Marcelo era beijoqueiro e selfista, mas tinha momentos fora da caixa que surpreendiam pela positiva apesar do seu conservadorismo essencial. Seguro começa a definir-se: previsível, hesitante e politicamente correto (para não dizer pouco corajoso) – na campanha, teve a única ousadia de afirmar que vetaria aquele pacote laboral, o que hoje certamente lamenta pelo transtorno que tal está a dar ao seu pretendido bom entendimento com o primeiro-ministro; enquanto este enredo em torno da lei do trabalho não encontra uma saída airosa para as diversas partes envolvidas, o Presidente decidiu promulgar o decreto que altera a Lei da Nacionalidade que fora aprovado no Parlamento por PSD, CDS-PP, Chega e IL.
Para não se ficar pelo ato – profundamente contrário a uma desejável lógica integradora dos cidadãos imigrantes que crescentemente nos procuram e por cá pretendem fazer vida (p.e., os cidadãos estrangeiros passam a precisar de dez anos de residência legal em Portugal para obter a nacionalidade ou enquanto até agora uma criança nascida em Portugal podia ser considerada portuguesa de origem se um dos pais residisse no país há pelo menos um ano, mesmo sem título de residência formal, a partir de agora passa a ser necessário que um dos progenitores resida legalmente em Portugal há pelo menos cinco anos), gente que é ademais a exclusiva base possível em que assentará alguma potencial dinâmica demográfica do País e a resolução de muitas dimensões de empregabilidade determinante na atual fase da nossa sociedade –, Seguro lá deixou registadas algumas reservas e precauções apaziguadoras da sua má consciência (como a ideia de que “uma lei de valor reforçado com a importância da Lei da Nacionalidade deveria também assentar num maior consenso em torno das suas linhas essenciais” distanciando-se de eventuais "marcas ideológicas do momento") e cujo conteúdo restritivo bem o poderia ter conduzido a optar por um outro caminho.
Habituemo-nos, pois. É o que temos e será o que teremos por mais uns largos anos. Com o “Chega” a controlar a agenda política e a manietar o nosso tão garboso Montenegro e respetivos apaniguados, o discurso da pequenez e do moralismo ocupará o centro do nosso espaço público tendendo a imperar em nome de uma aparência de estabilidade cujo caráter enganoso só emergirá, eventualmente, perante novos – e indesejáveis mas prováveis – choques exógenos de diversa ordem e alargado espetro.


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