segunda-feira, 5 de outubro de 2026

DO BRASIL A FRANÇA, OS MESMOS DILEMAS

 


(A incapacidade da esquerda brasileira para gerar um novo protagonista que não o velho e desgastado Lula da Silva e a onda de direita populista que varre as Américas colocaram Flávio Bolsonaro à frente para uma segunda volta decisiva, de mau augúrio para o progressismo no Brasil. Os tempos correm de feição à direita mais extrema e o centro-esquerda não atina com a postura adequada para combater esse fenómeno e tem sido um deserto de novos rostos pensantes e com algum carisma popular, com alguns tiros no pé pelo meio. Em França, num título extremamente sugestivo, o Nouvel Observateur fala da “La primaire de la dernière chance”, algo que poderíamos traduzir pelas primárias da última oportunidade. Porque em França, o panorama é resumidamente este. A direita de Le Pen e do Rassemblement Nacional caminham para uma vitória presidencial e é a esquerda mais radical e também populista de Jean-Luc Mélenchon que se perfila para uma possível segunda volta. No centro-esquerda, mais propriamente no Partido Socialista e forças próximas, joga-se a cena das primárias entre o atual secretário-geral Olivier Faure e o deputado europeu Raphaël Glucksmann, apostado na refundação da esquerda democrática, com o objetivo ambicioso de gerar uma dinâmica eleitoral capaz de retirar Mélenchon de uma segunda volta. As expectativas são claramente baixas e este centro-esquerda, sem considerar o possível elã das primárias, parte com cerca de 10 a 12% do eleitorado, o que dá a ideia da montanha que o centro-esquerda tem à sua frente.)

O drama francês é que as hipóteses de vitória de Mélenchon numa segunda volta são ínfimas e o próprio líder da França Insubmissa não esconde que se prepara para querer ser o porta-voz de uma oposição futura, com o libelo de luta contra o fascismo no poder, reduzindo o PS a escombros. Esta antecipação é um pouco grosseira e ignora uma questão fundamental. Le Pen não é uma líder estática, assim como Meloni não o foi em Itália. É expectável, por isso, que uma possível vitória nas Presidenciais leve a líder do RN a mudanças de postura e de posicionamentos que coloquem Mélenchon em desvio de rota, a posicionar-se perante um alvo que vai mudar muito provavelmente de dimensões a combater.

Pelo que se vai conhecendo do dealbar das primárias, o confronto Faure-Glucksmann precisaria de um qualquer Viagra político para entusiasmar as hostes e projetar-se para uma segunda volta de desespero. O que não está a acontecer. O que existe é uma certa nostalgia do passado das maiorias presidenciais de Mitterrand e Hollande, que assentaram de facto em grandes “rassemblements” do centro-esquerda e que os levaram ao poder. A refundação da esquerda democrática que Glucksmann acena para justificar a sua entrada em cena e gerar esperança no eleitorado não é mais do que uma ideia. No seio de um Estado Social que é dos mais avançados na Europa, a França debate-se com problemas de falsa abundância e sérias desigualdades, campo de invenção para essa refundação da esquerda democrática que tarda em concretizar-se face à onda instalada de direita nacionalista e populista.

O que há para construir no Brasil e em França não é seguramente o mesmo e o centro-esquerda tem que compreender isso mesmo. Como diria Fernando Henrique Cardoso é na avaliação concreta dessas situações concretas que as refundações deverão construir-se. Caso contrário, preparem-se para a hibernação, que o tempo do afastamento pode ser longo.

Entretanto, acossado por uma coligação sem futuro com as forças regionalistas e nacionalistas, Sánchez deitou a toalha ao chão e convocou eleições gerais para 29 de novembro. O último dos moicanos teve de ir a votos.

 

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