sexta-feira, 3 de julho de 2026

NO FIO DA NAVALHA DAS METÁFORAS

 


(Continuo em busca das metáforas que o Mundial nos está a oferecer. A loucura do jogo com a Croácia, já madrugada adentro, representa em meu entender uma interpretação representativa do destino português neste estádio de perturbação mundial em que vivemos. Num estádio, embora pequeno, maioritariamente luso, dada a importância da comunidade portuguesa em Toronto (ainda me lembro dos jardins fronteiros de algumas casas de portugueses com cultivo de vegetais, tomates e outros, a afirmar uma presença singular), o desenrolar das incidências do jogo retrata bem o que somos e o que temos sido por estes tempos mais próximos. A primeira parte finalmente bem jogada, com circulação de bola mais rápida do que o habitual, mas com uma capacidade nula de finalização, foi o espelho de muita da inconsequência nacional, deambulamos muito, sobretudo para o lado e para trás, mas o foco objetivo na concretização escapa-nos e invocamos depois a má sorte. Na segunda parte, perante uma Croácia que confirmou que sabe jogar e bem, pese embora a cruel necessidade de renovação etária, sofremos um amasso dos antigos. As crateras abertas nas inúmeras transições defensivas em que nos entregámos abertamente às investidas do adversário foram antecipando o pior, não fora a qualidade de um insuperável Diogo Costa (por quanto tempo o FCP vai aguentar esta preciosidade?). O empate surgiu inevitavelmente e poderia ter sido bem pior, pois estivemos no limirar do abismo de sofrer uma das mais poderosas humilhações desportivas. Quando os treinadores mais conservadores e empatas como Martinez se entrega a mudanças disruptivas receio sempre o pior. O selecionador ousou abdicar praticamente da consistência do nosso meio-campo, Ronaldo perdeu por poucos centímetros de um ombro demasiado adiantado a possibilidade de consumar uma das mais belas receções de bola na sua carreira, mas eis que há sempre um português pronto a desafiar o destino e Gonçalo Ramos, nos seus primeiros minutos de mundial, expliquem-me esta evidência, sai do banco e num cruzamento teleguiado de Rafael Leão eleva-se, suplantando os centrais e com uma inteligente cabeçada coloca Portugal a ganhar.)

Gonçalo Ramos assumiu neste caso aquele papel do português único que é capaz de, nas condições mais adversas e improváveis, concretizar coisas, suscitando aquele nosso velho dilema de saber como é que não é possível replicar estas situações. E, no caso dele, já não é a primeira vez.

Consumada a reviravolta, trancas à porta e trata-se agora de compensar as audácias da mudança radical imposta com a substituição de quatro jogadores e recuperar com Ruben Neves a consistência do meio-campo de que tínhamos abdicado voluntariamente. A partir daí, o fado da não contenção repetiu-se como tantas outras vezes sucedeu no passado, criando no espectador atento a sensação de que o golo croata estava próximo, naquela estranha sensação da incapacidade coletiva que nada pode compensar. E assim aconteceu. Mas a tecnologia apurada dos sensores protegeu a nossa incapacidade coletiva, sendo demonstrável que o centro-avançado croata Matanovic tocou de raspão na bola colocando em fora de jogo o colega que abriu caminho ao golo de Gvardiol. Jogo loco e repleto de metáforas.

E, por fim, vários jogadores portugueses invocaram a alma e recordação de Diogo Jota para justificar a força daquela vitória. Teria de ser, obrigatoriamente e em termos esperados.

O que eu não sei é se a qualidade da Espanha estará para aí virada.

 

TUDO A MONTE E FÉ EM GILLETT!

 

Acaba de acabar em Toronto, neste exato momento, o Portugal-Croácia dos dezasseis avos de final do Campeonato do Mundo de Futebol. Após uma primeira parte dominadora, a nossa seleção passou por enormes aflições numa segunda parte em que os croatas se tiraram das suas tamancas e chegaram a situações de jogo que nos teriam sido fatais não fora a enorme presença na baliza de um salvífico Diogo Costa. Foram também as boas decisões de Roberto Martinez a partir do banco – coisa rara nestes seus anos de selecionador – que garantiram a continuidade em prova de Portugal, quer pela audácia das quatro substituições aos 62 minutos (sobretudo no tocante à retirada de Bruno Fernandes e Vitinha) quer pela perceção do desequilíbrio que afetava o meio-campo nacional (praticamente reduzido a João Neves e Bernardo Silva) e consequente substituição “corajosa” de Cristiano Ronaldo por Rúben Neves aos 81.
 
Além dos off-sides milimétricos assinalados a um e outro lado – manda a justiça que se diga que o de CR7 teria correspondido a uma concretização tecnicamente louvável, pela receção da bola e pela elegância do toque para a baliza – e dos remates falhados ou das bolas à trave e aos postes, foram os momentos finais do jogo que o consagraram como um dos mais emotivos de sempre: primeiro, pela grande penalidade sobre Renato Veiga – não lhe chamarei duvidosa mas um clássico de área nem sempre apontado pelos árbitros – e pela classe da sua execução por parte de CR7, relançando a dúvida sobre o desfecho da partida; depois, pela excelência do cabeceamento de Gonçalo Ramos a um centro perfeito de Rafael Leão – mostrando que a presença de um ponta-de-lança em boa condição física na grande área é quase sempre determinante –, indiciando que a vitória portuguesa estava no bolso na sequência daquele quarto minuto de tempo extra; por fim, pelo golpe de teatro que surgiu aos 13 minutos desse período extra – o árbitro concedera 10 – com um golo de Gvardiol que fez explodir o estádio por parte das hostes croatas mas para o qual o VAR alertou o árbitro para alegada irregularidade – não a dos claros foras-de-jogo do autor da assistência (Pasalic) e do autor do golo mas sim a de um eventual toque de cabeça de Matanovic que tivesse levado a bola a sobrar para aquele após embater nas costas de Renato Veiga (o que configura um ressalto e não um passe deliberado, logo uma situação legal) –, levando o juiz de campo norueguês Espen Eskas ao ecrã e a observar repetidamente os mais diversos frames disponíveis para se resolver a anular o golo através da preciosa informação proveniente da infalível tecnologia da bola (que confirmou a existência de um leve toque). E assim se desenrolou esta história que colocou a seleção portuguesa nos Oitavos, reabilitando pelos mínimos o espanhol que a dirige, fazendo história pelo facto de CR7 ter deixado de se impor como um forçoso totalista e justificando uma nota de apreço ao árbitro – que só se excedeu nos 19 minutos que concedeu a mais ao jogo mas esteve ao nível da magnífica qualidade das arbitragens a que temos assistido neste Mundial – e, em especial, ao VAR australiano com carreira na Premier League Jarred Gillett (na foto que abre este post) sem o qual não teria seguramente havido aquele penálti a nosso favor e teríamos certamente sido confrontados com um empate a 2 que nos conduziria a um prolongamento de resultado mais do que incerto face ao andar da carruagem.



Venha agora a Espanha para um duelo que se espera interessante e condignamente disputado pelos representantes e responsáveis das cores lusas, nem sempre especialmente inspirados nestes quatro encontros já disputados, e que se deseja possa desembocar no resultado positivo de um apuramento que o enquadramento conhecido e a razoabilidade lógica não sugerem.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

A DEPLORÁVEL SUPREMACIA DA MENTIRA

 
(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com) 

A abrir Julho e um Verão que se augura escaldante, recorro à criatividade de uma das nossas inspirações mais duradouras e consistentes (El Roto) para pôr em evidência a crescente exuberância da mentira enquanto continuidade mais irremediável destes intricados tempos que vivemos.
 
Redes sociais e fake news a comandarem os quotidianos do homem comum e a ditarem as escolhas dos poderosos aos quais se impõe uma prestação de contas que sabem fingir quase admiravelmente, análise de dados complexos e inteligência artificial em alastramento exponencial a baralharem as rotinas ativas e passivas do ensino e a estabilidade e conteúdo das profissões e da vida empresarial, confrontos geopolíticos em formato absolutamente descontrolado por lideranças narcísicas, tresloucadas e promotoras de belicismos bárbaros a anunciarem o risco de uma qualquer espécie de regresso às cavernas após uma prosperidade arduamente conquistada e que se prometia garantida.
 
Reconhecendo ser este um momento de alerta que se tornou demasiado repetitivo porque seguramente pouco capacitado no sentido de produzir consequências reais ajustadas a uma perspetiva de salvaguarda do bem comum, importa também ver nele um reparo que acaba por se constituir no ensejo possível para valorizar o exclusivo reduto de lucidez ao alcance dos cidadãos vigilantes e angustiados perante a alienante e sinistra perversão de maiorias letradas e iletradas que permanecem alheias à tempestade (e ao caos) que não veem nem antecipam em irrupção no horizonte.

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com)

(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com) 


(Andrés Rábago García, “El Roto”, http://elpais.com) 

SOBRE A INDEPENDÊNCIA DOS BANCOS CENTRAIS EM CONTEXTO DE INCERTEZA

 

(A vinda de Kevin Warsh, o novo presidente do Banco Central americano, o FED USA, teria necessariamente de apimentar a reunião anual promovida pelo BCE em Sintra, que passa por ser uma das principais reuniões de macroeconomistas em Portugal. As condições em que a sua passagem a presidente do FED ocorreu, sucedendo a um Jay Powell que se revelou bastante mais resistente às pressões de Trump do que era antecipável, têm antecipado dúvidas vindas de diferentes quadrantes sobre a real capacidade de Warsh levar a cabo a independência do seu mandato, em função dos objetivos consagrados para o FED, a estabilidade dos preços e a questão do desemprego, o que suscita a sua relação com o crescimento económico. A cobertura noticiosa e jornalística do evento em Sintra é, regra geral, muito limitada, pelo que só para alguns privilegiados é possível o acesso ao fervilhar de conhecimento que aquela reunião terá suscitado. Fico-me com uma notícia do Expresso (ver aqui) e a restante imprensa focou-se sobretudo num interessante artigo apresentado no evento, no qual o incremento da imigração aparece relacionado com aumentos de produtividade para os países mais abertos a esse fenómeno, tema a que regressarei num dos próximos posts, acaso tenha tempo para mergulhar no artigo e compreender o sentido causal que poderá suportar aquela conclusão econométrica. Pela notícia do Expresso, fica-se a perceber que Warsh jurou de novo a sua independência face à administração americana, declaração que afinal não poderia ser diferente, já que se assumisse a não independência dificilmente poderia aguentar-se no lugar. O carácter apimentado do encontro teve ainda o especial condimento de , praticamente em simultâneo, o Supremo Tribunal americano, com composição favorável a Trump, ter decidido que o Presidente americano não tem poderes para afastar a governadora do FED Lisa Cook, barrando, assim, a sua saída.)

Por mais perentório que Warsh tenha sido na afirmação da sua independência, pode ser entendido como conversa mole e de circunstância, sendo antes essencial compreender nas entrelinhas do que tem sido comunicado para o exterior que tipo de Presidência do FED poderemos antecipar para este mandato.

Socorro-me por isso de algumas análises que têm surgido na imprensa e blogosfera económica americana sobre o teor de algumas considerações que o novo governador, que são fundamentalmente mais preocupantes do que a sua reiterada independência. Recorda-se que, tentando perceber a aproximação a Trump a Warsh que conduziu à sua indicação para o cargo, pode concluir-se que terão agradado a Trump algumas afirmações recentes de Warsh, as quais permitem associá-lo a um maior laxismo e diferimento de subidas de taxas de juro de referência em resposta às ameaças inflacionistas que pairam sobre a economia americana. Trump já se insurgiu quanto a essa possibilidade, na medida em que ela naturalmente a uma narrativa de que a administração Trump está a penalizar a economia americana, e as intercalares para o Senado e Congresso estão aí à porta.

Todos compreendem que a clareza e transparência da comunicação do Banco Central são algo de fundamental para a política monetária. Existe mesmo um termo técnico, forward guidance, que descreve uma espécie de regras de conduta a seguir escrupulosamente pelo Banco Central, dirigidas ao futuro circunstancial e incerto que se consideram essenciais para que a incerteza já existente nos mercados e na situação mundial não seja majorada.

Analisando palavras e escritos recentes de Warsh, Brad DeLong explicita o que, segundo ele, são as ideias orientadoras expressas pelo novo governador:

§  “1. O FED assumirá a estabilidade dos preços – isto é, não se prepcupem com outras coisas como o pleno emprego e o favorecimento do aumento da produtividade através da realocação em direção aos setores de maior valor acrescentado, antes da primeira estar assegurada;

§  2. Ele só se preocupa com o lado esquerdo dos pontos decimais quando a inflação chegar – isto é, mais do que tentar manter a inflação dos preços das despesas de consume pessoais ao nívelA afirmação ma dos 2% ano ao longo do tempo, ele ficará satisfeito enquanto os números da inflação se mantiverem no nível de 2,x % ao ano – o que equivale a um aumento de 0,5 pontos percentuais na meta da inflação do FED;

§  3. Ele não pensa que a curva de Philips seja real – isto é, que os aumentos da taxa de juro não são uma via credível de arrefecimento da economia e que diminuir a inflação quando ela está acima da meta e, por isso, a estabilidade dos preços não está a ser assegurada.”

HA afirmação mais surpreendente de Warsh é a de que não vai dizer rigorosamente nada sobre a estratégia de forward guidance (orientação futura).

Nas condições atuais de incerteza em que a atuação dos Bancos Centrais se insere, abandonar a orientação futura mais do que uma atitude de precaução e adaptação constitui, em si mesmo, um fator de incerteza e de ampliação da mesma.

O que conduzirá Warsh a este estranho posicionamento? Muito provavelmente, porque não quer explicitar a sua posição quanto à valoração dos riscos de inflação que a economia americana enfrenta. Ou, por outras, palavras uma outra forma de agradar ao seu AMO e SENHOR, embora garantindo a sua independência.

Será, assim, que vamos ter uma presidência do FED do tipo “gato escondido com rabo e fora”?

Se assim for, a economia americana entrará porta adentro nos manuais da política monetária mais atípica, embora o seu Presidente jure fidelidade aos seus princípios de sustentação.

Errata - 03.07.2026 - 11.57

Foi feita uma correção do ponto 3 da citação de Brad DeLong. Obrigado ao Primo, sempre leitor atento.