(É cada vez mais difícil compreender as nuances que se ocultam por detrás dos acontecimentos em torno do conflito no Irão e do seu alastramento praticamente a todo o Golfo, com a ameaça dos bloqueios do Estreito de Ormuz a pairar sobre a economia mundial. Do que sabemos sobre esta última dimensão do problema, é hoje claro que a redução da produção de petróleo com origem nos países do Golfo, Irão incluído, é brutal e que a exportação de petróleo por parte dos EUA é assinalável. Os americanos estão a recorrer à exportação das suas próprias reservas para obviamente ganhar dinheiro com isso, mas também para tentar suster o desequilíbrio do mercado e a pressão latente sobre os preços de comercialização. O gráfico abaixo mostra, surpreendentemente, que a economia americana é a mais atingida em matéria de preços internos de combustíveis. Mas o que ressalta da grande generalidade dos analistas internacionais é a convicção que exprimem que Trump está perdido no seio das negociações que ele próprio, paradoxalmente, não se cansa de perturbar com sucessivas mudanças de posição e o destempero de comunicação que lhe é muito próprio. O presidente americano, com o seu comportamento estruturalmente errático e não confiável, consegue a proeza de colocar parte do mundo a apreciar a sobriedade e rigor de negociação de que as autoridades iranianas dão provas, sejam elas quem forem que estão à frente dos destinos do país, sem embargo do reconhecimento do carácter abominável do regime teocrático. A grande generalidade dos países do Golfo está a aprender a partir das evidências do dia a dia que é arriscado fazer depender a saída para o problema da capacidade negocial de Trump. Omã que o diga, objeto da mais destemperada ameaça proferida por Trump nos últimos dias, ameaça que ninguém percebeu, alvitram alguns que Trump ter-se-á confundido com a geografia da zona ou com a semelhança dos personagens seus interlocutores.)
A trégua anunciada de 60 dias que foi agora associada ao processo negocial faz parte da tentativa desesperada de Trump querer sair de mansinho de todo este imbróglio que ele próprio criou. A persistência estratégica das autoridades iranianas tem evoluído essencialmente entre dois níveis, o do controlo do estreito de Ormuz e a reivindicação da libertação dos fundos iranianos congelados por todo o mundo para abrir caminho à recuperação económica do país que deve encontrar-se à beira da exaustão completa. As exigências americanas quanto ao nuclear iraniano parecem, umas vezes, estar no centro da estratégia negocial, para logo depois serem proteladas e não integrar os passos iniciais a desenvolver.
Por isso, a trégua anunciada parece mais uma farsa do que outra coisa qualquer.




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