sábado, 25 de maio de 2019

NOVAS DEFINIÇÕES POSSÍVEIS NA UNIÃO?


Somos todos supostos estar em reflexão para o voto de amanhã. O escrutínio acontece por toda a Europa neste fim de semana alargado que já se iniciou na Quinta-Feira com as primeiras escolhas por parte do Reino Unido e da Holanda. Ao que tudo indica, a catástrofe que parecia iminente não irá acontecer, já que as duas grandes famílias políticas tradicionais (EPP e S&D, i.e., a direita democrática e a esquerda social-democrata e socialista) não perderão tantos lugares quanto se vaticinava e continuarão a deter uma importância central (superior a 40%) na câmara, situação que é de molde a garantir ainda maior tranquilidade europeísta se se lhes juntar o peso dos liberais do ALDE. Dito isto, acresce o “e se...” de que se vai falando: uma aliança entre várias forças democráticas e defensoras do projeto europeu que exclua o PPE e assim permita que os próximos destinos europeus possam vir a ser comandados por Timmermans e Udo Bullmann (pelo lado socialista) e por Vertager e Verhofstadt (pelo lado liberal), com um Sul mais influente nas decisões essenciais por via da França de Macron e do peso governativo e eleitoral dos socialistas ibéricos e sem prejuízo do contributo dos Verdes e de conversões a conseguir na área da esquerda mais eurocética – será este o sonho de António Costa?

sexta-feira, 24 de maio de 2019

EUROPEIAS



(Um fim de semana relaxado em Seixas para recarregar baterias, estar com amigos, recuperar leituras em falta, para rumar, depois, no domingo, às mesas de voto e cumprir o dever que a Europa justifica. Oportunidade para refletir o que pode ser uma crítica interna às realizações da União Europeia que se contraponha aos desígnios dos que a querem simplesmente destruir, sabe-se lá ao serviço de que interesses e fins.

A tentação que se abateu sobre a cabeça de António Costa para dramatizar as eleições europeias, não através da valorização de alguns temas comunitários sobre os quais os Portugueses deveriam estar mais avisados, mas antes através de questões de política nacional é bizarra mas tem algumas justificações. A primeira é seguramente a de minimizar os danos colaterais da escolha pouco ajuizada de Pedro Marques para liderar a lista de candidatos. Há quem o afirme pela falta de carisma de Pedro Marques. O argumento não me convence, pois se a escolha tivesse recaído em Maria Manuel Leitão Marques teríamos de pesar os mesmos argumentos. Foi uma má escolha pois, sabendo do que a casa das europeias em Portugal gasta, Pedro Marques personalizou o ministério com maiores problemas de concretização de investimento público, não por culpa do próprio, mas pela política orçamental de penalização do investimento público. Já Maria Manuel teria imenso material para apresentar. A segunda justificação tem que ver com a tentação de encostar o PSD às cordas na trajetória para as legislativas. Acredito mais na segunda justificação do que na primeira, com a grande vantagem de que a segunda é potencial uma solução de dois em um. Perturba a caminhada do PSD e ajuda a proteger o candidato.

Todos os planos usufruem por vezes de condições favoráveis não previstas. Não é vulgar mas acontece. Não se imaginaria, nem no pior dos cenários, que o PSD por via da questão do tempo de serviço dos professores acabasse por dar de mão beijada ao PS o impulso que precisava. Não é por acaso que as sondagens antes e depois da cena gaga do tempo de serviço dos professores têm resultados muito diferentes em termos de gap entre o PS e o PSD. Rio percorre com alguma penosidade a sua via-sacra de legitimação interna e externa e custa ver um político de boas intenções, honesto, a tatear um rumo, sujeito permanentemente às bicadas de quem queria ver no PSD o grande bastião da direita liberal (os mais consistentes não tenho disso dúvida) e dos que consideram que Rio nunca será um deles, ou seja, de uma certa corte que pensa que a distribuição dos QI dos portugueses diminui aceleradamente do centro lisboeta para as diferentes periferias. Não imagino quem seja o grupo mais restrito que discute ideias com Rio. David Justino tem-me surpreendido pela negativa, quando o considerava um político experimentado, sólido e, pelo menos do seu roteiro pessoal na educação, com uma cultura política que me inspirava confiança. Mas talvez haja outras luminárias, mas pelo que se tem visto, deve haver um problema sério de comunicação de ideias entre tal grupo e a liderança.

Esperaria mais do candidato Paulo Rangel. A opção tomada por um estilo “picadinho”, tornando o seu discurso irritante e de tão irritante um discurso muitas vezes vazio.

Num quadro de escolhas de largo espectro ideológico e partidário, o que torna indesculpável a decisão gratuita de não votar, com gente distinta mas robusta e coerente, como o são por exemplo Rui Tavares do Livre, Ricardo Arroja da Iniciativa Liberal e Paulo Sande do Aliança, e só neste trio há um mar de alternativas de visão da União Europeia, a minha relativa desilusão com a pré-campanha e campanha propriamente dita tem uma só razão. Para mim, a grande alternativa que deve ser discutida é esta: como discutir criticamente o aprofundamento da União Europeia numa perspetiva interna sem dar o flanco à sua destruição. Pois não me parece convincente defender o projeto europeu apenas com o peso da ameaça de que vem aí o Lobo. E neste campo o que é frustrante é a ausência de movimento no campo socialista europeu. Por isso, uma aliança entre socialistas e liberais para combater o Lobo sem que os primeiros se distanciem do seu contributo para o estado atual da União Europeia e reflitam num novo rumo parece-me precipitado passando por cima do verdadeiro problema.

Não sabemos ainda qual vai ser a real dimensão do voto na extrema-direita. Provavelmente será algo de intermédio entre o que a sondagem à boca das urnas na Holanda proporcionou (com vitória dos socialistas e emergência abaixo do esperado da nova estrela da extrema-direita holandesa) e os cenários mais aterradores em Itália, França e países do Leste Europeu. De qualquer modo, qualquer aliança no PE que tenha por objetivo barrar o caminho à extrema-direita não pode ignorar a necessidade de pensamento crítico dos rumos recentes da própria União. O autismo “prá frentex” de Macron carece de tradução política em diferentes países. Os sociais-democratas têm a sua própria casa ainda pouco robusta para negociarem. Por isso parece-me algo precipitada esta aproximação se não for devidamente trabalhada. Vejo uma possibilidade mais imediata, bloquear o acesso de Webber do PPE à Presidência da Comissão Europeia. O que já não seria pouca coisa.

Por cá, pediria uma baixa taxa de abstenção no plano comparativo europeu, a vitória do PS e se possível a eleição de Rui Tavares. Isso seria um excelente contributo de Portugal.

VOTAR NO DOMINGO


Domingo há eleições europeias e as sondagens parecem ter virado definitivamente a favor do PS – numa adaptação de como um dia disse o Durão, só falta saber é por quantos? Ainda assim, o quantum dessa diferença não deixará de ser relevante (quem não se lembra do “poucochinho”?), bem como constatar se o PS irá ou não conseguir ter mais votos do que os dois principais partidos à sua direita. Depois, e abstraindo da questão relacionada com o montante a que se situará a abstenção, há mais dois ou três campeonatos”: o do terceiro lugar (BE, CDU ou CDS, travando as duas forças de esquerda uma luta própria entre si), o da confirmação do total falhanço de Marinho e Pinto (PDR) após cinco anos em que só degradou a imagem de competência e frontalidade que tinha adquirido enquanto bastonário e o da interrogação em torno de saber se algum ou alguns pequenos partidos (que são doze) chegará ou chegarão à eleição de um eurodeputado (parecendo o Aliança e o PAN melhor posicionados para tal) ou, ainda, se algum meteorito inesperado atinge o nosso espaço político (o que seria dramático no caso da “Coligação Basta” – já que o PCTP/MRPP só está para cumprir o calendário de sempre e o PNR, o “Nós Cidadãos” e o PURP não passarão de brincadeiras de gosto duvidoso – e interessante no caso do “Livre” ou do “Iniciativa Liberal” – já que o MAS não deu sinais mínimos de vida). Boa reflexão e, já agora, não deixe de ir votar.

QUATRO FOGACHOS SEM COMENTÁRIOS




quinta-feira, 23 de maio de 2019

PODER DE MERCADO



(Entre as tendências que atravessam a economia mundial e que mais têm suscitado o debate entre os economistas integrados na evolução de longo prazo das economias, a robotização e os seus efeitos sobre o emprego e o estranho puzzle do fraco crescimento da produtividade destacam-se claramente. Porém, só mais recentemente uma outra tendência tem emergido na centralidade do debate. E até o World Economic Outlook 2019 do FMI lhe dedica um capítulo.

É tempo de regressar aos temas económicos neste blogue.

Estamos num tempo em que cada vez mais é necessário separar bem a nossa perceção da dinâmica das economias no curto prazo das tendências que condicionam o seu crescimento no longo prazo. Trump vai certamente exacerbar a atenção sobre a primeira daquelas dimensões porque lhe é favorável. A economia americana vive um período de crescimento muito aceitável e a taxa de desemprego oscila praticamente em função de um valor incompressível. Trump tem manifesto interesse em destacar estas dimensões porque elas mascaram o impacto negativo das guerras comerciais que precipitadamente tem acionado e o efeito da descida dos impostos sobre os mais ricos já praticamente se esgotou.

Mas há economistas que não abdicam e bem de compreender as economias do ponto de vista do tempo longo, reavivando a sua componente estrutural. Nesse âmbito, duas dimensões têm ocupado a centralidade do debate: a robotização e os seus efeitos sobre o emprego e o estranho puzzle das razões pelas quais, em ambiente de progresso tecnológico intenso, a produtividade do trabalho teima em crescer anemicamente. Embora obviamente relevantes, estes temas não podem fazer esquecer outros sem os quais a compreensão da encruzilhada em que a economia mundial e as economias mais maduras se encontram fica truncada.

Um desses fatores que passou por um certo esquecimento ou ocultamento é a evidência de que o poder de mercado de algumas empresas tem crescido para além dos limites do tolerável numa economia de mercado que se quer regulado. Esse poder de mercado torna obsoletos todos os manuais e análises que teimam em relegar a concorrência monopolista, os oligopólios e os monopólios para os últimos capítulos em que geralmente a docência dos cursos de economia nunca chega ou quando chega é para percorrer apressadamente como se fossem situações anómalas ou excêntricas. Mas as consequências de esconder esses materiais para baixo da carpete como de lixo se tratasse são nefastas em termos de compreensão do mundo económico contemporâneo. Alias, por essa via ficam por explicar factos estilizados dos nossos tempos como a queda persistente da quota do trabalho no produto (rendimento). O mundo da determinação dos preços como se todas as empresas fossem irrelevantes do ponto de vista da oferta de produtos e da procura de trabalho é um mundo irreal, que relega para o plano da simples curiosidade a compreensão de variáveis como são os preços de mark-up (com fixação de uma margem) e o poder de mercado das empresas e suas consequências na fixação dos preços e da taxa de salário.

A importância do tema é tal que o World Economic Outlook 2019 do FMI (link aqui) lhe dedica um capítulo, mais propriamente o segundo.
(World Economic Outlook, 2019)

A figura acima anuncia-nos uma economia global dual e desequilibrada. A evolução das margens nos 10% de empresas mais ricas contrasta clarissimamente com a evolução das mesmas margens nas restantes empresas. E a figura abaixo mostra que esse é um essencialmente um problema das economias avançadas e não das emergentes.
(World Economic Outlook, 2019)

As razões para este desconchavo de poder económico estão essencialmente na desregulamentação que precedeu a crise financeira e provavelmente já não erá apenas o regresso das políticas anti-trust, à moda antiga, que poderão resolver o problema. Neste contexto, resolver o problema da Europa como o pretendem Macron e Merkel com base no reforço da concentração empresarial e no favorecimento de determinadas empresas do eixo franco-alemão é atirar combustível para o fogo. Poderemos dar muitas voltas ao quarteirão, mas a tributação com taxas que se vejam e não provoquem apenas cócegas na rendibilidade empresarial parece incontornável. Até lá teremos de apoiar a Comissária Margrethe Vestager. E entre um Webber de fraca reputação e a Comissária para Presidente da Comissão Europeia a escolha parece óbvia.

A VOTOS E FAREWELL


Hoje o Reino Unido vota para o Parlamento Europeu! Quem poderia dizer há pouco tempo atrás que tal facto ocorreria? E que os nossos mais antigos aliados estariam na situação patética em que se quiseram colocar com o contributo inestimável de quase todos os seus agentes e forças políticas? A última de tantas foi a tentativa desesperada de May no sentido de conseguir um voto parlamentar para o seu enésimo plano sobre o “Brexit”, indo desta vez ao ponto de sugerir a possibilidade de facilitar a realização de um segundo referendo (I recognize the strength of feeling across the house). Parece que pregou num deserto e que, assim sendo, será desta que a sua já por demais anunciada morte política vai acontecer. Enquanto isso, tudo indica que o novo partido de Nigel Farage venha a vencer hoje as ditas eleições europeias!

(Morten Morland, http://www.thetimes.co.uk)

TAXAS DE JURO NEGATIVAS!


Até há bem pouco tempo atrás, ninguém seria capaz de prever que um dia iríamos poder assistir ao inimaginável que se nos apresenta hoje pela frente: um entorno económico dominado pela prevalência de taxas de juro negativas, levando a que alguém menos especializado na matéria me dissesse há dias que não compreende como é possível admitir que um cidadão tenha de pagar aos bancos para neles ter depositadas as suas poupanças. Da mesma paradoxal maneira, e como nos recordava também há dias o “The Wall Street Journal”, uma hipotética situação de taxas de juro negativas seria teoricamente suposta encorajar as pessoas a contraírem mais dívida, a gastarem mais e a pouparem menos – mas o certo é que, na realidade, it hasn’t worked that way...