(O facto deste blogue ser escrito a dois, sem a prévia concertação entre os autores, explica que possa haver sobreposições, não diria repetições, derivadas do interesse pelo mesmo tema. É este obviamente o caso das recentes eleições locais no Reino Unido, que confirmaram o pior do que se antevia, timidamente contrariado pela emergência dos Verdes, mas cuja dimensão e relevância é manifestamente insuficiente para apagar a deriva profundamente reacionária e nacionalista protagonizada pelo Reform de Farage. O desatino claro em que social e politicamente o Reino Unido se encontra, e para o qual o esforço do Rei Carlos III não chega para mitigar e representar um sinal de esperança, é em meu modesto entender o resultado de três problemas que começaram a ser mais evidentes com a profunda divisão causada pelo BREXIT. Esses três problemas são os seguintes. Em primeiro lugar, a sociedade britânica é atravessada por uma profunda divisão entre o que poderíamos designar de vocação cosmopolita e globalizada, representada essencialmente na grande aglomeração de Londres, mas também nas cidades mais internacionalizadas e cujas funções urbanas apresentam uma dimensão mais internacionalizada, e uma vocação mais tradicionalista e conservadora com memórias do tempo imperial. Acontece que esta divisão não tem uma tradução política clara: a vocação cosmopolita não tem praticamente representação política e a vocação mais tradicionalista está hoje refém de Farage. Em segundo lugar, desde os tempos das reformas liberais de Thatcher e agravada pelo delírio de alguns governos conservadores, a polarização social no Reino Unido é dramática, sendo manifesto que o Labour não tem conseguido identificar-se com o lado mais desfavorecido dessa polarização. Em terceiro lugar, o Brexit veio agravar intensamente a desunião entre as nacionalidades do Reino, com a correspondente emergência dos nacionalismos escocês, em medida menor do de Gales e o eterno problema da Irlanda do Norte, com o desejo de união das duas Irlandas a pairar sobre esta situação. Não será por acaso que são as duas forças históricas da política britânica, Conservadores e Trabalhistas, a protagonizar a erosão mais acentuada no sistema.)
Face a este modelo de análise, como interpretar a deriva eleitoral em que o Reino Unido está mergulhado, num quadro em que, devemos recordá-lo, o Labour de Starmer partiu para a luta com um governo de maioria absoluta? Não ignoro que num modelo de ciclos eleitorais únicos, ou seja, um modelo em que para uma dada circunscrição eleitoral uma força política pode deixar de ter representantes no Parlamento se perder apenas por um voto que seja, a erosão de uma maioria absoluta pode ser rápida. Mas a governação de Starmer foi timorata, encolhida e deixou-se envolver em questões, como o dossier Epstein, de modo incompreensível que aceleraram a erosão.
A minha interpretação da deriva eleitoral que estas eleições anunciam explica-se, essencialmente, pelo facto do partido de Farage estar a capitalizar duas manifestações relevantes da sociedade britânica: o tradicionalismo, outrora ancorado no partido Conservador, que parece ter perdido a confiança desse eleitor que insiste em acreditar que “o tempo volta para trás”; todas as franjas do ressentimento impostos pela polarização acabam também por ser conquistadas pela perspetiva antissistémica, já que o Labour perdeu essa capacidade de identificação com esse eleitorado. Em contrapartida, o cosmopolitismo globalizado das cidades mais internacionalizadas parece continuar a não ter representação política convincente, pelo que o prato da balança numa sociedade dividida tende a cair não para as forças progressivas, mas para o nacionalismo mais balofo.
Os eleitorados regionais, embora ainda sem a força suficiente para conquistarem maiorias absolutas, não deixam de crescer e parecem optar, perante o vazio nacional, pelos nacionalismos mais ou menos independentistas.
Temos assim um Reino desunido, em desatino evolutivo, perante o qual sua Majestade ainda consegue suster a desagregação completa, embora sem evitar a deriva eleitoral, sabe-se lá com que intensidade futura.
E o que mais me impressiona é que, apesar da intensidade com que esta deriva já se manifesta, não se vislumbra qualquer fenómeno político diferenciado a partir do qual possa ser imaginada alguma recomposição mais positiva. A dúvida consiste em saber se os Conservadores hibernaram ou cavaram definitivamente a sua irrelevância e os Trabalhistas têm ainda alguma força regenerativa que não seja a de reincidir no radicalismo à la Corbyn.
Em tempos em que a União Europeia poderia beneficiar desta aproximação ao Reino Unido para fortalecer a frente ocidental não americana, a deriva em curso não é de bom augúrio.















