(Afazeres familiares, crise de inventiva na escrita, cansaço acumulado e mal gerido, tudo enfim que possa ser invocado para justificar a fraca vontade de alternativa à página (ecrã) em branco. Neste domingo húmido que convida ao recolhimento, o tema da perturbação no mundo emerge como a tábua de salvação para evitar uma ausência ainda mais prolongada deste blogue. Temos de convir que a degenerescência democrática no mundo é algo que preexistia à data da eleição de Trump para o seu regresso à Casa Branca. Podemos ainda assim concluir que a sua primeira passagem pelo poder anunciou o clima. Mas o que não gera a menor dúvida é que o seu regresso ao poder trouxe a todos os intérpretes da degenerescência democrática um poderoso tónico e um estímulo efetivo à formação de uma Grande Internacional do despudor antidemocrático. Porque o que está a acontecer perante o olhar atónito dos que acreditavam, como eu, nos checks and balances da organização política americana é a descarada construção de jogadas de secretaria, seja através da composição do Supremo Tribunal, seja com a reorganização à medida dos círculos eleitorais para beneficiar candidatos republicanos mais próximos de Trump. Além disso, as decisões arbitrárias sucedem-se como a de incriminação do ex-Diretor do FBI James Comey, apenas pelo facto dele ter aberto uma investigação acerca da alegada influência russa nas eleições americanas. Ou a suspensão em bloco do Conselho Superior de Ciência americano presumidamente para impedir a emissão de um parecer contrário aos interesses de Trump. Parece inequívoco que esta cavalgada antidemocrática em curso na economia mais poderosa do mundo constitui um importante estímulo a todas as forças de extrema-direita antidemocrática. Se isto é possível onde se presumia a existência de checks and balances à prova de bala, expressão apropriada dada a alucinada e voraz propensão para as armas na sociedade americana, porque não, interrogam-se tais forças, ir pelo mesmo caminho nos países em que a democracia social avançou?)
Neste cenário inclinado, a preocupação adensa-se quando alguns analistas reclamam que o discurso do Rei Carlos III no Congresso americano representou a mais inteligente forma de oposição a Trump dos últimos tempos, num discurso elegante, carregado de rigor histórico e um conjunto de verdades que terão deixado a administração americana, com relevo para J.D. Vance, maldisposta com evidência tão contundente. Se assim é, e admito-o que tenha sido, o que disso ressalta para a perceção do que vale a oposição a Trump conduz-nos ao mais puro desânimo.
Estamos assim a entrar num plano inclinado de impunidade transformada em perturbação de continuidade, suspensos do grotesco como forma suprema de exercício da política. Enquanto isso, o esforço para apreender um mínimo de racionalidade e coerência em duas intervenções seguidas de Trump conduz-nos também à mais completa frustração. Entender o que se passa no “afinal quem bloqueia quem no estreito de Ormuz é tarefa também gigantesca para um vulgar cidadão que procura coerência nas coisas que desconstroem a economia mundial.
A dúvida instala-se e com razão: será que a política grotesca e gratuita tenderá a provocar reação a esse estado de coisas e abrir caminho a saídas mais airosas, bloqueando a sua disseminação pelos eleitorados europeus ou os encolher de ombros vão multiplicar-se, banalizando a perversidade?
Queria estar mais otimista. Afinal, o sol sempre se ergueu, condenando o domingo húmido ao fracasso. Mas a habituação humana à perturbação de continuidade poderá predominar em sociedades cada vez mais polarizadas que, através do exotismo e do consumo de luxo, encontrarão sempre condições para ignorar os efeitos da perversidade sobre o outro lado das sociedades.

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