(A política espanhola é uma fonte inesgotável de inspiração e pretexto para blogar, só não tenho nela insistido para lá dos limites do razoável porque o número de leitores destes escritos desce com algum significado quando esse é o tema. Mas desta vez não resisto, pois, a líder do PP na Comunidade de Madrid é toda uma inspiração para o comentário político. Conhecemos a peça. Empenhada em mostrar ao povo espanhol, pelo menos ao madrileno, agora que no futebol anda pela rua da amargura, que é possível bater com mais força em Pedro Sánchez do que o timorato Feijoo, Isabel Diaz Ayuso tem uma cultura vasta e esmerada de tropelias para incomodar Sánchez, o qual agradece pois é nessas águas que gosta de navegar. Por vezes, é difícil discernir se Ayuso o faz porque Sánchez a tira do juízo, se, pelo contrário, é o horizonte da liderança futura do PP que estará a comandar o seu comportamento. Imagina-se que, nos seus círculos mais íntimos, Ayuso deve achar que Feijoo é um “jiripollas” sem remédio. A verdade é que os analistas políticos mais à direita em Espanha, embora reprovem algumas escorregadelas de Ayuso, têm um certo fascínio pela personagem, que espero sinceramente seja mais influenciado pela sua animosidade política sem fim do que pelo seu “palminho de cara”. A líder da Comunidade de Madrid resolveu desta vez entrar pela diplomacia de confronto adentro, porta que já tinha entreaberto com a sua receção entusiástica ao inenarrável Milei, presidente da Argentina. Pois, agora, inventou uma viagem, presumo que paga pela Comunidade de Madrid, para homenagear no México, sim no México, o conquistador Hernán Cortés, isto depois do rei Filipe VI ter conseguido alguma abertura e aproximação diplomática com a Presidente mexicana Claudia Sheinbaum Pardo.)
As notícias documentaram assim a intrépida visita de Ayuso:
“A presidente do governo regional de Madrid, Isabel Díaz Ayuso (Partido Popular, centro‑direita), inicia no domingo, 3 de maio, uma viagem institucional de dez dias ao México. A visita ocorre após declarações públicas em que classificou o país como um “narcoestado” e descreveu a Presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, como uma “ditadora de ultraesquerda”.
Já sabíamos que Ayuso se considera a mais irredutível defensora do espanholismo e por isso homenagear in loco Cortés vende bem nesses meios de ultra-defensores desses valores, mas esta visita não é mais do que um exemplo gritante de diplomacia incendiária, poderíamos dizer inspirada pelo espírito de Trump e das suas tropas mais próximas. Isabel a Católica e Hernán Cortés devem ter revirado as suas ossadas nas respetivas tumbas, felizes por esta prova de reconhecimento e terão imaginado louvores sem fim para agradecer a esta política tão impetuosa.
Tal como o pretendia, a visita de Ayuso gerou um enorme rebuliço a nível local, a ponto da Arquidiocese se ter distanciado da iniciativa, demarcando-se da homenagem ao conquistador na catedral que ele próprio construíra. A visita correu mal e a própria Ayuso viu-se forçada a encurtar a missão e regressar a Espanha face à reação agressiva que a sua iniciativa suscitou. Algo que uma agente da diplomacia incendiária deveria ter calculado que pudesse acontecer.
Da Presidente Sheimbaum fica sobretudo esta frase: “Aos que revivem a Conquista como salvação dizemos que estão condenados à derrota”.
Normalmente quando a diplomacia incendiária corre mal, o passo seguinte é a vitimização. Assim solenemente aconteceu. Já em Madrid, Ayuso afirmou ter passado uma semana terrível de acosso e perseguição, culpando a Presidente Sheinbaum e Pedro Sánchez (obviamente) pelo ambiente hostil criado em seu redor. As autoridades oficiais espanholas não receberam nenhum pedido de proteção por parte de Ayuso e da sua equipa, o que adensa a atitude de vitimização para ocultar o inêxito da iniciativa, mesmo junto da direita mexicana e a dúvida sobre o local em que a comitiva de Ayuso terá sido acolhida desde que suspendeu a agenda até regressar a Madrid.
Este imbróglio mostra com clareza e perfeição como o nacionalismo de pacotilha da direita radical se anula nas suas próprias contradições, não hesitando em ir de frente contra a política externa do país e passando por cima dos esforços de aproximação diplomática urdidos por Filipe VI.
Ayuso e a sua corte são decididamente candidatos a integrar a Grande Internacional do desaforo antidemocrático que a administração Trump tem vindo a semear nos países da União Europeia.











