(Desde o período da Grande Recessão de 2007-2008 com seguimento breve para a crise das dívidas soberanas, a conflitualidade da política macroeconómica, designadamente entre as dimensões da política monetária e da política fiscal, tem estado ao rubro. Até à Grande Recessão, o primado da política monetária, associada à independência dos bancos centrais e à estabilidade dos preços como grande objetivo, impôs-se, apagando a política fiscal e as diferentes variantes do keynesianismo. No rescaldo da Grande Recessão e do período de taxas de juro nulas ou negativas, foi a política monetária que esmoreceu, fazendo ressurgir a política fiscal, dando um novo alento ao keynesianismo e abrindo caminho a intervenções não ortodoxas dos bancos centrais. O “whatever it takes” de Mario Draghi e as formas agressivas de “quantitative easing” que lhe sucederam mostrou exemplarmente um novo contexto que emergia, não esquecendo o olhar mais cético e interrogado sobre a política monetária mais restritiva, vulgo austeridade. Desde então e não foi assim há muito tempo, como se a história estivesse em irreversível aceleração, as coisas precipitaram-se e várias foram essas coisas, a começar por uma violenta alteração do contexto internacional, cada vez mais bélico no sentido militar do termo, mas também no sentido da guerra comercial alimentada pelas loucuras de Trump, cujo risco maior é lançar o mundo numa perigosa onda de protecionismo, com a velha tentação de tentar resolver os nossos problemas à custa do vizinho, que a keynesiana Joan Robinson batizou brilhantemente de políticas de “beggar-my-neighbour”. Tudo parece ter regressado à velha ordem da conflitualidade entre a política monetária e a política fiscal. Por um lado, o regresso do espectro da inflação não controlada faz ressurgir a exigência de política monetária mais restritiva. Por outro, as perspetivas da guerra, da segurança e da defesa voltam a pressionar os orçamentos públicos. O problema é que o contexto político e social se alterou e tido isso exige reconsideração. É sobre este último ponto que gostaria de fazer incidir o post de hoje.)
Nunca tive dúvidas acerca da necessidade de contextualizar sempre o debate macroeconómico. A conflitualidade entre a política monetária e a política fiscal não acontece numa torre de marfim, isolada dos contextos sociais e políticos e, por isso, sempre fui fiel à inspiração keynesiana, não dos principais seguidores de Keynes, mas dele próprio no seu tempo, atento ao mundo e procurando através da economia nele intervir.
Este é de novo o tempo pertinente para não esquecer essas raízes.
O que temos de novo no contexto de hoje? Três coisas essencialmente: i) o regresso da inflação; ii) a renovação dos problemas de “affordability” para uma faixa muito alargada de populações nos diferentes países, tocando em duas necessidades básicas – a da alimentação e a do alojamento (habitação); iii) democracias em risco de rotura, provocado por demónios de populismo nacionalista à solta, com multiplicação de inúmeros exemplos de cleptocracia autoritária, bullying internacional e disseminação de democracias iliberais, numa palavra de falsas democracias.
O estatuto dos bancos centrais interessa para esta questão, consoante a respetiva missão está como acontece com o BCE centrada na estabilidade dos preços, ou, como se regista no FED USA, essa missão é mais abrangente, integrando as dimensões do crescimento económico e do emprego/desemprego.
O facto da ressurgente inflação atingir especialmente itens como a habitação, a alimentação, a energia, os combustíveis e as comunicações, com impacto muito diferenciado consoante os estratos de rendimento, evidencia com clareza que as questões de affordability são também uma extensão dos problemas da desigualdade, que se tem intensificado nas sociedades ocidentais. Este campo é fértil para a intensificação do descontentamento de quem trabalha e não consegue, apesar disso, responder plenamente às suas necessidades, abrindo caminho aos cantos da sereia extremista de direita, que proliferam nas sociedades europeias, com matizes diversos, é certo, mas com o denominador comum de assalto às instituições democráticas.
Conforme outros períodos da história nos alertaram e ensinaram, entre os quais períodos vividos pelo próprio Keynes, dificilmente e por si só uma política monetária restritiva será suficiente para combater na raiz estes problemas. Obviamente que a situação orçamental da qual os países partem pesa fortemente na abordagem possível. Veja-se o caso da França, em que o governo pressionado por todos os lados, o social, o económico e o político e pela violência nas ruas, se apresenta com uma folga orçamental nula. Outros países estarão em melhores condições para combinar a condição necessária da política monetária mais restritiva, com manifestações mais imaginativas de política fiscal. O problema é que, no meu modesto entendimento, essa combinação criativa dos dois pilares da política macroeconómica exige uma base política de apoio, estando convicto de que a sua prática permitira encontrar uma base social de apoio. Mas esse apoio social e político não se consegue alcançar apenas por via do discurso, antes exige uma prática consequente. É o seu lançamento em terreno que criará as bases para a sua própria sustentação.
Até agora, o caso do Reino Unido merece alguma atenção, já que a partir do momento em Andy Burnham, líder do Labour, começou a tomar medidas neste sentido, as sondagens existentes registaram a subida do Labour à liderança das mesmas, suplantando finalmente a posição do Reform UK de Farage.
Bem sei que tudo isto é precário e que os eleitorados estão cada vez mais voláteis. Mas creio que são menos voláteis a resultados concretos do que a meras intenções discursivas e retóricas.
Moral da história, a situação será sempre mais difícil para forças políticas na oposição como o PS. É que no exterior da governação, a dimensão discursiva sobrepõe-se sempre e é penalizada quando os resultados são gerados pela governação e não pelo discurso, por mais imaginativo que ele seja.
Nota final: esta reflexão foi-me sugerida pela leitura do artigo de Isabela Weber no Financial Times.

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