sábado, 9 de maio de 2026

O DESATINO DO REINO UNIDO, NÃO TÃO UNIDO COMO O NOME INDICA

 


(O facto deste blogue ser escrito a dois, sem a prévia concertação entre os autores, explica que possa haver sobreposições, não diria repetições, derivadas do interesse pelo mesmo tema. É este obviamente o caso das recentes eleições locais no Reino Unido, que confirmaram o pior do que se antevia, timidamente contrariado pela emergência dos Verdes, mas cuja dimensão e relevância é manifestamente insuficiente para apagar a deriva profundamente reacionária e nacionalista protagonizada pelo Reform de Farage. O desatino claro em que social e politicamente o Reino Unido se encontra, e para o qual o esforço do Rei Carlos III não chega para mitigar e representar um sinal de esperança, é em meu modesto entender o resultado de três problemas que começaram a ser mais evidentes com a profunda divisão causada pelo BREXIT. Esses três problemas são os seguintes. Em primeiro lugar, a sociedade britânica é atravessada por uma profunda divisão entre o que poderíamos designar de vocação cosmopolita e globalizada, representada essencialmente na grande aglomeração de Londres, mas também nas cidades mais internacionalizadas e cujas funções urbanas apresentam uma dimensão mais internacionalizada, e uma vocação mais tradicionalista e conservadora com memórias do tempo imperial. Acontece que esta divisão não tem uma tradução política clara: a vocação cosmopolita não tem praticamente representação política e a vocação mais tradicionalista está hoje refém de Farage. Em segundo lugar, desde os tempos das reformas liberais de Thatcher e agravada pelo delírio de alguns governos conservadores, a polarização social no Reino Unido é dramática, sendo manifesto que o Labour não tem conseguido identificar-se com o lado mais desfavorecido dessa polarização. Em terceiro lugar, o Brexit veio agravar intensamente a desunião entre as nacionalidades do Reino, com a correspondente emergência dos nacionalismos escocês, em medida menor do de Gales e o eterno problema da Irlanda do Norte, com o desejo de união das duas Irlandas a pairar sobre esta situação. Não será por acaso que são as duas forças históricas da política britânica, Conservadores e Trabalhistas, a protagonizar a erosão mais acentuada no sistema.)

Face a este modelo de análise, como interpretar a deriva eleitoral em que o Reino Unido está mergulhado, num quadro em que, devemos recordá-lo, o Labour de Starmer partiu para a luta com um governo de maioria absoluta? Não ignoro que num modelo de ciclos eleitorais únicos, ou seja, um modelo em que para uma dada circunscrição eleitoral uma força política pode deixar de ter representantes no Parlamento se perder apenas por um voto que seja, a erosão de uma maioria absoluta pode ser rápida. Mas a governação de Starmer foi timorata, encolhida e deixou-se envolver em questões, como o dossier Epstein, de modo incompreensível que aceleraram a erosão.

A minha interpretação da deriva eleitoral que estas eleições anunciam explica-se, essencialmente, pelo facto do partido de Farage estar a capitalizar duas manifestações relevantes da sociedade britânica: o tradicionalismo, outrora ancorado no partido Conservador, que parece ter perdido a confiança desse eleitor que insiste em acreditar que “o tempo volta para trás”; todas as franjas do ressentimento impostos pela polarização acabam também por ser conquistadas pela perspetiva antissistémica, já que o Labour perdeu essa capacidade de identificação com esse eleitorado. Em contrapartida, o cosmopolitismo globalizado das cidades mais internacionalizadas parece continuar a não ter representação política convincente, pelo que o prato da balança numa sociedade dividida tende a cair não para as forças progressivas, mas para o nacionalismo mais balofo.

Os eleitorados regionais, embora ainda sem a força suficiente para conquistarem maiorias absolutas, não deixam de crescer e parecem optar, perante o vazio nacional, pelos nacionalismos mais ou menos independentistas.

Temos assim um Reino desunido, em desatino evolutivo, perante o qual sua Majestade ainda consegue suster a desagregação completa, embora sem evitar a deriva eleitoral, sabe-se lá com que intensidade futura.

E o que mais me impressiona é que, apesar da intensidade com que esta deriva já se manifesta, não se vislumbra qualquer fenómeno político diferenciado a partir do qual possa ser imaginada alguma recomposição mais positiva. A dúvida consiste em saber se os Conservadores hibernaram ou cavaram definitivamente a sua irrelevância e os Trabalhistas têm ainda alguma força regenerativa que não seja a de reincidir no radicalismo à la Corbyn.

Em tempos em que a União Europeia poderia beneficiar desta aproximação ao Reino Unido para fortalecer a frente ocidental não americana, a deriva em curso não é de bom augúrio.

 

A MAIORIA DOS INGLESES NÃO ESTÁ À ALTURA DO SEU REI!

(cartoon de Ellie Foreman Peck, https://www.economist.com)

As sondagens não deixavam grande margem para dúvidas, com a poll of polls do “Politico” a deixar bem claro o caráter prematuro dos obituários do populismo na Europa que se foram anunciando e publicando após a derrota de Orbán. Porque o facto é que as eleições locais britânicas de há dois dias trouxeram de regresso à tona o irritante demagogo Nigel Farage e o seu “Reform UK”, partido que manifestamente arrasou nos resultados favoráveis obtidos um pouco por toda a ilha (obtendo, ainda com algumas contagens por fechar, um ganho líquido de 1244 eleitos e 12 local councils, contra mais de 1000 lugares e 31 concelhos locais perdidos pelo Partido Trabalhista). O gráfico abaixo traduz a projeção para a escala nacional feita pela BBC da votação havida, evidenciando bem as evoluções verificadas que alguns analistas já qualificam como reveladoras da morte do tradicional bipartidarismo britânico (welcome to the era of five-party politics, escreveu Camilla Cavendish no “Financial Times”).

 

Nesta conformidade, importa ainda sublinhar a significativa emergência dos Verdes e a subida registada pelos Liberais em contraponto às quebras de Trabalhistas e Conservadores (para uma ideia mais cabal da expressão dos grandes movimentos registados pelos maiores partidos, veja-se o quadro mais abaixo; e para uma ideia do que foi a débacle de Keir Starmer, veja-se, com reporte a 1973, a dimensão da recente quebra do número de eleitos pelo Labour nos gráficos subsequentes). Por fim, e dado o facto de também terem ocorrido eleições para os parlamentos escocês e galês, uma nota é devida no sentido de sublinhar a vitória dos partidos nacionalistas (SNP, “Scotland National Party” e “Plaid Cymru”, respetivamente), embora sem que qualquer deles tenha logrado chegar a uma maioria absoluta.

A moral da história é infelizmente cristalina: o primeiro-ministro Keir Starmer, que já estava na berlinda devido a vários incidentes (incluindo o triste caso de Peter Mandelson), tem em risco o poder que conquistou há dois anos com maioria absoluta e já se defronta com pedidos internos de demissão, o que também não favorece a continuidade do seu contributo para a desejável sequência dos grandes dossiês internacionais e europeus. Vida mais difícil, pois, para ele e para todos nós por tabela.

(Rebecca Hendin, https://www.theguardian.com)

sexta-feira, 8 de maio de 2026

DO YOU SPEAK ENGLISH?

 

Hoje abordo aqui uma matéria levezinha: assumido o inglês como a língua universal do mundo de hoje, fui à procura de avaliar o nosso posicionamento num ranking internacional sobre a proficiência dos cidadãos de 123 países (“English Proficiency Index, divulgado pela “Education First”) no uso do referido idioma e, partindo dum princípio de experiência feito que me levava a intuir quanto estamos melhor do que os macarrónicos espanhóis e franceses (por exemplo), de confirmar tal facto e de assim nos posicionar no contexto relativo das chamadas línguas latinas. Vejam-se os resultados sintetizados no mapa e no quadro abaixo.



A confirmação que procurava surge isenta de qualquer dúvida, quer porque Portugal ocupa o 6º lugar mundial em termos de domínio da língua inglesa, cabendo no grupo dos 15 países considerados como detentores de grau muito elevado de proficiência, quer porque, de entre os outros países cujas línguas-mãe são latinas, só a Roménia pertence a este mesmo grupo (embora sendo 11º classificado do ranking), ficando Espanha, França e Itália no grupo dos países de proficiência moderada (ocupando, respetivamente, as 36ª, 38ª e 59ª posições – afinal, parece que os italianos ainda são piores do que os hispânicos e os gauleses). O mapa da Europa abaixo reproduzido é igualmente muito claro sobre onde e com quem estamos (bem acompanhados) na matéria em apreço.


Detalhando a dita proficiência a quatro níveis (leitura, escrita, fala e escuta), o quadro seguinte revela-nos ainda que somos relativamente melhores a ler do que a ouvir, a ouvir do que a escrever e a escrever do que a falar. Por outro lado, os homens surgem como ligeiramente mais capazes do que as mulheres, os jovens de 21 a 25 anos como o grupo etário mais competente e a cidade de Coimbra e a região Centro como aquelas em que a aptidão em causa é maior (revelador que sejam a Galiza e Vigo as correspondentes em Espanha). Por fim, note-se ainda o facto de as nossas faculdades menos salientes (escrita e fala) fazerem com que os romenos nos superem nos sub-indicadores a tal correspondentes.

 

Deixo as possíveis explicações para os resultados encontrados para os especialistas. Ainda assim, considerei curioso, e de algum modo indiciador, o facto de um paper da NBER (“Movie Subtitles and English Language Acquisition”) concluir que “os países que usam legendas em vez de dobragem nos conteúdos televisivos estrangeiros demonstram proficiência maior em Inglês”. O quadro seguinte (que também integra o score em Matemática, que aqui não explicitarei) ilustra-o cabalmente, tanto mais quanto Portugal e a Roménia são precisamente os países de língua latina que legendam os filmes, ao invés de Espanha, França e Itália que os dobram. Não estamos, obviamente, perante uma elucidação completa e cabal de uma questão complexa e variada em elementos de elucidação, mas a verdade é que temos aqui um raro tópico em que as opções do Estado Novo, mesmo que por más razões de disponibilidade de recursos e de nacionalismos serôdios, parecem ter sido de efeito justo.


quinta-feira, 7 de maio de 2026

JOSÉ PENEDOS

Sei bem que na hora da morte somos todos iguais, mas também não ignoro que na vida nem sempre o fomos ou quisemos ser nessa medida. Vem isto a propósito do falecimento de José Penedos (JP), um importante militante do PS de Coimbra (onde constituiu família, embora sendo natural de Vieira do Minho) que foi secretário de Estado da Indústria e Energia do primeiro governo de António Guterres – momento em que o conheci bem por ser, então, seu colega no ministério que Augusto Mateus comandava – e, depois, da Defesa Nacional e que chegou a ser presidente da REN (Rede Elétrica Nacional), terminando a sua vida de modo algo indigno ao ser condenado a pena de prisão no âmbito do processo “Face Oculta” por favorecimento de empresas do sucateiro Manuel Godinho (a par de Armando Vara e do filho Paulo Penedos). Guardo de JP duas perspetivas com larga dose de contraditório: a de uma pessoa rápida nas perceções, perspicaz no diagnóstico e eficiente na decisão, o que nem sempre se aconselha em excesso devido à consabida máxima do “depressa e bem”, e a de uma daquelas pessoas presumidas que reage diferentemente consoante o poder ou o interesse que reconhece ao interlocutor. Ficou-me para sempre gravada a resposta que me deu no dia em que lhe pedi algo em razão da morte do meu avô paterno, mas não será por isso que deixarei de aqui referenciar uma qualidade de JP que integrava os cânones do modo de estar dos homens e dos políticos nos tempos da sua idade ativa: a de um defensor incansável e intransigente dos seus e/ou daqueles que assim considerava (o que lhe poderá ter valido alguns amargos de boca partidários e até de ambição política – foi claramente preterido por Guterres na sua pretensão de ascender a ministro da Economia por queda de Daniel Bessa – e, mesmo, em termos das dinâmicas familiares que se construíram em seu redor). JP terá sido um bom exemplo de alguém que foi feliz à sua maneira enquanto tal foi viável e que fez o currículo possível em função das suas circunstâncias, mas também não deixou de ser um daqueles exemplos ilustrativos de que talvez tivesse valido mais a pena ter encarado a vida com a atitude de humildade a que ela necessariamente acaba por obrigar – que descanse em paz!

O QUE SE ANUNCIA NA ALEMANHA

 


(Faz-nos hoje falta o pensamento do historiador e escritor britânico Tony Judt para, se fosse vivo, nos ajudar a compreender o que vai sendo anunciado pela Alemanha e o que aí se anuncia em termos de posicionamento europeu e mundial. A história do século XX que Judt tão minuciosamente analisou mostra-nos com clareza como os acontecimentos em que a Alemanha esteve envolvida foram cruciais para compreender a dinâmica evolutiva da história. Do seu envolvimento derrotado na 1ª Guerra Mundial, seguindo-se depois a disparatada exigência com que as indemnizações de guerra foram impostas aos alemães, que Keynes premonitoriamente denunciou, até ao período entre as duas guerras, ascensão, apogeu e derrota do nazismo na 2ª Guerra Mundial, fica uma sequência de acontecimentos que paira sobre a cabeça dos líderes alemães, não propriamente como uma ameaça, mas como fonte de suspeições, desconfiança e má consciência. Neste momento do desenvolvimento europeu, já é questionável o estatuto de motor de crescimento que foi atribuído à Alemanha, algumas vezes oculto na referência ao eixo franco-alemão. Não é que o modelo económico alemão esteja totalmente desacreditado, não é isso. O que se passa é que esse modelo enfrenta constrangimentos e fragilidades dos quais a União Europeia tardou a dar conta, pelo que estaremos mais perante um motor que já não funciona com a perfeição que lhe era atribuída. Mas não é no plano económico que gostaria de me concentrar hoje. Pelo que se vai percebendo do que está a ser decidido pela coligação no poder e pela presença mediática das declarações do Chanceler Merz vislumbram-se alterações de peso na política alemã, sobretudo no que respeita à relação entre as opções a tomar no campo da segurança e defesa e o próprio modelo social alemão ou Estado de bem-estar conforme lhe queiramos chamar. Mais do que a superação dos constrangimentos do modelo económico alemão, são estas questões de segurança, defesa e modelo social que interessa discutir, pois a evolução alemã pode representar uma viragem expressiva no modo como essas questões são debatidas na Europa.)

Conforme é compreensível a partir de uma leitura atenta da história, o rearmamento alemão sempre foi encarado internamente com a maior das cautelas. É como se essa orientação suscitasse velhos fantasmas, dos quais os governos alemães do pós- segunda guerra mundial procuraram convictamente afastar-se, no sentido de reganhar a confiança dos restantes parceiros europeus. Entretanto, com a integração da Alemanha de Leste, soviética de origem e orientação, os governos alemães tiveram vasta matéria para gerir internamente. Mas o contexto atual, primeiro com a ameaça concreta russa que apanhou Merkel desprevenida e depois com a posição da administração Trump em relação à Europa, dificilmente poderiam ser entendidos com condescendência. Recordemos que a primeira vez em que os americanos abriram as hostilidades foi num evento, a conferência de Munique, por isso no coração da Alemanha rica, através da inenarrável posição de J.D. Vance que veio denunciar a alegada restrição da liberdade da extrema-direita da AfD poder fazer as tropelias desejadas. Merz veio recentemente relativizar a decisão de Trump retirar cerca de 4.000 militares americanos de território alemão, já que se trataria de destacamentos de implantação provisória, logo predestinados a um regresso às suas bases nos EUA. A retirada destas tropas não é assim o elemento essencial da equação. O fundamental é a manifesta má vontade americana para continuar de parceria com a Europa e isso parece indiscutível quando se apoiam forças políticas interessadas em minar por dentro a democracia alemã e europeia em geral.

Com este contexto, toda a má consciência existente sobre o rearmamento alemão teria de se esbater e o pragmatismo alemão orientar-se para investimentos disruptivos relativamente ao passado em matéria de segurança e defesa. Assim parece estar a acontecer e os alemães, embora na retórica política continuem a clamar ela necessidade de manter a aliança atlântica com os EUA e a preservação da NATO, estão a programar investimento como se essa aliança se transformasse em relíquia. Até aí tudo seria expectável, o mesmo podendo ser dito quanto à União Europeia em geral. Esperar por uma mudança política nos EUA pode representar uma ingenuidade perigosa.

Mas a questão é bem mais vasta e complexa do que este ganho de realismo, alemão e mais tarde ou mais cedo, europeu em geral. O mais importante disto tudo é que o governo alemão de Merz parece decidido em colocar na equação a própria transformação do modelo social alemão, estando disposto a “economizar” no estado de bem-estar para acomodar os investimentos em defesa e continuar a criar condições favoráveis ao crescimento económico. Estamos assim reconduzidos a uma velha questão que os manuais de introdução à economia de Paul Samuelson popularizaram – o trade-off entre canhões (defesa) e manteiga (estado de bem-estar e social). Há gente por aí mais ousada que já fala de” canhões versus pensões”, onde é fácil perceber o oportunismo dos que nunca desistiram de querer desmantelar os sistemas de pensões do estado social, privatizando-os à luz de muito discutíveis argumentos de insustentabilidade do sistema.

Vai ser fundamental acompanhar que tipo de réplicas esta transformação de modelo irá gerar em países como a França em que a rigidez desse Estado social é muito mais acentuada. Veremos também como o modelo social escandinavo reage também a esta pressão. É neste contexto que teremos de entender o combustível incendiário colocado neste debate quando Ventura e o Chega se propõem defender a descida da idade da reforma ou a supressão da esperança de vida à nascença como critério de regulação. O objetivo é claro – aumentar a confusão e gerar o caos, puro e simples.

À medida que o tempo se consolida mais se percebe a ameaça estrutural que paira sobre a Europa e o seu modelo social. Não é difícil antecipar que todos estes acontecimentos exógenos convergem no sentido de abalar esse edifício, a ponto de não ser imaginação excessiva falar de convergência orientada de acontecimentos exógenos. E como a história do sub (desenvolvimento) nos ensina este tipo de ameaças exógenas encontra sempre internamente os agentes acolhedores, que neste caso são os interessados na privatização alargada dos sistemas de proteção social.

Será que a esquerda democrática compreenderá finalmente onde está a verdadeira ameaça e deixará de contemplar as minudências do seu umbigo?