domingo, 21 de junho de 2026
sábado, 20 de junho de 2026
UMA MAL AMANHADA GERINGONÇA DE DIREITA?
(Grande parte do comentário político nos nossos canais de notícias estava convencido que a aprovação da nova legislação laboral, uma das mais lamentáveis e descaradas manifestações “pro business” da nossa política atual, chegaria a bom termo no Parlamento, concretizando uma espécie de novo normal à direita, mal-amanhada e à procura de um rumo, mas existente. Por exemplo, o Eixo do Mal da passada quinta-feira evoluiu nesse pressuposto. Nesta matéria, porém, há que distinguir entre duas coisas. Uma é o cenário que está traçado de aproximação instrumental entre o PSD e o Chega, fruto da ânsia de Montenegro se manter na governação e do hábil jogo tático de Ventura, convencido ou iludido que está que tem um projeto para o país. Outra bem diferente, é a tática política de Ventura, que a maior parte do comentário político ainda não entendeu e que muda, flutuando em função das circunstâncias. Como o meu colega de blogue bem o assinalou, percebe-se que os “negociadores” do PSD, e pelos vistos muito mais gente, foram manifestamente surpreendidos pelo flic-flac de Ventura, que já nos mostrou ter elasticidade, golpe de rins e sobretudo lata, muita lata, para nos continuar a surpreender. Estou convencido que a legislação laboral foi apenas o aquecer de motores para outros episódios de teor dramático similar, incluindo as questões da revisão constitucional, em linha com as alterações de composição observadas no Tribunal Constitucional. E o que me parece que vale a pena essencialmente discutir é se os tempos políticos do Portugal de hoje, herdados dos últimos resultados eleitorais, mesmo integrando nessa análise as Presidenciais, nos vão conduzir a uma espécie de geringonça de direita. A utilização desta expressão não foi de minha lavra e creio antes que foi Pedro Adão e Silva que, num painel que já não recordo onde foi realizado que a utilizou, a sugeriu e que a oposição está hoje centrada no PS de José Luís Carneiro. A questão não é específica de Portugal. Noutros países, com maiorias de direita alargada, incluindo a radical e mesmo fascista, o problema está instalado e a sensação que tenho é que as chamadas linhas vermelhas entre a direita democrática e moderada e a extrema-direita estão progressivamente a desbotar e a ficar cada vez mais “fuzzy”, isto é, nebulosas e com vários tons de cinzento. É sobre esta questão que gostaria de centrar o post de hoje.)
Situemo-nos em contextos eleitorais em que o centro-esquerda sai debilitado dos últimos atos eleitorais, a esquerda mais radical está senão moribunda, pelo menos a apanhar os cacos dos seus últimos desaires políticos e que a chamada direita alargada, incluindo a democrática e moderada e a extrema-direita, têm maioria de governação. Admitamos ainda um cenário em que a direita moderada, ganhadora das eleições, manifesta intenções de governar em minoria, podendo o cenário integrar a expressão inicial de estabelecimento de linhas vermelhas relativamente à extrema-direita. Na minha interpretação, está criado um sistema dinâmico, que pode evoluir politicamente em várias direções, com matizes determinados pelas especificidades do espectro político de cada país. Mas o modelo pode ser aplicado a vários contextos com as suas especificidades, por exemplo Portugal, podendo estender-se a outros países, com tanta maior probabilidade quanto mais os ganhos eleitorais dessa tal direita alargada forem elevados.
O que tenho vindo a confirmar com a evidência de vários países é que a resistência da direita moderada a fazer aproximações e possíveis acordos com a extrema-direita tende a enfraquecer à medida que a sobrevivência da governação em minoria começa a ficar em causa. Obviamente que o carácter eventualmente errático dos partidos de extrema-direita, como é o caso do Chega, pode perturbar a consumação deste efeito. Dirão alguns que a habilidade de última hora de André Ventura fugindo com o rabo à seringa na legislação laboral pode ser o melhor presente para Montenegro e o PSD que podem, assim, marcar a distância devida face ao partido de Ventura. Não acredito nada, mesmo nada, neste golpe de sorte que terá saído ao PSD. Creio que a tendência para se aproximar de possíveis acordos pontuais com Ventura irá confirmar a concretização do modelo atrás enunciado. Não será seguramente com teimosias sem equilíbrio como foi a do pacote laboral, sobre o qual não encontrei um comentário que fosse que associasse à nova legislação um efeito estrutural positivo sobre a economia portuguesa (de facto não existe em Portugal um problema de legislação de trabalho) que o PSD irá conseguir aproximações e acordos com o PS. Para o conseguir, teria de dar prova de uma outra moderação para a qual não tem evidenciado qualquer propensão.
Montenegro tem uma conceção do papel da sua governação que sobrevaloriza claramente o alcance do que tem para oferecer, ou seja, imagina-se mais do que é e o que ele tem para proporcionar ao país não vale o que ele pensa. Além disso, se pensarmos nas três questões mais enfatizadas que marcaram a governação nos últimos tempos, imigração, lei da nacionalidade e legislação laboral, todas elas o aproximaram do Chega. E assim creio que irá ser no futuro. Se Ventura se dá ao luxo de enjeitar essa aproximação, propondo medidas como a redução da idade da reforma que visam apenas baralhar a negociação, essa é uma outra questão que não invalida o modelo que em meu entender irá marcar a vida política nesta legislatura.
E, por fim, não penso que faça sentido o Presidente da República puxar o PS para um recentramento da governação. Enquanto se mantiver esta propensão do PSD para invadir agendas de uma direita não moderada, ao PS cabe apenas trabalhar numa alternativa de governação que seja percetível para o eleitorado, matéria que não conseguiu tornar clara. Entretanto, como referi na introdução a estas notas, a existirem linhas, elas não serão seguramente de cor vermelha.
HUGUINHO E LUISINHO OU DOIS MESTRES DA TÁTICA POLÍTICA
sexta-feira, 19 de junho de 2026
ANDY À ESPREITA, ESTÁ NELE A SOLUÇÃO?
UMA PERSPETIVA DE LONGO PRAZO DO ACORDO EUA-IRÃO
(Por agora, não é ainda possível aferir se o acordo anunciado por Donald Trump tem condições para ser duradouro e assegurar que, com a sua efetivação, o Golfo e o Médio Oriente em geral possam regressar a uma situação, senão similar, pelo menos próxima daquela que a Região vivia antes de Israel ter seduzido a administração Trump para desencadear um ataque ao Irão. Tenho a intuição de que Netanyahu ea extrema-direita israelita tudo farão para dinamitar o acordo e prosseguir o seu projeto de extensão territorial, subjugando adversários, não importa com que custos humanos. Entretanto, os críticos mais assanhados da administração Trump embarcam nos diagnósticos mais negros sobre a incrível proeza de deixar a Região num caldo de instabilidade marcadamente mais significativo do que existia antes do ataque. Mesmo um analista liberal moderado como Noah Smith não hesita em realizar uma comparação arrojada entre esta saída de sendeiro de Trump com aquilo que a devastação que o Katrina provou em Nova Orleães na governação de Georges W. Bush e na sua incapacidade de, a partir desse evento, manter o apoio do país à sua administração. É uma comparação arrojada, mas tem algum sentido. É verdade que a aprovação da governação de Trump estava já em níveis bastante baixos antes das hostilidades terem começado. É verdade também que, além dessa hostilidade contra o Irão ter saído furada pelas incongruências erráticas do posicionamento americano, outras matérias têm feito aumentar o grau de desaprovação da governação de Trump. Basta pensar na condescendente avaliação dos efeitos da inflação sobre as famílias americanas, nas guerras aduaneiras e comerciais sem garantir os efeitos anunciados, na corrupção aberta que tem sido desvendada, na violência inaudita do ICE contra imigrantes e nos despudorados abusos de poder que todos os dias são revelados para compreender que a saída de sendeiro da guerra com o Irão poderá ser um mal menor na desaprovação crescente que a governação de Trump está a suscitar. Mas o acordo conseguido, independentemente da sua estabilidade, merece uma perspetiva de longo prazo e essa coloca aquela zona do mundo num cenário bem mais gravoso do que o existente, seja após o acordo nuclear conseguido por Obama, seja no período imediatamente anterior às hostilidades e já com o Trump 2.0 no poder.)
Ian Bremmer e Firas Maksad oferecem-nos na Foreign Affairs mais recente uma excelente leitura dessa perspetiva mais a longo prazo do que o agora anunciado acordo pode significar, usando para isso a metáfora de uma sombra de longo prazo a pairar sobre a Região e também sobre a influência americana no mundo.
Entre as dimensões de análise mais sugestivas que são propostas à nossa reflexão, há uma que me despertou particular atenção. Bremmer e Maksad sustentam que a divisão de perspetivas no Golfo está hoje perfeitamente instalada, com consequências muito penalizadoras para a estabilidade da Região e para o que isso representa como fator de agravamento da estabilidade internacional, não importa se em evolução para um regresso bondoso à globalização de outros tempos, se para uma globalização fraturada e com disrupções salientes em termos de geopolítica. O argumento apresentado tem razão de ser. Segundo os autores, os parceiros dos EUA na Região estão a organizar-se de modo diferente, mais propriamente em coligações opostas, que substituem assim a ideia anteriormente vigente de que a presença americana na Região lhe assegurava condições de estabilidade aceites e desejadas por todos. Ambos os lados, compreenderam rapidamente que, face ao comportamento errático da administração americana, seria mais sensato iniciar um processo de maior autonomização na defesa da Região. Mais próxima dos EUA permanece a chamada coligação de Abraão, organizada sobretudo em função da influência de Israel e dos Emiratos Árabes Unidos, mas em que se juntaram o Bahrain e mais longinquamente Marrocos quando se concretizou a aproximação a Israel. Do outro lado, emergiu a chamada coligação islâmica, de matriz sunita, envolvendo a Arábia Saudita, a Turquia, o Paquistão e o Egito.
Ora o que aconteceu é que a reação inesperada do Irão ao ataque perpetrado pelos EUA e Israel, atingindo com os seus mísseis e drones países do Golfo, ao contrário do que seria imaginável, não aproximou aqueles dois grupos, antes os afastou ainda mais. Esse afastamento tem um significado claro: a influência americana na zona, não só em termos de segurança, mas de alinhamento noutras matérias de geopolítica passa a estar enfraquecida. Esse enfraquecimento é qualquer coisa que os bajuladores de Trump não vão conseguir ocultar, o que significa que também na frente internacional a desaprovação da governação de Trump tem agora mais um elemento a marcar a sua progressão. Daria matéria para outro artigo discutir o modo como a China está a tirar partido desta nova situação. Mas, ao contrário do modo como a influência dos EUA era anteriormente assegurada, através de uma liderança mais musculada, dispendiosa e com maior presença física naquela parte do globo, a influência chinesa tem sido concretizada de modo menos pesado e não necessitando de um envolvimento bélico na Região. Afinal, para quem esteja atento à estratégia chinesa, com exceção da presença mais musculada e ameaçadora que concretiza em Taiwan, a influência no Médio Oriente e no Golfo concretiza-se de modo mais soft, o que não significa menos ativa e geradora de efeitos.
O que é ainda mais curioso é que entre os blocos atrás assinalados, o dos acordos de Abraão e o sunita, persiste a ideia de que o Irão continua a ser uma forte ameaça. Haverá diferenças de posicionamento face a essa ameaça, não sendo de afastar a hipótese de que o bloco sunita com a Arábia Saudita e o Paquistão em crescente cooperação possa gerir essa ameaça de modo mais flexível, ao contrário da aproximação entre Israel e os Emiratos Árabes Unidos tenderão sempre a considerar as vias mais bélicas de contrariar essa ameaça.
Mas o que é irredutivelmente agora mais explícito é que o reforço destes dois grupos é uma consequência do insucesso das hostilidades contra o Irão. As reservas contra a opção nuclear do Irão, as preocupações contra os seus arsenais de mísseis balísticos, o carácter repressivo e sanguinário do regime teocrático continua lá e não sabemos ainda antecipar quais os efeitos gerados pela eventual libertação de fundos cativos para a sustentação do regime. E relativamente ao estreito de Ormuz a posição estratégica do Irão sai também reforçada. Bastariam estes resultados para avaliar como um passo em falso a precipitada guerra contra o Irão. Mas, em meu entender, Bremmer e Maksad têm razão quando acrescentam a este rol de insucessos uma nova perspetiva de longo prazo sobre o Médio Oriente e sobre o Golfo. O potencial bélico-militar dos EUA está intacto, mesmo que com necessidade de fundos internos para renovação de stocks. O problema é que a incompetência da política arruinou a influência desse arsenal na Região.
Por isso, no seu destempero sem emenda, Trump até é racional na sua saída de sendeiro, depois de se apresentar como um leão enfurecido. Talvez por efeito do shampô e dos colorantes utilizados, a juba do leão já não assusta muita gente. Os países do Golfo terão compreendido isto melhor do que ninguém.




