Ainda há quem diga que a História não se repete! De facto, a verdade é que a grande talvez não, mas a das pequenas coisas – que não deixam por isso de se tornar grandes para alguns... – repete-se incessantemente. Refiro-me hoje ao caso do acordo comercial celebrado entre a UE – tão alegremente representada por Ursula e Costa – e a Índia, cujas sequências recentes muito fazem lembrar a adesão da China à OMC em início do século ou outras aberturas unilaterais europeias ao tempo dos comissários Britttan e Mandelson.
Então é assim: (i) a UE, a braços com uma situação internacional em que emerge a sua enorme fragilidade e divisão, acorda com Modi a “mãe de todos os acordos comerciais”, sempre sob o costumeiro impulso dos maiores beneficiários potenciais (os países mais industrializados e com maior expressão em indústrias como o automóvel, a aeronáutica ou a farmacêutica) e com o relativo e consentido silenciamento dos restantes parceiros; (ii) os governos destes, como o português, não perdem tempo a aplaudir e a garantir que advirão mundos e fundos “inegáveis” para o lado das suas empresas nacionais; (iii) tardiamente, estas acordam e vêm declarar sob protesto, como aconteceu hoje com os representantes associativos da têxtil, do vestuário e do calçado, que o acordo não defende o seu setor e é mesmo suscetível de abalar a sua estrutura, que o fim dos direitos aduaneiros é feito em condições desfavoráveis de abertura do mercado europeu a produtos indianos, que as contrapartidas dessa abertura são limitadas (ademais perante um mercado “difícil” como o indiano) e que, portanto, “a Europa está a saque”.
Um clássico! Primeiro, porque realmente ninguém por cá falou a tempo das consequências expectáveis do que se anunciava, aqui só se acorda quando a casa começa a arder. Depois, porque os governos só reagem se a isso forem forçados por organizações empresariais fortes e reivindicativas, de contrário apreciam mais ficar obedientemente na fotografia junto dos que mandam. Finalmente, porque os “burocratas” e os políticos de pacotilha que atualmente predominam na União adoram fazer números sonantes e empurrar com a barriga a avaliação dos respetivos efeitos. E assim continuamos a ir andando com a cabeça entre as orelhas...

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