segunda-feira, 4 de maio de 2026

CÂNDIDO MOTA

 

Nunca conheci pessoalmente Cândido Mota, o recém-falecido locutor de rádio que comecei a admirar desde os tempos em que apresentava, no “Rádio Clube Português”, o lendário programa “Em Órbita” que tanto contribuiu para a minha formação musical em matéria de música popular de expressão inglesa, ali por volta do meu 4º/5º ano do liceu (1967/68) e beneficiando também do alto patrocínio dos professores de Inglês do então Liceu D. Manuel II (sobretudo Manuel Rocha Brito Guimarães, que tinha a alcunha de “Cochise” e era o principal animador de umas aulas de celebração muito inspiradas no que se ia ouvindo no “Em Órbita”, e Maria Esmeralda Lopes de Almeida) e de alguns colegas já mais entrosados no assunto (sobretudo, na minha turma, o José Manuel de Almeida César de Sá e o José Jaime Carvalho Ferreira).

 

Ao que hoje se sabe, o dito programa tinha produção de Jorge Gil e Pedro Albergaria e começara a emitir regularmente em abril de 1965 com Pedro Castelo na voz. Depois, Cândido Mota tornar-se-ia a voz que durante mais tempo identificou o programa, um período que coincidiu com a minha religiosa atenção ao que por lá ia passando a partir das 19 horas, entre o melhor da música anglo-saxónica em formato LP e com foco em autores-intérpretes (Beatles e Rolling Stones, Beach Boys e Bee Gees, The Kinks e Manfred Mann, The Who e Otis Redding, Bob Dylan e Donovan, Doors e The Byrds, Jimi Hendrix e The Animals, Traffic e The Mamas & The Papas, Led Zeppelin, Moody Blues e Deep Purple, Jefferson Airplane e Procol Harum, Creedence Clearwater Revival e Cat Stevens, Simon & Garfunkel e Janis Joplin, Joan Baez e Peter, Paul and Mary, Fairport Convention e Cream, Jethro Tull e Pink Floyd, Crosby, Stills, Nash and Young e Neil Young), textos eloquentes e escolhas contagiantes (especialmente na edição de final do ano em que se apontavam os melhores e o pior do ano). Em 1967, o programa foi premiado nacional e internacionalmente (Prémio Casa da Imprensa para o melhor programa de rádio e Prémio Internacional Ondas, respetivamente) e foi atravessado por uma polémica associada à sua passagem de uma música em português (“A Lenda de El-Rei D. Sebastião”, da banda “Quarteto 1111” liderada por José Cid).

 

No meu imaginário, Cândido Mota representou muitíssimo e ficou para sempre. Fui-o ouvindo e vendo a espaços, sobretudo em “O Passageiro da Noite” e em programas de Herman José, mas o que me ficou foi aquela referência essencial. Soube agora que era filho de uma fadista conhecida (Maria Albertina), natural de Espinho e militante do PCP (com sucessivas presenças sonoras na “Festa do Avante”). Aqui fica a minha homenagem a um cidadão e a um profissional que andou por aí sem grandes alardes mas com a sabedoria de vida que tantos amigos nele destacam – do meu lado mais egoísta, fico-lhe a dever os enriquecedores contributos com que a sua voz foi alimentando e preenchendo os meus fins de tarde, os meus sobressaltos cívicos e os meus amores. 

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