sábado, 18 de abril de 2026

O QUE ESTÁ A MUDAR NA INDÚSTRIA AUTOMÓVEL

 


(Sabemos que a economia mundial está em profunda reestruturação, com a curiosidade não antecipada dessa mudança não ter penalizado em 2025 a dinâmica do comércio internacional, apesar dos constrangimentos impostos por diferentes guerras. Como alertei em post anterior, a estrutura das trocas alterou-se, mas essa alteração não retirou dinâmica à progressão do comércio internacional, o que aponta para uma forte resiliência do comércio mundial, pelo menos em 2025, não sendo ainda antecipável se 2026 confirmará essa resiliência. Sabemos ainda que a inovação tecnológica atravessa praticamente de modo transversal todos os setores económicos, sobretudo porque estamos em período das chamadas “general purpose technologies”, tecnologias de largo espectro, face às quais a imunidade setorial é praticamente impossível. Mas, apesar dessa mudança de largo espectro, existem indústrias nas quais é mais fácil e até interessante acompanhar a evolução. Esse é o caso da indústria automóvel, porque além da sua abertura às tecnologias de largo espectro de aplicação, a indústria automóvel está também no coração do aparecimento de novos paradigmas energéticos, em resposta à tão badalada transição climática. Quando se analisa a resposta mundial à transição energética e se compreende que, de repente, a China está na frente de todo esse processo, liderando com clareza a transição elétrica, apetece colocar a hipótese de, face a alguns resultados de atraso nítido nessa transição, haver países que não estão ainda convencidos da efetividade da transição elétrica e que continuam suspensos de uma mais decisiva alteração de fontes de energia, seja a sempre controversa hipótese do hidrogénio, seja uma alternativa energética ainda mais radical e cujos contornos não são ainda plenamente conhecidos. Pretendo no post de hoje ir além da costumeira evidência de que a Europa está a perder o pé nessa matéria, que acontece apesar da força com que o pacto ecológico europeu foi lançado, para mostrar que a liderança da China se faz também à custa da perda de outros países asiáticos. Quando se fala de indústria automóvel ocorre imediatamente a referência do Japão e é essencialmente sobre esse país que centro a reflexão de hoje.)

Há alguns anos, não muitos, diria cerca de cinco e poucos, se a memória não me atraiçoa, num almoço-convívio com alguns colegas de curso, calhou-me ficar ao lado de uns amigos, Dra. Angelina Caetano e Engº José Ramos, filha e genro de Salvador Caetano, da minha geração e que, na altura, lideravam ainda o Grupo Salvador Caetano. Recordo-me que na altura a conversa entre nós focou-se na transição energética e nos seus efeitos sobre a indústria automóvel, neste caso aproveitando o seu olhar e experiência em torno da Toyota. Recordo-me que, na altura, o seu entusiasmo pelo projeto de autocarro protótipo a hidrogénio que o grupo estava a construir era visível e apercebi-me então que no seu entender as viaturas elétricas seriam provavelmente apenas uma passagem para outro paradigma. Desde essa conversa, não tive evidência suficiente que me indiciasse que a transição elétrica seria apenas um ponto de passagem para outros paradigmas mais definitivos.

O gráfico que trouxe para o post de hoje e que me foi sugerido pelo sempre perspicaz Adam Tooze no seu Chartbook mostra sem tibieza a forte dependência dos motores de combustão que os grandes produtores japoneses de automóveis ainda revelavam nos fins de 2025. Curiosamente, a Toyota é nesse gráfico o grupo que menos dependência mantém dessa tecnologia. É também visível no mesmo gráfico a dimensão inexpressiva de vendas de carros elétricos japoneses, sendo a categoria dos modelos híbridos a que evidencia praticamente em todos os grupos empresariais uma expressão mais significativa.

Quando olhei para esse gráfico não pude deixar de me recordar dessa conversa com os amigos Angelina Caetano e José Ramos. É verdade que se os construtores japoneses vendem viaturas híbridas é porque existem consumidores que ainda não estão em condições de aceitar ou estão hesitantes ou céticos sobre o paradigma elétrico. Mas quando tomamos devida conta de que alguns destes construtores japoneses estão em profunda reestruturação, com encerramento de várias unidades industriais e perdas de quota de mercado mundial, caso mais expressivo da Nissan, compreendemos que é sobretudo a concorrência chinesa que está a baralhar também o mercado asiático e não apenas o europeu. Não será seguramente por acaso que o grupo comercial de distribuição automóvel Caetano já distribui marcas elétricas chinesas.

Estes números mostram que a ideia de que os mercados aguardariam uma nova alternativa energética e que o elétrico seria apenas uma transição em matéria automóvel está a desvanecer-se.

As diatribes de Trump em torno da sua dependência da riqueza fóssil e do escarnecimento da transição climática pareceram inicialmente introduzir alguma indeterminação na transição elétrica. Mas quando essas mesmas diatribes perturbaram o universo do petróleo, inflamando o Golfo e trazendo de novo o espectro de uma nova crise energética, elas estão a contribuir para que a transição elétrica seja cada mais entendida como uma alternativa real, na qual a liderança chinesa é praticamente irreversível.

E, se em termos discutíveis, quisermos atribuir aos mercados algum sentido, a bolsa americana parece estar já a comportar-se num cenário para lá da guerra com o Irão.

 

O MUNDO DA CONCORRÊNCIA INTER-NACIONAL

(a partir de https://www.ft.com) 

A partir de informação interativa apresentada pelo “Financial Times” (“China shock 2.0: the countries feeling the ‘Chinese squeeze”), mostro acima aquilo que poderia designar por uma reveladora imagem-síntese do “mundo da concorrência inter-nacional”. Organizada pelos três mais representativos triângulos geográficos ou regionais (Ásia, América do Norte e Europa), a imagem é excecionalmente falante se não atendermos tanto ao seu detalhe quanto ao sentido e intensidade das variações de quota de mercado global registadas nos diferentes gráficos para países determinantes e grandes grupos de produtos. Explico-me: (i) na Ásia, temos os claríssimos ganhos da China e do seu “filhote” Vietname, a consolidada presença da Coreia do Sul, a quase monoespecialização de Taiwan (eletrónica, i.e., chips) e a quebra do Japão; (ii) na América do Norte, constatamos alguns recuos dos EUA e a concentração do México no setor automóvel; (iii) na Europa, observamos as fortes quedas das posições de França, Itália e Reino Unido, uma paralisação da capacidade competitiva da Alemanha (obviamente insuficiente para suscitar o arrastamento de que a União carece) e uma afirmação de alguns países centrais e orientais (no caso, Polónia e República Checa) que é simultaneamente fruto de um notável aproveitamento da respetiva adesão à União e de excelentes resultados em termos de captação de investimento direto estrangeiro (sobretudo no automóvel), em linha confirmadora da tão badalada ideia de um desvio do centro de gravidade para Leste. Aqui fica um descritivo esquemático, que se me afigura elucidativo, do que os franceses intitulariam como um panorama da presente “donne mondiale”.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

BIFs SUBSTITUEM PIIGSs

Como é mais do que sabido, os mercados têm os seus tiques e idiossincrasias que valem o que valem. Mas a verdade é que por vezes o Diabo as tece, como diz o povo.

 

Ora aí está um caso ilustrativo, com os investidores dos mercados obrigacionistas a indiciarem que parece definitivamente sublimada a terrível fase dos chamados PIIGSs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha) como sua preocupação maior – com o indevido e castigador empolamento que se conheceu, aquando da crise das dívidas soberanas, em bocas irresponsáveis de muitas origens geográficas e ideológicas – e a trazerem à tona um problema de outra natureza e amplitude como é aquele que um feliz paralelismo do “Financial Times” agora carateriza com o acrónimo de BIFs (ou seja, Grã-Bretanha, Itália e França).

 

Com efeito, desde o início da guerra no Médio Oriente em final de fevereiro, estas três grandes economias europeias surgem como estando entre as que revelaram os maiores acréscimos das taxas de juro aplicadas aos seus envolvimentos e financiamentos obrigacionistas (inclusivamente para prazos muito longos – o yield do Reino Unido a 30 anos, por exemplo, já está acima de 5,5%!). Conjugando esta evidência com o enorme peso relativo das suas dívidas (expresso na incomparável dimensão das respetivas bolas representadas no gráfico abaixo), fica bem à vista a magnitude dos desequilíbrios em presença e os consequentes riscos para o crescimento europeu e a capacidade de resposta do Continente aos imensos desafios de toda a ordem que se lhe apresentam.

 

Neste quadro – onde Grécia, Bélgica e Espanha também são fonte de preocupação pelos respetivos níveis de endividamento e onde a Polónia, a Eslováquia e a Roménia o são igualmente pela crescente avaliação negativa associada aos respetivos mútuos –, o que importa mesmo é deixar claro o cu-de-boi com que estão defrontados dois dos grandes países da União (Itália e França) e, por natural extensão, o “Clube” como um todo.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

MERA FICÇÃO OU O QUE O MUNDO AINDA PODERÁ VER?

 
(Ricardo Martínez, http://www.elmundo.es)

Defrontado esta manhã com a notável criatividade da vinheta de Ricardo, logo me decidi a partilhá-la com os nossos seguidores tal é a proximidade que ela encerra com o que, dia após dia, nos vai sendo mostrado sobre o paranoico estado de descontrolo e depravação do mundo em que vivemos. Quando tudo parece consentido e já quase nada parece inimaginável, porque não poderá o Deus Trump mandar capturar o Papa para fazer de Vance o seu principal acólito na Terra?


quarta-feira, 15 de abril de 2026

UMA VOZ AUTORIZADA FALA-NOS DA NÃO INEVITABILIDADE DO AUTORITARISMO

 


(A jornalista, atualmente a publicar na The Atlantic, e ensaísta Anne Applebaum é, sem dúvida, uma das vozes mais autorizadas em matéria de reflexão sobre as origens e os avanços do chamado iliberalismo, ou democracias iliberais, embora prefira chamar o boi pelos nomes, é de autoritarismo que se trata, ainda que polvilhado de ida às urnas. Em 13 de agosto de 2020 e na qualidade de apresentação de um grande livro para férias, apresentei aqui o seu incontornável TWILIGHT OF DEMOCRACY – The seductive lure of autoritarianism (Random House), que nos permitia acompanhar a génese do fenómeno e compreender como o mundo ocidental e sobretudo a União Europeia foi ingénua ou talvez incompetente em condescender com o que estava a passar-se. Embora a sua investigação também respeitasse à Polónia, a sua análise do modo como o partido de Orbán cimentou o edifício do autoritarismo na Hungria é hoje uma peça incontornável para compreender o apogeu e a queda do autocrata húngaro, disfarçado de nacionalista e defensor das tradições húngaras mais profundas. Por isso, quando li o seu artigo na Atlantic sobre a não inevitabilidade do iliberalismo, felizmente publicado em castelhano na VOZ deGALICIA, dei comigo a pensar quanto a ensaísta terá apreciado os resultados do passado domingo que apearam Orbán do poder e dando força á sua tese de que o autoritarismo iliberal também cai, mesmo depois de ter paciente e despudoradamente tecido uma teia para evitar essa queda.

Applebaum explica a génese da vitória de Péter Magyar com base na construção do movimento social amplo que o novo líder húngaro construiu para lá de Budapeste, indo ao encontro da sociedade húngara mais profunda, de base ainda rural, que sempre apoiou Orbán. Foi esse movimento social e a persistência do trabalho no terreno de Magyar que permitiu desmontar o controlo implantado do poder judicial, da burocracia administrativa, das universidades e das empresas oligárquicas que dominavam a economia húngara. Tudo isto aconteceu com o partido de Magyar afastado dos media controlado pelo Fidesz de Orbán e apesar das visitas a Budapeste de toda a corja de iliberais deste mundo, Trump, J.D. Vance, Netanyahu, Marine Le Pen, Alice Weidel da AfD alemã e dos apoios vindos da Argentina, Polónia, Eslováquia e Brasil (bolsonaristas).

É importante assinalar a referência que a sempre bem documentada Applebaum faz da ação desenvolvida por um dos raros exemplos de imprensa não controlada na Hungria que divulgou registos áudios de conversas de Orbán e do seu Ministro dos Assuntos Exteriores com Putin e Lavrov, nos quais a subserviência de Orbán ficou claramente demonstrada a falsidade da imagem de Orbán como primeiro-ministro soberanista e defensor dos interesses nacionais húngaros. Segundo Applebaum, esta contradição ecoou sobretudo entre os eleitores mais jovens e existem testemunhos de gente que assistiu às manifestações de jovens húngaros que anotaram a presença dos mesmos cânticos que os húngaros assumiram quando a Hungria foi invadida pela Rússia em 1956.

Applebaum sabe do que fala e por isso este artigo tem um peso diferente. É importante reconhecer, de facto, que a inevitabilidade do autoritarismo iliberal deve ser desmontada. Mas talvez seja importante noutras situações não esperar 16 anos pela inversão dos acontecimentos. E será sobretudo importante compreender sinais emergentes e combater as causas. E há tanta matéria por essa Europa fora, e para nosso mal também nos EUA, para aplicar esse princípio.