sábado, 31 de outubro de 2026

O REACIONARISMO COM AS GARRAS DE FORA

 


(O meu colega de blogue já dedicou a este tema reflexão pertinente, mas a sua relevância no tempo que nos envolve, nesta tarde solarenga em Seixas, a anunciar o frio da noite que se avizinha, justifica que regresse ao tema. O tempo político que nos envolve é favorável a que o reacionarismo vá colocando as garras de fora, construindo uma narrativa que jornais e televisão vão comprando na justa medida, na qual tudo que mexe é classificado com a chancela do radicalismo que é necessário extirpar. Obviamente, que a onda generalizada de crescimento das forças políticas de direita vai criando campo propício à recuperação do espaço perdido com os anos da Revolução. Esse reacionarismo esteve sempre latente, simplesmente encolheu-se, travestiu-se de presença silenciosa em partidos democráticos, foi fazendo de conta que nada do que se passava era consigo, aguentando até à emergência de um campo mais favorável. O Chega foi o fenómeno que acomodou algumas destas pessoas, embora numa mistura de desencanto e ressentimento, que não se confunde exatamente com o reacionarismo de que estamos agora a falar. Para a criação deste campo favorável atrás mencionado muito contribuiu a crise de consciência da esquerda em Portugal. As esquerdas são várias e por isso vale a pena ir um pouco mais fundo para compreender as diferentes razões invocáveis.)

À esquerda do PS, o PCP vive uma crise de sobrevivência e, dentro do estilo cauteloso e nada propenso à mudança que o tem caracterizado, optou claramente por eleger a estabilização de eleitorado (lutando contra a demografia, com renovação apenas parcial de efetivos) e a sua sobrevivência como formação política com assento parlamentar. Daí que não arrisque uma vírgula em tentar compreender novos movimentos políticos mais inorgânicos e mais do que isso apercebe-se que as garras de fora do reacionarismo dão-lhe alguma esperança de ganhos de VOZ e de adesão eleitoral.

A esquerda mais radical vive uma crise de consciência política de outra natureza, com exemplo mais claro no Bloco de Esquerda, no qual a liderança de José Manuel Pureza identifica bem a transição em que está mergulhado. Ao vazio das causas mais fraturantes juntou-se uma espécie de ressaca do wokismo que foi longe de mais nas suas frentes de cancelamento. Não é para mim claro se os movimentos mais recentes em torno da crise da habitação têm rendido ao Bloco algum poder adicional de mobilização e aguardo evidência mais diversificada para o avaliar. Mas, de qualquer modo, a esquerda Bloco vive tempos de interrogação quanto ao seu novo papel na sociedade portuguesa, sendo antecipável que a habitação se transforme no seu ponto focal de tentativa de recuperação de espaço eleitoral.

Quanto ao PS, esperar-se-ia de uma força política que tem Mário Soares na sua memória recente um discurso mais incisivo de denúncia e de combate ao reacionarismo emergente. Mas o PS de José Luís Carneiro tem o seu foco na recuperação do capital eleitoral do passado, pelo que a sua política de punhos de renda e não me comprometas a recuperação de eleitores afasta-o de posicionamentos mais críticos sobre a direitização da sociedade.

Mas o pior de tudo acontece quando o PSD no governo vai cedendo a esse reacionarismo latente, abrindo caminho a que ele se manifeste através da própria política governativa. Por mais estranho que nos possa parecer, é o PSD que tem acolhido em grande medida a narrativa de que tudo é radicalismo em Portugal.

Todo este contexto que procurei sucintamente descrever cria um campo extremamente favorável ao ressurgimento do reacionarismo. Num país que necessita de mudanças disruptivas em muitos domínios da governação, este clima bafiento que se vai formando transforma-se num verdadeiro custo de contexto, acrescentando elementos a uma lista de custos de contexto que já é longa.

 

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