Entre um achincalhante qualificativo de “comissionista internacional” caçado pela justiça, como refere o nada meigo e duvidosamente isento “El Mundo”, e acusações de corrupção, liderança de uma rede de tráfico de influências e cabeça de uma estrutura criminal estável e hierarquizada, José Luis Zapatero voltou às primeiras páginas de todos os jornais espanhóis pelas piores razões, embora de algum modo já expectáveis a partir das muitas informações que têm circulado sobre as suas atividades subsequentes ao período em que exerceu o cargo de presidente do governo (como foi o badalado caso do seu relacionamento próximo com a Venezuela de Maduro). Ainda em fase de presunção de inocência, Zapatero está de algum modo numa situação similar à do nosso José Sócrates, i.e., acusado mas não condenado, sustentando o seu permanente respeito pela legalidade e sendo encarado pela opinião pública do país como culpado indesmentível de ilicitudes múltiplas forjadas a partir de tipos variados de relacionamentos que o exercício político lhe abriu.
A pergunta que se impõe é sempre a mesma: porque não há limites para a ganância desta gente? E porque será que a dominante nos seus conflitos íntimos tende a ir no sentido de sobrepor essa ganância à ambição de poder e visibilidade, à vaidade pessoal e a um são reconhecimento coletivo? E porque será, mais prosaicamente, que eles não atentam nos exemplos falhados e frequentemente desgraçados dos vizinhos do lado? Quanto à resposta, tenho de me ficar pelas lições que extraí da História – dos imperadores de tantos impérios antigos aos ditadores dos tempos modernos –, pelas abordagens que inúmeros intelectuais nos legaram – sempre com a tal “banalidade do mal” a planar nas essências – e pelas perceções que me chegam da vida comum – há um primado do “eu” que cresce desmedidamente à medida que vamos incorporando o que nos rodeia com olhos de ver – para concluir pela incorrigibilidade da crise moral em que flutuamos sem que um qualquer contraponto exemplar de elites dignas desse nome nos ofereça um possível sustentáculo sólido de diferença.


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