(Para um economista que sempre procurou estar disponível para o pensamento crítico, há obras que nos marcam para sempre, tamanho foi o impacto que a sua leitura me provocou. E, estranhamente, a obra marcante que estou a invocar não é uma obra de teoria económica, mas antes a monumental biografia de John Maynard Keynes de autoria de Robert Skidelsky, Professor da prestigiada universidade de Warwick desde 1978, até ao fim dos seus dias. Os três impactantes volumes dessa monumental biografia – HOPES BETRAYED 1883-1920, THE ECONOMIST AS SAVIOUR 1920-1937 E FIGHTING FOR BRITAIN 1937-1946 constituem uma espantosa leitura contextualizada da evolução do pensamento de Keynes e basta estar atento aos períodos de referência dos três volumes para compreender a importância do cruzamento entre formação do pensamento e história económica. A leitura desta biografia estimulou-me sem tréguas a aprofundar dimensões da obra do próprio Keynes que tinham ficado em branco na minha formação inicial e complementar. Foi um contributo decisivo para não me deixar seduzido pelo apagamento do keynesianismo na sequência do período de estagflação que o mundo capitalista viveu e para, anos mais tarde, festejar sobretudo a partir das crises cambiais asiáticas dos fins dos anos 90, o ressurgimento do interesse pelo brilhantismo do pensamento keynesiano. Tudo isso era antecipável pela leitura atenta da biografia elaborada por Skidelsky. Nas diferentes capas de várias edições que a biografia de Keynes suscitou, é uma profunda injustiça termos o rosto de Keynes e a ausência do de Skidelsky, mas um biógrafo insuperável como o economista inglês o era sabe que tem de se apagar para dar palco notoriedade e palco ao biografado.)
Não estou seguro que a monumental biografia assinada por Skildelsky tenha tido uma tradução ou publicação em Portugal (existe tradução publicada no Brasil). Por isso, a leitura dos três volumes em inglês foi épica, sobretudo com o pormenor de evidência e informação com que Skildelsky compõe o contexto daqueles três períodos.
Mas há uma outra obra de Skidelsky, essa publicada em português pela Editora TEXTO em 2010, KEYNES, O REGRESSO DO MESTRE, que nos permite entrar no pensamento combativo que o biógrafo de Keynes sempre desenvolveu como economista e como ele se destacou na luta incessante contra a vulgata económica e contra a propensão para inverter as coisas, adaptar a realidade á teoria e não o contrário.
A Universidade de Warwick dedicou-lhe um epitáfio que honra o prestígio daquela universidade.
Reproduzo aqui as palavras de um outro economista heterodoxo, Lars P. Syll, que lhe dedicou uma despedida muito pessoal:
“Um grande historiador e um grande economista morreu.
Robert Skidelsky era mais do que um biógrafo de John Maynard Keynes. Ele corporizava as qualidades decisivas que ele tanto admirava no seu domínio: curiosidade sem descanso, coragem intelectual e uma profunda preocupação com a dignidade humana. A sua monumental biografia não era apenas um trabalho académico, mas um trabalho longo de devoção. Era tido em grande estima por todos que leram o seu trabalho ou o ouviram falar, e muito sentiremos nessa qualidade a sua falta – um académico apaixonado que não nunca deixou de se questionar sobre o que a economia deve ser.
A última vez que falei com ele foi apenas há um mês, quando me contactou para me dizer que tinha lido o meu The Poverty of Fictional Storytelling e que tinha um novo livro no prelo, intitulado Keynes for Our Times, a ser publicado pela Yale University Press.
Fica em paz, meu amigo. A tua voz era única e importava.”
Aos 87 anos, Skidelsky ainda escrevia e, sempre coerente, continuava a mostrar como foi indigno, mas recuperável, o esquecimento deliberado a que o pensamento de Keynes foi devotado.



Sem comentários:
Enviar um comentário