(Com um significado interno ainda não plenamente esclarecedor, dada a necessidade de evidência prática política posterior, as eleições gerais na Hungria e a onda democrática que afastaram Victor Orbán do poder são uma notícia de alívio para a democracia europeia, qualquer que venha a ser o rumo da situação política húngara. A vitória de Péter é contundente, a sua maioria bastante confortável e o que é importante é a não confirmação dos riscos à moda de Trump de após as eleições não existir da parte de quem perdeu a confirmação dos resultados. Nada disso aconteceu e, polidamente, Orbán veio a terreiro felicitar o seu adversário e afastar com clareza esse risco. A vitória de Magyar é tão clara que, aparentemente, a construção antidemocrática que Orbán urdiu, com a complacência europeia, durante os 16 anos no poder não terá produzido os efeitos desejados pelo agora perdedor, sugerindo os resultados que o povo húngaro terá achado que se foi longe de mais na construção desse aparato. O populismo autoritário não está, entretanto, morto na União, ele ameaça sobretudo na Alemanha (o mais perigoso) e em França, em Itália parece mais domesticado e a leste, espera-se que esta onda de renovação atinja também o coração do populismo de extrema-direita que grassa por essas paragens, limitando-o a franjas menos expressivas do que as atuais. Vá lá saber-se, mas com a situação internacional que temos, o apoio de Trump e Vance a Orbán, com visita de apoio uns dias antes das eleições, terá funcionado como algo de perverso e que os húngaros terão entendido como uma afronta que tinha de ser castigada, como foi, nas urnas.)
Se as instituições europeias estão por agora aliviadas por se terem desembaraçado de algo incómodo que ajudaram a construir com a sua complacência e fundos europeus associados, a grande interrogação que se abrirá nos próximos tempos consistirá em saber em que medida a vitória de Magyar irá permitir desconstruir o edifício antidemocrático que Orbán foi instalando na sociedade húngara, da justiça à cultura, passando pelo controlo da imprensa e até da investigação científica. O resultado obtido é arrasador: 138 deputados para 55 do Fidesz, tendo o grupo de extrema-direita MHM de László Toroczay ficado pelos 6% de votos. Mas a Coligação Democrática de Klara Dobrev, atualmente no Parlamento Europeu e uma política prestigiada de esquerda, não conquistou mais do que 1%, o que significa que a esquerda está arrasada na Hungria.
Quer isto significar que o voto útil em Magyar foi deveras expressivo, sendo entendido como a única chance de afastar o Fidesz do poder, o que funcionou em pleno. Obviamente que persistirão sempre interrogações sobre alguém que foi companheiro de andanças de Orbán, que militou nas mesmas águas até se distanciar e construir uma alternativa de superação, capaz de suprimir a mordaça de 16 anos. Magyar é visto como alguém mais europeísta do que a deriva de Orbán, mas pode colocar-se a questão de saber como que é que ele vai lidar e navegar em águas de desilusão europeia e sedução pelo nacionalismo que tem emergido pelo centro e leste da Europa.
Estas são as interrogações mais importantes. Já quanto ao efeito de desilusão que esta vitória de Magyar poderá provocar no internacionalismo de direita agressiva que grassa pela Europa com o apoio despudorado da canga de Trump e seus apaniguados sou mais cético. A transferência de estados de alma e de ânimo entre eleitorados, designadamente entre os geograficamente mais afastados, por exemplo nos eleitorados do Chega e do VOX, é mais problemática e está longe de evoluir em modelos de mancha de óleo, sobretudo em contextos muito marcados pelas situações de ressentimento e de abandono nacionais. Isso não significa, entretanto, que desvalorizemos este resultado, tanto mais importante quanto ele acontece depois de 16 anos de construção despudorada de um estado de controlo político e de afastamento de adversários.
Mas será fundamental acompanhar de perto se Magyar traz consigo uma prática reiterada e consequente de desmontagem do sistema de controlo político criado por Orbán e pelo Fidesz. Se isso acontecer, então esta vitória terá um significado mais amplo e verdadeiramente democrático.

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