domingo, 10 de maio de 2026

A LITERACIA AJUDA A PERCEBER OS CAMINHOS DA POLÍTICA AMERICANA

É compreensivelmente frequente ouvirmos crescentes exclamações de surpresa e perplexidade da boca de muitos cidadãos do mundo aturdidos pelo completo nonsense que marca a atual conjuntura internacional de destruição pelos EUA da ordem liberal que vigorava desde finais da 2ª Grande Guerra Mundial. Exclamações a que tendem a acrescentar o gravoso elemento de tal acontecer num quadro democrático, i.e., após uma vitória eleitoral do presidente Trump, o que reforça o “como é possível?” que sempre acompanha as preocupadas trocas de impressões sobre a matéria.

 

Em tempos passados, o criticismo em relação aos americanos (ou, se quiserem, ao americano médio) integrava vários tipos de considerações mais ou menos factuais: as origens históricas daquele povo, o seu autocentramento e nacionalismo essencial, a enorme diversidade observável no território sob inúmeros pontos de vista e por aí adiante. Havia mesmo quem salientasse que apenas uma fração mínima dos congressistas e/ou senadores americanos possuíam passaporte (o que era explicado por muitos pela alegada desnecessidade de saírem de um país que não apenas dominava a cena económica e geopolítica mundial como também lhe preenchia todos os requisitos exigíveis em termos de modo de vida e de ação política).

 

Recentemente, passaram-me pela mão dados que encaixam bem nas elucubrações precedentes. Por um lado, e recorrendo a informação recolhida pela OCDE (“Program for the International Assessment of Adult Competencies”, PIAAC) sobre a literacia adulta nos seus diversos países membros, a “Beyond Basics” veio chamar a atenção para o facto de um número gigantesco de cidadãos americanos (54%, equivalentes a cerca de 130 milhões) estar dotado de competências baixas em termos de literacia, sendo mais de 1 em cada 5 os que se situam em níveis básicos (entre a instrução primária e o ciclo preparatório) – logo analistas atentos vieram trazer à colação a mais pertinente das questões resultantes (why does nobody talk about this?). Ao que acrescem as diferenças regionais (por estados – ver primeiro mapa abaixo) que à partida quase apostaria terem algum grau de correlação com o comportamento eleitoral que tem vindo a ser revelado. Por fim, e observando ainda o ranking apresentado pela OCDE, é de constatar o modesto posicionamento dos EUA no seio de tal amostra (18º em 31 países), o qual é tão mais assustador quanto surge visivelmente expresso no quadro mais abaixo em que as desigualdades internas de competências (medidas pela dispersão da respetiva distribuição, concretamente pela distância entre o percentil 90% e o percentil 10% da performance dos cidadãos adultos) são nos EUA as mais significativas de todos os países considerados.

 

E, nem de propósito, foi Paul Krugman a vir colocar a cereja no topo do bolo num dos artigos que agora publica quase diariamente no “Substack” (no caso “Dreaming of a Blue Texas”). Escreve o Prémio Nobel: “o rendimento per capita não é provavelmente o maior fator determinante das diferenças na orientação política entre os estados. Os níveis de escolaridade são quase certamente muito mais importantes. De facto, existe uma relação surpreendentemente forte entre a percentagem da população de um estado com mais de 25 anos com um grau de bacharelato ou superior e o modo como ela votou em 2024. Aqui estava confirmada a intuição que tinha e a que acima me refiro, com o gráfico que encerra este post (“Education v. Trump”) a traduzir a dita evidência e a assim contribuir para elucidar parte da surpresa e perplexidade com que todos estamos cada vez mais confrontados.



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