(Financial Times)
(A relação entre o progresso tecnológico e o comportamento dos preços relativos dos bens e serviços que adensam as preocupações dos cidadãos quanto à inflação é uma matéria que diz mais respeito à composição estrutural dos aspetos de longo prazo da evolução dos preços do que às suas oscilações conjunturais. Se nos projetarmos na economia americana, questão fundamental para as eleições intercalares que estão ai á porta, observamos por exemplo que nos meses mais recentes de março e abril, a taxa anualizada da inflação central (sem alimentação e energia) rondava já os 4,8%, com o índice global de preços ao consumo a rondar já os 7,2%. Obviamente que esta aceleração inflacionária da economia americana tem origem interna na inconsistência da política económica da administração Trump e a nível externo nas perturbações agudizadas pela guerra com o Irão e bloqueio do estreito de Ormuz. É, por isso, uma dimensão conjuntural clara que parece não validar a heterodoxia manhosa de Trump em termos económicos. Mas isto não significa que não seja relevante estar atento ao comportamento de mais longo prazo dos preços relativos, o qual, diz-nos a teoria económica, resulta da relação complexa progresso tecnológico-produtividade-condições de mercado. É neste sentido interessante analisar o gráfico elaborado pelo Financial Times, reportado também à economia americana, que nos documenta desde 1970 a evolução dos preços de algumas categorias de produtos, que não é mais do que uma outra forma de documentar a chamada evolução dos preços relativos. O jornalista do FT chama a atenção sobretudo para a comparação entre a evolução do preço do vestuário e dos cuidados de saúde, que não pode ser mais contrastante do que o observado, tal como resulta de uma leitura rápida do gráfico. É sobre esta matéria que gostaria de compor a crónica de hoje.)
A primeira e talvez decisiva explicação para o diferente padrão evolutivo que o gráfico revela consiste em invocar a velha e tradicional divisão entre bens transacionáveis no mercado internacional (o vestuário) e bens não transacionáveis (serviços), neste caso representados pelos cuidados de saúde. A teoria ensina-nos que, relativamente aos transacionáveis, a evolução do progresso tecnológico e da produtividade que lhe anda associada tende a rebaixar esse preço relativo. Como é óbvio, para o vestuário ao qual possamos associar algum poder de mercado dos seus produtores (caso das grandes marcas) esse rebaixamento pode não acontecer pois o poder de mercado dos produtores pode determinar taxas de mark-up (margens) elevadas que contrariem a tendência para descida do preço relativo respetivo. No caso da saúde, fundamentalmente um serviço impera a lei de que o preço relativo dos serviços aumenta com o nível de desenvolvimento económico.
No entanto, se olharmos com atenção para o gráfico, observamos que a habitação, também ela um não transacionável, não aumenta desde 1970 o seu preço de forma tão significativa como o registado nos cuidados de saúde. Podemos aqui invocar questões de baixa eficiência nos serviços para explicar o gap desfavorável à saúde e os próprios desafios decorrentes da complexificação das patologias implicada pelo envelhecimento da população. Arriscaria, no entanto, uma explicação complementar. De uma forma indireta, os custos dos cuidados de saúde são também influenciados pelos custos dos equipamentos de saúde cada vez mais sofisticados e pelo preço dos medicamentos que vão sendo lançados em mercados, na sequência de investigação científica, para responder à complexidade crescente das patologias e morbilidades. Ora, no que respeita, à inovação em equipamentos médicos, a evidência empírica mostra que o progresso tecnológico não se traduz pelo menos nos períodos iniciais de lançamento dos equipamentos em descida do preço relativo, antes pelo contrário, em subida do mesmo. A explicação para isso pode ser encontrada nos gigantescos custos de investimento em I&D que suporta o lançamento dos novos equipamentos e dos medicamentos mais revolucionários. A reintegração desses custos opera em períodos muito longos, pelo que a evolução dos preços relativos dos cuidados de saúde não pode ficar à margem do elevado montante de custos fixos suscitados por uma inovação, sendo por isso agravados.
Isto não significa que o progresso técnico em saúde não traga, em casos mais específicos, uma influência magnânima em matéria de preços. Por exemplo, a produção em massa de vacinas e a elevadíssima comparticipação pública no financiamento da sua produção permitiu a sua difusão em massa.
Mas, mais frequentemente, o progresso tecnológico em saúde traz consigo a subida dos preços relativos dessas categorias de bens. O que pode ser considerado uma “tragédia” para os orçamentos públicos e para o preço efetivo com que os cuidados de saúde podem ser acedidos por quem deles mais necessita.

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