quarta-feira, 29 de abril de 2026

CELEBRANDO A DANÇA

 


(Este vosso Amigo que não é nada propenso a efemérides e que em matéria de talento para a dança é rígido como uma rocha, pior do que pé de chumbo (estranho que tal incapacidade não se estenda ao desporto), aqui está, não menos estranhamente, a interessar-se pelo Dia Mundial da Dança que hoje se comemora. Dia em que a nossa Grande Olga Roriz será agraciada. Tudo isto graças a uma emissão especial da Antena 2 realizada na Escola Superior de Dança no Instituto Politécnico de Lisboa, provisoriamente residente nas instalações do ISEL, até que as obras do edifício original se concluam. As memórias são como as cerejas e recordo-me que quando coordenei os trabalhos do Plano Estratégico para o Instituto Politécnico do Porto (IPP), a criação de uma Escola Superior de Dança no Porto, ou pelo menos uma licenciatura e mestrado em Dança na ESMAE, Escola Superior de Música, das Artes e do Espetáculo, do IPP, era uma aspiração que creio não chegou a ser concretizada. Mas não é para falar de memórias que este post é redigido, mas sim para partilhar convosco um texto notável, assinado pela coreógrafa canadiana Crystal Pite, como mensagem do Dia Mundial da Dança. É um texto lindíssimo, e quem assim escreve deve dançar e coreografar lindamente. Ao trazer este texto comovente para a partilha de ideias deste blogue, quero simplesmente homenagear os jovens que estão em Portugal a frequentar licenciaturas e mestrados em Escolas Superiores de Dança em Portugal, afirmando com orgulho e teimosia a sua vocação, assumindo o desafio de querer fazer profissão de uma área artística que está em franca evolução, isso é seguro, mas que continua a enfrentar as dificuldades conhecidas de sustentação de rendimento e de emprego. Os participantes na emissão especial da Antena 2 confirmaram que ainda hoje, cerca de 20 anos depois do Ballet Gulbenkian ter sido extinto ainda são sentidos abalos provocados pelo desaparecimento dessa companhia privada de dança.)

Eis a prosa de Crystal Pite (traduzida por mim da versão francesa):

“Os humanos mexem-se – os nossos braços alongam-se, os nossos joelhos dobram-se, acenamos com as nossas cabeças, o nosso peito esvazia-se, as nossas costas arqueiam-se, saltamos, encolhemos os ombros, cerramos os punhos, apoiamo-nos uns nos outros e afastamo-nos. É uma linguagem e também uma ação. É o que o corpo nos diz sobre a necessidade, a derrota, a coragem, o desespero, o desejo, a alegria, a ambivalência, a frustração, o amor. Estas imagens brilham de sentido no espírito porque sentimos essas coisas tão puramente no corpo – emocionamo-nos.

Somos todos bailarinos. A vida faz-nos mexer, a vida faz-nos dançar. Efémera como o suspiro, concreta como o osso, uma dança é feita de nós. Quando dançamos, esculpimos o espaço. Escrevemos com os corpos numa linguagem sem palavras que é compreendida profundamente. Gratificamos o espaço em nós e em redor de nós.

Como a vida, uma dança cria-se e destrói-se a cada instante. Como o amor, está para lá da razão.

Gosto de pensar no corpo como um lugar, um sítio em que o ser é conservado e modelado. Quando dançamos, estamos profundamente comprometidos com o facto de lá estar.

Redijo este texto no início do ano de 2026, num tempo em que a opressão, as perturbações e o sofrimento no mundo parecem não ter fim. Diariamente, enquanto somos testemunhas do horror que estes humanos são capazes de provocar uns aos outros e dos mecanismos do poder que financia e alimenta uma violência indizível contra os povos e o planeta, a dança parece ser uma resposta fácil, inútil. É difícil imaginar o que um artista da dança pode fazer num mundo que tem tanta necessidade de mudança radical e de cura.

E, contudo, a arte, como a esperança, é uma forma de amor. Decididamente generativa face à profanação, a arte é um solvente para o espírito que se calcifica e um bálsamo para o curar. A arte é para nós um navio quer nos acolhe enquanto lutamos, em conjunto, com as nossas questões de uma maneira diferente das novidades, diferente do documentário e da educação, diferente das opiniões e das redes sociais, diferente do ativismo e do protesto, mas sem ser incompatível.

Através da criatividade, acumulamos resistência e esperança para os pequenos atos de coragem, de curiosidade, de bem fazer e de colaboração. Na dança e na criação da dança, encontramos a prova de que a humanidade é algo mais do que o nosso último comovente falhanço global. Mas a dança não tem necessidade de qualquer justificação. Ela é feita de nós, mas não nos deve nada. Ela precisa apenas de habitar um corpo que esteja pronto a recebê-la. Desse lugar, ela pode traduzir o inexprimível; atuando como um intermediário entre nós e o desconhecido

Comovemo-nos com os traços fugazes de beleza no presente momento. E enquanto encarnamos simultaneamente a dança e o seu desaparecimento, lembramo-nos da nossa finitude. Ao mesmo tempo, se prestarmos atenção, a dança dar-nos-á uma impressão ocasional da alma”.

 

Digam lá se não vos apetece dançar, dar fluidez aos impulsos do vosso corpo.

 

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