domingo, 31 de maio de 2026

MEMÓRIA, COMPLEXIDADE, INTERDISCIPLINARIDADE

 


(Morrer aos 104 anos de idade é um acontecimento que preza bem a ideia frequentemente invocada de que Edgar Morin significa mais um projeto de uma vida cheia como muito poucas do que uma carreira notável de investigador e pensador nas suas diferentes incursões de antropólogo, sociólogo, filósofo, pensador da complexidade e da integração disciplinar. Ontem, em França, a antecâmara da vitória do PSG na final da Liga dos Campeões terá ofuscado o reconhecimento do legado de Morin para o lugar que a França tem de desempenhar na compreensão e na abordagem ao mundo de hoje, cada vez mais complexo e exigente em termos de integração. Enquanto escrevo em Seixas esta pequena homenagem, olho para a estante que ladeia a minha mesa-secretária de fim de semana e confirmo com o olhar que só Morin poderia ter escrito obras como Pleurer, Aimer, Rire, Comprendre ou o L’Année Sisyphe, que dão bem conta da riqueza criativa que o pensador francês nos ofereceu durante uma longa vida. Num sistema científico e de investigação, cada vez mais especializado e atomizado, em que cada um sabe cada vez mais de uma parte cada vez mais ínfima da realidade, é necessária uma coragem de Vida e não de Carreira para assumir temas tão complexos como o pensamento da complexidade ou a interdisciplinaridade. São domínios em que as grandes realizações e avanços são sempre provisórios, dificilmente podendo assegurar prémios NOBEL ou coisas do género e exigindo uma persistência contínua e que se debate com um problema difícil de ultrapassar – o número de pares que pratica o pensamento da complexidade ou a integração disciplinar é reduzido, não proporcionando, assim, a massa crítica de prática e de experimentação que os avanços metodológicos exigiriam. Mas Morin era um lutador e não dava tréguas a essa dificuldade, principalmente por que o seu projeto era de VIDA e não de CARREIRA, como muitos dos seus pares. Foi com Morin que aprendi que a abordagem da interdisciplinaridade é um desafio permanente , construída do todo, visão global, para o particular, embora ainda longe de termos um referencial metodológico acabado para a conceber em termos de programas de investigação, num contexto de saberes fortemente especializados.)

Em Portugal, fica-se com a ideia de que a Universidade, cada vez mais atomizada, não aproveitou como poderia a obra de Edgar Morin, louvem-se embora os exemplos que rema e ram contra essa corrente. Terá sido o Instituto Piaget a instituição que mais tirou partido da proximidade a Morin, alguém que gostava de Portugal como ontem João Soares e Guilherme d’Oliveira Martins bem explicitaram, revelando recordações das visitas de Morin a Lisboa, a última já com 101 anos de idade. Foi conhecida no seu tempo a curiosidade e afeição que o pensador francês revelou relativamente à Revolução portuguesa, identificando-se com a sua versão democrática e antitotalitária.

O que é para mim impressionante na obra de Morin é como as questões da memória (ele foi membro da resistência francesa ao nazismo em França, daí o seu nome Morin), da abordagem à complexidade e do apelo à interdisciplinaridade se combinam virtuosamente, representando cada uma dessas expressões a sua função específica. Por essa razão, Morin é um dos últimos pensadores da Europa, com memória e reflexão suficientes para compreender a importância nevrálgica desse projeto e a necessidade de no seio das suas impurezas e desvios encontrar saídas para o defender e fazer vingar. Só essa dimensão nos permitirá compreender obras como Penser L’Europe (Gallimard, 1987) ou Mês Berlin 1945-2013 (Le Cherch Midi, 2013)

Não restarão muitos mais para trazer para o presente essa memória reflexiva de uma experiência e projetar no futuro os seus traços distintivos e civilizacionais.

Vai-nos fazer falta o seu espírito atento para, à luz dessa virtuosa combinação de memória-complexidade-interdisciplinaridade, nos ajudar a compreender os desafios e as armadilhas do contemporâneo.

 

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