(A persistência da banalidade do mal na sociedade contemporânea segundo Clarice Lispector)
(Ainda na sequência do lio eleitoral em que o PP espanhol está mergulhado com a perda da maioria absoluta na Andaluzia, lio esse que se estende à política espanhola e à governabilidade do país, formulo complementarmente algumas reflexões sobre o significado político do descalabro generalizado que atinge o centro-esquerda praticamente por toda a Europa. O facto da extrema-direita que aguarda expectante a possibilidade de influenciar a governação em muitos países, realidade em meu entender já em curso, tem sido apontada por muitos analistas como exemplo de assinalável resistência democrática e também como oportunidade de preparação de alternativas de governação por parte do centro-esquerda. Se é verdade que na grande maioria dos países o acesso à governação por parte da direita radical tem sido, o que não significa, repito, inexistência de influência na governação, já a emergência de alternativas geradas pelo centro-esquerda tem sido um deserto completo. O que traduz razões profundas ainda não debeladas para o afastamento do poder, seja a grave perda de confiança que sofreu por parte do eleitorado mais desfavorecido, seja a ausência de rumos de esperança para os mais novos. Mas, em meu entender, a presença continuada e expectante da direita radical à porta da governação gera outros efeitos, bem menos positivos do que os sinais de resistência democrática ou do que a abertura de oportunidades de regeneração do centro-esquerda. Era sobre esses outros aspetos que gostaria de organizar o post de hoje, enquanto o Alfa Pendular cada vez mais irregular e incapaz de cumprir horários me vai levando a Lisboa para o lançamento de mais um trabalho de avaliação. Tem sido, de facto, esquecido, que onde alguns pressentem o estancamento da extrema-direita, existe um risco sério de habituação do eleitorado a essa presença expectante, o que a meu ver pode conduzir a uma espécie de normalização política da extrema-direita, ou se preferirem à banalização das suas propostas de desmantelamento das instituições democráticas. Este sim é um perigo real, tanto mais relevante quanto mais insistentes e graves forem os problemas de governabilidade gerados pela incapacidade de alternativa do centro-esquerda e pela ausência de maiorias estáveis lideradas pela direita moderada.)
Esta reflexão foi-me sugerida pela pena do jornalista galego Fernando Salgado que, a propósito das eleições andaluzas, escreve na VOZ DE GALICIA que Abascal, o líder truculento do VOX, deixou de assustar o eleitorado espanhol (com a exceção da Galiza em que o PP continua a dominar), não podendo considerar-se que a sua influência política esteja estagnada (ganhou mais um deputado regional face `eleição anterior). O não provocar medo ao eleitor mediano não é senão uma outra maneira de dizer que a presença do VOX está banalizada. Em que é se traduz essa banalização? Traduz-se na evidência de que, apesar da insistência na dissolução democrática, revanchista ou não, isso depende de cada situação concreta, passa a ser considerada um elemento do xadrez político-partidário. O que é a mesma coisa que admitir que as famigeradas linhas vermelhas tendem a dissipar-se e a ser inconsequentes.
É óbvio que este modelo global de interpretação não pode deixar de ser aprofundado à luz de cada situação concreta que as posições expectantes e à porta do poder da extrema-direita europeia apresenta. A título de exemplo, as estratégias do Chega (Portugal), VOX (Espanha), Rassemblement National de Bardella-Le Pen (França) ou AfD Alemanha) podem partilhar elementos comuns e uma carta internacional do desaforo democrático, mas não deixam de projetar elementos específicos no seu trajeto, pelo que poderemos estar perante níveis diferenciados de intensidade e de formas de banalização da sua presença. Mas existe um elemento determinante que é também comum – os problemas de governabilidade que os países apresentem.
Daqui retiro uma importante consequência para o centro-esquerda. Enquanto discute e prepara alternativas de governação, diga-se que não estou otimista quanto aos sinais de que isso esteja a acontecer, o centro-esquerda debate-se com uma interrogação fundamental: deve facilitar a vida, com acordos pontuais, à direita moderada que não quer governar com a direita radical ou, pelo contrário, ao negar esses acordos e essa condescendência, deve precipitar a concretização desse abraço entre as duas direitas, a moderada e a radical?
Tempos difíceis e decisão ainda mais complexa.
De qualquer modo, existe um trabalho de sapa que é compatível com qualquer uma das duas alternativas – combater a banalização do mal que a habituação à extrema-direita tende a provocar.
E a história mostra-nos com clareza quão importante é combater a banalização do mal.

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