(Fotografia de Margarida Antunes no âmbito de uma exposição passada com o tema Minudências)
(Como se o mundo de hoje não nos oferecesse desafios bem mais decisivos para a renovação sustentada da democracia, a política interna portuguesa emerge nos últimos dias configurada pela teimosia a despropósito do governo de Montenegro em termos de lei laboral e, pior do que isso, pelo regresso mediático às questiúnculas suscitadas pelo regresso de Pedro Nuno Santos e pelas alfinetadas do mesmo ao seu colega de aventuras Duarte Cordeiro. O meu colega de blogue já se pronunciou e bem sobre a “não questão” que o regresso de Pedro Nuno Santos, não questão porque apesar do arrebatado ex-líder do PS se julgar com dimensão para ofuscar tudo o que mexa na política mediatizada, a verdade é que navega numa ilusão criada pela perceção errada de si próprio. Além disso, não é necessário andar a estudar para analista político para compreender que Duarte Cordeiro é bem mais consistente como figura política do que PNS e se, apesar do “tão amigos que nós éramos” estão agora desavindos, isso não é mais do que uma minudência para jornalista sem assunto, que não acrescenta nada ao que os portugueses esperam da política. A incapacidade que estes personagens revelam de conhecimento das condições atuais em que estão ou querem fazer política é de bradar aos céus. Políticos incapazes de compreender o contexto novo em que pretendem dedicar-se à profissão temos por aí à mão cheia, pelo que daí à sua mais completa irrelevância é um pequeno passo. E, neste caso, há dois elementos de contexto cuja exigência de compreensão não parecem estar ao alcance do arrebatamento político de PNS. Primeiro, a situação do próprio Partido Socialista é por si só um desafio enorme e esse desafio não desapareceu por uma ou duas sondagens positivas de liderança momentânea. O que acontece por agora é que com o desatino da AD e o Chega a estrebuchar para todo o lado, atirando a tudo que mexe, basta não cometer erros para influenciar as perceções da opinião pública. É isso que explica o ligeiro ressurgimento do PS nas sondagens. Segundo, a deriva antidemocrática, complexa e diversificada que grassa pelo mundo ocidental muda completamente as prioridades da ação política, de esquerda ou de direita democrática, estabelecendo um novo guião para quem pretenda entrar na mais completa irrelevância política.).
Pensando bem vale claramente mais a afirmação recente do velho Manuel Alegre segundo a qual as democracias não se abatem hoje com tanques, mas minam-se por dentro, do que todo o arrebatamento dos jovens turcos como PNS.
É também à luz dos desafios deste novo contexto para a ação política que tem de ser politicamente combatida a teimosia arrogante de Montenegro e da ministra do Trabalho em apresentar a revisão da Lei Laboral como se fosse a grande fonte de preocupação dos portugueses e o centro da mudança estrutural do país. O assunto está a ser discutido há já bastante tempo e ainda não consegui vislumbrar entre todos os bicho-caretas que se têm pronunciado sobre o assunto uma ideia que fosse que demonstrasse com clareza a relevância da revisão. A insistência de Seguro no diálogo a todo o custo soa a choco, por mais relevante que seja o apelo à concertação de posições.
Por muito que custe ao Governo e aos mais radicais defensores do novo pacote laboral a revisão da legislação é nessa matéria uma minudência face aos problemas mais profundos da sociedade portuguesa e ao mundo em que a ação política é hoje projetada.

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