segunda-feira, 12 de outubro de 2026

A ENTREVISTA DE AVILEZ A PASSOS

Foi na noite de ontem que Passos voltou a uma entrevista televisiva dedicada, após todos estes anos que já distam do seu abandono do cargo de primeiro-ministro em finais de 2015. Algo que é indiscutivelmente meritório pelo que revela de desapego democraticamente assumido e de uma gestão do silêncio (perante Costa e perante Montenegro) que não terá sido fácil (mesmo quando entrecortada por algumas declarações e apresentações públicas de sentido crítico). Menos compreensível, a meu ver, era a presença quase esfusiante de Maria João Avilez, uma profissional experiente e competente que os anos vêm transformando numa tal radical de Direita (não confundir com extrema-direita) que já não esconde as suas opções ideológicas e pessoalizadas e assim se converte numa ativista doutrinária ao serviço dos dogmatismos que nela ganham raízes – a alegria que a senhora exibia por ter diante de si o salvador do País e o expoente oracular de tudo quanto de infalível se pode hoje afirmar sobre o estado da Nação. Adiante...

 

E a entrevista? Bem, essa terá cumprido o objetivo de Passos, algo entre a prova de vida e a alimentação da ideia sebastiânica que gosta de encarnar. Com efeito, e abstraindo daqueles irritantes tiques de pedantismo e presunção que se lhe tornaram próprios à medida que foi perdendo cabelo, nada do que ele disse foi especialmente chocante ou errado, pelo contrário até encaixou razoavelmente numa leitura consensualizável da evolução e do presente da realidade nacional. Subsiste uma questão a que ele mostrou novamente não saber responder: a da ligação concreta entre o recorrente discurso da necessidade premente de reformas e o conhecimento efetivo de por onde pegar na matéria – talvez que os contributos do meu amigo Óscar Afonso o possam vir a auxiliar, embora tema que os notáveis esforços do diretor da FEP (que aplaudo!) redundem num desfecho demasiado abrangente e quantitativo que lamentavelmente os aproximem de uma caldeirada de reduzido alcance político-estratégico.

 

Neste quadro, Passos foi dizendo o expectável, sempre com Avilez a babar-se com as suas tiradas (nem sempre merecedoras de tão agradecido louvor). As quatro infografias abaixo dão conta do essencial (nos rodapés e nos esgares): o diagnóstico (entre o mergulho nacional na gestão corrente e a falta de uma visão mobilizadora), a tática política (com uma crítica/apelo ao PSD por ausência de uma estabilização em torno da maioria parlamentar de Direita), o posicionamento pessoal (bem com a vida e preocupado com o País, lá promete que ponderará “se vier a acontecer”) e a boca a fugir-lhe para a verdade (entre o é preciso fazer alguma coisa e o eu sabia o que fazer/oferecer, não omitindo um piscar de olho aos méritos do aliado desejado André Ventura). Muito disfarce, algum wishful thinking insuscetível de disfarçar e missão cumprida pelos mínimos olímpicos, portanto – mas, embora a política seja uma “caixinha de surpresas”, ninguém admite ao dia de hoje que Montenegro, Sarmento, Neves, Alexandre, Martins e Amaro asneirem a solo ou conjuntamente ao ponto de darem o ouro ao “bandido” que ontem esteve nos nossos ecrãs. 



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