(Há espaços públicos na Cidade que só valoramos devidamente quando deles somos afastados fisicamente e recuperamos posteriormente o acesso. É o caso da praça dos Leões, todo aquele espaço em frente ao edifício da atual Reitoria da Universidade do Porto e das instalações da Casa Comum e loja aprazível da UP. As obras da estação da nova linha do Metro estão concluídas, falta apenas o acesso à futura estação do Metro, ainda entaipada por questões de segurança. Mas todo o espaço que rodeia o Piolho e se espraia até ao jardim da Cordoaria está finalmente liberto para nossa fruição. Devo confessar que tenho uma relação bastante afetiva com este espaço, não apenas porque a minha formação em Economia tenha sido concretizada num sótão deste valioso edifício, mas também e se calhar com maior importância pelo facto de ter passado largas horas da minha juventude liceal no restaurante do meu Avô, na Travessa do Carmo, o popular Botas, que sinceramente não sei se mantém o nome ou se evoluiu para outra designação. Sempre que tenho necessidade de cortar um pouco a juba, que vai sendo farta, não sei até quando, na sempre Invicta barbearia, regresso matinalmente a este espaço, à hora em que a frequento apenas com os turistas mais madrugadores e não estou a falar na incrível fila que se forma desde muito cedo à porta da Livraria Lello, vá lá perceber-se estes hábitos da população que nos visita, encarreirada pelos principais guias que olham para o Porto como uma cidade de atmosferas aliciantes, para recuperar a prosa brilhante do Arquiteto Peter Zumthor. A maior parte dos serviços está ainda fechada, recuperando provavelmente do cansaço e azáfama da véspera até tarde na animada noite portuense, o lixo não está retirado ainda que bem embalado. Hoje na quietude do espaço recuperado, destacava-se o imponente LEXUS híbrido parado à porta da Reitoria, creio que para utilização do Excelentíssimo Reitor da UP, embora exista um parque público subterrâneo, mas estimo que o tempo dos senhores Reitores seja precioso e que seja importante poupar alguns cobres com uma avença de estacionamento. O Piolho mantém por agora um número de mesas muito reduzido no exterior, desconhecendo se está em negociação com a Câmara Municipal alguma hipótese da sua extensão e regresso à versão que existia antes das obras do Metro ou se vai predominar a ideia de espaço público para a população residente ou visitante. Devo confessar que gosto muito de esplanadas e que, com equilíbrio, não vejo grande problema em animar esse espaço com as ditas.)
O regresso ao espaço público do Carmo faz-se de rotinas em que me especializo, desde a passagem pela loja da UP (onde adquiri uma excelente publicação do Instituto de Filosofia da UP, o volume 1 Common Good, de uma obra coletiva sobre a filosofia da Cidade, editado por Paula Cristina Pereira) e a inevitável visita ao alfarrabista Modo de Ler, onde existe sempre a oportunidade de uma conversa, breve que seja, com o incontornável editor José da Cruz Santos. Como ia em busca de dois exemplares que constavam do catálogo camiliano que Cruz Santos colocou à venda, a conversa de hoje versou sobre a decisão difícil de abrir ao público o catálogo de alguém que o editor considera um verdadeiro génio, Camilo Castelo Branco. O génio de Camilo faz parte do que Cruz Santos considera ser o seu único fundamentalismo.
Mas existe sempre uma história para contar e desta vez ela incidiu numa das muitas controvérsias violentas em que que Camilo se envolveu, neste caso com o Padre Júlio da Rocha Soares de Carvalho no início de 1872. A segunda réplica de Camilo ao Padre Júlio esteve cerca de 100 anos ignorada, porque o pároco deu-se ao luxo temerário de passar por todas as bibliotecas que se lembrou para amputar as edições da resposta de Camilo. Contou-me José da Cruz Santos que conseguiu na Biblioteca do então 1º de Janeiro, que, pelos vistos, era uma boa biblioteca recuperar a segunda réplica de Camilo nessa polémica, disponibilizando-a a Alexandre Cabral para em edição de O Ouro do Dia/Porto. Esta foi a primeira compra. As outras duas foram um ensaio de Agustina Bessa Luís sobre Camilo e as Circunstâncias editado por Cruz Santos em 1981 e uma edição dos anos 50 da enigmática Narcóticos do próprio Camilo.
E assim se faz a rotina de fruição de um espaço público recuperado.
Bom fim de semana para todos.

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