sexta-feira, 3 de abril de 2026

PEDRO2+MANUEL&ANTÓNIO

(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)


(excerto de Henrique Monteiro, http://henricartoon.blogs.sapo.pt)

A pequenina e politiqueira gestão do País por parte de Montenegro roça o chocante. Não, não falo especialmente da ridícula celebração dos dois anos de governação do espinhense, rodeado por sorridentes figuras que rapidamente foram dadas por falecidas em termos políticos (como Margarida Blasco ou Pedro Reis) e por ex-membros do governo que já asseguraram algum direito de cidadania própria e podiam desempenhar um papel útil em termos de aconselhamento anti ridículo (como Pedro Duarte), falo preferencialmente de um primeiro-ministro tão hábil no verbo e na tática aproximativa ao Chega quanto totalmente tolhido na ação reformista e no medo passista.

Por estes dias, foram muitos os que sobre esta matéria opinaram em termos convergentes. Gente tão diferente como Pedro Norton ou Pedro Adão e Silva ou como Manuel Carvalho ou António Barreto, só para referir as crónicas do “Público”. O primeiro a sublinhar “a derrota das esperanças plausíveis”, o segundo a avisar que “pela boca morre o peixe e Montenegro”, o terceiro a anunciar a chegada da “hora da verdade dois anos depois” e o último a elaborar sobre “a pesada mão invisível”.

Escolho breves excertos marcantes de uns e outros:

  •     Norton:Cavaco não vai mais longe, mas eu posso ir. A cada dia que passa, o centro, único território possível (pelas razões que ficaram expressas) para fazer assentar uma agenda reformista, restaurar o direito à esperança e, consequentemente, fazer a defesa da democracia liberal, torna-se mais exíguo. O insuportável equilibrismo de Luís Montenegro, a sua incapacidade, aparentemente mais ditada por um pavor atávico do regresso de Passos do que por qualquer outra convicção profunda, em lançar pontes ao centro está a acelerar o esgotamento do seu calendário político. Igualmente grave, está a deixar o PS engavetado entre a humilhante vontade de Carneiro em corresponder a um apelo que não chega e os jovens turcos que, à sua esquerda, querem o regresso das radicalizações e dos frentismos. O país político caminha a passos largos para a polarização definitiva. A janela de oportunidade fecha-se. O país adia-se. As esperanças definham. Já faltou mais para ser tarde de mais.”
  •    Adão: “A melhor forma de avaliar um governo é aplicando-lhe os critérios que definiu para si próprio. Luís Montenegro e os que o acompanharam na construção de uma alternativa não foram tímidos nas metas para as contas públicas e a economia, assim como nos objetivos sociais e nas orientações para a governação. Dois anos passados, vale a pena confrontar o que foi dito com o que aconteceu. (...) Durante a campanha eleitoral, o agora primeiro-ministro clarificou a sua posição em relação à direita populista. Ao contrário do seu antecessor no partido, com ele no poder, teríamos um ‘não é não ao Chega’. Entretanto, Ventura tornou-se o parceiro preferencial da governação, precisamente nas áreas mais expostas à agenda populista: da nacionalidade à imigração e agora até ao chão comum constitucional.”
  •     Carvalho: “Já não é precisa uma prova laboratorial para se perceber que, se o primeiro Governo de Luís Montenegro, eleito em Março de 2024, patinou, o que tomou posse em Junho de 2025 está a derrapar. Pode-se acreditar que as razões desse deslize estão nas opções conscientes de Luís Montenegro: na sua deriva ideológica que o aproxima mais da agenda radical da direita do que do centro onde sempre se formularam os grandes compromissos da democracia; ou na sua aposta em matérias que fermentam a polarização em detrimento das reformas possíveis no atual contexto político. A opção por um governo pendular, uma nova "geringonça" dependente de equilíbrios precários com os dois maiores blocos da oposição, funciona como amparo do programa do Chega, não como força motriz para qualquer projeto de futuro. (...) Dois anos depois de Montenegro subir ao poder, está, portanto, na hora de lhe perguntar (e aos muitos ministros moderados do seu Governo) se acredita que esta forma manhosa de iludir a sua letargia com propostas do ideário securitário e excludente da direita radical augura algo de bom para o PSD. E para o país? Passado este tempo, há uma série de evidências incontestáveis de que, assim, não vamos a lado nenhum.”
  •    Barreto: “O Governo do PSD não se decide. Quer sol e chuva. Governar ora com o Chega, ora com o PS, ora com ninguém, à espera de drama que o favoreça. Procura voluptuosamente o ponto de crise, a rotura que lhe permita ser derrubado culpando os outros. Esta não é uma maneira de servir o país.”

E insisto em citar Manuel Carvalho, em dois parágrafos rigorosamente indesmentíveis. Primeiro: “Reformar de mão dada com o Chega é uma missão impossível, porque, como lembrou Cavaco Silva, este é um partido “destituído de credibilidade política”. Manter a estratégia pendular que dá à extrema-direita o poder de intervir na decisão sobre liberdades individuais ou regras de imigração e nacionalidade cria uma identidade tóxica que torna mais difícil atrair o PS para as reformas no trabalho, na administração pública ou na justiça. Com ou sem resposta às cartas de José Luís Carneiro, o Governo afunda-se no buraco que ele próprio está a cavar. Isola-se em má companhia. Não se pode aspirar a ser moderno quando namora com o atavismo.” Segundo: “Até porque o Governo sabe ou devia saber que este caminho torna o país mais tacanho e obediente aos dogmas do conservadorismo radical; não o torna mais moderno e competitivo. Amarra-o ao passado. Entre a reforma do Estado e o controlo social da autodeterminação na identidade de género, há uma hierarquia de prioridades que esconde um programa. O Chega é parceiro amigo da ofensiva contra os “ladrões” da política, ou contra os imigrantes que diz acentuar a criminalidade. Mas nada tem a dizer sobre o licenciamento, a Europa e a defesa, a asfixia burocrática que trava as empresas e a habitação, ou a justiça.”


Vamos ter anos disto: Hugo Soares e pequena política em movimento, Ventura omnipresente e extremismo a crescer consolidadamente, impotência gritante das vozes alternativas. E se o mundo desajudar, como promete, a coisa promete ser feia...


(António Antunes, “Cartoon do António”, https://expresso.pt)

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