O Brasil foi a votos. Para decidir, como bem escreveu o “El País”, entre um estadista desgastado e o filho de um ultra – uma escolha amaldiçoada à partida, pese embora a qualidade e a experiência política de Lula. Estou cada vez mais convencido de que o problema político brasileiro não reside na ideia de a chamada “Esquerda” (o que quer que isso seja lá para aqueles lados) não lograr renovar caras capazes de propostas audíveis pelos cidadãos mas antes nos erros acumulados e nunca verdadeiramente assumidos que foram cometidos pelo PT desde a vitória de Lula em 2002, por um lado, e pelo sinal dos tempos políticos – do individualismo ao horror ao social, do primado do bolso próprio à desvalorização do papel do Estado e da inerente tributação, do seguidismo fake e populista à recusa da reflexão e do pensamento – que nos envolve loucamente e de modo quase invariável pelo mundo fora, por outro.
Como quer que seja, o resultado correspondeu ao pior cenário de entre aqueles que as sondagens adiantavam: uma vitória de Flávio Bolsonaro (47% versus 45% do seu principal adversário) que o coloca em boas condições de vitória na segunda que disputará, dentro de três semanas, contra Lula. A fragmentação do país tem contornos de continuidade mas com claro agravamento das piores tendências de divisionismo sul-norte, rico-pobre ou educado-não educado: Lula só venceu no Nordeste e em três estados do Norte (ou seja, em 7 de 27 estados), conhecendo todavia quebras de algum significado e justificativas de um pessimismo em movimento; Flávio ganhou largo no Sul e no Centro-Oeste e, pior, também se destacou na região mais rica e populosa do país (incluindo os estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais).
As evoluções temporais, designadamente no que toca a comparações com a eleição de 2022, também são elucidativas de uma deriva direitista de brutal extensão (que, como refiro atrás, também já vai atingindo os bastiões tradicionais do PT). E, por fim, as outras eleições ocorridas (Senado Federal, Câmara dos Deputados, Governadores Estaduais) ainda vieram agravar a situação, com as forças de Direita (e o PL dos Bolsonaro, em particular) a ganhar peso em todas aquelas instâncias, nalguns casos um peso que prenuncia riscos sérios de involução democrática.
Saberemos o desenlace a 25 de outubro. Lula está em manifestos maus lençóis e qualquer análise objetiva no-lo diz (com a acrescida ajuda da estatística que estipula que, até agora, nunca um vencedor da primeira volta perdeu a segunda), mas foi com agrado que o ouvi na sua declaração de balanço falando em prorrogação, na sua inclinação para o “um para um”, na denúncia que fará da corrupção de largo e perigoso espetro de toda uma família e seus acólitos e do legado da sua passagem pelo poder no tempo da pandemia, na sua confiança em Alckmin e outros companheiros de percurso e na sua convicção sobre o seu lugar histórico na luta contra a pobreza no Brasil. E como houve mais de 33 milhões de abstencionistas, além de quase 6 milhões de votos brancos e nulos, talvez que alguma esperança possa subsistir...




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