quarta-feira, 9 de setembro de 2026

E SE NÃO FALÁSSEMOS DE LUÍS NEVES, FALARÍAMOS DE QUÊ?

 


(Esta interrogação não é de minha lavra, mas antes do podcast do Expresso on line Comissão Política. É uma fórmula feliz, pois analisa sem piedade a vacuidade do nosso debate e ambiente políticos, servindo-me, por isso, de inspiração para o post de hoje. O nosso deserto temático político entristece qualquer um e nem o regresso da Champions consegue alegrar o ambiente, mesmo com o entusiasta Farioli a clamar aos quatro ventos a “exibição fantástica” da sua equipa quando se deveria insistir no preocupante desequilíbrio de forças que o futebol de elite europeia hoje apresenta. O futebol é metáfora do mundo de hoje, disso não tenho dúvidas, por muito que nos custe admitir e que a nossa alienação de atração pela modalidade nos continue a admitir o enfrentamento com a realidade. Assim sendo e porque entendo já ter falado demais das informalidades de Luís Neves e do seu poder oculto sobre tudo que é político neste país, resta-me pensar noutro tema que valha a pena partilhar com os leitores. Curiosamente, a inspiração veio-me do próprio Expresso on line, que publica uma notável entrevista com o economista de ascendência turca Dani Rodrik, muito bem representado neste blogue e sobre o qual devo ter sido um dos primeiros a divulgar na academia portuguesa nas aulas da FEP o seu conhecido paradoxo da (hiper) globalização, no qual o economista de Harvard defende que não é possível manter simultaneamente o aprofundamento da globalização (integração económica mais global e profunda), o Estado-Nação e as condições de barganha democrática, designadamente a negociação e a defesa dos interesses dos trabalhadores.)

A entrevista não a considero notável por expor uma vez mais esse trilema da hiperglobalização. Os anos 80 e 90 consagraram de forma inequívoca o avanço da hiperglobalização, face ao qual subsistiam então duas posições antagónicas: por um lado, os adversários da globalização, designadamente os de militância mais violenta, manifestavam-se da forma mais rude e barulhenta sempre que uma qualquer reunião dos G20 ou de qualquer outro agrupamento acontecia por esse mundo fora, assumindo a velha luta contra o comércio livre, visto como o provocador de todos os males deste mundo; por outro lado, um grupo bem mais pequeno, que designaria de os reformistas da globalização, entre os quais o próprio Dani Rodrik, propunham uma integração económica mais planeada de maneira a preservar o Estado-Nação, afinal a única fonte de políticas públicas, e a democracia. A história ensina-nos que a vida do reformismo não é fácil e que tende muitas vezes a esfumar-se na irrelevância. Em termos académicos, não podíamos falar de irrelevância. Mas em termos políticos, a esquerda nunca acertou o passo com a crítica da globalização. A esquerda mais radical confundia-se com a militância mais violenta antiglobalização e a esquerda mais moderada sempre hesitou quando ao reformismo a aplicar.

O que Dani Rodrik nos vem transmitir com toda a lucidez e clareza do seu pensamento é que Trump e a onda de extrema-direita que grassa pelo mundo conseguiram dar força e expressão política à crítica das incompatibilidades da hiperglobalização, substituindo-se em pleno ao já mencionado reformismo, que nunca conseguiu encontrar uma expressão política para a sua manifestação. É um argumento de peso, numa situação toda ela pejada de contradições, a maior das quais é sem dúvida o facto dos principais beneficiários da hiperglobalização, os grandes bilionários deste mundo apoiarem esses movimentos. Trump percebu melhor do que ninguém essas incompatibilidades e, longe de propor uma posição reformista, enfrenta-as com a imposição do poder pela força. Rodrik entende que vivemos um longo período de transição, do qual existe a incógnita de saber se a globalização irá ou não ser destruída, se algum reformismo poderá emergir ou se pelo contrário a hiperglobalização regressará. O que sabemos por agora é que a extrema-direita ocupou o espaço da crítica da globalização e uma grande parte do eleitorado está a dar-lhe razão. A extrema-direita está também a ganhar terreno no eleitorado em termos da rejeição da inflação e das condições de fraca affordability das famílias. Resta a hipótese do centro-esquerda, embora não ignorando as questões do consumo, se concentrar nas questões da valorização salarial e da decência do trabalho, matérias profundamente adulteradas pela hiperglobalização.

Pode bem acontecer que os paradoxos desta questão levem a que uma certa esquerda, feroz adversária no passado da globalização, se veja forçada a apoiar a sua recomposição face aos ímpetos destruidores e autocráticos dos que substituirão a lógica dos mercados pela lógica do poder e da força militar. Eu próprio já intuíra esta mudança em posts anteriores. Crítico reformista dos excessos da globalização, estou pronto a defender o seu restabelecimento e ordenado, pois, disso não tenho dúvidas, que os atropelos em curso conduzirão ao caos comercial e económico.

É muito importante que economistas com a clareza e rigor de pensamento de Dani Rodrik continuem a alimentar a causa. O diagnóstico está feito: a direita radical compreendeu mais cedo o capital eleitoral de denunciar as incompatibilidades da hiperglobalização. Isso não pode ser dado como facto adquirido, por muita mudança ideológica que isso possa determinar. Porque a alternativa é o caos.

 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

UM MAPA-MUNDO MAIS RIGOROSO




Depois de muitas peripécias e resistências, as Nações Unidas levaram à votação da sua Assembleia Geral (AG) uma correção do mapa-mundo habitualmente em uso, desenhado em 1569 pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator com vista a facilitar a navegação de europeus pelo mundo. Tal correção resulta do facto de ser impossível representar com precisão a superfície de um globo numa carta a duas dimensões – o mapa Mercator acomodara a curvatura da Terra fazendo com que os países próximos do Equador aparecessem menores do que a sua realidade e os países próximos dos Polos surgissem maiores. Em 2018, um grupo de cartógrafos, posteriormente apoiado pela União Africana, juntou-se para tentar encontrar uma solução mais pertinente para o dito problema e criar, nesse quadro, o que designou por “Equal Earth projection”. Foi este novo mapa que a AG adotou na sua reunião do passado dia 4, ainda que sujeito a uma lógica non-binding, através de uma votação maciça (164 a favor, Estados Unidos da América contra e 6 abstenções, a saber: Estónia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Sérvia e Ucrânia). O ministro dos Negócios Estrangeiros do Togo, país que protagonizou a resolução em causa, afirmou claramente: “Um mapa nunca é neutro. Molda perceções, influencia o modo como é compreendido o lugar dos povos e continentes do mundo.”; e sublinhou ainda: “um mundo mais justo começa com um mapa justo”. Outros foram mais longe ao sublinharem estarmos perante “a mais longa falta de informação e desinformação à escala mundial” ou ao insinuarem culpas históricas (p.e., sob a formulação de uma “loucura dos colonialistas”).


Os elementos apresentados são indesmentíveis (e este post está recheado de ilustrações de diverso cariz), sobretudo no que toca à representação do continente africano, que assim se mostra que tem de ser reconhecido doravante como o maior do planeta (primeira infografia abaixo). Os argumentos são múltiplos e vão da comparação entre a África e a Gronelândia (segunda infografia abaixo) à evidência de que “caberiam em África os EUA, a China, a Índia, o Japão o México e grande parte da Europa e ainda sobraria território” (terceira e quarta infografias abaixo). Remeto, por fim, para a infografia que encerra este post e corresponde ao detalhado mapa oficial que as Nações Unidas publicaram no seu site.






segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O QUE FAZER COM A EXTREMA-DIREITA ALEMÃ?

 


(A consistência das diferentes sondagens sobre as eleições regionais na Saxónia alemã anunciava o pior. As nuvens negras foram plenamente confirmadas. É um facto que a maioria absoluta não aconteceu, esteve por um triz, mas o resultado não admite outras interpretações que não a evidência de que se tratou de uma vitória retumbante da AfD. É cedo para compreender se os resultados de ontem irão ou não abrir um caminho de generalização a outros Estados e, se mais tarde ou mais cedo, os resultados nacionais vão refletir esta dinâmica de vitória da extrema-direita. Mas que vamos assistir à tentativa de forte capitalização desses resultados, isso não me suscita quaisquer dúvidas. Por agora, o tema relevante a discutir é o de saber que posicionamento tomar em relação à hipótese da AfD assumir a governação efetiva daquela região alemã. Tal como o expressei no meu último post, a hipótese de constituição de uma vasta coligação de resistência e barragem da chegada ao poder da AfD não me convence. Em primeiro lugar, porque a maioria absoluta está ali ao virar da esquina. Em segundo lugar, porque o espectro de forças políticas é demasiado vasto, não sendo possível vislumbrar um governo minimamente consequente, cuja ineficácia tenderia a lançar as bases da pretendida maioria absoluta por parte da AfD. Não me imaginaria, muito sinceramente, a escrever o que vou expressar de seguida. Mas, avaliando bem a situação politicamente criada, entendo que seria favorável admitir a hipótese de governação por parte da AfD, sujeitando essa mesma governação a um controlo rigoroso de medidas, vetando no parlamente regional as que anunciassem a perversão da democracia regional. É seguramente um risco, até porque a AfD em plena governação pode desenvolver estratégias de recuo face ao seu programa e convencer os eleitores de que não são um inferno político. Por outras palavras, permitir que a extrema-direita continue a não enfrentar o ónus da governação vai continuar a engrossar o seu capital eleitoral, por muito que isso custe e o que isso possa representar enquanto risco de adulteração por dentro das condições democráticas.)

O tema é incómodo e perverso nas suas últimas consequências. Mas foi o voto democrático, praticado na sequência de uma campanha eleitoral de festa e proximidade, que conduziu a AfD a estes resultados e, isso, por muito que nos custe, foi o que aconteceu. Estimo que os conservadores alemães de Merz, o SPD e o Die Link, antigos comunistas com raiz na RDA, possam ter a nível nacional pesos eleitorais algo superiores aos que revelaram ter no passado domingo na Saxónia. Se for assim, a chegada possível da AfD à governação nacional estará mais dificultada, a não ser que o estilo praticado na Saxónia se dissemine por outras regiões, atraindo novos eleitores.

Sinceramente, não vejo outro rumo que não sujeitar a Saxónia ao ónus da governação da extrema-direita. A opção não está isenta de riscos, tenho consciência disso. Mas considero que o risco de uma solução pantanosa, sem criação de uma alternativa de barragem consistente, é bastante mais elevado e conduzir a AfD a uma vitimização que será obviamente ouro para as suas pretensões futuras.

À medida que o puzzle eleitoral alemão se vai compondo, a ideia de que a reunificação alemã foi um êxito é cada vez mais um campo para evidência esfarrapada. Penso que a União Europeia demorou demasiado tempo a compreender essa realidade e agora corre o risco de ser ultrapassada pelos acontecimentos, com a política de segurança e defesa europeia no centro dessas preocupações.

 

SISMO NA ALEMANHA

(Pascal Gros, https://x.com/GrosPascal)

O que está há anos a ocorrer na Europa (e também noutras partes do mundo que agora não vêm ao caso) é algo de efeito equivalente ao daquela máxima que começa por dizer “de derrota em derrota...” e de que sempre tendemos a não ir até ao seu termo para dar espaço a que alguma réstia de esperança salvadora possa emergir, o que se tem saldado por sucessivos contentamentos com situações de “mal menor” que vão adiando a chegada de um mal verdadeiramente péssimo e definitivo. As eleições de ontem no estado alemão da Saxónia-Anhalt (ou Alta Saxónia) poderão ter resultado num desfecho desse tipo ao darem lugar a uma vitória esmagadora (a escassos três lugares da maioria absoluta) do partido de extrema-direita (AfD), uma vitória que é tão-só a primeira a acontecer na Alemanha desde os tempos de Hitler!




O candidato que liderava a lista do partido (Ulrich Siegmund) será agora, com toda a probabilidade, o novo governador regional, persistindo apenas a dúvida sobre se comandará em minoria (confortável, todavia) ou se logrará uma coligação com o partido recentemente criado por Sahra Wagenknecht (BSW), proveniente do “Die Linke” mas senhora de opções políticas e programáticas de pendor heterodoxo e dificilmente compatíveis com qualquer tradição de esquerda (por muito que seja tempo de questionar os inquestionáveis, como se consegue ser, simultaneamente, anticapitalista, pró-russo e anti-imigração?).

 

Acresce a natural euforia que se instalou nas hostes lideradas por Alice Weidel, que já veio a terreiro na procura de aproveitar o mood dos eleitores e de pedir a convocação de eleições legislativas antecipadas no país. No entanto, o estado ontem vencedor – podendo indiscutivelmente ser motivo de efeito-demonstração – é demasiado pequeno e específico para que se alargue a toda a Alemanha essa ideia de uma nacionalismo novamente dominante. Como quer que seja, o chanceler Merz não vai ter vida fácil nos tempos mais próximos, ele que parecia dotado do perfil certo para “aguentar os cavalos” e recolocar a economia e a sociedade alemãs nos carris mas que surge cada vez mais encarado como uma escolha falhada. E por falar em falha, já começam a ser muitos aqueles a quem não escapou o facto (indesmentível?) de que ontem se deu também o fim definitivo da respeitabilidade política de que longa e largamente gozou Angela Merkel junto da maioria dos seus concidadãos.

 

O sinal está dado, os acontecimentos subsequentes suceder-se-ão sem apelo nem agravo e as surpresas poderão igualmente aparecer, mas uma coisa é inequívoca: se nada for feito para inverter o atual estado da arte política na Europa, vamos seguramente penar forte e feio com o que aí poderá estar a germinar...