Nuno Melo vive o momento áureo da sua carreira (?): após um passado recente de hesitações de toda a espécie sob o disfarce de uma prolongada função de eurodeputado em que se arrastou pelas cadeiras de Bruxelas e Estrasburgo, acabou por se decidir a tomar conta de um CDS-PP em extinção e conseguiu, nesse quadro, encontrar forma de o conseguir ao tornar-se o emplastro de Luís Montenegro (LM), ajudando a ressuscitar uma AD requentada e já nada auspiciosa. Como a sorte sorri aos audazes, LM ganhou as eleições à tangente e fez dele ministro da Defesa Nacional (lugar que desempenha com notório agrado pessoal e dos seus acólitos, gafes para debaixo do tapete à parte).
No último fim de semana, o partido lá teve de fazer o seu congresso e, portanto, Melo desdobrou-se em entrevistas e declarações sob o signo que o “Público” tão bem descreveu como o seu dilema: “sobreviver na AD ou existir sozinho” (Paulo Baldaia, no “Expresso”, caraterizou o dito dilema como “entre ser o atrelado de duas rodas ou o partido da mota”). Entretanto, e enquanto “o pau vai e vem”, a habilidade de Melo levou-o a saber folgar as costas, quer explicando aos “laranjinhas” que um CDS a votos sozinho levaria a que o PSD pudesse perder o poder em favor do PS ou do Chega, quer manifestando ao seu pequeno e embevecido povo uma vontade férrea de que o partido seja maior no futuro, quer tirando da cartola que “o CDS é um viveiro de talentos” como modo de retorquir a quem lhe lembrava as muitas saídas de militantes que têm vindo a ocorrer.
No cômputo geral, e pondo de lado as crenças virtuais de que Melo se socorre para prolongar o seu estatuto liderante, a verdade é que o CDS já era. Por um lado, porque tem perdido os seus melhores e mais credíveis quadros (e não falo apenas de António Lobo Xavier ou António Pires de Lima, mas também de Adolfo Mesquita Nunes ou Filipe Lobo d’Ávila ou até do renascido ex-líder Francisco Rodrigues dos Santos, para não sublinhar ainda as ausências por Alcobaça de Cecília Meireles ou Assunção Cristas, entre várias outras de relevância enquanto compagnons de route do partido), estando cada vez mais circunscrito a um pequeno séquito de seguidores acéfalos do presidente (como se observa na empregabilidade dominante nas lides locais, como se viu claramente no Congresso, e como decorre dos quase 90% nele obtidos junto dos delegados). Por outro lado, porque está representado na Assembleia da República por um personagem reacionário até à última potência (Paulo Núncio), o que poderia não ser um mal por si só (pese a sua objetiva proximidade “chegana”) se não acumulasse com o facto de ser demonstradamente capaz de jurar o que for preciso para tentar fazer valer as suas (não) razões – e foi sem grande espanto que o vimos impor a sua ideia imaginariamente diferenciadora de avançar autonomamente em matéria de revisão constitucional... Por fim, porque a passagem do tempo e das vicissitudes de mudança que o acompanham não favorece um partideco sem ideias (vejam-se as improcedentes declarações do novo porta-voz João Almeida sobre os maiores problemas sentidos pelos portugueses no primeiro dia do Congresso) e, portanto, porque a única voz lúcida e razoável que passou por Alcobaça foi a de Diogo Feio quando veio propor aos seus companheiros de desdita que se deixassem de músicas celestiais e pensassem seriamente em algo de útil e estratégico, a saber, uma “Aliança Democrática Liberal” traduzida num bloco constituído por PSD, CDS e IL, assim se logrando forjar uma recomposição partidária gerida em lugar de uma situação em que todos acabem submetidos ao desfecho funesto que é inevitável para uns e que parece difícil de evitar para outros.
Não obstante, nada disto parece penetrar a couraça da indiferença de Nuno Melo, inebriado pelo sucesso da sua própria sombra. Embora também possa vir a valer uma outra verdade, a de uma realidade que é frequentemente mais dinâmica do que dela se espera – o que leva a que não me espantasse que alguma hoje imprevisível aceleração dos acontecimentos pudesse vir a impor-se em sentido contrário às expectativas daqueles que são os atuais membros de uma espécie de comissão liquidatária da democracia-cristã portuguesa...


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