(Ainda não tive a oportunidade pessoal de viajar na alta velocidade ferroviária em Espanha e sinceramente a propensão para o fazer está em baixa. A Espanha que revolucionou quase em surdina a sua rede de alta velocidade a ponto de a tornar na segunda mais extensa do mundo, a seguir à da China, o que contrasta com a atávica incapacidade de decisão portuguesa, tem claramente a sua estratégia de segurança ameaçada. Dois acidentes trágicos envolvendo a alta velocidade, em Adamuz e agora em Urda perto de Toledo, projetam uma nuvem de insegurança na ADIF, no ministro da tutela e no Governo em funções e vêm adensar a presença de fatores estranhos no confronto eleitoral de novembro próximo. Os dois acidentes, independentemente do desfecho dos inquéritos e investigações que suscitaram, que por vezes, depois de longos processos, chegam a conclusões bem diferentes das primeiras avaliações realizadas nos primeiros dias após as tragédias, suscitam várias interrogações cuja resposta deve ser tomada em linha de conta na experiência portuguesa de construção da alta velocidade. A coexistência da alta velocidade com a infraestrutura existente, o estado de conservação e manutenção desta última, os sistemas que asseguram a segurança na circulação[1], () incluindo toda a sinalização de suporte são questões que os dois acidentes de 2026 em Espanha trouxeram para o centro do debate e para a política de segurança que deve enquadrar uma rede de alta velocidade tão extensa como a espanhola.)
As eleições de fins de novembro em Espanha já tinham a nível político um enquadramento de grande tensão, suscitada sobretudo pela possibilidade real de elas darem origem a uma rotura de grandes proporções com a governação socialista e da esquerda regionalista que tem gerido a Espanha nos últimos anos, depois da saída do poder de Mariano Rajoy. Acidentes desta envergadura, por mais recato que as tragédias das vítimas e das suas famílias imponham nos dias de luto que se seguem aos acontecimentos, e assim normalmente acontece, adensam obviamente o material de conflitualidade e violência verbal que é visível no processo que está em marcha. Frequentemente, a possibilidade de ocorrência de erros humanos, ou pelo menos a sua invocação enquanto investigações mais conclusivas e fundamentadas se realizam, não consegue apagar o ónus sobre as entidades que tutelam a operação e a infraestrutura ferroviárias e obviamente sobre o ministro responsável e daí sobre o governo em funções. E assim vai ser, até porque neste caso, e também como o registado em Adamuz, não há a questão da partilha de competências entre governo central e as autonomias regionais que por vezes funciona como espaço de esconder responsabilidades a perturbar a interpretação do que efetivamente aconteceu, como foi o caso da trágica intempérie em Valença, em que o governo regional da Comunidade Valenciana esteve no olho do furacão.
Visto nesta perspetiva, os acidentes trágicos de Adamuz e de Urda-Toledo vêm acrescentar à já problemática serie de acontecimentos negativos em torno do governo de Sánchez material explosivo. Certamente que há decisões que foram tomadas pelo controlo central da ADIF em Madrid que são discutíveis e que exigem apuramento. Com a entrada em baixa do sistema de controlo automático LBZ, que determinou a paragem imediata de vários comboios, é bastante estranha a ordem de retoma da circulação dada ao AVE, não em regime de velocidade à vista para proporcionar ao maquinista o controlo de reação face a a qualquer obstáculo, mas sem restrições de velocidade que o levou rapidamente a alcançar a velocidade de 200 Kms horários, à qual embateu no IRYO, entretanto parado, porque não conseguiu arrancar e retomar a marcha e assim responder positivamente à ordem vinda de Atocha para prosseguir o seu caminho. Mas, apesar de todo este contexto, a voragem eleitoral vai projetar este acidente na já de per si violenta tensão em que a campanha eleitoral vai decorrer.
Nestas ocasiões, os analistas eleitorais comentam sempre a questão de saber se o eleitor mediano é ou não sensível a este tipo de aproveitamentos políticos. A barganha eleitoral de novembro já tem a adensá-la motivos suficientes de polarização, em grande medida provocados por tiros no pé do círculo de poder mais íntimo de Sánchez, sendo provável existir discernimento democrático suficiente para não utilizar a tragédia de Urda – Toledo como combustível eleitoral. E não se ignore a possibilidade do eleitorado mais consciente rejeitar em absoluto que tragédias humanas sejam transformadas em armas de arremesso político.
[1] O sistema de segurança de circulação LBZ esteve em baixa num trajeto de 63 quilómetros algum tempo antes do choque dos dois comboios AVE e IRYO, passando a ser controlado diretamente a partir de Atocha Madrid.





