quarta-feira, 27 de maio de 2026

DUAS CARICATURAS AO DESAFIO

Deparei-me ontem nas notícias televisivas – sempre mais realistas por artes vindas da imagem, i.e., da postura e do gesto – com uma cena patética entre Passos e Ventura. Uma conversa de circunstância enquanto aguardavam pelo arranque da apresentação de um livro, com o chegano a deixar bem evidente a sua subserviente conformação em relação ao que quer que possa vir do ex-primeiro-ministro e com este a deixar bem evidente a sua plena consciência de uma consentida superioridade do que quer que possa afirmar perante o outro. Profundamente caricatos, neste quadro, o riso soberano e confiante (apesar de forçado) de Passos e o sorriso subordinado e quase envergonhado (apesar de fingido) de Ventura. Dois atores a representarem os seus papéis para português ver, ambos aparentemente incapazes de ganharem o lastro que deseja(va)m nas escolhas dos eleitores.

 

Em todo o caso – há que o dizer com frontalidade! – as diferenças entre os dois ganham expressão publicamente visível, designadamente na medida em que Ventura se tem deixado cair em declarações contraditórias e nada abonatórias de quem possa ter qualquer pretensão de chegar ao poder executivo (vejam-se, ilustrativamente, as suas propostas de redução da idade da reforma ou de aumento dos dias de férias no atual contexto de consolidação das contas públicas e de baixa produtividade da economia), obrigando Passos a não poder evitar demarcar-se das mesmas.

 

Mas o dito Passos também não prescinde de dar prova de vida de quando em quando (na esperança de que?), através de declarações majestáticas e assumidamente cheias da maior e mais encriptada moralidade. Como ontem ocorreu: “Quando, com medo do populismo, o político do mainstream lhe veste a casaca para evitar que o populismo chegue, pelo voto, ao palácio, resolve ser mais populista do que o populista, achando ele, não sendo verdadeiramente um populista, [que] é melhor apenas parecê-lo para evitar que o verdadeiro lá chegue”. Ou: “o que é autêntico e genuíno sempre se manifesta de uma forma muito mais eficaz do que o que é postiço” e, numa situação destas, “o postiço fica sem nada, fica sem integridade, fica como um prostituto sem carácter, sem reduto de pensamento”.

 

O problema é que Passos é melhor a enunciar retrogradamente o seu problema do que a sugerir a forma adequada para o afrontar. Tome-se a questão da imigração. Por um lado, a identificação do embaraçante impasse: “não conseguimos viver sem os imigrantes, mas também não conseguimos viver com a quantidade de imigrantes que não se aculturam, que não se integram, que não estão disponíveis, digamos assim, para se identificar com aquilo que nós podemos chamar a idealização do nosso destino comum, que é feita na base de uma história que nós trazemos connosco”. Por outro lado, a descrição demagógica da balbúrdia estancada: “ao ritmo a que as coisas estavam a processar, qualquer dia, estaríamos, com certeza, a falar não do povo português, nem da cultura portuguesa, nem de coisa nenhuma, estaríamos a falar de outra coisa qualquer”. E caminhos de solução construtivos e coletivamente proveitosos? Nada, afinal o homem até está fora da política...

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