terça-feira, 21 de abril de 2026

PORTOBELLO DE MARCO BELLOCCHIO

 


(O tempo disponível tem sido malevolamente curto para tirar partido do que vale a pena ver na oferta Netflix, HBO e Apple TV. Um sentido crítico mínimo e uma informação atualizada que se preze, aproveitando a notoriedade que a produção daqueles três colossos do streaming tem hoje na imprensa especializada, permitem sem dificuldade aceder a muita coisa boa que nos é oferecida com as assinaturas. Mas o tempo disponível é, por vezes, mau conselheiro e, por isso, nos últimos tempos, a minha vontade de comunicar o que vou vendo nesses espaços é praticamente nula, pela razão simples de estar a zero nessa matéria. Mas o nome de Marco Bellocchio, com os seus resistentes 80 anos, era motivo suficiente para contornar as limitações do tempo disponível. A HBO oferece-nos uma série de seis episódios, PORTOBELLO de sua graça, que retrata espantosamente bem a Itália do ressurgimento dos juízes. Mas neste caso não se trata de uma luta implacável contra as máfias italianas. Trata-se, antes, da história tremenda de um caso de imputação falseada de ligações de um popularíssimo homem de televisão da Rai, Enzo Tortora, à Camorra italiana e a uma das suas fações conhecida por Nova Camorra. Ao contrário do que estimava à partida (só visualizei por agora quatro episódios), a história não versa aquele tipo de situações em que a verdade e a mentira mergulham num espaço difuso, em que se torna difícil compreender se há culpa ou falsidade. Pela maneira como Bellocchio reconstitui o processo, intui-se que a imputação do popular jornalista resulta de uma trama nascida de confrontos internos à própria Camorra, com arrependidos ou “dissociados” como o sublinha uma das personagens mais enigmáticas e mais bem construídas da série, um tal Giovanni Pandico, contabilista e superletrado. A notoriedade política do jornalista e a necessidade do grupo de juízes mostrar serviço perante um país inteiro que desconfiava das instituições parecem ter-se combinado, com testemunhas pouco credíveis a construir a acusação e a levar Tortora a julgamento (creio que será o episódio 5 a consagrar esse ato).

Nos quatro episódios que já visualizei, há imagens oníricas do próprio Tortora seja na cela das várias prisões por que foi passando, seja na enfermaria, imagens que têm uma inspiração claramente felliniana, como é aquela em que supostamente da janela da enfermaria da prisão em Bérgamo Tortora vê uma troupe de comediantes a atuar em sua honra, como se Bellocchio quisesse homenagear o mestre excessivo e irredutivelmente onírico. Fabrizio Gifusi tem um desempenho insuperável na figura de Tortora e Alessandro Preziosi compõe uma figura notável do juiz instrutor Giorgio Fontana. Curiosamente, o mais famoso dos juízes da época, Di Pietro, tem na série um papel limitado, distinguindo-se apenas pelo uso sistemático dos óculos escuros.

Quando se penetra na trama urdida em torno da imputação do jornalista entertainer da RAI é impossível a nossa imaginação não se escapar para outros casos da justiça, designadamente nacional, em que subsistiu sempre a ideia da não credibilidade de alguns testemunhos acusatórios. Mas ao contrário desses casos judiciais que me dispenso de mencionar, na série de Bellocchio, pelo menos até ao quarto episódio, a ideia central é a da trama persecutória de uma personalidade de grande notoriedade, que lhe valeu inclusivamente, antes do julgamento, a eleição europeia pelo partido radical de Marco Pannella.

Vale a pena ver, esperando que a resiliência de Bellocchio continue a encantar-nos.

 

EXPLIQUEM-SE!

 

Que irritação me provoca esta discreta mas descarada presença de “iminências pardas” acedendo privilegiadamente aos corredores do poder e beneficiando candidamente de formas diversas de favorecimento ilícito ou imoral! As ditas são muitas e de múltiplas cores políticas, entre amigos de algum primeiro-ministro de mais ou menos longa data ou seus companheiros de férias ou de futeboladas, consultores que tendem a saber primeiro as oportunidades que vão estar no mercado por mão governamental, patriotas sempre disponíveis para ajudar mas nunca ou quase nunca para assumir responsabilidades escrutináveis ou meros compagnons de route de lealdade à prova de bala ou simplesmente conhecedores do que não lhes deveria ter chegado ao conhecimento.

 

Podia encher este post com situações e respetivos protagonistas mas o meu objetivo não é tanto seguir por essa via, antes sim o de deixar expressamente sublinhado que há quem esteja minimamente atento e a ver e, em especial, o de sugerir a alguma desta gente que dê a cara e mostre o que vale ou desapareça da vista pública, assim como aos titulares de cargos de poder que façam exames de consciência integrais quando decidem entrar em disputas partidárias e políticas que lhes possam vir a granjear um acesso a informação ou uma capacidade de decisão que sejam potencialmente suscetíveis de ser reputacionalmente afetados por anteriores andanças e envolvimentos menos cuidadosos. Não fora a indignidade do golpe propriamente dito, quase me apeteceria aqui louvar aqueles que fizeram essa maldadezinha que lhes encheu os bolsos mas logo saíram pela calada para o recato da sua privacidade sem pretensões tolas de uma qualquer forma de prosseguimento em termos de notoriedade ou valorização por parte da comunidade de entorno.

 

O caso que tem vindo a lume de Eurico Castro Alves – um cirurgião prestigiado, uma figura com significativo grau de exposição pública a Norte e no País e um cidadão muitíssimo próximo de Luís Montenegro – pode ou não caber no espírito que animou este post. Tal dependerá, sobretudo, de explicações articuladas e fundamentadas do próprio, da administração do Santo António, do IGAS e da ministra da Saúde. O que de todo não basta é a sua mera garantia de que tem a consciência tranquila...

segunda-feira, 20 de abril de 2026

PROMENADE À MODA DO PORTO

 


(Uma manhã de domingo diferente da rotina habitual, que valeu a pena como alternativa a sentir pela manhã o ar mais leve de Seixas, debruçado sobre o Coura que se espraia até à foz. A razão era válida. Os concertos Promenade 2026 do Coliseu do Porto traziam a Sinfonia Incompleta de Schubert, motivo suficiente para recuperar forças para uma semana agitada que será esta em termos de trabalho. O programa era aliciante. A jovem Orquestra Sinfónica do Conservatório de Música do Porto assinava um programa, sob a direção do maestro Fernando Marinho, que integrava além da Incompleta, música de Offenbach e de Carl Maria von Weber. Pela música de Schubert faço qualquer sacrifício e para mais os jovens músicos da Orquestra Sinfónica do Conservatório do Porto tocam com uma maturidade de espantar, ilustrando bem o que é a espantosa evolução do ensino da música em Portugal e o Norte não fica nada mal representado nesta matéria. A solista flautista Leonor Lopes que abrilhantou a Fantasia sobre "Der Freischutz" de Weber é de cortar a respiração e impressionaria qualquer auditório europeu exigente. Os comentários de Alexandre Delgado, musicólogo que ouço regularmente na RDP Antena 2, como agora se chama, deu ao concerto a mensagem pedagógica adequada, contextualizando as obras de Offenbach, Weber e Schubert. A Incompleta de Schubert é daquelas peças, a minha versão mais ouvida é a de Carlos Kleiber, a que sempre recorro quando me apetece saltar para lá do ruído e do incómodo das perturbações do quotidiano. Alexandre Delgado explicou bem que Schubert nunca ouviu tocados em público os dois andamentos a que a Sinfonia se limita, pois já perto da sua morte precoce terá entregue o manuscrito a algum editor que não o divulgou durante longo tempo, até que se compreendeu estar-se perante uma das peças mais belas da história da música, com a curiosidade de termos uma sinfonia apenas com dois andamentos.)

Nunca tive o prazer de assistir um concerto Promenade britânico no majestoso Royal Albert Hall. Os Promenade à moda do Porto do Coliseu AGEAS não terão certamente o fascínio londrino que ressalta das transmissões da Antena 2 que por vezes sigo. Mas a manhã de ontem no concerto do Coliseu trouxe-nos uma orquestra sinfónica do Conservatório de Música do Porto que sugere estar o futuro assegurado, encontrem estes jovens a oportunidade certa de profissionalização. A direção de Fernando Marinho foi contagiante. Vejam-no a falar do concerto que dirigiu.

 

OVAÇÃO ANTECIPADA A FARIOLI

 
(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

A tarde de ontem foi futebolisticamente marcada em Portugal pela vitória dos pupilos de Mourinho em Alvalade, mesmo ao bater da última badalada do relógio de João Pinheiro. No Dragão, onde se aguardava o início do jogo dos azuis-e-brancos contra o Tondela, esse momento foi ineditamente recebido com um vivo e quase generalizado aplauso nas bancadas, assim se anunciando um primeiro flavour do chamado “cheiro a título” que levava os adeptos a minimizar o facto de tal aplauso se estar a traduzir, na prática, por um festejo da vitória dos adversários historicamente mais odiados naquele palco.

 

Três coisas deverão ser ditas a propósito: a primeira tem a ver com a atitude ostensiva e provocadora que vem sendo adotada por Frederico Varandas e pela maioria dos “viscondes” que representam ou apoiam o seu clube, uma atitude que está a levar a um incremento nunca visto da antipatia e repulsa pelos verde-e-brancos; a segunda reporta-se à evidência de que não há campeões antes do tempo, matéria a que os portistas estão necessariamente obrigados a prestar atenção e a agir em conformidade; a terceira traduz-se em aqui se afirmar que, aconteça o que acontecer e independentemente da competência com que André Villas-Boas (AVB) tratou do reforço da equipa no Verão passado e lhe deu alguns toques complementares no último Inverno, a grande aquisição da época do FC Porto foi o italiano Francesco Farioli – é que não consigo lembrar-me de um único erro por ele cometido em todos estes meses, seja na gestão e motivação do plantel, no realismo dos objetivos estruturais e conjunturais que foi traçando, nas incursões a partir do banco durante os jogos ou em termos de modo de estar e de comunicação; e mesmo para os que tenham dúvidas, e me queiram apontar alguma exceção a esta regra, sempre lhes direi que, na ausência de contra factual possível, o modo como o coletivo se apresenta em campo e a qualidade dos seus movimentos, assim como o completo apoio dos sócios num estádio sempre repleto, não deixam grandes dúvidas sobre a prestação do profissional que AVB descobriu para merecida satisfação das nossas hostes.

sábado, 18 de abril de 2026

O QUE ESTÁ A MUDAR NA INDÚSTRIA AUTOMÓVEL

 


(Sabemos que a economia mundial está em profunda reestruturação, com a curiosidade não antecipada dessa mudança não ter penalizado em 2025 a dinâmica do comércio internacional, apesar dos constrangimentos impostos por diferentes guerras. Como alertei em post anterior, a estrutura das trocas alterou-se, mas essa alteração não retirou dinâmica à progressão do comércio internacional, o que aponta para uma forte resiliência do comércio mundial, pelo menos em 2025, não sendo ainda antecipável se 2026 confirmará essa resiliência. Sabemos ainda que a inovação tecnológica atravessa praticamente de modo transversal todos os setores económicos, sobretudo porque estamos em período das chamadas “general purpose technologies”, tecnologias de largo espectro, face às quais a imunidade setorial é praticamente impossível. Mas, apesar dessa mudança de largo espectro, existem indústrias nas quais é mais fácil e até interessante acompanhar a evolução. Esse é o caso da indústria automóvel, porque além da sua abertura às tecnologias de largo espectro de aplicação, a indústria automóvel está também no coração do aparecimento de novos paradigmas energéticos, em resposta à tão badalada transição climática. Quando se analisa a resposta mundial à transição energética e se compreende que, de repente, a China está na frente de todo esse processo, liderando com clareza a transição elétrica, apetece colocar a hipótese de, face a alguns resultados de atraso nítido nessa transição, haver países que não estão ainda convencidos da efetividade da transição elétrica e que continuam suspensos de uma mais decisiva alteração de fontes de energia, seja a sempre controversa hipótese do hidrogénio, seja uma alternativa energética ainda mais radical e cujos contornos não são ainda plenamente conhecidos. Pretendo no post de hoje ir além da costumeira evidência de que a Europa está a perder o pé nessa matéria, que acontece apesar da força com que o pacto ecológico europeu foi lançado, para mostrar que a liderança da China se faz também à custa da perda de outros países asiáticos. Quando se fala de indústria automóvel ocorre imediatamente a referência do Japão e é essencialmente sobre esse país que centro a reflexão de hoje.)

Há alguns anos, não muitos, diria cerca de cinco e poucos, se a memória não me atraiçoa, num almoço-convívio com alguns colegas de curso, calhou-me ficar ao lado de uns amigos, Dra. Angelina Caetano e Engº José Ramos, filha e genro de Salvador Caetano, da minha geração e que, na altura, lideravam ainda o Grupo Salvador Caetano. Recordo-me que na altura a conversa entre nós focou-se na transição energética e nos seus efeitos sobre a indústria automóvel, neste caso aproveitando o seu olhar e experiência em torno da Toyota. Recordo-me que, na altura, o seu entusiasmo pelo projeto de autocarro protótipo a hidrogénio que o grupo estava a construir era visível e apercebi-me então que no seu entender as viaturas elétricas seriam provavelmente apenas uma passagem para outro paradigma. Desde essa conversa, não tive evidência suficiente que me indiciasse que a transição elétrica seria apenas um ponto de passagem para outros paradigmas mais definitivos.

O gráfico que trouxe para o post de hoje e que me foi sugerido pelo sempre perspicaz Adam Tooze no seu Chartbook mostra sem tibieza a forte dependência dos motores de combustão que os grandes produtores japoneses de automóveis ainda revelavam nos fins de 2025. Curiosamente, a Toyota é nesse gráfico o grupo que menos dependência mantém dessa tecnologia. É também visível no mesmo gráfico a dimensão inexpressiva de vendas de carros elétricos japoneses, sendo a categoria dos modelos híbridos a que evidencia praticamente em todos os grupos empresariais uma expressão mais significativa.

Quando olhei para esse gráfico não pude deixar de me recordar dessa conversa com os amigos Angelina Caetano e José Ramos. É verdade que se os construtores japoneses vendem viaturas híbridas é porque existem consumidores que ainda não estão em condições de aceitar ou estão hesitantes ou céticos sobre o paradigma elétrico. Mas quando tomamos devida conta de que alguns destes construtores japoneses estão em profunda reestruturação, com encerramento de várias unidades industriais e perdas de quota de mercado mundial, caso mais expressivo da Nissan, compreendemos que é sobretudo a concorrência chinesa que está a baralhar também o mercado asiático e não apenas o europeu. Não será seguramente por acaso que o grupo comercial de distribuição automóvel Caetano já distribui marcas elétricas chinesas.

Estes números mostram que a ideia de que os mercados aguardariam uma nova alternativa energética e que o elétrico seria apenas uma transição em matéria automóvel está a desvanecer-se.

As diatribes de Trump em torno da sua dependência da riqueza fóssil e do escarnecimento da transição climática pareceram inicialmente introduzir alguma indeterminação na transição elétrica. Mas quando essas mesmas diatribes perturbaram o universo do petróleo, inflamando o Golfo e trazendo de novo o espectro de uma nova crise energética, elas estão a contribuir para que a transição elétrica seja cada mais entendida como uma alternativa real, na qual a liderança chinesa é praticamente irreversível.

E, se em termos discutíveis, quisermos atribuir aos mercados algum sentido, a bolsa americana parece estar já a comportar-se num cenário para lá da guerra com o Irão.