segunda-feira, 27 de maio de 2019

DESLIGAMENTO, COSTA, MARISA E ANIMAIS


A quente, e apenas no que toca cá à “Terrinha”, aqui ficam as primeiras impressões da noite eleitoral europeia: vitória larguíssima da abstenção, Costa confirmado e com Marques a preparar-se para desempenhar novamente o seu papel de acólito naquela que for a estratégia bruxelense possível, o PSD a onze pontos de distância com Rio em muito melhor desempenho do que Rangel, o Bloco como terceira força política nacional, a CDU/PCP em queda e a provavelmente reavaliar o saldo da sua participação na “geringonça”, o CDS em ainda maior queda numa penalização clara das suas insuficiências em termos de liderança, o PAN a surpreender e a participar modestamente na tendência europeia para a afirmação de votos diferentes (no caso, jovens e verdes), Santana a falhar, Ventura descartado, Marinho humilhado e os votos brancos e nulos a surgirem em quarto lugar (ou seja, em número superior aos da CDU). Na realidade, escassas revelações de monta e um resultado pouco projetável para legislativas, indiciando a meu ver – a malta gosta de checks and balances e a direita e o PCP vão ressurgir mais focados e agressivos – uma necessidade imperiosa de António Costa “manter a guarda” se não quiser deparar-se com algo de estranho na noite eleitoral de outubro...

domingo, 26 de maio de 2019

MIXED FEELINGS



(Ainda sem uma visão completa dos resultados das Europeias por toda a Europa, as projeções que chegam de Bruxelas anunciam-nos que o futuro Parlamento Europeu deixará de assistir ao peso da alternância entre os Populares Europeus e os Socialistas e Sociais-Democratas, com uma perda que pode ir até 90 deputados. O que sinceramente considero ser uma boa notícia, atendendo ao contributo dessa “maioria” estranha e contranatura para a má situação da União. E a perceção de que é a subida dos Verdes e dos Liberais (a par de algumas vitórias socialistas em Portugal, em Espanha e na Holanda) que contém o surto nacionalista e de extrema-direita (apesar da subida desta última) não deixa de ser um facto positivo-

Lendo o problema a partir do que tem sido o pensamento mais recente dos socialistas franceses e alemães, nunca acreditei que os sociais-democratas e socialistas europeus fossem capazes por si só de criar condições para uma viragem e sobretudo com distância suficiente ao erro histórico do apoio dos socialistas ao Tratado Orçamental. Do PPE muito menos, aliás visível no embaraço com que o candidato Paulo Rangel atirava para canto as investidas que sobre ele caíam sobre a má qualidade e comprometimento da sua família política. Por conseguinte, a viragem nunca poderia emergir dessa maioria comprometida. A única interrogação era se a viragem viria pelo lado mais ameaçador ou se, pelo contrário, poderia resultar do reforço de outras forças europeístas ou pelo menos com algum sentido crítico positivo.

O grupo dos Liberais ainda carece de compreensão e clarificação, sobretudo porque a entrada do grupo de Macron irá provocar reajustamentos. Mas a subida dos Verdes na Alemanha, em França e estima-se que a subida do PAN em Portugal tem também essa matriz, aponta claramente para uma nova tendência de um eleitorado mais jovem que os PPE e os Socialistas perderam lamentavelmente.

Sinto-me mais confortado com uma frente mais alargada para barrar o caminho à extrema-direita e ao nacionalismo xenófobo, que não inclua apenas a frente que cavou inapelavelmente o atual estado da arte na União. A presença dos Liberais e dos Verdes nessa frente robustece esse posicionamento, embora a “governação” do Parlamento Europeu se torne bem mais complexa. Mas tudo é preferível à manutenção do status quo e o estado deplorável do SPD alemão e dos socialistas demonstra bem essa evidência.

Cá pelo burgo, estou curioso com o que vai mudar na estratégia do PS em função do facto do Bloco de Esquerda se ter mostrado e de que maneira. Não é seguro que a alternância observada entre o Bloco e o PCP produza lastro para as legislativas, mas o excelente resultado obtido por Marisa Matias e o partido não vai deixar de produzir consequências do ponto de vista da relação a três. Todos sabemos que o diálogo é feito na geringonça aos pares, PS versus PCP e PS versus Bloco e não globalmente. Ora, ninguém sabe o que irá pela cabecinha de alguns pesos pesados do partido. E há a interrogação de saber se os resultados do PAN serão estendidos às legislativas. A hipótese de um grupo parlamentar do PAN não será de enjeitar, o que a confirmar-se poderia baralhar o cenário dos acordos parlamentares.

Quando escrevo, fala Paulo Rangel e do CDS nem vê-los. A incapacidade da direita parlamentar em situar-se em patamares eleitorais mais robustos reflete o estado da direita pós geringonça. Esperaria à direita resultados mais convincentes do Aliança de Pedro Santana Lopes com um excelente candidato Paulo Sande e até da Iniciativa Liberal. O crescimento do PAN parece ter matado o crescimento possível, em função da qualidade do discurso e do empenho democrático na Europa, do Livre de Rui Tavares.

Fica para os próximos dias uma leitura mais fundamentada dos resultados nacionais e europeus e das suas possíveis conexões.

Nota final: aparentemente os jovens portugueses não seguiram a tendência europeia de reforço de votação em termos absolutos nas europeias, tamanha foi a abstenção observada em Portugal quando comparada com outros países.  É tempo de assumirem as suas responsabilidades.

TEARESA

(Patrick Blower, http://www.telegraph.co.uk)

(José María Nieto,http://www.abc.es)

(Klaus Stuttman, http://www.tagesspiegel.de)

Depois de aqui tanto se ter falado de Theresa May não seria minimamente decente que também aqui não assinalássemos o seu adeus definitivo e doloroso, na realidade ainda antes the end of may. Os últimos dias foram, como quase todos os deste longo e penoso período em que o “Brexit” dominou a cena política britânica e europeia, cheios de absurdo, de um insuportável ruído e de uma incompreensível espera (capas abaixo). Não é fácil, a esta razoável distância geográfica e a esta escassa distância temporal, classificar e qualificar o que pareceu notoriamente um patético exercício de teimosia e pseudo-coerência por parte da agora ex-primeira ministra, a qual só passará doravante a figurar na História do seu país por infelizes ou más razões. Embora talvez não tenha sido por isso que saiu em lágrimas...


(cartoon de Matt Pritchett, http://www.telegraph.co.uk)

FERNANDO SÉRGIO ANDRADE


No momento que atravessamos, Sérgio Conceição é o melhor que temos – lutador, inclusivo e conhecedor q.b. A alternativa Jorge Jesus seria trágica a muitos títulos e que me perdoe Jorge Nuno Pinto da Costa e o que se diz ser o seu desejo a concretizar antes de ir embora da presidência azul-e-branca. Mas, cela dit, o Sérgio peca por defeito e só é compatível com um FC Porto de mínimos. A forma como perdeu o campeonato e a taça são disso prova evidente – e aquela ideia de, aos 5-5 em grandes penalidades e com hipóteses ainda em aberto como Felipe, Herrera ou Brahimi, mandar um tal de Fernando Andrade para a grande decisão foi uma opção de um nível acima de infantil...

sábado, 25 de maio de 2019

NOVAS DEFINIÇÕES POSSÍVEIS NA UNIÃO?


Somos todos supostos estar em reflexão para o voto de amanhã. O escrutínio acontece por toda a Europa neste fim de semana alargado que já se iniciou na Quinta-Feira com as primeiras escolhas por parte do Reino Unido e da Holanda. Ao que tudo indica, a catástrofe que parecia iminente não irá acontecer, já que as duas grandes famílias políticas tradicionais (EPP e S&D, i.e., a direita democrática e a esquerda social-democrata e socialista) não perderão tantos lugares quanto se vaticinava e continuarão a deter uma importância central (superior a 40%) na câmara, situação que é de molde a garantir ainda maior tranquilidade europeísta se se lhes juntar o peso dos liberais do ALDE. Dito isto, acresce o “e se...” de que se vai falando: uma aliança entre várias forças democráticas e defensoras do projeto europeu que exclua o PPE e assim permita que os próximos destinos europeus possam vir a ser comandados por Timmermans e Udo Bullmann (pelo lado socialista) e por Vertager e Verhofstadt (pelo lado liberal), com um Sul mais influente nas decisões essenciais por via da França de Macron e do peso governativo e eleitoral dos socialistas ibéricos e sem prejuízo do contributo dos Verdes e de conversões a conseguir na área da esquerda mais eurocética – será este o sonho de António Costa?

sexta-feira, 24 de maio de 2019

EUROPEIAS



(Um fim de semana relaxado em Seixas para recarregar baterias, estar com amigos, recuperar leituras em falta, para rumar, depois, no domingo, às mesas de voto e cumprir o dever que a Europa justifica. Oportunidade para refletir o que pode ser uma crítica interna às realizações da União Europeia que se contraponha aos desígnios dos que a querem simplesmente destruir, sabe-se lá ao serviço de que interesses e fins.

A tentação que se abateu sobre a cabeça de António Costa para dramatizar as eleições europeias, não através da valorização de alguns temas comunitários sobre os quais os Portugueses deveriam estar mais avisados, mas antes através de questões de política nacional é bizarra mas tem algumas justificações. A primeira é seguramente a de minimizar os danos colaterais da escolha pouco ajuizada de Pedro Marques para liderar a lista de candidatos. Há quem o afirme pela falta de carisma de Pedro Marques. O argumento não me convence, pois se a escolha tivesse recaído em Maria Manuel Leitão Marques teríamos de pesar os mesmos argumentos. Foi uma má escolha pois, sabendo do que a casa das europeias em Portugal gasta, Pedro Marques personalizou o ministério com maiores problemas de concretização de investimento público, não por culpa do próprio, mas pela política orçamental de penalização do investimento público. Já Maria Manuel teria imenso material para apresentar. A segunda justificação tem que ver com a tentação de encostar o PSD às cordas na trajetória para as legislativas. Acredito mais na segunda justificação do que na primeira, com a grande vantagem de que a segunda é potencial uma solução de dois em um. Perturba a caminhada do PSD e ajuda a proteger o candidato.

Todos os planos usufruem por vezes de condições favoráveis não previstas. Não é vulgar mas acontece. Não se imaginaria, nem no pior dos cenários, que o PSD por via da questão do tempo de serviço dos professores acabasse por dar de mão beijada ao PS o impulso que precisava. Não é por acaso que as sondagens antes e depois da cena gaga do tempo de serviço dos professores têm resultados muito diferentes em termos de gap entre o PS e o PSD. Rio percorre com alguma penosidade a sua via-sacra de legitimação interna e externa e custa ver um político de boas intenções, honesto, a tatear um rumo, sujeito permanentemente às bicadas de quem queria ver no PSD o grande bastião da direita liberal (os mais consistentes não tenho disso dúvida) e dos que consideram que Rio nunca será um deles, ou seja, de uma certa corte que pensa que a distribuição dos QI dos portugueses diminui aceleradamente do centro lisboeta para as diferentes periferias. Não imagino quem seja o grupo mais restrito que discute ideias com Rio. David Justino tem-me surpreendido pela negativa, quando o considerava um político experimentado, sólido e, pelo menos do seu roteiro pessoal na educação, com uma cultura política que me inspirava confiança. Mas talvez haja outras luminárias, mas pelo que se tem visto, deve haver um problema sério de comunicação de ideias entre tal grupo e a liderança.

Esperaria mais do candidato Paulo Rangel. A opção tomada por um estilo “picadinho”, tornando o seu discurso irritante e de tão irritante um discurso muitas vezes vazio.

Num quadro de escolhas de largo espectro ideológico e partidário, o que torna indesculpável a decisão gratuita de não votar, com gente distinta mas robusta e coerente, como o são por exemplo Rui Tavares do Livre, Ricardo Arroja da Iniciativa Liberal e Paulo Sande do Aliança, e só neste trio há um mar de alternativas de visão da União Europeia, a minha relativa desilusão com a pré-campanha e campanha propriamente dita tem uma só razão. Para mim, a grande alternativa que deve ser discutida é esta: como discutir criticamente o aprofundamento da União Europeia numa perspetiva interna sem dar o flanco à sua destruição. Pois não me parece convincente defender o projeto europeu apenas com o peso da ameaça de que vem aí o Lobo. E neste campo o que é frustrante é a ausência de movimento no campo socialista europeu. Por isso, uma aliança entre socialistas e liberais para combater o Lobo sem que os primeiros se distanciem do seu contributo para o estado atual da União Europeia e reflitam num novo rumo parece-me precipitado passando por cima do verdadeiro problema.

Não sabemos ainda qual vai ser a real dimensão do voto na extrema-direita. Provavelmente será algo de intermédio entre o que a sondagem à boca das urnas na Holanda proporcionou (com vitória dos socialistas e emergência abaixo do esperado da nova estrela da extrema-direita holandesa) e os cenários mais aterradores em Itália, França e países do Leste Europeu. De qualquer modo, qualquer aliança no PE que tenha por objetivo barrar o caminho à extrema-direita não pode ignorar a necessidade de pensamento crítico dos rumos recentes da própria União. O autismo “prá frentex” de Macron carece de tradução política em diferentes países. Os sociais-democratas têm a sua própria casa ainda pouco robusta para negociarem. Por isso parece-me algo precipitada esta aproximação se não for devidamente trabalhada. Vejo uma possibilidade mais imediata, bloquear o acesso de Webber do PPE à Presidência da Comissão Europeia. O que já não seria pouca coisa.

Por cá, pediria uma baixa taxa de abstenção no plano comparativo europeu, a vitória do PS e se possível a eleição de Rui Tavares. Isso seria um excelente contributo de Portugal.

VOTAR NO DOMINGO


Domingo há eleições europeias e as sondagens parecem ter virado definitivamente a favor do PS – numa adaptação de como um dia disse o Durão, só falta saber é por quantos? Ainda assim, o quantum dessa diferença não deixará de ser relevante (quem não se lembra do “poucochinho”?), bem como constatar se o PS irá ou não conseguir ter mais votos do que os dois principais partidos à sua direita. Depois, e abstraindo da questão relacionada com o montante a que se situará a abstenção, há mais dois ou três campeonatos”: o do terceiro lugar (BE, CDU ou CDS, travando as duas forças de esquerda uma luta própria entre si), o da confirmação do total falhanço de Marinho e Pinto (PDR) após cinco anos em que só degradou a imagem de competência e frontalidade que tinha adquirido enquanto bastonário e o da interrogação em torno de saber se algum ou alguns pequenos partidos (que são doze) chegará ou chegarão à eleição de um eurodeputado (parecendo o Aliança e o PAN melhor posicionados para tal) ou, ainda, se algum meteorito inesperado atinge o nosso espaço político (o que seria dramático no caso da “Coligação Basta” – já que o PCTP/MRPP só está para cumprir o calendário de sempre e o PNR, o “Nós Cidadãos” e o PURP não passarão de brincadeiras de gosto duvidoso – e interessante no caso do “Livre” ou do “Iniciativa Liberal” – já que o MAS não deu sinais mínimos de vida). Boa reflexão e, já agora, não deixe de ir votar.