(Muita gente se recorda, e torceu então o nariz por esse facto, do modo como Kevin Warsh chegou a chairman do FED USA, com o estatuto de enviado especial de Trump para tratar do assunto. Ao mesmo tempo, era também conhecida a odiosa perseguição que Trump moveu a Lisa D. Cook membro do Conselho de Governadores do mesmo banco central, perseguição que tudo indica os órgãos judiciais americanos competentes acabaram por travar, pelo menos até ao momento. Warsh, que não é destituído de inteligência, tudo tem feito para ocultar essa dependência original, assumindo uma mais que estranha parcimónia de comunicação, que muitos entenderam como uma tentativa de responder em simultâneo aos compromissos a que está obrigado pela sua função de Chairman e de não irritar o seu Amo e Senhor inicial. Em post anterior, redigido a propósito do Nobel de Economia deste ano, atribuído e a Michael Woodford e Robert Hall, tentei mostrar que Warsh está errado em querer ocultar-se numa parcimónia comunicacional se essa poupança de palavras significar abdicar de expressar com clareza a chamada forward guidance do banco central, ou seja, de ser rigoroso quanto ao que realmente os agentes económicos podem contar em termos de intervenção futura do FED.)
Informação mais recente, conhecida a propósito das reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial realizadas em Bangkok na Tailândia, evidencia que Warsh labora no mesmo erro, sendo agora inclusivamente mais claro saber por que o faz, e isso está indissociavelmente ligado às eleições intercalares americanas e à necessidade de não comprometer a narrativa de Trump quanto à economia americana, tudo vai bem e a inflação é uma construção falsa da realidade.
Mas o que disse então Warsh na sua alocução perante a conferência anual do FMI?
Respondendo à esperada questão de saber o que é que o FED fará no futuro, Warsh disse algo do tipo: “Não avalio antecipadamente as reuniões (do Conselho de Governadores). Não acredito em dizer agora o que posso fazer nas reuniões que temos programadas para este ano. É um novo capítulo no FED e JÁ NÃO ESTAMOS MAIS NESSE NEGÓCIO.”
O que Warsh quis realmente dizer quando deixou cair a máxima de que o FED já não nesse negócio foi o de transmitir a ideia de que o banco central abdicou de transmitir explicitamente as orientações de forward guidance. Ao expressá-lo de forma tão efusiva e coloquial, Warsh comunicou de facto que o FED abdicou do que contribuiu para a sua credibilidade junto dos agentes económicos e dos mercados e que tornou os seus objetivos de inflação credíveis. E fê-lo para espanto de todos no coração de uma inflação que não está controlada. Sem surpresa, os rendimentos (yields) dos títulos do Tesouro a 10 anos desde julho passado, compatível com o que os mercados pensam quando não se sabe os compromissos a que o banco central aceitou submeter-se. A afirmação de Warsh em Bangkok não fez mais do que precipitar ainda mais essa indeterminação.
Parece um jogo de loucos. Mas poderão dizer alguns que Warsh não acredita na consistência do pensamento sobre a forward guidance que os Nobel de Economia deste ano defendem e que, tal como outros departamentos da administração Trump, encontrará sempre um intelectual submisso para justificar tão estranha abdicação.
Estão enganados, redondamente. Warsh é bem mais prosaico e pragmático. Não se pronunciando sobre a forward guidance, o que Warsh pretende na prática é não influenciar o ambiente económico em que as intercalares de novembro próximo irão ocorrer, não desagradando ao seu Amo e Senhor. Imaginem que, seguindo o pensamento dos restantes Governadores, Warsh expressava a orientação de que a subida das taxas de juro de referência iria continuar, porque a inflação não parece controlada. Isso significaria dizer que o ambiente económico americano tem a inflação à perna. Ora isso contrariaria a narrativa de Trump e mostraria o carácter patético do acordo sobre o gasóleo com Putin.
Tudo isto é demasiado estranho, quando na mesma alocução Warsh fez referência ao significativo aumento da procura agregada na economia americana, determinado pela Mega despesa de investimento em inteligência artificial.
Em resumo, como lucidamente Marcos Nunes o sublinha, Warsh não vai dizer aos mercados se vai ou não aumentar as taxas de juro de referência, não dirá o que é que o pode levar a aumentar mais essas taxas e não se comprometerá sobre qual é o significado que atribui à estabilidade de preços.
E lá se vai a credibilidade do banco central, que não se define por decreto, mas antes pela consistência das suas decisões, reunião após reunião de Governadores.
Mas o que vale isso face à necessidade absoluta de evitar um descalabro eleitoral?
Nada, absolutamente nada, o que diz bem sobre o que toda esta gente afinal é e como se apresenta.

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