Este mês que finda trouxe-me variados pequenos sinais de esperança, quer lá fora quer cá dentro. A alguns dos primeiros já aqui me referi em posts anteriores, os segundos vêm hoje ao caso à boleia de dois notáveis artigos do “Público” e do inimaginável bolor que predomina no comentariado político da nação que assim foi exemplarmente caraterizado e confrontado no escrito de Francisco Teixeira da Mota (“O povo é sereno. O Governo também?”): “(...) não podemos deixar de registar terem surgido comentadores, não muito habituais no espaço público, que, no meu entender, fazem jus à descrição que Vicente Jorge Silva, em tempos, fez de Silva Resende, então putativo candidato à Câmara Municipal de Lisboa: ‘Nem nas arcas mais arqueológicas e bafientas do salazarismo seria possível desencantar [comentadores] ideologicamente mais grotescos e boçais…’ Maravilhosa liberdade de expressão que nos permite ouvir as mais descerebradas opiniões.”
De facto, tanto por estes dias me fez pensar e recordar os tempos do chamado PREC em que uma juventude envolvida e empenhada ensaiou participar nos destinos de um país que até aí só lhe trazia medos e falta de um futuro. Outros preferem olhar para essa época pelos mesmos olhos focados no mesmo tipo de “excessos” com que hoje encaram as tendas nas praças de Lisboa e Porto ou com que hoje jocosamente ridicularizam as inconsequentes “assembleias populares”, sendo que uns sempre estiveram na sua superior barricada de habitantes da Linha onde reside quem conta (ou devia contar) enquanto outros já foram parte integrante e responsável dos movimentos populares e juvenis que agora renegam e quase insultam; podia fazer aqui apelo a inúmeros exemplos desta gente que faz do reacionarismo e da “superioridade moral” um modo de ser e estar, a começar no raivoso e insuportável Paulo Núncio (que Pacheco Pereira tão elegantemente desconstrói!), a continuar na incansável e omnipresente Helena Matos ou no ignorante e telegráfico Camilo Lourenço e a terminar em dois dos mais mediáticos que ainda por aí continuam a doutrinar (acham eles que impercetivelmente do alto do seu visionarismo) o povo inculto de que lhes coube em sorte ser um pedaço (quiçá bem distinto) – Maria João Avilez e José Manuel Fernandes brindaram-nos também, por estes dias, com duas crónicas inenarráveis na perspetiva que sustento, ambos tão acerrimamente críticos do radicalismo (afinal não exibido nas ruas pelos manifestantes), da maioria dos seus colegas da comunicação social (Avilez tendo ainda o desplante de escrever o seguinte: “Quando falo de ‘media’ não é – nunca poderia ser – de toda a media. Há exceções, há gente muito séria e muito boa. Sucede que infelizmente não é a que tenho visto ultimamente.”) e dos políticos que “covardemente desconhecem o Estado de Direito” quanto defensores objetivos (à la “Chega”) das bastonadas policiais de que, no entanto, o ministro da tutela jurou só ter visto acontecer uma única (apenas e só, acrescento eu). Pessoalmente, e não querendo dar mostras de ser de intrigas, tenho a impressão de que alguma coisa vai correr mal neste indescritível processo dominado pelo mau gosto e pela má-fé.




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