terça-feira, 7 de julho de 2026
segunda-feira, 6 de julho de 2026
CINCO EVIDÊNCIAS INDIVIDUAIS DO MUNDIAL
Recupero abaixo os cinco gráficos que o excelente profissional Kiko Llaneras nos apresenta no “El País”, com reporte à primeira fase do Mundial de Futebol que passará à posteridade como o da afirmação da dignidade de um país de língua oficial portuguesa (acima, uma caricatura do seu capitão de equipa Vozinha). Cada um desses gráficos elege um tópico de análise e procura encontrar os jogadores que mais se destacaram de acordo com os dados disponíveis a respeito dele. Os cinco nomes a registar são, então, os de Mbappé, Messi, Olise, Pedri e Hakimi.
O primeiro tópico corresponde à produção atacante e o gráfico cruza as contribuições de cada jogador (golos e assistências), no eixo das ordenadas, com o que seria expectável em função das ocasiões criadas (golos e assistências esperados), no eixo das abcissas. O destaque centra-se claramente no francês Mbappé, sem prejuízo dos números observados em vários outros atletas de nomeada (dos mais repentinos, entre o francês Dembélé, o suíço Manzambi e o inglês Kane, aos mais construtores, entre o norueguês Haaland, o senegalês Sarr, o brasileiro Vinicius Junior e o espanhol Oyarzabal, com Messi e Olise a evidenciarem um bom mix das duas dimensões).
TRUMP, COMUNISTAS E CRIANCINHAS
(Fotografia reproduzida por Krugman no seu substack. 1976, missão no Banco de Portugal: Miguel Beleza, Jeff Frankel, Andy Abel e Paul Krugman. O espírito da época está bem presente no vestuário dos quatro promissores jovens economistas)
(Adiada por uma daquelas tempestades americanas que só a imbecilidade do movimento MAGA consegue replicar, a intervenção de Trump na comemoração do 250º aniversário dos EUA revelou bem como o futuro americano é sombrio. Só faltou invocar a ideia de que as criancinhas americanas se acautelem, pois os comunistas estão por aí esfomeados, relembrando as trevas do macartismo que varreu a América no passado. Uma leitura política mais atenta da reemergência anacrónica do anticomunismo mais primário no discurso de Trump mostra que tal deriva é típica de quem está na mó de baixo, mas que visa preparar o ataque à ala mais à esquerda dos Democratas, recentemente vitoriosa em algumas disputas locais, laborando na mais ampla confusão do modo mais deliberado possível. Invocando a comemoração do 200º aniversário, Paul Krugman recorda nessa data a sua estadia em Lisboa, inserido numa equipa de jovens economistas do MIT que trabalharam então no Banco de Portugal, dois anos depois do 25 de abril de 1974. Cito os dois últimos parágrafos dessa crónica recente, pois ela evidencia bem o que pensa um democrata liberal de toda esta deriva negra que paira sobre a nação americana, sem que se vislumbre uma hipótese segura de devolver Trump, o MAGA e toda a série de lunáticos que abriga as suas ideias à irrelevância.)
“(…) Nas vésperas da comemoração do 250º aniversário dos EUA, tivemos a confirmação da corrupção presidencial a uma escaça que Nixou nunca poderia ter imaginado possível. É má em si propria. Mas o que é pior +e que ninguém acredita que haverá consequências para Trump, os seus mais próximos e os seus capangas. Em 1974, os Republicanos juntaram-se aos Democratas para assegurar que Nixon seria responsabilizado. Hoje, investiram no alargamento do poder de Trump e no seu culto de personalidade, apesar de saberem perfeitamente quem ele é e o que está a fazer.
Não vou perder a Esperança. A América não está irreversivelmente perdida. Mas hoje, mais do que há 50 anos, somos uma nação em busca desesperadamente de redenção”.
Tudo isto é perturbador e é-o tanto mais quanto a democracia parece incapaz de dar origem a caminhos diversos, gerando movimentos que suplantem a onda do populismo mais extremistas, depois de ter sido à luz desse enquadramento que as derivas se instalaram no poder.
sábado, 4 de julho de 2026
A DEMOCRACIA EM RISCO AOS 250 ANOS
sexta-feira, 3 de julho de 2026
NO FIO DA NAVALHA DAS METÁFORAS
(Continuo em busca das metáforas que o Mundial nos está a oferecer. A loucura do jogo com a Croácia, já madrugada adentro, representa em meu entender uma interpretação representativa do destino português neste estádio de perturbação mundial em que vivemos. Num estádio, embora pequeno, maioritariamente luso, dada a importância da comunidade portuguesa em Toronto (ainda me lembro dos jardins fronteiros de algumas casas de portugueses com cultivo de vegetais, tomates e outros, a afirmar uma presença singular), o desenrolar das incidências do jogo retrata bem o que somos e o que temos sido por estes tempos mais próximos. A primeira parte finalmente bem jogada, com circulação de bola mais rápida do que o habitual, mas com uma capacidade nula de finalização, foi o espelho de muita da inconsequência nacional, deambulamos muito, sobretudo para o lado e para trás, mas o foco objetivo na concretização escapa-nos e invocamos depois a má sorte. Na segunda parte, perante uma Croácia que confirmou que sabe jogar e bem, pese embora a cruel necessidade de renovação etária, sofremos um amasso dos antigos. As crateras abertas nas inúmeras transições defensivas em que nos entregámos abertamente às investidas do adversário foram antecipando o pior, não fora a qualidade de um insuperável Diogo Costa (por quanto tempo o FCP vai aguentar esta preciosidade?). O empate surgiu inevitavelmente e poderia ter sido bem pior, pois estivemos no limirar do abismo de sofrer uma das mais poderosas humilhações desportivas. Quando os treinadores mais conservadores e empatas como Martinez se entrega a mudanças disruptivas receio sempre o pior. O selecionador ousou abdicar praticamente da consistência do nosso meio-campo, Ronaldo perdeu por poucos centímetros de um ombro demasiado adiantado a possibilidade de consumar uma das mais belas receções de bola na sua carreira, mas eis que há sempre um português pronto a desafiar o destino e Gonçalo Ramos, nos seus primeiros minutos de mundial, expliquem-me esta evidência, sai do banco e num cruzamento teleguiado de Rafael Leão eleva-se, suplantando os centrais e com uma inteligente cabeçada coloca Portugal a ganhar.)
Gonçalo Ramos assumiu neste caso aquele papel do português único que é capaz de, nas condições mais adversas e improváveis, concretizar coisas, suscitando aquele nosso velho dilema de saber como é que não é possível replicar estas situações. E, no caso dele, já não é a primeira vez.
Consumada a reviravolta, trancas à porta e trata-se agora de compensar as audácias da mudança radical imposta com a substituição de quatro jogadores e recuperar com Ruben Neves a consistência do meio-campo de que tínhamos abdicado voluntariamente. A partir daí, o fado da não contenção repetiu-se como tantas outras vezes sucedeu no passado, criando no espectador atento a sensação de que o golo croata estava próximo, naquela estranha sensação da incapacidade coletiva que nada pode compensar. E assim aconteceu. Mas a tecnologia apurada dos sensores protegeu a nossa incapacidade coletiva, sendo demonstrável que o centro-avançado croata Matanovic tocou de raspão na bola colocando em fora de jogo o colega que abriu caminho ao golo de Gvardiol. Jogo loco e repleto de metáforas.
E, por fim, vários jogadores portugueses invocaram a alma e recordação de Diogo Jota para justificar a força daquela vitória. Teria de ser, obrigatoriamente e em termos esperados.
O que eu não sei é se a qualidade da Espanha estará para aí virada.












