(À medida que vão sendo disponibilizados novos elementos sobre o ataque dos EUA e Israel ao Irão e as respostas perpetradas por este último, com a novidade das primeiras baixas entre americanos e israelitas, vai sendo possível reunir mais interpretações sobre o que terá corrido melhor no ataque de surpresa da assustadora dupla Trump-Netanyahu. Tal como aconteceu com o episódio Venezuela, também neste caso me deixei levar pelo convite inspirador de Bradford DeLong, guiando-me para a interpretação de um antigo elemento da CIA, que analisou com algum pormenor a convergência, que alguns consideram perfeita, dos fatores que conduziram à eliminação do Líder Supremo do Irão, algo que considerávamos inviável uns tempos atrás. O dito analista chama-se como se recordam os mais atentos a este blogue Michael D. Sellers e pareceu-me que sabe do ofício, por isso recorro de novo à sua interpretação para tentar compreender a tal convergência dita perfeita. Só alguém com a experiência e frieza de trabalho numa agência de inteligência pode dar-se ao luxo de pedir-nos que consigamos abstrair-nos da ilegalidade da intervenção à luz do direito internacional para nos concentramos na fria análise das condições que terão determinado a tal convergência perfeita …)
Sellers começa por assinalar a novidade do ataque matutino (o ataque israelita terá começado às 7.30 hora de Teerão), contrariando a prática dos raids noturnos, concebidos em regra para provocar maior desorientação de quem é agredido. Existe evidência de que pelas 9.40 hora de Teerão estava reunido num único edifício um conjunto muito elevado de oficiais e outros políticos iranianos, estimando-se que Khameini estivesse num outro edifício contíguo ao que acolhia o referido conjunto de oficiais. Ora, segundo Sellers, o conjunto de mísseis lançados por israelitas e americanos terão impactado esses edifícios cerca de duas horas e cinco minutos após o início do ataque israelita. Quer isto sugerir que a opção pela operação matutina terá sido justifica por informações relativas à referida concentração de oficiais e líderes religioso, estimando Sellers que a reunião dos iranianos tenha sido ligeiramente adiantada (testemunho da Reuters), agindo a informação israelita e americana em conformidade. O que parece relevante assinalar é que os mísseis sobre a concentração de oficiais e líderes religiosos que levou à eliminação de Khameini e elementos próximos foram integrados num vastíssimo conjunto de ataques sobre todo o território iraniano espalhando a confusão e a descoordenação.
A dimensão do complexo em que os oficiais iranianos estavam reunidos à hora do ataque, independentemente de estar ou não organizado em forma de bunker, é de tal envergadura que a sua identificação se torna extremamente facilitada em qualquer imagem de satélite. Mas o facto do espaço albergar diferentes edifícios terá dado origem a uma programação multi-objetivos de impacto, a que o ataque terá recorrido com a ajuda do sofisticado armamento que foi utilizado nesta ocasião.
A surpresa tática do ataque foi, tudo o indica, mortífera e ajuda a perceber que a reunião iraniana não tenha sido desconvocada, muito provavelmente porque o impacto foi assegurado sem qualquer ensaio ou aviso inicial. Desconhece-se se operações de guerra cibernética foram utilizadas para reduzir a probabilidade de antecipação ou alerta. Tudo isto adensa a perplexidade causada pela estranha decisão de reunir tantos e importantes elementos do regime teocrático num edifício que pelos vistos não tinha as características de bunker intransponível.
Mas se a convergência perfeita da operação tem a sua explicação consistente, já o mesmo não poderá ser dito quanto à antecipação do modo como o Irão decapitado do seu líder Supremo iria ripostar. Daí o meu título “da convergência perfeita á corda bamba das implicações”.
A resposta dominante do Irão dirigiu-se aos países do Golfo que acolhem bases americanas, mas tudo indica que os alvos não terão sido apenas os alvos militares dessas bases. Isto pode ser interpretado como um sinal de desespero dos iranianos, procurando que esses países, mais ou menos próximos, dos EUA ou simplesmente neutrais sejam envolvidos no conflito, escalando a todo o Golfo a guerra iniciada com os múltiplos ataques a Teerão. Alguém na SIC Notícias dizia que, por exemplo, no Bharain, a comunidade xiita é muito relevante, contribuindo assim para incendiar o Golfo e imediações e, com isso, atingir com estrondo a economia mundial. A fragilidade do Irão parece hoje indiscutível e o êxito do ataque americano-israelita mostrou-o claramente. Essa fragilidade é consistente com a tentativa desesperada de escalar o conflito e assim saltar a neutralidade da aparente indiferença chinesa. Uma coisa parece certa: a eliminação do Líder Supremo não inibiu a resposta iraniana e o alcance estratégico, embora desesperado, da sua reação.
Trump é conhecido por não ter intuição de longo prazo e creio que neste caso cedeu obviamente à pressão de Netanyahu. Estarão os transacionais EUA interessados numa escalada imprevisível no Golfo, alinhando apenas com a tentação de valorização do petróleo americano? Estarão os mais endinheirados países do Golfo interessados em interromper o seu processo de atração de investimento e pessoas, vendendo charme urbano de arquitetura milionária? Será desta vez que o conflito “sunitas versus xiitas” vai ter consequências ainda mais sangrentas do que a guerra Irão-Iraque?
Da convergência perfeita passamos à plenitude da indeterminação. O medo que esta indeterminação possa causar entre alguns dos beligerantes por convicção ou por envolvimento não desejado corre o risco paradoxal de ser um dos únicos fatores a conduzir a um mínimo de racionalidade e paragem das hostilidades.
Continuo a pensar que é demasiado mecanicista a presunção de que as bombas por mais violentas que sejam são suficientes para alavancar, sem presença no terreno, a mudança de um regime teocrático execrável. Assim sendo e perante o caos que pode ser instalado no Golfo pelo desespero desse mesmo regime, não consigo vislumbrar que narrativa poderá Trump continuar a alimentar para prolongar o ataque.






