Aí está o Governo reformista em ação visando um “Portugal + preparado”! Com medidas para todos os gostos, três pilares (recuperar, proteger e responder, o que quer que se queira dizer com estes verbos) e quinze domínios, embrulhando objetivos e meios financeiros numa amálgama cuja visão de conjunto se torna impossível e não pode deixar ninguém descansado, o “Plano” anuncia “Transformação”, essencialmente para resultar em PT como acrónimo de Portugal, usa a “Recuperação e Resiliência” vinda do PRR europeu (Next Generation) e enche as páginas de “reformas” (só para “proteger e responder” são nada menos 85). Junta-se um pequeno detalhe, que o autor do nosso “Bartoon” detetou com propriedade: é que, diz o dicionário, “resiliência é a capacidade de um sistema, material ou ser humano de se adaptar, recuperar ou voltar ao seu estado original após sofrer choque, stress ou adversidades” – o que correspondia ao objetivo europeu de ajudar a contribuir para repor a situação existente nos países na sequência do forte impacto do Covid 19 (coisa diferente é como nós, e alguns outros, o usamos desviantemente e em escassa articulação com o que era o propósito) mas não tem, de facto, grande nexo com a ideia de “transformação” (algo de que o País tanto necessita, mas algo que careceria de outros focos e de uma orientação adicional nesse sentido). A dimensão financeira também não falha em pomposa proclamação (22,6 mil milhões de euros) e em wishful thinking (33% do dinheiro virá de privados, se eles e Deus quiserem, Miranda Sarmento promete que as Administrações Públicas contribuam com mais de 37%, se Trump e a Defesa Europeia permitirem e até já se fazem contas a verbas que hão de vir de um próximo Quadro Financeiro Plurianual cujos dados ainda estão longe de fechados e cujas perspetivas nos não são nada favoráveis). Uma nova agência a levar a cabo a execução do programa é outra novidade que “não lembra ao careca” e põe a nu a incapacidade de gestão que marca a governação, para não referir o depauperamento que disso resultará nos múltiplos e já de si depauperados institutos públicos existentes. O “molho de brócolos” inclui ainda medidas ligadas à Saúde (como a refundação do INEM!) ou ao Ensino Superior (como o surgimento de duas novas “Universidades Técnicas”), entre outros primores. Ou seja: por um lado, as necessárias e urgentes ações de reconstrução e de apoio a pessoas, empresas e instituições afetadas pelas tempestades do início do ano recuperam aqui uma oportunidade que parecia perdida mas, segundo a qual, “agora é que vai ser”; por outro lado, 15 mil milhões (e mais alguns pozinhos garantistas) protegerão comunidades, territórios, infraestruturas e a floresta numa lógica de defesa contra a adversidade vinda do risco de eventos extremos, mas não se articulam com a imprescindibilidade de medidas proativas e transformadoras (a transformação fica remetida e circunscrita ao título). Diga-se, a concluir, que a sessão foi impactante a vários níveis e mostrou à evidência quanto o marketing político pode funcionar como uma proxy do rumo e da eficiência que as limitações governativas não conseguem alcançar.


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