(Relativamente à situação económica e tecnológica da Europa como um todo a China deixou de ser o elefante na sala para se transformar, confundindo-se, com a própria morfologia da sala. É com a sua presença que temos de viver. Também compreendemos que, no seio da incomodidade instalada, a Alemanha está no vermelho, pois a ameaça chinesa não veio sozinha, juntou-se ao quebra-cabeças da dependência energética alemã face ao gás natural da Rússia e, assim, os governos da CDU e os parceiros de coligação depararam-se na prática com dois elefantes da sala, adulterando a convivência quotidiana. Se para a dependência energética a convergência dos interesses da União Europeia e da Alemanha conseguiu, apesar de todas as contradições ainda observáveis, tendeu a facilitar, não a resolvendo totalmente, a abordagem ao problema alemão, no caso da ameaça chinesa é conhecido que o governo alemão adiou o mais possível o alinhamento com os alertas desesperados de Ursula vom der Leyen quanto à insustentabilidade do défice comercial externo com a China. Não só a relevância do mercado chinês para algumas indústrias exportadoras alemãs era notória, como a integração tecnológica da economia alemã com o paradoxo da parceria-ameaça com a emergência tecnológica da China aconselhava essa posição de alguma calma nos ímpetos protecionistas. Mas no contexto político alemão atual, com a extrema-direita nacionalista a morder os calcanhares do governo de Merz, a sedução do protecionismo é praticamente impossível de conter. Isso explica que, finalmente, nos últimos dias, Merz tenha saído da toca e, numa carta conjunta com Macron dirigida à presidente da Comissão Europeia, tenha pedido com urgência medidas comerciais mais duras e novos instrumentos para fechar o mercado único europeu à invasão chinesa. Ou seja, sem papas na língua, o apelo ao protecionismo para conter, senão mitigar, a ameaça chinesa e o crescimento do já insustentável défice comecial.)
A carta de Merz e Macron resvala para o melodramático, invocando que em setores como a indústria farmacêutica, o aeroespacial, o automóvel, as máquinas ferramentas e as indústrias químicas estamos perante um choque de grandes proporções que atinge o coração do modelo industrial europeu, projetando a partir dos impactos dessas ameaças uma forte pressão sobre o estado social europeu. É um pouco espantoso que o problema só agora a caminhar para o fim de 2026 tenha sido objeto de consideração política ao mais alto nível, como se o diagnóstico não tivesse sido já feito há já algum tempo e novamente realçado pelo relatório Draghi, sobre o qual Merz e Macron não se pronunciaram efusivamente. Claro que o apelo continua a bater na tecla das práticas comerciais injustas e distorções da concorrência promovidas pela China para enquadrar o combate à ameaça chinesa, não focando devidamente o avanço tecnológico que a China já adquiriu em algumas dessas frentes, o que suscita a complexa decisão de escolha de domínios em que seja mais fácil recuperar essa inferioridade europeia. Não esquecer, entretanto, que pelo menos no que respeita a França, os défices orçamentais persistentes em que o país está mergulhado vão dificultar a resposta a esses problemas, ao mesmo tempo que se procura dar resposta à insatisfação social que grassa pela sociedade francesa apesar de se tratar de um dos estados sociais mais avançados (e rígidos também) da União.
Resumindo, a preocupação do duplo MM, Merz e Macron, vem tarde e sobretudo emerge num momento muito complicado a nível interno dos dois países, que tenderá a dificultar, e muito, a sua entrega a soluções mais europeias.
O problema é a mudança de estádio de evolução da ameaça chinesa. Uma coisa era o alcance das importações chineses estar objetivamente a contribuir para a norma de consumo operária e de classe média mais baixa, oferecendo-lhes condições de consumo que as indústrias transformadoras nacionais alemã e francesa já não conseguiam proporcionar. Outra coisa bem diferente é quando essa ameaça chinesa se incorpora em toda a estratégia tecnológica desses países, oferecendo equipamentos acabados a mais baixo preço e podendo fornecer simultaneamente produtos intermédios a preços também competitivos para produzir internamente esses produtos. É um estádio de evolução totalmente distinto, com exigências de complexidade de política industrial, para a qual a União está longe de estar preparada, sobretudo depois dos seus diretórios mais liberais terem proibido praticamente a designação de política industrial durante largo tempo.
Amanhem-se e compreendam que proclamar a aflição de “aqui d´el rey” já não é suficiente.


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