quarta-feira, 21 de outubro de 2026

A EXTREMA-DIREITA ADOCICA-SE

 

(A entrevista de Alice Weidel, líder da AfD alemã, ao Insider da revista The Economist é um documento de análise obrigatória para se compreender a evolução do discurso da extrema-direita à medida que vai ganhando peso eleitoral e, no caso alemão, uma presença territorial mais alargada e não limitada aos territórios da ex-RDA, ou Alemanha de Leste. De certo modo, o que se vai intuindo do discurso de Weidel já se tinha percebido nos posicionamentos de Le Pen em França e de Meloni em Itália, caso paradigmático desta última, porque foi o primeiro caso de presença direta na governação da extrema-direita e também nas instâncias comunitárias. Em Espanha, o VOX de Abascal não tem essa inteligência e por cá a trajetória de Ventura e do Chega é mais errática do que adocicada. Nas palavras de Weidel existe de forma clara um propósito de suavização da imagem e de conotação com os extremismos de direita, o que acontece em simultâneo com a reafirmação de questões-chave de posicionamento com relevo principal para a posição marcadamente anti-Ucrânia que a líder da AfD manifesta despudoradamente. O argumento pérfido é o de que a Ucrânia é “um país pequeno” (???) que já perdeu e que a manutenção da guerra com apoio da União só vai aumentar a insegurança alemão, Aqui o discurso não é de adocicamento ou de suavização, mas a continuidade de expressão de um egoísmo securitário que brada aos céus.)

A contradição do discurso de Weidel relativamente à ameaça russa é por demais evidente. Por um lado, considera que a continuidade do apoio europeu e alemão à Ucrânia tenderá a colocar o território alemão sob a mira russa. Por outro, desvaloriza totalmente as evidências de guerra híbrida levada a cabo por Putin, negando mesmo que o incidente de Leipzig tenha qualquer relação com a ofensiva russa.

A manifestação mais óbvia de adocicamento é a sua desesperada tentativa de demonstrar que a AfD não alberga extremistas de qualquer espécie, quando é conhecida a ligação existente entre personalidades da AfD e grupos nazis e etno-nacionalistas, declaradamente xenófobos. A intenção de suavização estende-se às questões da imigração, a propósito da qual Weidel dá uma no cravo e outra na ferradura, considerando que existe população que deve abandonar a Alemanha pelo facto dos seus países de origem já não estarem em guerra (Síria, por exemplo), mas defendendo por outro a permanência de profissionais.

Quer isto significar que a dimensão nacionalista e pró-russa irá persistir no discurso e na prática política, enquanto as dimensões do extremismo mais violento irão ser colocadas debaixo do tapete, com mescla de posições em relação ao surti imigratório. Trata-se de matéria a monitorizar sobretudo do ponto de vista de saber se essa será também a tendência em França e na Itália e proximamente em Espanha se o VOX vai ou não aproximar-se do poder na sequência das próximas eleições.

A entrevista pode ser visualizada aqui, bem como um pequeno texto de resumo da mesma aqui.

 

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