sábado, 3 de outubro de 2026

POR MANCHESTER

 

O ambiente que se vive nas ruas e espaços públicos ingleses tem, por estes dias, duas dominantes que seguidamente explicito.



Uma tem a ver com o grau de crença e convicção com que os cidadãos britânicos encaram a chegada de Andy Burnham ao poder no seu país (de forma bem mais estrategicamente preparada do que terá parecido daqui de longe), ele que, enquanto político com discurso consolidado e obra feita na Greater Manchester, veio (no landmark speech que proferiu na Conferência Anual do Labour que se desenrola neste fim de semana em Liverpool) criticar os inúmeros erros acumulados de um passado neoliberal de 40 anos (designadamente: privatizações, desregulação, desindustrialização, austeridade e Brexit), prometer importantes mudanças de fundo (especialmente em sedes caras a uma Esquerda descaraterizada desde Blair, como sejam as reformas no sistema eleitoral ou outra abordagem da questão das pensões da segurança social) e renovar apelos  à esperança, à devolution e até a uma eventual hipótese de reversão do Brexit (cada vez mais mal visto em termos sociais e económicos) através de um referendo e de uma renegociação viabilizadores de um regresso (Rejoin) do Reino Unido à União Europeia – e a verdade é que, de modo meramente simbólico ou eventualmente não, o Number 10 North (unidade governamental representativamente desconcentrada e onde Burnham já passa a maioria das suas Sextas-Feiras, o que também lhe permite manter a boa tradição de acompanhar in loco o seu Everton) já está em funcionamento e acelerada instalação no centro da cidade de Manchester (Heron House).



A segunda é suscitada pelo escândalo que emergiu em torno de uma batota reiterada por parte do Manchester City (certamente o clube mais vencedor do país na década mais recente e, obviamente também, um dos grandes investidores internacionais – mais de 500 milhões de euros em contratações para esta época!), cujos efeitos são ainda inimagináveis mas podem ir até pontos brutais (e indesejáveis?) de rotura na Premier League e no futebol europeu em geral. Um aspeto positivo de todo este imbróglio decorre do que o mesmo arrasta em termos de questionamento do quase exclusivo poder do money above all (ademais de proveniências nem sempre muito credíveis, entre petrodólares, corrupção, lavagem de dinheiro e autoritarismos políticos indecorosos) que se apoderou do desporto-rei e que já começou a abalar inapelavelmente os seus alicerces fundadores; embora seja duvidoso que daqui venha a surgir algum 25 de abril capaz de repor o regresso de uma sanidade de comportamentos e de essências éticas de posicionamento...

 

Concluo: não sei se foi impressão minha, quiçá proveniente do estado de alma positivo que esta deslocação em mim provocou em virtude dos impactos da mudança de ares, de um aproveitamento culturalmente útil dos tempos livres e de contactos académicos interessantes e estimulantes (de Philip McCann a Raquel Ortega-Argilés ou ao nosso Nuno Pinto, um nome já consolidado no domínio do Planeamento Urbano). Andei ainda, e digo-o apenas para aguçar a inveja e a memória do meu parceiro de blogue, pelo Edifício que homenageia um dos grandes da Universidade local que foi Prémio Nobel pelos seus trabalhos na área da Economia do Desenvolvimento e sobre quem ambos ensinamos alguns tópicos ao alunos que fomos tendo na FEP.


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