encantos dos nossos comentaristas de turno e permitindo-lhes especular sem pontas de qualquer evidência sobre o que estará a passar pela cabeça de Passos; Montenegro, precipitado e sempre receoso de que alguma sombra lhe possa retirar os efeitos do Sol, logo mordeu o isco ao vir desafiar o seu ex-líder para um duelo em congresso antecipado para maio. Enfim, tudo isto é certamente fado que se abateu sobre nós, mas sugiro ao leitor, por meras razões medicinais que seja, a compra do “Público” e a consulta da crónica de José Pacheco Pereira (“A sombra de Passos”) que ali é resumida em cento e cinquenta e seis caracteres que dizem tudo  quanto pode importar: “Seria bom que Passos desse passos para entrar a todo o vapor na política partidária de uma forma mais transparente do que o alimento cínico do sebastianismo”. O que não vai acontecer porque Passos, agora, quer que dele se fale e que a sua alegada aura possa ser assim alimentada para efeitos do que der e vier. Repito-me: triste fado que se abateu sobre nós!

sexta-feira, 6 de março de 2026

FOMOS FELIZES E SABÍAMOS!?!

 
(cartoon de Luís Afonso, “Bartoon”, https://www.publico.pt)

Dificilmente se encontraria forma mais pirosa e apatetada de marcar a saída de cena de um Presidente da República de um país europeu tido por normal e em regular funcionamento. Mas foi mesmo assim que as coisas ontem se passaram após o Conselho de Ministro presidido opor Marcelo antes de cessar funções. Com o chico-espertismo de Montenegro a assumir ironicamente a felicidade mas acrescentando-lhe a ideia de eficácia que sempre fica magnífica na sua boca de executivo político pragmático e fazedor. Um momento de verdadeiro insulto à inteligência dos portugueses – então e Marcelo não puxou pela ruralidade de Montenegro nem este pelas insuficiências da colaboração institucional com aquele? – numa hora de despedida que a maioria dos nossos jornalistas e comentadores já vê com anúncios de saudade em relação a um Marcelo que lhes poupava trabalho e enchia minutos. Moral da história: será que já batemos mesmo no fundo ou ainda será pensável que haja pior à nossa espera?

quinta-feira, 5 de março de 2026

CALARAM-SE AS VOZES ERRANTES NO TEMPO NÃO LINEAR DOS ROMANCES DE ANTÓNIO LOBO ANTUNES

 


(Um a um, vão caindo os grandes nomes da literatura portuguesa, uns evitando a tragédia da demência, outros como ALB convivendo com ela no último período da sua vida. Não direi que o vazio profundo está criado, porque alguns escritores mais novos como Gonçalo M. Tavares vão criando o seu espaço e rejuvenescendo a literatura portuguesa. Mas não será fácil cultivar e substituir o seu estilo elíptico de escrita, em que vamos convivendo com vozes que aparecendo e desaparecendo, criando uma narrativa única a que não estávamos habituados e por isso demorou algum tempo até que a escrita elíptica fosse absorvida. Os romances são tantos e tão variados que necessitaríamos de uma profunda e sistemática revisão à matéria dada para recordar o que mais me marcou e já não falo nas obras com que abanou inicialmente o panorama literário português, Memória de Elefante e os Cus de Judas. Mas talvez destacasse A Ordem Natural das Coisas (1992), Sôbolos Rios que Vão (2010) e a Última Porta antes da Noite (2018). O que me fascinava em ALB era a sua relação de operário com a produção literária, com a sua disciplina férrea de no seu espaço de trabalho assumir espartanamente um ritmo de escrita de manhã e à tarde, como um trabalhador disciplinado que não abdica do seu ritmo e exigência de horários para criar. Era aliás essa disciplina que explicava que quando a crítica assinalava que a criatividade de ALB estava exaurida, ele sempre nos surpreendia com um golpe de asa, engendrando um romance capaz de fazer o reset de todo o pensamento construído sobre ele. Fascinava-me também aquela ideia repetidas vezes invocada em algumas entrevistas e em algumas crónicas que a partir de um certo momento os romances tomavam conta dele. E por falar em crónicas, as suas publicações ou leitura semanal eram momentos prodigiosos de sensibilidade e aguda perspetiva sobre o quotidiano de gente comum. Encantava sobretudo o facto do estilo de escrita ser diferente.

Os livros ficam. A personalidade esbater-se-á com o tempo.

Por fim, um registo muito pessoal. Foi com António Lobo Antunes que compreendi a origem operária do SLB, da qual nunca me alheei, mas que os rumos estranhos e loucos do futebol estão a fazer esquecer para nossa tragédia.

 

 

ADAM SMITH E A EURO-REGIÃO GALIZA-NORTE DE PORTUGAL (PARTE III)

 



(Na sequência dos dois posts anteriores, apresento a terceira parte do texto, relativa à dinâmica do Eixo Atlântico propriamente dita. Agradeço a conversa telefónica com o Secretário-Geral do Eixo, Xoan Vásquez Mao, que me permitiu ficar ao corrente dos últimos desenvolvimentos da dinâmica de cooperação. Noutros tempos, acabei por ter uma participação técnica intensa nos trabalhos de análise estratégica do Eixo, o que não tem acontecido nos últimos tempos e daí a necessidade desse refreshment. Destaco de o processo o pioneirismo da introdução da lógica de sistema urbano na cooperação da Euro-região, o que passou a consagrar um modelo de cooperação com três dimensões -a inter-regional protagonizada pela Comunidade de Trabalho e pelo AECT entretanto institucionalizado, a da interação local e de proximidade a cargo das comunidades territoriais entretanto criadas e a da cooperação inter-Cidades marcada por uma lógica de sistema urbano.)

A dinâmica do Eixo Atlântico e a relevância política e económica das Cidades como forma de consolidação da Euro-região[1]

É, assim, depois de uma longa introdução de contextualização, que chego propriamente ao tema que me foi atribuído nesta conferência.

Os trabalhos técnicos de aprofundamento de análise que se sucederam à criação em 1992 da Associação de Cidades Eixo Atlântico privilegiaram a introdução na abordagem à Euro-região da lógica de sistema urbano e da temática da questão urbana. A novidade do Eixo Atlântico como espaço de cooperação inicia-se com esta particularidade. É importante sublinhar que em termos de comparação de estatutos político-institucionais existe mais proximidade entre municípios (e cidades), embora possamos dizer que a dimensão média territorial e demográfica dos municípios portugueses seja superior à dos ayuntamientos. Esta diferença esbate-se bastante se considerarmos a unidade Cidade e assume nuances muito diferenciadas se considerarmos unidades espaciais como as aglomerações metropolitanas. É importante ainda recordar que a norte os atores políticos municipais estavam a despertar politicamente para as Cidades e para as políticas urbanas dentro dos respetivos municípios, sobretudo na sequência de movimentos de deslocação de pessoas que privilegiaram a deslocação para as sedes de concelho, não ignorando o afluxo à aglomeração metropolitana do Porto. Na Galiza, à altura da constituição do Eixo Atlântico, a cultura política urbana estava longe de estar enraizada na Região, acontecendo mesmo um debate enriquecedor que se ia fazendo sobre o modelo urbano das rias. Este debate encontrou algum eco em alguma investigação urbanística a norte de Portugal, sobre o chamado urbano difuso sobretudo no sistema Ave-Cávado, ou como o por vezes o designo de modelo de dispersão concentrada que caracterizavam então os espaços urbano-rurais-industrializados dos territórios do Ave e do Cávado. Existe evidência de cooperação nesta área temática entre a Escola de Arquitetura da Universidade da Corunha e a Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto. Politicamente, o esforço do Eixo Atlântico na promoção de uma cultura urbana que partisse da especificidade dos modelos de urbanos prevalecentes designadamente no litoral das duas Regiões deve ser realçado com um dos mais importantes fatores de diferenciação da cooperação desenvolvida no âmbito do Eixo Atlântico.

Em contrapartida, pode dizer-se que na cooperação do Eixo Atlântico dificilmente pode ignorar-se a maior rivalidade competitiva entre municípios (cidades). À época, o modelo de governança das Cidades estava ainda pouco desenvolvido, sendo essencialmente um modelo de governação municipal, a não ser em municípios como o Porto ou S. João da Madeira em que o município coincide praticamente com o de Cidade. Apesar desta rivalidade existir, como aliás é percetível através dos altos e baixos de participação de autarcas galegos e nortenhos na vida do Eixo, pontualmente apimentada por alguns conflitos de opinião entre autarcas galegos e nortenhos (como, por exemplo, o azedar do relacionamento entre Abel Caballero e Rui Moreira, autarcas de Vigo e do Porto, a propósito do peso do aeroporto do Porto no sistema aeroportuário da Euro-região).

Apesar dessa rivalidade, no período inicial de 1992 a 1994, o Eixo apresentava-se sem temor como um lobby urbano. Neste período inicial, ganhou força a ideia de reivindicação da infraestruturação plena da vertebração do sistema urbano da Euro-região (começou a falar-se então de Planos de Infraestruturas para o território do Eixo), entendendo-se que a vertebração do sistema constituiria a forma mais promissora para assegurar a coesão territorial da Euro-Região, sem embargo da sua competitividade como um todo na fachada atlântica e no espaço europeu em geral. Nesta vertebração territorial, ganhou relevância o conjunto de ações em torno do chamado eixo interior (Lugo-Monforte-Ourense-Chaves-Bragança) em estreita articulação com o eixo litoral, naturalmente mais dinâmico. É neste âmbito que assume notoriedade o estudo conduzido pelo Eixo sobre a Euro-cidade de Chaves-Verín, centrado no papel estratégico da água.

Pode dizer-se que a atração pela reivindicação das infraestruturas sobretudo rodoviárias demorou algum tempo a perder naturalmente a sua proeminência na dinâmica reivindicativa do Eixo. A debilidade da infraestruturação ferroviária, sobretudo da parte do Norte de Portugal explica que só muito mais tarde a questão da ligação ferroviária em alta velocidade ou em comboios tipo Alfa Pendular tenha ganho alguma expressão reivindicativa. A infraestruturação ferroviária sempre foi muito dependente de investimentos da administração central e verticalizada dos dois países e de empresas públicas de grande dimensão e poder (CP e REFER, posteriormente integrada nas Infraestruturas de Portugal S.A, do lado português e ADIF (Infraestrutura) e RENFE (operação), do lado espanhol. Se é verdade que, no caso da Galiza, a Xunta da Galiza pode aspirar a um protagonismo nesta matéria, embora sempre dependente da programação nacional e dos financiamentos europeus para a Rede Europeia de Transportes, já a parte regional portuguesa não tem qualquer capacidade de intervenção. Foi assim significativo que as principais cidades da Euro-Região se associassem nessa reivindicação, primeiro em torno da modernização litoral da linha Porto-Viana do Castelo- Valença-Tuy e Vigo, entroncando depois na ligação Vigo-Santiago-Corunha já existente, e mais recente na pressão para o cumprimento das promessas programadas para a alta velocidade, agora pela via Porto-Braga-Vigo e articulação posterior com a alta velocidade de Vigo-Ourense-Madrid. Importa também assinalar a ação intensa de lobby exercida no sentido de garantir que na rede europeia de transportes o chamado Arco Atlântico estivesse representado na programação dos investimentos. O papel do Eixo nessa defesa deve ser relevado, sempre com o objetivo de contrariar a relativa desvalorização com que a infraestruturação ferroviária do noroeste peninsular era encarada.

Os períodos de 1995 a 1999, em que se opera a estabilização de um secretariado técnico, dotado de recursos técnicos e humanos, algo de essencial para a projeção das atividades da rede e de 2000-2006 que é um período de consolidação, são fases relevantes para suportar a forte projeção internacional que o Eixo haveria de protagonizar no período de 2009 a 2012 (intensificação do relacionamento.com o Brasil e a América Latina). Nestes três períodos, a alternância de Presidentes, galegos e nortenhos, com as suas particularidades de discurso e posicionamento foi integrada na dinâmica da associação, não esquecendo a alternância democrática de orientação política em alguns dos municípios marcantes do Eixo, mais intensa na Galiza e mais recentemente do lado do Norte de Portugal. A estabilização de um secretariado técnico com duas instalações, em Vigo e no Porto, proporcionou ao Eixo níveis apreciáveis de resiliência face às referidas oscilações políticas, tanto mais que a composição foi-se alargando substancialmente o número de municípios associados.

À medida que se opera a consolidação da rede através de uma diversidade de iniciativas de cooperação que envolvem atividades como o desporto, o turismo, a cultura, com grande projeção e repercussão popular, e a tentativa de envolver as dinâmicas empresariais e se confirma a projeção internacional do Eixo, com presença crescente em programas de financiamento europeu, observa-se um fenómeno que importa analisar com atenção. O sistema de atores privados e institucionais que atua na Euro-região abrange um conjunto de atores que começam a ser disputados pelas diversas formas de cooperação em evolução – a da CTGNP e posteriormente do AECT, a das comunidades territoriais e, obviamente, a do Eixo. Metaforicamente, imaginando uma dança de cadeiras, observa-se que existem demasiadas cadeiras (as ações de cooperação) para o sistema de atores existente.

A Agenda Urbana do Eixo lançada em 2017 e com uma atualização para 2026 representou um importante instrumento de fidelização de atores identificáveis com a estratégia para o sistema urb, aumentando o seu nível de participação e envolvimento. A atualização da Agenda em 2026 integra já o conjunto de ideias força para o período após a pandemia: desenvolvimento económico e resiliência, desenvolvimento social e sustentabilidade, abrindo espaço para dois novos conceitos – o turismo policêntrico e o turismo de autor.

Entretanto, a ação de lobby urbano nunca foi abandonada, podendo mesmo dizer-se que se tem intensificado. Em diferentes formas de colaboração com o Eixo (Conselho Estratégico, animação de dossiers setoriais, tomadas de posição públicas), o Eixo tem hoje fidelizado um conjunto vasto de senadores da política galega e nortenha (nacional), composto por ex-ministros e Presidentes de Ayuntamientos e Câmaras Mucipais (Arlindo Cunha, Fernando Laxe, Francesc Cárdenas, José Maria Costa, Luís Braga da Cruz, Luís Ramos, entre outros).

***

Numa reflexão de síntese, a criação e consolidação do Eixo Atlântico vieram trazer à cooperação Galiza-Norte de Portugal a lógica do sistema urbano e das cidades como fatores estruturantes do desenvolvimento territorial, integrando na equação os modelos de urbanização em desenvolvimento na Euro-Região. Com a atuação do Eixo foi possível constatar que as políticas urbanas e de valorização das Cidades da Euro-Região não é algo de incompatível ou contraditório com a defesa e promoção da coesão territorial. A evidência mais clara disso é o facto de ter sido o Eixo Atlântico que lançou a ideia de vertebração do eixo interior da Euro-região.

Também aqui, por estranho que vos possa parecer, encontramos a marca de Smith. No volume 1 da Riqueza das Nações: “E foi assim que na maior parte da Europa o comércio e as manufaturas das cidades, em vez de serem uma consequência, foram a causa do melhoramento e cultivo do campo”. (volume 1, página 707).

Se entendermos que a diversidade é sempre fator de complexificação do desenvolvimento, então a coexistência na Euro-Região de cooperação inter-regional, de cooperação local e de cooperação em torno do sistema urbano é um fator favorável e que vale a pena preservar. É verdade que a coordenação é mais complexa e que a mobilização do sistema de atores deve ser concretizada em função da sua maior adequação a estes três níveis. Mas isso não é problema novo para quem estuda e se estuda com os modelos e processos de governança territorial.

 



[1] A publicação de autoria de Luís Domínguez e David Pontes (2022), História dos 20 anos do Eixo Atlântico com coordenação operacional de Chus Torres e Eliza Vásquez Collazo constitui um excelente referencial histórico para compreender o novo vetor da cooperação que o Eixo Atlântico introduziu na Euro-Região. Para o período mais recente, o autor deste artigo realizou uma entrevista telefónica com o Secretário-Geral do Eixo Atlântico Xoan Vásquez Mao através da qual se recolheu uma perspetiva participante de alguém que acompanha a Associação praticamente desde o seu início.