sábado, 25 de abril de 2026

RESISTIR

 


(O belo texto que António Barreto assina hoje no Público como crónica semanal representa a oportunidade certa de reflexão neste feriado, encoberto pela sombra do sábado, comemorativo do 25 de Abril, com A grande, mesmo contra a corrente do acordo ortográfico. O sábio cronista sublinha bem como é de uma estúpida ignorância tentar comparar várias décadas de atrocidades de ditadura com dois anos de perturbação revolucionária até à estabilização constitucional do país e ainda mais estúpido e soez confundir esses dois anos de perturbação com uma avaliação dos 52 anos de democracia que o 25 de Abril proporcionou aos portugueses. RESISTIR é a palavra que me ocorre para associar ao 25 de abril de hoje, a repousar, protegido, ao sol de Seixas, num município que este ano, com a AD no poder, será pouco eloquente em comemorações festivas da data. E o resistir tem várias dimensões. Desde logo, resistir, travando, a despudorada reescrita da história em que o Chega de Ventura está decididamente empenhado, socorrendo-se de todos os truques comunicacionais possíveis, aprendidos na “internacional” do comentário televisivo futebolístico. Mas também resistir, combatendo a perda de memória coletiva que vai acontecendo à medida que vão desaparecendo na usura dos corpos e das mentes os personagens, os atores e a população em geral que viveu a rotura de Abril. E aqui não poderemos ignorar a sinistra perda de memória com duas dimensões: a da memória coletiva que acontecerá se não for trabalhada e permanentemente renovada com investigação histórica contemporânea e criação artística multifacetada; e a da memória individual que os elementos da geração que viveu os acontecimentos irão começar a sentir à medida que a usura do tempo se for observando, não necessariamente sob a forma das patologias que mais me assustam, mas também como produto natural da nossa finitude. Entendido nestes termos, o RESISTIR é um ato democrático que importa consagrar como tal, com capacidade de iniciativa e de organização, como por exemplo o valioso trabalho de José Pacheco Pereira na biblioteca e arquivo EPHEMERA ou o trabalho de investigação de Irene Flunser Pimentel, só para citar os mais mediáticos, mas aos quais se deve juntar a referência a toda a população anónima que colabora nesse esforço heroico de resistência à perda de memória coletiva.).

Assim entendido, este esforço de RESISTIR não implica de maneira alguma a necessidade de romancear o período mais revolucionário, já que o significado dos 52 anos de democracia que importa preservar é bem mais importante do que todas as derivas e injustiças observadas nesse período curto da nossa história mais recente.

 

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