A imagem é belíssima a dois níveis bem diversos mas claramente convergentes: por um lado, o cenário da alma de Budapeste com o seu Danúbio e o edifício do Parlamento ao fundo, estando em primeiro plano os responsáveis do Tisza em visível festejo por uma vitória longamente ansiada; por outro lado, no que corresponde à significância histórica deste resultado para o povo húngaro, a crença na construção europeia e o afrontamento de um populismo mundial em marcante e preocupante ascensão.
Ontem foi realmente um dia grande para quem tem vindo a acompanhar a deriva iliberal de Viktor Orbán e os seus múltiplos reflexos, num processo em que a tomada pessoal das rédeas do aparelho de Estado se fez acompanhar por um implacável controlo da máquina judicial e da informação, ao mesmo tempo que a corrupção crescia assustadoramente (veja-se abaixo um significativo elemento de demonstração publicado pelo “Financial Times”) e que a economia ia dando sinais de imparável degradação. Ao que se somaram permanentes provocações e constrangedoras tentativas de bloqueio no interior da União Europeia, não disfarçando um assumido e intolerável papel de agente da Rússia de Putin nesse quadro e no tocante à questão ucraniana, e manifestações igualmente instigadoras de apoio a Trump (um amor bem correspondido, aliás, e que ficou bem expresso na recente e descarada deslocação do vice-presidente Vance) e à agenda do nacionalismo extremista à escala global.
A resposta popular foi estrondosa, quer pelos níveis recorde de participação registados quer pelo endosso verificado em relação a Péter Magyar (estimado em cerca de dois terços do eleitorado). Assim, e como quer que este se venha a revelar em concreto à frente dos destinos da Hungria, a verdade é que uma mudança corretora se tornou viável e mesmo inevitável. O que abre certamente algumas janelas de esperança no sentido de tornar possíveis novos passos de relançamento da unidade na Europa e da paz internacional.
E se devemos levar a sério aquele “nunca desistiremos” que Orbán desesperadamente proclamava ao assumir a derrota perante os seus apoiantes, não é menos verdade que foi a força maior da democracia que emergiu de modo concludente neste Domingo. É quase sempre assim: o povo pode escolher demagogos e autocratas, sofrer interiorizadamente as desastrosas consequências das suas ações, parecer desligado do que se passa na esfera pública... mas acaba sempre por haver um belo dia em que acorda farto de tudo isso e, quando não o faz em protesto violento, decide pronunciar-se nas urnas de modo tão inequívoco quanto surpreendente para quem o tomava por adormecido ou amolecido. Esta regra, que entendo sem exceção, só apresenta limitações de ordem temporal, podendo por vezes os ditames de um tempo lido como curto obscurecer a vigência de um tempo longo em que o bem se tenderá a impor até que outros ciclos se sucedam.
É precisamente esta perspetiva otimista da evolução das sociedades humanas – que só a uma primeira vista defronta a ideia de “banalidade do mal” que Hannah Arendt tão bem elucidou – que deve orientar um modo de estar progressista na vida que ajude a suportar os momentos de atrocidade e extermínio, de injustiça e relativismo moral, de impunidade e impotência. E quem não consegue associar estes momentos às desconformidades da agressão de Putin na Ucrânia, do genocídio levado a cabo por Netanyahu em Gaza ou dos caminhos de desagregação da democracia americana sob a égide do inconcebível Donald Trump e seus lacaios?



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