quarta-feira, 8 de abril de 2026

ALÍVIO, POR AGORA!

 

(Devo confessar que cedo por vezes ao vírus da indiferença generalizada que a indeterminação da cena internacional está a gerar em muita gente. Ontem, relativamente cedo, deitei-me sem verdadeiramente estar suspenso da infame ameaça de Trump de destruir toda uma civilização iraniana, criando o espectro da devastação generalizada da infraestrutura civil, abandonando assim o seu discurso pífio da mudança do regime teocrático. Hoje, pela manhã, a imprensa internacional comunica-me que Trump aceitou um cessar-fogo de duas semanas, com a contrapartida de supressão das restrições de circulação no estreito de Ormuz, para discutir, com mediação do Paquistão, quem diria, o plano de paz de 10 pontos apresentado pelo Irão e não o de 15 pontos inicialmente apresentado por Trump. É fácil perceber o absurdo de tudo isto. O presidente americano apresenta como grande vitória a reabertura de um estreito que tinha circulação livre garantida antes de ter sido perpetrado o ataque sobre o Irão, ou seja, clama vitória por algo que ele próprio provocou, em tom algo semelhante ao que tinha concretizado quando inviabilizou o tratado nuclear que Obama tinha garantido com o Irão, para depois clamar que destruíra o arsenal iraniano sem evidentes provas desse desaparecimento. É esta aleatoriedade do comportamento de Trump que está a provocar a tal indiferença generalizada sobre a devastação que pode acontecer na cena internacional e isso é que é verdadeiramente perigoso, a habituação à barbárie que pode acontecer a todo o momento, que já aconteceu em Gaza e que pode acontecer em Teerão. O problema é que a civilização mundial em nada seria penalizada com a saída de cena de Trump e do movimento MAGA em geral, ao passo que a devastação da civilização iraniana constituiria uma perda efetiva para a humanidade e não estou a falar obviamente de uma eventual queda do fanatismo teocrático, mas da cultura milenária subjacente aquele país, qualquer que seja a sua orientação religiosa.)

A participação de J.D. Vance nas manobras de adulteração do jogo democrático na Hungria de Orbán, como acontecerá seguramente em próximas iniciativas de aproximação da extrema-direita alemã da AfD, mostra que a administração americana atual não é de confiança. Não se convida para nossa casa quem pretende destruir o nosso modelo de vida e o valor democrático mais profundo das nossas instituições. Obviamente que há quem diga que a administração Trump não é os EUA. Assim é. Mas, enquanto a clique plutocrática de Trump estiver no poder, e essa situação pode malevolamente ser estendida no tempo, a verdade é que os EUA são por agora essa adulteração infame dos valores democráticos e é com isso que temos de lidar, por mais que as “florzinhas diplomáticas” que se pavoneiam no nosso governo queiram fazer-nos convencer do contrário, cultivando a sua sede de reiterada subserviência.

Diz-me o New York Times que os arsenais bélicos americanos estão a atingir níveis que muito dificilmente poderão ser completados nos próximos tempos, tamanho é o esforço orçamental que tal vai exigir. Assim, pelo menos o sugere o pedido colossal de autorização de despesa que chegou ao Congresso.

E abre-se aqui a interrogação de saber se todos os altos comandos militares americanos vão pactuar com o delírio bélico desta administração. Obviamente, quem está fascinado pelo poderio militar americano não olha a meios para garantir que os seus testes de poderio vão ser concretizados. Mas já tivemos mudanças de altas chefias militares em pleno período de ataque ao Irão, o que pode ter múltiplas interpretações sobretudo quando o secretário de Estado da Defesa é o “cowboy” e ex-apresentador de televisão Pete Hegseth, o tal que no domingo de Páscoa comparou a operação de resgate do soldado americano em território iraniano à ressurreição de Jesus Cristo. Sim, é com esta gente que o mundo de boa fé e de mente aberta tem de lidar.

 

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