Lembram-se quando circulavam pessoas na rua com um autocolante que dizia “Não tenho culpa, não votei AD”? Já foi há uns anos largos mas a prática sempre me pareceu uma boa forma de produzir uma crítica cirúrgica ao governo instalado e suas políticas. Pois ao ler a notícia de que Pedro Duarte estará prestes a reduzir a vereação do PS na Câmara Municipal do Porto, passando-a dos seis eleitos nas listas do partido para quatro por via de dois refratários/arrependidos (um logo concretizado à saída das eleições, a outra alvo de um “’namoro’ que se prolonga há meses e poderá estar em vias de se concretizar”), aquela velha prática veio-me à cabeça. O que me leva a sentir-me tentado a aqui vir declarar publicamente, em nome de uma lógica de vergonha alheia múltipla e multifacetada, que não tenho culpa porque não votei PS nas últimas eleições autárquicas – e tal assim foi não só mas também porque a lista proposta por um Manuel Pizarro incompreensivelmente néscio e deslumbrado não me oferecia garantias de cumprimento de mínimos olímpicos para a respetiva validação; sobretudo por duas razões pessoalizadas naqueles dois candidatos refratários/arrependidos.
O “Público” tem vindo a referenciar ao longo dos anos várias dimensões das carreiras dos dois candidatos em causa pela sua referida mudança de camisola. Trata-se, afinal, de uma espécie de gestores, sendo um mais cultural em sentido estrito e outra igualmente cultural mas mais “pau para toda a colher”. A praça pública e/ou a vox populi integram episódios de vária ordem com epicentro nos mesmos – em termos recentes, mas longe de serem exclusivos: “Jorge Sobrado foi acusado pelo Ministério Público de ter violado as leis da contratação pública quando era vereador da Câmara de Viseu, com o objetivo de favorecer um grupo empresarial privado” e “vai responder pelos crimes de prevaricação e participação económica em negócio”; Francisca Fernandes, segundo uma peça da “Sábado” e uma crónica de João Miguel Tavares a ela ligada (“Francisca Carneiro Fernandes e os conflitos de interesses”) “adjudicou ao marido €115.069 em contratos [sete ajustes diretos] quando era a presidente do Teatro São João”.
Mas nem foram estes e outros incidentes potencialmente judicializáveis que sobretudo determinaram aquela minha decisão cidadã, antes sim a perceção de questões comportamentais indiciadoras do modo de ser e estar dos ditos na profissão e na vida. As pequeníssimas resenhas das suas deambulações mais recentes que abaixo se reproduzem a partir de títulos do “Público” ilustram nas entrelinhas o que tem estado em causa, designadamente através do jogo de aproveitamento pouco escrupuloso de Sobrado perante a ofuscada dupla Rui Moreira/António Cunha e da insinuante exploração por Francisca dos seus alegados atributos perante outra dupla improvável (Rui Moreira/Pedro Adão e Silva); deixando de lado as diatribes de Sobrado em Viseu e as voltas que foi trocando ao malogrado Almeida Henriques, bem assim como aquelas que fizeram de Francisca uma girl do tolerante Moreira em tudo quanto mexia na Cultura do Porto para acabar na administração da “Go Porto” depois de uma passagem pelo CCB, o que resulta de mais lamentável politicamente é o modo como o PS e Pizarro se deixaram envolver nesta teia pardacenta de gatos traiçoeiros.
Uma palavra final para Pedro Duarte (PD). Há que reconhecer a habilidade com que tem gerido este aumento da sua representatividade no executivo camarário do Porto, nada se lhe podendo assacar quanto aos “namoros” que tem feito e ao respetivo sucesso. Ainda assim, PD discute política semanalmente na CNN, no quadro de um programa designado por “O Princípio da Incerteza” mas que já se intitulou “A Quadratura do Círculo”, e lá vai levando a água ao seu moinho através de um jogo de palavras tipo “uma no cravo e outra na ferradura” que o começam a colocar como passível de uma leitura indefinida ou até assética. Claro que o presidente do município não quer, nem pode, romper ou contrariar significativamente Montenegro – noblesse oblige... Mas a sensação que tenho é a de que PD vai ter, mais cedo do que tarde, de assumir posições firmes e próprias para que a sua colagem ao governo não resulte em perda de espaço junto dos seus concidadãos eleitores – e talvez a dimensão regional pudesse ser uma boa oportunidade para empunhar um estandarte que é popular e não afronta em excesso os medos do líder laranja. Uma matéria a revisitar aqui, talvez um pouco mais lá para a frente.



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