(Não me recordo de algum outro Governador do Banco de Portugal que, imediatamente após entrar em funções, se tenha destacado tanto na projeção de factos mediáticos que não têm nada que ver com o discurso de um regulador. Por isso, Álvaro Santos Pereira está a sair melhor do que a encomenda, esperando eu, benevolamente, que o homem acalme e se concentre na função. Primeiro foi a decisão canhestra de ter negociado em ações já depois de tomar posse. Depois, foi a vinda a público de ter beneficiado de taxas de juro muito favoráveis, comum a todos os funcionários do BP, para compra de carro, pelos meus cálculos num benefício de 1 para 6 face a um cidadão comum que procura uma solução de crédito para compra de veículo elétrico, por exemplo. Depois foi a polémica que abriu com os responsáveis associativos da restauração, contrariando com informação macroeconómica a ideia de que o setor esteja em crise manifesta. Quanto à primeira das argoladas, ela foi revertida, quem não erra minha gente. Quanto à segunda, trata-se de uma benesse da instituição, podemos discuti-la, mas existe, e o Governador já mostrou que em matéria de cálculo económico nada lhe escapa. É a terceira matéria que suscita algum interesse de discussão, mesmo dando de barato que para quem assume uma função se imporia alguma discrição. É esse interesse que justifica o post de hoje, pois corresponde a um tema que tem sido mais relevante do que parece no debate político. A questão está na evidência de que as perceções macroeconómicas, construídas com indicadores macroglobais, nem sempre estão em linha com a perceção dos cidadãos, construída em função de outros referenciais, de natureza microeconómica e abrangendo evidências de experiência pessoal. Já o referi neste blogue várias vezes, a propósito por exemplo da taxa de inflação e das diferentes perceções que uma mesma taxa de inflação pode suscitar junto de diferentes grupos de população. Essa divergência de referências é fonte de desacertos entre o discurso político e a sua tradução na vida dos cidadãos e nem sempre a classe política está ciente. Os números índice globais são sempre abstrações. Tudo indica que a controvérsia entre o Governador e os representantes associativos do setor releva do mesmo vício e por isso não se entende a falta de tato do Governador. O suplemento P2 do jornal Público deste domingo oferece um excelente contributo para introduzir algum realismo nesta controvérsia, com o título ilustrativo de “Restaurantes – desesperadamente à procura de clientes”.)
Começando por tentar introduzir alguma racionalidade económica nesta questão, teremos de partir do princípio de que a restauração, como exemplo de atividade não transacionável, trata-se de um serviço, tem necessariamente o seu nível médio de preços associado ao nível de desenvolvimento económico do país. Sabemos que o nível de preços relativos dos serviços tende a subir com o desenvolvimento económico, já que os preços das atividades transacionáveis são fixados em mercado internacional e não suscitam a referida relação com o desenvolvimento económico. Simplificando, são essencialmente as remunerações salariais que estão subjacentes a essa lei e a restauração deveria em princípio alinhar com a mesma. Salvo exceções geradas por taxas de lucro exorbitantemente elevadas, condições de arrendamento especulativas ou períodos excecionais de aumentos de preços de bens intermédios na restauração, a restauração deveria refletir o nível de desenvolvimento económico do país.
Embora a restauração frequentada por turistas se apresente aos olhos e às bolsas destes últimos como algo de relativamente mais favorável do que a dos respetivos países (para turistas por exemplo alemães ou franceses, por exemplo), já há muito se percebia que o nível de preços da restauração está acima do nível de desenvolvimento económico do país, que não corresponde de todo a uma influência das remunerações salariais. O setor queixa-se de falta de mão-de-obra o que poderia explicar algum agravamento salarial, mas é inequívoco que a imigração, brasileira e não só, tem resolvido essa questão, e sabe-se que isso é conseguido com remunerações baixas. Por conseguinte, o setor deve praticar taxas de lucro apetecíveis, embora possamos admitir alguma influência altista de arrendamentos e nos tempos mais recentes a inflação dos bens alimentares não pode ser esquecida.
A reportagem do Público é especialmente feliz em destacar a extrema diversidade de situações que o setor apresenta, não suscetível de ser captada pela informação macroeconómica que o Governador utilizou para procurar mostrar que a restauração não está em crise. Além disso, sublinha com grande pertinência a débil capacidade de gestão que tende a predominar nesta busca do “el dorado” da restauração. Alguns profissionais entrevistados pelo Público sublinharam que o setor vive em Portugal de fluxos de caixa. À mínima perturbação destes fluxos o desequilíbrio projeta-se imediatamente na cadeia de fornecedores.
Não posso deixar de encontrar aqui alguma analogia com o que se passou ainda não há muito tempo no setor do vinho de mesa. Se o turismo trouxe o estímulo da procura para a restauração, seduzindo a entrada de muita gente no mercado, também o vinho viveu um período de sedução para a entrada em cena de muitos produtores, que nele entraram sem qualquer preparação de gestão ou de conhecimento aprofundado do mercado em que competitivamente se inseriram. Estas situações geram habitualmente a consequência de que os últimos a entrar são frequentemente os que tendem a sofrer as perdas mais significativas. Entraram mais tarde e provavelmente com a procura já a desacelerar e a probabilidade de terem entrado impreparados é mais elevada.
A questão aqui suscitada não deixa de ser velha. Os indicadores macroeconómicos globais ao não terem em conta as assimetrias observadas nos setores em apreciação correm o risco de gerar perceções distorcidas, bastando que as perceções individuais sejam sensíveis a essas mesmas assimetrias. Parece ser o caso da restauração.
Basta estar atento e frequentar transportes públicos para perceber a elevada densidade de pessoas que transportam para o trabalho em mochilas e reservatórios adequados o seu almoço. Quer isto significar que para muita gente a procura da restauração da hora de almoço não é solvente. Isto representa um desequilíbrio manifesto entre o preço dessas refeições mais ligeiras e a capacidade de rendimento real de muita gente, apesar dos indicadores de Álvaro Santos Pereira insinuarem o contrário.
Por isso e por prudência, os quadros de bordo de indicadores macroeconómicos são cada vez mais acompanhados por indicadores que permitam entrar em linha de conta com os efeitos da distribuição do rendimento e da desigualdade.
O que quer dizer que a velha máxima “é a economia, estúpido” tem ela própria de ser adaptada às circunstâncias.

Sem comentários:
Enviar um comentário