sábado, 23 de junho de 2018

AS CAPAS DA TIME


As capas da “Time” são um verdadeiro clássico que há já perto de cem anos acompanha o cíclico desenrolar da história contemporânea. Sendo que, naturalmente, variadas evoluções técnicas lhes foram determinando uma maior qualidade gráfica, uma melhor utilização da cor e uma acrescida potenciação da criatividade, aspetos que têm vindo a ficar especialmente patentes ao longo do último quarto de século. Com a chegada de Donald Trump, os artistas viram-se defrontados com um novo desafio: o de conseguirem explorar imaginativamente, i.e. e sem se tornarem repetitivos, as permanentes insanidades de um modelo demasiado perfeito na sua caricatural e perigosa forma de estar e “governar”. Os dois números mais recentes da revista, cujas capas abaixo reproduzo (“The Riskiest Show on Earth” e “Welcome to America”), constituem visivelmente uma mera mas excelente ilustração de como eles têm logrado fazê-lo com a objetividade que distingue a marca que servem e a discreta elegância que só está ao alcance de uma enorme competência...


sexta-feira, 22 de junho de 2018

BARALHAR E TORNAR A DAR

(Financial Times)


Daqui a alguns muitos anos, quando os historiadores se debruçarem sobre os sobressaltos do projeto europeu e da zona euro, irão confrontar-se com a pequena grande história das noites longas e duras de negociação, de empurrar as coisas com a barriga para a frente, de pequenos avanços, da instabilidade segue dentro de momentos, do por agora estamos safos, depois veremos.

Ontem, segundo relatos do meu fiel Financial Times, foi mais uma longa e dura noite para se conseguir um acordo que prepare as condições para o fim do resgate da economia grega, designadamente a data de 2023 para repagamento dos empréstimos recebidos por via do resgate financeiro. Ninguém é capaz ao certo de afirmar se a cada vez mais reduzida margem de manobra política de Ângela Merkel no plano interno terá ou não sido repercutida na dureza das negociações. Mas pelos relatos que foi possível reunir sobre o andamento das negociações. Não serei tão afirmativo como o Comissário Moscovici que proclamava ontem que a crise grega acabou naquela noite histórica no Luxemburgo. O diferimento por 10 anos do pagamento de cerca de 40% do total da dívida grega, algo pelos cem mil milhões, constitui um alívio temporal para a sustentabilidade da divida grega, completado pelo aumento de reservas para os próximos 22 meses e pelo reenvio para a Grécia de uma parte dos lucros obtidos pelos bancos centrais da zona euro com a posse de dívida grega.

Entretanto, credores, credores negócios à parte e a economia grega terá de manter nos próximos anos excedentes orçamentais primários (isto é sem pagamento de juros da dívida) de cerca de 3,5% do PIB, uma brutalidade, tendendo a 30-40 anos a manter-se positivos em redor dos 20%. O que significa que a margem de manobra orçamental dos futuros governos gregos está reduzida ao mínimo, obrigando a uma criteriosa combinação de escolhas públicas, completado ou não pelo afluxo de investimento direto estrangeiro, isso veremos.

Até à próxima perturbação, tudo continuará como dantes, baralharam-se as cartas, mas o jogo continua. Afinal, já se concluiu que o edifício do Euro não está preparado para grandes pressões. Assim, sem reparar os alicerces e as bases da construção, o melhor é ir evitando as tais pressões desmesuradas, de noite em noite, de negociação em negociação e Mário Centeno lá terá mais evidência para as suas memórias.

UMA EUROPA DESIGUAL


A informação é recorrente e já quase corriqueira. Mas de vez em quando vale a pena parar para olhar para ela e ponderar sobre o que ela revela. E o que ela revela – e ela são os últimos dados do PIB per capita dos 28 membros da União Europeia –, entre muitas outras coisas possíveis de salientar, é que 11 são os países que se posicionam acima da média do referido indicador (ricos, digamos), contra 17 abaixo (sendo Bulgária, Croácia e Roménia realidades pobres largamente alheias ao “clube”). Quanto a Portugal, já são só 7 os parceiros europeus que apresentam um nível de vida inferior ao nosso – após o dinamismo checo e esloveno, que nos deixou rapidamente para trás, sofremos agora as ultrapassagens lituana, eslovaco e estónia; dá que pensar!

quinta-feira, 21 de junho de 2018

UM GRANDE SENHOR QUE DESAPARECE




Penso que foi Maria Filomena Mónica que chamou a estes protagonistas do Portugal económico “capitães da indústria”, que talvez devêssemos substituir neste caso por capitão da economia do vinho. O trajeto de Fernando Guedes escalpelizado no artigo de Manuel Carvalho é em si ilustrativo de como foi possível construir um grupo empresarial de raiz familiar (a família Guedes e duas outras de figuras que ajudaram na construção do universo Sogrape) apontado à economia global do vinho. Sabemos como essa economia global do vinho é trituradora dos que não têm unhas para ousar enfrentar o gigante. Essa trajetória de união de referenciais na criação de valor só temporariamente foi ameaçada pela entrada na participação do capital do “alien” Joe Berardo, que obviamente não poderia dar certo porque ofendia a coerência do projeto. Na construção do universo Sogrape há seguramente dimensões organizacionais que valeriam poderosos estudos de caso de gestão nos tempos complexos da economia mundial do vinho, a braços com estruturas de distribuição cada vez mais concentradas e ameaçadoras. Essas dimensões organizacionais estiveram seguramente presentes mesmo antes do universo se ter projetado na economia global, compreendendo que uma coisa é fazer umas coisas engraçadas e valiosas para aparecer nas revistas da especialidade, outra coisa bem diferente é ter escala para poder responder aos desafios da procura. Ter-se-ão reforçado à medida que a Sogrape se transformou numa economia global. Mas o que me interessa destacar é que essas dimensões organizacionais não teriam existência sem a figura de quem assumiu inicialmente o risco da aventura, quem definiu os seus colaboradores mais próximos de jornada, quem educou a família para o seu projeto e preparou a sucessão com paixão e responsabilidade.

Do Norte para país e para o mundo sem perder os valores, sem os comprometer, criando uma relação equilibrada entre o capital e o trabalho, fazendo dos valores da excelência organizacional a base de toda a afirmação, eis a imagem do Norte que sempre admiti ser possível que muitos compreendessem. O Senhor Fernando Guedes personificou exemplarmente essa imagem do Norte global, foi uma das suas essências e por isso o seu desaparecimento é uma perda que a organização Sogrape e os seus timoneiros de hoje irão compensar, estou seguro disso, continuando a inscrever uma das raras presenças portuguesas na economia global do vinho.

MAIS ELAS AO PODER

(cartoon de Agustin Sciammarella, http://elpais.com)

Após a surpreendente renúncia de Feijóo – já aqui analisada pelo meu colega de blogue e da qual ainda irei conseguir apurar certos detalhes que presentemente me confundem –, tudo leva a crer que o PP espanhol vai ser recomposto a partir de uma liderança no feminino: Soraya Sáenz de Santamaría, a ex-vice-presidente do governo de Rajoy com 47 anos e natural de Valladolid, e María Dolores de Cospedal, a secretária-geral do partido e ex-ministra da Defesa com 52 anos e natural de Madrid. Dois perfis claramente diversos – apenas a formação jurídica e a inclinação ideológica as unem –, mas ainda suficientemente obscuros para que se possam arriscar quaisquer vaticínios, seja em termos de resultado ou de desempenho potencial. Certo, certo é apenas que a política espanhola levou uma grande reviravolta e se tornou bem mais estimulante.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

COM OU SEM BOLHA...


O turismo é a galinha dos ovos de ouro dos tempos atuais da economia portuguesa. E abençoado, para bem de todos ou, pelo menos, de muitas famílias. Graças ao terrorismo, contrapõem os mais céticos, com alguma razão. Graças também às low-costs, acrescentam ainda outros observadores. Graças à qualidade da política pública setorial, afirmam os seus responsáveis diretos, como já afirmavam os seus antecessores e os antecessores destes (sem prejuízo, no momento presente, do meritório trabalho de Ana Mendes Godinho e da atual liderança do Turismo de Portugal). Graças à dinâmica trazida à economia nacional pela viragem da página da austeridade, juram os políticos mais propriamente ditos. Pois bem, eis que um dos grandes empresários nacionais do setor, Jorge Rebelo de Almeida, veio por estes dias alertar para o facto de se estar a formar uma bolha no turismo – e referindo-se embora ele mais a “um excesso na valorização dos ativos no setor do turismo” do que a um qualquer “turismo a mais” que “não temos nem de perto nem de longe”, o certo é que o aviso ficou feito por parte de alguém que não corre o risco de ser acusado de antipatriotismo nem de ser detentor de interesses contraditórios; parece, pois, razoável admitir-se ser chegado o momento de dizer basta a que continuemos a meter a cabeça na areia como a avestruz e, portanto, de olharmos com o devido cuidado e ponderação para o assunto em todos os seus multifacetados, e por vezes contraditórios, contornos; sobretudo, para que consigamos aproveitar as benesses do presente para preparar uma mais efetiva sustentabilidade a médio prazo...

terça-feira, 19 de junho de 2018

SOMOS TODOS IMPOTENTES PERANTE TRUMP?



Hoje corri que me fartei de uns lados para outros. E só consegui arranjar tempo para deixar aqui lavrado, neste final de dia, um veemente e lancinante grito de protesto contra a hedionda chantagem do maior representante político do mais poderoso país do mundo separando crianças indefesas de seus pais e familiares com vista a castigá-los até que os Democratas lhe concedam condições para a construção do muro absurdo que decidiu inventar como promessa eleitoral. Trump já tinha passado em definitivo todos os limites da decência, mas está agora a fazer caminho para se vir a tornar um impiedoso patrocinador de crimes contra a Humanidade...