(Trump parece estar cada vez mais em modo de desatino permanente, investindo contra tudo e contra todos que pode ser obstáculo às suas diatribes disruptivas, cada vez mais diversas e inesperadas. Permanecendo quase sempre online, disparando os comentários mais banais, seja na sua própria rede social, seja respondendo a qualquer microfone que lhe apareça pela frente, a sua opinião reinventa-se à velocidade dos cliques, tornando praticamente inviável a tentativa de identificar contradições nos seus múltiplos aparecimentos. A sua ofensiva de influência sobre o comportamento do banco central americano, o FED USA, esteve por estes dias algo esquecida, mas a audição no Senado de Kevin Warsh, a personagem preparada por Trump para suceder na Presidência do FED a Jerome Powell, depois do acosso descarado a este último, procurando descaradamente precipitar a sua substituição, veio reavivar a quão despudorada tentativa de quebrar a independência do regulador. A tentativa de Trump quebrar em proveito da sua muito peculiar intervenção macroeconómica a independência do FED não é nova. Já no seu primeiro mandato, no período 2017-2021, a então Presidente do FED, a Professora Janet Yellen esteve sob o fogo intenso de Trump, conseguindo nessa época o prestígio académico de Yellen ajudado a suster os sucessivos ataques, mostrando-nos como é relevante, embora escrutinável, a independência do banco central.).
A avaliação em escrutínio aberto da valia de um qualquer personagem para assumir a Presidência de um banco central e, neste caso, do mais importante banco central na economia mundial, pode ser concretizada através do prestígio académico, se o tiver, nas áreas de intervenção da política monetário e, no caso dos EUA, também da estabilidade da criação de emprego na economia ou, em alternativa, da opinião publicamente manifestada pelo candidato sobre períodos e matérias que foram relevantes na condução da política monetária. Este parece ser o caso de Kevin Warsh, já que ao contrário de presidentes anteriores como Ben Bernanke e Janet Yellen, o candidato de Trump não é propriamente um académico respeitado pela sua investigação. O que confirma que a praia de prospeção de Trump não é propriamente a academia, que abomina e destrata quase em permanência. Foi, por isso, que a sua audição no Senado foi tão escrutinada, se bem que economistas como Paul Krugman já tivessem manifestado a sua preocupação pela inconsistência de tomadas de posição e argumentos do candidato.
Segundo alguns analistas, Marcus Nunes é talvez o mais contundente nesta matéria, a audição de Marsh no Senado mostrou como eram corretas as dúvidas colocadas à sua nomeação, sobretudo em função de três debilidades sérias do candidato: registo sistemático de posições que podem ser consideras maus juízos de apreciação relevantes para a política monetária; excessiva flexibilidade ideológica para agradar ao “patrão” e dúvidas sobre a sua independência face a interesses instalados na economia americana. Marsh é conhecido por ter prolongado no tempo a sua opinião de com a crise do Lehman Brothers os riscos fundamentais eram inflacionistas, tendo argumentado na altura contra a descida das taxas de juro, precipitando a depressão. Tal como Nunes o afirma, há situações em que ser falcão em matéria de política monetária é mais gravoso. O seguidismo de Marsh em relação às preferências macroeconómicas de Trump é mais eloquente e identificável, o que adensa as preocupações sobre o papel que irá desempenhar no FED. Será que a independência do banco central é outro princípio que será arrasado com esta administração? Quanto à sua falta de independência pessoal, a senadora progressista Elizabeth Warren tem-se encarregado de mostrar que Warsh será o Presidente do FED mais rico da história americana. O Senado interrogou Marsh sobre a sua não declaração de ativos em empresas associadas a Trump, empresas controladas por chineses e até ativos financeiros ligados a Epstein. Marsh limitou-se a responder que os abandonará antes de tomar posse.
Se associarmos em contraponto estes aspetos obscuros nos interesses de Marsh à tentativa judicial de colocar Jerome Powell em contexto de investigação criminal e ao despedimento infundado de Lisa Cook, compreendemos que a era do vale tudo estará proximamente instalada na política monetária americana.
Será difícil, estimo eu, imaginar maior disrupção de contexto.
Preparem-se.

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