Como os leitores atentos deste espaço já se terão apercebido é mania minha, entre outras, a de passar os olhos pelos grandes títulos dos jornais nacionais para deles procurar retirar indicações sobre a extensão do desatino e do absurdo dos tempos que correm. Aí está a minha escolha de hoje (ver acima), limitado embora a sinais que não ultrapassam um grau aparentemente secundário ou relativamente irrelevante ao não parecerem decisivos para a evolução da nossa vida e felicidade coletiva. Sintetizando: Portugal vai deixar de permitir o acesso de estrangeiros não residentes ao SNS (assim se substitui o humanismo por uma oposição a controlos burocráticos que alimenta o populismo e dá azáfama aos políticos), Pedro Duarte declara-se “implacável” contra os manifestantes da Praça D. João I e condescende com as cargas policiais ocorridas (assim se reconfigura o presidente simpático e de livre pensamento num vice-presidente do PSD que governa o País sem grande adesão dos cidadãos), Pinto Luz iliba-se de chatices em relação a temas de que o acusavam quando era vice da autarquia de Cascais (assim se percebe que a lei não está ao serviço da comunidade mas serve preferencialmente para evitar aborrecimentos a alguns poderosos), Moedas atira-se a Passos para vir em defesa do Luís (assim se constata que a lealdade e a gratidão são peças em desuso nas elites que nos comandam), Álvaro Beleza propõe uma candidatura olímpica de Lisboa com a dimensão infraestrutural que António Costa Silva invente à sua maneira (assim se lamenta que a sociedade civil permaneça focada em brilhos sem sentido e desatenta ao centralismo e às formas adequadas de o limitar e combater) e Marisa Matias e seus muchachos radicalizados à direita invadem uma rádio de Coimbra em protesto e ameaça exemplar (assim se observa quanto é estúpida a atuação política dos seguidores de um Ventura que tanto vem fazendo para se moderar aos olhos dos votantes nacionais). E, repare-se bem, não se fala aqui de Orçamento de Estado, dos berros tonitruantes de Hugo Soares em defesa da sua dama (o Luís, a tática canhestra que montou para o seu partido e o poder pessoal que tanto gosta de exibir), dos indecorosos casos em torno de Luís Neves, das risíveis reformas de Ana Paula Martins, da prestação cada vez mais obscena de Fernando Alexandre, das compras de material militar sob a orientação de Nuno Melo, da alternativa (não) protagonizada por José Luís Carneiro, da presença constante de Ventura nos ecrãs televisivos, da nossa "Rainha de Inglaterra", do desligamento produtivo e da ganhuça especulativa da larga maioria do empresariado nacional e de tanto mais que se nos apresenta sem rei nem roque, incluindo esse tópico essencial do “Portugal na CEE”...


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