(Por mais tolerância desportiva que possa praticar, e creio de facto estar entre os tolerantes não fanáticos, a verdade é que as atmosferas metropolitanas do Porto neste fim-de-semana não se recomendavam a alguém que, apesar dessa tolerância, não consegue partilhar as festividades de comemoração do título, justo, disso não tenho dúvidas. Diga-se, de passagem, que se residisse em Lisboa, também não seria dos que rumaria ao Marquês para comemorar um título que, fruto de incompetência declarada, foge há já algum tempo à família encarnada. As massas têm em momentos de comemoração alguma coisa que me inibem e me afasta da partilha de emoções. Por isso, por razões de conveniência e também de prazer no destino, a solução óbvia era zarpar para Seixas. Mas mesmo nesse retiro estratégico, foi difícil assistir à derrota na praia do Hearts de Edimburgo que disputava no Celtic Park de Glasgow a possibilidade de um título quase inédito. A força daquela multidão dos Católicos de Glasgow abateu a resistência dos bravos de Edimburgo (um quase desconhecido português, Cláudio Braga de seu nome, foi nomeado o futebolista do ano na Escócia) que precisava apenas de um empate e que sucumbiu face à impetuosidade do futebol do Celtic. Morrer na praia é uma constante do desporto e é possibilidade que no fundo arrasta multidões como a que encheu o Celtic Park. Mas chega de amarguras futebolísticas e regressemos ao retiro de Seixas, em torno de uma reflexão despretensiosa de algum tempo passado na praça de Caminha, com um entertainer local a adoçar os efeitos do vento irritante que se sobrepunha por vezes às carícias do sol envergonhado que banhava a praça. O Central já era, nota-se a ausência daquela esplanada, os restantes cafés com esplanada agradeceram e diria que a ambiência não é a mesma. Mas não sou de modo algum um nostálgico do passado urbano. Os espaços urbanos reinventam-se, a vida continua e estou certo que, daqui a algum tempo, poucos já se recordarão da ambiência gerada pelo Central, pelo menos depois que a curiosidade quanto à renovação do edifício que gerou o encerramento termine. Não é de enjeitar a hipótese de aparecer por ali uma renovação tipo mamarracho e isso poder acentuar a nostalgia dos que pensam que o espaço urbano é imutável. Mas não é.)
Na falta do New York Times, edição internacional (a distribuição está cada vez mais errática e nem a qualidade de oferta da Gomes pode compensar essa aleatoriedade), a crónica chama-se Revistas na Praça, porque há que inventar leituras, os jornais nacionais já estavam lidos, e, por isso, a BBC Music (edição de maio de 2026) e o Nouvel Observateur (edição de 7 de maio de 2026) preencheram o espaço vazio.
As impressões para reflexão despretensiosa são inúmeras e diversificadas.
A BBC Music que, juntamente com a francesa DIAPASON, são talvez as duas revistas mais relevantes da música clássica, pelo menos as mais apelativas, é um alfobre permanente de ideias, além de que, para uma alma sem formação musical quando ela deveria ter sido ministrada, representa uma rara oportunidade de aumentar a probabilidade de êxito de compras seletivas, que têm de ser cada vez mais seletivas dado o andamento dos preços.
Nesta edição de maio, além de ser possível aceder aos ganhadores dos prémios BBC para a música clássica, o que é um passaporte eficaz para compras que não inspirem reservas, trouxe-me essencialmente três reflexões. Primeiro, é impressionante a dinâmica cultural de algumas cidades europeias em torno da música clássica, sobretudo em torno da realidade magnífica dos festivais de verão. Fiquei a pensar que esta realidade dos eventos musicais com expressão atrativa deveria ser do conhecimento dos autarcas e programadores culturais, mesmo dos menos propensos ao cosmopolitismo. Saber o que se faz por esse mundo fora em matéria de vivência lúdica da música é um bom caminho para evitar a pacóvia ideia de que tudo por cá é diferente. Segundo, à medida que se vão conhecendo as novidades, é impossível ficar indiferente à dinâmica incessante de aparecimento de novos intérpretes asiáticos de extrema qualidade e excelência. Fruto da demografia (muitos a aprender música tenderão mais tarde ou mais cedo a notabilizar-se) e da excelência da concentração que os jovens asiáticos manifestam em tudo que é atividade de aprendizagem), temos aqui um exemplo manifesto do gap que existe entre o ocidente e o oriente – eles interpretam melhor o nosso património cultural, neste caso musical, do que nós dominamos a cultura asiática. Terceiro, tive a confirmação de que as Forgotten Melodies (Sony Classical) do novo prodígio russo Alexander Malofeev tinha sido uma boa compra da minha parte. O disco foi considerado pela BBC Music como sendo a gravação do mês. Quando ouvi o disco pela primeira vez, não pude deixar de me interrogar sobre a “nostalgia russa” que irradia das obras de quatro compositores russos que emigraram e morreram longe da pátria (Glinka, Glazunov, Rachmaninov e Medtner), residindo o próprio jovem Malofeev em Berlim.
Quanto ao Nouvel Observateur de 7 de maio, vale a pena ler com atenção uma vasta investigação sobre 50 jovens que em diferentes domínios podem ser considerados como os possíveis fazedores do futuro da França. Interroguei-me se não seria vital multiplicarmos este exercício em Portugal, indo à procura de 50 personalidades jovens a que poderemos associar o futuro do país. A impressão foi tão intensa que fiquei com vontade de iniciar neste blogue uma nova frente, orientada para o destaque dos que mais novos poderão fazer a diferença. Mas foi uma ideia fugaz e não estou lá para muitos compromissos. A verdade é que me ocorreu a possibilidade de já estar desligado da dinâmica do movimento e mudança que pode fazer a diferença, sendo por isso fortemente influenciado pelo filtro dos media. Imaginei-me a iniciar essa descoberta e, influência da BBC Music, apliquei o critério à música. Nos três nomes que me ocorreram espontaneamente, Martim Sousa Tavares, maestro e divulgador, João Barradas, acordeonista e compositor e Joana Gama pianista, só provavelmente os dois primeiros correspondam em termos de idade ao conceito, já que a Joana Gama de cuja obra gosto muito já vai nos 43 anos.
Cheguei à conclusão de que se exercitarmos esta metodologia, ficaremos a perceber se estamos conectados com a mudança ou se, pelo contrário, já temos dificuldade em identificá-la.
Experimentem e não sejam demasiado cáusticos convosco próprios.


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