(Há economistas que ostentam essa capacidade espantosa de conceber gráficos que se tornam não propriamente virais, mas que se transformam em capital recorrente de reconhecimento, isto é, artefactos sistematicamente invocados para marcar alguma evidência estrutural que importa sublinhar. O economista sérvio hoje radicado nos EUA, Branko Milanovic, é um desses personagens com essa capacidade e muita gente, incluindo este blogue, recorreu ao seu célebre gráfico da curva elefante para descrever a distribuição do rendimento à escala mundial, que ordena os indivíduos segundo o seu rendimento à paridade de poder de compra, independentemente do país a que pertencem, seja ele mais ou menos desigual. Milanovic é um grande estudioso da economia mundial e da globalização, sendo hoje um dos raros economistas que resistiu à erosão dos estudos sobre as economias de leste europeu e asiáticas, com relevo para o seu conhecimento do modelo soviético e chinês. A história da ciência económica prega-nos por vezes este tipo de partidas. Um determinado assunto de investigação económica entra em desuso, é praticamente esquecido e marginalizado e, passado uns tempos, conclui-se que esse conhecimento nos faz falta para compreender o mundo atual. O que manifestamente é o tempo que vivemos, sobretudo a partir do momento em que as mentes ocidentais já perderam a esperança de que a transição nesses países conduza a uma trajetória linear de afirmação da economia de mercado, linear não será seguramente.)
O gráfico que trago para a reflexão de hoje tem a marca Milanovic e apresenta a curiosidade de descrever graficamente a evolução do peso na economia mundial de pares de países cuja história está ligada entre si, não necessariamente por boas razões, mas antes em cenários de conflitualidade histórica, fundamentalmente associada aos processos de independência desses países. Os pares selecionados por Milanovic são sugestivos: China-EUA; Índia-Reino Unido; Indonésia-Países Baixos e Vietname-França.
No âmbito dos desenvolvimentos do seu último livro – THE GREAT GLOBAL TRANSFORMATION – National Market Liberalism in a Multipolar World, esta evidência é sistematizada no sentido de ilustrar o que Milanovic designa de a ascensão da Ásia. Esta ascensão tem um contexto curioso, como alguns analistas o assinalam. O neoliberalismo de Reagan e Thatcher visava essencialmente reorganizar o mundo, com o objetivo central de enriquecer as economias ocidentais. A verdade é que, paradoxalmente ou talvez não, esse movimento deu origem ao crescimento inesperado de uma nova elite mundial e penalizando as chamadas classes médias ocidentais. A esperança surgida de que tal crescimento fortaleceria as classes médias asiáticas e geraria por essa via uma alavanca de democratização nesses países revelou-se pífia, senão pelo menos ingénua. Essas classes médias fortaleceram-se , conduzindo a uma recomposição da classe média mundial, mas a alavancagem da democracia foi estancada com o crescimento das tais elites.
Por isso, a divergência evolutiva dos pares de gráficos elaborados por Milanovic tem um significado histórico importante. Até agora a ascensão do big tech ocidental permitiu pelo menos aos EUA salvar a face. Mas nos últimos mesmo esse argumento foi impactado pela evolução. Ninguém hoje pode ignorar o big tech asiático, sobretudo chinês.
Uma boa introdução à nova obra do economista sérvio pode ser encontrada numa excelente entrevista que Milanovic concedeu à Professora Alice Lu do Carter Center.
É uma boa peça para compreender a economia mundial de hoje.



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