O problema da habitação cresce em generalização à escala mundial, mas atingiu uma escala de insuportabilidade em Portugal. A culpa (palavra maldita e de conteúdo tão frequentemente difuso) é de tantos que não releva enumerá-los por qualquer ordenação que seja: governantes pouco competentes ou simplesmente distraídos, autarcas sem visão do seu próprio entorno, elites transformadas em meros especuladores de mercado, senhorios e inquilinos de variada natureza gananciosa ou autocentrada, população em crescimento via imigração mal controlada e por aí fora num rol de referências que seria praticamente interminável. Ou seja: a dita culpa, ao contrário de outros dossiês, não é essencialmente atribuível ao governo de Luís Montenegro, pese embora o descoco da nova lei das rendas que aprovou em acordo com o Chega e que atirará mais achas para uma fogueira que delas já não necessitava. Mas há dois pontos em que o primeiro-ministro não pode escapar a uma chamada de atenção: a sua negação, em claro deslocamento de retina, perante a essência e a urgência da questão, por um lado, e a sua atitude policial e repressiva em nome de um cumprimento da lei datado e abstratamente definido à luz do presente, por outro – e, afinal, bastaria que o reconhecimento de que existe mesmo um problema fosse real e sincero, dirigindo-se aos jovens com mínimos compatíveis (em termos de pedagogia política e elegância edificante) com o tanto que enche a boca de por ele serem favorecidos como nunca antes ocorrera. E assim vamos, com pancada à solta pela madrugada dentro, na abertura deste mês de novembro que talvez nos possa trazer algumas boas novidades internacionais.
domingo, 1 de novembro de 2026
MONTENEGRO E A HABITAÇÃO
(Ulises Culebro, https://elpais.com)
(Vasco Gargalo, https://www.sabado.pt)
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