(Esta interrogação não é de minha lavra, mas antes do podcast do Expresso on line Comissão Política. É uma fórmula feliz, pois analisa sem piedade a vacuidade do nosso debate e ambiente políticos, servindo-me, por isso, de inspiração para o post de hoje. O nosso deserto temático político entristece qualquer um e nem o regresso da Champions consegue alegrar o ambiente, mesmo com o entusiasta Farioli a clamar aos quatro ventos a “exibição fantástica” da sua equipa quando se deveria insistir no preocupante desequilíbrio de forças que o futebol de elite europeia hoje apresenta. O futebol é metáfora do mundo de hoje, disso não tenho dúvidas, por muito que nos custe admitir e que a nossa alienação de atração pela modalidade nos continue a admitir o enfrentamento com a realidade. Assim sendo e porque entendo já ter falado demais das informalidades de Luís Neves e do seu poder oculto sobre tudo que é político neste país, resta-me pensar noutro tema que valha a pena partilhar com os leitores. Curiosamente, a inspiração veio-me do próprio Expresso on line, que publica uma notável entrevista com o economista de ascendência turca Dani Rodrik, muito bem representado neste blogue e sobre o qual devo ter sido um dos primeiros a divulgar na academia portuguesa nas aulas da FEP o seu conhecido paradoxo da (hiper) globalização, no qual o economista de Harvard defende que não é possível manter simultaneamente o aprofundamento da globalização (integração económica mais global e profunda), o Estado-Nação e as condições de barganha democrática, designadamente a negociação e a defesa dos interesses dos trabalhadores.)
A entrevista não a considero notável por expor uma vez mais esse trilema da hiperglobalização. Os anos 80 e 90 consagraram de forma inequívoca o avanço da hiperglobalização, face ao qual subsistiam então duas posições antagónicas: por um lado, os adversários da globalização, designadamente os de militância mais violenta, manifestavam-se da forma mais rude e barulhenta sempre que uma qualquer reunião dos G20 ou de qualquer outro agrupamento acontecia por esse mundo fora, assumindo a velha luta contra o comércio livre, visto como o provocador de todos os males deste mundo; por outro lado, um grupo bem mais pequeno, que designaria de os reformistas da globalização, entre os quais o próprio Dani Rodrik, propunham uma integração económica mais planeada de maneira a preservar o Estado-Nação, afinal a única fonte de políticas públicas, e a democracia. A história ensina-nos que a vida do reformismo não é fácil e que tende muitas vezes a esfumar-se na irrelevância. Em termos académicos, não podíamos falar de irrelevância. Mas em termos políticos, a esquerda nunca acertou o passo com a crítica da globalização. A esquerda mais radical confundia-se com a militância mais violenta antiglobalização e a esquerda mais moderada sempre hesitou quando ao reformismo a aplicar.
O que Dani Rodrik nos vem transmitir com toda a lucidez e clareza do seu pensamento é que Trump e a onda de extrema-direita que grassa pelo mundo conseguiram dar força e expressão política à crítica das incompatibilidades da hiperglobalização, substituindo-se em pleno ao já mencionado reformismo, que nunca conseguiu encontrar uma expressão política para a sua manifestação. É um argumento de peso, numa situação toda ela pejada de contradições, a maior das quais é sem dúvida o facto dos principais beneficiários da hiperglobalização, os grandes bilionários deste mundo apoiarem esses movimentos. Trump percebu melhor do que ninguém essas incompatibilidades e, longe de propor uma posição reformista, enfrenta-as com a imposição do poder pela força. Rodrik entende que vivemos um longo período de transição, do qual existe a incógnita de saber se a globalização irá ou não ser destruída, se algum reformismo poderá emergir ou se pelo contrário a hiperglobalização regressará. O que sabemos por agora é que a extrema-direita ocupou o espaço da crítica da globalização e uma grande parte do eleitorado está a dar-lhe razão. A extrema-direita está também a ganhar terreno no eleitorado em termos da rejeição da inflação e das condições de fraca affordability das famílias. Resta a hipótese do centro-esquerda, embora não ignorando as questões do consumo, se concentrar nas questões da valorização salarial e da decência do trabalho, matérias profundamente adulteradas pela hiperglobalização.
Pode bem acontecer que os paradoxos desta questão levem a que uma certa esquerda, feroz adversária no passado da globalização, se veja forçada a apoiar a sua recomposição face aos ímpetos destruidores e autocráticos dos que substituirão a lógica dos mercados pela lógica do poder e da força militar. Eu próprio já intuíra esta mudança em posts anteriores. Crítico reformista dos excessos da globalização, estou pronto a defender o seu restabelecimento e ordenado, pois, disso não tenho dúvidas, que os atropelos em curso conduzirão ao caos comercial e económico.
É muito importante que economistas com a clareza e rigor de pensamento de Dani Rodrik continuem a alimentar a causa. O diagnóstico está feito: a direita radical compreendeu mais cedo o capital eleitoral de denunciar as incompatibilidades da hiperglobalização. Isso não pode ser dado como facto adquirido, por muita mudança ideológica que isso possa determinar. Porque a alternativa é o caos.


















