(Vou pressupor que a Operação Imergente assenta em indícios fundamentados para a Polícia Judiciária mobilizar cerca de 400 elementos para a colocar no terreno, com foco na Junta de Freguesia de Santa Maria Maior em Lisboa e envolvendo alguns elementos do Partido Socialista. Como não os conheço, não sei bem avaliar se personalidades como Miguel Coelho, ex-presidente da Junta de Freguesia agora visada, ou Duarte Moral, que raio de nome a propósito, que trabalhava na equipa de José Luís Carneiro, são ou não influentes no partido. O nome de Coelho é o mais badalado, o de Moral nem tanto, sugerindo que é daqueles que gosta de as fazer pela calada. A operação é centrada em Lisboa, envolveu visitas não de cortesia à sede do PS no Rato e estendeu-se a outros municípios como Oeiras, Mafra e Coimbra. Tudo indicia, pois, que não se trata de um delírio daqueles que o Ministério Público e a Polícia Judiciária têm protagonizado e é nessa base que esta reação a quente, na espuma da notícia, é redigida. Tudo parece conjugar-se, ironicamente, como se as franjas do PS envolvidas neste processo se sentissem incomodadas pelo excesso de protagonismo dos seus confrades espanhóis do PSOE, que se têm encarregado de manchar referentes importantes na história do partido de Pedro Sánchez, com sucessivas e variadas argoladas centradas em corrupção ou, pelo menos, no caso de Zapatero, de operações de lobby que já vão além disso para entrar na zona mais escura do tráfico de influências.)
Com estes pressupostos e José Luís Carneiro já veio a terreiro, pressionado, afirmar que não é o PS que está na mira da referida operação, o que equivalerá a interpretar que são personalidades que se movimentam no seu interior que estão agora a ser visadas por práticas menos claras.
A minha conclusão é breve, mas grossa, bruta quanto baste, mas acho que segura em termos de orientação política. O país precisa como pão para a boca de uma alternativa consistente de governação de centro-esquerda, para Montenegro abandonar de vez o fogo de vista das apresentações e a sua permanente representação de que somos os maiores. A minha conclusão é simples: enquanto o PS, elemento estruturante do centro-esquerda, mais ou menos alargado, isso agora não importa, continuar a permitir e a pactuar com a frequência nos seus corredores e na sua rede de interesses (eles existem em política, não é esse o problema) de gente pouco transparente nos seus processos e que são verdadeiros predadores carnívoros do interesse e do bem público, então esqueça a ilusão da alternativa.
Sem esse critério de rigor quanto aos convites para ingressar nos seus ambientes mais próximos, o PS estará apenas a aumentar desabridamente a perda de confiança na ação política e a reduzir inapelavelmente os que tenderão a acreditar que o centro-esquerda pode ser uma alternativa.
Em meu entender, mobilizando para esta reflexão o pensamento de um patrono deste blogue, Albert O. Hirschman, o que teremos pela frente é um ciclo longo de deceção coletiva, que é sempre acompanhada da queda brutal do interesse público em detrimento do interesse privado. Sabemos como na história passada, o centro-esquerda esteve sempre mais próximo do interesse público e da ação coletiva. Como está agora, a cavar a sua própria dissolução, constitui mais um contributo importante para o ciclo de deceção que as sociedades mais avançadas irão atravessar. É o que sempre acontece quando os interesses mais insondáveis da ganância capturam a invocação do interesse público.
Se a Operação Imergente não for um delírio, então é isso que teremos no centro-esquerda, por mais bem-intencionado que José Luís Carneiro se apresente.



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